Mao: a história desconhecida
23. A montagem de uma base de poder mediante terror
23. A montagem de uma base
de poder mediante terror
(1941-45; 47-51 anos)
Em 22 de junho de 1941, a Alemanha invadiu a União Soviética. Esse evento alterou radicalmente os cálculos de Mao. A Rússia soviética era sua patrocinadora e sua esperança; era improvável que, se ficasse seriamente enfraquecida — ou desviada para
outra frente —, lhe oferecesse muita ajuda. Mao não dormiu por vários dias. a
Para começar, não havia agora nenhuma chance de a Rússia intervir e salvá-lo, caso a luta contra as tropas de Chiang se tornasse perigosa. Mao suspendeu imediatamente os ataques. “Parem todos os ataques a todas as unidades nacionalistas”, ordenou aos seus exércitos.
A autopreservação dominou sua relação com uma Rússia debilitada. Em consequência da invasão alemã, Moscou queria que o PCC se comprometesse a enfrentar militarmente as tropas japonesas, caso o Japão atacasse a União Soviética. O pesadelo de Stálin era um gigantesco ataque em pinça do Japão no Oriente, coordenado com um ataque de Hitler no Ocidente. Moscou perguntou a Mao: quantos soldados japoneses o PCC poderia “desviar” se isso acontecesse? Para estimular Mao a agir, Dimítrov telegrafou em 7 de julho, dizendo que estava mandando 1 milhão de dólares em prestações. Dois dias depois, o Comintern ordenou que o PCC traçasse “medidas concretas”.
A maior parte dos colegas de Mao achava que eles deveriam fazer alguma coisa se o Japão invadisse a União Soviética. O normalmente circunspecto Liu Shao-chi escreveu a Mao que, se o Japão atacasse a Rússia, o PCC deveria lançar ofensivas para segurar as forças japonesas. Mao, porém, estava decidido a não arriscar tropas em nenhuma circunstância. Em 18 de julho, disse a Liu que, se o Japão atacasse a Rússia (o que, ele afirmara em 2 de julho, era “extremamente provável”), “não é boa ideia [...] empreender ações de grande escala [...] nossos exércitos são fracos. A ação causará inevitavelmente danos irreparáveis”. Sua posição era deixar que os russos se encarregassem da luta: “Tudo depende da vitória da União Soviética”.
Mao expôs isso a Peng De-huai, o comandante do 8 o Exército de Marcha. Qualquer coordenação com os russos deveria ser puramente “estratégica [isto é, apenas nominal] e de longo prazo — não em batalhas”. Aos soldados, ele advertiu várias vezes: “Não perturbem excessivamente o inimigo [japonês]”.
Para Moscou, Mao objetou que suas forças eram demasiado fracas para serem levadas em conta: “Nossos recursos humanos e materiais [estão diminuindo], as regiões de operação [estão se contraindo], a munição está acabando — e a situação está se tornando mais difícil dia a dia”. Se seu exército agisse, argumentava ele, “há uma possibilidade de que sejamos derrotados e não possamos defender nossas bases partidárias por muito tempo [...] Tal ação não será boa para nenhum de nós”. Ele disse a Moscou que não esperasse muito: “Se o Japão atacar a União Soviética, nossas capacidades em termos de operações militares coordenadas não serão grandes”.
Mao praticamente admitiu que seu exército não vinha lutando contra os japoneses e que não começaria a fazê-lo agora. Pouco tempo antes, ele informara a Moscou que tinha um exército enorme, com 329 899 homens apenas no 8EM; agora, dizia que suas tropas mal podiam disparar um tiro.
Stálin em pessoa lhe telegrafou várias vezes para pedir que mantivesse os japoneses ocupados, quando os alemães estavam nas portas de Moscou, no final de 1941, e imediatamente antes da batalha de Stalingrado, em julho de 1942 — em vão. A recusa de Mao enfureceu Moscou e ele irritou ainda mais seus patrocinadores ao aconselhá-los a recuar para os Urais e travar uma guerra de guerrilhas. Alguns russos afirmam que seu comportamento foi também motivado por falta de confiança na União Soviética e até (segundo o general Tchuikov) pelo desejo de explorar o ataque de Hitler para suplantar a Rússia. Circulou o rumor que Mao teria dito: “Stálin não consegue vencer Hitler” e “O socialismo de 24 anos não pode competir com o fascismo de oito anos”.
Anos mais tarde, perguntaram a Mólotov: “Nós sabíamos [o que Mao estava fazendo a nós] e ainda assim o ajudamos?”. Mólotov respondeu num resmungo: “Certo. Sim, sim. Eu sei que é difícil entender. Mas você não deve olhar as coisas de um jeito tão rígido. Nós passamos a impressão de ser bobos, mas, na minha opinião, não fomos bobos”.
Com efeito, embora estivessem às turras, Stálin e Mao compreendiam um ao outro muito bem. Sua relação baseava-se no autointeresse brutal e no uso mútuo, além de compartilharem os mesmos objetivos de longo prazo. Por mais que os atos de Mao desagradassem ao Kremlin, Stálin, em nenhum momento, deixou de tratar com ele.
Sem luta contra os japoneses ou os nacionalistas e com a Rússia em dificuldades e sem condições de intervir, Mao aproveitou a oportunidade para fazer um trabalho interno no partido e transformá-lo numa máquina inquestionável, em preparação para a futura guerra total contra Chiang Kai-shek.
No final de 1941, o número de filiados ao partido já estava em torno de 700 mil. Mais de 90% eram pessoas que haviam entrado a partir do começo da guerra contra o Japão e muitos eram jovens entusiastas que tinham passado de áreas nacionalistas para as bases comunistas. Esses jovens voluntários eram vitais para Mao por serem relativamente bem instruídos, e ele precisava de administradores competentes para seu futuro regime. A maioria dos participantes da Longa Marcha e dos recrutas da zona rural de dentro das bases comunistas era de camponeses analfabetos. Os voluntários jovens eram o alvo de Mao.
Quase todos esses voluntários haviam entrado para o PCC no final dos anos 1930, quando o sentimento da classe média mais jovem se inclinou significativamente para a esquerda. Foi uma época em que a União Soviética era a principal — e praticamente única — aliada e fornecedora de armas contra o Japão. A boa vontade em relação à Rússia estendeu-se ao PCC. Muitos achavam que os comunistas chineses estavam realmente dedicados a combater os japoneses.
Havia também um desencanto disseminado com os nacionalistas, considerados incapazes de erradicar a pobreza e a injustiça dominantes no país. As atrocidades do PCC anteriores à Longa Marcha eram desconhecidas, ou haviam sido esquecidas, ou ainda desconsideradas como propaganda nacionalista. Alguns também acreditavam no partido quando ele proclamava que havia mudado e abandonado suas velhas políticas. E, durante algum tempo, o comportamento dos comunistas pareceu realmente confirmar essa mudança. Muitos estrangeiros e até alguns missionários aceitaram as alegações vermelhas. O infiltrado Shao Li-tzu, supervisor da mídia nacionalista durante o período crucial de 1937-38, fez muito para apagar o passado sangrento do PCC e projetar uma imagem benigna dos comunistas. O mesmo fez Edgar Snow com Estrela vermelha sobre a China. Mao repetia assiduamente que os comunistas haviam sido caluniados. O PCC “sempre foi bonito”, disse a um grupo de novos voluntários que chegou a Yenan; “o problema é que foi mal pintado”.
Um grande número dos jovens voluntários congregou-se em Yenan, a capital de Mao. Quando ele começou o esforço de condicioná-los, eram cerca de 40 mil. A maioria era composta por pessoas entre a adolescência e os vinte e poucos anos, que haviam entrado para o partido nas áreas nacionalistas e depois tinham sido enviadas para Yenan.
Estavam tremendamente excitados quando puseram os pés pela primeira vez no que havia sido retratado como uma meca revolucionária. Um jovem voluntário descreveu seus sentimentos ao chegar: “Finalmente, vimos as alturas da cidade de Yenan. Estávamos tão excitados que choramos. Saudamos de nosso caminhão [...] Começamos a cantar ‘A Internacional’ e a ‘Marcha da Pátria da Rússia’”.
Os recém-chegados, escreveu ele, “realmente invejavam os uniformes acolchoados, fedorentos, sujos e rotos [dos veteranos]. Eles achavam tudo diferente, excitante e misterioso”.
Em grande parte, foram matriculados em várias “escolas” e “institutos” para serem treinados — e doutrinados. Mas a maioria logo se desiludiu. A maior decepção dizia respeito à igualdade, cerne do idealismo deles, que não só estava totalmente ausente como era manifestamente rejeitada pelo regime. Desigualdade e privilégio eram ubíquos. Cada organização tinha três níveis diferentes de cozinha. A mais baixa recebia cerca de metade da quantidade de carne e óleo alocada às fileiras intermediárias, enquanto a elite ganhava muito mais. Os altos líderes recebiam alimentos nutritivos especiais.
O mesmo acontecia com as roupas. O algodão produzido localmente era grosseiro e desconfortável, então importavam algodão mais macio para os quadros mais antigos. Por fora, Mao se vestia como os outros, mas sua roupa de baixo era feita de material fino, como nos contou uma empregada que lavava e remendava suas roupas. Essa criada não estava qualificada para receber qualquer roupa de baixo ou meias e, em consequência, vivia resfriada. Artigos como tabaco, velas e papel para escrever eram igualmente distribuídos conforme a hierarquia.
Os filhos dos altos líderes eram mandados para a Rússia ou tinham babás. As esposas dos quadros mais graduados podiam esperar dar à luz em um hospital e depois ter uma enfermeira pessoal durante algum tempo. Os funcionários dos escalões seguintes podiam mandar os filhos para uma creche de elite. O número relativamente pequeno de comunistas comuns que eram casados tendia a não ter filhos, ou precisava enfrentar dificuldades caso os tivesse.
As condições espartanas e a má alimentação provocavam muitas doenças, mas somente os altos funcionários tinham acesso aos escassos remédios, importados especialmente das áreas nacionalistas. Mao tinha um médico pessoal vindo dos Estados Unidos, George Hatem, bem como doutores russos. Quando precisava de algo — ou alguém (como um fisioterapeuta) —, pedia a Moscou, ou a Chou En-lai, em Chongqing. Os quadros mais graduados recebiam tratamento hospitalar especial e ninguém podia entrar no hospital sem autorização de sua unidade de trabalho. A comida era hierarquizada também nos hospitais.
No início da guerra sino-japonesa, havia uma equipe da Cruz Vermelha em Yenan, enviada pelos nacionalistas. Ela tratava dos moradores locais, além dos comunistas. Mas o regime resolveu mandá-la embora. Espalhou-se o rumor de que seus medicamentos eram venenosos e que fora “enviada pelos nacionalistas para assassinar nossos camaradas! E para envenenar nossa água potável, para espalhar germes!”. A maior parte da equipe partiu logo. O resto foi forçado a ficar, principalmente para cuidar da elite comunista.
O símbolo máximo do privilégio em Yenan era muito visível: o único carro — na verdade, uma ambulância —, que fora um presente dos trabalhadores de lavanderias chinesas de Nova York para transportar feridos de guerra. Mas ela jamais transportou um soldado ferido. Mao a “privatizou”. Ela transportava também seus convidados, como Edgar Snow em 1939. Snow foi blasé em relação a isso: “Então essa foi a extravagância de Mao que havia chocado meu amigo missionário”, escreveu, afirmando que se tratava de um de “vários desses presentes de lavanderias [que] se acumularam em Yenan, onde às vezes eram usados para transportar vítimas civis de ataques aéreos para hospitais das proximidades”. Na verdade, era o único carro e jamais carregou algum civil ferido — e era conhecido, apropriadamente, como o “carro do presidente Mao”. Até as pessoas próximas do topo achavam que madame Sun Yat-sen tinha dado o carro a ele “para seu uso pessoal”.
Muitos voluntários ficaram extremamente desiludidos. Um jovem viu Mao no carro na primavera de 1939, dirigindo com sua esposa, que vestia “uma roupa primaveril vermelho-escura. Ela e Mao Tse-tung passaram rapidamente, chamando muita atenção, e os transeuntes olharam de esguelha para o casal”.
Mao tinha plena consciência de que seus privilégios eram uma questão sensível. Um dia, uma partidária antiga foi jantar com ele. Depois, Mao a convidou para voltar sempre, e ela falou sem pensar: “Então virei todos os domingos para ganhar uma boa refeição!”. Ela notou que “o sorriso do presidente congelou e ele pareceu um pouco constrangido. Percebi que havia dito a coisa errada”.
O partido tentou defender o privilégio: “Não são os camaradas líderes que pedem privilégios”, explicou um importante ideólogo. “É a ordem do partido. Vejam o camarada Mao, por exemplo: o partido pode mandá-lo comer um frango por dia.”
Esse sofisma não acabou com o descontentamento difuso. Uma piada da época dizia: “Em Yenan, somente três coisas são iguais para todos: o sol, o ar e os banheiros”. O sistema de privilégios estendeu-se até para o grupo de comunistas e prisioneiros de guerra japoneses. O único que tinha permissão oficial para ter sexo era o líder deles, Sanzo Nosaka. “Mao queria mantê-lo de bom humor”, explicou-nos um ex-prisioneiro de guerra japonês em Yenan, “então deu-lhe uma camarada mulher para fazer-lhe companhia [...] não nos queixamos — não abertamente —, as pessoas tinham queixas, mas as guardavam para si mesmas.”
Por mais desiludidos que ficassem, os jovens voluntários se davam conta de que não podiam deixar Yenan: a tentativa de ir embora era tratada como deserção, com probabilidade de execução. A região de Yenan era dirigida como um presídio. O resto da China, inclusive as outras bases comunistas, era chamado de “o Exterior”. Um voluntário descreveu uma cena que testemunhou em um hospital. “Não estamos doentes, por que nos mandam para cá?”, gritavam dois homens. Seus sotaques indicavam que eram participantes da Longa Marcha oriundos de Jiangxi. Eles resistiam e foram derrubados por homens armados.
“Pedimos para sair a fim de ir para casa ver nossas famílias, mas simplesmente não conseguimos permissão. Eles insistiram em que somos loucos e nos mandaram para cá.”
Os homens usavam a medalha dos veteranos da Longa Marcha. Um quadro disse: “Camaradas, por favor, lembrem-se de sua gloriosa história revolucionária!”.
“Estamos cansados de usar esta coisa. Fomos mortos e feridos muitas vezes. Tudo o que ganhamos foi ver os outros se tornarem oficiais e ter coisas boas para comer e vestir. O que sobrou para nós? É melhor ir para casa e trabalhar na terra.”
“Ah, parece que vocês não estão loucos. Estão apenas vacilando em sua postura revolucionária.”
A testemunha notou que “entre os quadros em Yenan, velhos e novos, a saudade de casa era comum”. Quadros de origem camponesa “frequentemente pediam sem rodeios para ir para casa e eram detidos por seus superiores. Alguns tentavam fugir e, se fossem capturados, eram executados de imediato. Os instruídos eram muito mais espertos. Eles não diziam que queriam ir para casa, mas inventavam alguma história e pediam para o partido transferi-los para fora”.
A fuga era mais fácil para os soldados que estavam na fronteira da região, e a taxa de deserção era colossal. O objetivo de uma única brigada, em 29 de setembro de 1943, foi capturar mil de seus próprios desertores. Mas, no centro da área comunista, a fuga era praticamente impossível e a maioria dos jovens voluntários simplesmente se obrigava a ficar.
Essas eram as pessoas das quais Mao dependia para sua futura base de poder. E, para esse fim, elas eram claramente um material ruim. Haviam vindo para Yenan atrás de um sonho. Para fazê-las lutar pelo PCC real, Mao teria de mudá-las profundamente, remodelá-las. Ele iniciou esse enorme projeto de engenharia humana a partir do início
de 1942. b O primeiro passo foi atacar o defensor dos jovens voluntários, um escritor de 35 anos chamado Wang Shi-wei, um comunista dedicado que traduzira Engels e Trótski. Um ensaio dele chamado “Lírios silvestres”, publicado no Diário da Libertação, principal jornal de Yenan, chamou a atenção de Mao. Em sua primeira parte, datada de 13 de março, Shi-wei escreveu:
Os jovens de Yenan parecem ter perdido energia em sua vida ultimamente e parecem ter descontentamento
em seus estômagos. Por quê? O que falta em nossas vidas? Alguns podem responder: falta-nos nutrição,
faltam-nos vitaminas [...] Outros dizem: a proporção homem-mulher em Yenan é de 18 para 1 e muitos jovens
não conseguem encontrar esposas [...] Outros ainda dirão: a vida em Yenan é monótona demais, chata demais
[...]
Essas respostas não são desarrazoadas. Mas [...] os jovens [...] vieram para cá para estar numa revolução, e
estão dedicados ao autossacrifício. Eles não vieram buscar as satisfações de comida, sexo ou os prazeres da
vida.
O que havia destruído seus sonhos, dizia ele, era o privilégio institucionalizado, acompanhado de arbitrariedade e arrogância. Ele citava uma conversa que escutara entre duas jovens mulheres sobre seus chefes:
“Ele sempre acusa você de igualitarismo pequeno-burguês. Mas ele mesmo [...] só procura seus próprios
privilégios [...] e é completamente indiferente aos camaradas sob sua responsabilidade [...]!”
“Todas belas palavras — amizade e simpatia de classe. E tudo se resume a — peidar! Eles não têm nem
mesmo uma sensibilidade humana elementar! [...] Existem muito poucos quadros que realmente se
preocupam conosco.”
Na segunda parte do artigo, publicada dez dias depois, Shi-wei aguçou suas críticas:
Alguns dizem que não há sistema de hierarquia e privilégio em Yenan. Isso não é verdade. Ele existe. Outros
dizem: sim, existe, mas é justificado. Isso exige que pensemos com nossa própria cabeça.
Shi-wei estava pedindo que as pessoas pensassem por elas mesmas. Além disso, seus argumentos eram razoáveis e eloquentes:
Não sou um igualitário. Mas não acho necessário ou justificado ter múltiplos graus em comida ou vestuário
[...] Se, enquanto os doentes não podem ter nenhum gole de sopa de macarrão [...] alguns figurões bem
saudáveis se entregam a mordomias extremamente desnecessárias e injustificadas, os baixos escalões serão
alienados [...]
Quando leu isso, Mao bateu com o jornal na mesa e perguntou, irado: “Quem manda aqui? Wang Shi-wei ou o marxismo?”. Pegou o telefone e ordenou uma mudança drástica no Diário da Libertação.
Shi-wei expôs algumas ideias ainda mais afiadas num cartaz de muro. Mao vinha tolerando essas manifestações como uma válvula de escape para os jovens intelectuais. Os cartazes tinham a vantagem (para ele) de ter uma plateia restrita — e eram facilmente rasgados ou apagados. O cartaz de Shi-wei proclamava: “Deve-se estabelecer justiça no partido. A injustiça deve ser suprimida [...] Perguntem-se, camaradas [...] Estão com medo de dizer aos ‘figurões’ o que pensam [...]? Ou vocês são do tipo que é bom na perseguição do ‘pequeno homem’ com crimes fabricados?”. Shi-wei ia muito além da questão do privilégio, ia ao coração das trevas do partido.
O cartaz com as palavras de Shi-wei foi colocado do lado de fora do Portão Sul, o lugar mais movimentado da cidade. As pessoas acorriam aos magotes para ler essas poucas frases, que articulavam o que muitos queriam dizer, mas não ousavam. Shi-wei tornou-se um herói.
Uma noite, Mao atravessou o rio para ler o cartaz à luz de um lampião. Viu a multidão ansiosa e registrou a enorme popularidade de Shi-wei. E disse de imediato: “Agora tenho um alvo”. Mais tarde, queixou-se: “Muita gente veio de muito longe para ler esse artigo. Mas ninguém quer ler o meu!”. “Wang Shi-wei era o rei e senhor [...] ele estava no comando em Yenan [...] e nós estávamos derrotados.”
Mao decidiu condenar Shi-wei como forma de amedrontar seus simpatizantes, os jovens voluntários. Como não podia atacar de frente os argumentos de Shi-wei, denunciou-o como trotskista. Algumas observações que Shi-wei fizera em privado sobre Trótski e Stálin foram tornadas públicas. Ele dissera que Trótski era “um gênio”, enquanto Stálin era “uma pessoa detestável” que havia “criado males incontáveis e incontados” nos expurgos. Descreveu os Processos de Moscou como “duvidosos”. Shi-wei foi mandado para a prisão e passou os últimos anos de sua curta vida numa solitária, onde foi submetido à pressão esmagadora. Em 1944, quando alguns jornalistas das áreas nacionalistas tiveram permissão para entrar em Yenan, ele foi levado de cadeira de rodas para encontrá-los e fazer uma confissão robótica. “Ele repetiu várias vezes: ‘Sou um trotskista. Ataquei Mao. Mereço ser executado [...] Mas Mao é tão magnânimo [...] Sou extremamente grato por sua misericórdia’.” Um repórter observou: “Quando ele mencionou seu ‘erros’ passados, sua expressão era severa a ponto de assustar [...] Pelo que pude observar, sua mente havia sido muito perturbada”.
Seu interrogador revelou depois o pano de fundo: “Ele falou o que lhe disseram para falar. É claro que não tinha opção. Depois, deitou-se na cama com grande angústia. Fechou os punhos e mostrou extrema amargura”. Quando os comunistas evacuaram Yenan, em 1947, ele foi levado junto — e executado no caminho. Uma noite, foi retalhado até a morte e jogado num poço seco. Tinha 41 anos.
Depois que Mao designou Shi-wei como seu alvo principal, realizaram-se reuniões durante o resto de 1942, nas quais os jovens voluntários receberam ordens para denunciá-lo. Mao notou que havia muita resistência. Eles não estavam suficientemente amedrontados. Era preciso encontrar uma outra maneira de aterrorizá-los.
Então Mao e seu chefe da KGB Kang Sheng inventaram uma acusação genérica: que a vasta maioria das organizações comunistas nas áreas nacionalistas eram redes de espionagem que trabalhavam para Chiang Kai-shek. Essa alegação transformou praticamente todos os jovens voluntários em suspeitos, porque ou haviam pertencido a uma dessas organizações, ou tinham ido para Yenan sob seu patrocínio. Para sustentar essa acusação, houve uma única “prova” — a confissão de um voluntário de dezenove anos que fora privado de dormir e “trabalhado” pelas forças de segurança durante sete dias e sete noites, ao final dos quais falou o que lhe disseram para falar.
Ao exibir essa acusação, Mao encontrou uma maneira de colocar todos os jovens voluntários em Yenan em uma forma ou outra de confinamento para “peneirá-los”, a partir de abril de 1943. Milhares foram detidos e jogados em cavernas-prisões recentemente escavadas nas encostas de loess. Somente em uma delas, na ravina que ficava atrás do Jardim das Tâmaras — sítio da KGB chinesa e onde também vivia Mao —, cavaram-se celas para mais de 3 mil prisioneiros. A maior parte dos remanescentes ficou detida em suas próprias instituições, que se tornaram prisões virtuais, trancadas e patrulhadas por guardas. Segundo ordens de Mao, cada organização deveria “pôr sentinelas e impor toque de recolher. Proibir visitas e a liberdade de movimento de saída e entrada”. A função de carcereiros e interrogadores foi entregue àqueles que, em cada instituição, não fossem suspeitos. Eram principalmente pessoas que não vinham das áreas nacionalistas, que constituíam amiúde uma minoria do pessoal, às vezes não chegando a 10% ou 20% da instituição.
A transformação das organizações comuns em prisões virtuais foi uma inovação significativa de Mao, que ele aplicaria durante todo o seu regime. Nisso, ele foi mais longe do que qualquer coisa que Hitler ou Stálin tenham criado: converteu os colegas das pessoas em seus carcereiros, ambos vivendo no mesmo lugar (na China comunista, o local de trabalho e o local de moradia eram muitas vezes o mesmo). Desse modo, Mao não somente enfiou uma imensa cunha entre pessoas que trabalhavam e viviam lado a lado, como aumentou muito o número de envolvidos diretamente na repressão, inclusive tortura, tornando a órbita bem mais ampla do que Stálin ou Hitler, que usavam, em geral, elites secretas (KGB, Gestapo) para manter suas vítimas em locais separados e fora da visão.
No encarceramento, os jovens voluntários sofreram pressões tremendas para confessar que eram espiões e denunciar os outros, não com o objetivo de encontrar realmente espiões, mas para provocar o terror. A verdadeira caça aos espiões era feita em segredo durante todo o tempo pelas forças de segurança, com a utilização de métodos convencionais. Dos verdadeiros suspeitos, “cuidava-se sem fazer alarde”, nos contou Shi Zhe, assistente de segurança de Mao, o que significava muitas vezes uma execução
rápida, secreta e silenciosa. c
A falsa caça aos espiões criou a desculpa para a tortura. A privação do sono era a técnica básica, que às vezes durava até duas semanas. Havia também torturas antiquadas como o açoitamento, pendura pelos pulsos e o “banco de tigre”, em que a pessoa fica muito tempo amarrada a um banco de metal e tem os pés elevados, bem como tormentos psicológicos — da ameaça de pôr serpentes venenosas na caverna à simulação de execução. À noite, no silêncio dos morros, de dentro das fileiras de cavernas se espalhavam gritos de dor dilacerante que chegavam aos ouvidos de quase todos que viviam em Yenan.
Mao deu pessoalmente instruções sobre tortura (que o regime chamava pelo eufemismo de bi-gong-xin, que significa usar “força” para produzir uma “confissão” que proporciona então “prova confiável”): “Não é bom corrigi-la cedo demais ou tarde demais”, decretou ele em 15 de agosto de 1943. “Cedo demais [...] a campanha não pode se desenvolver adequadamente; e tarde demais [...] o dano [às vítimas da tortura] será demasiado profundo. Então, o princípio deve ser observar meticulosamente e corrigir no momento apropriado”. Mao queria que suas vítimas estivessem em suficiente boa forma para servirem aos seus propósitos.
Durante meses, a vida em Yenan centrou-se em interrogatórios e aterrorizantes comícios de massa, nos quais alguns jovens voluntários eram forçados a confessar que eram espiões e a denunciar os outros diante de grandes multidões frenéticas. As pessoas denunciadas eram então arrastadas para a plataforma e pressionadas a admitir sua culpa. Os que insistiam na inocência eram amarrados e levados para a prisão; alguns sofriam uma falsa execução, em meio à histeria de slogans gritados. O medo gerado por essas assembleias era insuportável. Um colega íntimo de Mao observou que, na época, os comícios eram “uma guerra de nervos extremamente grave. Para algumas pessoas, eles são mais devastadores do que qualquer tipo de tortura”.
Fora dos interrogatórios e comícios, as pessoas eram espancadas em reuniões de
doutrinação. d Todas as formas de relaxamento, como cantar e dançar, estavam suspensas. Os únicos momentos passados a sós também não propiciavam paz, pois eram consumidos na escrita de “exames de consciência”, prática conhecida até então somente no Japão fascista. “Façam todos escreverem seus exames de consciência”, ordenou Mao, “e escreverem três vezes, cinco vezes, de novo e de novo [...] Digam a todos para botar para fora cada pensamento que alguma vez nutriram que não é tão bom para o partido.” Além disso, todos deveriam pôr no papel informações passadas não oficialmente por outras pessoas — chamadas de “pequenas transmissões” pelo regime. “Você tinha de escrever o que X ou Y disse”, contou-nos um veterano de Yenan, “assim como o que você mesmo havia dito que supostamente não era tão bom. Era preciso remexer na memória sem parar e escrever sem parar. Era muito repulsivo.” Os critérios do que seria “não tão bom” eram mantidos vagos deliberadamente, para que as pessoas, por medo, errassem pelo excesso.
Muitos tentaram resistir. Mas qualquer sinal de resistência era considerado “prova” de que o indivíduo era um espião, sob o pretexto especioso de que “se você é inocente, não deve haver nada que não possa ser relatado ao partido”. O conceito de privacidade não podia ser evocado, porque o bom comunista tinha de rejeitar o privado. Um homem da faculdade de administração, lugar onde a aversão era mais patente, tomou a pequena mas corajosa medida de protestar com um gracejo que provocou risadinhas: “Temos de escrever o que conversamos à noite na cama com nossas mulheres?”. Naturalmente, “descobriu-se” que ele e muitos outros à sua volta eram espiões. “Afora uma pessoa, todos os professores e funcionários são espiões” nessa faculdade, anunciou Mao em 8 de agosto de 1943, e “muitos dos estudantes também são espiões, provavelmente mais da metade”. Sob esse tipo de pressão, um homem escreveu não menos de oitocentos temas de conversa numa tentativa frenética de se livrar.
Ao forçar as pessoas a relatar “pequenas transmissões”, Mao conseguiu, em grande medida, fazer com que elas dessem informações umas sobre as outras. Assim, rompeu a confiança entre elas e impediu-as, pelo medo, de trocar opiniões, não somente na época de Yenan, mas também no futuro. Ao suprimir as “pequenas transmissões”, ele também fechou o que era praticamente a única fonte não oficial de informações, em um contexto no qual ele controlava de fato todos os outros canais. A imprensa de fora não estava disponível e ninguém tinha acesso ao rádio. Também não era possível manter correspondência com o mundo exterior, inclusive familiares: qualquer comunicação de uma área nacionalista era prova de espionagem. A míngua de informação provocava aos poucos a morte cerebral — ajudada pela ausência de qualquer escoadouro para o pensamento, uma vez que ninguém podia se comunicar com ninguém, ou colocar suas ideias no papel, mesmo em particular. Durante a campanha, as pessoas foram pressionadas a entregar seus diários. Em muitas mentes, espreitava o medo de pensar, que parecia não apenas inútil, mas perigoso. O pensamento independente feneceu.
Dois anos desse tipo de doutrinação e terror transformaram os jovens voluntários de defensores apaixonados da justiça e da igualdade em robôs. Em junho de 1944, quando jornalistas de fora tiveram licença, pela primeira vez em muitos anos, para entrar em Yenan, um correspondente de Chongqing observou uma uniformidade estranha e sinistra: “Se você faz a mesma pergunta a vinte ou trinta pessoas, de intelectuais a operários, [sobre qualquer tema], suas respostas são sempre mais ou menos as mesmas [...] Até em questões de amor, parece haver um ponto de vista que foi decidido em reuniões”. E, é claro, “eles negam unânime e firmemente que o partido tenha qualquer controle direto sobre suas ideias”.
O jornalista sentiu-se “sufocado” pelo “ar de intensidade nervosa”. “A maioria das pessoas”, observou ele, “tem rosto muito sério e expressão grave. Entre os grandes chefes, afora o sr. Mao Tse-tung, que mostra com frequência senso de humor, e o sr. Chou En-lai, que é muito bom de conversa, os outros raramente fazem uma piada.” Helen Snow, esposa de Edgar Snow, nos contou que em 1937, quando estava em Yenan, as pessoas ainda podiam dizer coisas como “lá vai Deus” pelas costas de Mao. Mas, sete anos depois, ninguém ousava dizer algo remotamente irreverente como essa expressão. Mao não havia apenas proibido a ironia e a sátira (oficialmente, desde a primavera de 1942), como transformara em crime o próprio humor. O regime inventou uma nova transgressão genérica — “falar palavras esquisitas” —, pela qual qualquer coisa, do ceticismo à reclamação e ao simples gracejo, podia provocar o rótulo de espião.
Mao decidira que não queria a cooperação ativa e voluntária (a boa vontade, afinal, podia acabar). Ele não queria voluntários. Precisava de uma máquina na qual, quando apertasse um botão, todas as engrenagens funcionassem em uníssono. E conseguiu.
No início de 1944, a Rússia já estava na ofensiva contra a Alemanha e Mao podia confiar que os soviéticos entrariam na guerra contra o Japão. Depois que esse invasor fosse derrotado, ele precisaria de quadros para combater Chiang Kai-shek, e então começou a abrandar o terror.
As vítimas continuaram trancadas, vivendo ainda na incerteza e no tormento, enquanto as forças de segurança começavam a examinar seus casos, para ver se havia alguns verdadeiros suspeitos de espionagem no meio da montanha de confissões sob coação — um processo que foi previsivelmente longo e lento. Mas de uma coisa o aparato de segurança tinha certeza desde o começo: que os verdadeiros espiões eram muito menos de 1% dos jovens voluntários.
Na época, Mao ordenou que outras bases comunistas começassem a caça aos espiões, reproduzindo o modelo de Yenan. Ele as advertiu especificamente para que não procedessem ao exame de casos individuais só porque Yenan estava agindo dessa maneira. Todos deviam passar pelo ciclo completo da aterrorização. Para estimulá-las a deflagrar o mesmo tipo de frenesi ocorrido em Yenan, Mao inflou a estimativa de sua KGB da proporção de suspeitos de espionagem de 1% para 10%, afirmando, falsamente, que Yenan descobrira uma pletora de espiões por meio desse método.
Foi somente depois de mais um ano decorrido, na primavera de 1945, que Mao ordenou uma reabilitação em massa das vítimas. Então, já sabia que a Rússia entraria na guerra contra o Japão; logo ele estaria lutando pelo controle de toda a China e precisava rapidamente de quadros.
Os jovens voluntários, que somavam muitas dezenas de milhares apenas em Yenan, haviam atravessado um inferno de confusão mental e angústia. Houve muitos colapsos, alguns para o resto da vida. As pessoas que sobreviveram a Yenan lembram de ter visto cavernas cheias de pessoas, “muitas das quais haviam enlouquecido. Algumas riam loucamente, algumas choravam”, dando “gritos e uivos como lobos todas as noites”.
O número dos que pereceram pode ter chegado aos milhares. Para muitos, o suicídio era a única maneira de acabar com seu calvário. Alguns saltavam de penhascos, outros em poços. Os que tinham esposa e filhos muitas vezes os matavam primeiro. Tentativas repetidas de suicídio eram comuns: um professor de física fracassou quando engoliu cabeças de fósforos (que eram venenosas), depois se enforcou, com sucesso. Os sobreviventes dessas tentativas eram perseguidos sem misericórdia. Um deles, que engolira vidro quebrado, foi salvo e recebeu ordem imediata de “escrever uma autocrítica”.
Às vezes, o suicídio era usado como forma de protesto. Em um caso, foi um protesto duplo: quando um detido se jogou de um penhasco, seus colegas de classe o enterraram na frente da casa de seus interrogadores, um dos quais registrou o alcance do gesto: o fantasma voltará para assombrá-lo!
Em março de 1945, um funcionário escreveu uma carta aos líderes, em que dizia que os jovens voluntários haviam recebido “um pesado golpe em seu entusiasmo revolucionário [...] os ferimentos abertos em suas mentes e corações são realmente profundos”. Mesmo assim, Mao confiava que poderia contar com esses indivíduos. Por mais infelizes que estivessem, estavam amarrados à organização comunista e era extremamente difícil para eles ir embora, tanto psicológica como fisicamente. Na ausência de opções, muitos apegaram-se à sua fé, o que tornava mais fácil racionalizar o sacrifício. Mao explorou devidamente esse idealismo, convencendo-os a aceitar os maus-tratos como parte de “Servir ao Povo” (uma expressão vistosa que cunhou então e que depois ganhou fama) e como uma experiência nobre, uma limpeza da alma para levar a cabo a missão de salvar a China.
Para desfazer a amargura que havia em muitos corações, Mao encenou algumas “desculpas” públicas na primavera de 1945, antes de mandar suas vítimas para a frente de batalha contra Chiang Kai-shek. O que ele fez foi tirar o boné e se inclinar para saudar sua plateia. Mas tomou o cuidado de apresentar suas desculpas como se assumindo generosamente a responsabilidade pelos outros (“Em nome do centro, peço desculpas...”) e espalhar a culpa — até mesmo para as próprias vítimas. “Toda Yenan cometeu erros”, asseverou. “A intenção era dar-lhes um belo banho, mas foi posto demasiado permanganato de potássio [usado para matar piolhos] e a pele delicada de vocês foi ferida.” Esta última observação dizia implicitamente que as vítimas haviam sido mimadas demais e se feriam com facilidade. Os sofismas saíam com facilidade dos lábios de Mao: “Estávamos lutando contra o inimigo no escuro e assim ferimos nossa própria gente”. Ou mesmo: “Foi como um pai batendo nos filhos. Então, por favor, não guardem rancor”. “Por favor, levantem-se, sacudam a lama de suas roupas e lutem.”
Em tais momentos, as plateias costumavam verter lágrimas, lágrimas que eram uma mistura de resignação e alívio. A maioria continuou lutando por um sistema que os havia cruelmente enganado. Depois que ajudassem Mao a tomar o poder, eles funcionariam como parte da máquina que moeu toda a população da China. Mao não montou essa máquina com inspiração ou magnetismo, mas fundamentalmente com terror.
Durante o que pode ser chamado de Terror de Yenan, todo o partido foi tratado com violência, até aqueles membros que não se tornaram vítimas totais. Eles eram invariavelmente coagidos a denunciar os outros — colegas, amigos, até cônjuges —, o que provocava traumas duradouros, tanto nas vítimas como neles próprios. Todos os que compareciam a comícios testemunhavam eventos assustadores que envolviam pessoas que conheciam, e eles viviam com medo de que pudessem ser as próximas vítimas. A implacável invasão da privacidade, com a obrigação de escrever infindáveis “exames de consciência”, causava ainda mais tensão. Mao diria uma década depois que não deixara sua marca em apenas 80% do partido — “na verdade, foi em 100%, e pela força também”.
Mao tinha agora em suas mãos uma ferramenta formidável para usar contra Chiang Kai-shek. Uma realização suprema da campanha de terror foi arrancar cada gota de informação sobre qualquer ligação porventura existente com os nacionalistas. Mao introduziu um modelo especial de “relação social”: “Digam a todos para pôr no papel todas as relações sociais de qualquer tipo” (grifo nosso). No final da campanha, o regime compilou um dossiê sobre cada membro do partido. O resultado foi que Mao conhecia todos os canais que os nacionalistas poderiam usar para se infiltrar no futuro confronto. Com efeito, durante a guerra civil, enquanto os nacionalistas foram penetrados como peneira, eles tiveram um sucesso quase nulo na infiltração entre os comunistas. Mao forjara uma máquina que era praticamente impermeável.
Ele preparou também uma força antinacionalista “sem perguntas”, fomentando o ódio a Chiang. Quando a maioria dos jovens voluntários se alistou, o PCC não estava em guerra com os nacionalistas e muitos não odiavam Chiang do modo como Mao desejava. Como ele disse, “algumas pessoas acham que o Partido Nacionalista é muito bom, muito bonito”. Um funcionário graduado observou na época que “os novos quadros nutrem ilusões muito grandes sobre Chiang, enquanto os velhos quadros enfraqueceram seu ódio de classe” pelo Generalíssimo. Chiang era o líder indiscutível da guerra da China contra o Japão. Foi ele que fez os Estados Unidos e a Grã-Bretanha devolverem suas concessões territoriais (com exceção de Hong Kong) em 1943 — um evento histórico que até Mao se sentiu obrigado a comemorar. E foi sob o governo de Chiang que a China foi aceita como um dos “Quatro Grandes”, junto com Estados Unidos, Rússia e Grã-Bretanha. O assento permanente da China e o poder de veto no Conselho de Segurança da ONU, que Mao acabou herdando, foram obtidos graças a Chiang.
Na época, o Generalíssimo era considerado, em geral, o construtor da China moderna que acabara com os senhores da guerra e unificara o país — e comandava a guerra contra o Japão. Mao precisava destruir essa imagem. Na campanha de terror, ele ordenou que o partido fosse “reeducado” sobre a questão: “Quem é o construtor da nação chinesa: os nacionalistas ou o PCC?”. O corolário do movimento para destruir a imagem de Chiang era criar o mito de que Mao era o fundador da China moderna.
Mao manufaturou o ódio contra Chiang por meio de sua campanha de “caça aos espiões”, na qual a espionagem para os nacionalistas, não para os japoneses, se tornou a questão central, às vezes identificando os nacionalistas com os japoneses por vaga assimilação. Foi através da campanha de terror que Mao tornou Chiang o inimigo do comunista comum.
Para insuflar o fervor anti-Chiang no PCC, Mao concebeu outro “massacre” pelos nacionalistas, como o que envolvera o o QG do Novo 4 Exército dois anos antes. Dessa vez, entre as vítimas sacrificiais estava seu único irmão vivo, Tse-min.
Tse-min vinha trabalhando em Xinjiang, no extremo noroeste, que fora um satélite russo durante muitos anos. Em 1942, o senhor da guerra local voltou-se contra os comunistas. Percebendo que suas vidas estavam em perigo, Tse-min e os outros líderes regionais do PCC telegrafaram várias vezes a Mao, pedindo para serem evacuados. Mas receberam ordens para ficar onde estavam. No início de 1943, Tse-min e mais de 140 comunistas e suas famílias, inclusive sua esposa e seu filho, e uma garota que Mao chamara de “filha”, Si-qi (futura nora dele), foram aprisionados.
Quando o senhor da guerra foi a Chongqing, a coisa óbvia que Chou En-lai, o contato do PCC, deveria fazer era pedir a libertação do grupo pelo governo nacionalista, exatamente o que os russos instaram Chou a fazer. A liderança do PCC, coletivamente (em nome do secretariado), também pediu isso a ele, em 10 de fevereiro. Dois dias depois, Mao mandou a Chou um telegrama separado, assinado somente por ele, com a agenda das conversações com os nacionalistas, e a libertação do grupo de Xinjiang não fazia parte dela. Chou, agora sob ordens apenas de Mao, não levantou essa questão em suas muitas reuniões com os nacionalistas.
Lin Biao estava em Chongqing na ocasião e, em 16 de junho, chegou a uma reunião com o embaixador russo Pániushkin antes de Chou e contou-lhe que este não fizera nada, e que “ordens” haviam chegado de “Yenan”. Quando apareceu, Chou começou dizendo que escrevera a Chiang cerca de três meses antes, mas não obtivera resposta. A essa altura, como Pániushkin relatou a Moscou, Lin Biao “ficou sentado com a cabeça abaixada”. Chou estava obviamente mentindo. Na verdade, ele e Lin haviam encontrado Chiang alguns dias antes, em 7 de junho, quando o Generalíssimo fora amistoso e Chou não falara nada sobre seus camaradas presos em Xinjiang.
O resultado foi que o irmão de Mao e duas outras figuras importantes do PCC foram executados em 27 de setembro, sob a acusação de tramar um golpe. Mas com tão poucas mortes — apenas três —, Mao não pôde gritar “massacre”. Ele também não fez nenhum pronunciamento condenando as execuções, pois isso poderia levantar questões sobre se
os comunistas eram realmente culpados da acusação. e A morte de Tse-min permaneceu um não evento público.
a Mao soube que a invasão alemã estava vindo, e quando, numa questão de horas, e alertara o Kremlin. Dimítrov registrou em seu diário a dica do PCC que dizia: “A Alemanha vai atacar a União Soviética [...] a data – 21 de junho de 1941!” (realce do original de Dimítrov). Trata-se do único aviso desse tipo destacado. A informação fora obtida por informantes do PCC. Quando os alemães invadiram efetivamente no dia 22, o Kremlin reconheceu com atraso a ajuda do PCC, embora pareça não ter dado atenção ao aviso.
b Esse projeto é conhecido como zheng-feng, geralmente traduzido como “Campanha de Retificação”.
c Às vezes, as execuções tinham outras funções. Shi Zhe relembrou uma visita que fez a um hospital, onde lhe mostraram uma grande bacia: “Dentro havia um cadáver de homem, de cerca de trinta anos, embebido em formol”. A equipe do hospital contou que precisara de corpos para dissecação e “Kang Sheng nos autorizou” a matar três “contrarrevolucionários” para propósitos médicos.
d O uso exaustivo de reuniões para corrigir — ou dobrar — as pessoas se tornaria parte integrante do regime maoísta.
e Os outros detidos, inclusive a esposa de Tse-min e seu filho Yuan-xin, foram libertados mais tarde, com autorização do Generalíssimo.