Mao: a história desconhecida

Jung Chang e Jon Halliday · Capítulo 29 de 69

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Mao: a história desconhecida

27. Os russos estão chegando!

 

(1945-46; 51-52 anos)

 

Em fevereiro de 1945, em Ialta, na Crimeia, Stálin confirmou a Roosevelt e Churchill que a Rússia entraria na guerra do Pacífico dois ou três meses depois da derrota da Alemanha. Isso significava que o Exército soviético entraria na China e, assim, daria a Mao sua tão esperada chance de tomar o país. Mao fizera uma avaliação sagaz já em 1923: o comunismo, dissera então, “precisa ser trazido para a China do norte pelo Exército russo”. Agora, 22 anos depois, isso estava em vias de se tornar realidade.

Stálin não teve de persuadir Roosevelt e Churchill a deixá-lo entrar no fim da guerra contra o Japão. Eles queriam que ele se envolvesse. Na época, a bomba atômica americana ainda não havia sido testada e o sentimento era que a entrada soviética apressaria a derrota do Japão e salvaria vidas dos países aliados. Os dois líderes ocidentais aceitaram as exigências de “compensações” feitas por Stálin e aparentemente não se deram conta de que ele não precisava de estímulo algum para entrar na guerra do Pacífico. Além de aceitarem o status quo na Mongólia Exterior (permitindo que Stálin ficasse com ela), concordaram em voltar o relógio décadas atrás e restaurar os privilégios czaristas na China, inclusive o controle extraterritorial sobre a Ferrovia Oriental chinesa

e dois portos importantes da Manchúria. a

Stálin usou a desculpa de lutar contra o Japão no último minuto para invadir a China e criar as condições para a tomada do poder por Mao. Um sinal disso surgiu logo depois de Ialta, em 18 de fevereiro, quando o jornal Izvestia, porta-voz do governo soviético, falou do “desejo [de Moscou] de resolver o problema do Extremo Oriente levando em conta os interesses dos comunistas chineses”.

Mao estava enlevado e sua boa vontade para com os russos estendeu-se à vida sexual deles. Dentro de poucos dias, estava tentando arranjar-lhes mulheres. “Você não gostou de nenhuma mulher bonita aqui?”, perguntou a Vladímirov em 26 de fevereiro. “Não seja tímido...” E retornou ao tema uma semana depois: “Bem, existem garotas atraentes, não é mesmo? E extremamente saudáveis. Não acha? Talvez Orlov gostasse de procurar por uma? E talvez você também, tem alguma em vista?”.

Vladímirov escreveu:

[...] ao cair da tarde, uma garota apareceu [...] Ela me cumprimentou timidamente, dizendo que viera para

limpar a casa [...]

Peguei um banco e o coloquei sob nossa única árvore, perto do muro. Ela sentou-se tensa, mas sorridente.

Então respondeu às minhas perguntas com amabilidade, e estava durante todo o tempo esperando

cautelosamente, com as pernas cruzadas, pequenas pernas esguias em chinelos tecidos [...]

Com efeito, era uma garota esplêndida!

[...] ela me disse que era estudante universitária, acabara de se matricular. Como era jovem [...]

 

Em 5 de abril, Moscou anunciou a Tóquio que estava rompendo seu pacto de neutralidade. Um mês depois, a Alemanha rendeu-se. Isso aconteceu bem no meio do congresso do PCC que ratificou a supremacia de Mao. Ele animou os delegados com o sentimento de que a vitória era iminente também para o partido. O Exército soviético certamente viria para ajudá-los, disse ele, e então, com um grande sorriso, pôs o lado da mão no pescoço como um machado e anunciou: “Se isso não acontecer, podem cortar minha cabeça!”. Mao fez os comentários mais efusivos de sua vida sobre Stálin. “Stálin é o líder da revolução mundial? Claro que é.” “Quem é o nosso líder? É Stálin. Há uma segunda pessoa? Não.” “Todos os membros do nosso Partido Comunista Chinês são pupilos de Stálin”, recitou Mao. “Stálin é o mestre de todos nós.”

 

No dia 9 de agosto de 1945, dez minutos depois da meia-noite, três dias depois que os americanos lançaram a primeira bomba atômica sobre Hiroxima, mais de 1,5 milhão de soldados soviéticos e mongóis invadiram a China ao longo de uma ampla frente que se estendia por mais de 4600 quilômetros, das praias do Pacífico à província de Chahar — muito mais ampla do que a frente europeia do Báltico ao Adriático. Em abril, Mao ordenara que seus soldados estacionados perto dos pontos de entrada dos russos estivessem prontos “para lutar em coordenação com a União Soviética”. Assim que o Exército russo-mongol entrou no país, Mao passou a trabalhar 24 horas por dia, despachando soldados para que fizessem a conexão e tomassem o território por onde ele passasse. Mudou seu gabinete para um auditório do Jardim das Tâmaras, onde recebia os comandantes militares, redigia telegramas sobre a mesa de pingue-pongue que usava como escrivaninha e fazia pausas apenas para engolir rapidamente as refeições.

Pelos acordos de Ialta, antes de entrar na China a Rússia deveria assinar um tratado com Chiang Kai-shek, mas isso não foi feito. Uma semana depois da invasão, quando seu exército já havia avançado centenas de quilômetros país adentro, o ministro do Exterior de Chiang apôs com relutância sua assinatura num Tratado de Amizade e Aliança sino-soviético que separava formalmente a Mongólia Exterior da China. Em troca, Chiang conseguiu que os russos se comprometessem a reconhecê-lo como único governante legítimo da China e prometessem devolver a ele, e somente ele, todos os territórios que ocupassem.

Apesar dessa promessa, Stálin encontrou uma miríade de maneiras de ajudar Mao. Sua primeira manobra foi se recusar a estabelecer um cronograma para a retirada. Fez várias promessas verbais de retirar as tropas dentro de três meses, mas recusou-se a incorporar ao acordo esse limite, que foi incluído apenas numa “minuta” não obrigatória. De fato, os russos ficariam muito mais do que três meses e usariam o período de ocupação para

frustrar Chiang e transferir secretamente territórios e recursos para Mao. b

O Japão rendeu-se em 15 de agosto. A ocasião foi festejada na China com fogos de artifício e festas nas ruas, lágrimas e brindes, tambores e gongos. A maior parte do país estivera em guerra durante oito anos, e algumas regiões, por catorze anos. Durante esse tempo, pelo menos um terço da população sofrera a ocupação japonesa. Dezenas de milhões de chineses morreram, incontáveis milhões ficaram aleijados e mais de 95 milhões de pessoas — o maior número da história — se tornaram refugiados. O povo ansiava pela paz.

Em vez disso, o que tiveram foi uma guerra civil em todo o país, que irrompeu de imediato para valer. Nisso, Stálin estava por trás de Mao; na verdade, quando o Japão se rendeu, os russos não pararam seu avanço para o sul durante várias semanas. A área do norte da China em que as tropas russas entraram era maior do que todo o território que elas ocuparam na Europa oriental. Paraquedistas russos desceram até Baotou, o fim da linha férrea ao norte da base de Mao, cerca de 750 quilômetros a oeste da fronteira da Manchúria. No final de agosto, com a ajuda russa, o PCC já havia ocupado boa parte das províncias de Chahar e Jehol, inclusive suas capitais, Zhangjiakou e Chengde, ambas a cerca de 150 quilômetros de Pequim, a noroeste e nordeste, respectivamente. Durante um tempo, Mao planejou mudar sua capital para Kalgan e comboios de camelos que levavam documentos e bagagens partiram de Yenan para lá.

O prêmio principal era a Manchúria, que continha os melhores depósitos da China de carvão, ferro e ouro, florestas gigantescas — e 70% de sua indústria pesada. A Manchúria estava cercada em três lados por territórios controlados pelos soviéticos: Sibéria, Mongólia e Coreia do Norte. Só a fronteira com a Sibéria tinha mais de 2 mil quilômetros de extensão. “Se tivermos a Manchúria, nossa vitória estará garantida”, dissera Mao ao seu partido.

Nem comunistas, nem nacionalistas tinham exércitos na região, que fora ocupada pelos japoneses de forma eficaz e implacável durante catorze anos. Mas os guerrilheiros comunistas estavam muito mais perto do que as tropas de Chiang. Os russos abriram imediatamente os depósitos de armas japoneses para esses comunistas, inclusive o maior arsenal, em Shenyang, que continha cerca de “100 mil armas de fogo, milhares de peças de artilharia e grande quantidade de munição, tecidos e alimentos”, de acordo com uma circular secreta do o PCC . Poucos meses antes, o 8 Exército de Marcha comunista tinha apenas 154 peças de artilharia pesada.

A mina não era apenas de armas, mas também de soldados. As tropas do regime títere de Manchukuo se renderam em massa ao Exército soviético e seus quase 200 mil homens foram postos à disposição pelos russos para serem “realistados” pelo PCC. O mesmo aconteceu com as centenas de milhares de homens que ficaram desempregados devido às depredações e destruições provocadas pelos russos. As forças de ocupação soviética removeram fábricas inteiras e maquinário como “butim de guerra”, e até demoliram instalações industriais. Estimou-se que os equipamentos removidos pelos russos valiam 858 milhões de dólares (o equivalente a 11 bilhões de dólares em moeda atual). Muitas pessoas do lugar foram privadas de seu sustento. O PCC, que enviara originalmente 60 mil soldados para a Manchúria, viu suas forças crescerem para mais de 300 mil.

 

Esse aumento do poder do PCC foi levado a cabo pelos russos no máximo segredo, pois violava totalmente o tratado que Moscou acabara de assinar com Chiang. As melhores tropas do Generalíssimo, treinadas e equipadas pelos americanos, estavam presas no sul da China e na Birmânia, longe das áreas tomadas pelos russos. Para chegar rápido à Manchúria, ele precisava desesperadamente de navios americanos. Os Estados Unidos queriam que ele conversasse com Mao sobre paz; assim, sob pressão americana, Chiang convidou Mao a ir a Chongqing para conversações. A política dos Estados Unidos para a China fora definida pelo falecido presidente Roosevelt (que morrera em 12 de abril de 1945 e fora sucedido pelo vice-presidente Harry Truman) como “juntar cabeças” e o embaixador americano na China sugerira anteriormente a ideia de levar o Generalíssimo e Mao juntos à Casa Branca, se os dois líderes chineses chegassem a um acordo.

Mao não queria ir a Chongqing e recusou duas vezes o convite de Chiang, principalmente porque não confiava no líder nacionalista e achava que ele poderia tentar matá-lo. Essa seria a primeira saída de sua toca desde que começara a comandar sua própria força militar, em 1927. Ele disse a Chiang que mandaria Chou En-lai. Mas o Generalíssimo insistiu em que a reunião de cúpula deveria contar com a presença de Mao e, no final, ele teve de aceitar. Stálin lhe telegrafara não menos de três vezes, instando-o a ir. Enquanto ajudava secretamente os comunistas a tomar territórios, queria que Mao participasse do jogo das negociações. Se este se recusasse a aparecer, passaria uma impressão de que rejeitava a paz e os Estados Unidos dariam com maior probabilidade toda a sua ajuda a Chiang.

Mao ficou indignado com essa pressão de Stálin. Ela viria a ser sua maior queixa do líder soviético, e que ele repetiria pelo resto de sua vida.

Stálin disse a Mao que sua segurança seria garantida pela União Soviética e pelos Estados Unidos. Chen Li-fu, o fundador do FBI de Chiang, nos contou que os nacionalistas não tinham planos contra Mao “porque os americanos garantiam sua segurança”. Mao sabia que teria também a proteção secreta de seus infiltrados estrategicamente posicionados, em especial do chefe da guarnição de Chongqing, Chang Chen. Mesmo assim, insistiu para que o embaixador americano Patrick Hurley fosse até Yenan e o escoltasse a Chongqing, como garantia contra ser derrubado no ar.

Com todas essas precauções tomadas, Mao finalmente foi para Chongqing em um avião americano no dia 28 de agosto, deixando Liu Shao-chi no comando de Yenan. Quando o avião aterrissou, Mao ficou grudado em Hurley e entrou no carro dele, evitando o veículo enviado por Chiang.

Mao também tomou as providências de segurança que conhecia melhor, ordenando uma ofensiva contra forças nacionalistas enquanto estava em Chongqing, o que demonstrava que os comunistas intensificariam a guerra civil se alguma coisa acontecesse a ele. Disse aos seus altos generais, que estavam prestes a ser levados (por aviões americanos) ao QG do 8EM: lutem sem restrição alguma. Quanto melhor lutarem, mais seguro estarei. Quando suas tropas ganharam a batalha em um lugar chamado Shangdang, Mao comemorou: “Ótimo! Quanto maior a batalha, maior a vitória, mais esperança de eu poder retornar”.

Mao sentiu um momento de pânico em Chongqing, quando Hurley partiu, em 22 de setembro, seguido por Chiang, no dia 26, e temeu que estivessem montando um ataque a ele. Chou foi enviado à embaixada soviética para perguntar se os russos deixariam Mao ficar lá, mas o embaixador Apollon Petrov não quis se comprometer e não obteve resposta quando telegrafou a Moscou para pedir instruções. Mao ficou furioso.

Mao ganhou muito ao ir a Chongqing. Conversou com Chiang de igual para igual, “como se os presidiários estivessem negociando com os carcereiros”, nas palavras de um observador. As embaixadas estrangeiras o convidaram não como um rebelde, mas como um estadista, e ele desempenhou seu papel, comportando-se diplomaticamente; a certa altura, descartou com uma risada o comentário desafiador do general Carton de Wiart, o enviado de Churchill, que lhe disse que “não considerava que [os comunistas] haviam contribuído muito para a derrota dos japas”, e que suas tropas tinham apenas “um valor de aborrecimento, não mais que isso”. Mesmo quando colocado contra a parede pelo comandante americano na China, o general Albert Wedemeyer, sobre o assassinato e a mutilação de um oficial americano chamado John Birch pelos comunistas, Mao demonstrou autodomínio. E manteve a frieza quando Wedemeyer lhe disse, em tom quase de ameaça, que os Estados Unidos planejavam levar bombas atômicas para a China, bem como até meio milhão de soldados. Ao parecer conciliador, Mao conseguiu uma vitória de propaganda.

As conversações de paz duraram 45 dias, mas todo o episódio foi puro teatro. Mao circulou exclamando “Viva o Generalíssimo Chiang!” e dizendo que o apoiava como líder da China, mas isso não significava nada. Ele queria a China para si mesmo e sabia que só a obteria por meio da guerra civil.

Chiang também sabia que a guerra era inevitável, mas precisava de um acordo de paz para satisfazer os americanos. Embora não tivesse intenção de observá-lo, endossou um acordo que foi assinado em 10 de outubro. E esse comportamento trouxe benefícios, pelo menos no curto prazo. Enquanto Mao estava em Chongqing, as forças americanas ocuparam as duas principais cidades do norte, Pequim e Tianjin, e as seguraram para Chiang, e começaram a transportar suas tropas para a Manchúria.

Após a assinatura do tratado, Chiang convidou Mao a passar a noite em sua casa; no dia seguinte, tomaram o desjejum juntos, e depois Mao partiu para Yenan. No momento em que o viu pelas costas, o Generalíssimo deu vazão aos seus verdadeiros sentimentos em seu diário: “O Partido Comunista é pérfido, baixo e pior do que bestas”.

 

Assim que retornou a Yenan, em 11 de outubro, Mao iniciou as operações militares para manter o Exército de Chiang fora da Manchúria. Lin Biao foi designado para comandar as forças comunistas naquela região. Dezenas de milhares de quadros já tinham sido despachados e colocados sob a direção de um novo birô manchu, cujos líderes os russos haviam levado de avião em segredo de Yenan para Shenyang, em meados de setembro.

Mao dispôs tropas em torno de Shanhaiguan, na extremidade leste da Grande Muralha. Suas forças ocuparam essa passagem estratégica da China propriamente dita para a Manchúria em cooperação com o Exército soviético, em 29 de agosto. Ele pediu aos russos que tomassem conta dos portos marítimos e aeroportos. Com estímulo dos soviéticos, unidades do PCC passando-se por bandidos atiraram nos navios americanos que tentavam desembarcar tropas de Chiang; em um dos casos, bombardearam o lanchão do comandante americano, almirante Daniel Barbey, e o forçaram a voltar para o mar.

A 7 a Frota dos Estados Unidos teve de atracar em Qinhuangdao, um porto ao sul da Manchúria, e um dos melhores exércitos de Chiang desembarcou. Na noite de 15 para 16 de novembro, eles atacaram o passo de Shanhaiguan. Mao pedira uma “batalha decisiva” e instruiu seus soldados a segurar a passagem, mas as divisões de Chiang simplesmente os destroçaram. As forças de Mao se desintegraram tanto que um comandante nacionalista lamentou com orgulho que “nem temos gente suficiente para aceitar todas as armas que estão sendo rendidas”.

As forças comunistas não tinham experiência de guerra de trincheiras, ou de qualquer tipo de guerra moderna. Como guerrilheiros, seu primeiro princípio, estabelecido pelo próprio Mao, era “recuar quando o inimigo avança”. E foi o que fizeram então. Por outro lado, os exércitos de Chiang haviam travado grandes batalhas com os japoneses; na Birmânia, tinham posto mais japoneses fora de combate em uma única campanha do que todo o Exército comunista em oito anos, na China inteira. O general Tu Yu-ming, comandante supremo nacionalista na Manchúria, estivera no comando de importantes batalhas contra os japoneses, enquanto o comandante de Mao, Lin Biao, participara de uma única emboscada, em setembro de 1937, oito anos antes, e desde então mal sentira o cheiro da pólvora. Ao evitar cuidadosamente o combate com os japoneses, Mao tinha nas mãos um exército incapaz de travar uma guerra moderna.

Os comunistas estiveram em alguns confrontos diretos durante a guerra sino-japonesa, mas sobretudo contra unidades nacionalistas fracas. Não haviam enfrentado a nata das forças de Chiang, que, como um alto comandante comunista escreveu a Mao, estavam revigoradas, bem treinadas, prontas para a batalha e tinham “um estilo americano”.

As tropas do PCC, além de mal treinadas, estavam com pouca motivação. Após a guerra japonesa, muitos queriam somente paz. Os vermelhos vinham usando uma canção de propaganda chamada “Derrotar o Japão para que possamos ir para casa”. Após a rendição dos japoneses, a canção foi banida, mas o sentimento — vamos para casa — não podia ser apagado com tanta facilidade como uma canção.

Quando as tropas comunistas foram mandadas para a Manchúria, principalmente de Shandong, as conversas destinadas a levantar o moral não tratavam de altos ideais, mas de estímulos materiais. O comissário Chen Yi disse aos oficiais: “Quando parti de Yenan, o presidente Mao pediu-me para contar que vocês vão para um lugar bom, um lugar muito divertido. Há luz elétrica e edifícios, e muito ouro e prata”. Outros disseram a seus subordinados: “Na Manchúria, comeremos arroz e farinha branca [alimentos desejáveis] o tempo todo”, e “todos ganharão promoção”. Mesmo assim, alguns oficiais acharam impossível motivar os soldados e mantiveram o destino em segredo até que as tropas estivessem a caminho, a bordo de um navio.

Os oficiais comunistas que seguiram por terra para a Manchúria relembraram o moral baixíssimo:

A coisa que nos dava mais dores de cabeça eram as deserções [...] Em termos gerais, todos nós, membros do

partido, comandantes de esquadrões, líderes de equipes de combate, tínhamos nossos “vacilantes” para vigiar.

Fazíamos tudo junto com eles: turnos de sentinela, tarefas cotidianas, pequenas missões [...] Quando os

vacilantes queriam mijar, nós dizíamos “quero mijar também” [...] Sinais de depressão, saudades de casa,

queixas — tudo tinha de ser tratado imediatamente [...] Após as batalhas, em especial as derrotas,

mantínhamos os olhos bem abertos.

A maioria dos fugitivos escapava depois que o acampamento estava armado, então [...] além das sentinelas

normais, colocávamos sentinelas secretas [...] Alguns de nós se amarravam sub-repticiamente aos vacilantes à

noite [...] Outros estavam tão desesperados que adotaram o método que os japoneses usavam com seus

trabalhadores — recolhiam as calças dos homens e as guardavam no QG da companhia à noite.

 

Não obstante, mesmo alguns desses quadros de confiança desertaram.

Em 15 de novembro, o comandante de uma divisão que fora de Shandong para a Manchúria relatou a Mao que entre “desertores, desgarrados e doentes” perdera 3 mil homens de um total de 32 500 que haviam partido junto com ele. Antes disso, o comandante de outra unidade relatou: “Só na noite passada [...] mais de oitenta escaparam”. Uma unidade sofreu uma taxa de deserção de mais de 50%, acabando com menos de 2 mil dos 4 mil homens que tinha inicialmente. Os recrutas manchus locais também desertaram aos magotes quando perceberam que teriam de lutar contra o governo nacional. No final de dezembro de 1945 e início de 1946, durante um período de dez dias, mais de 40 mil passaram para o lado dos nacionalistas, de acordo com as estatísticas dos próprios comunistas. Embora as tropas do PCC na Manchúria fossem numericamente muito superiores às dos nacionalistas e estivessem equipadas com armas japonesas, ainda assim não conseguiram manter suas posições.

 

Liu Shao-chi, o segundo em comando do PCC, previra que os comunistas não conseguiriam manter Chiang fora da Manchúria. Ele tinha uma estratégia diferente da de Mao. Enquanto este estava em Chongqing, instruíra o partido na Manchúria a se concentrar na montagem de uma base sólida na fronteira com a Rússia e seus satélites, onde as tropas poderiam receber treinamento adequado em guerra moderna. Em 2 de outubro de 1945, havia mandado uma ordem: “Não posicionar as principais forças na porta para a Manchúria para impedir Chiang de entrar, mas nas fronteiras com a União Soviética, Mongólia e Coreia, e fincar pé ali”. Além disso, Liu dissera aos comunistas para estarem prontos a abandonar as grandes cidades e montar bases no campo ao redor das cidades.

Mas, quando retornou de Chongqing, Mao revogou as ordens de Liu. Concentrem as forças principais na passagem para a Manchúria e nos entroncamentos das grandes ferrovias, ordenou em 19 de outubro. Ele não podia esperar para “possuir a Manchúria inteira”, como dizia outra ordem. Mas seu exército não estava à altura da tarefa.

A relação dele com seu exército era, em geral, distante. Jamais tentou animar pessoalmente suas tropas, jamais visitou o front, nem se encontrou com seus soldados na retaguarda. Não se importava com eles. Muitos dos homens mandados para a Manchúria estavam com malária. Para arrastar esses homens febris por muitas centenas de quilômetros, cada soldado doente ficava entre dois sãos e era puxado por uma corda amarrada na cintura. O método preferido de Mao para tratar dos soldados feridos era deixá-los com os camponeses locais, que, em geral, estavam entre a subsistência e a fome

e não tinham acesso a medicamentos. c

O desempenho de seu exército mostrou que Mao não tinha perspectiva de vitória breve e Stálin ajustou-se rapidamente. Em 17 de novembro de 1945, depois que o Exército nacionalista invadiu o sul da Manchúria com facilidade, Chiang notou uma “súbita mudança de atitude” nos russos. Eles disseram ao PCC que teriam de sair das cidades, pondo um fim nas esperanças de Mao de se tornar o senhor imediato de toda a Manchúria e de uma rápida vitória em todo o país.

Stálin sabia que essa decisão seria devastadora para Mao, então fez um gesto para tranquilizá-lo. No dia 18, partiu um telegrama de Moscou: “MAO AN YIN[G] pede sua permissão para ir para ‘41’ [nome em código de Yenan]”. Stálin estava finalmente devolvendo seu filho. Era uma boa notícia para Mao, mas não ajudava a tomar a Manchúria. Seguiram-se súplicas desesperadas aos russos e ordens inúteis para que suas tropas mantivessem posições. Quando ambas falharam, Mao teve um colapso nervoso. No dia 22, saiu do Jardim das Tâmaras para uma clínica especial de elite (depois que todos os pacientes foram postos para fora). Durante dias a fio não conseguiu sair da cama, ou dar uma cochilada. Deitado na cama, seu corpo todo tremia, ele tinha convulsões nas mãos e nos pés e suava frio.

Sem saber o que fazer, seu assistente Shi Zhe sugeriu que pedissem ajuda a Stálin. Mao concordou e Shi telegrafou a ele, que respondeu de imediato, dispondo-se a enviar médicos. Mao aceitou a oferta, mas duas horas depois parece não ter gostado da ideia de se mostrar tão frágil para Stálin e pediu que Shi segurasse o telegrama. Mas já era tarde: a mensagem já fora enviada.

Havia poucos dias, Stálin chamara de volta o dr. Orlov, junto com toda a missão do GRU em Yenan. Orlov estivera na China por três anos e meio, sem folga, mas, no momento em que pôs os pés em Moscou, Stálin ordenou que voltasse para Mao. O desafortunado médico chegou de volta a Yenan em 7 de janeiro de 1946, acompanhado de um colega chamado Miélnikov, da KGB. Não descobriram nenhum problema sério em Mao, exceto exaustão mental e estresse nervoso. Ele foi aconselhado a delegar mais no trabalho, descontrair-se, dar caminhadas e respirar muito ar puro. Orlov, no entanto, logo alegou estar sofrendo também de tensão nervosa e implorou que Moscou o chamasse de volta. Em vão.

No avião que trouxe os médicos veio também An-ying, a quem Stálin presenteara pessoalmente com uma pistola com seu nome gravado. Havia mais de dezoito anos que Mao vira pela última vez seu filho, então com quatro anos de idade, em 1927, quando ele abandonara Kai-hui e três filhos para começar sua carreira de fora da lei. Agora An-ying era um belo jovem de 23 anos. No campo de pouso, Mao o abraçou e exclamou: “Como você ficou alto!”. Naquela noite, escreveu uma carta de agradecimento a Stálin.

Mao já saíra da clínica e se instalara no QG das Forças Armadas, um lindo lugar conhecido como Pavilhão das Peônias, cercado por um grande jardim dessas flores, entre elas algumas das variedades mais deslumbrantes da China. A esse rico esplendor, o comandante em chefe nominal e amante das plantas Zhu De acrescentara um delicado pomar de pêssegos, um lago de peixes e uma quadra de basquete. Mao passava muito tempo com An-ying, muitas vezes sentados a uma mesa quadrada de pedra, conversando fora da casa de barro, que ficava ao lado de seu profundo — e privado — abrigo antiaéreo. Um parceiro frequente de mah-jong e cartas da época observou que Mao era muito afetuoso com o filho. A saúde dele melhorou gradualmente, e ao chegar a primavera ele estava bem recuperado.

A coisa mais confortante para Mao era a maior parte da Manchúria ainda estar em mãos comunistas. Stálin manteve o controle geral da região, tendo ficado muito além dos três meses que prometera, e só permitira a entrada do esqueleto de uma equipe nacionalista nas cidades. Embora tenha precisado remover suas organizações da maioria das cidades, o PCC estava fortemente fincado no vasto campo.

 

O Exército russo só saiu finalmente da Manchúria em 3 de maio de 1946, quase dez meses depois que entrara. Para maximizar as chances do PCC, eles esconderam dos nacionalistas até o último minuto a data da retirada, ao mesmo tempo que coordenavam a partida com o PCC, para que pudessem tomar os recursos da região, inclusive cidades importantes, nas quais os comunistas reentraram então. Mao mandou de novo que seu exército mantivesse as cidades fundamentais junto à linha ferroviária, que, ele insistia, deveriam ser defendidas “sem medir sacrifícios”, “como Madri”, evocando a imagem heroica da defesa da capital até a morte pelos republicanos na Guerra Civil Espanhola.

Liu Shao-chi advertiu novamente que os comunistas não estavam em condições de deter o Exército de Chiang e que a maioria das cidades teria de ser abandonada. Lin Biao, que era o comandante na Manchúria, também alertou Mao para o fato de que “não há grande probabilidade de segurar [as cidades]”, e sugeriu que a estratégia deles deveria ser “eliminar forças inimigas, não defender cidades”. Ele concordava com Liu Shao-chi que a prioridade era montar bases rurais. Mao insistiu em que as cidades

deveriam ser defendidas “até a morte”. d

Mas a rodada seguinte de batalhas mostrou que seu exército ainda não estava à altura do de Chiang. Poucas semanas depois da retirada dos russos, os nacionalistas já haviam tomado todas as principais cidades da Manchúria, exceto Harbin, a mais próxima da Rússia, e as forças comunistas haviam sido reduzidas a um estado crítico. Elas recuaram caoticamente para o norte, sob bombardeios aéreos, perseguidas por tanques e tropas motorizadas nacionalistas. O comissário político de Lin Biao admitiu depois que “todo o Exército se havia desintegrado” e caído no que ele chamou de “anarquia total”. Um oficial relembrou ter sido perseguido sem parar durante 42 dias: “Parecia realmente que estávamos acabados”.

Os comunistas não estavam apenas entrando em colapso militar, como estavam em enorme desvantagem junto à população civil, que ansiava pela unidade nacional depois de catorze anos de brutal domínio japonês e considerava que os nacionalistas representavam o governo. Lin Biao relatou a Mao: “As pessoas estão dizendo que o 8 o Exército de Marcha não deveria lutar contra o Exército do governo [...] Eles consideram os nacionalistas o governo central”.

O PCC tinha outra desvantagem, a de estar ligado, na mente das pessoas, aos russos, que eram odiados. As tropas russas saquearam não apenas equipamentos industriais, mas também as casas das pessoas, e o estupro por soldados russos era frequente. Em fevereiro de 1946, quando a publicação atrasada do acordo de Ialta revelou os enormes privilégios extraterritoriais que Stálin obtivera na Manchúria, irromperam manifestações antissoviéticas em muitas cidades da região, bem como em outros lugares da China. Havia um sentimento disseminado de que o PCC entrara na Manchúria nas costas dos russos e não estava defendendo os interesses chineses. Quando os manifestantes gritavam slogans como “O PCC deveria amar nosso país”, os espectadores aplaudiam. Circularam rumores de que o partido estava oferecendo mulheres em troca de armas.

As pessoas do lugar davam aos comunistas chineses um tratamento muito diferente daquele dispensado aos nacionalistas. Um oficial vermelho relembrou: “Estávamos com fome e sede quando chegamos a Jilin [...] Não havia uma única alma nas ruas [...] Mas quando o inimigo entrou na cidade, de alguma forma todas as pessoas apareceram, acenando pequenas bandeiras e dando vivas [...] Imaginem nossa raiva!”.

As tropas comunistas estavam desanimadas e desabafavam sua fúria até mesmo em cima de seus oficiais. Certa vez, Lin Biao ficou preso com seu jipe no meio de tropas que recuavam. Quando seu guarda pediu aos soldados para abrir caminho para “o chefe”, foi recebido com gritos como: “Pergunte ao tal chefe se estamos recuando para a terra dos Grandes Peludos”. Era assim que os moradores locais chamavam pejorativamente os russos.

Àquela altura, parecia que os comunistas chineses seriam empurrados para o outro lado da fronteira com a Rússia, ou se espalhariam em pequenas unidades guerrilheiras pelas montanhas, o que Lin Biao previu. Em 1 o de junho, ele pediu a Mao permissão para abandonar Harbin, a última grande cidade mantida por eles, a cerca de quinhentos quilômetros da fronteira russa. O birô do PCC da Manchúria enviou a Mao a mesma mensagem fatalista no dia seguinte: “Dissemos ao Irmão Chen [codinome dos russos] que estamos prontos para deixar [Harbin]”. Mao implorou duas vezes a Stálin para que interviesse diretamente, na forma de um “guarda-chuva militar”, ou de “operações conjuntas”. Stálin não o atendeu, pois uma intervenção teria implicações internacionais, mas permitiu que unidades do PCC entrassem na Rússia. Em 3 de junho, Mao teve de endossar o plano de abandonar Harbin e entrar na guerra de guerrilhas “de longo prazo”.

Mao estava nas cordas. Então foi salvo — pelos americanos.

 

a Na Declaração de Ialta, essas concessões são apresentadas como reparações devidas à Rússia pelo Japão, mas na realidade elas foram arrancadas da China. Churchill gostou disso, dizendo que “qualquer reivindicação de indenização às custas da China seria favorável a nossa decisão sobre Hong Kong”. Embora os acordos envolvessem territórios chineses, o governo chinês não foi nem comunicado, muito menos consultado. Além disso, os Estados Unidos se colocaram à mercê de Stálin ao se comprometerem a esperar por sua permissão para informar a Chiang Kai-shek — e se puseram na posição totalmente constrangida de serem responsáveis por obter a concordância do Generalíssimo. Em consequência, este só recebeu um relato completo dos Estados Unidos em 15 de junho, mais de quatro meses depois. Foi um tratamento vergonhoso de um aliado e serviu para acumular problemas.

b Stálin também tinha sua própria agenda agressiva: um esquema tentativo de separar parte da região mongol da China, adjacente à Mongólia Exterior, e fundi-la com o satélite soviético. As forças de ocupação russo-mongóis formaram, de fato, um governo provisório da Mongólia Interior, pronto para a fusão, mas o projeto foi abandonado.

c Dois anos depois, quando insistiu em mandar forças para o interior das áreas nacionalistas, os comandantes perguntaram o que aconteceria aos feridos sem uma base para onde pudessem voltar. A resposta etérea de Mao foi: “É fácil [...] deixem os feridos e doentes para as massas”.

d Desde então, cultivou-se o mito de que Mao era o responsável pelas estratégias de “cercar as cidades a partir do campo” e de “procurar principalmente eliminar as forças inimigas, não defender ou capturar cidades”. Na verdade, a primeira ideia foi de Liu Shao-chi e encontrou vigorosa oposição de Mao, antes que considerações práticas o obrigassem a adotá-la; a segunda foi de Lin Biao.