Mao: a história desconhecida

Jung Chang e Jon Halliday · Capítulo 47 de 69

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Mao: a história desconhecida

45. A bomba

 

(1962-64; 68-70 anos)

 

No final de 1962, a epidemia de fome já amainara. Nos anos seguintes, ao mesmo tempo que tolerava confiscos de alimentos numa escala que permitia que seus súditos subsistissem, Mao começou a ressuscitar seus projetos de estimação engavetados em consequência da fome, tais como satélites e submarinos nucleares. E surgiram novos projetos. Quando lhe falaram de raio laser, visto na época apenas como arma letal e traduzido para o chinês como “a Luz da Morte”, si-guang, ele decidiu no mesmo instante fazer enormes investimentos em pesquisas sobre laser, dando uma ordem característica: “A Luz da Morte: ponham algumas pessoas inteiramente devotadas a isso. Alimentem-nas e não as deixem fazer outra coisa”.

No momento, o foco da atenção de Mao era a bomba atômica. Em novembro de 1962, criou-se um comitê especial, presidido por Chou En-lai, para coordenar as várias centenas de milhares de pessoas envolvidas e reunir todos os recursos do país para produzir a bomba em dois anos. A concentração de recursos se deu numa escala que espantou até um membro do alto escalão acostumado à organização totalitária. Cada um dos numerosos testes preparatórios consumiria quase metade das linhas de telecomunicação da China, e boa parte do país, inclusive fábricas, ficaria recorrentemente sem eletricidade ou transporte, porque a energia fora desviada para esses testes.

Uma preocupação constante de Mao era como proteger a bomba e todo o seu complexo nuclear, e não sem motivo. Nas conversações tripartites (Estados Unidos-União Soviética-Reino Unido) sobre proibição de testes nucleares realizadas em Moscou em julho de 1963, o presidente Kennedy pediu ao seu negociador Averell Harriman que sondasse Khruchióv sobre a destruição das instalações nucleares de Mao: “Tente extrair a opinião de K[hruchióv] sobre os meios de limitar ou evitar o desenvolvimento nuclear chinês e sua disposição de tomar medidas soviéticas ou aceitar a ação americana nessa direção”. Khruchióv rejeitou a abordagem. Mas Kennedy disse numa entrevista coletiva de 1 o de agosto que uma China nuclear — que, enfatizou ele, era “stalinista”, “com um governo decidido à guerra como meio de alcançar seu sucesso final” — representava “potencialmente uma situação mais perigosa do que qualquer outra que enfrentamos desde o final da Segunda Guerra [...] e gostaríamos de tomar algumas medidas agora que diminuiriam essa perspectiva”.

Kennedy pensou seriamente em ataques aéreos às instalações nucleares da China. Seus assessores disseram-lhe que a usina de difusão gasosa de Lanzhou poderia ser destruída de tal forma a parecer um acidente, mas que talvez fossem necessários ataques nucleares para destruir a usina de plutônio, em Baotou.

Após o assassinato de Kennedy, em novembro de 1963 (por um “rei do petróleo”, disse Mao ao ministro da Defesa da Albânia), seu sucessor Lyndon Johnson logo se entreteve com a ideia de lançar sabotadores de Taiwan para explodir as instalações de Lop Nor, local de testes atômicos da China. Este e outros sítios nucleares ficavam no interior do deserto de Gobi e não tinham acesso por terra: todos que ali trabalhavam, dos cientistas aos trabalhadores braçais, ficavam completamente isolados de suas famílias e da sociedade durante anos, até mesmo décadas. Mas os sítios estavam expostos aos aviões americanos de espionagem — e a ataques aéreos, o que Mao mais temia.

Em abril de 1964, Mao ficou sabendo que a bomba poderia ser testada naquele outono e tratou de tomar medidas em todas as frentes para minimizar o perigo de um ataque às instalações nucleares. Em relação aos russos, fez uma declaração pública para lembrar Khruchióv de que a China ainda fazia parte do campo comunista. Em 12 de abril, um dia depois que os detalhes do teste foram decididos, tratou de reescrever um telegrama para Khruchióv pelos seus setenta anos. O texto original refletia a relação pública amarga entre os dois Estados. Mao mudou-o para torná-lo extremamente amistoso, acrescentando um incomum “Querido camarada”. Enfatizava agora que a discordância entre eles era “apenas temporária” e que, “na eventualidade de uma grande crise mundial”, eles “indubitavelmente estariam juntos contra nosso inimigo comum”. Para concluir, acrescentou uma frase que evocava a relação passada: “Que os imperialistas e reacionários tremam diante de nossa unidade”. O telegrama ganhou ampla divulgação na mídia chinesa e espantou todos, pois isso acontecia depois de meses de ataques públicos a Khruchióv. Na véspera do Dia Nacional daquele ano, em 1o de outubro, Mao deixou os russos estupefatos ao saudar calorosamente o delegado soviético, segurando sua mão e repetindo: “Tudo ficará bem; nossos povos estarão juntos”.

A principal preocupação de Mao eram os Estados Unidos. A fim de detê-los, fez de tudo para ter alguns trunfos na mão. Suas opções para provocar problemas com os próprios americanos ou em sua vizinhança imediata eram limitadas. Em 8 de agosto de 1963, pouco depois do Tratado de Proibição de Testes, ele dera uma declaração de apoio aos negros dos Estados Unidos. Porém, ela equivalia ao que ele mesmo chamou depois de “canhão vazio”. Robert Williams, o negro radical americano a quem Mao atribuiu o pedido de fazer uma declaração, contou-nos que Mao “não compreendia um monte de coisas sobre os negros nos Estados Unidos”. Em relação a essa questão, Williams comparou Mao desfavoravelmente a Ho Chi Minh. Ele também deu declarações de apoio aos movimentos antiamericanos em países próximos aos Estados Unidos, como no Panamá e na República Dominicana. Mas eram apenas palavras.

Porém, havia um lugar perto da China em que havia americanos: o Vietnã. No final de 1963, já havia cerca de 15 mil assessores militares americanos no Vietnã do Sul. O plano de Mao era criar uma situação pela qual os Estados Unidos enviariam mais tropas ao Vietnã do Sul e até invadiriam o Vietnã do Norte, que fazia fronteira com a China. Desse modo, se Washington atacasse suas instalações nucleares, o Exército chinês invadiria o Vietnã e engolfaria as tropas americanas, como havia feito na Coreia. Para tentar fazer com que isso acontecesse, em 1964 Mao começou a pressionar os vietnamitas para intensificar a guerra na Indochina. Disse-lhes então que a luta deles “não causara grande impacto e estava apenas arranhando a superfície [...] É melhor transformá-la numa guerra maior”. “Temo que vocês tenham de mandar mais tropas para o Sul.” “Não tenham medo da intervenção dos americanos”, instigou; “no máximo, não é pior do que ter outra Guerra da Coreia. O Exército chinês está preparado e, se os Estados Unidos assumirem o risco de atacar o Vietnã do Norte, o Exército chinês marchará de imediato. Nossas tropas querem uma guerra agora.”

Mao pediu aos norte-vietnamitas que intensificassem a luta em outros países que eram vizinhos da China: “É melhor mandar também vários milhares de soldados ao Laos”, disse. O Laos “vem lutando há vários anos; mas não deu em nada. Vocês devem pensar numa maneira: peguem 3 mil ou 4 mil homens e [...] os treinem para que parem de acreditar no budismo e se tornem soldados de combate rijos”. Em particular, instou os vietnamitas a ajudar a montar um exército guerrilheiro na Tailândia, onde os Estados Unidos tinham bases militares.

Na verdade, a política de Hanói era conseguir que os Estados Unidos diminuíssem a escala da guerra e os vietnamitas disseram a Mao que não queriam “provocar” os americanos. Não obstante, Mao mandou que 300 mil a 500 mil soldados chineses fossem posicionados ao longo da fronteira do Vietnã, prontos para invadir. Chou En-lai fez uma visita à frota do mar da China Meridional e instruiu seu comandante para estar pronto a atacar o Vietnã do Sul. Fundos foram alocados para levar a frota para o porto de Zhanjiang, bem mais perto do Vietnã.

A estratégia de Mao, como Chou En-lai explicou depois ao presidente Nasser do Egito, era atrair o máximo de tropas americanas para o Vietnã, como “uma política de segurança” da China contra um possível ataque nuclear dos Estados Unidos,

porque teremos muita carne deles ao alcance de nossas unhas.

Então, quanto mais tropas eles mandarem ao Vietnã, mais felizes ficaremos, pois achamos que os teremos

em nosso poder, podemos ter o sangue deles [...]

[...] Eles estarão perto da China [...] ao nosso alcance. Eles [...] serão nossos reféns.

 

Chou também informou ao presidente da Tanzânia, Julius Nyerere, que, para proteger suas instalações nucleares, Pequim agiria no Vietnã independentemente do que os próprios vietnamitas quisessem. “Diga aos Estados Unidos”, disse Chou, que, se eles atacarem essas instalações, Pequim “não respeitará fronteiras” e entrará no Vietnã do Norte “com ou sem o consentimento dos vietnamitas”.

 

Além de preocupar-se com ataques aéreos a suas instalações nucleares, Mao temia que todas as suas indústrias bélicas pudessem transformar-se em alvos. Como muitas delas estavam situadas em planícies costeiras, decidiu transferi-las para o interior montanhoso do país.

Em junho de 1964, ordenou essa realocação em massa, que descreveu para seu círculo íntimo como uma “mudança de casa” nacional de indústrias para enfrentar “a era da bomba”. O empreendimento ganhou o nome geral de “Terceiro Front” (as áreas costeiras e fronteiriças eram o “Primeiro Front”; o “Segundo Front” era o resto da China). Não menos que 1100 grandes empresas foram desmontadas e removidas para regiões remotas, onde foi necessário construir instalações importantes, como usinas de aço e eletricidade. Algumas instalações nucleares foram até duplicadas. Cavaram-se enormes cavernas nas montanhas para abrigá-las. A convulsão e o custo foram colossais. Durante a década em que o Terceiro Front foi construído, seu custo foi de mais de 200 bilhões de yuans e, no seu auge, sugou pelo menos dois terços de todo o investimento da nação. O desperdício criado foi maior do que as perdas materiais totais causadas pelo Grande Salto Para a Frente.

Do ponto de vista estratégico, o projeto todo era absurdo. A vasta maioria das usinas do Terceiro Front dependia totalmente de transporte rodoviário — às vezes, até para o abastecimento de água —, enquanto as refinarias de petróleo continuaram expostas. O principal campo petrolífero da China, que acabara de entrar em funcionamento, ficava na planície da Manchúria. A mudança de lugar não deu ao país nenhuma segurança maior contra ataques.

Bem ao seu modo, Mao insistiu para que tudo fosse construído em velocidade vertiginosa, geralmente sem qualquer levantamento de terreno apropriado. Só a localização irracional dobrou os custos normais de construção e deixou as novas fábricas, que eram muitas vezes de material inferior, à mercê de inundações, avalanches e quedas de pedras e lama. Muitas indústrias caras, entre elas fábricas de tanques e estaleiros, jamais foram terminadas, ou ficaram ultrapassadas. Um estudo concluiu que “talvez o fracasso mais colossal” tenha sido a usina de aço de Gansu, que demorou 27 anos para produzir algum aço.

Os custos humanos foram imensuráveis. Mais de 4 milhões de pessoas foram jogadas nas montanhas para construir fábricas, colocar trilhos e abrir minas, trabalhando e vivendo em condições aterradoras, em cavernas sem ventilação. Havia uma constante escassez de água, frequentemente poluída. Muitos morreram. Incontáveis famílias foram dispersadas por até duas décadas. Somente em 1984, muito depois da morte de Mao, os casais separados puderam se reunir — e, assim mesmo, apenas se o cônjuge que estava no Terceiro Front tivesse mais de quarenta anos e houvesse trabalhado por vinte.

Liu Shao-chi e os outros colegas de poder de Mao não ofereceram resistência a essa loucura. Mao disse-lhes que estava decidido. Para tornar a ideia mais palatável para eles, ofereceu a coisa mais próxima em seu léxico de uma promessa de que as pessoas não teriam de morrer de fome, dizendo aos seus planejadores: “Tomem cuidado: Não façam um 1958, 1959 e 1960”. Além disso, embora o Terceiro Front fosse uma insensatez econômica, não envolveu perseguições. Que Mao evitasse mortes e perseguições políticas parece ter sido o melhor que seus colegas achavam que poderiam esperar — e o suficiente para fazê-los sentir que poderiam apoiá-lo. Para eles, as coisas estariam boas se o chefe abrisse mão de alguns milhões de mortes.

 

A primeira bomba atômica da China foi detonada em 16 de outubro de 1964, em Lop Nor, no deserto de Gobi. A Rota da Seda passara por ali, ligando o centro da China às margens do Mediterrâneo, depois de atravessar os vastos continentes da Europa e da Ásia. Através daquele deserto árido e inabitável haviam fluído seda, especiarias, pedras preciosas, arte e cultura, com toda a sua riqueza e esplendor, intercâmbios que tinham excitado civilizações antigas e lhes insuflado nova vida. Assim, Lop Nor testemunhara numerosos impactos que realçavam a vida. Agora, quase dois milênios depois, era o berço de outro “big bang”, o da destruição e morte.

O sítio do teste nuclear fora escolhido originalmente pelos russos. Ali, engenheiros militares, cientistas e operários viveram durante anos em choças de barro e barracas, em total isolamento, trabalhando sob tempestades de areia, calor abrasador e ventos enregelantes.

No dia marcado, Mao esperou o grande momento em sua suíte no Grande Salão — batizado de “do povo”, embora fora dos limites de quem não fosse convidado. Situado na praça Tiananmen, perto de Zhongnanhai, fora projetado para suportar qualquer tipo de ataque militar e possuía abrigo nuclear próprio. A suíte, feita sob medida para Mao, tinha o codinome de Suíte 118, de acordo com seu costumeiro estilo clandestino. Mao podia entrar de carro nela. Dentro, havia um elevador que descia para um túnel de fuga, largo o suficiente para dois caminhões lado a lado, que levava aos centros militares subterrâneos dos limites de Pequim. A suíte ficava ao lado do palco de um auditório gigantesco, de tal modo que Mao podia entrar e sair sem qualquer contato com a plateia.

Naquele dia, esperando ao lado da suíte de Mao, havia 3 mil intérpretes envolvidos numa peça musical que promovia seu culto, O Oriente é vermelho, que Chou En-lai havia levado ao palco. O título vinha do “hino” de Mao:

O Oriente é vermelho,

O sol se levanta,

A China produziu Mao Tse-tung.

Ele busca a felicidade para o povo.

Ele é o grande salvador do povo.

 

Quando o sucesso do teste foi confirmado, prorrompeu a música do hino, luzes brilhantes se acenderam e um Mao sorridente emergiu, flanqueado por toda a alta direção do partido. Ele acenou para os 3 mil intérpretes e fez um sinal para Chou En-lai falar. Chou foi para a frente dos microfones: “O presidente Mao pediu-me para lhes dar uma boa notícia”. E anunciou a detonação da bomba atômica. De início, a multidão ficou em silêncio, sem saber como reagir, pois não recebera instruções prévias. Chou forneceu então a dica: “Vocês podem se regozijar à vontade, só não furem o chão com os pulos!”. Então a plateia começou a gritar e saltar num aparente arrebatamento. Mao foi o único líder de uma nação que saudou o nascimento desse monstro da destruição de massa com festividade. Em particular, ele compôs duas linhas de versos de pé quebrado:

A bomba atômica explode quando mandada.

Ah, que alegria sem fim!

 

Organizaram-se celebrações em todo o país. Entre a população, que ficou sabendo pela primeira vez naquela noite que a China vinha construindo a bomba, houve uma exultação genuína. Possuir armas nucleares era visto como um sinal do êxito nacional e muitos sentiram um tremendo orgulho, especialmente porque lhes disseram que a China havia produzido a bomba atômica sozinha, sem ajuda externa. O papel decisivo desempenhado pela Rússia foi rigorosamente omitido e é pouco conhecido até hoje.

A epidemia de fome acontecera havia apenas dois anos, as lembranças dolorosas ainda estavam vivas e alguns membros da elite se perguntavam quanto custara a bomba. O regime registrou a importância da pergunta e Chou fez questão de contar para uma pequena plateia que o país fizera uma bomba muito barata e gastara apenas poucos bilhões de yuans na sua confecção. Na verdade, o custo da bomba atômica chinesa foi estimado em 4,1 bilhões de dólares (em preços de 1957). Essa quantia em moeda viva poderia ter comprado trigo suficiente para fornecer trezentas calorias a mais por dia durante dois anos para toda a população — o suficiente para salvar a vida de todos os quase 38 milhões que morreram na epidemia de fome. A bomba de Mao causou cem vezes mais mortes do que as duas bombas que os americanos jogaram no Japão.