Mao: a história desconhecida
36. O início do programa secreto de superpotência
36. O início do programa
secreto de superpotência
(1953-54; 59-60 anos)
Em maio de 1953, depois que Mao aceitou pôr um fim à guerra na Coreia, os sucessores de Stálin concordaram em vender à China 91 grandes empresas industriais. Com isso garantido, além dos cinquenta projetos aprovados por Stálin, Mao conseguiu lançar seu plano de industrialização em 15 de junho. Seu foco exclusivo era a criação de indústrias bélicas para fazer da China uma superpotência. Era, com efeito, o Programa de Superpotência de Mao. Sua natureza totalmente militar foi escondida e é pouco conhecida na China de hoje.
Mao queria canalizar todos os recursos da nação para esse programa. Todo o processo de “industrialização” tinha de estar completo “em dez a quinze anos”, ou não muito mais do que isso. A velocidade, ele repetia sem cessar, era tudo — “a essência”. O que não revelava era seu verdadeiro objetivo: tornar-se uma potência militar enquanto ele ainda estava vivo e fazer o mundo escutá-lo quando falasse.
Mao aproximava-se dos sessenta anos e se referia com frequência à sua idade e mortalidade quando discutia essa industrialização. Em certa ocasião, conversando com um grupo de seus guardas, enfatizou: “Faremos isso em quinze anos”. Depois, do nada, vieram as palavras: “Confúcio morreu com 73 anos”. O subtexto era: certamente posso viver mais do que Confúcio e assim ver os resultados dentro de quinze anos.
Em outra ocasião, disse que “podemos superar a Grã-Bretanha [...] em quinze anos ou pouco mais”, e depois acrescentou: “Eu também tenho um Plano Quinquenal: viver [...] mais quinze anos, então estarei satisfeito; claro, um excesso de satisfação será ainda melhor” — ou seja, viver ainda mais.
Mao não estava interessado na posteridade. Já em 1918, escrevera: “Alguns dizem que temos responsabilidade perante a História. Não acredito nisso [...] Pessoas como eu não estão construindo coisas para deixar para as futuras gerações” (grifo nosso). Ele manteve essa visão pelo resto de sua vida. Em 1950, depois de visitar o mausoléu de Lênin, disse à sua comitiva que a excelente conservação do cadáver era importante apenas para os outros e irrelevante para Lênin. Depois de morto, Lênin não sentia nada e não importava para ele se seu cadáver fosse conservado.
Quando morreu, Mao não deixou testamento nem herdeiro — e, de fato, ao contrário da maioria dos pais chineses, em especial imperadores, era-lhe indiferente ter um, algo extremamente incomum (em total contraste com Chiang Kai-shek, que fez de tudo para proteger o seu). O filho mais velho de Mao, que morreu na Guerra da Coreia, tampouco deixou herdeiros, pois sua esposa não queria ter filhos enquanto ainda estava estudando. Mao não o pressionou para ter um herdeiro, ainda que fosse seu único filho mentalmente sadio, pois o mais moço era retardado.
Nas décadas seguintes, a determinação de Mao de presidir uma superpotência militar enquanto estivesse vivo foi o fator isolado mais importante a afetar o destino da população chinesa.
Mao estava com pressa para obter seu arsenal. Em setembro de 1952, quando Chou En-lai deu a Stálin a lista de compras para o I Plano Quinquenal (1953-57), a reação do líder russo foi: “Isso está muito desequilibrado. Mesmo em tempo de guerra, não temos despesas militares assim tão altas. [...] A questão aqui é [...] se teremos condições de produzir todo esse equipamento”. De acordo com estatísticas oficiais, os gastos desse período com as Forças Armadas, mais as indústrias relacionadas com armamentos, consumiam 61% do orçamento; na realidade, a porcentagem era maior e aumentaria no decorrer dos anos.
Em contraste, os gastos com educação, cultura e saúde combinados constituíam miseráveis 8,2% e não havia setor privado em que se apoiar quando o Estado não cumpria seu papel. Educação e assistência à saúde nunca foram gratuitas, exceto em casos de epidemia, e muitas vezes inexistiam para os camponeses ou para as classes baixas urbanas. Com o objetivo de economizar dinheiro na saúde, o regime recorria a esquemas como campanhas de higiene que exigiam a morte não somente de moscas e ratos, mas também, em algumas regiões, de gatos e cães, embora, curiosamente, jamais tenham estendido a limpeza aos toaletes fedorentos e pestilentos, que sobreviveram imundos durante todo o reinado de Mao.
Foi dito ao povo chinês, de forma vaga mas deliberada, que o equipamento da União Soviética usado na industrialização do país era “ajuda soviética”, ou seja, que se tratava de um presente. Mas não era. Tudo tinha de ser pago — e isso significava sobretudo pagar com alimentos, fato que foi rigorosamente escondido do povo chinês, e ainda o é, em larga medida. Naquela época, a China tinha pouca coisa para vender. O comércio com a Rússia, disse Chou a um pequeno círculo, “se resume a vendermos produtos
agrícolas para comprar máquinas”. a Durante toda a década de 1950, “as principais exportações eram arroz, soja, óleo vegetal, cerdas de porco, peles de linguiças, seda crua, carne de porco, caxemira, chá e ovos”, de acordo com as estatísticas oficiais de hoje. Naquele período, Mao contou ao presidente indonésio Sukarno, em tom quase irreverente: “Falando com franqueza, não temos muita coisa [para exportar], afora algumas maçãs, amendoins, cerdas de porco, soja”.
As mercadorias que a China exportava para a Rússia e seus satélites eram, em sua avassaladora maioria, artigos essenciais para seu próprio povo; entre elas, estavam todos os principais produtos de que a população chinesa dependia para ingerir proteínas: soja, óleo vegetal, ovos e carne de porco, que estavam sempre em extrema escassez. Com apenas 7% das terras cultiváveis do mundo e 22% da população mundial, na maior parte do país a terra era preciosa demais para ser usada na criação de animais e, assim, a maioria dos chineses não consumia laticínios e consumia muito pouca carne. Até os grãos, item básico da alimentação nacional, estavam na lista de exportação de Mao, enquanto a produção de cereais da China era lamentavelmente inadequada e o país era um grande importador de grãos.
Mao estava disposto a privar seu povo de comida para que pudesse exportar alimentos. Uma instrução ao Ministério do Comércio Exterior de outubro de 1953 dizia:
Com relação aos produtos que são cruciais para a sobrevivência da nação (isto é, grãos, soja e óleo vegetal), é
verdade que precisamos suprir a população chinesa, mas não podemos enfatizar somente isso [...] Precisamos
pensar em todas as formas de arrancá-los para exportação [grifo nosso] [...] Quanto aos produtos (como carnes,
amendoim) que são menos essenciais à sobrevivência da população, temos mais razão ainda em diminuir o
consumo dentro da China para satisfazer a necessidade de exportar.
Outra ordem de julho de 1954 enfatizava:
Para produtos como carnes, o mercado interno deve ser reduzido e encolhido para garantir as exportações.
Outros produtos como frutas, chás [...] devem ser exportados o máximo possível, e só devem suprir o mercado
interno se sobrar alguma coisa [...] [grifo nosso]
O principal impacto foi sentido pelos camponeses. A política era garantir alimentação básica para a população urbana, com racionamento rigoroso, e deixar os camponeses morrerem de fome quando a inevitável escassez de comida atacasse. Quando Mao tomou o poder, todos que estavam registrados como camponeses foram proibidos de se mudar para áreas urbanas ou de mudar de status. Não podiam nem mudar para outra aldeia, exceto com permissão especial (por exemplo, se casassem). Afora isso, estavam presos às suas aldeias pelo resto da vida. E o mesmo acontecia com seus filhos e netos. Essa imobilidade total era algo novo na China. Tradicionalmente, os camponeses sempre puderam mudar, tanto geográfica como socialmente. Eles podiam aspirar à fama e à fortuna — como Mao fizera. Se havia uma epidemia de fome, podiam fugir para as cidades ou outras regiões e, pelo menos, tentar a sorte. Agora, mesmo no melhor dos tempos, jamais poderiam ter esperança de melhorar sua fortuna, exceto quando o governo os alistava no Exército, ou numa fábrica. E, quando a desgraça atacasse,
passariam fome ou morreriam em seus povoados.b
Certa vez, ao prometer enviar mais soja à Alemanha Oriental, Chou En-lai disse aos seus interlocutores alemães: “Se pessoas passarem fome aqui, será no campo e não nas cidades, como acontece com vocês”. Em outras palavras: nossa fome não será vista.
Os camponeses tinham de produzir alimentos para exportação quase sem nenhuma ajuda estatal, fato confirmado ao Conselho Supremo de fachada em 27 de fevereiro de 1957 pelo premiê Chou, quando ele disse claramente: “Nada para a agricultura”. Para aumentar a produção, explicou o chefe da agricultura de Mao à sua equipe, “dependemos dos dois ombros e do traseiro dos camponeses” — isto é, do trabalho braçal e do excremento para usar como adubo.
Além de ter de produzir alimentos para pagar pelas importações militares da Rússia e da Europa oriental, os camponeses tinham de entregar produtos preciosos para compor as doações imensas que Mao fazia a fim de promover suas aspirações de território. A China não somente fornecia alimentos para países pobres como Coreia do Norte e Vietnã do Norte, como os dava com liberalidade para regimes comunistas europeus muito mais ricos, especialmente depois da morte de Stálin, quando Pequim fez circular a ideia de Mao se tornar o líder do campo comunista mundial. Quando a Romênia realizou um congresso mundial da juventude, Mao doou 3 mil toneladas de óleo vegetal, enquanto os camponeses que o produziam ficavam com cerca de um quilo por ano, quantidade que tinha de dar conta de cozimento e iluminação, pois não havia eletricidade na maior parte do campo. Após o levante de 1956 na Hungria, país imensuravelmente mais rico, Pequim mandou ao regime 30 milhões de rublos em mercadorias e cedeu um “empréstimo” de 3,5 milhões de libras esterlinas; e empréstimos, como Mao não cansava de repetir, não precisavam ser pagos.
Em junho de 1953, quando a primeira grande revolta explodiu na Alemanha Oriental, logo após a morte de Stálin, Mao saiu imediatamente em defesa da ditadura comunista e ofereceu 50 milhões de rublos em alimentos. Mas os alemães queriam mais, oferecendo em troca máquinas que não tinham utilidade na China. Os responsáveis pelo comércio externo de Pequim haviam decidido recusar a oferta, mas Mao interveio e ordenou que a aceitassem, com um argumento ridículo: “Eles estão com muito mais dificuldades do que nós. É nosso mister cuidar deles” (ênfase de Mao). Foi graças aos alimentos chineses que a Alemanha Oriental conseguiu suspender o racionamento de comida em maio de 1958.
O chinês comum, além de não opinar sobre essa generosidade, não tinha ideia de que havia feito doações tão generosas. O prazer era todo de Mao. Quando Walter Ulbricht, o brutal líder da Alemanha Oriental, foi à China em 1956 e prestou uma homenagem ritual a Mao, este respondeu com grandiosidade: “Vocês não devem nos copiar em tudo”. Mao falava como um mentor. E também queria ter certeza de que Ulbricht era suficientemente opressor e perguntou: “Depois de 17 de junho [de 1953, dia da revolta em Berlim Oriental], você prendeu um grande número deles?”. Ele sugeriu um “modelo” chinês que os alemães orientais poderiam pensar em copiar: a Grande Muralha. Um muro, disse ele, ajudaria muito a manter fora gente como os “fascistas”. Alguns anos depois, foi erguido o Muro de Berlim.
A maior proporção do PIB que os países mais ricos davam em ajuda externa mal excedia 0,5%, e nos Estados Unidos, na virada do milênio, estava muito abaixo de 0,01%. A China de Mao alcançou incríveis 6,92% (em 1973) — a maior ajuda externa que o mundo já testemunhou.
Os camponeses chineses estavam entre os mais pobres do mundo, como Mao sabia muito bem. Ele também estava ciente de que eles estavam morrendo de fome. Em 21 de abril de 1953, às vésperas de lançar o Programa de Superpotência, anotou em um relatório: “Cerca de 10% dos lares agrícolas vão sofrer escassez de alimentos na primavera e no verão [...] até mesmo falta completa de comida”. Isso estava acontecendo “todos os anos”, escreveu ele. Como poderia o limitado estoque de alimentos do país pagar pelas vastas ambições de Mao? A simples aritmética elementar sugeriria que haveria mortes de fome em massa se ele continuasse mandando aquela quantidade de alimentos para o exterior.
Mao não se importou. Fazia observações indiferentes como: “Têm só folhas de árvores para comer? Que assim seja”. Todas as estatísticas e informações econômicas eram altamente secretas, e as pessoas comuns, mantidas na ignorância completa. Estas também eram impotentes para influenciar as decisões políticas. Mas os homens do topo do poder estavam bem informados e um deles, Liu Shao-chi, recuou diante das consequências colossais do programa de Mao. Ele era a favor da industrialização e do status de superpotência, mas queria atingir essas metas em ritmo mais gradual, construindo alicerces econômicos mais fortes e elevando primeiro o padrão de vida.
“Não podemos desenvolver a indústria pesada primeiro”, disse a uma plateia pequena em 5 de julho de 1951, porque ela “consome uma tremenda quantidade de dinheiro sem retorno [...] e a única maneira disponível para nós de levantar o dinheiro é causando privações ao nosso povo [...] A vida do povo agora é muito miserável. Precisamos elevar primeiro o padrão de vida do povo”, processo que, ele sugeria, levaria dez anos. Essa deveria ser a prioridade do partido. “O povo é muito pobre”, escreveu. “Ele precisa desesperadamente de uma vida melhor, uma vida próspera e cultivada.” “A tarefa mais básica [do partido] deve ser satisfazer esse desejo.” Em outra ocasião, disse que os camponeses “querem ter roupas novas, comprar meias, usar sapatos, usar [...] espelhos, sabonete e lenços [...] seus filhos querem ir à escola”. Era o tipo de linguagem que Mao jamais usava.
Cinco anos mais moço do que Mao, Liu também vinha de uma aldeia de Hunan, distante poucos quilômetros da de Mao. Fora para Moscou em 1921 e entrara para o partido lá, aos 23 anos de idade. Bastante atraente para as mulheres, era um jovem muito sério, cuja única distração era a leitura e que não gostava de conversa fiada. Encontrou-se pela primeira vez com Mao ao retornar a Hunan, em 1922, mas os dois não travaram uma relação especial até o final da década de 1930, quando Liu se tornou seu aliado por compartilhar sua visão fria de que era preciso usar a guerra contra o Japão para destruir Chiang Kai-shek. Mao promoveu-o ao segundo posto mais importante em 1943. Em 1945, quando teve de ir para Chingqing, e de novo em 1949-50, quando foi a Moscou, o líder chinês designou Liu para substituí-lo interinamente. Mao confiava nele como seu principal executivo.
Liu era o lugar-tenente mais capaz que Mao havia encontrado. Também combinava discrição total com uma disposição para estar às ordens do chefe dia e noite. Mao dormia durante o dia e trabalhava à noite e Liu mudou sua rotina para tentar sincronizá-la com a de Mao. Mas o chefe era errático e muitas vezes chamava Liu quando ele estava muito drogado com os comprimidos que, tal como quase todos os auxiliares de Mao, tomava para conseguir dormir. Um dos secretários de Liu relembrou: “Quando o secretário do presidente Mao telefonava, a mensagem era sempre a mesma: Venha neste minuto. [...] Como os comprimidos para dormir funcionavam, [Liu] estava com aparência de muito cansado, em agonia. Com frequência, nem tinha tempo de tomar um gole do chá forte que seu criado lhe fazia e partia para a casa de Mao de imediato”. E, o que era mais importante para Mao, Liu não alimentava esperanças de superá-lo.
Mas, quando os comunistas tomaram o poder, surgiram discordâncias sérias entre os dois sobre priorizar a marcha forçada para a criação de uma superpotência militar ou as medidas para melhorar a vida da população. Mao zombava constantemente da defesa que Liu fazia dessa segunda opção, replicando: “Ah, a vida dos camponeses é tão dura — o fim do mundo! Eu nunca havia pensado nisso”.
Enquanto Stálin estava vivo, Mao se conteve a fim de não dar ao Chefe qualquer pretexto para interferir e o sabotar. O líder russo tentara enfraquecê-lo dando atenção a Liu e, ainda por cima, fizera o Pravda chamá-lo de “secretário-geral” do PCC.
No início de março de 1953, assim que soube que Stálin estava morrendo, Mao entrou em ação. Primeiro emitiu sinais de que Liu poderia ser substituído. Na época, Liu estava no hospital, depois de retirar o apêndice no final de fevereiro. Mao tratou de mantê-lo internado, chegando ao ponto de impedir que recebesse a notícia da morte de Stálin. Mao foi duas vezes à embaixada soviética, devido à doença e à morte de Stálin, mas Liu não, embora estivesse em condições de se movimentar. Quando o Diário do Povo publicou um telegrama com votos de recuperação enviados a Stálin pela Associação da Amizade Sino-Soviética, a mensagem não estava assinada por Liu, que era o presidente da associação, mas por um subordinado, algo extraordinário em termos de protocolo. E Liu foi excluído da cerimônia em memória de Stálin na praça Tiananmen.
Em maio, Mao mandou a Liu uma carta dura e mesmo ameaçadora, que dizia: “Todos os documentos e telegramas emitidos em nome do centro só podem ser enviados depois que eu os ver. Não sendo assim, eles são inválidos [grifo de Mao]. Tome cuidado”. Outra carta ordenava a Liu (além de Chou e o chefe do Exército Peng) “examinar todos os telegramas e documentos emitidos em nome do centro ou do Conselho Militar [...] para ver se há algum [...] que não foi visto por mim [...] No passado, várias decisões [...] foram tomadas sem autorização, sem que eu as tivesse visto. Isso é intoleravelmente errado, e é uma sabotagem das regras”. Com efeito, eram palavras muito fortes e se destinavam a fazer Liu suar ainda mais.
Em seguida, veio um ataque aberto e direto a Liu, diante de uma plateia pequena, mas crucial. Em 15 de junho, quando o Politburo se reuniu para ouvir o anúncio do programa de industrialização, Mao condenou Liu com veemência, chamando-o de “direitista”. Embora não tenha mencionado seu nome, todos os ouvintes sabiam quem estava sendo atacado. Mao tomara precauções quanto à eventualidade totalmente improvável de Liu usar contra ele a guarda pretoriana, que cuidava da segurança dos dois. Mandou fazer de antemão uma investigação secreta para avaliar as relações de cada membro da guarda com Liu. No dia da reunião, alguns guardas foram arrebanhados e transferidos para fora de Pequim.
Nos meses seguintes, Mao denunciou Liu por tabela diante de plateias cada vez maiores, criticando protegidos dele como o ministro das Finanças Bo Yi-bo, que criara um sistema tributário que não produziria a receita exigida pelo programa de Mao. Então, em setembro, numa conferência do partido, Mao escolheu um funcionário de escalão menor para insinuar que Liu e seus protegidos tinham passados suspeitos e poderiam ser agentes do inimigo. Tratava-se de uma acusação assustadora. Liu corria o perigo de perder mais do que o emprego.
Mao deixou-o em banho-maria durante meses e então, em 24 de dezembro de 1953, anunciou subitamente ao Politburo que sairia de férias e designava Liu para ficar em seu lugar, o que significava que ele ainda era o segundo em comando. O efeito psicológico de ser assim salvo do precipício foi considerável: Liu cedeu à exigência de Mao de que se retratasse perante seus colegas de poder, o que ele fez, humilhando-se durante três dias e três noites sem parar. Mao conseguiu o que queria: um Liu absolutamente intimidado.
Mao ameaçara substituir Liu por uma pessoa chamada Gao Gang, o líder da Manchúria. Gao era um linha-dura que apoiava totalmente o Programa de Superpotência de Mao. Na alta esfera do poder, fora o crítico mais atuante das ideias de Liu. Mao mostrou que gostava dele e que não gostava de Liu, dando a entender que estava pensando em lhe dar o posto deste. Gao falou com outros membros do alto escalão sobre o que Mao lhe dissera e desempenhou o papel principal no ataque a Liu. Muita gente do círculo interno do governo supôs que ele estava prestes a tomar o lugar do outro.
Então, sem mais nem menos, Mao reintegrou Liu — e expurgou Gao, que foi acusado de “tramar a divisão do partido, a fim de usurpar o poder do partido e do Estado”. Tratava-se do primeiro expurgo no alto escalão desde que os comunistas haviam assumido o poder e isso disseminou uma atmosfera de inquietação e temor. Quando o Dalai-Lama chegou a Pequim, logo depois da condenação de Gao, sua comitiva logo o alertou de que o expurgo significava um mau presságio. Foi o primeiro tópico que o Dalai-Lama quis discutir conosco quando o entrevistamos, 45 anos depois.
A verdadeira razão do expurgo envolvia a Rússia soviética. Como chefe da Manchúria, Gao tivera muito a ver com os russos e falara demais, chegando a revelar a Kovaliov, o contato de Stálin, desacordos no Politburo, onde, dizia, Liu chefiava uma “facção pró-americana”. Mao ficou sabendo disso quando esteve em Moscou, em 1949, e Stálin lhe deu um relatório de Kovaliov baseado em conversas com Gao. Este contou a outros russos que Liu era muito leniente com a burguesia. Queixou-se de Chou também, dizendo aos russos que tivera um “choque sério” com ele no Politburo no que se referia
à guerra na Coreia. c
O fato de Gao ser um tagarela havia sido notado por um casal britânico em Yenan, uma década antes. Segundo eles, Gao era “talvez o mais indiscreto de todos os comunistas que entrevistamos”. Eles devem ter ficado bastante surpresos, pois Gao era então um completo desconhecido.
Para Mao, era um tabu absoluto que subordinados falassem sobre os acontecimentos internos de seu regime para alguém de fora. Ao expurgar Gao, queria mandar uma mensagem: a boca nunca está fechada demais, mesmo — e em especial — com os russos. Uma vez que o Programa de Superpotência dependia imensamente da União Soviética, haveria muitos contatos com os russos. Mao temia que a confraternização levasse a um afrouxamento de seu controle e pudesse ameaçar seu poder. Quanto a isso, jamais assumiu qualquer risco. Sua vigilância em antecipar ameaças potenciais foi a principal razão de ele ter morrido na cama. Mao não podia proibir todos os contatos com os russos, então tratou de pôr uma barreira invisível entre seus homens e “os irmãos”. Gao propiciou um veículo perfeito para advertir os subordinados. Não sejam muito fraternais com os russos!
Em breve, Mao usaria o caso de Gao explicitamente para ordenar ao alto escalão que revelasse qualquer relação com qualquer russo, o que ele chamou de “contatos ilícitos com países estrangeiros”:
Será que temos gente assim na China, que dá informações a estrangeiros pelas costas do centro [isto é, eu]?
Penso que existem — Gao Gang, por exemplo [...] Espero que esses camaradas desembuchem totalmente [...]
Tudo deve passar pelo centro [eu de novo]. Quanto a informações, não as passem [...] Aqueles que passaram
informações, confessem francamente e não serão perseguidos. Se não o fizerem, vamos verificar e
descobriremos. Vocês estarão em apuros.
Mao não definia o que contava como informação, então a regra básica era simplesmente não falar com estrangeiros sobre nada.
Mao designou Chou En-lai para ser o principal “promotor público” contra Gao, enquanto se ausentava. Na reunião de fevereiro de 1954, quando Chou fez seu ataque furioso a Gao (que estava presente), numa medida incomum as canecas de chá foram servidas de antemão, para evitar que os criados entreouvissem alguma coisa. Mas, como os líderes precisaram de mais água quente, o rapaz do chá entrou na sala. Ele ficou espantado ao ver o usualmente suave Chou transformado e contorcido pela ferocidade, um lado que o mundo externo jamais viu. Chou, o velho assassino, tomara a precaução de levar dois subordinados de confiança armados com revólveres, algo totalmente impensável em reuniões do alto escalão.
Gao ficou deveras chocado com a armação de Mao contra ele e tentou se eletrocutar, sem sucesso, em 17 de fevereiro. Por essa atitude, foi obrigado a pedir desculpas, mas seu pedido foi rejeitado pela costumeira impiedade do partido; seu ato de desespero foi classificado como uma “rematada ação de traidor contra o partido”. Ele foi mantido em prisão domiciliar e finalmente conseguiu acabar com a própria vida seis meses depois, após acumular comprimidos para dormir suficientes para resolver o problema.
No mundo comunista, preferia-se sempre uma conspiração a um maquinador solitário. Para compor uma “conspiração”, Mao escolheu o chefe do Departamento de Organização, Rao Shu-shi, que foi acusado de formar uma “aliança antipartido” com Gao, embora os dois não fossem particularmente próximos. Entre outras coisas, Rao fora o chefe da rede de espionagem do PCC nos Estados Unidos, e isso foi possivelmente o motivo de Mao querê-lo atrás das grades, pois estava preparando um expurgo no seu sistema de inteligência. Rao foi preso e morreu na prisão vinte anos depois, em março de 1975.
Em 26 de dezembro de 1953, depois de acender o pavio da morte de Gao, Mao celebrou alegremente seu sexagésimo aniversário com seu staff, quando bebeu mais do que o usual e até comeu pêssegos, um símbolo da longevidade, embora não gostasse de frutas. Durante o jantar, cantarolou junto com discos da ópera de Pequim e marcou o ritmo batendo na coxa. Stálin morrera e ele conseguira completar com sucesso duas manobras que eram fundamentais para seu Programa de Superpotência: pusera na linha Liu, seu principal executivo, e vacinara seus altos subordinados contra qualquer possível contágio russo que pudesse pôr em perigo seu poder.
No dia seguinte, ao chegar na pitoresca Hangzhou, à beira de um lago perto de Xangai, estava de tão bom humor que mal podia esperar para jogar mah-jong. Ele estivera em Hangzhou 32 anos antes, no verão de 1921, depois do I Congresso do Partido Comunista. Naquela ocasião, era um professor sem vintém que viajava graças aos russos. Agora era o senhor da China. Sua visita fora devidamente preparada. Uma famosa herdade da virada do século chamada Água e Bambu fora separada para ele. Era adornada por pequenos lagos artificiais e bambuzais, videiras e palmeiras, e oferecia uma vista panorâmica para o lago Ocidental. As casas de campo vizinhas e os morros dos fundos foram incorporados a uma única herdade enorme que cobria 36 hectares. O morro de trás foi escavado para conter um abrigo nuclear. Mao ficou numa residência requintada, que combinava o estilo clássico chinês com estilos estrangeiros, com colunas, portas e decorações que haviam sido trazidas de navio peça por peça pelo proprietário original. Mas, pouco depois, Mao mandou derrubá-la e substituí-la por sua usual estrutura indefinível e anódina. Os estalos da madeira velha haviam afetado seus nervos com pensamentos sobre assassinos. Ele só se sentia seguro em um bunker de concreto reforçado.
Mao apaixonou-se pela vista. Todos os dias, mesmo quando garoava, escalava os picos próximos, que eram especialmente isolados para ele. Demorava-se junto à flor da ameixeira, cheirando suas pétalas. Conversava e brincava com seu staff. Esse humor foi capturado por seu fotógrafo, em um retrato no qual Mao aparece com bochechas sorridentes, banhado pela luz do sol.
Não demorou para que caísse a maior nevada em décadas. Mao levantou-se às sete horas, um horário bizarro para seus hábitos, e ficou petrificado pela imagem do jardim branco. Depois caminhou por uma trilha coberta de neve que mandou não limpar, para se maravilhar com o lago branco. Compôs então um poema.
A primavera veio, alternando entre dias de garoa e de sol resplandecente, cada dia se abrindo em massas de flores. Durante uma excursão, sua fotógrafa Hou Bo catou um punhado de flores silvestres e deu a Mao. Parece que ninguém sabia o nome da flor, então ele disse: vamos chamá-la de Hou Bo.
Ele inventou uma visita ao local de origem de seu chá favorito, o povoado de Poço do Dragão, que ficava perto. Os camponeses foram devidamente removidos “para uma reunião de massa” — na verdade, para a segurança dele. Mas visitas de surpresa eram consideradas seguras e assim, em outra ocasião, Mao visitou a casa de um camponês. O casal não entendia uma palavra de seu dialeto de Hunan, nem ele entendia o dialeto deles. Moradores curiosos começaram a aparecer e os guardas de Mao sumiram com ele da vista.
Em uma excursão ao alto do morro, Mao viu uma choupana de sapé em chamas, ao longe. Os moradores estavam do lado de fora, impotentes, enquanto o fogo engolia sua casa. De acordo com a fotógrafa de Mao, ele “se virou para mim com um olhar de relance e disse com frieza: ‘Fogo bom. É bom queimar, bom queimar!’”.
A fotógrafa ficou pasma. Ao perceber a reação dela, Mao acrescentou: “Sem o fogo, eles continuariam a morar naquela choça”.
“‘Mas agora que foi destruída pelo fogo, onde eles vão viver?’ Ele não respondeu à minha pergunta, como se não tivesse escutado.”
Mao não tinha resposta para essa pergunta. Durante todo o seu reinado, os camponeses tiveram de se virar sozinhos no que tangia à moradia. O Estado não oferecia financiamento. Até nas áreas urbanas, afora apartamentos para a elite e blocos residenciais em complexos industriais, praticamente nenhuma habitação foi construída.
Observando a cabana de sapé se transformar em cinzas, Mao acabou dizendo para si mesmo: “Hum, realmente limpo se a terra caiu para completar o vazio e o nada!”.
Tratava-se de um verso do clássico O sonho do pavilhão vermelho. Mas Mao estava fazendo mais do que recitar poesia. Tratava-se de um eco da atração pela destruição que expressara de modo alarmante na juventude. Ele continuou: “Isso se chama ‘Nenhuma destruição, nenhuma construção’”.
Para Mao, construção relacionava-se tão somente com tornar-se uma superpotência. Em Hangzhou, começou a revisar o rascunho da primeira “Constituição”, algo em que enfim pensava, depois de mais de quatro anos no poder. Entre as coisas que queria revisar estava a promessa de que seu regime protegeria a segurança e os direitos legais de “todos os cidadãos”. Mao sublinhou as palavras “todos os cidadãos” e escreveu na margem: “O que é exatamente um cidadão?”.
Os bajuladores haviam sugerido que o documento se chamasse “Código de Mao Tse-tung”, numa clara referência ao código napoleônico. Mao rejeitou a ideia. Era avesso à lei e não queria nada que o prendesse. Com efeito, por mais débil que fosse, a Constituição logo seria descartada totalmente.
Um dia, Mao visitou um templo que fora, como de costume, esvaziado por motivos de segurança, exceto por um monge cego. Sobre o altar havia um recipiente de madeira com tiras de bambu para adivinhação e Mao pediu que sua fotógrafa pegasse uma tira para ele. Ela sacudiu o recipiente, tirou uma tira e foi até uma estante de livros que continha velhos livros de poesias para encontrar o verso referido na tira. Ele dizia: “Sem paz, dentro ou fora de casa”. Não havia como apresentar esse verso infausto, então ela pegou rapidamente outro, que continha uma mensagem alegre e provocou risos.
A adivinhação era misteriosamente correta. Madame Mao viera com a filha, Li Na, para passar o ano-novo chinês, época tradicional de reunião familiar. Mas a visita acabou com ela em lágrimas, pedindo um avião para ir embora. Hangzhou, famosa não somente por seu cenário, mas também por suas mulheres, havia despertado o desejo sexual de Mao. Ele retornaria 41 vezes, em parte por esse motivo. Gostava de mulheres jovens e de aparência inocente, que seus subordinados buscavam para que fossem parceiras nos bailes semanais e na subsequente fornicação.
Mao não sentia mais interesse sexual pela esposa. Mesmo antes de 1949, seu médico russo Orlov já tratava “de problemas sexuais” dele com ela (Orlov referiu-se acidamente a ela como “a Rainha” em telegrama a Stálin). Depois, madame Mao sofreu graves problemas ginecológicos, dos quais se tratou na Rússia, sob o pseudônimo de “Iussúpova”, pois ficou em um palácio em Ialta que pertencera ao príncipe Iussúpov, o homem que matara Raspútin (palácio no qual Stálin havia ficado durante a conferência de Ialta). Sua doença quase com certeza afastou Mao ainda mais. Ele se tornou cada vez mais descarado em suas infidelidades. Certa vez, madame Mao foi encontrada chorando junto ao lago de Zhongnanhai. “Não conte a ninguém”, disse ao homem que a viu, o médico de Mao. “O presidente é alguém que ninguém, nem mesmo Stálin, pode vencer na luta política, e também não pode ser vencido na conquista de mulheres.” Ela tornou-se cada vez mais difícil e histérica e descarregava sua fúria e frustração nos criados: acusava suas enfermeiras de “atormentá-la deliberadamente”, batia nelas e exigia que fossem punidas.
Enquanto isso, como a adivinhação da tira de bambu estranhamente descrevia, um bom número de colegas de Mao passava por perturbação e pavor. Para a nação como um todo, a política econômica estava prestes a se tornar drasticamente mais dura à medida que o Programa de Superpotência passou a ser implementado.
a Em setembro de 1952, Chou disse a Stálin que a China também poderia “coletar” até 1,6 bilhão de libras esterlinas e mais 200 milhões de dólares em um prazo de cinco anos, graças “principalmente” ao que chamou de “contrabando”.
b A ameaça de expulsão para o campo funcionava como um poderoso freio para que os moradores das zonas urbanas não saíssem da linha. Todos sabiam que ser jogado no campesinato significava não somente uma labuta insana para eles e suas famílias, como a perda de qualquer certeza de poder ganhar a vida, e que a infelicidade cairia também sobre as gerações futuras.
c Que Gao falara demais foi confirmado pelo alto assessor soviético na China Arkhípov. Quando o pressionamos sobre o tema, ele nos lançou um olhar gelado e perguntou, num tom de voz diferente: “Por que vocês querem saber tanto sobre Gao Gang?”.