Mao: a história desconhecida
38. Debilitando Khruchióv
(1956-59; 62-65 anos)
Meses depois de denunciar Stálin, Khruchióv enfrentou problemas. Em junho de 1956, irromperam protestos na Polônia, numa fábrica chamada apropriadamente Usina Stálin, na cidade de Poznan, e mais de cinquenta operários foram mortos. Wladyslaw Gomulka, um ex-líder do partido que estivera preso na época stalinista, retornou ao poder defendendo uma relação mais independente com Moscou. Em 19 de outubro, os russos disseram a Mao que os sentimentos antissoviéticos eram fortes na Polônia e que estavam pensando em usar a força para manter o controle.
Mao considerou a ocasião ideal para debilitar Khruchióv, apresentando-se como o defensor dos poloneses e o oponente da “intervenção militar soviética”. Como isso poderia acarretar um choque com o líder russo, Mao pesou os prós e os contras com muito cuidado, deitado na cama. Na tarde do dia 20, convocou o Politburo. Ninguém aconselhou cautela. Então, vestido com um robe atoalhado, chamou o embaixador Iúdin e lhe disse: se o Exército soviético usar a força na Polônia, condenaremos vocês publicamente. E pediu que Iúdin telefonasse de imediato a Khruchióv. Àquela altura, ele havia concluído que o novo líder soviético era um tanto “estúpido” e “propenso ao desastre”. A admiração que sentira por Khruchióv na época em que denunciara Stálin apagava-se rapidamente, substituída pela confiança de que poderia se aproveitar da vulnerabilidade dele.
Antes que a mensagem de Iúdin chegasse ao Kremlin, Khruchióv já decidira não usar as tropas. No dia 21, convidou o PCC e quatro outros partidos governantes para ir a Moscou discutir a crise. Mao mandou Liu Shao-chi, com instruções para criticar a Rússia por seu “chauvinismo de grande potência” e por pensar em “intervenção militar”. Em Moscou, Liu propôs que a liderança soviética fizesse “autocrítica”. Mao pretendia diminuir o poder de Khruchióv como líder do bloco comunista e candidatar-se à liderança, seu sonho desde a morte de Stálin. Agora, surgia a oportunidade.
Nesse momento crítico, outro satélite explodiu: a Hungria. O levante húngaro viria a ser a maior crise até então do mundo comunista — uma tentativa não somente de obter maior independência de Moscou (que era o objetivo na Polônia), mas de derrubar o regime comunista e se afastar completamente do bloco. Em 29 de outubro, os russos decidiram retirar suas tropas da Hungria e informaram Pequim sobre essa decisão. Até então, Mao vinha insistindo na retirada das forças soviéticas da Europa oriental, mas agora percebia que o regime comunista húngaro cairia se os russos partissem. Assim, no dia seguinte recomendou fortemente que o Exército soviético ficasse e esmagasse o levante. A manutenção da Europa oriental sob o comunismo era mais importante do que enfraquecer Khruchióv. Tornar-se líder do campo comunista seria inútil se o campo deixasse de existir.
Em 1o de novembro, Moscou voltou atrás. Seu Exército permaneceu na Hungria e debelou o levante, com muito derramamento de sangue. A percepção de que as tropas russas eram essenciais para manter os satélites europeus dentro do regime comunista foi um golpe para as pretensões de Mao de tirar as muletas soviéticas desses países. Mas ele não desistiu. Em 4 de novembro, enquanto os tanques russos entravam em Budapeste, disse ao seu Politburo: os húngaros precisam encontrar um novo modo de controlar seu país — e devemos ajudá-los. Ele queria dizer que os regimes do Leste Europeu deveriam adotar seu método de governo e fazer a própria repressão brutal: desse modo, não precisariam apelar para os tanques russos. Em 1954, Mao receitara suas ideias sobre a arte de governar para András Hegedüs, o homem que viria a ser o primeiro-ministro da Hungria quando o levante começou. Hegedüs contou-nos que Mao o instara a manter o controle total do Exército e só faltou dizer que o regime húngaro deveria tornar seu poder inquestionável por meio de matanças. Quando soube que Tito havia detido seu oponente liberal Milovan Djilas, Mao demonstrou “tanto prazer”, observou o comandante do Exército Peng, “que seu rosto se iluminou”. Ele continuaria a defender seus métodos stalinistas para os países do Leste Europeu, na esperança de que eles imitassem seu modelo de repressão e abraçassem sua liderança.
Em janeiro de 1957, Mao enviou Chou En-lai à Polônia para tentar puxar Gomulka para seu lado. “A chave para todas as questões”, disse Chou a Gomulka, era “atacar as forças da direita e os contrarrevolucionários escondidos [...] mirando um grupo de cada vez”. Esse conselho não apresentava nenhum atrativo para Gomulka, que passara anos nas prisões de Stálin. O resumo que Chou fez depois para Mao revelava tanto os desígnios paternalistas de Pequim como seu fracasso: “A liderança polonesa está correta [...] mas ainda não compreendeu a questão fundamental”. Mais para o final daquele ano, em Moscou, Mao tentou de novo: ofereceu repetidamente a Gomulka conselhos sobre como se manter no poder e se referiu ao governo dele como “a sua corte” (grifo nosso). Mas não foi longe, pois Gomulka não aspirava a ser um tirano.
Mao esperava incitar os poloneses a propô-lo como chefe do campo comunista. Seu modo tortuoso de fazer isso foi repetir várias vezes a Gomulka que o campo comunista tinha de ser “encabeçado pela União Soviética”. Ao dizer que o campo precisava de uma cabeça, ele tentava levantar a questão de quem deveria ser a cabeça, esperando que os poloneses olhassem para o seu lado. Gomulka simplesmente fechava a cara a cada vez que Chou usava a fórmula.
O que os poloneses queriam era mais liberdade, não mais stalinismo, ou mais pobreza. Uma ilustração vívida do abismo entre a visão de Mao e a realidade da Polônia aconteceu quando um grupo de visitantes poloneses disse a Mao que os compatriotas deles estavam infelizes com seus baixos padrões de vida e que o partido achava que tinha de fazer alguma coisa para satisfazer os desejos do povo. Mao retrucou: “Não creio que o padrão de vida na Polônia seja tão baixo. Ao contrário, acho que é relativamente muito alto: os poloneses comem mais de 2 mil ou 3 mil calorias todos os dias, enquanto [cerca de 1500] poderiam ser suficientes. Se o povo acha que há poucos bens de consumo à disposição, o [regime] deveria aumentar seus esforços de propaganda”. Depois do “monólogo” de Mao, escreveu um diplomata polonês, eles “se deram conta de que a ajuda chinesa não poderia ser substancial ou duradoura, porque o programa deles era
ainda mais ‘antipopular’ do que o soviético”. a
Quando Chou En-lai viu que era improvável conseguir que os poloneses propusessem Mao para cabeça do campo comunista, este voltou-se de imediato para o outro país comunista mais antissoviético, a Iugoslávia. Um enviado que já estava lá em janeiro de 1957 recebeu instruções instantâneas para solicitar uma reunião ultraprivada com Tito, na qual ele pediu ao presidente iugoslavo para copatrocinar com Pequim uma cúpula mundial comunista, com o argumento de que o partido soviético estava tão desacreditado que ninguém daria ouvidos a ele. Naquele exato momento, Mao acusava Tito de inimigo para seu círculo íntimo — do mesmo modo que falava mal de Gomulka. Seu cultivo desses dois países comunistas era totalmente oportunista, baseado somente no fato de que eram os mais antissoviéticos. Depois de escutar a conversa mole de Mao, Tito não somente se recusou a copatrocinar a conferência como não prometeu comparecer.
Ao mesmo tempo, Mao tentava de novo enfraquecer o Kremlin, fazendo os russos se humilharem. Em Moscou, em janeiro de 1957, Chou exigiu que os líderes soviéticos fizessem “autocríticas abertas” e reavaliassem Stálin segundo a orientação de Mao. Os russos encresparam-se e o repeliram com desprezo. A reação de Mao foi censurar Chou para seus chefes provinciais: “Eu disse ao camarada Chou En-lai ao telefone que essa gente se transformou em cretinos graças aos seus ganhos materiais e que a melhor maneira de tratar com eles é lhes dar uma boa rodada de imprecações fedorentas. O que eles têm de verdade? Não mais que 50 milhões de toneladas de aço, 400 milhões de toneladas de carvão e 80 milhões de toneladas de petróleo [...] Grande coisa!”. Ele estava pondo a culpa do seu fracasso em suplantar Khruchióv na falta de força econômica da China.
* * *
Mao tinha outras fontes de frustração. Uma era o Oriente Médio, onde uma grande crise irrompeu, na mesma época do levante da Hungria, em relação ao canal de Suez, que o Egito nacionalizara em julho de 1956. Em 29 de outubro, Israel atacou o Egito, como ponta de lança de uma invasão israelense-anglo-francesa secretamente coordenada.
Mao estava louco para agir como protetor e mestre do Egito. Encenou manifestações gigantescas contra os ingleses e franceses, de quase 100 milhões de pessoas. Um visitante da Espanha franquista que estava em Pequim concluiu: “Pior que um comício fascista. Líderes em todos os palanques começam a saudar e todos gritam quando eles gritam. Não são verdadeiros manifestantes [...] muito chato”. Mao deu conselhos ao embaixador egípcio, general Hassan Ragab, sobre tudo, desde como tratar o rei exilado Farouk até como o presidente Gamal Abdel Nasser poderia evitar ser assassinado, instando o embaixador a “estudar a experiência da China”, que “valia muito a pena estudar”. Expressando uma rivalidade mal disfarçada com a Rússia, Mao pressionou para ajudar Ragab: “A União Soviética fará tudo ao seu alcance para ajudar o Egito. A China também gostaria de fazer o melhor para ajudar o Egito, e nossa ajuda é sem compromisso. O que você precisar, basta falar [...] Nossa ajuda não precisa ser reembolsada [...] Se vocês insistirem em pagar [...] então reembolsem em cem anos”. A China deu a Nasser 20 milhões de francos suíços em dinheiro e inclinou a balança do comércio bilateral pesadamente a favor do Egito.
Mao estava tão interessado em desempenhar um papel que, em 3 de novembro, mandou a Nasser um plano de guerra. Como era de esperar, ofereceu bucha de canhão: 250 mil voluntários chineses. Uma oferta que Nasser não aceitou — felizmente para os “voluntários”, mas também para Mao, pois a China não tinha como transportar essa quantidade de gente para o Oriente Médio.
Nasser deu-lhe pouca atenção. Seu principal assessor, Mohamed Heikal, contou-nos que o presidente deixou o plano de guerra de Mao embaixo de sua pilha de correspondência. O que ele realmente queria eram armas. Ele decidira reconhecer Pequim naquela primavera para que a China, que estava fora das Nações Unidas, pudesse servir de canal para as armas russas, caso houvesse um embargo de armas da ONU.
Em dezembro, quando o Cairo pediu armas, a China se ofereceu de imediato para doar o que produzia, gratuitamente. Mas ela só podia fazer armas pequenas, como rifles, e a oferta não foi aceita. Mao viu-se jogado à margem dos acontecimentos. Tudo isso o deixava mais impaciente para acelerar seu Programa de Superpotência e possuir a bomba atômica; de outro modo, como ele disse, “as pessoas simplesmente não o escutam”.
Para isso, Mao precisava de Khruchióv. Felizmente para ele, Khruchióv também precisava dele. Mal havia se acalmado o tumulto na Polônia e na Hungria quando o líder russo se viu diante de uma crise interna. Em junho de 1957, Mólotov, Malenkov e um grupo de velhos stalinistas tentaram derrubá-lo. Ele conseguiu frustrar a tentativa, mas sentiu que precisava obter apoio explícito de partidos comunistas estrangeiros. Outros líderes comunistas mandaram prontamente seu apoio, mas Mao não. Então Khruchióv enviou Mikoian para encontrar Mao, que estava na cidade meridional de Hangzhou. “Acho que eles queriam que alguém do alto escalão fosse até eles”, contou-nos o intérprete de Mikoian. Mao deixou o enviado russo falar durante boa parte da noite antes de fazer um gesto lânguido por sobre o ombro para seu ex-embaixador em Moscou: “Velho Wang [Jia-xiang], onde está nosso telegrama?”. O telegrama de apoio estivera pronto durante todo o tempo. Mao obviamente apoiaria Khruchióv, que era, afinal, o poder no Kremlin. Apenas queria que Khruchióv pedisse, e subir seu preço. A China solicitou de imediato uma renegociação do acordo de transferência de tecnologia.
Moscou reagiu de forma extremamente positiva, dizendo que ficava feliz em ajudar a China a fabricar bombas atômicas e mísseis, bem como aviões de combate mais avançados. O fato era que Khruchióv precisava de mais apoio ainda de Mao. A maior reunião de cúpula já realizada do mundo comunista estava marcada para 7 de novembro, quadragésimo aniversário da Revolução Russa. Para que o evento não tivesse problemas, Moscou precisava ter Mao a bordo.
O líder chinês explorou ao máximo essa situação. Disse que compareceria à cúpula somente se os russos assinassem um acordo prévio que garantisse a entrega dos “materiais e dos modelos para a produção de uma arma atômica e os meios de lançá-la”. Em 15 de outubro, três semanas antes da reunião de cúpula, Moscou assinou um acordo fatal concordando em fornecer a Mao uma amostra de bomba atômica. Os ministros russos receberam ordens de “suprir os chineses com tudo que precisam para construir sua própria bomba”. Desse modo, foram tantos os especialistas em mísseis subitamente transferidos para a China que isso causou um “estrago” no programa da própria Rússia,
de acordo com um expert russo. b Os especialistas russos também ajudaram a China a escolher locais para testes nucleares e para mísseis no interior do país.
Embora o “pai da bomba russa” Igor Kurtchátov se opusesse fortemente, Khruchióv enviou um alto cientista nuclear, Ievguênii Vorobiov, para supervisionar a construção da bomba de Mao, e durante sua estada na China o número de especialistas nucleares chineses aumentou de sessenta para 6 mil. A Rússia “está disposta a deixar que tenhamos todos os projetos”, contou Chou a um pequeno círculo. “Tudo o que fez, inclusive bombas atômicas e mísseis, ela está disposta a nos dar. Isso é a máxima confiança, a máxima ajuda.” Quando Khruchióv disse mais tarde que “eles receberam muita coisa de nós”, Mikoian acrescentou: “Construímos instalações industriais [de armas nucleares] para os chineses”.
O know-how soviético possibilitou que os chineses copiassem todos os atalhos que os russos haviam feito e tivessem a garantia de que esses atalhos funcionavam, acelerando assim a construção da bomba de Mao. A China era o único país do mundo que tinha esse grau de ajuda para fabricar armas nucleares. Pouco antes de assinar o acordo, a delegação chinesa dissera a Mao que, com aquele nível de assistência russa, ele poderia ter todos os atributos de uma superpotência militar no final de 1962. O empreendimento custou uma fortuna. Uma fonte autorizada ocidental estimou o custo da bomba chinesa em 4,1 bilhões de dólares (em preços de 1957). Uma grande parte disso foi paga em produtos agrícolas.
E Mao queria mais do que a bomba atômica e mísseis. Em 4 de outubro de 1957, a Rússia lançou o satélite Sputnik, o primeiro objeto espacial feito pelo homem — pela primeira vez o mundo comunista “superava” o Ocidente em uma esfera técnica. Mao queria entrar logo na corrida espacial. “O que quer que aconteça, precisamos ter Sputniks”, anunciou ao seu alto escalão em maio de 1958. “Não do tipo de um quilo, dois quilos [...] tem de ser de dezenas de milhares de quilos [...] Não faremos do tamanho de ovos de galinha, como os dos Estados Unidos.” O primeiro satélite americano, lançado em janeiro de 1958, pesava 8,22 quilos, enquanto o Sputnik pesava 83,6 quilos. Mao queria que o seu fosse maior que o americano e o russo, e queria lançá-lo em 1960.
Em 2 de novembro de 1957, Mao foi de avião para a cúpula comunista em Moscou; decidira ser cooperativo, a fim de obter o que queria de Khruchióv, ao mesmo tempo que tentava se colocar no mapa do campo comunista como um igual a Khruchióv, ou mesmo superior. À reunião de cúpula, a maior de seu tipo até então realizada, compareceram líderes de 64 partidos comunistas e amistosos, dos quais doze estavam no poder. Logo antes de partir de Pequim, Mao lançou no ar a ideia de que a declaração final fosse assinada só por ele e os russos.
Foi quase bem-sucedido, pois a China foi o único país a participar, junto com os russos, da redação desse documento e Mao recebeu tratamento especial em Moscou, sendo o único líder estrangeiro a ficar hospedado no Kremlin, onde tudo foi arranjado conforme seu gosto, com uma grande cama de madeira e o vaso sanitário adaptado, com uma plataforma sobre o assento, onde ele poderia se agachar. Na cerimônia da véspera do aniversário da Revolução, Mao e Khruchióv apareceram de mãos dadas. Nos desfiles da rua Gorki e da praça Vermelha, as pessoas sacudiam bandeiras chinesas e gritavam “Viva Mao e a China!”.
O grande trunfo de Mao em sua busca de status igual ao da Rússia era o potencial humano. Um moscovita disse a um alto líder comunista finlandês na época: “Não precisamos mais ter medo dos Estados Unidos. O Exército chinês e nossa amizade com a China alteraram toda a situação mundial, e os Estados Unidos não podem fazer nada em relação a isso”. E foi esse trunfo que o próprio Mao promoveu enquanto estava em Moscou, contando para Khruchióv quantas divisões de exército cada país podia reunir, com base em sua população. A China superava a Rússia e todos os seus aliados juntos na proporção de dois para um. Imediatamente depois de voltar de Moscou, Mao rejeitou definitivamente o controle de natalidade na China, política sobre a qual o regime mantivera até então a mente bastante aberta.
Para mostrar que era igual ao seu anfitrião russo e estava acima do resto dos participantes, Mao desconsiderou a ordem de que todos os oradores fornecessem um texto com antecedência, dizendo: “Não tenho texto. Quero poder falar livremente”. Com efeito, ele não tinha um texto escrito, mas havia preparado seu discurso aparentemente improvisado com muito cuidado. Antes de entrar no salão da conferência, encontrava-se em um estado de superconcentração tão intenso que, quando seu intérprete chinês tratou de abotoar seu colarinho enquanto esperavam o elevador, ele parecia totalmente desatento ao que o auxiliar estava fazendo.
Mao foi também a única pessoa a falar sentado. Ele disse que estivera “doente da cabeça”. Isso, como comentou o embaixador iugoslavo com ironia, “foi uma surpresa para a maioria dos presentes”.
Mao falou sobre guerra e morte com uma indiferença grosseira, até irreverente, ao sofrimento humano:
Vamos considerar quantas pessoas morreriam se irrompesse uma guerra. Há 2,7 bilhões de pessoas no
mundo. Um terço poderia se perder; ou um pouco mais, poderia ser a metade [...] Eu digo que, levando em
conta a situação extrema, metade morre, metade fica viva, mas o imperialismo seria arrasado e o mundo inteiro
se tornaria socialista.
O participante italiano Pietro Ingrao contou-nos que a plateia ficou “chocada” e “perturbada”. Mao deu a impressão de que não somente não se importava com uma guerra nuclear como, na verdade, a acolhia com prazer. O chefe da delegação iugoslava Kardelj não teve dúvidas: “Estava perfeitamente claro que Mao Tse-tung queria uma guerra”. Até os stalinistas franceses ficaram estarrecidos.
Mao desconsiderou as preocupações com a melhoria dos padrões de vida:
Dizem que a pobreza é ruim, mas, na verdade, a pobreza é boa. Quanto mais pobres as pessoas, mais
revolucionárias elas são. É assustador imaginar uma época em que todos serão ricos [...] Com um excesso de
calorias, as pessoas terão duas cabeças e quatro pernas.
As opiniões de Mao iam frontalmente contra o clima dos regimes comunistas pós-stalinistas, que queriam evitar a guerra e elevar os padrões de vida. Ele não foi bem-sucedido. Embora tenha se encontrado com muitos líderes comunistas dessa vez, ao contrário da visita anterior, e embora não tenha perdido a oportunidade para dar conselhos, poucos levaram suas palavras a sério. Nas anotações de John Gollan sobre os seus conselhos para o minúsculo Partido Comunista britânico lemos: “esperar pelo momento oportuno — um dia a Inglaterra será vossa — quando obtiverem a vitória, não os matem, deem-lhes uma casa”. Ao búlgaro de terceiro escalão Todor Jivkov, um dos mais jovens presentes, Mao observou: “Você é jovem e inteligente [...] Quando o socialismo for vitorioso em todo o mundo, proporemos você para presidente da comunidade mundial”. Ninguém, exceto Jivkov, achou que Mao falava sério. Ele fascinou alguns, mas não obteve o tipo de respeito que se traduz em fidelidade ou confiança.
Mao atribuiu esse fracasso à falta de força econômica e militar da China. “Somos uma árvore pequena e a União Soviética é uma árvore alta”, disse a Gomulka, citando a produção de aço como medida de comparação. Ele estava decidido a remediar isso. Em seu discurso final, anunciou: “O camarada Khruchióv me contou que em quinze anos a União Soviética pode superar os Estados Unidos. Eu também posso dizer que em quinze anos poderemos alcançar ou superar a Grã-Bretanha”. O subtexto era que ele estava na corrida, tanto quando Khruchióv.
Para humilhar o líder soviético, Mao adotou um estilo grandioso, falando com ele com tom professoral: “Você tem um gênio irritadiço, que tende a fazer inimigos [...] deixe as pessoas expressarem suas diferentes opiniões e fale com elas devagar”. Na presença de uma grande plateia, Mao assumiu ar ainda mais superior:
Todos precisam de apoio. Um sujeito capaz precisa da ajuda de outras três pessoas, uma cerca precisa de três
estacas para sustentá-la. São provérbios chineses. Um outro provérbio chinês diz que, com toda a sua beleza,
o lótus precisa do verde de suas folhas para resplandecer. Você, camarada Khruchióv, embora seja um lindo
lótus, também precisa das folhas para resplandecer.
Nesse ponto, segundo um participante, Khruchióv “pendeu a cabeça e ficou muito
vermelho”. c
Pior do que isso, diante dos delegados de 64 países, Mao levantou a questão da tentativa de derrubar Khruchióv ocorrida meses antes e descreveu Mólotov, o principal conspirador, como “um velho camarada com uma longa história de luta”, dizendo que a linha de Khruchióv era apenas “relativamente correta”; nesse ponto, um silêncio mortal caiu sobre o salão. Mao costumava dizer para altas autoridades soviéticas coisas como “Gostamos muito de Mólotov”. (Em 1955, o detestável Mólotov chamara a China de “colíder” do campo comunista.)
Em suas memórias, Khruchióv escreveu sobre a “megalomania” de Mao: “[Ele] se julga um homem enviado por Deus para cumprir suas ordens. Na verdade, Mao provavelmente pensava que Deus cumpria as ordens dele”. Mas ele não estava sendo apenas megalomaníaco, estava deliberadamente procurando diminuir a estatura de Khruchióv e elevar a própria. O líder russo aguentou tudo isso em nome de preservar a unidade do campo comunista. Essa preocupação amarrava suas mãos em relação a Mao e este explorou esse ponto fraco ao máximo.
Após retornar de Moscou, Mao acrescentou a sua lista de compras outro artigo muito querido: submarinos nucleares, que Pequim considerava “o ás do arsenal moderno”. Em junho de 1958, Chou escreveu para pedir a Khruchióv a tecnologia e os equipamentos para fabricar esses submarinos, bem como porta-aviões e outras grandes belonaves.
Dessa vez Khruchióv não se limitou a dar o que Mao pedia, tentou obter uma compensação: o uso da longa costa chinesa, que dava acesso fácil a alto-mar, ao contrário da Rússia. Khruchióv sugeriu que a China (e o Vietnã) poderia cotripular navios com os russos em troca do uso de portos chineses (e vietnamitas). O embaixador apresentou essa proposta para Mao em 21 de julho.
Mao queria uma frota própria e construir os próprios navios. Com o objetivo de arranjar uma desculpa para recusar a proposta russa de cooperação, encenou um acesso de raiva. No dia seguinte, convocou Iúdin e lhe disse: “Você me perturbou tanto que não dormi a noite inteira”. Depois distorceu a proposta de Moscou, transformou-a numa questão de soberania e acusou os russos de “querer nos controlar” por meio de “uma frota conjunta”. “Em resumo, vocês não confiam nos chineses.” No meio do escarcéu, ele inseriu sua verdadeira exigência: “Vocês devem ajudar-nos a construir uma Marinha! [...] Queremos ter duzentos ou trezentos submarinos [nucleares]” (grifo nosso).
Khruchióv ficou alarmado com o ataque de Mao, como este esperava, e correu para Pequim em segredo, em 31 de julho. Mao recebeu-o de forma ostensivamente gelada. Quando começaram a primeira conversa, Khruchióv declarou de imediato: “Ninguém pensou numa frota conjunta”. Depois de muita linguagem bombástica, Mao recuou e concedeu que sua interpretação da proposta russa fora infundada, que ele havia “perdido o sono” por nada, embora continuasse a agir como se seu orgulho nacional tivesse sido mortalmente ferido. Mas a encenação de Mao fizera Khruchióv avançar mais da metade do caminho e o líder soviético se ofereceu para montar na China “uma grande planta industrial [...] para fabricar um grande número de submarinos nucleares”. Para manter a pressão, Mao deu fortes indicações de que, se assim não fosse, os russos poderiam ser obrigados a entrar numa guerra: “Agora que não temos uma frota de submarinos nucleares, podemos muito bem entregar toda a nossa costa para vocês, para que lutem por nós”. Depois, para deixar bem claro o que dizia, assim que Khruchióv foi embora, fabricou uma situação de guerra, usando novamente Taiwan.
A segunda crise do estreito de Taiwan foi muito parecida com a primeira, de 1954-55, que Mao encenara para obter a tecnologia da bomba atômica. Dessa vez, seu objetivo eram submarinos nucleares e outros conhecimentos de alta tecnologia militar. Em 23 de agosto, abriu uma barragem de artilharia contra a ilha de Quemoy, o trampolim para Taiwan, cobrindo a minúscula ilha com mais de 30 mil bombas (principalmente de fabricação russa). Washington pensou que Mao estava realmente disposto a atacar Taiwan. No Ocidente, ninguém suspeitava de seu verdadeiro objetivo: forçar os Estados Unidos a ameaçar a China com uma guerra nuclear, a fim de assustar seus aliados russos, num estratagema único nos anais da arte de governar.
Os americanos deslocaram uma grande frota para a região e, em 4 de setembro, o secretário de Estado John Foster Dulles anunciou que os Estados Unidos se comprometiam em defender não somente Taiwan, mas também Quemoy, e ameaçavam bombardear a China continental. O Kremlin ficou muito nervoso com a possibilidade de um confronto armado com os Estados Unidos e mandou o ministro do Exterior Andrei Gromyko em segredo a Pequim no dia seguinte. Gromyko levou o rascunho de uma carta de Khruchióv a Eisenhower, que dizia que um ataque à China “é um ataque à União Soviética”. O líder russo pedia os comentários de Mao; esperava que fossem uma tranquilização de que as coisas não chegariam a tal ponto. Mao cedeu, dizendo a Gromyko que “dessa vez não vamos atacar Taiwan, nem vamos lutar com os americanos, então não haverá uma guerra mundial”. Mas deixou claro que uma guerra em relação a Taiwan estava definitivamente nos planos “para o futuro”, e que seria provavelmente uma guerra nuclear.
Khruchióv achava que Mao poderia muito bem desencadear uma tal guerra, mas escreveu em suas memórias: “Não tomamos nenhuma medida para conter nossos camaradas chineses porque julgávamos que estavam absolutamente certos em tentar unificar todos os territórios da China”. Essa era a beleza de Taiwan como questão para Mao: mesmo que ele ameaçasse causar uma terceira guerra mundial, Moscou não poderia lhe faltar.
Depois de criar esse cenário de uma futura guerra nuclear com os Estados Unidos por causa de Taiwan, Mao mexeu fortemente com os nervos russos. Disse a Gromyko que gostaria de discutir em algum momento com Khruchióv sobre como coordenar as coisas na eventualidade de tal guerra e depois levantou o espectro da destruição da Rússia. Quando a guerra terminar, perguntou ele, “Onde deveremos construir a capital do mundo socialista?”, o que implicava o desaparecimento de Moscou. E continuava propondo que a nova capital se localizasse numa ilha feita pelo homem no Pacífico. Esse comentário deixou Gromyko tão espantado que ele quis excluí-lo do telegrama que mandou para Moscou; lá, o Kremlin “deu particular atenção” ao gracejo de Mao, de acordo com o auxiliar que redigiu o telegrama.
Depois de abalar Gromyko, Mao tratou de apaziguá-lo, dizendo que a China se responsabilizaria pela guerra nuclear vindoura. “Nossa política é de que assumiremos todas as consequências dessa guerra. Enfrentaremos os Estados Unidos, e [...] não arrastaremos a União Soviética para essa guerra.” O problema, prosseguiu Mao, é que “temos de fazer preparativos para travar a guerra com os Estados Unidos”, e isso incluía “preparativos materiais”. Chou En-lai explicou ao encarregado russo: “Fizemos planos para produzir armas modernas com a ajuda da União Soviética”. Mao deixara clara sua posição: vocês podem ficar de fora se me derem condições de travar a guerra sozinho.
Khruchióv entendeu. Em 27 de setembro, escreveu a Mao: “Obrigado por sua disposição em assumir sozinho um ataque, sem envolver a União Soviética”, e deu seguimento em 5 de outubro, anunciando que a crise de Taiwan era uma questão “interna” e que a Rússia não se envolveria no que ele chamava de “guerra civil”. Para Khruchióv, dizer que ele deixaria Mao travar uma guerra nuclear com os Estados Unidos por conta própria indicava sua aceitação de armar os chineses. No dia seguinte, Mao escreveu uma declaração em nome de seu ministro da Defesa, em que suspendia o bombardeio de Quemoy. Assim acabou a segunda crise do estreito de Taiwan.
Mao escreveu então a Khruchióv para confirmar que ficaria muitíssimo contente caso a China travasse sozinha uma guerra nuclear com os Estados Unidos. “Por nossa vitória definitiva, pela erradicação total dos imperialistas, nós [isto é, o povo chinês, que não fora consultado] estamos dispostos a suportar o primeiro ataque [nuclear americano].
Tudo não passa de uma grande pilha de gente morrendo d [grifo nosso]”.
Para manter viva a questão de Taiwan, mandou retomar o bombardeio de Quemoy, mas em dias alternados. Essa extravagância característica de Mao pressionou tremendamente a economia. O chefe do estado-maior do Exército, que não sabia das intenções dele, protestou: “Não faz sentido bombardear. Custa muito dinheiro [...] Por que fazer isso?”. Mao não achou nada para dizer, exceto acusar o general de ser “direitista”, e ele foi logo expurgado. O disparo de bombas caras sobre a ilha rochosa continuou por vinte anos e só parou depois da morte de Mao, no ano-novo de 1979, dia em que Pequim e Washington estabeleceram relações diplomáticas.
Entrementes, Khruchióv endossava várias transferências de alta tecnologia, o que levou a um espantoso acordo em 4 de fevereiro de 1959, pelo qual a Rússia se comprometia a ajudar a China a construir toda uma gama de navios e armamentos avançados, inclusive submarinos lança-mísseis balísticos de propulsão convencional e mísseis submarino-superfície. O pânico da primeira crise do estreito de Taiwan havia tirado os segredos da bomba atômica de Moscou; quatro anos depois, com a segunda crise, Mao arrancou de Khruchióv um acordo para transferir não menos do que toda a gama de equipamentos necessários para lançar a bomba.
A partir de 1953, quando Mao traçou pela primeira vez o Programa de Superpotência, sua escala cresceu prodigiosamente ao longo dos anos, mas cada expansão apenas agravara seu problema fundamental: como arrancar alimentos suficientes para pagar pelas compras. Em 1956, quando o alcance do programa era muito menor, as mortes por inanição se tornaram tão chocantes que seu Politburo costumeiramente dócil havia rejeitado o plano e forçado a diminuir seu ritmo. Agora, uma mortandade muito pior era iminente. Mas, dessa vez, Mao não precisou fazer concessões para seus colegas de governo. No decorrer de 1957, ele havia alterado uma coisa fundamental. Khruchióv não tinha mais autoridade em Pequim e Mao não se sentia mais constrangido por ele.
a Em Budapeste contava-se a seguinte piada sobre um homem que pedia chá. Quando lhe perguntavam “Que chá você quer, russo ou chinês?”, ele respondia: “Me dá café!”.
b Khruchióv entregou dois mísseis R-2 terra a terra de curto alcance que a China copiou, mas negou-se a transferir foguetes com um alcance de mais de 2900 quilômetros. Os russos também estacionaram um regimento de mísseis nos arredores de Pequim, com 63 mísseis R-1 e R-2, sobre o uso dos quais treinaram os chineses.
c Mao decidiu se passar por filósofo superior e usou uma linguagem cheia de metáforas chinesas, evasiva e quase impossível de traduzir para uma plateia não chinesa. Um dos intérpretes italianos relembrou: “A partir da tradução russa que ouvi, ninguém poderia entender o que Mao disse. Lembro que nossos tradutores puseram as mãos na cabeça”. Na verdade, até as plateias chinesas tinham de adivinhar o que Mao queria dizer quando empregava esse estilo.
d Mao dissera coisas parecidas antes, em linguagem menos abertamente desumana. Em 1955, contou ao embaixador finlandês que “as bombas atômicas americanas são poucas demais para acabar com os chineses. Mesmo que as bombas atômicas dos Estados Unidos fossem jogadas na China, abrissem um buraco na Terra ou a deixassem em pedaços, isso poderia ser uma boa coisa para o sistema solar, mas ainda seria questão insignificante em termos do universo como um todo”.