Mao: a história desconhecida

Jung Chang e Jon Halliday · Capítulo 49 de 69

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Mao: a história desconhecida

Parte VI

 

 

Vingança amarga

47. Um toma lá dá cá garante

 

a Revolução Cultural

 

(1965-66; 71-72 anos)

 

Em novembro de 1965, Mao estava finalmente pronto para lançar o Grande Expurgo que vinha planejando havia muito tempo, para “punir este nosso partido”, como explicou.

Ele avançou por etapas. Decidiu dar seu primeiro tiro na cultura, e por isso o Grande Expurgo foi chamado de Revolução Cultural. Madame Mao encabeçou o ataque. Ela era uma ex-atriz que realmente amava a cultura, mas não dava a menor importância para o fato de que outros chineses não tivessem acesso a ela. E tinha a oportunidade de destilar seu veneno, que possuía em abundância. “Jiang Qing é tão venenosa quanto um escorpião”, observou certa vez Mao para um membro da família, fazendo um movimento com o dedo mínimo para imitar o ferrão do animal. Mao sabia exatamente como explorar o potencial dela de fanática perseguidora. Em 1963, nomeara-a sua supervisora privada no Ministério da Cultura, para tentar condenar óperas e filmes. A direção do ministério a ignorara em larga medida. Ela já estava paranoica e vinha acusando suas amas de tentar envenená-la com comprimidos para dormir e escaldá-la quando tomava banho. Agora, alegava que as autoridades com quem tratava “a reprimiam e maltratavam” — e começou sua vingança pessoal de forma impiedosa. Mao fez dela sua chefe de polícia para reprimir a cultura em todo o país.

Uma de suas tarefas foi redigir um manifesto que denunciasse todas as formas de cultura, sob o pretexto de que todas eram dirigidas por gente que seguia uma “linha negra oposta ao Pensamento de Mao Tse-tung”. Mao ordenou que ela fizesse isso em colaboração com Lin Biao, o chefe do Exército. Na noite de 26 de novembro, madame Mao telefonou para a esposa de Lin, que atendia geralmente os telefonemas para o marido e funcionava como sua principal assistente. Lin Biao prometeu ajudá-la na tarefa.

Na verdade, Mao e Lin Biao se encontravam raramente em situações sociais, mas sua colaboração remontava a quase quatro décadas — a 1929, quando os dois fizeram uma aliança para sabotar Zhu De, que Lin Biao detestava e Mao queria dominar. Mao tolerava um extraordinário grau de independência de Lin. Por exemplo, quando esteve na Rússia durante a guerra sino-japonesa, Lin foi franco com os russos sobre a relutância de Mao em combater os japoneses e o quanto ele estava ansioso para atacar Chiang Kai-shek — um ato que Mao jamais engoliria vindo de outra pessoa. Durante o terror em Yenan, Lin fez de novo o que ninguém mais tinha permissão para fazer: simplesmente retirou sua esposa da detenção e impediu que ela fosse interrogada. No regime de Mao, todos tiveram de fazer “autocríticas” humilhantes em público, exceto Lin. Em troca desse grau de liberdade, Mao esperava que Lin o acudisse em tempos de necessidade, o que ele sempre fez.

Quando lançou o Grande Salto Para a Frente, em 1958, Mao promoveu Lin a uma das vice-presidências do partido, para contrabalançar os outros dirigentes. Quando o ex-ministro da Defesa Peng De-huai contestou Mao sobre a epidemia de fome, em 1959, o apoio firme de Lin impediu que outros ousassem tomar o lado de Peng. Mao então colocou Lin no lugar de Peng. Durante toda a epidemia de fome, Lin promoveu o culto da personalidade de Mao, especialmente no Exército. Ele inventou o Pequeno Livro Vermelho, uma coleção de citações muito curtas do líder, para servir de mecanismo de doutrinação. Na Conferência dos Sete Mil, em 1962, Lin salvou a pele do chefe ao defender o equivalente da infalibilidade papal para ele. Depois disso, quando este estava preparando o terreno para o Grande Expurgo, Lin continuou a fazer do Exército o bastião do culto a Mao.

Lin louvava Mao em público, embora não sentisse devoção verdadeira por ele e, em casa, fazia frequentemente comentários depreciativos e até desdenhosos sobre seu líder, alguns dos quais anotou em seu diário. Era por pura ambição que Lin defendia e promovia Mao — a ambição de ser seu segundo em comando e sucessor. Ele disse à esposa que queria ser como “Engels para Marx, Stálin para Lênin e Chiang Kai-shek para Sun Yat-sen”. Com o Grande Expurgo, que tinha o presidente Liu como alvo principal, Lin Biao poderia esperar sua promoção.

O homem que estava prestes a subir ao topo sofria de muitas fobias e tinha a aparência de um viciado em drogas. Suas fobias mais radicais eram relativas à água e ao ar. Sua hidrofobia era tão grave que ele não tomava banho havia anos e só se limpava com uma toalha seca. Não suportava a visão do mar, o que fazia com que seu contato com a Marinha fosse nulo. Tinha uma casa de campo no litoral, mas estava localizada entre colinas, de tal modo que não via o mar. Suas residências tinham numerosos dispositivos sensíveis ao vento pendurados no teto. Sua esposa pediu a um visitante que caminhasse devagar na presença dele, para que a agitação do ar enquanto ele se movia não desencadeasse a fobia do marido à brisa.

Como observou a própria esposa em seu diário, Lin era um homem “que se especializa em ódio, em desprezo (amizade, filhos, pai e irmão, tudo isso não significa nada para ele), em pensar o pior e o mais torpe das pessoas, em cálculo egoísta [...] e em tramar e fazer as outras pessoas caírem”.

Em 1965, o homem que Lin odiava em particular era o chefe do estado-maior do Exército, Luo Rui-qing, um dos mais antigos favoritos de Mao, a quem chamava carinhosamente de Luo, o Alto. Com frequência, Mao enviava suas ordens ao Exército via Luo, até mesmo ordens para o próprio Lin, consequência, em parte, do fato de este estar muitas vezes fora de ação, cuidando de suas fobias. Luo, o Alto, era muito enérgico e capaz, e tinha acesso incomparável a Mao. Fora o chefe da segurança do líder durante anos e Mao tinha enorme confiança nele. “Assim que Luo, o Alto, se aproxima, sinto-me muito seguro”, disse ele. Não eram palavras para serem tomadas com ligeireza. Lin ressentia-se da sombra de Luo e vinha tramando para se livrar dele havia algum tempo. Em novembro de 1965, quando recebeu o telefonema de madame Mao, Lin Biao aproveitou sua chance. Quatro dias depois, mandou a esposa ir até Mao em Hangzhou (eles estavam nas proximidades, em Suzhou), com uma carta manuscrita na qual fazia acusações extremamente frágeis contra Luo, o Alto. Lin pedia a Mao que sacrificasse um criado muito valioso.

Mao fez com que Lin Biao fosse pessoalmente a Hangzhou e, na noite de 1o de dezembro, os dois tiveram uma conversa ultrassecreta. Mao contou a Lin sobre seus planos para o Grande Expurgo e prometeu fazer dele seu segundo em comando e sucessor. Disse que precisava ter certeza de que o Exército estava sob controle total e pronto para assumir um papel completamente novo: ocupar os cargos do enorme número de dirigentes do partido que Mao pretendia expurgar.

Lin insistiu no expurgo de Luo, o Alto. O fato de ter feito proposta tão dura mostra que ele e Mao compreendiam seu valor sem igual. Sem Lin, Mao não poderia efetuar seu expurgo.

 

Mao vinha tentando, sem sucesso, condenar uma determinada ópera, chamada Hai Rui demitido do cargo, baseada na história tradicional de um mandarim que foi punido pelo imperador por ter defendido os camponeses. Mao a acusava de ser um ataque velado ao que ele (o “imperador”) fizera com Peng De-huai e ordenou que fosse denunciada, junto com o próprio marechal Peng. Com esse propósito, um artigo foi escrito, com o patrocínio de Mao, e publicado em Xangai, em 10 de novembro de 1965.

Ele ficou furioso ao ver que o artigo não foi reproduzido em nenhum outro lugar do país. Todas as províncias, e até a capital, o ignoraram. Puderam fazer isso porque o mandachuva da cultura na época, Peng Zhen (sem parentesco com Peng De-huai), bloqueou sua reprodução. Peng Zhen era um antigo e fiel seguidor, gozava de suficiente confiança para ter o posto estratégico de prefeito da capital e poucos homens eram tão próximos de Mao quanto ele. Mas, embora sua fidelidade não parecesse estar em questão, o prefeito Peng, que se tornara supervisor nacional da cultura em 1964, era grande opositor das exigências de aniquilar a cultura. E, estando no centro dos acontecimentos, percebeu que, dessa vez, Mao pretendia usar o campo da cultura para começar um expurgo que engolfaria todo o partido.

O prefeito Peng preocupava-se com o partido. Era também corajoso e decidido. Chegava mesmo a se queixar de Mao para estrangeiros, algo espantoso para a liderança do PCC. Quando um comunista japonês lhe perguntou sobre a ópera Hai Rui, ele respondeu: “Não é uma questão política, mas uma peça histórica. O presidente Mao diz que é uma questão política. Que impertinente!”. Era uma linguagem incrivelmente franca para alguém do círculo interno do poder usar ao falar com alguém de fora.

Com o prefeito Peng assumindo a responsabilidade de bloquear o artigo patrocinado por Mao, até o Diário do Povo se recusou a reproduzi-lo. O editor, um certo Wu Leng-xi, sabia que estava contrariando Mao, como uma testemunha ocular de uma pequena reunião com ele e Mao percebeu. Mao pediu que os fumantes segurassem cigarros e depois disse: “Parece que nessa questão também estou em minoria”. Relembrou a testemunha: “Diante dessa observação, vi Wu Leng-xi [...] ficar pálido como papel, parar de fazer anotações e ficar rígido. Algo no que Mao acabara de dizer [o] havia assustado”.

Mesmo assim, o editor segurou o artigo por mais uma semana, até que Chou En-lai entrou em cena e mandou publicá-lo, citando instruções de Mao. Mas o editor ainda conseguiu relegar o artigo para a página cinco, numa seção chamada “Discussões Acadêmicas”, o que significava que não era ordem do partido começar uma campanha de perseguição. O editor acabou na prisão. Ao seu sucessor, Mao disse em tom ameaçador: “Wu Leng-xi me desobedeceu. E me pergunto como você vai se comportar”. O sucessor ficou tão apavorado que mal conseguiu gaguejar o que queria dizer: “Obedecerei definitivamente ao presidente Mao”.

O fato de um artigo tão abertamente patrocinado por Mao ser tratado desse modo mostra o grau de resistência que encontrava de forças muito poderosas dentro do partido. Ele precisava de um sistema para levar a cabo sua vontade e isso tornava essencial a ajuda imediata de Lin Biao. O chefe do Exército sabia disso e sabia também o que desejava em troca: a cabeça do chefe do estado-maior Luo. Então Mao cedeu, ainda que Luo, o Alto, fosse extremamente leal e que ele precisasse de gente assim mais do que nunca. Mas Lin era o homem sem o qual ele não podia ficar: não havia ninguém com influência comparável que obedecesse às suas ordens. Luo, o Alto, era capaz e fiel, mas não era marechal e não tinha prestígio antigo no Exército, então foi sacrificado.

Em 8 de dezembro, a sra. Lin Biao manifestou-se numa reunião do Politburo presidida por Mao e falou por dez horas seguidas sobre os supostos crimes de Luo, o Alto, acusando-o de ter ambições “sem fim”, a começar por cobiçar o posto de ministro da Defesa de Lin. Que a esposa de Lin desempenhasse tal papel numa reunião do Politburo era algo inédito, pois não era membro desse órgão e nem mesmo uma alta autoridade, e as esposas dos líderes tinham até então se mantido em segundo plano.

Luo, o Alto, não estava presente à reunião. Quando soube de sua queda, suas pernas tremeram. Esse homem de compleição poderosa não conseguiu subir as escadas. Foi posto em prisão domiciliar.

Para sua família, começou um pesadelo. Poucos dias depois disso, sua filha, que frequentava um internato e não sabia das notícias sobre o pai, atravessou de bicicleta a ponte Beihai, diante de Zhongnanhai, a caminho de casa. O arco era flanqueado por balaustradas de mármore branco elegantemente talhadas. Apesar da densa poeira trazida pelo vento frio da Sibéria, ela notou três meninos que vinham atrás dela, amigos cujos pais também eram amigos dos seus. Ao passarem por ela, eles se viraram e lhe lançaram um olhar de tal frieza e desdém que quase a derrubou da bicicleta. Eles sabiam de alguma coisa que ela desconhecia: seu pai era agora um inimigo. Aquele olhar frio, cruel, destinado a ferir e abater, de gente que apenas no dia anterior era supostamente amiga, se tornaria uma marca dos anos seguintes.

Mas Lin Biao ainda não estava satisfeito com o grau de dor infligida em Luo, o Alto. Pediu a Mao que ele fosse condenado por um crime equivalente à alta traição: “querer usurpar o partido e o Estado”. Mao relutou em permitir, pois significaria se desfazer irrevogavelmente de seu velho esteio. Assim, durante alguns meses, Luo, o Alto, não foi acusado de traição.

Em consequência, Lin absteve-se de ajudar Mao. Quando madame Mao foi conversar com ele, em 21 de janeiro de 1966, sobre a redação do planejado “manifesto” contra as artes em nome do Exército, ele fez uma exibição de boa vontade e designou alguns escritores das Forças Armadas, mas pelas costas dela lhes disse: “Jiang Qing está doente [...] e paranoica [...] Apenas escutem o que diz e falem o menos que puderem [...] Não façam qualquer crítica sobre como as artes são dirigidas”. Em consequência, em fevereiro, quando o rascunho deles foi submetido a madame Mao, ela o considerou “totalmente inútil”.

 

Enquanto isso, Mao estava ficando desesperado. Naquele mesmo mês de fevereiro, com o apoio de Liu Shao-chi, o prefeito Peng divulgou uma “diretriz” nacional proibindo o uso de acusações políticas para pisar na cultura e em seus guardiões. E foi mais adiante, suprimindo as instruções de Mao destinadas a começar a campanha de perseguição. A obstrução do partido estava sendo altamente eficaz.

E não era tudo. Assim que emitiu sua diretriz, o prefeito Peng voou até Sichuan, aparentemente para inspecionar indústrias bélicas transferidas para essa província montanhosa. Lá, fez algo realmente espantoso: teve um encontro secreto com o marechal Peng, que havia sido banido para lá em novembro do ano anterior, quando Mao começou a preparar o Grande Expurgo. O que os dois Peng conversaram jamais foi revelado, mas, a julgar pelo momento e pelo risco colossal que o prefeito Peng assumiu ao visitar um grande adversário de Mao, sem permissão e em segredo, é muitíssimo provável que eles tenham discutido a exequibilidade de usar o Exército para deter Mao.

Embora estivesse praticamente sob prisão domiciliar e sem poder, o marechal Peng ainda inspirava muito respeito e lealdade no Exército, em especial entre seus antigos subordinados. Enquanto esteve em prisão domiciliar em Pequim, alguns deles, inclusive um membro da alta hierarquia do aparato de segurança de Mao, haviam se arriscado muito para visitá-lo.

A notícia do encontro clandestino entre o prefeito e o marechal talvez não tenha chegado aos ouvidos de Mao, mas ele certamente suspeitava que o prefeito estava tramando alguma coisa em Sichuan. Suas suspeitas aumentaram quando o marechal Ho Lung, o homem a quem Malinovski, o ministro da Defesa soviético, dissera para “livrar-se de Mao”, também foi a Sichuan, sob o mesmo pretexto de inspecionar as indústrias de armas. Mao suspeitava que uma conspiração estava sendo planejada e logo acusou seus

oponentes de tramar um complô, apelidado de “golpe militar de fevereiro”. a O estado mental de Mao transparecia na dose de comprimidos para dormir que estava tomando, dez vezes acima do normal, uma quantidade que poderia matar um homem médio.

E havia outras coisas que consumiam os pensamentos de Mao. Aparentemente o prefeito Peng estava pensando em entrar em contato com os russos e talvez tenha cogitado pedir ajuda deles para evitar o expurgo pretendido por Mao. O Kremlin havia convidado o PCC para o congresso seguinte do partido soviético (o XXIII), em abril de 1966. Os colegas de poder de Mao sabiam, desde as observações de Malinovski em novembro de 1964, que Mao não queria que nenhum deles fosse à Rússia, pois poderiam entrar em conluio com o Kremlin contra ele, e então recomendaram que o convite não fosse aceito.

Mas no início de março de 1966, depois de seu encontro secreto com o marechal Peng em Sichuan, o prefeito Peng mudou sua posição, com a concordância do presidente Liu Shao-chi, e sugeriu a Mao que o PCC deveria pensar em aceitar o convite. Tratava-se de uma alteração extraordinária e, sem dúvida, aumentou as suspeitas de Mao. O prefeito Peng logo seria acusado de tentar “um conluio com um país estrangeiro” e de “tentativa de golpe”. A ansiedade de Mao dificilmente poderia diminuir quando o novo embaixador soviético Serguei Lapin, com quem o presidente Liu tivera antes uma conversa de franqueza incomum, conseguiu um encontro não previsto com Liu na pista do aeroporto de Pequim, em 24 de fevereiro de 1966, enquanto esperavam a chegada do presidente de Gana Kwame Nkrumah (que fora derrubado por um golpe naquele mesmo dia). Lapin disse que tinha um convite para os chineses irem ao congresso soviético. “Dê-me o documento”, respondeu Liu. Lapin disse que estava na embaixada; mas todos os esforços subsequentes para que ele chegasse a Liu fracassaram.

Mao já suspeitava de que houvesse uma vasta conspiração entre seus colegas e Moscou contra ele. Em novembro do ano anterior, na abertura do expurgo, uma de suas primeiras medidas fora despedir Yang Shang-kun, diretor do Gabinete das Secretarias Centrais, que falava russo e cuidava das comunicações da liderança com Moscou, e exilá-lo em Cantão, no extremo sul do país. Mais tarde, Yang sofreu cerrado interrogatório na prisão sobre contatos com Moscou, o mesmo acontecendo com os intérpretes de língua russa da liderança.

Havia uma coisa no passado de Yang que provocou especialmente a suspeita de Mao: o órgão que dirigia havia gravado declarações suas. Ele não queria qualquer registro do que havia dito ou feito, exceto se fosse cuidadosamente editado. Nos velhos tempos, queimava os telegramas após seu envio. Depois que chegou ao poder, pedia constantemente aos ouvintes que não tomassem notas. Mas isso causava problemas insolúveis, pois suas palavras eram ordens e a ausência de registros escritos dificultava que os subordinados soubessem o que ele havia realmente dito e, assim, cumprissem suas ordens. Então, teve de permitir que alguma coisa do que dizia fosse anotado ou gravado. Com a aprovação de Mao, o órgão de Yang começou a instalar sistemas de gravação no final dos anos 1950. Mas, poucos anos depois, o operador do gravador brincou com uma namorada de Mao sobre uma viagem de trem dos dois. “Escutei tudo”, disse, embora isso não fosse verdade. A garota contou para Mao, que mandou imediatamente

desmantelar os sistemas e destruir as fitas. b Todas as casas e todos os carros de Mao foram varridos em busca de grampos. Embora nada fosse encontrado, Mao não ficou convencido. Ele suspeitava de que as gravações faziam parte de um complô ligado ao presidente Liu e aos russos. A seu tempo, todos os envolvidos seriam interrogados e um bom número deles teria morte horrível.

Em março de 1966, todos os fios das suspeitas de Mao se encadearam. Em janeiro, Bréjnev havia visitado a Mongólia — o primeiro líder soviético a fazê-lo — e fora acompanhado por ninguém menos que Malinovski, o ministro da Defesa que sugerira a derrubada de Mao. Bréjnev jamais tratara com Mao, mas conhecia Liu Shao-chi, tendo sido seu anfitrião quando este havia ido à Rússia em 1960, para uma reunião de cúpula dos partidos comunistas de todo o mundo. Ele era então o segundo em comando do país e passou mais de uma semana viajando com Liu pela Rússia; os dois foram pela ferrovia Transiberiana até o extremo leste da União Soviética e se deram muito bem. Agora, Bréjnev estava assinando um tratado militar com o líder mongol Yumjaagiyn Tsedenbal. Unidades russas foram levadas para a Mongólia e estacionadas a cerca de quinhentos quilômetros de Pequim, em terreno aberto, acompanhadas de mísseis terra a terra, aparentemente armados com ogivas nucleares. Tsedenbal, que fora alvo de complôs de Mao para derrubá-lo no início da década de 1960, dispôs-se a levar a luta contra “a camarilha de Mao” para dentro da própria China.

Era uma verdadeira crise para Mao e ele precisava de forte apoio de Lin Biao, imediatamente. Consentiu a condenação de Luo, o Alto, por “traição”. Em 18 de março, Luo jogou-se do teto de sua casa, numa tentativa fracassada de suicídio. Como de costume, isso foi considerado uma “traição” ao partido e o qualificou para a pior punição. Mais tarde, ele foi submetido a assembleias de denúncia em massa e, como havia quebrado os dois tornozelos quando saltara do telhado, foi arrastado para o palco numa cesta grande de onde pendiam seus pés aleijados que gotejavam sangue.

No dia seguinte à tentativa de suicídio, madame Mao escreveu a Lin Biao para pedir-lhe que endossasse seu manifesto “matem a cultura”, que o próprio Mao havia revisado e no qual acrescentara o nome de Lin ao cabeçalho (“O camarada Lin Biao autorizou a camarada Jiang Qing a [...]”), para destacar seu apoio. Lin o endossou por escrito e, antes do final do mês, apresentou um pedido formal ao partido, em nome do Exército, de um expurgo abrangente.

 

Esse lance de Lin levou outro homem fundamental a tomar uma posição firme: Chou En-lai, que até então conseguira ficar numa posição ambivalente. Chou disse ao prefeito Peng que estava com Mao. Com isso, compunha o trio imbatível com Mao e Lin Biao e decretava o fim de qualquer esperança de resistência.

Em 14 de abril de 1966, o manifesto de madame Mao foi divulgado. Um mês depois, o Politburo reuniu-se para chancelar a primeira lista de vítimas do Grande Expurgo, com quatro grandes nomes descritos como uma “camarilha antipartido”: o prefeito Peng, o chefe do estado-maior Luo, Yang Shang-kun, o contato com os russos e suspeito das gravações, e o velho chefe dos meios de comunicação Lu Ding-yi. Mao não se deu ao trabalho de comparecer e apenas ordenou que aprovassem um documento que havia preparado no qual condenava os quatro. Uma atmosfera fatalista dominou a reunião, da qual participaram dois dos quatro membros da “camarilha” e que foi presidida por Liu Shao-chi, que sabia estar dirigindo um evento que acabaria por causar sua ruína, embora seu nome não tivesse sido mencionado até então. Por uma vez, seu treinamento comunista férreo não o ajudou. Com raiva inusitadamente visível, fez um protesto voltado contra Mao: “Recebemos ordens para discutir este documento, mas não podemos fazer nenhuma revisão [...] Isso não é ditatorial?”. Perguntou então ao prefeito Peng, condenado nominalmente no documento, se tinha “alguma queixa”. O prefeito, que se comportara com tanta coragem até então, respondeu: “Nenhuma queixa”. Liu deu-lhe mais uma chance de dizer alguma coisa ao perguntar: “Você é a favor ou contra o documento?”. O prefeito baixou a cabeça e ficou em silêncio. Liu pediu então que os que estivessem a favor erguessem as mãos. Todos o fizeram, inclusive o prefeito Peng e o próprio Liu.

Os membros da “camarilha” logo foram levados para fora e encarcerados. O cinismo de Mao em relação a esse caso revela-se numa conversa que teve no mês seguinte com Ho Chi Minh. Mao afirmou que os quatro homens “estão com os nacionalistas”. Quando Ho questionou essa afirmação absurda, Mao retrucou, sem pestanejar: “Ainda não temos provas firmes, apenas algumas suspeitas”.

Nessa reunião do Politburo de maio, foi Lin Biao que agiu como intimidador a serviço de Mao. Erguendo o punho fechado, examinou a plateia com ar ameaçador e anunciou que quem se opusesse a Mao deveria ser “morto [...] o país inteiro deveria pedir o sangue deles”. Seu discurso estava recheado de ofensas pessoais, em que os adversários eram chamados simplesmente de “filhos da puta”.

Numa manifestação excepcional, em seu discurso Lin falou explicitamente da possibilidade de um golpe de Estado, tema em geral tabu. Mao pedira que ele falasse desse modo a fim de desfazer qualquer sonho de golpe palaciano. Ele fazia preparações contra um golpe havia anos, revelou Lin, e em especial, “em meses recentes”, quando havia “dado especial atenção à adoção de muitas medidas para evitar um [...] golpe”. Mao havia “posicionado tropas e pessoal-chave [...] e tomado medidas em departamentos essenciais, como estações de rádio, o Exército e a polícia. Isso é o que o presidente Mao vem fazendo nos últimos meses”. Ele também divulgou que Mao havia levado a possibilidade de um golpe tão a sério que tinha “perdido o sono durante muitos dias”.

Com efeito, Mao vinha tomando medidas para prevenir um golpe. Unidades do Exército comandadas por homens de Lin haviam sido trazidas para a capital. “Transferimos mais duas divisões de guarnição [para Pequim]”, contou Mao ao ministro da Defesa da Albânia. “Agora temos em Pequim três divisões de infantaria e uma divisão mecanizada, somando quatro divisões. É só por causa disso que você pode ir aonde quiser e que podemos ir aonde quisermos.” A guarda pretoriana foi drasticamente expurgada, inclusive três subchefes; um deles teve uma morte terrível, os outros mal sobreviveram. A única pessoa que saiu ilesa foi seu comandante, o camareiro de confiança de Mao Wang Dong-xing. Do mesmo modo, na única outra organização com acesso a armas, a polícia, os chefes tanto do ministério como do escritório de Pequim foram presos, porque tinham tido ligações com o presidente Liu no passado. Outra vítima das precauções de Mao foi o chefe da Mongólia Interior, Ulanhu. Essa província ocupava uma posição vital, na fronteira com a Mongólia, um satélite da Rússia. Ulanhu foi detido naquele maio fatídico.

 

Ao mesmo tempo que sustentava Mao, Lin Biao cuidava de alguns assuntos pessoais. Além do chefe do estado-maior Luo, havia outro membro da “camarilha” dos quatro que ele odiava: o chefe dos meios de comunicação Lu Ding-yi, e por uma razão um tanto incomum. A esposa de Lu era uma esquizofrênica que tinha uma fixação na esposa de Lin e havia escrito ao casal mais de cinquenta cartas anônimas escabrosas, em que dizia que a sra. Lin tivera uma série de casos amorosos, inclusive com Wang Shi-wei, o líder dissidente dos jovens voluntários de Yenan, e que Lin poderia não ser o pai de seus filhos. Algumas das cartas foram enviadas aos filhos do casal, com descrições lascivas da suposta vida sexual de sua mãe, algumas assinadas com o nome do vingador de Alexandre Dumas, “Montecristo”. Em vez de receber tratamento mental — que era obviamente o que ela precisava — a sra. Lu foi presa em 28 de abril de 1966 e passou o diabo nos doze anos seguintes.

Em uma sessão da reunião de maio do Politburo, Lin colocou um documento diante dos participantes, que dizia:

Declaro solenemente que:

1. Ye Qun [sua esposa] era uma virgem pura quando se casou comigo. Desde então, sempre se comportou

com correção;

2. Ye Qun não teve nenhuma relação amorosa com Wang Shi-wei; 3. Tigre e Dodo são filho e filha do meu sangue com Ye Qun; 4. Tudo o que está escrito nas cartas contrarrevolucionárias da [sra. Lu] é um disparate.

Lin Biao

14 de maio de 1966

 

Foi a primeira vez que um texto tão pitoresco chegou ao Politburo.

Embora pareça ridículo, esse comportamento tinha um objetivo prático: Lin estava limpando o nome de sua esposa, pois ela seria a partir de então uma presença constante na cena política, agindo como sua representante. Lin não gostava de comparecer a reuniões ou se encontrar com pessoas.

A sra. Lin era uma mulher um tanto biruta, um feixe de energia que recebia pouco amor do marechal e vivia num estado de constante frustração sexual. Ela tornou-se errática e conseguiu levar sua única filha a tentar o suicídio mais de uma vez, a partir de 1964. Tal como madame Mao, que também era histérica de frustração, a sra. Lin procurou compensação e realização nas maquinações e perseguições políticas, embora fosse menos terrível do que a esposa de Mao. Ela agia como assistente do marido e emitia ordens em seu nome.

O Grande Expurgo de Mao estava em andamento graças a um toma lá dá cá com seu assecla Lin Biao.

 

a Essa suspeita selou o destino de Li Jing-quan, chefe de Sichuan e um dos favoritos de Mao, que deveria guardar Peng De-huai. Li sofreria muito nos anos seguintes e sua esposa se suicidaria.

b Mas a maioria foi conservada, e a pessoa encarregada da missão nos contou que cuidou para que as fitas destruídas fossem primeiro transcritas. Isso foi feito com a aprovação de seu superior que, por coincidência, era o prefeito Peng Zhen, que disse: “Vou dizer simplesmente ao presidente que elas foram todas destruídas”.