Mao: a história desconhecida
13. A Longa Marcha II: o poder por trás do trono
13. A Longa Marcha II:
o poder por trás do trono
(1934-35; 40-41 anos)
Em meados de dezembro, Chiang já havia conduzido a Longa Marcha para Guizhou, a primeira província que desejava colocar sob controle. Como previra, a chegada de um exército vermelho de 40 mil homens levou pânico ao senhor da guerra local, que mais tarde relembraria: “Havia tempo que [Chiang] queria tomar Guizhou. Então, o Exército do Governo Central veio nos calcanhares do Exército Vermelho e eu não tive chance de recusá-lo [...] Eu estava realmente confuso. Naquelas circunstâncias, decidi me colocar sob o comando de Chiang”. Em 19 de dezembro, oito divisões do Exército do Governo Central entraram na capital da província e começaram de imediato a construir um aeroporto e estradas. Pouco depois, assumiram posições-chave e, como disse o senhor da guerra, “se transformaram de hóspedes em senhores”.
Chiang bloqueou então várias rotas e deixou aberta para o Exército Vermelho apenas a passagem para o norte, na direção de seu alvo seguinte, Sichuan. Seu plano era repetir a tomada de Guizhou e depois empurrar os comunistas ainda mais para o norte, até Shaanxi. Mas, nesse ponto, as coisas começaram a se desviar do cenário planejado, pois Mao passou a se comportar de um modo que Chiang não poderia ter previsto. Ele estava decidido a não seguir para Sichuan. Seu motivo, no entanto, não tinha nada a ver com Chiang, mas com sua luta pelo poder dentro de seu próprio partido.
Mao começou a tomar medidas concretas para assumir a liderança assim que os marchadores entraram em Guizhou. Para tanto, precisava dividir seus adversários internos. Em particular, ele vinha cultivando a amizade de dois homens fundamentais com os quais até então não tivera boas relações: Wang Jia-xiang, apelidado de “Professor Vermelho”, e Lo Fu, aquele que havia tomado seu cargo de “primeiro-ministro”. Mao digladiara-se com eles no passado, mas agora os adulava, pois ambos tinham rusgas com o líder do partido, Po Ku.
Os dois haviam estudado em Moscou junto com Po, que era o mais moço, mas os havia deixado para trás e se tornara chefe deles, além de, às vezes, excluí-los do processo de decisão. Po “me chutou para escanteio”, disse Lo Fu anos depois, e isso o jogara nos braços de Mao. “Senti que fui colocado numa posição totalmente sem poder, que me deixou muito indignado”, rememorou Lo. “Lembro que, um dia antes da partida, o camarada Tse-tung teve uma conversa comigo e eu lhe manifestei sem reservas todo o meu ressentimento. A partir de então, fiquei próximo do camarada Tse-tung. Ele me pediu para ficar junto com ele e o camarada Wang Jia-xiang — desse modo, formou-se um trio, encabeçado pelo camarada Mao.”
O trio viajava junto, geralmente reclinado em liteiras de bambu, autorizadas para alguns líderes, cada um dos quais tinha direito também a um cavalo e carregadores para levar seus pertences. Durante boa parte da Longa Marcha, inclusive em seu trecho mais estafante, a maioria deles foi carregada. Mao chegou mesmo a desenhar seu próprio transporte. A esposa de Lo Fu lembra que ele fez preparativos com o Professor Vermelho e exibia sua engenhosidade: “Ele disse: ‘Vejam, criamos nossas próprias liteiras [...] seremos carregados’. Ele e Jia-xiang pareciam muito satisfeitos consigo mesmos ao me mostrar suas ‘obras de arte’: as liteiras deles tinham varas de bambu muito longas e seriam mais fáceis e mais leves de carregar na subida das montanhas. Tinham um toldo de lona [...] e assim [o passageiro] estaria protegido do sol e da chuva”.
O próprio Mao contou ao seu staff, décadas depois: “Na marcha, eu ia deitado numa liteira. Então, o que fiz? Li. Li muito”. Não era tão fácil para os carregadores. Os marchadores relembram: “Quando subiam montanhas, os carregadores de liteiras às vezes só conseguiam avançar de joelhos, que ficavam em carne viva antes que eles chegassem ao topo. Cada escalada de montanha deixava uma trilha de suor e sangue”.
Enquanto era transportado nos ombros dos outros, Mao tramava um golpe com os dois colegas invejosos de Po Ku. Quando a estrada era suficientemente larga, conversavam lado a lado; nas trilhas estreitas, quando seguiam em fila indiana, arranjavam a posição das liteiras para que ficassem cabeça com cabeça. Uma reunião realizou-se num laranjal, cheio de frutas maduras que pendiam entre as folhas verdes. Os carregadores haviam feito uma pausa e colocado as liteiras umas ao lado das outras. O trio decidiu trabalhar junto para “jogar fora” Po, junto com Braun, o assessor alemão, e dar a Mao o controle do Exército. Como ainda era muito impopular e nem era membro do secretariado, Mao não reivindicou o posto máximo do partido nesse estágio. Essa posição foi reservada para Lo Fu, o único deles que fazia parte do secretariado. A recompensa do Professor Vermelho seria uma vaga de titular no Politburo. O trio começou a defender a realização de uma reunião para discutir como os comunistas haviam perdido seu Estado.
Po Ku concordou com um exame post-mortem. Na verdade, se sentia tão mal em relação ao fracasso dos comunistas que seus colegas acharam que ele poderia se suicidar, depois de vê-lo várias vezes apontar a pistola para si mesmo.
Assim, vinte homens — o Politburo e alguns comandantes militares selecionados — se reuniram de 15 a 17 de janeiro de 1935 na cidade de Zunyi, no norte de Guizhou. Boa parte do encontro foi dedicada à questão da responsabilidade pelo colapso do Estado vermelho. O trio de Mao pôs a culpa de tudo nos líderes anteriores à Longa Marcha, em especial Po e Braun.
Costuma-se dizer que Mao se tornou líder do partido e do Exército na reunião de Zunyi — e por mandato da maioria. Na verdade, ele não foi feito chefe do partido nem do Exército nessa ocasião. Po Ku continuou a ser o líder do partido, endossado pela maioria; o consenso foi de que a perda de Ruijin não podia ser atribuída a ele. Braun, como único estrangeiro, serviu como um bode expiatório conveniente e foi removido do comando militar. Mas, embora os dois conspiradores de Mao tenham proposto que ele assumisse o comando, aparentemente ninguém mais apoiou a ideia e Chou En-lai foi reconfirmado como chefe militar, com “responsabilidade pelas decisões finais em
assuntos militares”. a
Porém, Mao conseguiu dar um passo adiante fundamental em Zunyi: tornou-se membro do secretariado, o órgão que tomava as decisões. A composição anterior desse grupo fora determinada por Moscou em janeiro de 1934. Eram sete membros, dos quais quatro estavam na marcha: Po Ku, Chou En-lai, Lo Fu e um homem chamado Chen Yun. Os outros três eram Xiang Ying, Wang Ming, representante do PCC em Moscou, e Chang Kuo-tao, líder do que era então a segunda maior base comunista. Em Zunyi, o Professor Vermelho propôs que Mao fosse admitido no secretariado. Na verdade, o Professor Vermelho não tinha direito a fazer essa indicação, por não ser membro pleno do Politburo. Mas Po Ku sentia-se culpado e desmoralizado demais para se opor à promoção de Mao, e ela passou. Moscou não foi consultada, pois as comunicações por rádio haviam sido cortadas.
Uma vez dentro do secretariado, Mao estava em posição de manipulá-lo. Dos quatro outros membros que participavam da marcha, Lo Fu já era seu aliado e Chen Yun não se interessava pelo poder e estava amiúde ausente fisicamente, tratando de logística. Restavam Chou e Po. A estratégia de Mao em relação a Chou era separá-lo de Po com uma combinação de prêmios e punições, das quais a principal era a chantagem, com a ameaça de torná-lo corresponsável pelos fracassos passados. Em Zunyi, foi decidido que deveriam produzir uma resolução sobre como o Estado comunista havia sido perdido, e Lo Fu, o comparsa de Mao, conseguiu tomar para si a tarefa de redigir o documento, o que normalmente seria feito pelo líder do partido.
Esse documento seria o veredicto a ser enviado ao partido e a Moscou. Lo Fu fez um esboço inicial com o subtítulo “Análise dos erros de política militar dos camaradas Po Ku, Chou En-lai e Otto Braun”, em que Chou era também réu na perda do Estado vermelho. Depois que Chou concordou em cooperar, seu nome foi retirado, e a culpa, omitida.
Como disse Braun friamente, Chou “distanciou-se sutilmente de Po Ku e de mim, proporcionando assim a Mao o pretexto desejado para concentrar seu ataque em nós, ao mesmo tempo que o poupava”. Isso tornava Po o único problema, mas Mao sempre poderia deixá-lo em minoria. Com efeito, assim que terminou a reunião de Zunyi e a maioria dos participantes voltou para suas unidades, Mao obteve desse novo grupo central o título nunca ouvido e decididamente esquisito de “ajudante do camarada En-lai na condução dos assuntos militares”. Desse modo, Mao enfiava um pé porta adentro da liderança militar.
Esse novo centro promoveu então o Professor Vermelho a membro pleno do Politburo e não demorou a lhe atribuir um alto posto militar, embora ele nada soubesse de questões militares. E, o que é mais importante, três semanas depois de Zunyi, em 5 de fevereiro, numa aldeia em que as três províncias se encontravam, chamada “Um Galo Cocorica Sobre Três Províncias”, Lo Fu foi catapultado para o primeiro posto do partido, no lugar de Po Ku. Primeiro, Mao e Lo Fu fizeram Chou capitular e depois confrontaram Po Ku com uma “maioria” do centro. Po concordou em entregar seu posto “somente depois de muitas discussões e pressões”, como ele descreveu.
A ascensão de Lo Fu ao primeiro posto no partido foi um golpe por baixo do pano e durante semanas manteve-se em segredo, tanto dos membros do partido como do Exército. A mudança no topo só foi revelada quando uma vitória militar colocou os conspiradores numa posição mais forte. Po foi então excluído da tomada de decisões e, como Lo Fu era um caráter um tanto fraco, Mao passou a dar as cartas.
A reunião de Zunyi decidiu pela ida para Sichuan. Sichuan fica logo ao norte de Zunyi e era o destino óbvio da marcha por ser uma província grande, rica e populosa — e recomendada havia muito tempo pelos russos. Era muito mais próxima da Mongólia, controlada pelos soviéticos, e de Xinjiang (então, praticamente uma colônia soviética, guarnecida por tropas russas), dois lugares para os quais Moscou vinha se preparando para enviar armas ao PCC. Stern, o ex-assessor-chefe soviético na China, investigara formas de ligar Sichuan a locais onde os russos poderiam fornecer até “aviões e artilharia
[...] e armas suficientes para 50 mil pessoas”. b
Mas Mao não queria ir para Sichuan. Fazê-lo significaria unir forças com Chang Kuo-tao, um veterano que encabeçava uma força muito superior, de mais de 80 mil homens. Se fizessem a conexão com esse poderoso exército, não haveria esperança de Lo Fu se tornar líder do partido — ou de Mao se tornar o poder por trás do trono. Chang Kuo-tao presidira o I Congresso do partido, em 1921, quando Mao fora um participante marginal e Lo Fu nem era do PCC (ele entrou em 1925). Era um membro bona fide do secretariado — ao contrário de Mao, que acabara de entrar, contra as regras. Além disso, Kuo-tao era membro pleno do Comitê Executivo do Comintern, o que lhe dava considerável prestígio, e tinha influência na Rússia, onde vivera durante anos e conhecera Stálin. Depois que voltou de Moscou, em janeiro de 1931, foi enviado por Xangai para chefiar o enclave comunista chamado Eyuwan, nas fronteiras das províncias de Hubei, Henan e Anhui, no centro-leste do país. Ali ele montou uma base comparável a Ruijin, que no verão de 1932 tinha uma área de mais de 40 mil quilômetros quadrados e uma população de 3 milhões e meio de habitantes, com um exército de 45 mil soldados. Naquele outono, depois que foi expulso por Chiang Kai-shek, mudou-se para o norte de Sichuan, onde montou uma base maior em um ano e expandiu seu exército
para mais de 80 mil homens.c Kuo-tao era, sem dúvida, o mais bem-sucedido de todos os comunistas. Depois que se juntasse ao resto da liderança, parecia inevitável que fosse eleito o novo chefe.
Mao também não podia esperar transformá-lo em um títere. Kuo-tao não sentia remorsos de matar pelo poder. Em suas bases, realizara expurgos sangrentos dos comandantes locais originais que se haviam oposto a ele. Tal como Mao, presidia pessoalmente os interrogatórios que envolviam tortura. Suas vítimas eram em geral passadas pela baioneta ou estranguladas; algumas foram enterradas vivas. Como disse seu comandante militar Xu, ele prontamente “se livrava de gente que se atravessasse em seu caminho a fim de estabelecer seu domínio pessoal”.
Com essa figura atemorizante para enfrentar, as perspectivas de vitória de Mao seriam mínimas. Ademais, se ele travasse uma luta pelo poder com Kuo-tao, poderia pôr em risco a própria vida. Até então, vinha tratando com líderes cuja devoção ao partido significava que matariam em nome do PCC, mas não por poder pessoal. Ele estava perfeitamente seguro com Po Ku e Chou En-lai, mesmo que criasse problemas para eles. Mas não podia contar com uma indulgência similar de Kuo-tao, de modo que seu objetivo principal era atrasar a entrada em Sichuan, até que tivesse um domínio inquebrantável da liderança do partido.
Mas Mao não podia declarar abertamente esse objetivo. Tinha de obedecer ao plano de ir para Sichuan. Em 19 de janeiro de 1935, a força que estava com ele partiu de Zunyi e, no dia 22, telegrafaram a Chang Kuo-tao, que estava no norte de Sichuan, para anunciar a chegada iminente e lhe dizer para ir ao sul a fim de fazer a conexão. Mas Mao tinha um ás na manga. Quatro dias depois, insistiu que o Exército Vermelho deveria emboscar uma tropa inimiga que o seguia. Era uma força de Sichuan e tinha a reputação de dura. O cálculo inconfesso de Mao era que o Exército Vermelho poderia sofrer uma derrota e, nesse caso, ele poderia argumentar que o inimigo de Sichuan era forte demais
e que seria melhor ficar em Guizhou. d
A ideia da emboscada era absurda, pois a unidade inimiga que Mao escolheu para atacar não estava barrando o caminho para Sichuan, mas encontrava-se atrás dos comunistas, e sem sequer importuná-los. Na verdade, o plano original que designara Sichuan como destino deles continha uma ordem específica: “manter-se bem distante” de perseguidores, e “não se meter” com eles. Porém Mao conseguiu obter o consentimento de Chou En-lai, que tinha a palavra final em decisões militares, muito provavelmente porque ameaçou Chou de que, se não o apoiasse, seria denunciado como corresponsável pela perda do Estado comunista na “resolução” que Lo Fu estava escrevendo. Parece que Chou tinha um medo mortal de cair em desgraça — uma fraqueza que Mao exploraria várias vezes nas décadas seguintes.
Em 28 de janeiro, Mao montou sua emboscada a leste de um lugar chamado Tucheng, com um resultado devastador para os comunistas. O inimigo fez valer sua temível reputação e logo tomou a dianteira, esmagando a força que Mao estacionara com as costas para o turbulento rio Vermelho, onde ele corre entre penhascos íngremes. Mao ficou num pico à distância, de onde viu suas tropas serem dizimadas, e permitiu a retirada somente ao final de todo um dia de batalha sangrenta. Chovia forte e as tropas em recuo entraram em pânico e se acotovelaram nas escorregadias trilhas da montanha. As mulheres e os feridos foram empurrados para trás. O inimigo estava tão próximo da retaguarda que um deles agarrou a mochila da esposa de Zhu De com uma mão, enquanto lhe apontava um revólver com a outra. Ela largou a mochila e correu. Foi a única batalha da marcha em que pessoas do QG estiveram tão perto do inimigo.
Foram mortos ou feridos 4 mil homens do Exército Vermelho — 10% do total. Tucheng foi a maior derrota na Longa Marcha e assim era lembrada em privado, ao mesmo tempo que era totalmente ocultada em público, por ser Mao o responsável, tendo escolhido o lugar e a hora. Em um único dia, ele causou muito mais baixas do que na maior perda anterior, no rio Xiang (pouco mais de 3 mil). O mito diz que Mao salvou o Exército Vermelho depois de Zunyi. A verdade é o exato oposto.
Os comunistas atravessaram o rio Vermelho para oeste desordenadamente, sobre pontes flutuantes construídas às pressas, abandonando artilharia pesada e equipamento, como a máquina de raios X. Zhu De cobriu pessoalmente o recuo, com a Mauser na mão. Normalmente calmo, nesse dia ele perdeu a paciência e gritou de frustração com seus oficiais. Os homens, exaustos, tiveram de carregar ou puxar seus camaradas feridos ao longo de trilhas sinuosas sobre penhascos vertiginosos. Uma neve pesada cobria as densas florestas e os vales. O frio intenso, a fome, a exaustão e os gritos de dor dos feridos assombraram muitos sobreviventes durante décadas.
Essa cena trágica era exatamente o que Mao queria para argumentar que o Exército de Sichuan era feroz demais para ser enfrentado e que, portanto, não deviam seguir para aquela província, como mandava o plano original. Mas eles já estavam no extremo sudeste de Sichuan e muitos achavam que deviam continuar para o norte.
Os principais comandantes militares, inclusive Lin Biao, o velho companheiro de Mao, apoiavam a penetração em Sichuan. Ademais, todos estavam muito infelizes por terem permitido que Mao impusesse a emboscada de Tucheng. Quando ele foi falar com Lin Biao para se justificar (e pôr a culpa nos outros), Braun observou que Lin parecia “decididamente acre”. Mas Mao triunfou, com o suporte de Lo Fu. Lo compartilhava com ele o interesse em evitar — ou postergar — a reunião de forças com Chang Kuo-tao, pois sua nova posição de chefe do partido ficaria seriamente ameaçada. Em 7 de fevereiro de 1935, a nova liderança de Lo Fu anunciou que o plano original — entrar em Sichuan — fora substituído pela proposta de Mao de ficar em Guizhou.
Os comunistas deram a volta e cruzaram de novo o rio Vermelho. Os milhares de feridos foram largados no caminho invernal, com pouca comida e remédios. Dentro de
poucos meses, a maioria estava morta.e
As forças de Mao reocuparam Zunyi em 27 de fevereiro. Chiang queria empurrar os comunistas para Sichuan e mandou um general teimoso e mal-humorado com duas divisões para retomar a cidade, que também bombardeou. Os comunistas conseguiram rechaçar essas tropas. Mao ficou extremamente feliz, especialmente porque se tratava de tropas de elite e isso significava que poderia ficar — pelo menos por tempo suficiente para que ele e seu títere Lo Fu consolidassem seu poder. Rabiscou um poema para expressar sua satisfação:
Pretensão vã de que o forte passo é uma muralha de ferro,
Hoje eu galgo o pico numa pernada.
Galgo o pico,
As montanhas ondulantes azul-marinho,
O sol poente vermelho-sangue.
Foi só então que Mao e Lo Fu informaram o Exército, inclusive Chang Kuo-tao, de que Lo Fu era o novo líder e que Mao entrara para o secretariado. Não havia nada que Kuo-tao pudesse fazer. Mao e Lo Fu haviam deliberadamente esperado até que tivessem uma “vitória” nas mãos para revelar as mudanças. Depois que foram anunciadas e que não houve nenhum protesto, Lo Fu nomeou Mao “comandante-geral do front”, um posto novo criado especialmente para ele e seu primeiro cargo militar formal em dois anos e meio.
A “vitória” foi, na verdade, de Pirro. Peng De-huai registrou “grandes perdas” em suas unidades. “Somente um regimento pode manter [...] cinquenta a sessenta homens por companhia [...] Agora todos os quartéis-generais de regimentos e os das unidades estavam vazios, como se tivessem sido varridos por enchentes.” Outro oficial graduado “profundamente preocupado” aconselhou: “Não temos muitas tropas sobrando; deveríamos evitar batalhas duras [...] o Exército Vermelho não pode mais suportar tal custo”.
Mao, porém, estava inclinado a enfrentar mais forças nacionalistas. Elas agora controlavam Guizhou e ele precisava atacá-las se quisesse ter uma chance de estabelecer uma base na província — essencial para seu plano de ficar fora de Sichuan. Em 5 de março, baixou uma ordem para “eliminar duas divisões do governo central”. Isso desencadeou uma chuva de protestos dos comandantes de campanha, que estavam enfurecidos com a maneira como Mao vinha malbaratando suas tropas. Lin Biao telegrafou “com a máxima urgência” no dia 10, manifestando-se contrário ao enfrentamento daqueles inimigos duros.
No amanhecer daquele dia, Lo Fu convocou cerca de vinte pessoas para um conselho de guerra, com a presença dos comandantes de campanha. Mao viu-se totalmente isolado na questão do ataque às forças de Chiang. Até seu aliado Lo Fu discordou. Quando Mao errou a mão e ameaçou renunciar ao posto de comandante do front, a maioria aceitou imediatamente a oferta. Peng De-huai foi designado para seu lugar e o conselho decidiu ficar longe das forças de Chiang.
Dessa vez, parecia que Mao estava realmente fora. Mas ele não perdeu tempo e tratou de conspirar para inverter as decisões. Naquela noite, com uma lamparina de querosene na mão, foi ver Chou En-lai, que teoricamente ainda tinha a palavra final em assuntos militares, e o convenceu a realizar uma nova reunião de manhã — sem os comandantes de campanha, que haviam retornado para suas unidades.
Mao ofereceu a Chou um estímulo. Com a criação do posto de comandante-geral do front, Chou se tornara um pouco redundante. Mao sugeriu então a eliminação do posto de comandante do front e a criação de um novo organismo a ser chamado de triunvirato, que seria constituído por Chou, ele mesmo e o Professor Vermelho.
Na ausência dos comandantes de campanha, Mao conseguiu manipular a segunda reunião. As decisões de nomear Peng para o lugar de Mao e de evitar as forças de Chiang foram anuladas. Desse modo, uma decisão clara de uma maioria foi revogada por um grupelho, com a cumplicidade crucial de Chou. Além disso, em consequência dessas mudanças clandestinas, a partir de 11 de março de 1935 o alto-comando do Exército ficou sem um único oficial genuíno.
O novo triunvirato ordenou imediatamente um ataque às forças nacionalistas próximo a Maotai, local de origem da mais famosa bebida alcoólica chinesa, onde o inimigo estava bem entrincheirado. “Rompam o contato rapidamente”, implorou Peng. “As fortificações do inimigo são sólidas e a geografia é ruim para nós. Não há possibilidade de romper [essa unidade de Chiang].” Mas o triunvirato insistiu: “Joguem todas as nossas forças amanhã [...] sem nenhuma hesitação”.
Quando os comunistas lançaram uma ofensiva frontal, o Exército nacionalista estava à espera com metralhadoras pesadas e dizimou os atacantes, que sofreram mais de mil baixas. Os derrotados comunistas atravessaram o rio Vermelho mais uma vez e foram forçados a entrar em Sichuan.
Tendo levado os vermelhos para onde queria, Chiang bloqueou a volta deles para Guizhou. Mas ainda assim Mao rejeitou a melhor opção — ir para o norte — e ordenou que o Exército Vermelho desse a volta, cruzasse o rio de novo e forçasse o retorno para Guizhou. Isso era tão absurdo e impopular que foi emitida uma ordem incomum, apenas para os altos comandantes, em que se especificava: “Esta travessia para o leste não deve ser anunciada e precisa ser mantida em segredo”.
Durante dois meses, o Exército Vermelho andou “em círculos numa área cada vez menor, de tal modo que passou por alguns distritos duas ou três vezes”, numa “perambulação exaustiva e infrutífera”, como observou o perplexo Braun, considerando a coisa toda “errática”. Travaram-se batalhas aparentemente gratuitas, a um custo horroroso. Além disso, Mao não causou desastres apenas para seu exército, mas estava pondo as forças de Chang Kuo-tao em risco, ao obrigá-las a ficar por perto e esperar por ele. Mais tarde, Mao chamou descaradamente esse fiasco de seu “tour de force”. O fato de que essas pesadas perdas se deveram a suas manobras para obter poder pessoal permanece ignorado até hoje.
Chiang Kai-shek também estava perplexo por ver o inimigo “andando em círculos nesse lugar totalmente inútil”. Sem conhecer os planos pessoais de Mao, ele esperava que os comunistas fossem para Sichuan. Supondo que seu exército os seguiria, em 2 de março ele foi de avião a Chongqing, a maior cidade da província, para fazer valer o domínio do governo central. Chiang tentou acabar com os feudos quase independentes, mas os senhores da guerra resistiram com obstinação, embora sem usar a força. Ele se viu impotente para subjugá-los, pois seu exército não estava à mão.
Chiang redobrou então seus esforços para empurrar os comunistas Sichuan adentro e os submeteu a pesados bombardeios aéreos que tornavam impossível para Mao estabelecer uma cabeça de ponte em Guizhou. Ao mesmo tempo, anunciou publicamente que estava retirando unidades do Exército da fronteira de Sichuan, como forma de dizer: Não há tropas naquela fronteira. Vão para Sichuan! Mas Mao conduziu
o exausto Exército Vermelho na direção oposta, para o sul. f
Sob ataque aéreo constante, “marchas forçadas de quarenta a cinquenta quilômetros eram a regra”, escreveu Braun.
As tropas mostravam sintomas crescentes de fadiga [...] Quando os aviões zumbiam sobre nós, simplesmente
nos jogávamos na lateral da estrada, sem procurar abrigo como antes. Se as bombas começavam a cair numa
aldeia ou fazenda onde estávamos dormindo, eu nem acordava mais. Se um deles pousasse perto de mim, eu
simplesmente me viraria para o lado [...]
O número de mortos, mais de doença e exaustão do que de ferimentos de batalha, aumentava diariamente.
Embora vários milhares de voluntários tivessem se alistado desde o começo do ano,g as fileiras haviam
minguado visivelmente.
Durante essa corrida precipitada, os comunistas tiveram de abandonar grande parte de seu equipamento médico e desmontar seu corpo médico. A partir de então, os feridos praticamente não recebiam tratamento. Além de ferimentos de granadas e balas, muitos sofriam de infecções dolorosas nos pés.
A loucura das manobras de Mao fica nítida na experiência de uma unidade, o 9 o Corpo, que ficou isolada no rio Wu, deixando seus 2 mil homens presos ao norte do rio. Em consequência, foram forçados a entrar em Sichuan. E — surpresa! —, exceto por uma ou duas escaramuças, não foram molestados. Ao contrário do contingente de Mao, que teve de enfrentar semanas de marchas forçadas e bombardeios, esses homens caminharam em plena luz do dia por estradas principais e puderam até tirar dias de descanso.
Uma das vítimas das maquinações de Mao foi sua mulher. Ela viajava com os feridos e doentes privilegiados numa unidade especial chamada Companhia dos Quadros Convalescentes, que incluía trinta mulheres, principalmente esposas dos líderes. Depois da batalha de Tucheng, o Exército Vermelho andou todo o dia, cerca de trinta quilômetros, sob chuva torrencial. Em um lugar chamado Areia Branca, Gui-yuan deixou a liteira que lhe fora alocada dois meses antes, quando sua gravidez estava avançada demais para ela andar a cavalo, e deitou-se numa cabana de sapé. Várias horas depois, deu à luz uma menina, seu quarto filho com Mao, em 15 de fevereiro de 1935. O bebê foi-lhe mostrado enrolado numa jaqueta por sua cunhada, a esposa de Tse-min. O exército ficou apenas um dia em Areia Branca. Como já fizera duas vezes antes, Gui-yuan teve de deixar a bebê para trás. Ela chorou quando a liteira a levou embora e a esposa de Tse-min ficou com a bebê, com um punhado de dólares de prata e um pouco de ópio, que era usado como moeda, para encontrar uma família que cuidasse dela. A sra. Tse-min pedira que Gui-yuan desse um nome à menina; ela sacudiu a cabeça e disse que não acreditava que veria a filha de novo. Seu instinto estava correto. A velha que ficou com a criança não tinha leite. Três meses depois, a bebê teve um ataque de furúnculos e morreu.
No fim de sua vida, quando passou bastante tempo procurando os bebês que havia sido forçada a abandonar, Gui-yuan nunca tentou procurar seriamente por essa filha. Ela dizia a pessoas próximas: “A menina que nasceu na Longa Marcha, nem cheguei a ver bem. Eu não tinha certeza de onde ela nascera nem para quem havia sido dada”. Mas a criança ficou em sua mente. Em 1984, ano de sua morte, seu ex-chefe na marcha a visitou no hospital. Ele nos contou que, quando estavam falando de outra coisa, ela perguntou-lhe de repente, inesperadamente: “Onde, onde foi mesmo que eu tive aquele bebê, você lembra?”.
Mao não foi ver Gui-yuan, embora estivessem na mesma cidade. Só mais tarde, quando seus caminhos se cruzaram, ela lhe contou que havia deixado a menina. Mao disse com brandura: “Você estava certa. Tínhamos de fazer isso”.
No fundo, Gui-yuan sentia-se ferida pela indiferença de Mao. Ela falou a amigos que a observação dele que mais lhe doía era quando dizia a outras mulheres com um sorriso forçado: “Por que vocês mulheres têm tanto medo de parir? Vejam [Gui-yuan], parir
para ela é tão fácil como pôr ovos para uma galinha”. h Dois meses depois de dar à luz, enquanto Mao liderava o Exército Vermelho na marcha infernal para o sul, Gui-yuan foi atingida por uma bomba e quase morreu. Em um entardecer de meados de abril, três aviões apareceram entre os campos de arroz das encostas da montanha, voando tão baixo que as pessoas no solo podiam ver o rosto dos pilotos. Eles metralharam e lançaram bombas sobre o caminho onde Gui-yuan e suas camaradas retomavam o fôlego. Membros voaram entre as árvores e sangue e miolos turvaram o chão de vermelho.
Mais de doze estilhaços de granada entraram no crânio e nas costas de Gui-yuan e um deles abriu todo o lado direito de suas costas. Ela ficou ensopada de sangue. Um médico tirou os estilhaços com pinças e aplicou o unguento para feridas baiyao para deter o sangramento. Gui-yuan estava inconsciente, vertendo sangue pelo nariz e pela boca. O médico que lhe deu uma injeção de cardiotônico achou que ela talvez tivesse duas horas de vida. Os líderes de sua companhia decidiram deixá-la com uma família local. Mao, que estava na aldeia seguinte, foi informado sobre a condição dela. Ele não foi vê-la — estava “cansado”. Disse apenas que não queria deixá-la para trás e mandou um médico e dois de seus carregadores de liteira. Mao só foi vê-la três dias depois. Então, ela havia recuperado a consciência, mas não conseguia falar, nem mesmo chorar. Continuar a jornada foi uma agonia; ela desmaiava e era acordada por pontadas de dor excruciante. Chegou a implorar aos camaradas que a matassem.
Após dois meses de correria cada vez mais para o sul, sem fim em vista, todos se perguntavam: “Para onde vamos?”. No alto escalão, que conhecia o plano para fazer a ligação com a parte do Exército Vermelho que estava em Sichuan e a estratégia de longo prazo de se aproximar da Rússia, cresceu um profundo ressentimento em relação a Mao. Lin Biao exclamou: “Desse jeito, as tropas serão arrastadas para a ruína! Não podemos absolutamente tê-lo no comando desse modo!”. Lin escreveu ao triunvirato em abril, pedindo que Mao entregasse o comando a Peng De-huai e que toda a força fosse direto para Sichuan. Todos estavam furiosos com Mao, até Lo Fu, que inicialmente concordara com o plano. Os sacrifícios eram demasiado terríveis. Braun relembrou: “Um dia, Lo Fu, com quem eu normalmente tinha pouco contato, [...] começou a falar do que ele chamou de situação militar catastrófica engendrada pela estratégia e tática irresponsável de Mao desde Tsunyi [Zunyi]”. Lo argumentava que, se quisessem evitar a aniquilação, o triunvirato “tinha de ser substituído por líderes militares competentes”.
Mao ficou lívido diante da mudança de Lo Fu. Braun notou que, certa vez, ao conversar com ele, “o nome de Lo Fu provocou um tom mais brusco em sua voz. Lo Fu, disse ele, havia entrado em pânico e fazia intrigas contra ele”. Mas Lo não era uma ameaça real, pois estava sujeito a ser chantageado por Mao desde o momento em que concordara em postergar o encontro com Chang Kuo-tao para preservar sua posição no partido. Mao também apelou para os sentimentos pessoais de Lo: ao saber que ele estava apaixonado por uma jovem, fez arranjos para que ela fosse transferida e pudesse ficar perto dele.
Em meados de abril de 1935, os comunistas, ainda sendo perseguidos, entraram na província de Yunnan, no extremo sudoeste da China. Mao deu ordens para ficarem no lugar e até “expandirem para o sul” — isto é, mais longe ainda da direção de Sichuan. Mas ao sul ficava o Vietnã, então ocupado pelos franceses, que eram extremamente hostis aos comunistas. Além disso, esse canto da China era habitado sobretudo por um grupo étnico chamado miao, que havia criado muitas dificuldades para os vermelhos no começo da marcha e era tremendamente belicoso. Todos podiam ver que aquilo era um beco sem saída.
Os comandantes de campanha ficaram enfurecidos com a ordem de Mao. Na noite em que a receberam, 25 de abril, Lin telegrafou para exigir que eles fossem “imediatamente [...] para [...] Sichuan e estivessem prontos para unir forças” com Chang Kuo-tao. Peng concordou.
Mao não podia mais tergiversar. Em 28 de abril, consentiu finalmente em avançar para Sichuan. Uma vez iniciada a marcha para o norte, o Exército Vermelho encontrou o caminho livre. Até facilitado. Naquele dia, eles acharam um caminhão com vinte mapas muito detalhados (escala de 1:100.000), bem como uma carga de guloseimas locais — chá, presunto e o famoso baiyao —, estacionado no acostamento, à espera de ser capturado. Chiang ou as autoridades de Yunnan haviam claramente organizado esse butim para apressar a passagem dos comunistas de Yunnan para Sichuan. Quando eles chegaram perto da fronteira provincial, demarcada pelo rio Areia Dourada (nome da parte superior do Yangtze), três cidades onde havia travessia abriram seus portões sem resistência e até ofereceram dinheiro e alimentos.
Os comunistas demoraram sete dias e sete noites para atravessar o rio, no começo de maio. As tropas de Chiang estavam por perto, mas não interferiram. Nenhum dos pontos de balsa foi defendido. Aviões de reconhecimento sobrevoaram o lugar, mas não lançaram bombas. Os participantes da marcha lembravam mais do incômodo de um “número assustador” de moscas.
Mas, depois de atravessar o rio, Mao tentou evitar o avanço para o norte. Ordenou o assédio a uma cidade logo depois da fronteira chamada Huili, para que pudesse ser o centro de uma nova base. Cercada por um fosso e com muralhas grossas e com ameias que datavam do século XV, Huili era dominada por um senhor da guerra que estava disposto a qualquer coisa para defendê-la. Ele queimou todas as casas que ficavam do lado de fora das muralhas, para que os sitiadores não tivessem abrigo, e matou muitos de seus próprios soldados, suspeitos de nutrir simpatia pelos comunistas. Os aviões de Chiang voltaram a bombardear, para obrigar os vermelhos a seguir em frente. As baixas foram muito elevadas e o Exército Vermelho, sem medicamentos, não podia cuidar dos feridos. Mao demonstrou indiferença e não os visitou nenhuma vez.
Para Peng De-huai, o número de baixas e o não tratamento dos feridos foram a gota d’água. Ele decidiu desafiar Mao pela liderança militar. Tinha amplo apoio dos outros comandantes de campanha, a começar por Lin Biao, que apontou que Mao havia arrastado o Exército Vermelho para um longo desvio e que eles poderiam ter ido direto para Sichuan mais de três meses antes. Lo Fu convocou uma reunião em 12 de maio, num abrigo improvisado.
Posto contra a parede, Mao lutou com vontade temível e enorme raiva, condenando Peng com rótulos políticos do tipo “direitista” e o acusando de insuflar Lin Biao. Quando Lin tentou discutir, Mao simplesmente gritou: “Você é um bebê! Você não sabe nada!”. Lin não podia competir com Mao numa disputa de gritos e foi calado com ameaças. Peng estava condenado por sua própria decência e decoro. Ao contrário de Mao, não era capaz de lutar pelo poder para si mesmo, mesmo que sua causa fosse boa. Nem era páreo para Mao em jogar lama e difamação “política”.
Mao obteve o apoio do totalmente comprometido Lo Fu, que estigmatizou Peng e seus seguidores com o epíteto de “oportunistas de direita”. Ao fazer isso, agiu contra seus próprios sentimentos, sob a sombra da chantagem de Mao. Os outros ficaram em silêncio. Enfrentar Mao não era fácil. Além da atmosfera aterradora que ele criava na hora e do sentimento de urgência e desmoralização gerado por estar em fuga havia oito meses, sustentar uma luta poderia levar a uma divisão do partido e do Exército. Assim, Mao manteve seu posto. Seu ódio de Peng por causa de Huili durou pelo resto da vida e ele começou a se vingar imediatamente. Depois da reunião, um amigo íntimo de Peng, que também havia falado das tremendas baixas nas batalhas iniciadas por Mao e se opusera a marcar passo em Guizhou, viu-se denunciado. Ele compreendeu que Peng era o alvo implícito: “Era inconveniente denunciar o próprio Peng De-huai, então fui denunciado em seu lugar”.
Mao era astuto o suficiente para concordar com uma troca. Ele retirou a ordem para tomar Huili e concordou por fim e explicitamente em “ir para o norte de imediato para se unir a” Chang Kuo-tao. Vinha adiando isso havia quatro meses e, ao fazê-lo, perdera cerca de 30 mil homens, mais da metade da sua força. Por causa dele, os soldados sob seu comando caminharam pelo menos 2 mil quilômetros a mais, frequentemente com pés lacerados.
Mas Mao fizera um tremendo avanço no sentido de alcançar seu objetivo. Não somente tinha agora um alto cargo militar, como seu títere Lo Fu se estabelecera como o líder de fato do partido. Aqueles quatro meses de procrastinação impiedosa haviam feito uma diferença fundamental. Ele não evitara totalmente uma luta pelo poder com Chang Kuo-tao, mas aumentara imensamente suas chances.
De imediato, Mao começou a fazer preparativos e sua medida mais importante foi mandar um enviado confiável a Moscou para confirmar sua posição. (Alguém precisava ir em pessoa, pois não havia comunicação por rádio.) O homem que ele escolheu não tinha ambição política pessoal, era fiel e com experiência suficiente para enfrentar qualquer problema que surgisse em Moscou. Tratava-se de Chen Yun, um membro do secretariado. Mao escolheu bem seu porta-voz. Em Moscou, Chen entregou uma mensagem cuidadosamente arquitetada, que dava a impressão de que a maioria do alto-comando havia escolhido Mao para a liderança numa reunião apropriada: “Uma reunião ampliada do Politburo [...] removeu a [velha] liderança e pôs o camarada Mao Tse-tung no comando”.
O grupo de Mao havia chegado ao centro-oeste de Sichuan, perto do Tibete, marchando direto para o norte, na direção de Chang Kuo-tao. Esse trecho seguinte forneceu o pano de fundo para o mito principal da Longa Marcha: a travessia da ponte sobre o rio Dadu. Esse rio constituía uma barreira natural formidável. No fim de maio, engrossado pelas neves do Himalaia, era uma torrente furiosa, presa entre altos penhascos. Seu leito cheio de pedras escondia redemoinhos traiçoeiros que tornavam impossível vadeá-lo ou atravessá-lo a nado.
Era impossível contorná-lo e havia somente uma ponte, construída no começo do século XVIII como parte da estrada imperial que ligava Chengdu, a capital de Sichuan, a Lhassa, a capital do Tibete. Era uma ponte suspensa magnífica, de 101 metros de comprimento e mais de três metros de largura, sustentada por treze grossas correntes de ferro, nove na base, com distâncias de cerca de trinta centímetros entre cada corrente. Tábuas de madeira cobriam a superfície e as fendas.
Essa ponte é o centro do mito da Longa Marcha, i passado para o jornalista Edgar Snow em 1936. Sua travessia, escreveu Snow, “foi o incidente mais crítico da Longa Marcha”. Nas palavras dele:
a metade desse piso de madeira fora removida [pelos nacionalistas] e diante deles [os marchadores]
balançavam apenas as correntes de ferro até um ponto a meio caminho do leito do rio. Na cabeça da ponte do
lado norte, um ninho de metralhadoras do inimigo os esperava e, atrás dele, havia posições mantidas por um
regimento de tropas brancas [...] Quem imaginaria que os vermelhos tentariam insanamente atravessar apenas
sobre as correntes? Mas foi isso o que eles fizeram.
Ele descreve homens sendo alvejados e caindo no rio.
Jogaram parafina nas tábuas [remanescentes] e elas começaram a queimar. A essa altura, cerca de vinte
vermelhos avançavam de gatinhas, jogando granada após granada no ninho de metralhadoras do inimigo.
Isso é pura invenção. Não houve batalha na ponte do Dadu. O mais provável é que a lenda tenha sido construída por causa do próprio lugar: a ponte pênsil sobre o rio furioso parecia um bom lugar para feitos heroicos. Não havia tropas nacionalistas nela quando os vermelhos chegaram, em 29 de maio. Os comunistas sustentam que a ponte estava defendida por um regimento nacionalista comandado por um certo Li Quan-shan, mas telegramas enviados e recebidos por esse regimento o situam muito longe dali, num lugar chamado Hualinping. Houvera uma diferente unidade nacionalista centrada em Luding, a cidade que ficava numa das extremidades da ponte, mas essa unidade havia
sido removida para fora da cidade pouco antes da chegada dos vermelhos. j As numerosas comunicações nacionalistas não fazem nenhuma menção a qualquer luta na ponte ou na cidade, ao mesmo tempo que mencionam escaramuças na rota para a ponte e depois que os comunistas a cruzaram. Chiang havia deixado a passagem aberta para os comunistas.
Quando a unidade de frente do Exército Vermelho chegou à área, montou seu QG numa igreja católica próxima da ponte e bombardeou e atirou contra Luding, no outro lado do rio. Uma moradora local, animada senhora de 93 anos quando a encontramos em 1997, descreveu-nos o que aconteceu. Em 1935, sua família — todos católicos, como a maioria dos habitantes do lugar naquela época — tinha uma loja de tofu ao lado da ponte, do lado dos comunistas, e soldados vermelhos foram alojados em sua casa. Ela lembra que comunistas disparavam “somente Yin uma granada e Yang um tiro” — uma expressão chinesa que significa esporádico. Ela não lembrava de seu lado do rio ter sido alvejado.
Algumas tábuas da ponte podem ter sido removidas ou danificadas. A senhora de 93 anos lembrou que os comunistas tomaram emprestado suas portas e as dos vizinhos para pôr na ponte, e, depois que as tropas haviam atravessado, eles foram buscar suas portas. Mas a ponte não foi reduzida às suas correntes. A única vez que isso aconteceu foi quando o regime de Mao fez um filme de propaganda.
A ponte tampouco foi incendiada. Essa alegação foi explicitamente negada pelo curador do museu junto à ponte, em 1983. A ponte não queimou.
A prova mais forte de que não houve batalha é que o Exército Vermelho atravessou a ponte sem ter uma única baixa. A vanguarda consistia em 22 homens, que, segundo o mito, fizeram um ataque suicida à ponte. Mas numa comemoração imediatamente posterior, em 2 de junho, todos os 22 não só estavam vivos e inteiros, como receberam um terno Lênin, uma caneta-tinteiro, uma tigela e um par de pauzinhos para comer. Nenhum deles estava sequer ferido.
Ninguém mais morreu sob fogo. O guarda-costas de Chou En-lai descreveu como seu chefe, contrariado ao saber que um cavalo havia caído no rio, foi verificar as perdas humanas. “Nenhum homem perdido?”, perguntou ao comandante da unidade que havia
tomado a ponte, Yang Cheng-wu, e ele respondeu: “Nenhum”. k
Em 1982, ninguém menos que a autoridade máxima da China, Deng Xiao-ping, ele mesmo um participante da travessia da ponte do rio Dadu, confirmou que a versão oficial havia sido fabricada. Quando o antigo conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos, Zbigniew Brzezinski, descreveu a travessia como um “grande feito de armas”, Deng sorriu e disse, “Bem, isto é o que foi apresentado em nossa propaganda… Na verdade, era uma operação militar bastante simples. Não havia nada de complicado. Do outro lado, apenas algumas tropas de um senhor de guerra, armadas com mosquetões antigos. Não foi um grande feito nem nada, mas achamos que era melhor torná-lo mais dramático.”
Mao atravessou a pé a ponte do Dadu em 31 de maio de 1935. Estava agora a cerca de trezentos quilômetros do temido encontro com Chang Kuo-tao. Entre ele e a unidade avançada de Kuo-tao que vinha para encontrá-lo havia uma montanha chamada Grande Neve, numa área pertencente, em larga medida, ao Tibete. Apesar do nome — e do mito —, não havia neve quando eles a escalaram, conforme nos disseram os moradores do local. Mas estava frio, com ventos cortantes, e o pior é que muitos homens haviam abandonado suas roupas de inverno nas terras baixas semitropicais, num esforço de se livrar de algum peso. Tudo o que tinham para se esquentar era água de pimentão fervente, que beberam antes de partir. Embora a travessia tenha demorado apenas um dia, a montanha causou muitas mortes, em parte devido à altitude (a passagem ficava a 3 mil metros de altura), mas principalmente porque os marchadores se achavam debilitados pelas privações.
Eles estavam caminhando praticamente sem parar havia quase oito meses, metade do tempo sem nenhuma razão do ponto de vista militar ou da sobrevivência, mas não do ponto de vista da ascensão ao poder de Mao. Além de serem atacados pelos inimigos, haviam sido assaltados por inumeráveis males. “Todos nós estávamos incrivelmente infestados de piolhos”, relembrou Braun. “Grassava a disenteria sangrenta; apareceram os primeiros casos de tifo [...] Cada vez mais, nossa rota ficava marcada pelos corpos dos mortos, congelados ou simplesmente exaustos.” Era mais duro para aqueles que tinham de carregar os líderes em suas liteiras e cargas pesadas. Alguns carregadores não levantaram nunca mais depois que sentaram para descansar.
Mao escalou a montanha a pé, usando uma bengala. Ele se deu muito melhor do que seus jovens guarda-costas, pois estava mais bem nutrido e descansado.
Os homens de Kuo-tao esperavam por eles do outro lado, numa cidade tibetana de cerca de cem famílias, com uma cornucópia de suprimentos — não somente comida, mas roupas, sapatos, meias de lã, cobertores, luvas e guloseimas como ervilhas amarelas em conserva, chá e sal. Esse exército estava bem alimentado e vestido e até tinha suprimentos de sobra. Mao e os outros líderes ganharam comida, cavalos ou burros e ternos de lã. Um cavalo dócil foi escolhido para Mao, que também ganhou um médico para servir-lhe de enfermeiro.
Uma semana depois, em 25 de junho, Kuo-tao, depois de cavalgar durante três dias através de florestas virgens e gargantas rochosas, chegou para se encontrar com Mao e seus companheiros numa aldeia chamada Fubian. Os dois maiores exércitos vermelhos estavam agora formalmente ligados.
Dias depois, em 4 de julho, o cunhado de Chiang Kai-shek, H. H. Kung (vice-premiê e ministro das Finanças), telefonou ao embaixador soviético Dmitri Bogomólov, aparentemente para discutir os movimentos do Japão no norte da China. No finalzinho da conversa, Kung observou que o Generalíssimo queria muito ver seu filho. Era a maneira de Chiang dizer a Stálin: permiti que dois grandes exércitos vermelhos sobrevivessem e juntassem forças, por favor, posso ter meu filho de volta? “Não estamos colocando nenhum obstáculo para ele sair”, respondeu Bogomólov, mentindo com fluência, “mas, tanto quanto eu saiba, ele não quer ir a nenhum lugar.”
Embora não tenha obtido seu filho de volta nessa ocasião, Chiang atingira seu objetivo de colocar as três províncias do sudoeste sob controle do governo central. O senhor da guerra de Guizhou fora forçado a renunciar e deixou a província depois de ser muito bem comprado. O governador de Yunnan permaneceu e manteve uma boa relação com Chiang (por algum tempo). Com seu próprio exército em Sichuan, nos calcanhares de Mao, Chiang voltou em maio para assumir o controle dessa província estrategicamente importante e a mais populosa. Ali, passou meses de intensa atividade para fazer de Sichuan sua base para a guerra contra o Japão.
Mao também conseguira seu objetivo. O desvio de 2 mil quilômetros que obrigara o Exército Vermelho a fazer lhe dera tempo para estabelecer seu títere Lo Fu na direção de fato do partido, enquanto ele se transformava no homem por trás do trono. As chances de Chang Kuo-tao haviam sido muito diminuídas. As maquinações de Mao tinham reduzido drasticamente as fileiras sob seu comando para cerca de 10 mil homens famintos, exaustos e em frangalhos. Mas ele não dava importância a isso. O Exército poderia ser reconstruído.
Como sempre, Mao considerava o Kremlin como sua única esperança, se ele quisesse conquistar a China. Agora que estava mais perto do que nunca do território controlado pelos russos, começou a conversar sobre requisitar “assistência material e técnica” da Ásia central soviética. Seu objetivo principal agora era obter acesso a armas soviéticas — ou aos ouvidos do Kremlin — antes de Chang Kuo-tao, que tinha um poder de fogo oito vezes maior do que o dele.
a A falta de apoio da maioria a Mao fica clara também pelo fato de que, mais tarde, quando ele se referia àqueles que o haviam apoiado em Zunyi, jamais mencionou mais de dois nomes — os de seus comparsas de conspiração.
b O adido militar soviético Lepin informou secretamente sobre as melhores rotas de suprimentos. O ex-líder do PCC Li Li-san foi enviado de Moscou para uma base secreta do GRU na fronteira chinesa, para tentar estabelecer contato por rádio. O vice-cônsul americano em Yunnan, Arthur Ringwalt, detectou o perigo e avisou Washington no começo de janeiro de 1935: “A situação parece estar ficando cada vez mais séria para a China. A não ser que ocorra um milagre, os comunistas forçarão a entrada em Szechwan [Sichuan] por uma rota ou outra. [Então] será apenas uma questão de tempo para que o plano bem conhecido [...] de estabelecer comunicações com a Rússia soviética seja levado a cabo. Então será inútil falar mais sobre repressão aos comunistas”.
Outra pessoa que levantou a questão foi, surpreendentemente, um espião britânico muito importante para a Rússia, Kim Philby. Em um artigo sobre o Tibete publicado na Alemanha nazista em 1936, ele enfatizou o significado estratégico da ligação dos comunistas chineses com os russos no noroeste.
c Chang Kuo-tao obteve tal sucesso sobretudo porque a parte de Sichuan em que entrou estava nas mãos de alguns senhores da guerra excepcionalmente impiedosos. Eles espremiam tanto a população que havia nas cidades muita gente que não conseguia comprar roupas e andava nua. Houvera várias revoltas camponesas pouco antes da chegada do exército de Kuo-tao, e suas forças conseguiram alistar recrutas em massa. Ele também contava com um chefe militar, Xu Xiang-qian, que talvez fosse o mais talentoso dos comandantes comunistas chineses.
d Mais tarde, Mao disse aos russos que a situação em torno da reunião de Zunyi havia sido “bastante desfavorável”. A (falsa) razão oferecida por Mao era que Chang Kuo-tao, com seu exército de 60 mil homens, “estava na ofensiva contra nós”. “Mas”, disse Mao, “não perdemos a cabeça e aniquilamos mais de 30 mil de suas tropas.”
Esta declaração de Mao revela por que ele manobrou tanto para evitar uma entrada em Sichuan depois da reunião de Zunyi. Mostra, além disso, que ele estava disposto a matar um grande número de tropas comunistas em benefício próprio.
e O procedimento normal na marcha era deixar os feridos com as famílias locais, com algum dinheiro. O destino deles era uma questão de sorte. O exército de Chang Kuo-tao deixou para trás algumas mulheres de soldados que estavam muito doentes ou fracas demais para prosseguir. Quando foram procurá-las, meio século depois, os historiadores do partido descobriram que elas haviam passado por experiências atrozes. Os habitantes locais, cujas famílias haviam sofrido nas mãos dos comunistas, vingaram-se nelas e as torturaram até a morte, enfiando estacas de madeira em suas vaginas e cortando seus seios fora. Para sobreviver, algumas mulheres se casaram com camponeses mais ricos. Mas quando seu próprio partido chegou ao poder, foram apontadas como “proprietárias” e denunciadas, humilhadas e discriminadas pelo resto da vida. Em 1985, no frio terrível de novembro, as poucas que foram vistas pelos historiadores do partido estavam então com sessenta ou setenta anos e eram tão pobres que não usaram sapatos para ir ao encontro, pois estes eram considerados acessórios valiosos demais para gastar numa ocasião tão sem importância.
f Chiang e seus oficiais ficaram tão aturdidos que acharam que Mao queria atacar a capital de Guizhou, onde estavam, para tentar pegar o próprio Chiang. Mas os comunistas passaram sem parar.
g Em Guizhou, onde a população era miserável, os comunistas haviam recrutado muitos milhares de jovens.
h Parir durante a marcha era um pesadelo. Uma mulher que entrou em trabalho de parto teve de andar até o destino da noite com a cabeça do bebê pendurada para fora. No dia seguinte, antes do amanhecer, chorando por ter de deixar o bebê num punhado de palha na cabana vazia, teve de caminhar e desmaiou ao vadear um rio gelado. Suas camaradas acharam uma mesa para carregá-la. A mulher de Teng Fa, então chefe da KGB chinesa, teve um parto extremamente doloroso. Contorcendo-se de dor, ela maldisse o marido por engravidá-la. Teng Fa foi trazido e ficou constrangido, com a cabeça baixa. A mulher de Po Ku disse, meio de brincadeira: “Na marcha, prefiro um burro ou um cavalo a um marido!”.
i Uma imagem dela está na capa do livro de 1985 The Long March, de Harrison Salisbury, que oferece a versão oficial pós-Mao.
j Os planos nacionalistas para o dia 28 descreviam a tarefa da unidade, sob o comando de Yu Song-lin, como sendo “defender Kangding”, uma cidade distante cerca de cinquenta quilômetros em linha reta. O fato de que as tropas de Yu não estavam nem perto da ponte é demonstrado em um relatório de 3 de junho do governador da região.
k Em 1946, quando um escritor britânico perguntou a Peng De-huai, o mais honesto de todos os líderes comunistas, sobre a travessia do Dadu, ele com delicadeza, mas de forma muito clara, recusou-se a endossar o mito. “Faz muito tempo e não consigo lembrar de tudo. Havia tantos rios — o Areia Dourada, o Hsiang, o Wu e o Yangtze [...] Não consigo lembrar muita coisa, mas lembro das pessoas caindo na água [...].” Ele não disse uma palavra sobre luta, ou ponte incendiada. Parece que duas ou três pessoas de fato morreram na ponte, mas porque caíram quando a estavam consertando e uma tábua velha quebrou de repente, como lembravam a sra. Zhu De e a moradora de 93 anos que entrevistamos. Para completar, os comunistas construíram um mito suplementar sobre mais heroísmo em torno de outra travessia do rio Dadu, em Anshunchang, cerca de 75 quilômetros ao sul. Embora essa travessia de balsa fosse extremamente exposta e as tropas tenham levado uma semana inteira para fazê-la, com aviões de observação sobrevoando em círculos, também não houve uma única baixa de batalha nesse lugar.