Mao: a história desconhecida

Jung Chang e Jon Halliday · Capítulo 32 de 69

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Mao: a história desconhecida

30. A China conquistada

 

(1946-49; 52-55 anos)

 

A arma mais terrível de Mao era a impiedade. Em 1948, quando avançou sobre Changchun, na Manchúria, e um ataque direto não conseguiu tomá-la, foi dada uma ordem para obrigá-la a render-se pela fome. As palavras exatas usadas pelo comandante de Mao no local, Lin Biao, foram: “Façam de Changchun uma cidade de morte”.

O general Cheng Tung-kuo, que comandava a defesa da cidade, era um herói da guerra contra o Japão e se recusou a capitular. Como só havia alimentos suficientes para os 500 mil civis até o fim de julho, ele tentou evacuá-los.

A resposta de Lin Biao, endossada por Mao foi: “Proibir rigorosamente que os civis deixem a cidade”. Os comunistas deixaram ir embora quem tinha armas ou munição, a fim de estimular os soldados nacionalistas a desertar, mas bloquearam especificamente os civis. O cálculo de Mao era que o general Cheng era “um sujeito legal”, como o descreveu a Lin Biao, e poderia ser pressionado a render-se diante da morte em massa de civis. Embora fosse totalmente desprovido de compaixão, Mao sabia como manipulá-la nos outros. Mas Cheng, embora dilacerado, decidiu resistir até o fim.

Três meses depois do cerco total da cidade, Lin Biao informou a Mao:

O bloqueio [...] produziu resultados notáveis e causou grande fome na cidade [...] Os habitantes civis estão

vivendo principalmente de folhas de árvores e capim, e muitos morreram de inanição [...] Nossa principal

política tem sido proibir a saída [...] Na linha de frente, colocamos uma sentinela a cada cinquenta metros,

mais arames e fossos, e bloqueamos todas as brechas [...] Aqueles que saíram, persuadimos [sic] a voltar [...]

Quando a fome ficou cada vez pior, gente faminta [...] saiu em bandos; depois que os forçamos a voltar, eles

foram empurrados para a terra de ninguém [...] Muitos morreram de fome ali. Somente [em um lugar], houve

cerca de 2 mil mortes [...]

 

Essa política era tão brutal que os soldados se recusaram a executá-la. Lin Biao contou a Mao:

As pessoas famintas ajoelhavam em massa diante de nossos soldados, implorando permissão para ir embora.

Alguns punham seus bebês no chão, diante das tropas, e voltavam, outros se enforcaram nos postos de

sentinela. As sentinelas não conseguiam suportar a visão da miséria. Alguns se ajoelharam com os famintos e

choraram com eles [...] outros liberaram refugiados secretamente. Depois que corrigimos isso, descobrimos

outra tendência. Soldados batiam, abusavam dos refugiados e os amarravam [para empurrá-los de volta] e

chegaram ao ponto de abrir fogo sobre eles, causando mortes.

 

Até o empedernido Lin recomendou a Mao a liberação dos refugiados. Não recebeu resposta. Familiarizado com a tática de Mao de vetar pelo silêncio, ele assumiu a responsabilidade de emitir uma ordem em 11 de setembro: “Libertar os refugiados de Changchun [...] de imediato”. Mas a ordem não foi executada, o que só pode significar que Mao a revogou. As únicas pessoas com permissão para sair eram aquelas que possuíam alguma coisa útil para os comunistas, o que, em geral, significava que eram relativamente ricas. Uma sobrevivente relembrou que os soldados comunistas “andavam para cima e para baixo anunciando: ‘Quem tiver uma arma de fogo, munição, uma câmera — entreguem e preencheremos uma autorização para irem embora’”. Os desertores nacionalistas e suas famílias ganhavam tratamento preferencial. A família dessa sobrevivente conseguiu sair em 16 de setembro graças ao fato de seu marido ser médico e, portanto, útil para os comunistas.

Depois de meados de setembro, o prefeito de Changchun registrou um aumento enorme nas mortes, quando as folhas das árvores, último alimento, começaram a cair. Ao final de cinco meses de cerco, a população civil caiu de meio milhão para 170 mil habitantes. O número de mortos foi maior do que a mais alta estimativa do massacre

perpetrado pelos japoneses em Nanquim, em 1937.a

Um veterano comunista do Exército sitiante descreveu como ele e seus camaradas se sentiram:

Quando soubemos, do lado de fora da cidade, que tanta gente havia morrido de fome, não ficamos muito

chocados. Já estávamos acostumados com pilhas de cadáveres e nossos corações estavam endurecidos.

Éramos indiferentes. Mas, quando entramos na cidade e vimos como era a coisa, ficamos devastados. Muitos

de nós choraram. Muitos disseram: deveríamos estar lutando pelos pobres, mas, de todos esses mortos aqui,

quantos são os ricos? Quem são os nacionalistas? Não são todos gente pobre?

 

A notícia dessa atrocidade medonha foi suprimida. Os poucos habitantes que puderam sair tinham quatro “regras de refugiados” estampadas em seus passes, uma das quais era “não espalhar rumores” — ou seja, não falar. O modelo de Changchun, baseado na morte de fome de civis para forçar as tropas defensoras a se render, foi usado em “um bom número de cidades”, de acordo com o general comunista Su Yu, que, compreensivelmente, não foi mais específico.

 

Os civis que viviam nos territórios dominados pelos comunistas também eram explorados de forma implacável. A maioria dos homens em idade de trabalhar era convocada para seu exército em expansão ou para o trabalho duro e, com frequência, perigoso no front. Este último envolvia um grande número de homens. Na Manchúria, os comunistas recrutaram 1,6 milhão de trabalhadores, cerca de dois para cada soldado. Na campanha de Pequim-Tianjin, esse número chegou a 1,5 milhão, e na campanha de Huai-Hai, a 5,43 milhões. Essa gigantesca corveia executava numerosas tarefas na linha de frente para as quais os nacionalistas usavam tropas regulares, tais como desmontar fortificações e transportar munições e feridos.

Às mulheres cabia a maior parte do trabalho agrícola, ao lado das crianças e dos homens incapacitados para a frente de batalha. Elas também tinham de cuidar dos feridos, remendar uniformes, confeccionar incontáveis sapatos para as Forças Armadas e cozinhar para o gigantesco exército de soldados e trabalhadores. Cada família tinha de entregar uma quantidade designada de alimentos — que chegou a assombrosos 225 milhões de quilos de grãos só na campanha de Huai-Hai. Além de alimentar os soldados comunistas, a comida era usada também na guerra psicológica para instigar as tropas nacionalistas a desertar.

Os nacionalistas enfrentavam escassez de alimentos constantemente, pois dependiam demais de suprimentos trazidos por trem e esporádicos socorros aéreos. Um veterano nacionalista relembrou como centenas de milhares de homens ficaram em um bolsão, morrendo de fome e congelando numa temperatura de dez graus negativos. Alguns soldados brigavam — e às vezes matavam uns aos outros — para conseguir a comida jogada de aviões. Mais adiante, casca de árvore passou a ser “uma boa refeição” e os soldados começaram a comer cintos e solas de sapatos. O veterano lembrou de ter desenterrado um rato morto: “Delícia! Era carne”. No final, disse ele, nem era necessário que os comunistas jogassem bombas: “Numa área não maior que seu traseiro, tudo que era preciso fazer era simplesmente jogar pedras nos 300 mil fantasmas famintos e eles estavam acabados”. Alguns se passaram para o lado dos comunistas depois de ser bombardeados por alto-falantes que anunciavam: “Ei, Chiang Kai-shek, temos panquecas aqui, venham para cá comer”. “Nenhuma política era mais eficaz do que a comida”, observou o veterano. “Todos sabiam que porco ensopado era melhor que sola de sapato.”

Além de sofrerem as requisições dos comunistas e serem convocados, muitos camponeses também perdiam suas casas, derrubadas para virar lenha de cozinha e material para construir pontes. Todo o território comunista foi transformado numa gigantesca máquina de guerra que abrangia todos os aspectos da vida pessoal de cada um. A população inteira foi obrigada a viver e trabalhar dando o máximo, noite e dia, para a guerra e, amiúde, no auge dela. Mao chamava isso de “Guerra do Povo”.

Mas “o povo” não oferecia espontaneamente esse tipo de apoio exaustivo, muito menos com o fervor que a mitologia comunista proclama. Somente o terror intenso coagia as pessoas a fornecer os serviços para a guerra “por um longo tempo sem ficar cansado”, nas palavras de Mao. O processo ocorreu sob o título enganador de “reforma agrária”.

 

Durante a guerra contra o Japão, os comunistas haviam suspendido a política de confisco e redistribuição de terras, substituída pela redução do valor dos arrendamentos. Quando a guerra contra Chiang começou para valer, eles voltaram à política radical anterior. Mas a redistribuição da terra não era o aspecto principal da reforma agrária de Mao. A parte que realmente importava era uma prática chamada dou di-zhu, “luta contra os proprietários”, o que significava, na realidade, violência contra os relativamente mais ricos. (Na China, ao contrário da Rússia pré-comunista, havia muito poucos latifundiários.) Quando as pessoas lembram da reforma agrária, é essa prática que predomina em suas memórias.

A violência costumava acontecer em comícios, aos quais todos os moradores da aldeia tinham de comparecer. Aqueles designados como alvos eram obrigados a ficar diante da multidão e as pessoas eram induzidas psicologicamente e organizadas para ir à frente e despejar suas queixas sobre eles. As multidões eram levadas a gritar slogans enquanto erguiam os punhos e brandiam ferramentas agrícolas. Os militantes e capangas da aldeia infligiam então castigos físicos, que variavam de obrigar as vítimas a se ajoelhar sobre telhas quebradas a pendurá-las pelos pulsos ou pés, ou espancá-las, às vezes até a morte, muitas vezes com implementos agrícolas. E, com frequência, ocorriam torturas ainda mais horríveis.

O partido orientava seus quadros a não tentar deter os atos de violência, pois os considerava manifestações legítimas de vingança dos oprimidos. Os quadros deveriam “deixar o povo fazer o que quiser” com aqueles que o haviam oprimido e explorado. Na verdade, o partido queria estimular a violência, e, onde ela não ocorria, os quadros locais eram acusados de obstruir o movimento de reforma agrária e imediatamente substituídos.

Entre março e junho de 1947, Kang Sheng, o especialista em terror de Mao, criou um modelo. Os quadros do partido em todas as outras áreas vermelhas foram instruídos a copiar seus métodos. O fato de a reforma agrária ter sido confiada a um homem que não sabia nada de assuntos agrários, mas sabia tudo sobre terror, deixa clara a natureza do programa. Kang foi a uma aldeia do noroeste de Shanxi chamada Haojiapo. Depois do primeiro comício, ele censurou os quadros e ativistas locais por serem “polidos demais”. “Deve haver maus-tratos”, disse ele. “Eduquem os camponeses a [...] não ter misericórdia [...] Haverá mortes. Mas não tenhamos medo de mortes.”

Kang ordenou aos funcionários e militantes que tratassem famílias inteiras como alvos, inclusive as crianças. Ele assistia sorrindo quando crianças da aldeia espancavam “pequenos proprietários”, como eram chamados os filhos das famílias condenáveis. Estes podiam ser praticamente qualquer um, pois Kang ampliou o critério a fim de incriminar pessoas para muito além do original “proprietários” e “kulaks” — assim podia criar vítimas onde não havia donos de terras ricos (isso aconteceu sobretudo nas áreas que estavam ocupadas pelos comunistas fazia anos, onde os relativamente ricos tinham empobrecido). Kang inventou uma nova — e muito vaga — medida: “quanto as massas gostam deles”. Isso significava que qualquer um podia se tornar alvo, e aqueles que haviam provocado sentimentos de indignação ou ciúme em seus conterrâneos por comportamentos do tipo “casos ilícitos” se tornaram as vítimas preferenciais.

Maus-tratos físicos estarrecedores varreram as áreas comunistas. Uma funcionária descreveu-nos um comício em que “quatro pessoas estavam penduradas em fila, com os pulsos amarrados em cordas”, observadas por “todos os homens, mulheres, velhos, jovens e crianças” da aldeia. Havia uma “proprietária” pendurada em uma das cordas. “É muito doloroso pensar sobre isso”, disse-nos a testemunha ocular.

Na verdade, ela não tinha muitas terras; apenas ficara sem mão de obra e contratara um lavrador [...] Eles lhe

perguntaram onde escondera os grãos [...] eu sabia que ela não tinha grãos. Mas eles insistiram que tinha e

bateram nela [...] Sua blusa foi arrancada. Ela acabara de ter um filho e seu leite pingava. O bebê chorava e

engatinhava no chão, tentando lamber o leite. As pessoas baixaram a cabeça e não conseguiam olhar [...]

Muitos detestavam tudo aquilo, mas eram forçados a prestar atenção. Se fizessem objeções, o desastre se

abateria sobre eles também. Alguns quadros da aldeia eram verdadeiros bandidos. Os camponeses honestos

não ousavam ofendê-los.

 

Exibições públicas como essa causaram calafrios durante décadas naqueles que as testemunharam. Em muitos lugares, as pessoas foram obrigadas a observar coisas ainda mais terríveis. Em certa localidade, atravessaram um arame no nariz de um membro idoso da pequena nobreza cujo sobrenome era Niu, que significa “boi”, e seu filho foi forçado a puxá-lo pelo arame através da aldeia, enquanto o sangue lhe escorria pelo rosto. Em outros locais, “famílias inteiras, do mais jovem ao mais velho, foram mortas. Bebês ainda de peito foram arrebatados e desmembrados ou simplesmente jogados num poço”. Algumas cenas medonhas ocorreram nas barbas de Mao, no condado de Jianxian, na região de Yenan, onde ele esteve entre 16 de agosto e 21 de novembro de 1947, fazendo turismo. Os relatórios enviados a Mao sobre esse condado incluíam descrições de como uma pessoa foi afogada em um tanque de água salgada e outra foi morta com óleo fervente jogado sobre sua cabeça. Um determinado lugar tinha mesmo uma regra segundo a qual “quem não for ativo na denúncia de proprietários será apedrejado até a morte”.

Mao viu cenas violentas com os próprios olhos. Seus guarda-costas contaram que ele, disfarçado, foi observar um comício em Yangjiagou, a aldeia em que estava no final de 1947, onde coisas terríveis aconteceram. Depois, conversou com os guardas sobre as várias formas de tortura e sobre o fato de que crianças haviam sido severamente espancadas.

Conforme deixaram claro os relatórios, “todos estão aterrorizados”.b Mao alcançara seu objetivo.

 

No início de 1948, os comunistas já controlavam cerca de 160 milhões de pessoas. Os camponeses constituíam a maioria esmagadora e estavam todos aterrorizados de forma traumática. O partido determinara que 10% da população se enquadrava na classificação de famílias de “proprietários” e “kulaks”. Isso significava que, somente nessas categorias (e outras foram criadas pelos novos critérios de Kang Sheng), pelo menos 16 milhões de pessoas estavam sujeitas a algum grau de maus-tratos físicos e humilhação. Centenas de milhares, possivelmente até 1 milhão, foram mortos ou levados ao suicídio.

Em Yenan, no período 1942-43, Mao montara um instrumento eficiente aterrorizando sua base de poder — os membros do Partido Comunista. Agora ele aterrorizava sua base econômica e bucha de canhão — o campesinato —, a fim de obter uma submissão total e sem discussão. O resultado foi que os camponeses resistiram pouco às requisições de soldados, trabalhadores, alimentos e todo o resto que Mao queria para atingir suas metas.

Ele considerava esse processo de aterrorização indispensável para ganhar a guerra. Assim, quando estava preparando a última e decisiva campanha de Huai-Hai, mandou Kang Sheng à província de Shandong, que ficaria com a maior responsabilidade logística, para realizar uma segunda reforma agrária, no final de 1947, pois decidira que a primeira não fora suficientemente temível. Kang decretou torturas e execuções públicas hediondas numa escala tão grande que a organização do partido na província se revoltou. Houve um expurgo em massa. Uma medida da escala da violência pode ser deduzida do fato de que em uma pequena cidade, onde as relações haviam sido boas até então, 120 pessoas foram espancadas até a morte, algumas simplesmente apontadas como “simpatizantes” dos proprietários. Entre elas estavam dois meninos de sete anos de idade, que foram mortos por crianças do Corpo Infantil. Foi esse terror generalizado em Shandong que criou os alicerces para a vitória de Huai-Hai.

 

* * *

 

Na reforma agrária, as pessoas que implementaram a política de Mao eram quadros do partido, que também estavam sendo aterrorizados e brutalizados no processo. Isso fazia parte do projeto de Mao. A maioria dos membros novos do PCC era mandada às aldeias para ser “educada” nos métodos da reforma agrária. Uma pessoa que Mao fez questão de endurecer foi seu filho An-ying, que estava com 25 anos e que ele colocou sob a tutela de Kang Sheng em 1947-48, disfarçado de sobrinho dele. Menos de dez dias depois de chegar ao QG de Kang, An-ying já estava atormentado. Foi bombardeado com críticas e fizeram com que ele sentisse que suas ideias “cheiravam a direita”. Não conseguia dormir à noite e estava em constante estado de autocrítica por seus “sentimentos pequeno-burgueses”. “Não me proletarizei”, escreveu em seu diário, que permanece secreto até hoje. “Meu caráter é tão podre.” Ele se sentia “extremamente cheio de dor, tão cheio de dor que chorei”.

An-ying ficou chocado com a brutalidade pública em massa, algo que não havia experimentado na Rússia de Stálin. Era exatamente a isso que seu pai queria que ele se acostumasse e aprendesse a incitar. Após dois meses em companhia de Kang, escreveu ao pai (usando o jargão comunista) que “minha posição proletária está mais firme agora”. Mas manteve um sentimento de aversão que aflora fortemente das notas que escreveu sobre comícios de massa que outras pessoas haviam descrito para ele. Em um caso, 10 mil camponeses tinham sido levados para comícios que duraram quase uma semana. “Estava muito frio naquele dia”, escreveu An-ying. “Todos diziam: ‘Como está frio! Um bom número deve ter morrido congelado hoje. Que fizemos para merecer isso?’.” Ele demonstrou um desgosto palpável em relação aos comícios: “Depois de ensaios cuidadosos, no quinto dia as denúncias começaram [...] mandaram toda a massa erguer suas armas quando a palavra fosse dada e gritar várias vezes: ‘Matem, matem, matem’ [...] o lugar do comício estava um caos e acabou com oito pessoas sendo espancadas até a morte”. An-ying registrou também que o partido confiava com frequência nas piores pessoas para a reforma agrária: “Alguns dos militantes promovidos eram bandidos e escória, [antigos] soldados títeres e lacaios dos japoneses”. Essa gente compunha uma proporção considerável dos novos recrutas do partido nas áreas rurais.

 

Tal como An-ying, muitos membros que haviam entrado no partido durante a guerra sino-japonesa e que tendiam a ser idealistas ficaram chocados com as atrocidades; alguns questionaram o partido sobre isso. Uns poucos líderes também temiam que esse grau de violência poderia custar ao PCC sua chance de capturar o poder. Mao não estava preocupado. Ele sabia que seu poder não dependia da popularidade. Como havia feito em Yenan, deixou que o terror penetrasse fundo no coração de todos antes de suspendê-lo. Isso aconteceu no início de 1948, quando mandou circular relatórios com críticas às atrocidades, que fingiu estar ouvindo pela primeira vez.

Depois do terror de Yenan, Mao apresentara algumas desculpas impenitentes para acalmar quadros do partido. Agora, ele apontava um bode expiatório para a violência e a atrocidade. Em 6 de março, escreveu ao seu segundo em comando, Liu Shao-chi, informando-o que ele seria o escolhido: “Acho que muitos erros cometidos em todas as áreas são sobretudo [...] resultado de o órgão de liderança [...] não demarcar claramente o que era e o que não era permissível [...] Por favor, façam uma revisão crítica do comportamento de vocês”. De início, Liu resistiu, mas depois cedeu: “A maioria [dos erros] é culpa minha”, disse aos quadros superiores. “Somente depois que o presidente Mao fez a crítica sistemática [...] eles foram corrigidos.” A partir de então, foi Liu, e não Mao, que os funcionários do partido tenderam a culpar pela violência da reforma agrária. Para subir na carreira sob o comando de Mao, era preciso assumir a culpa no lugar dele.

Esse reconhecimento de “erros” foi mantido rigorosamente dentro do partido. O povo não sabia de nada, pois o partido continuava a ser uma organização secreta. Não houve desculpas públicas. O cálculo de Mao era que não precisava aplacar a gente comum porque ela não contava. Isso valia tanto para as áreas dominadas pelos comunistas como para as que estavam em mãos nacionalistas.

Embora as pessoas das áreas nacionalistas soubessem um bocado sobre a brutalidade da reforma agrária, quando mais não fosse por meio das centenas de milhares que escaparam, elas a atribuíam amiúde a excessos passageiros dos oprimidos. De qualquer modo, não tinham nada a fazer para deter o avanço de Mao e, sem nutrir grande afeição pelo regime existente, muitas vezes ofereciam a Mao o benefício da dúvida.

O capitão nacionalista Hsu Chen foi testemunha de algumas manifestações terroristas que o tornaram fortemente anticomunista. No início de 1948, quando chegou em casa, em Ningbo, perto de Xangai, descobriu que as pessoas não queriam escutar o que ele tinha a dizer e o consideraram um chato:

Muitos parentes e amigos vieram me ver [...] Conversei com todos os visitantes até minha língua secar e meus

lábios se partirem [...] Contei-lhes sobre a impiedade e os feitos bestiais dos bandidos comunistas [...] mas não

consegui despertá-los de seus sonhos e, ao contrário, provoquei-lhes aversão [...] Percebi que a maioria deles

pensava assim:

“Essas palavras são propaganda nacionalista. Como você pode acreditar nelas?”

“Numa guerra violenta como essa, esses são apenas meios transitórios.”

“Enfrentamos a ocupação japonesa, e sobrevivemos. Você não pode dizer que os comunistas são piores

que os japoneses.”

Pode-se dizer que essas opiniões representavam o modo de pensar nos escalões médios e baixos da

sociedade [...] As pessoas precisam sempre aprender por experiência própria [...]

 

As pessoas não queriam acreditar nas críticas e estavam indefesas contra a devoção cega a Mao. Esse fatalismo era reforçado pela desilusão com os nacionalistas, que também cometiam atrocidades, muitas vezes contra grupos mais visíveis aos habitantes urbanos, e em um meio social muito mais aberto do que nas regiões dominadas pelos comunistas — com opinião pública, uma imprensa muito mais livre e onde as pessoas podiam conversar, fofocar e reclamar. Os nacionalistas prenderam um grande número de estudantes e intelectuais, muitos dos quais foram torturados, e alguns, mortos. Um estudante nacionalista escreveu em abril de 1948 a Hu Shih, famoso líder intelectual pró-Chiang: “O governo não deve ser tão estúpido e tratar todos os estudantes como comunistas”. Quatro meses depois, escreveu de novo: “Agora eles estão sendo massacrados em grande número”. Embora os assassinatos nacionalistas fossem uma gota no oceano, em comparação com os de Mao, eles provocaram sentimentos fortes e algumas pessoas chegaram a pensar que os comunistas eram o menor de dois males.

Mas, por mais aversão que tivessem aos nacionalistas, somente um pequeno número de radicais abraçou o comunismo. Ainda em janeiro de 1949, quando os comunistas estavam à beira da vitória total, Mao dizia ao enviado de Stálin Anastas Mikoian que mesmo entre os trabalhadores de Xangai, que deveriam compor o núcleo da clientela comunista, os nacionalistas eram muito mais fortes. E mesmo até o fim, em Cantão, um foco de radicais nos anos 1920, o cônsul russo observou que não havia “praticamente nenhuma rede clandestina comunista [...] Portanto, as pessoas não saíram para saudar a chegada” do Exército comunista. No centro da China, Lin Biao disse aos russos em janeiro de 1950: “A população não está demonstrando grande alegria pela mudança no poder”. Não houve um único levante, urbano ou rural, a favor do PCC em toda a China, ao contrário do que aconteceu na Rússia, no Vietnã ou em Cuba durante suas revoluções. Houve defecções de tropas nacionalistas (em vez de rendição no campo de batalha), porém não foram motins de soldados rasos, mas iniciativas de altos comandantes, na sua maioria comunistas infiltrados que levaram suas tropas consigo.

 

Em 20 de abril de 1949, um exército comunista de 1,2 milhão de homens começou a atravessar o Yangtze. No dia 23, tomou Nanquim, a capital de Chiang, acabando, na prática, com 22 anos de regime nacionalista na China continental. Naquele dia, Chiang foi de avião para Xikou, sua terra ancestral. Sabendo que seria provavelmente sua última visita, passou boa parte do tempo ajoelhado junto ao túmulo da mãe, rezando em lágrimas. (Pouco depois, o vitorioso Mao emitiu uma ordem para proteger o túmulo, a casa da família de Chiang e o templo do clã.) Então, um barco o levou para Xangai e dali ele cruzou o estreito para a ilha de Taiwan.

Alguns meses depois, Mao pediu a Stálin aviões e submarinos pilotados por soviéticos para ajudar a tomar Taiwan em 1950, ou “até antes”, dizendo ao líder russo que o PCC tinha um grande número de agentes infiltrados que haviam “fugido” junto com Chiang. Mas Stálin não estava preparado para se arriscar num confronto direto com os Estados Unidos numa área de tanta visibilidade e tensão e Mao teve de engavetar seu plano,

permitindo que Chiang transformasse Taiwan numa fortaleza insular.c

Por mais que detestasse os comunistas, o Generalíssimo não executou uma política de terra arrasada quando fugiu. Ele levou a maior parte da aviação civil do país — e muitos tesouros artísticos —, mas só tentou transferir para Taiwan um pequeno número de indústrias, sobretudo fábricas da área eletrônica. Essa tentativa foi bloqueada por um alto funcionário nacionalista e praticamente todas as instalações industriais significativas foram preservadas e tomadas pelos comunistas, inclusive 68 fábricas de material bélico. Em termos industriais, Chiang causou danos muito menores em toda a China do que os russos apenas na Manchúria. Mao não herdou um deserto em 1949; na verdade, recebeu o legado de uma estrutura industrial relativamente intacta, ainda que pequena, não menos que mil fábricas e minas, bem como um Estado em funcionamento. Chiang não chegava nem perto da impiedade de Mao. Como um crítico de ambos os regimes observou, “o velho sr. Chiang não era como o velho sr. Mao. Talvez por isso Chiang tenha sido derrotado por Mao”.

 

Naquela primavera, Mao chegou aos arredores de Pequim em meio a pereiras floridas, vindo de Xibaipo, onde permanecera nos últimos doze meses. A partir do século XII, Pequim fora a capital da China durante muitas dinastias e ele havia decidido fazer dela sua capital. No coração da cidade, um enorme recinto imperial chamado Zhongnanhai, Lago Centro-Sul, com quedas-d’água, mansões e pavilhões, tornou-se a principal residência oficial e local de trabalho para ele e o restante de seus líderes, o equivalente do Kremlin, como os russos às vezes o chamavam.

Enquanto Zhongnanhai estava sendo preparado, Mao ficou vários meses em um lugar lindo dos arredores do lado oeste da cidade chamado Colinas Fragrantes. Os habitantes foram retirados e toda a montanha isolada para os líderes, a guarda pretoriana e cerca de 6 mil funcionários. Para preservar segredo, foi colocada na entrada uma placa com as palavras “Universidade do Trabalho”, mas isso atraiu tantos jovens desejosos de se matricular que foi necessário colocar outra, com uma explicação: a Universidade do Trabalho ainda não está pronta; consultem os jornais para as datas de matrícula.

Mao mudou-se para Zhongnanhai em setembro. Ali, e onde quer que pusesse os pés, o chão era varrido por detectores de minas russos — e soldados chineses que caminhavam ombro a ombro, como se fossem varredores de minas humanos. Foi instalado um sistema de segurança extraordinário, mas discreto, para o qual a senha era wai-song nei-

jin d — “Relaxado externamente, firme internamente”. O sistema era tão matreiro que até o ex-intérprete de Stálin, com ampla experiência em segurança, não conseguiu detectá-lo.

Não obstante, com toda essa segurança perfeita, na véspera de sua posse como líder supremo da China, um medo profundo espreitava nos recessos da mente de Mao. Uma amiga do passado, a esposa de Lo Fu, descreveu uma visita que fez a ele e madame Mao nessa época. Mao estava “bem-humorado [...] Quando perguntei sobre sua saúde, Jiang Qing disse que ele estava bem, exceto que tremia quando via estranhos. De início, não entendi [...] e disse: Mas ele parece bem hoje! O presidente Mao aparteou com um sorriso: Você é uma velha amiga, não um estranho”. Parece que Mao sabia que sua aterrorização havia produzido não somente conformismo em massa, mas também um bom número de candidatos a assassinos.

Em 1o de outubro de 1949, Mao apareceu de pé no alto do Portão de Tiananmen, a pouca distância de Zhongnanhai, em frente à Cidade Proibida, e fundou a República Popular da China (RPC). Foi sua primeira aparição pública diante de uma grande massa de centenas de milhares de pessoas. A multidão estava bem organizada e muito distante do portão. A partir de então, Mao subiria até lá em ocasiões especiais, prática que copiou da subida dos líderes soviéticos ao mausoléu de Lênin, que era muito mais baixo e menos grandioso. Naquela ocasião, pronunciou o único discurso que fez do portão em todo o seu reinado de 27 anos (nas outras ocasiões, apenas declamaria um ou dois slogans). Pigarreou a cada duas frases, mais como um locutor nervoso do que como um orador vibrante. Além disso, o conteúdo foi muito tedioso, consistindo principalmente numa lista de nomeações. Sua característica mais saliente foi o que ele não disse. Mao não apresentou nenhum programa para beneficiar “o povo” em cujo nome o regime fora instalado.

A multidão de mais de 100 mil pessoas gritou: “Viva o presidente Mao!”. Ele parecia excitado, acenou enquanto andava de uma ponta a outra do magnificente portão e gritou ocasionalmente ao microfone: “Viva o povo!”. Naquele dia, assumia o papel de governante absoluto de cerca de 550 milhões de pessoas.

 

a Até mesmo o cálculo oficial e atenuado do PCC para as mortes civis de fome em Changchun atingiu 120 mil.

b O terror e o extraordinário alto grau de matança foram registrados no momento exato em que aconteceram na província de Hebei por Jack Belden, um repórter americano extremamente simpático aos comunistas, que contou ao diplomata dos Estados Unidos John Melby sobre “o uso crescente do terror contra qualquer forma de oposição, e o extermínio de grandes seções [sic] da população”. Segundo Belden, os comunistas “criaram nos camponeses um terror e uma dissimulação que ele nunca vira em áreas comunistas”.

c Mas Stálin respondeu avidamente ao pedido de Mao para submeter os vastos e remotos desertos do noroeste e aniquilar um feroz exército muçulmano anticomunista que havia lá. Sem problemas, disse ele. Os cavaleiros muçulmanos “podem ser destruídos por artilharia com muita facilidade. Se quiser, podemos lhe dar quarenta aviões de caça que podem desbaratar [...] essa cavalaria bem depressa”. Um velho diplomata russo nos contou, com gestos e sons que imitavam uma metralhadora, que foi isso que a Força Aérea de Stálin fez, longe de olhares curiosos, no deserto de Gobi.

d Esse sistema levava os estrangeiros a pensar que a segurança era leve e disso muitos concluíam erradamente que o regime era popular e, portanto, não precisava de muita proteção. Uma reação não atípica foi a do jornalista francês que viu Chou En-lai dirigir pela praça Tiananmen com o premiê Nehru da Índia, em outubro de 1954: “Assassinar Chou En-lai [...] teria sido brincadeira de criança”, escreveu ele.