Mao: a história desconhecida
22. Armadilha mortal para seus próprios homens
22. Armadilha mortal para
seus próprios homens
(1940-41; 46-47 anos)
O comissário político do Novo 4 o Exército, estacionado no centro-leste da China, era Xiang Ying, um velho adversário de Mao. Uma década antes, Mao tentara eliminá-lo quando ele se opusera às torturas e mortes do expurgo AB. E Xiang Ying desaconselhara a participação de Mao na Longa Marcha, prevendo que ele tramaria a tomada do poder. E continuara a criticá-lo, às vezes até zombando dele.
O QG de Xiang Ying, com cerca de mil funcionários e 8 mil soldados de escolta, situava-se num lugar pitoresco chamado Pico da Névoa, perto da que talvez seja a montanha mais linda da China, Huangshan, a Montanha Amarela, onde, diante de nossos olhos atônitos, as nuvens correm, dançam, se enfurecem e se desfazem numa velocidade espantosa em torno de rochas de aparência gótica. Em dezembro de 1940, o grupo de Xiang Ying era a única parte do N4E ao sul do Yangtze, pois Mao mandara 90% dos soldados desse exército para o norte do rio e os colocara em um quartel separado, dirigido por seu aliado Liu Shao-chi.
Naquele mês, Mao criou uma situação para que o grupo de Xiang Ying fosse morto pelo Exército nacionalista, na esperança de que o massacre persuadiria Stálin a deixá-lo desencadear a guerra contra Chiang. Meses antes, em julho, o Generalíssimo havia instruído o N4E a seguir para o norte, uma ordem que Mao desafiara. Porém, em dezembro, Mao mandou Xiang levantar acampamento e atravessar para o norte do Yangtze.
Havia duas rotas que Xiang poderia tomar. A mais curta ia direto para o norte (a Rota do Norte). A segunda o levaria para sudeste, para depois atravessar o Yangtze bem mais abaixo (a Rota do Leste). Em 10 de dezembro, o Generalíssimo designou a Rota do Norte, e Mao confirmou essa diretriz para Xiang no dia 29.
Então, no dia seguinte, Mao disse subitamente a Xiang para seguir pela Rota do Leste, a que fora vetada pelo Generalíssimo, mas não contou a este. Assim, Chiang pensou que os comunistas seguiriam pela rota combinada. Em 3 de janeiro de 1941, chegou no QG de Xiang um telegrama do próprio Generalíssimo, especificando o itinerário e acrescentando: “Ordenei que todos os exércitos ao longo do caminho garantam sua segurança”.
Xiang respondeu de imediato, dizendo que não iria pela rota que Chiang designara e pedindo a liberação da Rota do Leste. Mas essa mensagem crucial jamais chegou ao Generalíssimo — graças a Mao. Ele proibira os comandantes comunistas de se comunicarem diretamente com Chiang: todos os contatos deviam ser canalizados através dele. Xiang mandou a mensagem via Mao e este não a encaminhou. Assim, na noite de 4 de janeiro de 1941, Xiang partiu sob chuva e frio invernal pela rota escolhida
por Mao, sem saber que Chiang jamais vira seu telegrama. a
Xiang e seus soldados marcharam na direção de uma força nacionalista muito maior, que, por não saber da aproximação de sua unidade e muito menos que ela estava apenas de passagem, julgou tratar-se de um ataque. A luta estourou no dia 6. Nesse dia, o comandante nacionalista local, general Ku, deu ordens para “exterminar” os comunistas.
Xiang enviou telegramas frenéticos a Yenan, implorando que Mao instruísse os nacionalistas a suspender o fogo. Mas Mao não fez nada. Quando Liu Shao-chi, que estava com a principal força do N4E ao norte do Yangtze, telegrafou sobre a situação a Yenan no dia 9, Mao fingiu ignorância e disse que a última notícia que tivera de Xiang era do dia 5 — “depois disso, não sabemos de nada”.
No período mais crítico da luta sangrenta, entre 6 e 9 de janeiro, Mao afirmou não ter recebido nenhum comunicado. Durante esses dias, os operadores de rádio de Xiang mandaram várias mensagens desesperadas de SOS e Liu Shao-chi não teve problemas em recebê-las. É muito difícil acreditar que as comunicações de Mao se tivessem convenientemente “interrompido” justo nos quatro dias em que o QG do N4E estava sendo massacrado. E, mesmo que houvesse alguma interrupção, isso não explica por que Mao não moveu uma palha, durante vários dias, para retomar o contato. Mao tinha um histórico de usar “problemas com o rádio” como desculpa para eliminar informações (após o sequestro de Chiang Kai-shek em 1936, dissera que não conseguira receber uma mensagem vital de Moscou). Para ele, quanto maior o banho de sangue, maior seu pretexto para voltar-se contra Chiang; além disso, estava sacrificando uma pessoa — Xiang Ying — de quem ficaria contente de se livrar.
Depois que Liu levantou a questão do aperto do N4E no dia 9, o rádio de Mao voltou miraculosamente a funcionar. A partir desse dia, apelos urgentes do QG do N4E começaram a ser registrados. No dia 10, o QG suplicou a Mao: “à beira da destruição [...] Por favor, faça rapidamente representações a Chiang e Ku para suspender o cerco. De outro modo, toda a força será aniquilada”. Mao não fez nada.
No mesmo dia, Xiang Ying tentou de novo telegrafar a Chiang, novamente via Mao — um apelo que também foi escondido do Generalíssimo, como Mao revelou a Chou (no dia 13): “Não o mandei para você [...] Este radiograma não deve ser encaminhado de forma alguma”.
Na noite do dia 11, Chou participava de uma recepção em Chongqing para comemorar o terceiro aniversário do Diário Nova China, do PCC, quando chegou uma mensagem de Mao. Chou anunciou ao grupo reunido que o QG do N4E havia sido cercado e atacado. Mas, mesmo então, o telegrama que Mao enviou não era uma ordem para agir, mas apenas “para sua informação”.
Foi somente no dia seguinte que Mao enfim instruiu Chou a “fazer sérias representações a fim de levantar o cerco”. Mas o grau da crise foi cuidadosamente abrandado (“eles dizem que podem segurar por sete dias” era uma distorção dos relatórios muito mais desesperadores recebidos nos dias anteriores). Chou não fez nenhum protesto sério até o dia 13, depois que Chiang suspendera a matança por conta própria, no dia anterior.
Em 13 de janeiro, depois que o massacre acabou, Mao voltou subitamente à vida e instruiu Chou a iniciar uma campanha de relações públicas a favor de uma guerra total contra Chiang. “Uma vez tomada a decisão”, disse ele, “avançaremos direto para Sichuan [a base de Chiang]. Agora é uma questão de cisão total [...] de como derrubar Chiang.”
Como seu exército não estava à altura do dos nacionalistas, Mao não poderia alcançar seus objetivos sem a intervenção de Stálin. Chou visitou o embaixador soviético em 15 de janeiro para convencê-lo de que os comunistas precisavam de socorro, mas foi recebido com frieza. Em suas memórias secretas, Pániushkin registrou a suspeita de que
Mao montara uma armadilha para Xiang Ying e que Chou havia mentido. b
Enquanto isso, Mao apelava diretamente a Moscou em favor de uma guerra total contra Chiang, com o que o serviço secreto russo chamou de “um telegrama histérico após o outro”, argumentando que o plano dos nacionalistas era destruir primeiro o N4E, depois o 8EM, e então “esmagar o PCC”. “Há o perigo de nosso exército ser completamente aniquilado”, informou Mao a Moscou.
“Perigo de guerra civil”, anotou em seu diário o chefe do Comintern Dimítrov, em 16 de janeiro, dia em que esse telegrama chegou, chamando o N4E de “nossas tropas”. Moscou não acreditou na afirmação de Mao de que Chiang estava prestes a “aniquilar” o PCC e lhe disse isso. Ele respondeu com outro telegrama alarmista, pedindo especificamente que fosse entregue “ao cda. [camarada] Stálin para que ele possa avaliar a situação na China e ver se pode nos dar ajuda militar concreta logo”. “Ajuda” significava intervenção direta, não apenas armas e auxílio. Essa insistência inoportuna parece ter aborrecido Stálin. Na cerimônia do aniversário da morte de Lênin, em 21 de janeiro, ele se referiu com desprezo ao comandante nominal do N4E, Ye Ting, que em outra ocasião os russos haviam pensado em despachar para o gulag, classificando-o de “partidário indisciplinado”. “É preciso verificar se ele não provocou este incidente. Nós também tivemos um bom número de bons partidários que fomos obrigados a fuzilar devido à falta de disciplina deles.” Dimítrov repetiu a Stálin, com mais firmeza do que antes: “Não tome a iniciativa de romper”.
Escrevendo a Stálin, Dimítrov responsabilizou Mao pessoalmente: “Os camaradas chineses [...] estão insensatamente procurando a cisão; nós decidimos [...] chamar a atenção do c[amarada] Mao Tse-tung para essa posição incorreta”. Em 13 de fevereiro, Stálin endossou a ordem de Dimítrov ao PCC, enviada para Mao pessoalmente. Era peremptória: “Consideramos que uma cisão não é inevitável. Você não deve procurar uma cisão. Ao contrário, você deve [...] fazer todo o possível [...] para evitar a irrupção da guerra civil. Por favor, reconsidere sua posição atual sobre essa questão”. Um telegrama de Mao no mesmo dia cedeu à linha de Moscou, mas vibrava com determinação de pegar Chiang: “A cisão é inevitável no futuro”, insistiu ele.
Mao previra a decisão de Moscou dias antes. Ela o deprimiu muito e levou-o a escrever uma carta muito incomum aos seus filhos que estavam na Rússia (aos quais raramente escrevia) em 31 de janeiro:
Meus filhos An-ying e An-ching:
[...] Vendo o progresso que vocês fizeram, estou muito feliz. An-ying escreve bem, os caracteres chineses
não estão nada ruins e vocês têm aspiração para realizações: tudo isso é muito bom. Tenho apenas uma coisa
a sugerir aos dois: enquanto são jovens, estudem mais ciências naturais e falem menos de política. É preciso
falar sobre política, mas, no momento, vocês devem se concentrar no estudo das ciências naturais [...]
Somente a ciência é conhecimento real e terá uso ilimitado no futuro [...]
Em comparação com suas cartas anteriores, mais secas e parecidas com bilhetes, esta era longa e íntima, até pensativa. Exalava fadiga. O que é mais extraordinário e absolutamente singular é que ele dizia aos filhos para evitar a política!
Mao pode ter fracassado em sua tentativa de provocar uma guerra total contra Chiang, mas obteve várias vitórias longe de serem negligenciáveis. Uma das mais gratificantes foi a morte de seu crítico mais franco. Xiang Ying escapou depois que o Generalíssimo instruiu o Exército nacionalista a parar com a luta, mas nas primeiras horas da madrugada de 14 de março, quando dormia numa caverna na montanha, foi morto a tiros por seu ajudante de ordens, que se voltara contra os comunistas havia pouco tempo. O ajudante pegou o ouro e as coisas de valor que Xiang Ying trazia nos bolsos e se entregou aos nacionalistas.
Dois meses antes da morte de Xiang, quando ele acabara de escapar da armadilha mortal, Mao escreveu uma feroz condenação dele às autoridades do partido, insinuando que ele era “um agente do inimigo” (ainda hoje, Xiang Ying é considerado amiúde culpado, junto com Chiang Kai-shek, pelas mortes dos homens e das mulheres do N4E).
Livrar-se de Xiang Ying foi apenas um dos ganhos de Mao. Outro foi a permissão para o N4E permanecer onde estava. Chiang estava desesperado para evitar uma guerra civil total em meio à guerra contra o Japão. Os russos exerceram então grande pressão sobre o Generalíssimo para que ele não impedisse — e muito menos fizesse voltar atrás — a expansão dos comunistas. O general Tchuikov fez uma conexão explícita entre a concordância de Chiang em entrar na linha e a continuação da ajuda russa aos nacionalistas. O embaixador russo observou como o Generalíssimo estava fora de si de raiva. Ele “recebeu minha declaração muito nervoso”, escreveu Pániushkin. “Andava para lá e para cá no gabinete [...] e tive de repetir minha pergunta três vezes.”
Chiang estava também muito vulnerável às pressões vindas dos Estados Unidos, que eram sua única esperança de se livrar da dependência das armas russas. O presidente americano Franklin D. Roosevelt, cuja maior preocupação era (tal como a de Stálin) manter a China em luta com o Japão pelo maior tempo possível, não tinha nenhuma influência sobre os comunistas, de modo que pressionou Chiang o mais que pôde, condicionando a ajuda ao seu governo ao final do conflito civil — independentemente de quem fosse seu causador. Na esteira do incidente do N4E, os meios de comunicação dos Estados Unidos anunciaram que Washington estava discutindo a retenção de um empréstimo de 50 milhões de dólares por causa da luta civil. Essa notícia chegou justamente quando a ajuda americana poderia ter desempenhado um papel importante, pois a rota aérea sobre o Himalaia, conhecida como “a Corcova”, abriu-se em 25 de janeiro.
Roosevelt se apoiava muito, para informações sobre a China, numa rede privada que incluía Edgar Snow, contornando em larga medida o Departamento de Estado, no qual não confiava. Seu principal informante era um oficial da Marinha chamado Evans Carlson, que elogiava os comunistas em seus relatórios deslumbrados enviados à Casa Branca; Roosevelt repassava esses relatórios de forma pouco crítica aos membros de seu círculo íntimo, um dos quais lhe disse que a versão dos eventos de Carlson era corroborada pelo livro de Snow. Carlson estava em Chongqing na época do incidente com o N4E e logo depois retornou a Washington a fim de transmitir a versão dos comunistas para Roosevelt em pessoa.
No que dizia respeito à ajuda, a Grã-Bretanha não contava, mas Chiang aspirava a ficar próximo do bloco anglo-americano e, portanto, era suscetível à pressão inglesa. O primeiro-ministro Winston Churchill não gostava de Chiang e o considerava militarmente inútil e uma ameaça em potencial aos interesses britânicos na China. O embaixador Clark Kerr informou a Chiang que, na eventualidade de uma guerra civil, a Grã-Bretanha não o apoiaria, independentemente de quem começasse a luta. No período que cobre o incidente do N4E, seus conselhos a Londres favoreciam muito os comunistas. Ele disse abertamente que Chou En-lai valia sozinho todos os nacionalistas juntos.
Na esteira do incidente com o N4E, Moscou organizou uma imensa campanha de publicidade contra Chiang no Ocidente. A propaganda comunista dizia que cerca de 10 mil haviam sido massacrados. Na verdade, o total de baixas ficou em torno de 2 mil. Três mil conseguiram escapar, dando meia-volta e seguindo para o lado comunista pela Rota do Norte, aquela designada por Chiang. Não foram molestados na travessia.
Chiang não montara uma armadilha, mas defendeu-se mal. Seu governo anunciou o desmantelamento do N4E, dando a impressão de que os nacionalistas o haviam aniquilado intencionalmente. Chiang também foi prejudicado pelo fato de não ter protestado em público sobre os muitos e maiores choques anteriores em que suas tropas haviam sido as vítimas; ele chegou mesmo a suprimir as notícias sobre esses eventos, argumentando que o conflito civil era ruim para o moral nacional — e para a ajuda internacional (que estava condicionada por todas as potências estrangeiras à ausência de conflito civil). Esse silêncio do Generalíssimo foi de grande serventia para os comunistas. Como disse o comandante em chefe Zhu De: “Eles [os nacionalistas] ficaram em silêncio, e nós ficamos em silêncio também. Eles são derrotados e ficam quietos; nós vencemos, então por que deveríamos divulgar isso?”. Em consequência de todos esses fatores, muitos ocidentais só ficaram sabendo do incidente do N4E e o consideraram um ataque traiçoeiro em larga escala dos nacionalistas aos inocentes comunistas.
A máquina de propaganda comunista era eficaz. Em Chongqing, a sinfonia de desinformação de Mao era conduzida por Chou En-lai, o único que sabia do papel assassino de Mao na morte de seus próprios homens e mulheres do N4E. Esse cúmplice de Mao tinha enorme sucesso na disseminação da mentira, graças ao seu charme. A jornalista americana Martha Gellhorn, que o conheceu nessa época, nos disse que, a um aceno dele, teria seguido Chou até o fim do mundo, mas a observação de seu marido, Ernest Hemingway, capta o principal atributo de Chou: “Ele faz um belo serviço ao vender o ponto de vista comunista sobre qualquer coisa que venha à baila”.
Nos Estados Unidos, em 22 de janeiro, o New York Herald-Tribune publicou uma reportagem altamente favorável à versão dos eventos dada pelos comunistas, escrita por Edgar Snow, que começava com estas palavras: “O primeiro relato confiável dos recentes choques”. No entanto, o texto de Snow estava inteiramente baseado em um homem do setor de informações do PCC em Hong Kong.
Enquanto a versão comunista viajava pelo mundo, outras observações eram desviadas por amigos que Moscou e o PCC tinham nos Estados Unidos. Hemingway, que esteve na China logo após o incidente do N4E, fez algumas observações agudas sobre os comunistas: “como bons comunistas, eles tentarão expandir sua esfera de influência [...] independentemente dos limites territoriais que possam aceitar no papel”. Graças à “excelente publicidade” dos comunistas, escreveu ele, “a América tem uma ideia exagerada do papel que eles têm desempenhado na guerra contra o Japão. Seu papel foi muito considerável, mas o das tropas do governo central foi centenas de vezes maior”. E observava: “Diz minha experiência na Espanha que os comunistas sempre tentam dar a impressão de que são os únicos que realmente lutam”.
Tendo em vista a fama de Hemingway, sua avaliação poderia ter causado um impacto considerável na opinião pública, mas ela não viu a luz do dia até 1965. Ele foi dissuadido de publicar suas opiniões em 1941 por um auxiliar de Roosevelt chamado Lauchlin Currie, que lhe disse: “Nossa política é desestimular a guerra civil”.
Lauchlin Currie, principal assessor econômico da Casa Branca, visitou a China logo depois do incidente do N4E. A interceptação americana de mensagens do sistema de inteligência soviético (Venona) revela que ele ajudava os russos, e alguns consideram que era um agente soviético. Um judicioso estudo recente sobre Roosevelt e o serviço secreto descreve Currie como um “simpatizante manipulável” e conclui que ele não era um espião, mas um “amigo” dos russos na Casa Branca. Em sua viagem à China, ele certamente prestou um belo serviço aos comunistas. Em Chongqing, disse a Chiang que trouxera uma mensagem verbal de Roosevelt (além de uma escrita). Currie começou o relato da mensagem verbal com esta frase: “Parece, a 10 mil milhas de distância, que os comunistas chineses são o que em nosso país chamaríamos de socialistas. Gostamos da atitude deles em relação aos camponeses, às mulheres e ao Japão”.
Em seu relatório a Roosevelt, Currie sobretudo falou mal de Chiang e pintou um quadro extremamente róseo dos vermelhos. Sustentou que “os comunistas têm sido o único partido capaz de atrair apoio em massa” e sugeriu que esse era o motivo da
expansão deles. Currie deu a Roosevelt a versão comunista da crise do c N 4 E .
A pressão internacional sobre Chiang era tão forte que, em 29 de janeiro, ele instruiu seu embaixador em Moscou a pedir que o Kremlin interviesse para resolver a crise com os comunistas chineses; efetivamente, os russos ditariam os termos. Três dias depois, um Mao exultante disse aos seus comandantes do Exército: “Por mais que Chiang Kai-shek tente se rebelar, ele pode tentar isso ou aquilo, mas, no final, só vai conseguir ser derrubado”. Mao usava a palavra “rebelar” como se Chiang fosse o fora da lei e ele já estivesse no trono. Chiang cedeu às exigências soviéticas de deixar os homens de Mao permanecerem em seus territórios conquistados e ficarem no coração da China, perto de Nanquim e Xangai.
Mao percebeu logo que jornalistas ocidentais como Snow poderiam ajudar sua causa, mas demorou para apreciar quão úteis os governos britânico e americano poderiam ser para amarrar as mãos de Chiang. Sua hostilidade aos dois países era extremada. Em 25 de outubro de 1940, dissera a suas altas patentes militares que esperava que a Grã-Bretanha pudesse ser ocupada pelos nazistas e que os japoneses continuassem a ocupar a China: “O cenário mais difícil, mais perigoso e escuro”, segundo ele, seria Chiang “entrar para o bloco anglo-americano”:
Devemos imaginar isto: que os japoneses não conseguem tomar Cingapura [...] que será tomada pela Marinha
americana; Londres não cai [...] o Japão se rende aos Estados Unidos; o Exército japonês deixa a China; a
América financia e arma os chineses pró-anglo-americanos [...] Não pode acontecer nada pior do que isso.
Para Mao, esse cenário era pior do que a ocupação japonesa. Mas, de repente, houve uma mudança espetacular em sua atitude. Em 6 de novembro, escreveu a Chou En-lai: “Acabei de ler nesta manhã as importantes informações de seu telegrama do dia 3. Então, Chiang entrar para o bloco anglo-americano só significa vantagem para nós [...] Não vamos nos opor mais a isso [...] Precisamos forjar mais laços com a Grã-Bretanha e a América”.
Chou En-lai havia obviamente esclarecido Mao sobre quão útil o Ocidente poderia ser para ele. A partir de então, Chou devotou mais energia ao cultivo de boas relações com os ocidentais, em particular os americanos. E sua ofensiva de charme intensificou-se depois que os japoneses atacaram Pearl Harbor, em dezembro de 1941, e a presença dos Estados Unidos na China aumentou enormemente.
Em 13 de abril de 1941, a Rússia assinou um pacto de neutralidade com o Japão, o que liberou um grande número de tropas japonesas para atacar o Sudeste Asiático e Pearl Harbor. Mas o pacto não incluía uma divisão da China entre Rússia e Japão. Mao não conseguiu seu modelo polonês.
a Sabemos que Mao suprimiu esse telegrama porque ele contou a Chou En-lai, seu contato com Chiang, no dia 13 de janeiro, nove dias e muitas mortes depois: “Mandei-lhe o telegrama do dia 4 de [...] Xiang para Chiang. Seus termos são inconvenientes e, se você ainda não o passou adiante, por favor não o faça”. O fato de achar que ainda tinha tempo para segurar o telegrama indica que Mao o enviara recentemente a Chou.
b Chou disse aos russos que as conexões por rádio entre o QG do N4E e Yenan se haviam rompido a partir da tarde do dia 13 — diferentemente das datas fornecidas por Mao, de 6 a 9. É óbvio que essas datas estavam destinadas a provocar suspeita nos russos.
c Outro ato de Currie muito vantajoso para Mao foi frustrar a tentativa de Chiang de estabelecer um canal simpático a ele com Roosevelt. O Generalíssimo solicitou que Currie pedisse a Roosevelt para enviar um conselheiro político que tivesse acesso ao presidente. Chiang apontou sua escolha, William Bullitt, o primeiro embaixador dos Estados Unidos na União Soviética, que ele conhecia pessoalmente e sabia que era anticomunista. Currie rejeitou de imediato o pedido, por conta própria, e não há sinal de que tenha mencionado a Roosevelt que o Generalíssimo queria Bullitt. Ao voltar para os Estados Unidos, Currie recomendou o professor universitário Owen Lattimore, que jamais se encontrara com o presidente e não tinha em relação a ele o tipo de acesso que Chiang especificara. O resultado foi que Currie manteve o controle das comunicações entre Chiang e Roosevelt.