Mao: a história desconhecida

Jung Chang e Jon Halliday · Capítulo 55 de 69

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Mao: a história desconhecida

53. O maoísmo cai estatelado no palco mundial

53. O maoísmo cai estatelado

 

no palco mundial

 

(1966-70; 72-76 anos)

 

A ambição máxima de Mao era dominar o mundo. Em novembro de 1968, ele disse ao líder maoísta australiano Hill:

Em minha opinião, o mundo precisa ser unificado. [...] No passado, muitos, inclusive os mongóis, os

romanos [...] Alexandre, o Grande, Napoleão e o Império Britânico, quiseram unificar o mundo. Hoje, tanto

os Estados Unidos como a União Soviética querem unificar o mundo. Hitler queria unificar o mundo [...]

Mas todos eles fracassaram. Parece-me que a possibilidade de unificar o mundo não desapareceu [...] Em

minha opinião, o mundo pode ser unificado.

 

Mao achava claramente que ele era o homem certo para essa tarefa, pois desconsiderava Estados Unidos ou União Soviética como possíveis unificadores, usando argumentos que se baseavam apenas na imensa população da China. “Mas esses dois países (Estados Unidos e União Soviética)”, continuou, “têm populações demasiado pequenas e não terão mão de obra suficiente se for dispersada. Além disso, também têm medo de travar uma guerra nuclear. Não têm medo de eliminar populações em outros países, mas temem que suas populações sejam eliminadas.” Não era preciso ler nas entrelinhas para ver que o governante com a maior população — e o que tinha menos medo de vê-la arrasada — era o próprio Mao. Ele via o papel da China da seguinte maneira: “Dentro de cinco anos, nosso país [...] estará em uma posição melhor [...] Dentro de cinco anos [...]”.

Foi em nome dessa ambição mundial que Mao iniciou seu Programa de Superpotência em 1953, insistindo na velocidade vertiginosa e em assumir riscos terríveis no campo nuclear. O mais assustador desses riscos ocorreu em 27 de outubro de 1966, quando um míssil armado com uma ogiva nuclear foi disparado por oitocentos quilômetros no noroeste da China, por sobre cidades de bom tamanho — o único teste desse tipo jamais feito por alguma nação, e com um míssil conhecido por estar longe de ser preciso, pondo em risco a vida dos que estavam na rota do voo. Três dias antes, Mao dissera à pessoa encarregada do projeto para ir em frente, informando que estava preparado para um fracasso do teste.

Quase todos os envolvidos no teste achavam que era provável uma catástrofe. As pessoas que estavam na sala de controle do lançamento esperavam morrer. O comandante da zona de alvo estava tão nervoso que mudou seu QG para o topo de uma montanha, confortando-se e a seus colegas com o argumento de que, caso o míssil saísse da rota, eles talvez conseguissem se proteger da explosão atômica se descessem correndo pelo outro lado da montanha.

Acontece que o teste foi um sucesso, resultado que foi atribuído ao “Pensamento” de Mao, resumido no slogan “A bomba atômica espiritual detonando a bomba atômica material”. Na verdade, o êxito foi um acaso feliz. Testes posteriores do mesmo míssil

fracassaram, pois ele começou a girar sem controle após o lançamento. a

Todo o programa de mísseis sofria com problemas insuperáveis. O regime culpava a sabotagem e os cientistas sofreram perseguições horríveis, inclusive encenações de execuções, para extrair “confissões”. Muitos tiveram morte violenta. Nesse clima, não surpreende que Mao jamais tenha possuído um míssil intercontinental enquanto esteve vivo. O primeiro lançamento chinês bem-sucedido desse tipo de arma aconteceu apenas em 1980, anos após sua morte.

Em outubro de 1966, graças ao êxito isolado do teste, Mao supôs que poderia em breve soltar uma bomba atômica onde quisesse. Em 11 de dezembro, tomou-se a decisão de que a China deveria possuir todo o arsenal de mísseis, inclusive intercontinentais, dentro de quatro anos.

O otimismo de Mao ganhou um grande impulso quando a China detonou sua primeira bomba de hidrogênio, em 17 de junho de 1967. Mao disse aos seus construtores, em 7 de julho: “Nossas novas armas, mísseis e bombas atômicas andaram realmente depressa. Fizemos nossa bomba de hidrogênio em apenas dois anos e oito meses [desde a primeira bomba atômica]. Nossa velocidade superou Estados Unidos, Grã-Bretanha, França e União Soviética. Somos o número quatro no mundo”. Na verdade, boa parte disso se devia à assistência que a Rússia fornecera antes (e que só acabara completamente em 1965); sem a ajuda soviética, teria sido impossível desenvolver tanto a bomba A como a bomba H tão cedo. Mas Mao não estava disposto a se deter nesse detalhe. Sua ênfase era no que poderia fazer com a tecnologia. Usando o plural majestático, declarou aos construtores da bomba: “Nós não somos somente o centro político da revolução mundial, devemos nos tornar o centro da revolução mundial militar e tecnologicamente. Devemos dar-lhes armas. As armas chinesas gravadas com nossas etiquetas [...] Devemos apoiá-los abertamente. Devemos nos tornar o arsenal da revolução mundial”.

Foi então, entre outubro de 1966 e o verão de 1967, quando o programa nuclear parecia seguir de vento em popa, que Mao expandiu imensamente a promoção mundial de seu culto. No ano anterior, ele sofrera alguns reveses importantes. Agora, “propagar o Pensamento de Mao Tse-tung” tornou-se a “tarefa central” da política externa. Pequim proclamou que “o mundo entrou na nova era de Mao” e suou sangue para fazer com que o Pequeno Livro Vermelho chegasse a mais de cem países. Supostamente, isso era “um evento de imensa alegria para os povos do mundo” que “amam os livros do presidente Mao mais do que quaisquer outros” e para os quais o Pequeno Livro Vermelho “é como a chuva doce para plantações que fenecem numa longa seca, e o farol brilhante para navios que navegam em densa neblina”. Toda a máquina diplomática e clandestina da China foi mobilizada em tentativas de induzir a adulação de Mao em outros países.

A Birmânia era um caso típico de países onde Pequim tinha uma cabeça de ponte. Uma campanha forte pressionou a minoria chinesa do país a acenar o Pequeno Livro Vermelho, usar distintivos de Mao, cantar canções com suas citações e saudar seu retrato. O governo birmanês considerou essas práticas uma contestação à sua autoridade e as proibiu em meados de 1967. Pequim então estimulou os chineses a desafiar a proibição e enfrentar o governo. O resultado foi muito derramamento de sangue e muitas mortes, e represálias severas contra os de origem chinesa.

Mao então jogou o Partido Comunista da Birmânia, cuja sobrevivência dependia totalmente da China, numa nova onda de insurgência. Em 7 de julho de 1967, ainda sob a luz do teste da bomba H, ele instruiu em segredo: “É melhor que o governo birmanês seja contra nós. Espero que eles rompam as relações diplomáticas conosco, para que possamos apoiar abertamente o Partido Comunista da Birmânia”. Chou convocou os quadros comunistas birmaneses que estavam em treinamento na China ao Grande Salão do Povo para informar-lhes que seriam enviados de volta ao seu país para começar uma guerra. Eles foram acompanhados por suas esposas chinesas, que haviam sido selecionadas sem nenhuma cerimônia. Cada homem birmanês saiu às ruas com um oficial chinês e escolheu a mulher que chamou sua atenção. Se a mulher e sua família passassem no exame de segurança, as autoridades fariam com que ela se casasse com o birmanês. Algumas se casaram de bom grado, outras foram coagidas.

A insurgência foi montada para promover Mao. Quando obtinham uma vitória, era celebrada por uma equipe de propaganda do Pensamento de Mao que dançava acenando o Pequeno Livro Vermelho e cantando “Viva o grande líder dos povos do mundo, presidente Mao!”.

Para disseminar o maoísmo em todo o mundo, foram montados campos secretos de treinamento na China. Um deles ficava nas Colinas Ocidentais, nos arredores de Pequim, onde muitos jovens do Terceiro Mundo e um bom número de ocidentais foram instruídos no uso de armas e explosivos. O Pensamento de Mao era a base invariável e inelutável da vida no campo de treinamento.

 

Porém, na soleira da sua porta, o Grande Líder da Revolução Mundial tinha de encarar uma realidade incômoda. Duas partes do território chinês continuavam sob domínio colonial: Macau, sob controle português, e Hong Kong, controlada pelos ingleses. E tomá-las de volta teria sido fácil, pois ambas dependiam da China para ter água e comida. Khruchióv o havia censurado por viver ao lado “da latrina dos colonialistas”. Depois que Mao o acusou de fraco na crise dos mísseis cubanos, em 1962, o líder russo comparou a inação de Mao em relação às duas colônias com a recente tomada por Nehru das colônias portuguesas na Índia: “O cheiro que vem de [Hong Kong e Macau] não é de forma alguma mais doce do que aquele exalado pelo colonialismo em Goa”. Mao percebeu que tinha de se explicar para aqueles que alegava defender, então fez questão de dizer ao primeiro-ministro da Somália que Hong Kong “é um caso especial e não planejamos tocá-la. Vocês talvez não entendam isso”.

Ele decidiu não recuperar Hong Kong e Macau por motivos puramente pragmáticos. A primeira era a maior fonte de moeda forte da China e um canal vital para adquirir tecnologia e equipamentos do Ocidente, que estavam sob um rigoroso embargo da ONU. Mao sabia que Hong Kong não seria mais útil para seu Programa de Superpotência se fosse reintegrada à China.

A fim de fazer bons negócios em Hong Kong, Pequim tinha de destruir a rede de espionagem de Taiwan, que ajudava os americanos a identificar empresas ocidentais que furavam o embargo. Os métodos de Pequim eram, às vezes, drásticos. Em abril de 1955, Chou En-lai deveria ir à Indonésia para a primeira conferência afro-asiática e os chineses contrataram o avião indiano Kashmir Princess para voar de Hong Kong a Bandung. Parece que agentes de Taiwan pensaram que o avião levaria Chou e tramaram um plano para colocar uma bomba a bordo no aeroporto de Hong Kong. Pequim sabia de todos os detalhes de antemão, mas deixou a operação ir adiante, sem contar para a Air India, ou para a missão britânica em Pequim, ou ao governo de Hong Kong — ou para os passageiros, que eram onze funcionários de nível relativamente baixo e jornalistas (em um avião com capacidade para mais de cem). O avião explodiu no ar, matando todos os passageiros e cinco dos oito tripulantes indianos.

Pequim declarou imediatamente que agentes de Taiwan haviam colocado uma bomba e Chou En-lai deu aos britânicos nomes de pessoas que desejava que fossem expulsas de Hong Kong. Os britânicos concordaram e no ano seguinte deportaram mais de quarenta importantes agentes nacionalistas da lista de Chou, embora não houvesse provas suficientes para levá-los aos tribunais. Isso pôs fora de combate uma parte substancial da rede de Chiang em Hong Kong, e foi depois disso que Pequim fez uma série de negócios clandestinos para seu programa nuclear através da colônia; só uma compra da Europa ocidental custou 150 toneladas de ouro.

Quando a Revolução Cultural começou e Mao intensificou sua campanha para ser o líder da revolução mundial, ele queria mostrar ao mundo que era o verdadeiro senhor da colônia, fazendo os britânicos “ficar de joelhos” e oferecer publicamente “rendição incondicional”, nas palavras dos diplomatas chineses em reuniões internas. A única maneira de obter isso era provar que os ingleses estavam errados; isso exigia um massacre de chineses.

Assim, em maio de 1967, Pequim aproveitou uma disputa trabalhista e instou os radicais de Hong Kong a aumentar a violência, em especial violar a lei de maneira beligerante. Para estimulá-los, Pequim deu a entender publicamente que poderia tomar a colônia de volta antes que o contrato de aluguel expirasse, em 1997, e aos ativistas de lá foi insinuado que essa era a intenção de Pequim.

Mas o que Mao realmente queria foi o que comunicou a Chou En-lai em segredo: “Hong Kong continua a mesma” — isto é, fica sob domínio britânico. A missão de Chou era instar violência suficiente para provocar represálias e, depois, a submissão dos ingleses, mas não tanta violência que “pudesse nos levar a ter de tomar Hong Kong de volta antes do tempo”, medida que Chou secretamente declarou ser desastrosa.

Nos tumultos que se seguiram, a polícia de Hong Kong matou alguns manifestantes, mas o número de mortes não chegou ao massacre e as autoridades coloniais se recusaram a pedir desculpas. Pequim então incitou os radicais de Hong Kong a matar policiais. “Façam com eles [a polícia] o que eles fizeram conosco”, exortou o Diário do Povo. “Aqueles que matam devem pagar com suas vidas.” Como os agitadores não conseguiram matar policiais, Chou teve de infiltrar soldados na colônia. Esses homens atravessaram a fronteira em 8 de julho, vestidos à paisana, e mataram cinco policiais a tiros. Chou expressou sua satisfação com o resultado, mas vetou quaisquer outras operações desse tipo, para que a situação não evoluísse a ponto de desmascará-los. Em vez disso, Pequim promoveu uma campanha indiscriminada de atentados a bomba e nos dois meses seguintes houve cerca de 160 incidentes desse tipo, alguns fatais.

Mas os britânicos se recusaram a apelar para o massacre e se concentraram em prender metodicamente os ativistas, em silêncio, à noite. A esperança de Mao de ver a Grã-Bretanha se ajoelhar caiu por terra. Frustrado, apelou para o vandalismo em seu território. Em 22 de agosto, uma multidão de mais de 10 mil tocou fogo na missão britânica em Pequim, quase queimou vivos os funcionários e submeteu as mulheres a um grosseiro assédio sexual.

 

As missões de vários outros países também foram alvo da fúria de Mao. Em 1967, ataques violentos foram feitos à embaixada soviética, seguida das embaixadas da Indonésia, Índia, Birmânia e Mongólia. Esses ataques tinham sanção oficial: o Ministério do Exterior dizia às turbas quais missões deveriam atacar e com que intensidade. As “punições” iam de manifestações de 1 milhão de pessoas que cercavam as embaixadas, ostentando retratos gigantescos de Mao e gritando insultos pelos alto-falantes, até invasão, incêndio de carros, espancamento de diplomatas e suas esposas e aterrorização de seus filhos, enquanto gritavam slogans como “batam para matar, batam para matar”.

Esse tratamento foi dado até à Coreia do Norte, pois Kim Il Sung negara-se a se submeter à tutelagem de Mao. Ao longo dos anos, ele havia tentado derrubar Kim e, por esse motivo, fora obrigado certa vez a pedir desculpas. Na cúpula comunista de Moscou, em novembro de 1957, abordou Kim de surpresa para se reabilitar de erros passados, a fim de impedir que este desse com a língua nos dentes para outros líderes comunistas. De acordo com um relatório oficial coreano que foi apresentado em uma grande reunião em Pyongyang, Mao “expressou repetidamente suas desculpas [a Kim] pela interferência injustificada do Partido Comunista Chinês nos assuntos do [partido] coreano”. Kim aproveitou a chance para reduzir a influência de Mao na Coreia, exigindo a retirada de todas as tropas chinesas que ainda estavam no país, com o que Mao teve de concordar.

Mao não desistiu. Em janeiro de 1967, seu homem encarregado das missões clandestinas no exterior, Kang Sheng, disse aos albaneses: “Kim Il Sung deveria ser derrubado, para que a situação na Coreia possa ser mudada”. Incapaz de satisfazer seu desejo, Mao direcionou multidões para atacar a embaixada da Coreia, denunciando o “gordo Kim”. O líder coreano não demorou a retaliar: trocou o nome da praça Mao Tse-tung em Pyongyang, fechou as salas que comemoravam o papel da China no Museu da Guerra da Coreia, mudou o tamanho dos memoriais de guerra chinês e russo em Pyongyang e aproximou-se ainda mais da União Soviética.

No final de setembro de 1967, a China já estava envolvida em rixas com a maioria dos 48 países com que tinha relações diplomáticas e semidiplomáticas. Muitos desses países rebaixaram o nível da sua representação em Pequim e alguns fecharam suas embaixadas. Naquele ano, a comemoração do Dia Nacional chinês teve apenas uns poucos delegados

de governos estrangeiros na praça Tiananmen.b Mais tarde, Mao pôs a culpa de seus desastres na “extrema esquerda”. A verdade é que a política externa da China nunca esteve fora de suas mãos.

 

No final da década de 1960, a autopromoção de Mao já tinha uma década e elevara sua imagem às alturas no mundo exterior. No Ocidente, muitos sentiam fascínio por ele. O Pequeno Livro Vermelho era lido por intelectuais e estudantes. Mao foi chamado de filósofo. O influente escritor francês Jean-Paul Sartre elogiou a “violência revolucionária” de Mao, dizendo que era “profundamente moral”.

Porém, estava claro que esse fascínio geral não se traduzia em substância. Nenhum partido maoísta no Ocidente — nem mesmo o maior deles, em Portugal — nunca teve mais do que uma minúscula adesão. A maioria dos “maoístas” ocidentais era composta por fantasistas, ou aproveitadores, e não tinha apetite para a ação sustentada, muito menos se fosse fisicamente incômoda ou perigosa. Em 1968, quando explodiram grandes manifestações estudantis na Europa ocidental, Mao saudou o fato como “um novo fenômeno na história europeia” e mandou maoístas europeus que haviam sido treinados em sabotagem de volta para seus países, a fim de explorar a situação. Mas eles não geraram nenhuma ação significativa.

O mesmo aconteceu com os grupos maoístas que faziam progressos no Terceiro Mundo. A África, outrora cheia de promessas, revelara-se uma decepção completa, como os versinhos de um diplomata chinês resumiram:

Grande, grande tribalismo,

Pequeno, pequeno nacionalismo,

Muito, muito imperialismo,

Pouco, pouco Pensamento de Mao Tse-tung.

 

Os radicais africanos pegaram astutamente o dinheiro de Mao, como disse um diplomata chinês, com um grande sorriso, mas as instruções dele foram recebidas com ouvidos moucos. Alguns anos depois, ao se encontrar com um dos chefes de Estado que ele mais tentara derrubar, o presidente Mobutu do Zaire, Mao admitiu o fracasso, com um gracejo lastimável. Começou dizendo: “É você mesmo, Mobutu? Gastei um monte de dinheiro tentando derrubá-lo — até matá-lo. Mas eis você aqui”. “Demos a eles dinheiro e armas, mas eles simplesmente não conseguiam lutar. Simplesmente não conseguiam vencer. O que posso fazer então?”

Mao teve ainda menos sucesso no Oriente Médio. Em junho de 1967, quando irrompeu a Guerra dos Seis Dias entre Israel e os países árabes, Mao ofereceu a Nasser 10 milhões de dólares e 150 mil toneladas de trigo, bem como “voluntários” militares, se Nasser aceitasse seu conselho de “lutar até o fim”. Mandou ao líder egípcio um plano de batalha para uma “guerra popular” de estilo maoísta, no qual dizia para “atrair o inimigo em profundidade” retirando-se para o interior da península de Sinai, ou até mesmo para Cartum, a capital do Sudão. Nasser recusou o caminho maoísta, explicando ao seu distante assessor que o Sinai era “um deserto e não podemos travar uma guerra de libertação popular no Sinai porque não há povo lá”. Pequim retirou suas ofertas de ajuda e tentou promover uma oposição contra Nasser. Mas Mao não conseguiu montar grupos de discípulos no Oriente Médio. Quando ele e Chou morreram, entre os 104 partidos de 51 países — muitos deles agrupamentos minúsculos — que mandaram condolências, não havia nenhum do mundo árabe.

Um fator fundamental desse fracasso foi a insistência de Mao para que os radicais de outros países ficassem ao seu lado contra a União Soviética. Isso fez com que perdesse muitos simpatizantes em potencial, sobretudo na América Latina. Nessa região, Mao desembolsou dinheiro e alimentos para tentar jogar Cuba contra Moscou. Essa prodigalidade rendeu pouco. Em 1964, uma delegação de nove partidos comunistas latino-americanos, liderada pelo dirigente cubano Carlos Rafael Rodríguez, foi à China pedir a Mao que parasse com a polêmica pública com a União Soviética e com “atividades faccionais”, isto é, tentar dividir os partidos comunistas. Furioso, Mao lhes disse que sua luta com a União Soviética “continuará por 10 mil anos” e ofendeu Fidel Castro. Quando o delegado do Uruguai (população: 3 milhões) tentou falar, Mao caiu sobre ele dizendo que falava “em nome de 650 milhões de pessoas”, e quantas pessoas ele representava?

Castro, que jamais visitou a China enquanto Mao esteve vivo, descreveu-o como “um merda”; em 2 de janeiro de 1966, diante de uma grande plateia internacional, acusou Pequim de aplicar pressão econômica para afastá-lo de Moscou. Um mês depois, acusou Pequim de recorrer a “represálias brutais” e tentar subverter o Exército cubano. Mao chamou Castro de “sabujo e lobo”.

Mao tinha muitas esperanças no companheiro de Castro, Che Guevara. Na primeira visita dele à China, em 1960, demonstrou intimidade incomum com Che: segurou sua mão enquanto conversavam e elogiou muito um panfleto de sua autoria. Guevara havia retribuído, recomendando copiar os métodos maoístas em Cuba. Foi também o líder de Havana mais próximo da posição de Mao na crise dos mísseis de 1962. Mas, no final, Mao não conseguiu que ele ficasse ao seu lado contra os soviéticos. Quando Guevara voltou à China, em 1965, pouco antes de tentar iniciar a luta guerrilheira na África e, depois, na Bolívia, Mao não o recebeu, e um pedido enviado da Bolívia para que a China ajudasse a construir uma estação de rádio com alcance mundial foi recusado. Em 1967, quando Guevara foi morto, Pequim confidencialmente manifestou satisfação. Kang Sheng disse ao ministro da Defesa da Albânia, em outubro de 1968: “A revolução na América Latina vai muito bem, especialmente depois da derrota de Guevara; o revisionismo está sendo desmascarado” (grifo nosso).

Durante a vida de Mao, não existiram partidos maoístas influentes na América Latina. O único que se destacou — o Sendero Luminoso, do Peru — foi fundado em 1980,

quatro anos depois da sua morte.c

 

Na própria Ásia, Mao não conseguiu disseminar sua influência, mesmo contra regimes esgotados, como o de Ne Win na Birmânia. Mas seu maior revés foi a “perda” do Vietnã. Na década de 1950 e no começo dos anos 1960, a China havia sido quase que o único apoio a Hanói em suas guerras contra os franceses e, depois, americanos, desde que Stálin alocara o Vietnã para Mao, em 1950. Mas os vietnamitas suspeitavam de Mao desde 1954. Naquele ano, após lançar seu Programa de Superpotência, ao mesmo tempo que fazia de tudo para atrair a ajuda soviética, Mao começou a tentar ganhar acesso a tecnologias e equipamentos ocidentais sob embargo. Uma forte candidata a romper o embargo era a França.

Na época, a França estava atolada na Indochina. O plano de Mao era fazer os vietnamitas intensificarem a guerra “para aumentar os problemas internos da França” (nas palavras de Chou) e depois, quando os franceses estivessem nas cordas, entrar em cena e mediar um acordo. A ideia era que a França retribuiria então, cedendo aos pedidos chineses de levantamento do embargo.

Mao vinha codirigindo a guerra na Indochina. Durante a Guerra da Coreia, ele suspendeu ofensivas de larga escala na região para concentrar os recursos da China naquele país. Em maio de 1953, quando decidiu acabar com a Guerra da Coreia, mandou oficiais chineses diretamente da Coreia para a Indochina. Em outubro daquele ano, os chineses obtiveram uma cópia do Plano Navarre, plano estratégico francês que levava o nome do seu comandante, general Henri Navarre. O general Wei Guo-qing, principal assessor militar chinês no Vietnã, entregou o documento pessoalmente a Ho Chi Minh. Foi esse golpe decisivo de espionagem que levou à decisão do lado comunista de travar batalha em Dien Bien Phu, uma base francesa no noroeste do Vietnã, onde os vietnamitas, com maciça ajuda e assessoria chinesa, obtiveram uma vitória decisiva em maio de 1954.

A batalha de Dien Bien Phu foi travada durante os preparativos e a realização da conferência de Genebra sobre a Indochina (e a Coreia), que se abriu em 26 de abril e teve Chou En-lai na chefia da delegação chinesa. Havia mais de um mês que Mao já decidira que “definitivamente devemos fazer um acordo”, mas não informou os vietnamitas disso. O papel que tinha em mente para eles era lutar e aumentar a escalada da guerra a qualquer custo, para criar uma grande crise em Paris. Ele escreveu ao assessor militar Wei em 4 de abril sobre um aparente próximo estágio: “Tentem completar a campanha de Dien Bien Phu no [...] início de maio [...] Comecem a atacar Luang Prabang e Vientiane em agosto ou setembro e as liberem”. Tratava-se das capitais gêmeas do Laos. E continuava: depois “preparem-se ativamente para atacar Hanói e Haiphong no próximo inverno e, no máximo, no início da primavera do próximo ano, com o objetivo de liberar o Delta [do rio Vermelho] em 1955”. Mao especificamente instruiu Wei a discutir esse plano com o ministro da Defesa do Vietnã, general Vo Nguyen Giap, para dar aos vietnamitas a impressão de que ele patrocinaria a expansão da guerra até 1955 — quando, na verdade, havia decidido secretamente por um cessar-fogo nos meses seguintes.

Os vietnamitas tomaram Dien Bien Phu em 7 de maio e o governo francês caiu em 17 de junho. Era o momento para a China entrar em cena. No dia 23, Chou encontrou-se com o novo primeiro-ministro francês, Pierre Mendès-France, na Suíça, sem a presença dos vietnamitas, e elaborou um acordo.

Chou pressionou então os comunistas do Vietnã para que aceitassem os termos que havia negociado com os franceses, muito inferiores ao que os vietnamitas esperavam. Le Duan, que depois foi secretário-geral do Partido Comunista do Vietnã, disse que Chou ameaçou “que, se os vietnamitas continuassem a lutar, teriam de se virar sozinhos. Ele não ajudaria mais e nos pressionou para parar de lutar” (essas observações revelam também quão dependentes os vietnamitas eram dos chineses). Ho Chi Minh mandou seu negociador Pham Van Dong ceder, o que fez com lágrimas nos olhos. Le Duan foi encarregado de dar a notícia às forças comunistas no sul. “Viajei de carroça para o sul”, relembrou ele. “Ao longo do caminho, compatriotas vinham me saudar, pois achavam que havíamos conquistado uma vitória. Foi muito doloroso.” As sementes da raiva e da suspeita em relação a Pequim se enraizaram entre os vietnamitas.

No início de 1965, a nova equipe soviética Bréjnev-Kosíguin começou a aumentar a ajuda militar aos vietnamitas, fornecendo o equipamento pesado de que precisavam: canhões antiaéreos e mísseis terra-ar, alguns operados por russos. Mao não podia competir. Então tentou convencer os russos a não ajudar os vietnamitas. Naquele mês de fevereiro, disse ao premiê soviético Kosíguin: “O povo do Vietnã do Norte está lutando bem sem a ajuda da União Soviética [...] e eles mesmos expulsarão os americanos”. “Os vietnamitas podem cuidar de si mesmos”, e acrescentou (falsamente) que “somente um pequeno número de pessoas foi morto nos ataques aéreos e não é tão terrível que algumas pessoas sejam mortas.” Pequim sugeriu que os russos deveriam atacar os americanos em outros lugares. Ao embaixador soviético Tchervonenko, disseram que a melhor coisa que a União Soviética poderia fazer era “exercer pressão sobre as forças imperialistas numa direção ocidental” — isto é, na Europa.

Ao mesmo tempo, Mao tentava compelir Hanói a romper com Moscou. Cortejou Ho Chi Minh, que tinha laços íntimos com a China, onde havia passado muito tempo. O PCC arranjou-lhe uma esposa chinesa, mas o casamento foi vetado pela liderança vietnamita, sob o pretexto de que seria melhor para a causa deles se seu líder continuasse se sacrificando ao celibato.

Ho e seus camaradas foram instados a rejeitar a assistência soviética. “Será melhor sem a ajuda soviética”, disse Chou ao premiê Pham Van Dong. “Não apoio a ideia de voluntários soviéticos irem ao Vietnã, nem a ajuda soviética ao Vietnã.” Chou chegou a dizer a Ho que “o objetivo da ajuda soviética ao Vietnã [é] [...] melhorar as relações União Soviética-Estados Unidos”. Tais argumentos constrangiam até a eloquência de Chou. A única maneira de Mao tentar exercer influência era mandar mais dinheiro, bens

e soldados, d mas não conseguiu evitar que Hanói se aproximasse de Moscou.

Mao foi igualmente impotente para dissuadir os vietnamitas de abrir conversações com os americanos, medida que Hanói anunciou em 3 de abril de 1968. Argumentando contra essa iniciativa, Chou chegou a culpar os vietnamitas pela morte do líder negro Martin Luther King, em 4 de abril. O assassinato, disse ele, aconteceu “um dia depois da divulgação da declaração de vocês. Se essa declaração fosse feita um ou dois dias depois, o assassinato talvez não tivesse ocorrido”. Alegando representar “os povos do mundo”, Chou continuou: “Muita gente não entende por que [vocês] estavam com tanta pressa para fazer essa declaração [...] É o julgamento dos povos do mundo. Aos olhos do mundo, vocês se comprometeram duas vezes”.

Hanói simplesmente ignorou Pequim e começou a negociar com Washington em maio. Mao tentou então se intrometer e Chou disse aos vietnamitas que os chineses tinham mais experiência em negociações do que eles. Não adiantou nada. Mao ficou enlouquecido. No início de outubro, Chou disse aos vietnamitas que uma delegação que visitaria a China para obter mais ajuda não deveria fazê-lo, pois os líderes chineses estariam muito ocupados para recebê-la. Mas Mao logo teve de recuar e continuar a ajudar. O Grande Mestre dos Povos Revolucionários do Mundo não podia se dar ao luxo de não desempenhar um papel na principal guerra revolucionária do planeta.

Mais mortificante para ele foi ter de observar impotente enquanto os vietnamitas expandiam a esfera de influência deles às suas custas. Apesar do maciço patrocínio chinês, os guerrilheiros comunistas do Laos escolheram o Vietnã para seus protetores e, em setembro de 1968, pediram que seus assessores chineses fossem “de licença para casa” permanentemente, um pedido que os chineses tiveram de aceitar. Os laocianos, assim como os vietnamitas, se alinharam com Moscou.

 

Após uma década de incessantes maquinações e gastos para promover o maoísmo como uma alternativa internacional séria ao comunismo soviético, Mao havia fracassado. Ainda era Moscou, e não Pequim, que o mundo via como a principal força antiamericana. As tiradas de Mao contra os líderes soviéticos por “ajudar os imperialistas” eram amplamente percebidas como falsas e os ouvintes ficavam amiúde irritados, entediados ou mesmo constrangidos. Em pelo menos uma ocasião, alguns comunistas do Terceiro Mundo simplesmente pediram que os chineses se calassem.

No final da década de 1960, as autoridades americanas já consideravam que o modelo maoísta não era mais uma ameaça no Terceiro Mundo, fato que o próprio Mao podia perceber. Ele disse ao seu círculo íntimo em 1969: “Agora estamos isolados, ninguém quer ter nada a ver conosco”. Os maoístas estrangeiros eram inúteis, concluiu, e ordenou que os fundos a eles destinados fossem cortados.

Mao precisava de uma solução. Uma chance surgiu quando o príncipe Sihanouk, líder neutralista do Camboja, foi deposto em 18 de março de 1970, num golpe que foi amplamente percebido como obra da CIA. Mao decidiu apoiar Sihanouk, se o príncipe estivesse disposto a lutar contra os americanos. Seu cálculo era que a Guerra do Vietnã poderia se transformar agora numa guerra em toda a Indochina e, ao patrocinar o príncipe, poderia desempenhar um papel principal em toda a região.

Não muito antes, no verão de 1967, Mao andara conspirando contra Sihanouk. Pequim, de acordo com o príncipe, estava “implicitamente defendendo minha derrubada” — algo que depois Chou En-lai admitiu ser verdade, embora se exonerasse da responsabilidade, de forma não muito convincente. Em março de 1968, Sihanouk manifestara-se sobre o patrocínio de Pequim a um grupo rebelde então pouco conhecido, o Khmer Vermelho. “Sob a superfície”, anunciou ele, as nações comunistas estavam “fazendo um jogo sujo porque o Khmer Vermelho é filho delas [...] Outro dia, apreendemos uma grande quantidade de armas de todos os tipos que vêm da China, em particular”.

Mas, em março de 1970, Mao agarrou-se a Sihanouk. Acontece que o príncipe tinha uma visita marcada à China para o dia posterior ao golpe. No momento em que Sihanouk desceu do avião, Chou certificou-se de que ele estava disposto a lutar contra os Estados Unidos e então declarou-lhe apoio total. Chou contatou os vietnamitas de imediato e propôs uma cúpula pan-indochinesa em nome de Sihanouk. Essa reunião, realizada na China no mês seguinte, resumia-se a formar um comando conjunto na Indochina.

Uma vez que Sihanouk era tão vital para Mao, os chineses trataram de agradar seus gostos principescos: providenciaram-lhe sete cozinheiros e sete chefes confeiteiros e trouxeram-lhe foie gras de Paris. Ofereceram-lhe trens especiais e dois aviões para suas viagens ao exterior, um dos quais era apenas para transportar seus presentes e sua bagagem. Mao disse a Sihanouk: “Diga-nos do que precisa. Simplesmente peça. Podemos fazer mais por você. Não é nada”. E descartou qualquer pagamento: “Não somos mercadores de armas”. Quando o príncipe protestou sobre o peso para a China, Mao retrucou: “Peço que nos sobrecarregue ainda mais”. Pol Pot, a criatura cambojana de Mao e líder do Khmer Vermelho, que estava secretamente na China nessa época, foi persuadido a dar apoio formal a Sihanouk.

Mas os vietnamitas não deixaram Mao assumir o comando e o mundo continuou a ver no Vietnã o principal ator no teatro da Indochina. O “retorno ao poder” de Sihanouk, disse o Times de Londres, “depende da boa vontade de Hanói”. Henry Kissinger, o assessor para a Segurança Nacional dos Estados Unidos, falou sobre as “intenções de Hanói quanto ao Camboja”.

Mao tentara impressionar os vietnamitas lançando o primeiro satélite chinês no dia em que começou a reunião de cúpula da Indochina, o qual Chou apresentou como um “presente” à reunião e “uma vitória para todos nós”. Mas isso não fez diferença para os vietnamitas, ou para o mundo.

O satélite era uma ego-trip de Mao, pois descreveu uma órbita ao redor do globo gorjeando o hino maoísta “O Oriente é vermelho”. Mao ficou emocionadíssimo por ser saudado do espaço. No Dia do Trabalho, na praça Tiananmen, apertou a mão de cada uma das pessoas que haviam trabalhado no satélite, com um grande sorriso no rosto, exclamando “Fantástico! Fantástico!”, enquanto eles gritavam slogans dizendo que tudo era produto do Pensamento de Mao.

Impulsionado pelo satélite, ele fez mais uma tentativa de se apresentar ao mundo como o líder da guerra na Indochina. Em 20 de maio, divulgou uma declaração intitulada “Povos do mundo, uni-vos e derrotai os agressores americanos e todos os seus lacaios!”. No dia seguinte, subiu ao portão de Tiananmen e mandou declamar o texto para uma multidão de meio milhão de pessoas, com Sihanouk ao seu lado. Como o título deixava claro, Mao estava emitindo um comando. Mas a apresentação foi tão ridícula quanto as pretensões do documento. Ela foi lida por Lin Biao, então o segundo em comando do PCC, que teve de receber uma injeção prévia de um estimulante. Sihanouk notou que antes do comício Lin “parecia [...] um tanto drogado. Ele interrompia periodicamente Mao, gesticulando e lançando em voz alta invectivas contra os americanos”. Quando começou a ler a declaração, as primeiras palavras que disse foram: “Vou fazer um discurso! Vou falar sobre o Vietnã — dois Vietnãs — meio Vietnã”. Quando começou a ler o texto escrito, cometeu vários erros, dizendo “Paquistão” em vez de “Palestina”.

A declaração condenava o presidente americano Richard Nixon nominalmente. Nixon ficou enfurecido e, embriagado de raiva, queria deslocar navios para posições de ataque. Kissinger acalmou-o ao mostrar que Mao havia “oferecido pouco a Hanói, exceto encorajamento verbal”. Mao foi ignorado. Ofendido, atacou Kissinger por não o reconhecer como ator importante nos eventos e chamou-o de “intelectual fedorento”, “professor universitário que não sabe nada de diplomacia”. Exasperado e perturbado, teve a seguinte conversa com o premiê Dong, do Vietnã:

Mao Por que os americanos não fizeram barulho sobre o fato de que mais de 100 mil soldados chineses

ajudaram vocês a construir ferrovias, estradas e aeroportos, embora saibam disso? e

Dong Claro, eles têm medo.

Mao Eles deveriam ter criado um caso sobre isso. E também a estimativa deles sobre o número de soldados

chineses no Vietnã está abaixo do número real.

 

A promoção do maoísmo havia chegado ao fim do caminho, tanto na Indochina como no mundo em geral. Sempre engenhoso, Mao propôs uma nova maquinação que o poria em evidência: fazer o presidente dos Estados Unidos ir à China.

 

a O sucesso de outubro de 1966 coincidiu com a presença na China de Wolfgang Pilz, um dos maiores especialistas em foguetes de Hitler, que foi visto em Pequim por um diplomata indiano naquele mês, junto com três colegas alemães. Pilz havia supervisionado anteriormente o programa de mísseis do Egito e fora atraído com promessas de grandes quantias de dinheiro e condições técnicas mais excitantes. Quando a China tentou chamar outros cientistas alemães, os Estados Unidos ofereceram-lhes mais dinheiro para atraí-los para a América.

b O que não surpreende quando até amigos dedicados se veem diante de riscos. Quando o premiê da Albânia Mehmet Shehu e seu colega Ramiz Alia retornaram a Pequim depois de viajar pelo país, Mao os saudou com a pergunta: “Alguém atingiu vocês?”.

c Abimael Guzmán, seu líder fracassado, proclamava-se “Presidente da Revolução Mundial”. No ano em que foi fundado, o Sendero Luminoso comemorou o aniversário de nascimento de Mao pendurando cães nos postes de Lima, enrolados em slogans que xingavam Deng Xiao-ping, considerado um traidor do legado de Mao, de “filho da puta”.

d A China teve mais de 320 mil homens no Vietnã no período 1965-68, inclusive mais de 150 mil soldados de artilharia antiaérea, alguns dos quais permaneceram até o final de 1973. A presença dessas tropas no Vietnã do Norte permitiu que Hanói mandasse muito mais de suas próprias forças para o sul, para onde alguns chineses as acompanharam. Em 1965, um general chinês estava presente e observou os americanos descerem em Danang, na costa do Vietnã do Sul.

e As tropas chinesas usavam uniformes chineses e, portanto, os americanos deveriam saber que elas estavam lá.