Mao: a história desconhecida

Jung Chang e Jon Halliday · Capítulo 26 de 69

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Mao: a história desconhecida

24. O envenenamento de Wang Ming

 

(1941-45; 47-51 anos)

 

Além de usar o terror para transformar os membros comuns do partido em engrenagens de sua máquina, Mao também atuava sobre seus colegas do alto escalão. Seu objetivo era dobrá-los e torná-los submissos, a fim de se estabelecer como líder indiscutível e não precisar mais depender da bênção de Moscou. Para isso, escolheu o momento em que Stálin estava preocupado com a guerra contra a Alemanha.

No outono de 1941, convocou uma série de reuniões do Politburo nas quais todos aqueles que se haviam oposto de alguma maneira a ele no passado tiveram de fazer autocríticas humilhantes e prometer-lhe lealdade. A maioria se submeteu docilmente, inclusive o chefe nominal do partido Lo Fu e o ex-chefe Po Ku, o homem que reduzira

Mao a uma figura decorativa antes da Longa Marcha. a (Chou En-lai estava em Chongqing.) Mas uma figura de proa de Yenan se recusou a se ajoelhar: Wang Ming, aquele que fora a principal ameaça a Mao desde seu retorno de Moscou, no final de 1937.

Depois da invasão alemã da Rússia, Wang Ming imaginou que Stálin ficaria descontente com a recusa de Mao de agir contra o Japão para ajudar a União Soviética. Em outubro de 1941, ele viu um telegrama do chefe do Comintern Dimítrov para Mao em que ele fazia quinze perguntas extremamente duras, entre elas a seguinte: que medidas o PCC estava adotando para atacar o Exército japonês, a fim de que o Japão não pudesse abrir uma segunda frente de luta contra a União Soviética? Armado com tal prova da irritação de Moscou com Mao, Wang Ming agarrou-se nessa chance de reverter sua sorte política e pessoal. Recusou-se a fazer autoflagelação e criticou a política de Mao em relação a Chiang e aos japoneses. Também exigiu que Mao debatesse com ele num grande fórum do partido, declarando que estava preparado para levar a questão até o Comintern.

O plano original de Mao era obter a submissão absoluta e incondicional de seus colegas e então convocar o tão protelado congresso do partido e subir ao trono do PCC. Ele era o chefe de fato havia quase sete anos, mas sem um cargo ou título à altura. Porém, o desafio de Wang Ming destruiu seu plano. Se o teimoso oponente conseguisse abrir um debate sobre sua política de guerra, o congresso poderia muito bem ficar do lado dele. Mao teve de engavetar o congresso.

Ele ficou furioso com essa inesperada reviravolta dos eventos e sua ira esguichou de sua pena. Nesse período, escreveu e reescreveu nove artigos bombásticos, amaldiçoando Wang Ming e seus aliados do passado, inclusive Chou En-lai, embora este houvesse trocado de lado. Esses artigos ainda hoje são um segredo bem guardado. De acordo com o secretário de Mao, eles eram “enormes descargas de emoções, com muita linguagem excessivamente estridente”. Um trecho se referia a seus colegas como “vermezinhos desprezíveis”; “dentro dessa gente, não há nem metade de um Marx verdadeiro, um Marx vivo, um Marx fragrante [...] não há senão Marx falso, Marx morto, Marx fedorento”.

Mao retrabalhou esses artigos várias vezes e depois os pôs de lado. Mas continuou obsessivamente ligado a eles até o fim da vida, três décadas e meia depois. Em junho de 1974, depois que Wang Ming morrera no exílio em Moscou e quando Chou En-lai estava com câncer terminal na bexiga, Mao mandou tirar os artigos dos arquivos e pediu que os lessem (estava então quase cego). E apenas um mês antes de sua morte, em 1976, pediu que os lessem de novo para ele.

 

Entrementes, logo depois de ter desafiado Mao em outubro de 1941, Wang Ming ficou subitamente doente e foi hospitalizado. Ele afirmou que havia sido envenenado por Mao — o que pode ou não ter sido verdade. O que se sabe com certeza é que Mao tentou envenená-lo no mês de março seguinte, quando Wang Ming estava prestes a receber alta do hospital. Wang Ming continuou desafiador: “Não baixarei minha cabeça, mesmo que todos os outros o estejam bajulando”, jurou. Em segredo, escrevera um poema em que chamava Mao de “anti-União Soviética e anti-Partido Comunista Chinês”. Além disso, disse ele, Mao estava “montando sua ditadura pessoal”; “Tudo o que faz é para ele mesmo e não se preocupa com nada mais”. Mao podia esperar que o altamente articulado Wang Ming o criticasse em público.

O agente da operação de envenenamento arquitetada por Mao foi um médico chamado Jin Mao-yue, que viera para Yenan numa equipe médica nacionalista, no auge da cooperação entre Chiang e o PCC. Era também um ginecologista e obstetra qualificado e os comunistas o mantiveram em Yenan. Quando Wang Ming foi internado no hospital, Jin foi designado seu médico-chefe. Que ele envenenou Wang Ming ficou estabelecido por um inquérito oficial que envolveu os principais médicos de Yenan em meados de 1943. Suas conclusões, obtidas por nós, continuam sendo um segredo bem guardado.

No início de março de 1942, Wang Ming foi descrito como “pronto para receber alta”. O dr. Jin vinha tentando mantê-lo no hospital sob o pretexto de fazer toda uma série de operações — “tirar-lhe os dentes, operar hemorroidas e remover as amígdalas”. Essas cirurgias foram deixadas de lado depois que outro médico fez objeções. O inquérito descobriu que as operações das amígdalas e de hemorroidas (que eram “grandes”) “teriam sido perigosas”.

Mas justamente quando Wang Ming estava para sair do hospital, no dia 13, o dr. Jin deu-lhe alguns comprimidos, após os quais Wang Ming desfaleceu. O inquérito registrou que: “Em 13 de março, depois de tomar um comprimido [Wang Ming] sentiu dor de cabeça. Em 14 de março, ele tomou dois e começou a vomitar, sentia fortes dores no fígado, seu baço estava inchado e estava com dor na área ao redor do coração”. Após mais comprimidos do dr. Jin, o que Wang Ming tinha “foi diagnosticado como colecistite aguda [inflamação da vesícula biliar] e [...] hepatomegalia [aumento do volume do fígado]”.

O inquérito nunca descobriu que comprimidos eram aqueles, pois não havia receita. Sob interrogatório, o dr. Jin deu “respostas muito vagas” sobre o tipo de medicamento e a quantidade. Mas o inquérito estabeleceu que, depois de tomar os comprimidos, Wang Ming mostrou “sintomas de envenenamento”.

O dr. Jin receitou então outros comprimidos: grandes doses de calomelano e soda — dois medicamentos que, tomados em combinação, produzem veneno na forma de corrosivo cloreto de mercúrio. O inquérito concluiu que essas prescrições eram “suficientes para matar várias pessoas”. O relatório detalhava muitos “sintomas de envenenamento por mercúrio” e concluía: “É fato que ele foi envenenado”.

Wang Ming teria morrido se tivesse tomado todos os comprimidos prescritos pelo dr. Jin. Mas ele ficou desconfiado e parou de tomá-los. Em junho, o dr. Jin suspendeu seu tratamento assassino. O motivo foi que um novo e muito graduado contato de Moscou, Piotr Vladímirov, acabara de chegar em Yenan. Vladímirov, que era general, trabalhara no noroeste da China, falava chinês com fluência e conhecia pessoalmente alguns dos líderes do PCC. Seus relatórios iam para Stálin. Ele ainda trouxe com ele um cirurgião do GRU, Andrei Orlov, também general, além de mais um operador de rádio.

Em 16 de julho, pouco depois da chegada de Vladímirov e Orlov, Moscou foi informada pela primeira vez que Wang Ming, “após nove meses de tratamento, está às portas da morte”. Nesse estágio, Wang Ming aparentemente não contou aos russos sobre suas suspeitas de estar sendo envenenado. Ele não apenas estava nas mãos de Mao, como não tinha provas. Tentou primeiro separar Stálin de Mao, dizendo a Vladímirov que este não tinha intenções de ajudar a Rússia militarmente. Em 18 de julho, Vladímirov registrou que Wang Ming “diz que se o Japão atacar [a Rússia] [...] a União Soviética não deve contar com a ajuda [do PCC]”.

O representante soviético tornou-se logo muito crítico em relação a Mao. “Espiões vigiam todos os nossos passos”, anotou ele. “Nestes últimos dias, [Kang Sheng] tem me impingido uma professora de russo que eu deveria aceitar como pupila. Nunca vi uma moça chinesa de beleza tão admirável. A moça não nos dá um dia de paz.” Em poucas semanas, Vladímirov despediu o cozinheiro, convencido de que era “um informante de Kang Sheng”.

No início de 1943, o estado de saúde de Wang Ming piorou muito. Os médicos, que tinham agora entre eles o cirurgião Orlov, recomendaram tratamento na área nacionalista ou na Rússia. Mao recusou-se a deixá-lo partir.

Para salvar sua vida e ir para Moscou, Wang Ming sabia que tinha de fazer Stálin perceber que ele era politicamente útil. Em 8 de janeiro, ditou um longo telegrama a Vladímirov, dirigido a Stálin. De acordo com seu próprio relato, detalhava os “muitos crimes” de Mao, que ele chamava de “antissoviético e antipartido”. No final, “perguntava se seria possível mandar-me um avião e tratar-me em Moscou, onde eu também daria à liderança do Comintern detalhes sobre os crimes de Mao”.

A mensagem de Wang Ming, bem diluída por Vladímirov, chegou a Dimítrov em 1 o de fevereiro. É óbvio que Mao soube da mensagem perigosa que Wang Ming mandara para a Rússia, pois telegrafou imediatamente a Dimítrov com contra-acusações a Wang Ming. Ainda assim, o chefe do Comintern prometeu a Wang Ming: “Levaremos você de avião para Moscou”.

A essa altura, o dr. Jin fez outra tentativa contra a vida de Wang Ming. Em 12 de fevereiro, logo depois da mensagem de Dimítrov, ele receitou de novo uma combinação mortal de calomelano e soda. Uma semana depois, receitou ácido tânico em um enema, numa dose que teria sido fatal. Dessa vez, Wang Ming, além de não seguir as receitas, guardou-as cuidadosamente.

Mao percebeu que precisava agir com urgência e tomou uma medida surpreendente. Em 20 de março, em segredo total, reuniu o Politburo — menos Wang Ming — e fez-se eleger supremo líder do partido, tornando-se presidente tanto do Politburo como do secretariado. Essa resolução deu-lhe poder absoluto e deixou claro: “Em todas as questões [...] o presidente tem o poder de tomar as decisões finais”. Wang Ming foi retirado do secretariado.

Era a primeira vez que Mao se tornava o chefe do partido no papel, tanto quanto de fato. E, contudo, foi uma jogada sub-reptícia, mantida em segredo absoluto do próprio PCC e de Moscou — e permaneceria secreta durante toda a vida de Mao, conhecida provavelmente apenas por um punhado de pessoas.

Wang Ming talvez tenha tido notícia da manobra de Mao, pois pela primeira vez denunciou a tentativa de envenenamento aos russos. Em 22 de março, mostrou a Orlov uma das receitas do dr. Jin, que Vladímirov encaminhou a Moscou. Os russos responderam imediatamente para informar que a receita “causa envenenamento lento” e “em casos graves, a morte”. Wang Ming mostrou então a receita para o médico-chefe de Yenan, dr. Nelson Fu, e isso levou a um inquérito, que concluiu, sem dúvida alguma, que Wang Ming fora envenenado.

Mas Mao, o rei da tramoia, tirou vantagem do inquérito. Como a investigação estabeleceu que haviam tentado matar Wang Ming, Mao usou o fato de que ela ainda estava em andamento como pretexto para impedir a viagem de Wang Ming.

E para Mao sempre havia bodes expiatórios à mão — nesse caso, o dr. Jin. Em 28 de março, madame Mao “veio me visitar de forma bem inesperada”, registrou Vladímirov. “Ela falou longamente sobre ‘a falta de confiança no dr. Jin que [disse ela] é provavelmente um agente [nacionalista]’.”

 

* * *

 

Cinquenta e seis anos depois, em um sombrio prédio de concreto da poeirenta Pequim, o único sobrevivente do painel de quinze médicos que traçou as conclusões oficiais em Yenan, o dr. Y, fisicamente vigoroso e mentalmente alerta aos 87 anos, nos concedeu uma entrevista gravada.

Quando foi tomada a decisão de realizar um inquérito médico, o dr. Y foi designado para verificar se Wang Ming havia sido de fato envenenado. Ele ficou “com Wang Ming durante um mês, dormindo em seu estúdio”; aquecia a urina dele todos os dias, depois mergulhava um fio de ouro nela e o examinava ao microscópio. O exame revelou que continha mercúrio: “Ele estava sendo envenenado lentamente”. O dr. Y relatou o fato ao seu superior médico. Mas nada foi feito durante semanas. O inquérito médico foi aberto finalmente em 30 de junho, mais de três meses depois da denúncia do envenenamento. As conclusões, redigidas em 20 de julho, declaravam que Wang Ming tinha sido definitivamente envenenado pelo dr. Jin e foram assinadas pelo próprio Jin. Depois da assinatura, ele escreveu entre parênteses: “Farei declaração em separado sobre vários dos pontos”. Mas jamais o fez. Na metade de uma reunião, diante de seus colegas, ele se jogou chorando aos pés da esposa de Wang Ming. O dr. Y estava presente. Ele nos contou que o dr. Jin “caiu de joelhos e implorou perdão, dizendo que estava errado”. “Ele admitiu erros. É claro que não admitiria que eram deliberados.” Na verdade, o dr. Jin carregava um manual médico de bolso que informava especificamente que era proibido usar calomelano em combinação com soda, e ele sublinhara essas palavras. O dr. Y o confrontou com isso: “Veja, está escrito aqui: receita proibida, grande perigo. Você até sublinhou!”. Jin ficou em silêncio.

Longe de enfrentar problemas, no entanto, Jin foi protegido ao ser levado para o covil do aparato de segurança, o Jardim das Tâmaras, onde viveu com a elite da segurança. Continuou a ser um dos médicos de Mao e outros líderes, o que seria inconcebível se

Mao tivesse a mais mínima dúvida sobre sua competência ou fidelidade.b

O inquérito não mencionou Mao, é claro, mas os russos não tinham dúvidas: “Wang Ming estava sendo envenenado e [...] Mao Tse-tung e Kang Sheng estavam envolvidos”.

 

O principal cúmplice de Mao na operação para evitar a ida de Wang Ming para Moscou foi, novamente, Chou En-lai, seu contato em Chongqing. Para que aviões russos fossem a Yenan, era preciso permissão de Chiang Kai-shek, de modo que Mao pediu hipocritamente que Chou obtivesse permissão para que um avião russo viesse buscar Wang Ming, ao mesmo tempo que deixava claro a Chou que não queria que seu desafeto partisse. Chou disse então aos russos que “os nacionalistas não permitem que o comandante Wang Ming saia de Yenan”. Na verdade, Lin Biao, que estava em Chongqing na época, informou ao embaixador soviético Pániushkin que Chou jamais levantou a questão com os nacionalistas, devido a “instruções de Yenan”.

Exatamente na mesma ocasião, Chou obteve permissão de Chiang para que um avião russo trouxesse An-ying de volta. O filho de Mao, que estava na Rússia desde 1937, agora tinha 21 anos e era um entusiasta de gung-ho na academia militar, onde entrara para o Partido Comunista soviético. Ele escrevera três cartas a Stálin pedindo para ser designado para o front alemão.

Como não foi mandado para a frente de batalha, An-ying pediu permissão para voltar à China depois de se formar, em 1 o de maio de 1943. Ele não era apenas o filho mais velho de Mao, mas também o único herdeiro provável, pois seu irmão An-ching era deficiente mental. An-ying telegrafou ao pai (via Dimítrov) e Mao respondeu que Chiang havia liberado a viagem de avião. An-ying preparou-se para voltar para casa e pediu ao chefe da Escola Comunista Internacional que cuidasse de seu irmão. “Não o perca de vista [...] Ele é uma pessoa honesta, mas tem problemas de audição e seus nervos estão em frangalhos.”

Em 19 de agosto, um avião russo foi para Yenan buscar Wang Ming e An-ying deveria estar nele. Mas nesse dia ele foi chamado por Dimítrov. Quando o avião chegou a Yenan, An-ying não estava a bordo. Era a maneira de Moscou dizer a Mao que queria Wang Ming antes de liberar seu filho.

Mas Mao não soltou Wang Ming. Vladímirov registrou: “Mandaram os médicos [...] dizer que Wang Ming [...] não poderia suportar o esforço do voo [...] A tripulação atrasou o voo o quanto pôde, mas [Mao] conseguiu o que queria”.

Outro avião soviético chegou em 20 de outubro e lá permaneceu por quatro dias, antes de partir com alguns agentes do serviço secreto russo — mas, de novo, sem Wang Ming. “Ao ver [o dr. Orlov]”, observou Vladímirov, “Wang Ming prorrompeu em lágrimas [...] ele ainda [...] não consegue andar [...] [seus] amigos o abandonaram [...] Ele está sozinho no pleno sentido da palavra.” Havia dois anos que sua crise de saúde começara e dezenove meses desde o início do envenenamento. Naqueles longos e agonizantes dias, sua esposa cuidou dele com devoção, sempre com o rosto forte e calmo na sua presença. Mas às vezes fechava a porta e tentava aliviar a angústia. Seu filho nos contou que, quando pequeno, certa vez a vira rolando e chutando no chão de terra, abafando os soluços e gritos com uma toalha. O filho era jovem demais para compreender, mas a cena traumática ficou gravada em sua memória.

Em Yenan, contou o dr. Y, “muita gente sabia que Wang Ming fora envenenado por mercúrio e que alguém estava tentando matá-lo [...] Correu o boato”. E não somente entre os funcionários graduados, mas também entre os membros comuns do PCC que tinham ligações com os médicos. Tanta gente suspeitava da verdade que Mao tinha de acabar com a onda de suspeição. Isso significava obter do casal Wang Ming uma negação pública.

Em 1 o de novembro, uma semana depois que o segundo avião russo havia partido, Mao convocou uma grande reunião das altas autoridades, presidida por ele. Wang Ming ficou de fora. A testemunha principal era um veterano comandante, que foi trazido da prisão para dizer que, mais de um ano antes, a sra. Wang Ming lhe contara que seu marido estava sendo envenenado — e dera a entender que Mao era o responsável. A sra. Wang Ming fez então um veemente desmentido público. Em 15 de novembro, escreveu uma carta a Mao e ao Politburo na qual jurava que ela e o marido jamais haviam nutrido tal pensamento e que não sentiam outra coisa senão gratidão por Mao. O caso do envenenamento foi formalmente arquivado.

 

Mao desafiara Stálin de forma espantosa, pois Moscou não enviaria um avião até Yenan para nada. Ademais, coisas estranhas aconteceram aos russos na capital comunista. Sua estação de rádio foi destruída, num aparente ato de sabotagem. Seus cães, que eles haviam trazido para proporcionar segurança e um sistema de alarme — bem como proteção contra os lobos —, foram mortos a tiros. Mao ousou fazer tudo isso porque sabia que era o vitorioso e que Stálin precisava dele e estava comprometido com ele. Foi durante esse mesmo período, em 30 de outubro de 1943, que Stálin informou aos americanos que entraria finalmente na guerra contra o Japão. Os fornecimentos de armas russas a Mao aumentaram muito.

Em 17 de novembro, Dimítrov telegrafou mais uma vez a Mao sobre a ida de Wang Ming para a Rússia, mas não recebeu resposta. E quando Dimítrov escreveu a Wang Ming, em 13 de dezembro, o fez num tom claramente triste. Depois de dizer que a filha de Wang Ming, que os Dimítrov haviam adotado, estava bem, ele prosseguiu, resignado: “Quanto às suas questões no partido, tentem resolvê-las vocês mesmos. Não é conveniente intervir daqui por ora”.

Mas Stálin decidiu que Mao deveria receber uma advertência. Pouco depois, em 22 de dezembro, ele autorizou Dimítrov a mandar um telegrama muito incomum, no qual dizia a Mao:

Não é preciso dizer, depois da desmontagem do Comintern,c seus líderes [...] não podem mais intervir nos

assuntos internos do PCC. Mas [...] não posso deixar de dizer algumas palavras sobre minhas preocupações

causadas pela situação no PCC. [...] Penso que a política de reduzir a luta contra os ocupantes estrangeiros

está politicamente errada, e a atual ação de se afastar da frente unida nacional também está errada [...].

 

Manifestando suas “suspeitas” a respeito de Kang Sheng, o chefe da inteligência de Mao, que descrevia como “ajudando o inimigo”, Dimítrov disse a Mao que “a campanha realizada para incriminar” Wang Ming (e Chou En-lai) estava “errada”.

Ele começava o telegrama com uma menção muito contundente a An-ying:

Quanto ao seu filho. Consegui que ele fosse matriculado na Academia Político-Militar [...] Ele é um jovem

talentoso e não tenho dúvida de que você encontrará nele um auxiliar bom e confiável. Ele manda lembranças.

 

Dimítrov não dizia uma palavra sobre o tão esperado retorno de An-ying à China. E o fato de mencioná-lo junto com Wang Ming era a maneira mais clara possível de informar a Mao que seu próprio filho era um refém, tal como o de Chiang Kai-shek o fora.

 

Quando Vladímirov traduziu o telegrama para ele, em 2 de janeiro de 1944, a reação imediata de Mao foi de desafio. Ele escreveu uma resposta na mesma hora. Era uma rude réplica, ponto por ponto:

Ao camarada Dimítrov,

1. Não reduzimos a luta contra os japoneses. Ao contrário [...] 2. Nossa linha em relação à colaboração com os [nacionalistas] permanece sem mudanças [...] 3. Nossas relações com Chou En-lai são boas. Não vamos cortá-lo do partido de forma alguma. Chou En-

lai fez grandes progressos.

4. Wang Ming envolveu-se em várias atividades antipartido [...] 5. Asseguro-lhe e posso garantir que o Partido Comunista Chinês ama e respeita muito o camarada Stálin e

a União Soviética [...]

6. [...] Wang Ming não é confiável. Uma vez, ele foi preso em Xangai. Várias pessoas disseram que quando

ele estava na prisão admitiu ser membro do Partido Comunista. Ele foi solto depois disso.d Falou-se também

sobre suas conexões suspeitas com Mif [expurgado na Rússia] [...]

Kang Sheng é um homem confiável [...]

Mao Tse-tung

 

Mao era um homem impulsivo, mas costumava conter seus arroubos. Certa vez, disse a um auxiliar que comentou sua “calma imperturbável” e “autocontrole impecável”: “Não é que eu não esteja com raiva. Às vezes, fico tão irado que sinto meus pulmões estourando. Mas sei que devo me controlar e não demonstrar nada”.

A reação intempestiva de Mao nessa ocasião foi incaracterística. Sua explosão não se deu porque se preocupasse muito com o filho, mas porque era a primeira vez que Moscou tentava chantageá-lo. Mas ele se arrependeu imediatamente da erupção. Não podia se dar ao luxo de ofender Moscou, em especial nesse momento em que a maré se voltava contra a Alemanha e era provável que a Rússia atacasse o Japão em breve — e o levasse ao poder.

No dia seguinte, Mao disse a Vladímirov que “havia pensado muito” no telegrama de Dimítrov e perguntou se sua resposta fora enviada. Se não, “ele certamente mudaria seu conteúdo”.

Mas o telegrama já seguira e, nos dias seguintes, Mao, visivelmente ansioso, tratou de cortejar Vladímirov. Em 4 de janeiro, convidou-o para um espetáculo de ópera e “imediatamente começou a falar de seu respeito pela União Soviética [...] e I. V. Stálin [...] Mao disse que respeitava sinceramente os camaradas chineses que haviam recebido educação ou trabalhado na União Soviética”. No dia seguinte, visitou Vladímirov de novo, que observou: “Ele obviamente compreende que o telegrama que mandou para Dimítrov em 2 de janeiro foi rude e inconveniente”. No dia 6, Mao ofereceu um jantar aos russos: “Tudo foi cerimonioso, amistoso e [...] servil”. No dia seguinte, Mao foi sozinho à casa de Vladímirov às nove da manhã — o que para ele era o meio da noite. “De repente”, Mao “começou a falar de Wang Ming — num tom totalmente diferente, quase amistoso!” No final, sentou-se e redigiu outro telegrama para Dimítrov e pediu que Vladímirov o expedisse logo. “Mao parecia perturbado, seus gestos traíam tensão e nervosismo [...] Parecia extremamente cansado, como se não tivesse tido um minuto de sono.”

O tom do segundo telegrama era servil:

Agradeço-lhe sinceramente pelas instruções que me deu. Vou estudá-las com cuidado [...] e tomar medidas de

acordo com elas [...] Quanto às questões intrapartidárias, nossa política tem por objetivo a unidade. A mesma

política será aplicada em relação a Wang Ming [...] Peço-lhe que fique tranquilo. Todos os seus pensamentos,

todos os seus sentimentos estão perto do meu coração [...].

 

Mao fez então duas longas visitas a Wang Ming.

Dimítrov escreveu-lhe em 25 de fevereiro, para dizer que estava particularmente contente com seu segundo (servil) telegrama. Essa e as missivas subsequentes tiveram um tom de “podemos trabalhar juntos”.

Em 28 de março, Mao pediu que Vladímirov mandasse um telegrama para seu filho An-ying. Nele, dizia que não pensasse em retornar à China. Mao estava “muito feliz com seus sucessos nos estudos”. E pedia ao filho para “não se preocupar com sua [de Mao] saúde. Ele se sente bem”. Pedia a An-ying para transmitir “saudações calorosas” a Manuilski e Dimítrov, que “têm ajudado [...] a revolução chinesa. É a eles que os camaradas chineses e seus filhos devem sua educação na [Rússia], sua criação e sustento”.

Essa era a maneira de Mao dizer a Moscou: aceito que fiquem com meu filho como refém. Com esse entendimento, An-ying permaneceu na Rússia.

Entrementes, Dimítrov instruiu Wang Ming a entrar num acordo. Embora protestasse que não era culpado do racha, Wang Ming prometeu trabalhar com Mao, mas pediu a Moscou que tentassem contê-lo.

O resultado foi um empate, mas que favoreceu muito Mao. Ele teve permissão para manter Wang Ming em Yenan e fazer o que quisesse com ele, inclusive caluniá-lo, desde que não o matasse. Com efeito, a difamação de Wang Ming foi uma atividade importante na campanha de terror em Yenan, a partir de 1942. Infindáveis sessões de doutrinação foram realizadas para denegrir seu nome entre os membros do partido. Em um comício que o denunciava in absentia (Mao tratou de mantê-lo longe dos quadros partidários), a esposa de Wang Ming conseguiu subir ao palco e dizer que as acusações eram falsas. Pediu que trouxessem Wang Ming para esclarecer os fatos. Como ninguém se moveu, ela jogou-se aos pés de Mao soluçando alto, agarrou-se às suas pernas e lhe pediu que fosse justo. Mao ficou sentado, imóvel como uma pedra.

No final da campanha, ficou implantado na mente das pessoas que Wang Ming era o inimigo número um do partido e a partir de então ele não teve condições de desafiar a supremacia de Mao — embora este ainda o considerasse uma ameaça, porque ele

continuava indomado. Cinco anos depois, aconteceria outro atentado contra sua vida.e

 

Em 1943, enquanto empregava veneno para combater Wang Ming, ele voltou-se contra Chou En-lai — apesar de Chou ter colaborado bastante no trabalho sujo de Mao, como deixar Tse-min ser morto e evitar que seu velho amigo Wang Ming fosse se tratar em Moscou.

Porém, Mao queria mais do que deferência servil. Ele queria Chou totalmente amedrontado e dobrado. A campanha de terror de 1942-43 ameaçou condená-lo como o grande espião-chefe. Na verdade, foi em parte para incriminá-lo que Mao inventou a acusação de que a maioria das organizações comunistas das áreas nacionalistas espionava para Chiang, pois Chou era o responsável por essas organizações. Com o objetivo de ter Chou por perto e submetê-lo ao terror, Mao mandou telegramas ameaçadores em que ordenava que ele voltasse de Chongqing para Yenan. Um deles, de 15 de junho de 1943, dizia: “Não se demore [...] para evitar que as pessoas falem”. E em julho, quando Chou voltou, a primeira coisa que Mao lhe disse na cara foi uma advertência: “Não deixe seu coração no campo do inimigo!”. Chou entrou em pânico e reagiu com bajulação total, fazendo grandes elogios a Mao em sua festa de “boas-vindas”. Depois, em novembro, penitenciou-se durante cinco dias diante do Politburo, afirmando que havia “cometido crimes extremamente grandes”, sido “cúmplice” de Wang Ming, e que tinha “o caráter de um escravo” — do senhor errado, é claro. Disse a plateias maiores do partido que ele e outros líderes haviam agido de forma desastrosa e que fora Mao quem salvara o partido da inépcia deles. Totalmente domesticado, Chou tornou-se um escravo que se humilhou diante de Mao por mais de três décadas, até quase seu último suspiro.

 

O último homem de quem Mao decidiu cortar as garras foi Peng De-huai, o comandante interino do 8 o Exército de Marcha. Peng se opusera a ele nos anos 1930. Em 1940, o havia desafiado e lançado a única operação em larga escala dos comunistas contra os japoneses durante toda a guerra sino-japonesa. E fizera algo igualmente enfurecedor para Mao — havia tentado implementar alguns dos ideais que, no léxico de Mao, eram para ser usados apenas como propaganda. “Democracia, liberdade, igualdade e fraternidade”, disse Mao, eram conceitos a serem usados somente “para nossas necessidades políticas.” Ele censurou Peng por “falar sobre eles como se fossem ideais genuínos”.

Mao havia tolerado Peng porque ele desempenhara um papel extremamente útil na expansão do Exército e na direção das áreas de base. (As bases sob o comando de Peng mantinham uma relação muito melhor com os habitantes locais e uma atmosfera muito menos opressiva do que a de Yenan.) No outono de 1943, Mao trouxe-o de volta para Yenan, embora não o tenha colocado de imediato na sua lista de ataques porque não queria enfrentar muitos inimigos ao mesmo tempo. Peng não mediu suas palavras ao falar das muitas coisas que o irritavam em Yenan, inclusive o esforço de Mao de construir um culto de si mesmo, que ele rotulou simplesmente de “errado”. Um dia, ao conversar com um membro do partido que acabava de ser solto da prisão de Mao, disse com ar pensativo: “É difícil suportar sozinho de forma honrada”.

A partir do início de 1945, Mao decidiu manchar a credibilidade e a reputação de Peng — e enervá-lo. Numa série de longas reuniões de intimidação, seus asseclas o bombardearam com insultos e acusações — experiência que ele descreveu como “ser fodido durante quarenta dias”. As sessões de ataque a Peng continuaram intermitentemente até a véspera da rendição dos japoneses, quando pararam porque Mao precisava de comandantes do calibre de Peng para lutar contra Chiang Kai-shek. A essa altura, Mao havia sistematicamente subjugado todos os seus oponentes.

 

a Po Ku morreu num desastre aéreo em 1946.

b O dr. Jin continuou particularmente próximo de madame Mao, em quem fizera um aborto e ligação das trompas no verão de 1942. Quando os comunistas tomaram o poder, tornou-se chefe do Hospital de Pequim, que atendia os líderes do partido e suas famílias. Na noite de 30 de setembro de 1950, a nora de Mao foi levada a esse hospital com apendicite. Era preciso a assinatura de um parente para autorizar a operação. Como An-ying, o marido dela, não estava presente, foi o dr. Jin quem assinou a autorização.

c Em 20 de maio de 1943. Em larga medida, tratou-se de uma formalidade, para apaziguar os aliados ocidentais de Stálin, e provocou poucas mudanças na relação entre Moscou e Yenan.

d Isso significava que a explicação de Wang Ming para sua soltura era insatisfatória e, portanto, suspeita.

e Em 1948, quando planejava ir à Rússia, Mao ficou preocupado com o que Wang Ming poderia fazer em sua ausência. Então, deram-lhe lisol, supostamente para sua constipação crônica. Tratava-se de um poderoso desinfetante usado para limpar mictórios e que destruiria os intestinos. Wang Ming sobreviveu porque sua esposa parou imediatamente de administrar a substância depois que ele gritou de dor. Nenhum outro alto líder do PCC teve tantos “acidentes médicos” — ou qualquer acidente sério de qualquer tipo. A possibilidade de se tratar de um acidente pode ser descartada pelo fato de que o médico que receitou o lisol continuou a ser o principal médico de Mao.

Uma circular oficial restrita, datada de 7 de julho de 1948, e outros documentos médicos reconheceram esse “acidente médico”, mas fizeram da farmacêutica o bode expiatório. Em setembro de 1998, uma amiga da farmacêutica telefonou para ela em nosso nome. Depois dos cumprimentos, a colega disse: “Tenho uma escritora aqui e ela gostaria de conversar com você sobre o enema”. Diante dessa pergunta súbita, a farmacêutica respondeu sem um segundo de hesitação ou desconcerto: “Não sei, não sei”.

“Que medicamento você deu?”

“Não sei que medicamento eu dei. Esqueci.”

Parece que, pelos últimos cinquenta anos, a questão permaneceu viva na mente da farmacêutica.