Mao: a história desconhecida
17. Um ator nacional
(1936; 42-43 anos)
Quando a notícia do sequestro de Chiang Kai-shek chegou ao QG do partido, os líderes jubilantes encheram a caverna de Mao, que “ria como louco”, como relembrou um colega. Agora que Chiang estava preso, Mao tinha um objetivo supremo: vê-lo morto. Se Chiang fosse assassinado, haveria um vácuo de poder e, portanto, uma boa oportunidade para a Rússia intervir e ajudar a pôr o PCC — e ele — no poder.
Em seus primeiros telegramas para Moscou depois do evento, Mao implorou aos russos que se envolvessem para valer. Escolhendo as palavras com cuidado, solicitou o consentimento deles para matar Chiang, dizendo que o PCC queria “exigir que Nanquim sacasse Chiang do poder e o entregasse ao povo para ser julgado”. Era obviamente um eufemismo para a sentença de morte. Sabedor de que seus objetivos eram diferentes dos de Stálin, Mao fingiu não ter notícias do sequestro até sua execução e prometeu que o PCC “não emitiria declarações públicas por alguns dias”.
Enquanto isso, ele manobrava ativamente pelas costas de Moscou para liquidar com Chiang. Em seu primeiro telegrama ao Jovem Marechal após o sequestro, em 12 de dezembro, instava: “A melhor opção é matar [Chiang]”. Ele tentou mandar seu melhor diplomata, Chou En-lai, de imediato para Xian. Chou havia negociado no começo daquele ano com o Jovem Marechal e aparentemente eles haviam se dado bem. Mao queria que Chou persuadisse o Jovem Marechal a “levar a cabo a medida final” (nas palavras de Chou), ou seja, matar Chiang.
Sem revelar o verdadeiro objetivo da missão de Chou, Mao solicitou um convite do Jovem Marechal para seu diplomata. Na época, o QG ficava em Baoan, quase trezentos quilômetros ao norte de Xian, a vários dias de viagem a cavalo. Então Mao pediu que ele mandasse um avião para apanhar Chou na cidade próxima de Yenan (então sob controle do Jovem Marechal), onde havia uma pista de pouso construída pela Standard Oil, quando fizera prospecções na região, no começo do século. Para encorajá-lo a agir com rapidez, Mao fez-lhe uma promessa espúria no dia 13: “Fizemos arranjos com o Comintern, cujos detalhes lhe contaremos depois”. A óbvia implicação era que Chou levaria notícias de um plano coordenado com Moscou.
O que o Jovem Marechal precisava não eram promessas off-the-record, retransmitidas pelo PCC, mas o endosso público da Rússia. Contudo, no dia 14, artigos de primeira página nos dois principais jornais soviéticos, o Pravda e o Izvestia, condenaram com veemência seu ato como sendo uma ajuda aos japoneses e apoiaram claramente Chiang. Dois dias depois do sequestro, o Jovem Marechal podia ver que o jogo havia acabado.
Ele fez ouvidos moucos à sugestão de Mao de enviar Chou. Mas Mao o despachou de qualquer modo, dizendo ao Jovem Marechal, no dia 15, que seu enviado estava a caminho e pedindo um avião para pegá-lo em Yenan. Quando Chou lá chegou, não havia avião e o portão da cidade estava fechado para ele; Chou teve de esperar toda a noite do lado de fora, em temperaturas abaixo de zero. “Os guardas recusaram-se a abrir o portão e se recusaram a ouvir a razão”, telegrafou Mao ao Jovem Marechal, exortando-o a fazer alguma coisa. O Jovem Marechal estava literalmente dando um gelo em Chou, uma indicação da raiva que sentia dos comunistas por ser enganado por eles em relação à atitude de Moscou.
No dia 17, ele cedeu. Estava em busca de uma maneira de pôr fim ao fiasco, então mandou seu Boeing buscar Chou. Royal Leonard, seu piloto americano, ficou chocado ao descobrir que estava transportando comunistas (que haviam recentemente metralhado seu avião). No caminho de volta, naquela tarde nevada, ele pregou uma peça nos seus passageiros, conforme escreveu em suas memórias: “Peguei deliberadamente uma turbulência. De vez em quando, olhava para a cabine e me divertia vendo os comunistas [...] que com uma das mãos seguravam suas barbas negras e com a outra, uma lata para despejar o vômito”.
O Jovem Marechal aceitou contrafeito a visita de Chou, embora apresentasse uma
fachada amistosa e cooperasse com seu hóspede. a Quando Chou o instou a matar o Generalíssimo, ele fingiu que faria isso “quando a guerra civil for inevitável e Xian estiver cercada” por forças do governo.
Na verdade, Mao vinha tentando provocar uma guerra entre Nanquim e Xian. Esperava deflagrá-la com o avanço de tropas vermelhas na direção da capital. No dia 15, deu ordens secretas a seus altos comandantes para “atacar a cabeça do inimigo: o governo de Nanquim”. Mas teve de esquecer o plano, pois seria suicida para o Exército Vermelho e não havia garantia de que de fato deflagraria a guerra. Para seu deleite, no dia 16, Nanquim declarou guerra ao Jovem Marechal, moveu tropas na direção de Xian e bombardeou as tropas dele fora da cidade. Mao instou o Jovem Marechal a não se limitar à defesa, mas ampliar a luta e atacar Nanquim. No dia seguinte, Mao telegrafou-lhe dizendo: “As jugulares do inimigo são Nanquim e [duas linhas férreas fundamentais]. Se 20 ou 30 mil [...] soldados puderem ser despachados para atacar essas ferrovias [...] a situação geral mudará de imediato. Por favor, leve isso em consideração”. A esperança de Mao era que, ao tomar essas medidas, o Jovem Marechal rompesse suas ligações com Nanquim e, com maior probabilidade, matasse Chiang.
Enquanto Mao manobrava para matar Chiang, Stálin teimava em salvar o Generalíssimo. Em 13 de dezembro, um dia depois do sequestro, o encarregado de negócios soviético em Nanquim foi chamado pelo primeiro-ministro interino, H. H. Kung (o cunhado de Chiang), para ser informado de que “corria a notícia” de que o PCC estava envolvido no golpe e que “se a segurança do sr. Chiang está em perigo, o ódio da nação se estenderá do PCC à União Soviética e poderá pressionar [o governo chinês] a se unir ao Japão contra a União Soviética”. Stálin compreendeu que o sequestro poderia significar uma ameaça urgente aos seus interesses estratégicos.
À meia-noite do dia 14, o telefone tocou no escritório de Dimítrov, o chefe do Comintern. Stálin estava na linha. “Foi com sua permissão que os eventos da China aconteceram?”, perguntou ele. Dimítrov respondeu apressadamente: “Não! Isso seria o maior serviço que alguém poderia prestar ao Japão. Nossa posição sobre esses eventos é a mesma”. Usando uma linguagem ameaçadora, Stálin questionou o papel do delegado do PCC no Comintern, que apresentara a ele o rascunho de um telegrama a ser enviado ao PCC em favor da execução de Chiang. “Quem é esse tal de Wang Ming? É um provocador? Ouvi dizer que ele quer mandar um telegrama para mandar matar Chiang.” Na época, lembrou o assistente chinês de Dimítrov, “não era possível achar ninguém” no QG do Comintern que não concordasse que era preciso “liquidar com Chiang”. Até o homem de Stálin no Comintern, o normalmente frio Manuilski, “esfregou as mãos, me abraçou e exclamou: ‘Nosso querido amigo foi pego!’”.
Wang Ming disse que o rascunho de telegrama fora sugerido pelo subchefe do GRU, Artur Artúzov, que foi logo preso e acusado de ser espião. Antes de ser fuzilado, ele protestou inocência em uma carta escrita com seu próprio sangue, o qual, observou friamente seu carcereiro, saíra “de seu nariz”. Stálin poupou Wang Ming. E Dimítrov pelejou para se inocentar e pôr a culpa em Mao. Ele escreveu a Stálin: “Apesar de nossas advertências, o [...] partido chinês, de fato, entrou em relações muito amistosas e próximas com [o Jovem Marechal]”. Para piorar, Dimítrov disse a Stálin: “É difícil imaginar que [o Jovem Marechal] empreendesse essa ação aventureira sem coordenação com eles [Mao e seus colegas], ou até sem a participação deles”. Era uma clara sugestão de que Mao estava mentindo sobre não ter conhecimento prévio do evento e que ele zombara das ordens de Moscou.
Stálin suspeitava de que Mao poderia estar em conluio com os japoneses. Ele já começara a ter todos os “velhos parceiros chineses” dos soviéticos denunciados e interrogados sob tortura. Quatro dias depois do sequestro de Chiang, um importante detido “confessou” estar envolvido num complô trotskista para provocar um ataque do Japão (e da Alemanha) à Rússia. O nome do próprio Mao apareceu nas confissões e um grosso dossiê sobre ele foi compilado, com acusações de que era agente dos japoneses, bem como trotskista.
Dimítrov mandou uma dura mensagem a Mao no dia 16. Ela condenava o sequestro, dizendo que aquilo “objetivamente só pode prejudicar a frente unida contra o Japão e ajudar a agressão dos japoneses à China”. Seu ponto fundamental era que “o PCC deve assumir uma posição decisiva em favor de uma solução pacífica”. Era uma ordem para obter a libertação do Generalíssimo e sua volta ao governo.
Quando o telegrama chegou, consta que Mao “ficou enfurecido [...] blasfemou e bateu os pés”. Sua medida seguinte foi fingir que jamais recebera a mensagem. Escondeu-a do seu Politburo, do Jovem Marechal e também de Chou En-lai, que estava a caminho de
Xian para persuadir o Jovem Marechal a matar Chiang. b Mao continuou a manobrar para que Chiang fosse assassinado.
Tratava-se de uma tática de alto risco em relação a Moscou. Mao não estava simplesmente escondendo do Kremlin que ele havia estimulado o golpe do sequestro, mas estava suprimindo — e desafiando — uma ordem direta de Stálin. Mas, para Mao, as vantagens abertas com a eliminação de Chiang superavam os riscos.
O Generalíssimo, porém, não estava perto de desaparecer do mapa. Depois que soube que não tinha o apoio de Moscou, o que aconteceu logo após o sequestro, o Jovem Marechal decidiu manter Chiang em segurança. Mao revelara-se um inútil. Apesar de toda a sua postura nas comunicações privadas, o PCC manteve silêncio público durante três longos dias após o sequestro, sem expressar apoio ao Jovem Marechal. Sua primeira declaração oficial só surgiu no dia 15. Não fazia menção a apoiá-lo na sua pretensão de governar a China, como Mao oferecera especificamente antes. Em vez disso, reconhecia a autoridade de Nanquim.
A única opção do Jovem Marechal era ficar ao lado de Chiang, o que significava que deveria libertá-lo. Além disso, ele percebeu que sua única maneira de sobreviver era deixar Xian com Chiang e colocar-se nas mãos dele. Havia muita gente em Nanquim que o queria morto e certamente mandariam assassinos atrás dele. Só poderia ficar seguro sob custódia de Chiang. E, ao escoltar Chiang para fora do cativeiro, ele poderia também ter esperança de conquistar a boa vontade do Generalíssimo. Sua aposta de que Chiang não o mataria revelou-se correta. Depois de sofrer prisão domiciliar sob o governo de Chiang e de seus sucessores durante meio século, quando esteve ao mesmo tempo detido e protegido, ele foi libertado e morreu em seu leito, no Havaí, aos cem anos, em 2001, tendo sobrevivido a Chiang e Mao por mais de um quarto de século.
Em 14 de dezembro, dia em que Moscou condenou publicamente o golpe, o Jovem Marechal foi ver Chiang e ficou diante dele em silêncio, chorando. Chiang registrou que seu captor mostrou “considerável remorso”. Mais tarde, no mesmo dia, o Jovem Marechal disse a Chiang que percebia que o sequestro era “uma ação tola e mal pensada” e queria libertá-lo, em segredo. Chiang cooperou ativamente, assegurando que Nanquim não atrapalharia. Quando Nanquim declarou guerra ao Jovem Marechal, no dia 16, Chiang mandou uma mensagem ordenando que segurassem o fogo. Nanquim suspendeu as operações militares e mandou o cunhado de Chiang, T. V. Soong (conhecido como T. V.), como “cidadão particular” para negociar um acordo, pois o próprio Chiang não poderia negociar com seus captores. T. V. chegou em Xian no dia 20, seguido dois dias depois por madame Chiang.
No dia 20, Moscou transmitiu o telegrama ao PCC que Mao escondera, ordenando uma “solução pacífica”. Dessa vez, Mao teve de encaminhar o telegrama a Chou En-lai, com instruções para ajudar a “restaurar a liberdade de Chiang Kai-shek”.
Desse modo, Mao alinhou seus objetivos de novo com os de Stálin. O PCC reivindicou que Chiang prometesse “parar com a política de exterminar comunistas”. Insistiu também que ele se encontrasse com Chou, que estava em Xian. Uma conversa de ambos conferiria ao PCC o status de ator importante na política nacional, uma atitude cujo equivalente moderno seria um dos líderes de um notório grupo terrorista ser recebido pelo presidente dos Estados Unidos.
Numa conversa do dia 23 entre T. V. Soong, o Jovem Marechal e Chou, T. V. disse que concordava pessoalmente com o que Chou estava pedindo e transmitiria o pedido do PCC ao Generalíssimo. Mas Chiang recusou-se a falar com Chou diretamente, mesmo quando lhe disseram que só seria solto se o fizesse. As conversações entraram num impasse.
Moscou sabia o que levaria o Generalíssimo a conversar com Chou. O mais recente sinal de Chiang para Moscou acontecera logo antes do sequestro, em novembro, quando o Exército Vermelho chinês estava sem alternativas depois de não conseguir os suprimentos de armas russas. Naquela ocasião, o embaixador de Chiang em Moscou pedira o retorno do filho de Chiang e Moscou negara. Agora, os russos estavam prontos para responder. Em 24 de dezembro, o ex-líder do partido Po Ku chegou a Xian com uma notícia especial. Essa notícia pôs Chou no quarto de Chiang no dia de Natal. Chou disse a Chiang que seu filho Ching-kuo “retornaria”. Foi somente depois de receber essa promessa de Stálin que Chiang concordou com as demandas dos comunistas e convidou Chou “a ir a Nanquim para negociações diretas”. A partir desse momento, o PCC deixou de ser oficialmente considerado um grupo de bandidos e foi tratado como um partido político.
O encontro entre Chiang e Chou em Xian foi curto, mas selou o acordo comunistas-pelo-filho que Chiang procurava havia anos. Isso marcou o fim da guerra civil entre o PCC e os nacionalistas.
Naquela tarde, os Chiang partiram de Xian. O mesmo fez o Jovem Marechal, que
seguiu voluntariamente para a prisão domiciliar.c Chiang estava no auge de sua popularidade. Quando seu carro entrou em Nanquim, multidões espontâneas alinharam-se nas ruas para saudá-lo. Fogos de artifício explodiram durante toda a noite. As pessoas que viveram aqueles dias dizem que o prestígio de Chiang brilhava como o sol do meio-dia. Mas seu triunfo durou pouco e o acordo que recuperou seu filho voltou-se contra ele. Ele se enganava ao achar que poderia conter Mao e ser mais esperto que Stálin. Mao era incontrolável e o pequeno PCC acabara de ser promovido a importante “partido de oposição”.
a A raiva do Jovem Marechal contra Moscou e o PCC faiscou rapidamente durante nossa entrevista com ele, 56 anos depois. Quando lhe perguntamos se os comunistas chineses lhe haviam falado sobre a verdadeira atitude dos soviéticos em relação a ele antes do golpe, ele retrucou com súbita hostilidade: “Claro que não. Vocês fazem uma pergunta muito estranha”.
b Mais tarde, Mao tentou alegar que o radiograma do Comintern de 16 de dezembro “estava truncado e não pôde ser decodificado”, e que o PCC pediu a Moscou, no dia 18, que o retransmitisse. Isso é um engodo. Operadores de rádio que estavam no centro das operações do PCC nos contaram que o procedimento-padrão era que, se um radiograma estivesse ilegível, eles pediam imediatamente que Moscou o transmitisse de novo e decerto não esperariam dois dias — muito menos num momento de crise. Mao disse ao seu Politburo no dia 19: “As instruções do Comintern não chegaram”.
c Desde então, ele se tornou uma das maiores lendas da história chinesa, tema de incontáveis livros e artigos e tanto admirado como denunciado. Mas mesmo seus adversários dificilmente mencionam suas maquinações com os russos, ou que elas foram resultado de ambição pessoal. Até o fim de sua longa vida ele sustentou que o sequestro foi inspirado por “motivos puros”. Para nós, em 1993, ele contou: “Madame Chiang compreendeu-me bem [...] ela disse que eu não queria dinheiro, não queria território, queria apenas sacrifício [sic]”.