Mao: a história desconhecida
46. Um período de incertezas e reveses
(1962-65; 68-71 anos)
Nos anos posteriores a 1962, enquanto a economia da China se recuperava, Mao acalentava sua vingança. Liu Shao-chi, seu segundo em comando, em geral circunspecto e aparentemente servil, havia armado uma cilada e sido mais esperto do que ele na Conferência dos Sete Mil, em janeiro de 1962. Sob a pressão coletiva de quase todo o establishment chinês, Mao fora forçado a abandonar suas políticas letais. Mas ele não deixaria Liu ou quem quer que simpatizasse com Liu escapar impune dessa afronta.
Começou por abrir terreno para um grande expurgo a partir do momento em que a epidemia de fome abrandou. Impôs freios a medidas liberais, como deixar os camponeses arrendar um pouco de terra e a reabilitação de vítimas políticas, enquanto alimentava o culto de sua personalidade. Panegíricos de Mao dominaram cada vez mais os textos escolares, publicações, a mídia e todas as esferas que afetavam a mente das pessoas, de tal modo que, para onde quer que se olhasse, havia slogans em seu louvor, e sempre que se escutava uma canção era na linha daquela intitulada “Papai está perto, mamãe está perto, mas nenhum deles tão perto quanto o presidente Mao”. Ele tornava tudo mais politizado do que nunca, em um contexto no qual somente sua adulação tinha permissão para existir.
Começou com os romances, dizendo com sarcasmo para uma plateia do partido, em setembro de 1962: “Não há um monte de romances e publicações no momento? Usar romances para realizar atividades antipartidárias é uma grande invenção”. Depois, atacou todos os livros: “Quanto mais livros lemos, mais estúpidos ficamos”. E acrescentava: “Você pode ler um pouco, mas ler demais realmente o arruína”. Era uma declaração descaradamente cínica, pois ele mesmo lera muito e adorava a leitura. Suas camas eram feitas sob medida, de tamanho extragrande, com espaço suficiente para pilhas de livros (inclinadas de tal modo que não caíssem sobre ele), e seu hobby preferido era ler na cama. Mas ele queria que o povo chinês fosse ignorante. Ao seu círculo íntimo, disse que “precisamos da política de ‘manter o povo estúpido’”.
Na primavera de 1963, Mao voltou sua atenção para a ópera chinesa tradicional. Ao contrário do que acontecia no Ocidente, a ópera chinesa era um divertimento popular. Durante séculos, diferentes regiões haviam desenvolvido seus estilos próprios, apresentados em mercados de aldeias, bem como em teatros de cidades, dançados nas montanhas do norte em meio ao vento e ao pó e cantados sob a luz do luar e lamparinas de querosene nas ilhotas do sul, para plateias de pescadores em casas flutuantes. O próprio Mao era um fã e, de fato, um grande conhecedor de óperas regionais. Tinha uma coleção de mais de 2 mil cassetes e discos e era capaz de discutir com competência a interpretação de árias com cantores. O único momento em que deixava as pessoas o verem usando óculos era nas óperas. Também era um espectador que se envolvia muito e, certa vez, ficou tão emocionado que, além de soluçar e assoar o nariz ruidosamente, levantou-se de repente da cadeira e sua calça caiu, pois seu criado havia afrouxado o cinto para deixá-lo mais confortável. Tinha uma preferência particular por aquelas óperas que seu regime considerava “pornográficas”.
Sua paixão por essa forma de arte não o impediu de proibir um grande número de óperas assim que seu reinado começou. Mas, quando iniciou o novo expurgo, decidiu banir o antigo repertório in totto, a começar pelo gênero conhecido como “dramas de fantasmas”, nos quais os espíritos de vítimas mortas se vingavam daqueles que haviam causado suas mortes. Mao baniu o gênero em março de 1963: tendo sido o agente de dezenas de milhões de mortes, considerava esses vingadores do palco incomodamente próximos da realidade.
No final de 1963, acusou “todas as formas de arte — óperas, teatro, artes folclóricas [inclusive cantar baladas, contos tradicionais e histórias em quadrinhos], música, artes visuais, dança, cinema, poesia e literatura” de serem “feudais ou capitalistas” e “muito obscuras”. Até obras produzidas durante seu regime para louvar os comunistas foram condenadas como “ervas venenosas”. Mao ordenou que todos os artistas fossem mandados às aldeias para serem “seriamente reformados”. “Joguem cantores, poetas, dramaturgos e escritores fora das cidades”, disse em seu estilo tipicamente grosso, em fevereiro de 1964. “Levem todo o montão deles para as aldeias. Nada de comida para os que não forem.”
Monumentos antigos, sinais visíveis da longa civilização chinesa, também tombaram. Logo após tomar o poder, ele mandara derrubar indiscriminadamente muralhas de cidades e arcos comemorativos; no final da década da 1950, a vasta maioria desses monumentos já estava destruída. Agora, acrescentava à sua lista templos e túmulos antigos; em dezembro de 1964, queixou-se a um de seus secretários sobre a lentidão em cumprir sua ordem: “Somente umas poucas pilhas de ossos podres [ou seja, túmulos] foram abertos [...] Você trata os inimigos [isto é, os que resistiam] com muita leniência. Quanto aos templos, nenhum deles foi tocado”.
Mao propôs até a eliminação da horticultura: “Cultivar flores é uma ressaca da velha sociedade, um passatempo para a classe intelectual feudal, a classe burguesa e outros vagabundos”. “Precisamos mudar isso agora”, ordenou em julho de 1964. “Livrem-se da maioria dos jardineiros.”
O que Mao tinha em mente era uma sociedade totalmente árida, destituída de civilização, privada de representações dos sentimentos humanos, habitada por um rebanho sem sensibilidade, que obedeceria de forma automática às suas ordens. Queria a morte cerebral da nação a fim de empreender seu grande expurgo — e viver nesse estado para sempre. Nisso, ele foi mais longe do que Hitler ou Stálin, pois o primeiro permitia o divertimento apolítico e o segundo preservou os clássicos. Com efeito, Mao criticou o russo nessa questão; em fevereiro de 1966, disse: “Stálin aceitou os assim chamados clássicos da Rússia e da Europa de forma acrítica e isso teve consequências graves”.
No período 1962-65, Mao fez alguns progressos em sua tentativa de transformar todas as facetas da vida em algo “político” e de matar a cultura, mas o resultado estava longe de lhe ser satisfatório. Ele dependia da máquina do partido para executar suas ordens e praticamente todos tinham reservas em relação a suas políticas, do Politburo para baixo. Poucos viam com bons olhos uma vida sem entretenimento ou cor. Mao descobriu que quase todos obedeciam lentamente e que recreações claramente inofensivas ao regime, como os clássicos e as flores, continuavam a existir. Ele estava com raiva e frustrado, mas não conseguia obter o que queria.
Teve mais sucesso em uma área, a doutrinação da população, para a qual criou um modelo: um soldado devidamente morto chamado Lei Feng, que mantivera um diário muito conveniente em que supostamente registrava como se inspirara em Mao para fazer boas ações e jurava que, por Mao, estava pronto para “subir montanhas de facas e descer a mares de chamas”. A obediência total a Mao, ser o que o regime louvava como “pequenos dentes de engrenagem” perfeitos da máquina de Mao, era elevada à virtude máxima. Esse culto da impessoalidade, o reverso necessário do culto da personalidade do líder, foi envolto num apelo enganador ao altruísmo — por “nosso país” ou pelo “povo”.
Além de simbolizar a lealdade total a Mao, o soldado Lei Feng exemplificava outro ponto vital: a ideia de que o ódio era bom, que foi incutida na população, sobretudo nos jovens. Lei Feng havia supostamente escrito: “Tal como a primavera, trato meus camaradas com afeto [...] E com os inimigos de classe sou cruel e implacável como o inverno rigoroso”. O ódio era apresentado como algo necessário para alguém que amasse o povo.
Como uma figura a ser particularmente odiada, Mao construiu Khruchióv, dizendo que ele praticava o “revisionismo”. A imprensa chinesa foi inundada com polêmicas que demonizavam o líder soviético, as quais a população tinha de engolir em sessões semanais de doutrinação. Assim, foi incutido na cabeça das pessoas que Khruchióv e outros “revisionistas” eram vilões (como assassinos numa sociedade normal). Posteriormente, se revelaria a intenção oculta: Mao acusaria Liu Shao-chi de “Khruchióv da China” e os dirigentes desobedientes do partido de “revisionistas”.
A primeira vez que ele ergueu o espectro de um Khruchióv chinês foi para seu alto escalão, em 8 de junho de 1964. Liu sabia que era o alvo de Mao e que o furacão estava prestes a desabar. Suas opções eram limitadas. Tudo o que podia fazer era se entrincheirar em sua posição para dificultar o ataque de Mao. Então, em outubro, aconteceu algo em Moscou que deu uma abertura para Liu.
Em 14 de outubro de 1964, Khruchióv foi derrubado por um golpe palaciano. Mao viu uma oportunidade para ressuscitar a ajuda soviética para seu programa de mísseis, que se encontrava muito atrasado. Ele estava na posição de possuir a bomba atômica, mas não tinha meios de lançá-la. Para tanto, precisava de know-how estrangeiro e pensou em melhorar as relações com a nova liderança no Kremlin, encabeçada agora por Leonid Bréjnev. Dentro de poucos dias, Chou já dizia ao embaixador Tchervonenko que era o “desejo máximo” de Mao ter uma relação melhor. Chou solicitou um convite para as comemorações do aniversário da Revolução Russa em Moscou, no dia 7 de novembro.
A nova liderança soviética também estava interessada em descobrir se uma reaproximação seria possível e fez questão de avisar Mao sobre a queda de Khruchióv, antes que se tornasse pública. Mas o Kremlin logo percebeu que a perspectiva seria muito sombria enquanto Mao continuasse no poder. O embaixador Tchervonenko relembrou o que aconteceu quando foi lhe contar os eventos. Após ouvir a notícia, Mao
pensou por um ou dois segundos e depois disse: “Bela providência vocês tomaram, mas não é suficiente” [...]
Depois do encontro, Mao acompanhou-me até a saída. O carro não dava a partida, então o motorista pegou
um balde e foi com o guarda-costas de Mao até a cozinha. A lua brilhava sobre o lago. Mao estava de pé, ao
lado de meu carro afogado: “Há ainda algumas coisas que precisam de conserto”, disse ele, “e a plenária de
vocês não fez todas”.
Mao insistiu em que Moscou deveria revogar o programa de seu partido e, na verdade, renegar a desestalinização. Isso estava fora de questão para os novos líderes soviéticos e parece que eles usaram a visita de Chou para testar se havia alguma possibilidade de o PCC derrubar Mao.
Na recepção realizada no Kremlin em 7 de novembro, Chou e sua delegação percorriam o salão saudando velhos conhecidos quando o ministro da Defesa soviético Rodion Malinovski se aproximou de Chou, junto com o principal intérprete de chinês da Rússia, e lhe disse inesperadamente: “Não queremos nenhum Mao, ou nenhum Khruchióv no caminho de nossa relação”. “Não sei do que você está falando”, retrucou Chou, e se afastou de imediato. Malinovski voltou-se então para o marechal Ho Lung, chefe interino do Exército chinês: “Nós nos livramos de nosso idiota Khruchióv, agora vocês se livram do de vocês, Mao. E então poderemos ter relações amistosas de novo”. Malinovski usou linguagem de caserna: “O uniforme de marechal que estou vestindo era merda de Stálin e o uniforme de marechal que você está usando é merda de Mao Tse-tung”. Ho Lung discutiu com ele e depois a delegação chinesa abandonou a recepção.
Chou passou a noite compondo um telegrama para Mao. Na manhã seguinte, Bréjnev foi com quatro membros do governo (mas não Malinovski) até a residência da delegação chinesa, quando Chou fez um protesto formal. Os russos pediram desculpas, dizendo que as palavras de Malinovski não refletiam suas opiniões e que ele estava bêbado. Mas, afora o fato de que o marechal russo era um homem capaz de controlar a bebida, tais palavras jamais poderiam ser ditas de forma leviana pelo comandante do Exército de um país ao primeiro-ministro e ao chefe do Exército de outra nação, em particular quando os países envolvidos eram a Rússia e a China totalitárias. Ademais, a liderança soviética não censurou Malinovski, o que certamente faria caso se tratasse de uma verdadeira gafe. Todos os indícios sugerem que Malinovski agiu deliberadamente, de uma forma que poderia ser renegada. Um alto especialista em China do serviço secreto russo usou uma formulação reveladora para nós: “Ficamos sabendo que não poderíamos separar Chou e Mao”.
Esse episódio alimentou muitíssimo as suspeitas de Mao de que poderia haver um vasto complô contra ele que envolveria antigos colegas de poder em conluio com os russos. Nada poderia ser mais perigoso para ele do que o Kremlin expressar um desejo sério de derrubá-lo. Nem a contestação de Peng De-huai, em 1959, nem a de Liu, em 1962, haviam abalado sua posição. Mas, se o Kremlin realmente quisesse se ver livre dele, seria uma história diferente. O interesse russo poderia encorajar alguns de seus companheiros a tomar medidas drásticas. A distância entre a fronteira da Mongólia Exterior, um satélite russo, e Pequim era de apenas quinhentos quilômetros, sobre terreno plano e aberto, em grande parte, que tanques russos poderiam superar com facilidade, e a China não possuía defesas antitanque eficazes. No mês seguinte, dezembro de 1964, por determinação de Mao, o Exército traçou um plano para construir montanhas artificiais, cada uma com o aspecto de uma gigantesca fortaleza militar, na planície do norte da China, que seriam obstáculos aos tanques russos — um projeto enorme que foi abandonado por ser inútil, após vários anos e custo imenso.
Chou conseguiu manter-se nas boas graças do chefe, pois Mao calculou que ele era astuto demais para tentar alguma coisa temerária. Mas Chou sabia que uma sombra de suspeição pairava sobre sua cabeça. Antes de deixar Moscou, membros de sua comitiva o escutaram dizer que ele havia visitado a capital soviética dez vezes desde a fundação da China comunista, mas que era muito improvável que voltasse no futuro. Com efeito, foi sua última visita — e depois nenhum dos colegas de poder de Mao visitou Moscou
enquanto ele esteve vivo.a
Mao estava pouco disposto a deixar que membros do alto escalão chinês fossem à Rússia, temeroso de que pudessem tramar com os russos sua derrubada. Era preciso evitar até o encontro com altas autoridades soviéticas em outros países — isto é, fora do controle de Mao. Em setembro de 1969, Chou viu-se diante da possibilidade de topar com algum líder soviético no funeral de Ho Chi Minh, de modo que foi a Hanói antes do enterro, ignorando os protestos vietnamitas de que não estavam prontos para receber visitas. E Chou foi embora bem antes da cerimônia, à qual a China enviou uma delegação de segundo nível.
No expurgo que viria a seguir, qualquer conexão com a Rússia se tornaria uma questão fundamental, especialmente para o alto escalão. O marechal Ho Lung e um grande número de seus antigos subordinados foram presos e interrogados. O próprio Ho Lung morreu no cárcere, em condições estarrecedoras, em 1969.
O mesmo aconteceu com o vice-ministro da Defesa, general Xu Guang-da, que foi brutalmente torturado por um período de dezoito meses, tendo sido interrogado 416 vezes. Ele teve a infelicidade de ser a única alta patente militar a visitar a Rússia depois das observações de Malinovski e, portanto, era suspeito de ser um contato entre os inimigos internos de Mao e Moscou. Xu fora à Rússia em maio de 1965 porque, na época, ainda havia alguma cooperação nuclear entre os dois países. Imediatamente após sua viagem, Mao retirou todos os chineses do centro nuclear russo de Dubna, encerrando em definitivo a colaboração nuclear.
Graças ao episódio de Malinovski, Mao não teve nenhuma relação com Bréjnev. As relações da China com a União Soviética deterioraram ainda mais durante sua permanência no poder, que durou pelo resto da vida de Mao.
Mas, em novembro de 1964, Mao não mandou Chou partir de Moscou. Ele ficou e teve reuniões com vários delegados estrangeiros, com quem Mao queria que ele conversasse. Chou retornou a Pequim em 14 de novembro, conforme o cronograma previsto. Mao foi recebê-lo no aeroporto com toda a sua equipe. A mensagem para os russos era que a liderança chinesa estava unida. Mas os russos fizeram inferências mistas. Os diplomatas soviéticos presentes ao aeroporto observaram que Mao não parecia de forma alguma bem — “perto da prostração”, acharam eles.
Foi uma época excepcionalmente insegura para Mao, e Liu Shao-chi a explorou: tentou fortalecer sua posição, fazendo com que o confirmassem no posto de presidente do Estado. Isso proporcionaria uma oportunidade para uma grande explosão de seu perfil, uma espécie de culto de personalidade para ele mesmo. A confirmação de seu posto estava muito atrasada. Mao não permitira que o organismo que “elegia” o presidente, a Assembleia Nacional, se reunisse como deveria, em 1963, porque só queria que a reunião acontecesse quando estivesse pronto para expurgar Liu. Mas, algumas semanas após as observações de Malinovski sobre Mao, Liu convocou a assembleia em cima da hora, calculando que Mao se sentiria inseguro demais para vetar sua iniciativa ou expurgá-lo. Mao percebeu o que Liu pretendia e explodiu. “Vamos fazer a transmissão de posse agora”, disse com sarcasmo a Liu, em 26 de novembro. “Você toma o poder e será o presidente. Você será Qinshihuang [o primeiro imperador] [...].”
Mao não podia evitar a reunião da assembleia. Tudo o que podia fazer era negar sua bênção não convocando previamente uma plenária do partido para estabelecer a agenda — a única vez em que essa omissão ocorreu durante seu reinado. No Politburo, no dia anterior à abertura da assembleia, ele falou em tom ríspido com Liu várias vezes: “Eu simplesmente não vou endossá-lo”. A certa altura, disse a Liu: “Você não presta”.
Fora da sala de reuniões, explodiu para dois de seus devotos: “Alguém está cagando na minha cabeça!”. Depois, ao completar 71 anos, em 26 de dezembro, tomou a iniciativa inesperada de convidar Liu para jantar. Mao quase nunca tinha convívio social com Liu ou seus outros colegas de poder, exceto quando estavam no salão de baile ao mesmo tempo. Mas antes disse a sua filha Li Na: “Você não vai hoje porque seu pai vai amaldiçoar o filho da puta”. Mao sentou-se a uma mesa com alguns favoritos, enquanto Liu era colocado numa mesa separada. Não havia nada de uma atmosfera de aniversário. Enquanto todos ficavam em silêncio gélido, Mao arengava com acusações sobre “revisionismo” e “dirigir um reino independente”, endereçadas obviamente a Liu.
Ninguém disse nada em apoio a Mao, nem mesmo o equivalente de “você tem razão, chefe”, exceto seu secretário Chen Bo-da. Mao apreciou tanto essa atitude que depois chamou Chen, sonolento sob o efeito de comprimidos para dormir, e confidenciou-lhe que pretendia pegar Liu; o secretário foi, assim, um dos primeiros a saber disso explicitamente (Mao logo elevaria Chen ao quarto posto mais importante da hierarquia do partido).
Em 3 de janeiro de 1965, Liu foi designado novamente presidente, com muita publicidade, de forma muito diferente de sua primeira nomeação para o posto, em 1959, quando houvera pouca fanfarra. Dessa vez, houve comícios e desfiles, com seu retrato sendo carregado ao lado do de Mao, e fogos de artifício, tambores e gongos. Os jornais publicaram manchetes como “Presidente Mao e presidente Liu são ambos nossos mais amados líderes”. Estava claro que Liu tinha muitos partidários torcendo a seu favor. Ele conquistara muita consideração junto às altas autoridades do partido por ter tirado a China da fome. Até seguidores devotos de Mao dentro do círculo íntimo davam sinais de troca de lealdade. E, o que é mais incrível, veio à baila a ideia de pendurar o retrato de Liu no portão de Tiananmen — sozinho, sem o de Mao! —, a qual Liu teve de vetar imediatamente.
No dia em que Liu foi reeleito, sua esposa foi chamada, pela primeira vez, a uma reunião na suíte 118 de Mao, no Grande Salão. Os Liu eram apaixonados um pelo outro e Mao sabia disso. Ele escolheu aquele dia para sinalizar sua intenção de fazer os dois sofrerem. Quando Liu entrou após a votação, ficou espantado ao ver que sua esposa estava presente. Mao berrou uma longa diatribe. Madame Liu sentiu o imenso ódio que irradiava dele. Ela e Liu olharam-se em silêncio. Mao queria que ela testemunhasse os insultos a seu marido e que Liu registrasse: farei sua mulher pagar também.
Contudo, mesmo depois dessa exibição aberta de hostilidade, ninguém do alto escalão tomou o lado de Mao e denunciou Liu. A maioria simplesmente manifestou preocupação com a discórdia entre “os dois presidentes” e instou Liu a adotar uma postura mais obsequiosa em relação a Mao. Liu acabou lhe pedindo desculpas por não ser suficientemente respeitoso. A reação de Mao foi tão ameaçadora quanto arbitrária: “Não se trata de uma questão de respeito ou desrespeito. Trata-se de uma questão de marxismo versus revisionismo”.
Repetindo a observação de Stálin sobre Tito (“Eu abano o dedo mínimo e não haverá mais Tito”), Mao disse a Liu: “Quem você pensa que é? Posso abanar meu dedo mínimo e não haverá mais você!”. Mas, na verdade, no momento havia um empate. Mao não poderia obter a condenação de Liu apenas dizendo que a queria.
Naquela ocasião, Mao recorreu a um potente gesto simbólico — uma viagem às montanhas de Jinggang, onde havia montado sua primeira base, em 1927. Ao contrário de suas outras viagens, que eram resultado do impulso do momento, esta foi divulgada com bastante antecedência para o alto escalão, e todos sabiam então para onde ele ia. Seis anos antes, diante da rebeldia de Peng De-huai, ele ameaçara “subir para as montanhas e começar uma guerra de guerrilhas”. Agora, ia de fato para as montanhas, o que tornava a mensagem mais estridente, mais real e mais poderosa.
Providenciou-se uma latrina portátil. Uma equipe de vanguarda inspecionou o local de destino. “Inimigos de classe” foram detidos e guardados longe da rota de Mao. Prepararam-se duplicatas dos carros e metralhadoras pesadas foram postadas em lugares estratégicos. A guarda pretoriana observava à paisana, com as armas escondidas, como se fossem gângsteres de Hollywood, em estojos de instrumentos musicais.
Mao partiu de Pequim no final de fevereiro de 1965, movendo-se com lentidão e cautela. No caminho, em 9 de abril, soube da morte aos 63 anos de um acólito favorito, o chefe de Xangai Ke Qing-shi, de uma pancreatite mal diagnosticada. Naquela conjuntura, era alarmante que um assecla valioso morresse de erro humano e Mao ficou parado em Wuhan. Ali, convocou seu cúmplice de longa data Lin Biao para uma reunião tête-à-tête em 22 de abril. O marechal e ministro da Defesa, que salvara Mao na Conferência dos Sete Mil, estava nos seus planos para expurgar o presidente Liu. Mao disse-lhe para manter um controle rígido do Exército e forte vigilância, caso o presidente, que estava supervisionando as coisas na capital, tentasse obter apoio entre os militares.
Em 19 de maio, Lin Biao tomou uma atitude espetacular, conforme o pedido de Mao. Naquele dia, na qualidade de presidente da nação, Liu recebia os participantes de uma reunião de alto nível do Exército quando o marechal apareceu inesperadamente, pois havia declinado do convite, alegando motivos de saúde. No final da reunião, quando o presidente anunciou que haviam chegado a uma conclusão satisfatória, Lin Biao levantou-se de súbito e iniciou uma arenga que basicamente contradizia o que Liu havia dito. Desse modo, deixou bem claro para o alto escalão que ele, não o presidente, era o chefe deles, solapando a autoridade de Liu.
Enquanto o marechal ficava de olho em Liu em Pequim, Mao seguia para seu antigo refúgio de proscrito, onde chegou a 21 de maio. Ali ficou sete noites, sem ir a lugar algum, exceto por curtas caminhadas na vizinhança imediata da casa onde estava hospedado. Estava programada uma parada em sua antiga residência, o Pavilhão Octogonal, mas, ao descer do carro, Mao escutou alguns ruídos fracos. Tratava-se do barulho dos martelos e talhadeiras de pedreiros que trabalhavam numa encosta distante, mas nas montanhas o ruído era escutado a longa distância. No momento em que punha o pé no chão, Mao recuou para dentro do carro e ordenou que partissem de imediato.
Não viu nenhum morador do lugar até minutos antes de ir embora, quando uma multidão organizada foi levada para a frente da hospedaria, e ele acenou para ela, enquanto se tiravam fotos. Sua presença foi mantida em segredo até o último minuto. Durante sua estadia, e por algum tempo depois que ele partiu, todas as comunicações dos habitantes locais com o mundo externo estiveram cortadas.
A hospedaria em que ficou, que fora construída durante a epidemia de fome, não estava à altura de seus padrões e logo começou a construção de outra, conforme as especificações usuais: térrea e totalmente à prova de bombas. Mas Mao jamais retornou. Ele viera com um único propósito: fazer uma ameaça.
Enquanto Mao estava nas montanhas, Liu ocupava-se em construir sua própria imagem. Em 27 de maio, o Diário do Povo publicou um artigo repleto da melhor linguagem de culto: “As colinas estavam extraordinariamente verdes e a água, excepcionalmente azul [...] o cenário da represa do Túmulo Ming exibia esplendor sem precedentes”. Mas, em vez de ser apenas sobre Mao, o artigo era sobre Mao e Liu, e ambos estavam engajados na atividade de nadar, a quintessência do culto de Mao:
Depois das três da tarde, dois carros pararam [...] Dois homens eminentes e de aparência gentil desceram dos
carros e com passos firmes caminharam na direção da água.
[...] eram nossos líderes mais reverenciados e amados, presidente Mao e presidente Liu. A multidão
prorrompeu imediatamente em saudações sonoras:
“O presidente Mao veio nadar!”
“O presidente Liu veio nadar!”
Os jovens viram que o presidente Mao e o presidente Liu irradiavam tremenda saúde e vigor e sentiram
uma onda de felicidade percorrer seus corpos [...]
O presidente Mao e o presidente Liu [...] nadaram ombro a ombro [...]
Mas não se tratava de nenhuma notícia nova. O episódio de natação ocorrera no ano anterior, em 16 de junho de 1964. O fato de ter sido ressuscitado sugere que a história foi inserida para promover a imagem de Liu, num momento em que a ausência de Mao significava que o Diário do Povo não tinha de submeter-lhe as matérias. Por esse e outros atos de desobediência, Mao infligiu punições horríveis aos seus chefes dos meios de comunicação.
Após a viagem às montanhas de Jinggang para fazer sua ameaça, Mao não agiu de imediato. Parece que o motivo de ter adiado o ataque foi que esperava a realização de um determinado evento internacional: a segunda cúpula afro-asiática, programada para junho de 1965 na Argélia. Na qualidade de presidente, Liu havia tratado com muitos chefes de Estado que estariam lá e expurgá-lo logo antes da reunião causaria uma má impressão. A cúpula era fundamental para Mao, que queria usá-la para conquistar um papel dominante no Terceiro Mundo. Como não estava preparado para sair de seu território, por motivos de segurança, teria de manipular os cordões de longe. Seu homem para essa tarefa era Chou En-lai.
A primeira reunião de cúpula afro-asiática ocorrera dez anos antes, em Bandung, na Indonésia, onde Chou tivera considerável sucesso em seduzir países do Terceiro Mundo de independência recente. Desde então, a influência de Pequim crescera substancialmente, graças, sobretudo, a sua ajuda extravagante. Nehru, o astro de Bandung, estava morto e, no meio-tempo, a China obtivera a bomba atômica. Mao cultivava a ideia de que nessa segunda cúpula ele poderia ser visto como o patrono — se a União Soviética não participasse. Nos preparativos para a cúpula de Argel, o objetivo de Mao fora deixar os russos de fora.
Com esse propósito, Pequim cortejou o presidente Sukarno da Indonésia, pois era quem estava examinando os convites, por ter sido o anfitrião da primeira reunião. A China ofereceu-lhe generosos presentes, que possivelmente incluíam soldados para a guerra que ele travava com a Malásia. No topo da lista de ofertas estava treinar cientistas nucleares indonésios, o que permitiu que Sukarno anunciasse que a Indonésia explodiria em breve uma bomba atômica. A China lançou a mesma isca dos segredos nucleares para o Egito, outro país-chave do Terceiro Mundo, quando, na verdade, Mao não tinha a menor intenção de partilhar seu conhecimento nuclear; mais tarde, quando Nasser pediu a Chou que cumprisse sua promessa, o chinês lhe disse para “confiar em si mesmo”.
A fim de comprar votos para a cúpula de Argel, Mao comprometeu a China em seu maior projeto no exterior até então — uma ferrovia de quase 2 mil quilômetros que iria de Zâmbia, no centro da África, até o oceano Índico, atravessando a Tanzânia. Informado de que o presidente Julius Nyerere, da Tanzânia, estava interessado em tal projeto, mas não conseguia dinheiro do Ocidente, Chou declarou: “O presidente Mao disse que tudo a que os imperialistas se opõem, nós apoiamos; os imperialistas se opõem à ferrovia, nós a patrocinamos”. Mao não estava preocupado com a viabilidade da ferrovia. Quando Nyerere manifestou hesitação quanto a aceitar a oferta, Chou pressionou mais, afirmando que os materiais de construção ferroviária e o pessoal chinês seriam desperdiçados se não fossem usados na Tanzânia. O projeto custava cerca de 1 bilhão de dólares, quantia que Mao desprezou, dizendo não ser “grande coisa”.
Dez dias antes do início marcado da reunião de cúpula, o presidente Ahmed Ben Bella, da Argélia, foi deposto por um golpe militar. Pouco antes, Mao o havia chamado de “meu querido irmão”. Agora, largava Ben Bella como uma batata quente e mandava Chou apoiar o novo governo militar e assegurar-se de que a cúpula se realizasse na data marcada.
Os diplomatas de Pequim se entregaram a uma atividade frenética, embora estivesse claro que a vasta maioria dos governos que deveriam comparecer à reunião fosse a favor de um adiamento. Até o pró-chinês Nyerere deixou claro o que pensava para o lobista de Pequim: “Chou En-lai é o meu estadista mais respeitado. Mas não compreendo por que ele insiste em manter o cronograma da conferência”. Disse ainda que Ben Bella era um “herói anticolonialista reconhecido em toda a África” e acrescentou: “Devo lhe dizer [que o lobby da China] danificou a reputação da China e do próprio premiê Chou”.
A reunião de cúpula foi adiada. O atropelo dos chineses voltou-se contra eles mesmos. Dentro de poucas semanas, Nasser, sob vários pontos de vista a voz decisiva, apoiava a participação soviética. Se os russos comparecessem, Mao não poderia desempenhar o papel principal. Então os chineses anunciaram que não participariam. A cúpula jamais se reuniu.
Como seu sonho de fazer papel de líder dos países africanos e asiáticos desmoronou, Mao, em fúria, desembestou. Ansioso por uma vitória em algum lugar, chegou à beira da guerra com a Índia.
Três anos antes, fizera um armistício satisfatório com aquele país. Mas agora, no outono de 1965, não podia ter certeza do sucesso, pois a Índia estava muito mais bem preparada. Então recorreu ao parasitismo do conflito de outro país, um empreendimento sempre arriscado. Em 6 de setembro, o Paquistão entrou em guerra com a Índia. Nos anos anteriores, esse país se aproximara muito da China e se tornara
um dos dois maiores recipientes não comunistas de ajuda chinesa. b
Mao achou que a guerra do Paquistão contra a Índia oferecia a chance de obter outra vitória sobre os indianos, que seriam forçados a lutar em duas frentes se a China interviesse. Ele deslocou tropas para a fronteira e lançou dois ultimatos, exigindo que a Índia desmontasse em três dias, até 22 de setembro, supostos postos avançados em territórios que Pequim reivindicava. O governo indiano respondeu em tom conciliador: negou que tivesse postos avançados na região, mas pediu uma “investigação conjunta” e prometeu que, se tais postos fossem encontrados, “não se oporia a desmantelá-los”. Pequim reagiu com agressividade, dizendo que “não há necessidade de investigação” e que simplesmente havia postos avançados. Mao estava empenhado na guerra.
Mas o esquema ruiu quando o Paquistão aceitou de súbito um pedido da ONU de cessar-fogo, antes que o prazo da China expirasse. Os paquistaneses disseram a Mao que o custo de continuar a luta seria alto demais, tanto diplomática quanto economicamente, mas Mao pressionou-os a continuar a guerra e consta que teria enviado ao presidente Ayub Khan esta mensagem: “Se houver uma guerra nuclear, é Pequim e não Rawalpindi que será um alvo”. Mas os paquistaneses não aceitaram a pressão, Mao ficou no limbo e Pequim teve de se rebaixar em público, alegando que a Índia havia desmontado os postos em segredo — quando, na verdade, a Índia não mexera uma palha. Mao acabou em profunda frustração.
Impaciente por obter um sucesso, Mao tentou inflamar insurreições violentas onde pudesse. Na Tailândia, o Partido Comunista fomentado por Mao (e composto avassaladoramente por chineses de origem) iniciou uma insurgência armada e entrou em conflito pela primeira vez com as forças do governo em 7 de agosto de 1965, conhecido desde então como o “Dia do Tiroteio”. Não deu em nada.
O maior — e mais trágico — fiasco aconteceu na Indonésia. O Partido Comunista desse país (PKI) era o maior do mundo não comunista, com cerca de 3,5 milhões de membros, e tinha o tipo de relação secreta com Pequim que os comunistas chineses
haviam tido com Stálin, antes que conquistassem a China. c Kenji Miyamoto, líder do Partido Comunista japonês na época, contou-nos que Pequim costumava dizer ao PKI e ao seu partido: “Sempre que houver uma chance de tomar o poder, vocês devem recorrer à luta armada”. Em 1964, Miyamoto discutiu isso com Aidit. Enquanto os comunistas japoneses eram cautelosos, Aidit, que tinha grande fé em Mao, estava muito ansioso para entrar em ação. Após a suspensão da cúpula de Argel, com disposição belicista, Mao pôs o PKI em movimento para tomar o poder.
O plano era decapitar o alto-comando anticomunista do Exército, sobre o qual o presidente Sukarno, pró-Pequim, tinha poder muito limitado. Pequim vinha pressionando o presidente para retificar o Exército radicalmente e, com seu apoio, o PKI vinha se infiltrando nas Forças Armadas com algum sucesso. O PKI acreditava, num excesso louco de otimismo, que poderia controlar secretamente mais da metade do Exército, dois terços da Aeronáutica e um terço da Marinha. De acordo com o plano, depois que se livrasse dos generais, Sukarno assumiria o comando das Forças Armadas, enquanto os comunistas manteriam os soldados sob controle.
Em 30 de setembro, um grupo de oficiais prendeu e matou o chefe do Exército indonésio e cinco outros generais. Ao falar logo depois com Miyamoto, Mao referiu-se a esse golpe como sendo “o levante [...] do Partido Comunista da Indonésia”. Mas o PKI foi atropelado por um imprevisto que pôs todo o complô a perder. Um informante havia avisado um general então pouco conhecido chamado Suharto, que não estava na lista dos que deviam ser mortos. Assim preparado, Suharto esperou as prisões e mortes dos outros generais para assumir imediatamente o controle do Exército e desencadear um massacre de centenas de milhares de comunistas e simpatizantes, bem como de inocentes. Quase toda a liderança do PKI foi capturada e executada. Somente um membro de seu Politburo sobreviveu, Jusuf Adjitorop, que estava na China na ocasião e com quem nos encontramos três décadas depois, completamente desiludido.
O presidente Sukarno foi deposto e o general Suharto instalou uma ditadura militar que era ferozmente anti-Pequim e hostil à grande comunidade chinesa da Indonésia.
Mao culpou o PKI pelo fracasso. “O partido indonésio cometeu dois erros”, disse aos comunistas japoneses. Primeiro, “eles acreditaram cegamente em Suharto e superestimaram o poder do partido no Exército”. O segundo erro foi que o PKI
“vacilou sem lutar até o fim”. d Na verdade, Suharto desencadeou um massacre tão feroz e tão instantâneo que foi impossível para o partido indonésio reagir. Mao e seus homens jamais experimentaram algo assim nas mãos de Chiang Kai-shek, que era um gatinho comparado com as garras de Suharto. De qualquer modo, a culpa era de Mao, pois fora ele que iniciara a ação por seus motivos pessoais. Ele simplesmente não podia esperar para obter uma vitória depois que seu sonho irreal de liderança afro-asiática havia ruído.
Ao chegar o final de 1965, os projetos globais de Mao haviam sofrido um revés após o outro. Num estado mental soturno e violento, ele voltou-se contra seus adversários dentro da China.
a Exceto por uma escala de Deng Xiao-ping a caminho de um congresso partidário na Romênia, em julho de 1965, o que mostra que Mao confiava nele.
b Em 1965, a China começou a falar sobre transferência de know-how nuclear para o Paquistão — ou, mais precisamente, começou a acenar com a possibilidade disso. O Paquistão tornara-se cada vez mais útil a Mao como um posto de entrada para o Oriente Médio e Pequim apoiou agressivamente as pretensões desse país sobre a Caxemira, treinando guerrilheiros da região para o que chamava de guerra de “libertação nacional”.
c Em setembro de 1963, Chou En-lai trouxe Aidit, líder do PKI, para uma reunião secreta em Conghua, no sul da China, com Ho Chi Minh e o cabeça dos comunistas do Laos para coordenar a estratégia militar na Indonésia com a guerra na Indochina. Essa reunião colocou a Indonésia no mesmo nível estratégico da Indochina e ligou os eventos na Indonésia com o conflito militar muito mais avançado na Indochina.
d Esses trechos das conversas de Mao foram eliminados da versão publicada e postos à nossa disposição pelo Comitê Central do Partido Comunista japonês.