Mao: a história desconhecida

Jung Chang e Jon Halliday · Capítulo 23 de 69

Páginas do PDF

Mao: a história desconhecida

21. O cenário mais desejado: Stálin divide a China com o Japão

21. O cenário mais desejado:

 

Stálin divide a China com o Japão

 

(1939-40; 45-46 anos)

 

Em 23 de agosto de 1939, a União Soviética assinou um pacto de não agressão com a Alemanha nazista e, no mês seguinte, os dois países invadiram a Polônia e a dividiram entre eles. Muitos chineses ficaram escandalizados com o acordo de Stálin com Hitler. Esse sentimento talvez tenha sido mais bem articulado pelo fundador do PCC Chen Tu-hsiu, o homem que pusera Mao na trilha do comunismo, mas fora expulso do partido por ser independente demais. Após passar anos na prisão dos nacionalistas, ele foi libertado com outros prisioneiros políticos quando se formou a “frente unida” nacionalista-comunista, em 1937. Diante do pacto, ele escreveu um poema que expressava “dor e ódio” e comparava Stálin a um “demônio feroz”, que

invade imperiosamente seu país vizinho

[...] E cozinha vivos heróis e velhos amigos em única investida [...]

Certo e Errado mudam como dia e noite,

Preto e Branco alteram-se somente por suas ordens [...]

 

O pacto Stálin-Hitler abriu a perspectiva de que os russos fizessem um acordo semelhante com os japoneses e a China se tornasse uma segunda Polônia. Com efeito, naquele exato momento, o Kremlin assinou um cessar-fogo com o Japão e suspenderam-se as hostilidades que vinham acontecendo entre o Exército Vermelho soviético e os japoneses na fronteira da Mongólia Exterior com Manchukuo. O cenário polonês causou grande preocupação em Chiang Kai-shek, que ele expôs a Moscou. A reação de Mao, no entanto, foi de prazer. Toda a sua estratégia para a guerra com o Japão estava voltada para a intervenção da Rússia. Agora, aparecia uma verdadeira chance de que Stálin viesse a ocupar uma parte da China e pusesse Mao no comando.

No final de setembro daquele ano, quando Edgar Snow perguntou a Mao o que ele achava do pacto entre soviéticos e japoneses, sua resposta foi entusiástica. Ele disse que a Rússia poderia assinar tal pacto “desde que isso não prejudicasse seu apoio aos [...] interesses do movimento de libertação do mundo [isto é, Mao e o PCC]”. Perguntado se “a ajuda soviética ao movimento de libertação da China poderia tomar uma forma um pouco similar” à da ocupação russa da Polônia, Mao deu uma resposta muito positiva: “Está bem dentro das possibilidades do leninismo”. A Polônia era então o modelo de

Mao para a China. a

Do mesmo modo, Mao saudou a tomada do leste da Finlândia pela Rússia no início de 1940, embora não para consumo público. Numa diretiva secreta de 25 de junho, afirmou que o acordo de paz soviético-finlandês, pelo qual Moscou anexava grandes fatias do território da Finlândia, “garante a vitória do mundo e da revolução chinesa” (grifo nosso). Depois que a França foi dividida entre uma metade ocupada pela Alemanha e um regime títere com sede em Vichy, Mao traçou de novo uma comparação. Escreveu em linguagem codificada, numa circular enviada aos altos comandantes, em 1 o de novembro de 1940: “Há ainda a possibilidade de a União Soviética interferir para ajustar as relações China-Japão”. Referindo-se a uma divisão do tipo imposto à França, acrescentava que os comunistas poderiam “obter um acordo melhor [confiando] em que a União Soviética interferisse para fazer o ajuste e nós continuássemos a tentar”. De novo, Mao esperava que a Rússia dividisse a China com o Japão.

Ele tinha até uma linha de demarcação ideal, o Yangtze, que atravessa o meio da China. Para seu círculo mais íntimo, Mao sonhava com “traçar uma fronteira [...] no Yangtze, e nós mandaríamos numa metade”.

Reproduzir o cenário polonês estava, de fato, na cabeça de Stálin e a Rússia iniciou conversações com o Japão em setembro de 1939, logo depois da assinatura do pacto nazi-soviético, com o futuro da China no centro das negociações. Stálin, portanto, tinha um interesse muito direto na expansão do Exército Vermelho chinês e do território comunista, pois isso fortaleceria sua posição para negociar com o Japão e promoveria seus objetivos de longo prazo para o pós-guerra.

Durante o inverno de 1939-40 houve uma alteração marcante no que Mao contava a Moscou sobre os choques armados entre os comunistas chineses e as forças de Chiang. Ele se tornou muito mais franco sobre o nível da luta. Antes do pacto de Stálin com Hitler, Mao apresentava os choques como consequência de tentativas nacionalistas de aniquilar as forças comunistas e dizia estar agindo em autodefesa. Depois do pacto, começou a buscar a aprovação de Stálin para a expansão agressiva às custas de Chiang. Em 22 de fevereiro de 1940, mandou um relatório muito beligerante a Moscou no qual informava que, na luta contra as forças de Chiang, “a vitória é geralmente nossa”. “Exterminamos 6 mil [nacionalistas] em Hebei, 10 mil [...] em Shanxi”, relatou.

Stálin não disse “Pare!”. Ao contrário, três dias depois autorizou a enorme quantia de 300 mil dólares americanos por mês para o PCC. Quando Chou En-lai deixou Moscou pouco depois, levou com ele um novo sistema de rádio para comunicar-se com Moscou,

que entregou a Mao. b O auxiliar para língua russa de Mao observou: “Somente o presidente Mao tinha o direito de usá-lo. Ele cuidava de todas as comunicações pessoalmente e decidia a quem mostraria as informações”.

 

Após o pacto nazi-soviético e a perspectiva de que Stálin fizesse um acordo semelhante com o Japão, Mao iniciou em setembro de 1939 uma longa, íntima e pouco conhecida colaboração com o serviço secreto japonês, na esperança de sabotar ainda mais Chiang e preservar suas próprias forças. A operação do PCC foi chefiada por um homem chamado Pan Han-nian, que trabalhava com o vice-cônsul do Japão em Xangai, Eiichi Iwai, um oficial graduado do setor de informações. Pan ganhou uma identidade japonesa especial que dizia: “A todo o pessoal da polícia, das Forças Armadas e da gendarmeria: qualquer inquirição relativa ao portador, favor entrar em contato com o cônsul-geral japonês”. Um operador de rádio de Yenan foi instalado na casa de Iwai, para contato direto com Yenan, embora, no final, esse canal não tenha sido usado, pois foi considerado “arriscado demais”.

Pan forneceu informações a Iwai sobre a capacidade de resistir de Chiang, seus conflitos com o PCC e suas relações com potências estrangeiras, bem como sobre agentes americanos e ingleses em Hong Kong e Chongqing. Essas informações foram consideradas valiosas pelos japoneses: consta que uma delas deixou o embaixador japonês na China “vibrante de alegria”. Antes que o Japão invadisse Hong Kong, em dezembro de 1941, Iwai ajudou a arranjar a evacuação de agentes do PCC. Como Pan garantiu a Iwai, alguns agentes continuariam a coletar informações para os japoneses, enquanto outros iriam para Xangai a fim de “ajudar nosso ‘movimento pela paz’”. Esse “movimento” era o principal esforço não militar do Japão para forçar a rendição da China. Uma organização importante desse esquema era a “Reviver a Ásia e Construir o Movimento do País”, que Pan ajudou a iniciar, financiado por Tóquio e manejado, em larga medida, por comunistas secretos.

Os vermelhos usaram os japoneses para apunhalar os nacionalistas pelas costas. “Na época”, contou um agente de informações do PCC,

a tática de nosso partido com os japoneses e colaboradores era: “Use a mão do inimigo para atacar o outro

inimigo”. O camarada Kang Sheng nos disse isso muitas vezes [...] As organizações de colaboradores estavam

cheias de camaradas nossos, que usavam as facas dos japoneses para matar os nacionalistas [...] Das coisas que

eu sabia pessoalmente, a aniquilação pelos japoneses do [exército clandestino nacionalista] ao sul do Yangtze

[foi uma das] obras-primas da cooperação entre os japoneses e nosso partido. c

 

Além de sabotar Chiang, outra tarefa de Pan foi conseguir que os japoneses deixassem os comunistas agir sem serem molestados, chegando ao ponto de sondar o general de divisão Sadaaki Kagesa, o maior oficial da inteligência japonesa na China, sobre a ideia de um cessar-fogo secreto no norte da China.

No centro da China oriental, foi feito um acordo pelo qual o Novo 4 o Exército deixou de atacar as ferrovias em troca de os japoneses não o incomodarem no campo. Durante anos, os trens japoneses não tiveram problemas e o N4E expandiu-se com tranquilidade. O raciocínio japonês que estava por trás disso nos foi explicado pelo príncipe Mikasa, irmão do imperador Hirohito, que era oficial na China naquela época. Eles achavam que os comunistas poderiam ser um incômodo, mas que não tinham importância estratégica. Para os japoneses, Chiang Kai-shek era o principal inimigo.

 

Na primavera de 1940, imensos territórios do interior do norte da China já estavam nas mãos dos comunistas. Numa série de batalhas em março, logo após o sinal verde tácito de Stálin, os comunistas concentraram entre 30 mil e 40 mil soldados e destroçaram mais de 6 mil nacionalistas. Depois de estabelecer uma forte posição no norte, os comandantes do 8EM Zhu De e Peng De-huai sentiram que deveriam fazer alguma coisa contra os japoneses e, em 1 o de abril, ordenaram preparativos para operações de sabotagem de larga escala contra suas linhas de transporte. Mao negou permissão para o ataque. Em vez disso, mandou que todas as tropas disponíveis fossem levadas para o centro-leste da China, para tomar mais territórios nessa área. Zhu e Peng foram forçados a abandonar o plano.

A essa altura, Chiang convidou Zhu, que se preocupava com o conflito interno contínuo, para ir a Chongqing a fim de discutir uma solução. A caminho, Zhu parou em Yenan, pois Mao lhe dissera que um congresso do partido estava para acontecer. Zhu não encontrou o congresso — nem sinal dele. Não obstante, foi impedido de ir a Chongqing e, na verdade, ficou detido em Yenan pelo resto da guerra. Embora fosse o comandante em chefe do 8EM, não desempenhou nenhum papel no conflito e Mao o usou basicamente como um carimbo para suas ações.

Mao enviou outra pessoa a Chongqing — Chou En-lai, que passou a ser o único canal de comunicação com Chiang. Assim, ele completava seu domínio das comunicações com os dois lugares que importavam: Moscou e Chongqing.

Nessa ocasião — maio de 1940 —, a guerra sino-japonesa entrou numa fase crítica. Os japoneses intensificaram os bombardeios de Chongqing, que logo se tornou a cidade mais bombardeada do mundo até então; nos seis meses seguintes, a tonelagem de bombas lançadas sobre ela equivaleu a um terço do que os Aliados jogaram sobre o Japão durante toda a guerra no Pacífico; cerca de 10 mil civis morreram em um único ataque. Enquanto isso, o Exército japonês avançava Yangtze acima, na direção de Chongqing. Tóquio exigiu que a França fechasse a ferrovia que ligava a China ao Vietnã e que a Inglaterra fechasse a estrada da Birmânia, únicas rotas para a China, além daquelas que vinham da Rússia. Os dois países ocidentais aquiesceram, em 20 de junho e 18 de julho respectivamente (embora o fechamento da Inglaterra tenha sido apenas por três meses). Em Chongqing, crescia o sentimento a favor de um acordo com o Japão. Chiang — e a China — enfrentava uma crise muito grave.

Para Mao, a crise era uma dádiva — quanto pior, melhor. Ele disse depois que havia “esperado que eles [os japoneses] chegassem a [...] Chongqing”. Desse modo, calculava, a Rússia teria de intervir.

Mas Peng De-huai, agora comandante de facto do 8EM, graças à quase detenção de Zhu em Yenan, quis tirar um pouco da pressão sobre Chongqing e ressuscitou seus planos de uma grande operação de sabotagem das linhas de transporte japonesas no norte da China, com o nome pomposo de “Operação Cem Regimentos”. Em 22 de julho, ordenou que o 8EM estivesse pronto para o ataque em 10 de agosto e transmitiu o plano por rádio para Mao duas vezes. Não houve resposta. Como não recebeu resposta ao terceiro radiograma, deu sinal verde para o dia 20.

Peng sabia que Mao não ia gostar da operação. Ela não somente ajudaria Chiang como atingiria os comunistas, pois Tóquio certamente retaliaria contra os territórios vermelhos. Peng estava pondo o país à frente do partido.

A operação, que durou cerca de um mês, compreendeu sobretudo ataques a instalações, não a tropas japonesas. Ela pegou os japoneses “totalmente de surpresa”, nas próprias palavras deles. Os danos a ferrovias e estradas em algumas partes foram considerados “extremamente graves” e “em escala indescritivelmente grande” (o trabalho de sabotagem foi realizado, em parte, por trabalho de corveia). As minas de carvão de Jingxing, que alimentavam as importantes fundições e metalúrgicas de Anshan, na Manchúria, foram muito atingidas e a principal delas foi posta fora de combate “por pelo menos meio ano”. Os japoneses tiveram de tirar uma divisão do front contra Chiang e atrasar por algum tempo os planos de captura de duas ferrovias no sul da China.

O principal efeito ocorreu sobre o moral chinês, em especial nas áreas nacionalistas muito bombardeadas. A imprensa nacionalista elogiou o 8EM por tomar a ofensiva e por “dar um golpe mortal nos rumores inimigos de que estamos divididos e mergulhados em luta intestina”. De Chongqing, Chou mandou uma mensagem a Mao dizendo que a operação tivera “um impacto extremamente grande”. “Estamos divulgando-a e propagando-a por toda parte [...] agora é o momento para difundir a influência de nosso partido”. Mao aproveitou-se o quanto pôde da situação.

Mas em privado estava furioso, em parte porque a operação levou a pesadas baixas comunistas — 90 mil, de acordo com Zhu De. Os japoneses lançaram represálias extremamente duras contra territórios controlados pelos vermelhos, que em breve se reduziram à metade; a população sob domínio comunista caiu de 44 milhões para cerca de 25 milhões. Mas Peng logo colocou o 8EM e as bases novamente de pé. Em pouco mais de dois anos, o 8EM mais do que recuperou sua força pré-1940, reunindo 400 mil soldados, e Peng reconstruiu as áreas de suas bases.

Mas o que mais enfureceu Mao foi que a iniciativa diminuiu as chances de derrota de Chiang — e, portanto, de intervenção da Rússia. Em anos futuros, Mao faria Peng pagar caro por essa que foi a única operação de larga escala realizada pelas forças comunistas durante todos os oito anos da ocupação japonesa.

 

Entrementes, apesar dos bombardeios, Chongqing resistiu e Chiang não sucumbiu. Mao tinha de encontrar outra maneira de fazer com que os russos entrassem na China. Chiang apresentou então um plano para acabar com a luta entre nacionalistas e comunistas: separar fisicamente as duas forças. A essa altura, o 8EM controlava a maioria dos territórios que poderia esperar dominar no norte da China, de modo que a luta nessa região acabara. O principal teatro da guerra civil se deslocara para o vale do Yangtze, perto de Xangai e Nanquim. O plano de Chiang previa que o N4E comunista saísse da região do Yangtze e se unisse ao 8EM no norte, em troca de deixar os comunistas manterem praticamente todos os territórios tomados no norte do país. Em 16 de julho de 1940, Chiang ofereceu essa troca, expressa na forma de uma “ordem”, e deu ao N4E o prazo de um mês.

Mao não tinha intenção alguma de desistir do rico e estratégico centro do país e recusou categoricamente a ordem-oferta de Chiang. Na realidade, ele esperava que Chiang usasse a força para remover o N4E e que ocorresse uma guerra civil total. Conforme escreveu o embaixador russo Pániushkin, o cálculo de Mao era que “se houvesse uma guerra civil, os russos apoiariam o PCC”, e ele queria “avançar nesse sentido”.

Em seus muitos telegramas a Moscou daquele verão, Mao instou os russos a ajudá-lo a infligir “sérios golpes” nos nacionalistas. Em vez de ir para o norte, o N4E lançou seu maior ataque até então aos nacionalistas no início de outubro, em um lugar chamado Ponte Amarela, quando aniquilou 11 mil soldados e matou dois generais. Chiang não ordenou nenhuma retaliação e manteve silêncio sobre a derrota, como fizera muitas outras vezes. Ao contrário de Mao, ele temia deflagrar uma guerra civil total, que acabaria com as chances da China contra o Japão. Apenas reiterou, em 19 de outubro, que o N4E deveria deslocar-se para as “áreas apontadas” dentro de um mês.

Mao respondeu ao segundo prazo com silêncio. Ele queria instigar o Generalíssimo a recorrer à força, para que a guerra civil total começasse e, como disse a Chou, “a União Soviética entrasse no conflito”. De novo, Chiang não tomou nenhuma medida. Mao conhecia os pontos fracos do Generalíssimo. Em 3 de novembro, escreveu a Chou: “O que Chiang mais teme é a guerra civil e a União Soviética. Então, podemos intimidá-lo com isso”.

Em 7 de novembro de 1940, aniversário da revolução bolchevique, Mao apelou a Moscou com sua proposta mais abertamente belicosa até então. Assinado por ele mesmo, o telegrama era endereçado a Dimítrov e Manuilski, seu principal apoio no Comintern. Cópias foram enviadas a Stálin e ao ministro da Defesa, Semion Timochenko. Seu plano era despachar 150 mil soldados “para dar um golpe” na retaguarda de Chiang. Ele chamou isso de “contraofensiva preventiva”, isto é, ele dispararia o primeiro tiro.

Mao pedia a Moscou para endossar o início de uma guerra civil total, em meio à guerra sino-japonesa. O motivo de sentir-se capaz de se aventurar a tanto foi sua percepção de que os últimos acontecimentos poderiam fazer com que Stálin ficasse a favor de um ataque a Chiang. O Kremlin vinha considerando sua entrada no Pacto Tripartite do qual o Japão era membro, junto com a Alemanha nazista e a Itália fascista. Se Mao atacasse agora, formando uma pinça com o Japão, Chiang poderia desmoronar. Se Mao contribuísse para a derrota de Chiang, isso fortaleceria a posição de Stálin nas negociações com o Japão.

A súplica de Mao a Moscou para que o deixassem entrar nessa aliança ímpia com Tóquio chegou quando o ministro do Exterior, Mólotov, estava prestes a viajar a Berlim, onde um de seus objetivos era conseguir a ajuda de Hitler para que Moscou pudesse interferir na guerra sino-japonesa. Da agenda de Mólotov constava: “Discutir a necessidade de obter uma paz honrosa (sic) para a China (Chiang Kai-shek) em que a União Soviética possa, com a participação de A[lemanha] e I[tália], estar pronta para mediar [...] (Manchukuo fica para J[apão]”. Mólotov disse então ao Führer: “Precisamos encontrar uma saída conciliatória da situação prevalecente entre China e Japão [...] nesse sentido, a União Soviética e a Alemanha poderiam desempenhar um papel importante”. Mas Hitler não estava interessado.

Os termos que o Japão ofereceu sobre a China não estavam à altura das expectativas de Stálin. Tóquio concordava somente com “uma esfera de influência russa na Mongólia Exterior e em Xinjiang”, o que não atraía Stálin, pois ambas já estavam em seu bolso. O Japão também considerava “reconhecer e aceitar que as três províncias do noroeste (Shaanxi, Gansu e Ningxia) continuassem a ser bases comunistas chinesas” — sob a condição de que a Rússia concordasse em “coibir as atividades antijaponesas dos comunistas chineses”. Mas essa ideia também não era suficiente para Stálin, pois o PCC já ocupava um território muito maior do que essas três províncias.

O fracasso do acordo com Tóquio significou que a prioridade de Stálin continuava a ser a protelação da possibilidade de um ataque do Japão à Rússia, e isso significava que Mao ainda não poderia ter sua guerra total contra Chiang. Stálin queria uma China unida que pudesse continuar a segurar os japoneses. Quando ele mandou o general Tchuikov como seu novo conselheiro militar, dessa vez para Chongqing, o general perguntou por que estava sendo enviado “a Chiang Kai-shek e não para o Exército Vermelho chinês”. Stálin respondeu: “Sua missão é amarrar firmemente as mãos do

agressor japonês na China”.d

Assim, a ordem do Kremlin a Mao em 25 de novembro foi: “Por enquanto, ganhe tempo, manobre e negocie com Chiang Kai-shek de todos os modos possíveis a remoção de suas forças do centro da China [...] É essencial que você não inicie uma ação militar [isto é, contra Chiang]”. Mas Moscou autorizou Mao a revidar, se fosse atacado: “Porém, se Chiang Kai-shek [...] atacar, você deve golpear com todas as suas forças [...] Nesse caso, a responsabilidade pela cisão e a guerra civil recairá totalmente sobre Chiang”.

Isso deixou Mao com uma esperança: que Chiang disparasse o primeiro tiro. Mas, quando os prazos para que o N4E fosse para o norte venceram e foram renovados, Mao chegou à conclusão de que “não há possibilidade de Chiang lançar um grande ataque”.

Como não conseguiu provocar Chiang a dar o primeiro tiro, Mao armou uma situação em que o dedo de Chiang seria forçado a puxar o gatilho.

 

a As observações de Mao sobre o modelo polonês e o pacto soviético-japonês não caíram bem em Moscou. Eram sinceras demais, e seguiu-se uma dura censura. “A essência provocativa dessa declaração deve ser desmascarada”, telegrafou o chefe do Comintern Dimítrov a Mao. “Solicitamos urgentemente que Mao Tse-tung e outros camaradas chineses evitem dar entrevistas a correspondentes estrangeiros como a concedida a Edgar Snow, pois isso é usado para fins provocativos.” Mao manteve a boca fechada em público e Snow foi barrado da China dominada pelos comunistas até a cisão sino-soviética, em 1960.

b O novo sistema era altamente eficaz. Os japoneses não conseguiam nem localizar as rádios, muito menos decifrar os códigos.

c O acordo de Mao não parece ter se estendido à cooperação militar no campo de batalha, embora o chefe do GRU soviético em Yenan tenha relatado certa ocasião em que as tropas comunistas atacaram forças nacionalistas em Shandong, no verão de 1943, “em coordenação com tropas japonesas”.

d A outra missão de Tchuikov, que ele não mencionou em suas memórias, era fazer uma avaliação experiente da capacidade dos comunistas chineses de tomar o poder depois que o Japão fosse derrotado.