Mao: a história desconhecida
33. O corpo a corpo de dois tiranos
(1949-50; 55-56 anos)
A principal exigência de Mao a Stálin era de ajuda para montar uma máquina de guerra de classe mundial e transformar a China em uma potência global. A chave para isso não era a quantidade de armas que Stálin ofereceria, mas a tecnologia e a infraestrutura para fabricar armamentos no país. Na época, as fábricas chinesas do ramo só conseguiam produzir armas pequenas. Para avançar na velocidade que desejava — mais rápido do que o Japão fizera no século XIX, quando montara uma indústria avançada de armamentos a partir do nada —, Mao precisava da ajuda externa. E Stálin não era apenas sua melhor aposta — era a única. A Guerra Fria havia começado recentemente. Não havia possibilidade de o Ocidente ajudá-lo sem que mudasse a natureza de seu regime, o que estava fora de questão.
Mas Mao tinha um problema: precisava persuadir Stálin de que suas ambições eram controláveis pelo líder soviético. Assim, deu demonstrações aparatosas de lealdade, despejando elogios a Stálin diante de Mikoian e fazendo uma cena para o contato Kovaliov. Este relatou ao líder russo que Mao, em certa ocasião, “levantou-se, ergueu os braços e gritou três vezes: ‘Que Stálin viva 10 mil anos’”. Junto com o palavrório, ele ofereceu algo muito substancial: cortar os laços da China com o Ocidente. “Ficaríamos contentes se todas as embaixadas dos países capitalistas saíssem da China para sempre”, disse a Kovaliov.
Essa atitude era também motivada por preocupações internas. “O reconhecimento facilitaria as atividades subversivas [de] Estados Unidos e Grã-Bretanha”, disse Mao a Mikoian, em 31 de janeiro de 1949. Ele temia que qualquer presença ocidental pudesse estimular os liberais e dar aos seus oponentes uma abertura, por menor que fosse. Então, fechou as escotilhas, impondo uma política que chamou de “limpeza da casa antes de admitir convidados”. “Limpar a casa” era um eufemismo para expurgos drásticos e sangrentos e para a instalação de um sistema rígido de controle nacional, que incluía o fechamento de todo o país, a proibição de saída dos chineses e a expulsão de praticamente todos os ocidentais. Essa expulsão era também um modo de garantir que não haveria observadores externos dos expurgos. Somente depois que tivesse “limpado” — ou antes, purificado — a casa, ele abriria uma fresta na porta para admitir uns poucos estrangeiros controlados, que sempre foram conhecidos como “convidados”, em vez de visitantes.
Levando em conta o tipo de regime que tinha em mente, não faltavam a Mao motivos para sentir-se preocupado. A influência ocidental era forte na China. “Muitos representantes da intelligentsia chinesa receberam sua educação nos Estados Unidos, na Grã-Bretanha, na Alemanha e no Japão”, contou ele a Mikoian. Praticamente todas as instituições educacionais modernas haviam sido fundadas por ocidentais (com frequência, missionários), ou muito influenciadas pelo Ocidente. “Além de jornais, revistas e agências de notícias”, escreveu Liu a Stálin no verão de 1949, só Estados Unidos e Grã-Bretanha tinham 31 universidades e escolas superiores especializadas, 32 instituições educacionais religiosas e 29 bibliotecas no país, bem como 2688 escolas, 3822 missões e organizações religiosas e 147 hospitais.
A China tinha escassez de pessoas instruídas, principalmente de pessoal especializado, e Mao precisava dessa gente para pôr o país em funcionamento, em particular as cidades. Ao contrário da suposição habitual, era das cidades que ele cuidava mais. Se não pudermos dirigir as cidades, disse a altos funcionários em março de 1949, “não duraremos”. Seu objetivo era afastar a classe instruída de suas atitudes liberais ocidentais através do medo. Isso seria muito mais fácil se os dissidentes em potencial soubessem que não havia representantes do Ocidente no país a quem pudessem apelar, ou imprensa estrangeira para contar suas histórias.
Mao também estava preocupado com a atração que o Ocidente exercia dentro do próprio partido. Seu exército adorava armas americanas: seus guarda-costas faziam comparações pouco favoráveis de submetralhadoras soviéticas com carabinas de fabricação americana. “As carabinas [americanas] são tão leves e precisas. Por que não podemos ter mais carabinas?”, pediram eles ao chefe. Os carros americanos provocavam admiração. Uma autoridade do PCC no porto de Dalian, ocupado pelos russos, tinha um reluzente Ford 1946 preto: “Era ótimo se exibir com ele”, relembrou, “e provocar o interesse do mais alto comandante do Exército soviético”, que pediu o carro emprestado por um dia, o que lhe deu uma vantagem sobre os russos. O objetivo de Mao era cortar pela raiz qualquer chance de o Ocidente exercer alguma influência sobre seu partido, em qualquer campo, de ideias a bens de consumo. Nisso, ele era ainda mais radical do que Stálin.
O controle foi um motivo fundamental para Mao decidir evitar o reconhecimento do Ocidente. Mas seu objetivo primordial era mostrar a Stálin que a nova China estava totalmente comprometida com o bloco comunista. Essa foi a principal razão de Pequim não estabelecer relações diplomáticas com os Estados Unidos e a maioria dos países ocidentais quando o regime foi fundado. Costuma-se pensar que foram os Estados Unidos que se recusaram a reconhecer a China de Mao. Na verdade, Mao se esforçou muito para tornar o reconhecimento impossível, cometendo atos de hostilidade aberta. Em novembro de 1948, quando os comunistas capturaram Shenyang, havia três consulados ocidentais na cidade (americano, britânico e francês) e, de início, o PCC local foi amistoso com eles. Mas logo chegaram ordens de Mao para “forçá-los a sair”. Chou foi explícito com Mikoian: “Criamos condições intoleráveis para eles a fim de
fazê-los partir”. a Em 18 de novembro, o cônsul-geral americano Ward e seus funcionários foram postos em prisão domiciliar. Ward foi depois acusado de espionagem e expulso. No mesmo espírito agressivo, tropas comunistas invadiram a residência do embaixador americano J. Leighton Stuart em Nanquim, em abril de 1949, quando tomaram a capital nacionalista.
Mao era igualmente hostil aos britânicos. No final de abril, quando os comunistas estavam cruzando o Yangtze para o sul, havia dois barcos da Marinha inglesa naquele trecho do rio, o Amethyst e o Consort. Mao ordenou que “todos os navios de guerra que estão no caminho de nossa travessia podem ser bombardeados. Tratem-nos como barcos nacionalistas”. Foram mortos 42 marinheiros britânicos, mais do que todas as outras mortes de militares ocidentais durante a guerra civil inteira. O Consort conseguiu escapar, mas o Amethyst ficou encalhado. De volta à Inglaterra, marujos encolerizados espancaram o líder do PC inglês Harry Pollitt, que acabou hospitalizado. Winston Churchill, então líder da oposição, perguntou no Parlamento por que a Grã-Bretanha não tinha “em águas chinesas um porta-aviões, se não dois, capazes de [...] poder efetivo de retaliação”.
O incidente alarmou muito Stálin, que colocou as forças soviéticas de todo o Extremo Oriente em alerta total — a única vez que isso ocorreu durante a Guerra Civil Chinesa. O líder russo estava preocupado com a possibilidade de o Ocidente intervir militarmente e envolver a Rússia e telegrafou a Mao com urgência para não dar destaque à relação entre os dois: “Não achamos que seja o momento certo para divulgar a amizade entre a União Soviética e a China Democrática”. Mao teve de baixar o tom de sua agressividade e emitiu novas ordens para “evitar choques com navios estrangeiros. Não atirar [neles] sem ordem do centro. Extremamente, extremamente importante”. Ele instruiu seus comandantes para “proteger [...] especialmente diplomatas dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha”, “ou pode acontecer um grande desastre”. Em 27 de abril, suspendeu o avanço sobre Xangai, mais importante centro econômico e financeiro do país, e foco dos interesses ocidentais — portanto, o lugar mais provável em que o Ocidente, que tinha consideráveis forças militares na cidade, poderia opor resistência.
Para diminuir o risco da intervenção ocidental, em 10 de maio Mao tomou medidas diversionistas, autorizando conversações com o embaixador americano Stuart, que ficara em Nanquim depois da partida do governo nacionalista. Stuart era um “velho parceiro da China” que achava, ingenuamente, que poderia unir Washington e Mao. Décadas depois, Huang Hua, então negociador de Mao e futuro ministro do Exterior, revelou as intenções de seu chefe: “Mao e Chou [...] não estavam em busca de relações amistosas. Eles só tinham uma preocupação: impedir uma intervenção americana que pudesse resgatar os nacionalistas no último momento”.
Para se precaver ainda mais contra uma reação das potências ocidentais, Mao teceu uma teia de desinformações. Em 30 de maio, Chou En-lai deu uma mensagem verbal para ser transmitida a Truman, feita sob medida para as esperanças americanas de então. Ela dizia que havia uma divisão no PCC entre “liberais” pró-Ocidente, liderados pelo próprio Chou, e “radicais” pró-soviéticos, chefiados por Liu Shao-chi, e que, se os Estados Unidos apoiassem Chou, ele talvez pudesse influenciar a política externa do partido. Tratava-se de um embuste, mas contribuiu para a ilusão de que o PCC poderia
se jogar nos braços do Ocidente. b
Essa lufada de pseudodiplomacia, tal como a temporária calmaria no campo de batalha, não implicava de forma alguma o recuo da decisão de Mao de afastar o Ocidente. Em meados de maio, ele dera sinal verde para uma ofensiva geral contra Xangai, que caiu no final do mês. Quando os navios de guerra estrangeiros se retiraram da cidade diante da aproximação dos comunistas, e as forças americanas deixaram rapidamente suas bases terrestres em Qingdao, Mao ficou mais convencido do que nunca de que as potências ocidentais não invadiriam a China, onde só poderiam ficar atoladas, como a experiência japonesa havia mostrado.
Mao demonstrou então hostilidade aberta ao Ocidente. Em um artigo assinado no Diário do Povo de 30 de junho, declarou que sua política externa seria de “ficar ao lado exclusivamente de um campo”: yi-bian-dao. Isso não significava apenas ficar firme no campo comunista. Significava congelar as relações com o Ocidente. Alguns dias depois, William Olive, vice-cônsul americano em Xangai, foi detido na rua, jogado na prisão e tão espancado que morreu em seguida. Os Estados Unidos chamaram imediatamente de volta o embaixador Stuart. No final de julho, quando o Amethyst tentou partir, Mao deu ordens para “atacá-lo duramente”. O navio britânico conseguiu zarpar, mas um barco de passageiros chinês, atrás do qual se escondera, foi afundado.
Naquele mesmo mês de julho, Mao revelou a Stálin que sua política preferida era “esperar e não ter pressa para obter o reconhecimento desses Estados [ocidentais]”. Stálin ficou feliz. “Sim! Melhor não se apressar”, escreveu na margem, sublinhando as palavras de Mao.
Cortar os laços com o Ocidente foi o presente de Mao a Stálin antes de que se encontrassem. O líder chinês estava ansioso para visitá-lo, assim que seu regime foi proclamado, em outubro de 1949. Stálin era o chefão do campo comunista e Mao precisava ter uma audiência com ele. E sabia também que o tipo de trato que queria fazer tinha de ser negociado face a face.
A visita estava pendente havia dois anos, mas Stálin vinha manipulando seu desejo ardente por um encontro para puni-lo pelas ambições além-fronteiras. Mesmo depois que Mao tomou posse como supremo líder da China, não houve convite. No final de outubro, Chou teve de ir ao embaixador russo e informar que Mao queria ir a Moscou para cumprimentar Stálin em seu aniversário de setenta anos, em 21 de dezembro de 1949. Stálin concordou, mas não ofereceu a Mao o tipo de visita de Estado que alguém que acabara de colocar um quarto da população mundial no campo comunista poderia se sentir no direito de esperar. Mao seria apenas mais um dos líderes comunistas de todo o mundo que convergiriam para Moscou a fim de homenagear Stálin em seu aniversário.
Mao partiu de trem em 6 de dezembro, naquela que era sua primeira viagem ao exterior. Não levou consigo nenhum dos colegas mais graduados. A pessoa de mais alta posição hierárquica era um secretário. Kovaliov presumiu, com razão, que desse modo, quando Stálin humilhasse Mao, o que era inevitável, “não haveria testemunhas chinesas”. Do primeiro encontro com o líder soviético, Mao chegou mesmo a excluir seu embaixador em Moscou. Prestígio era poder. Uma censura do Chefe poderia enfraquecer seu domínio sobre os colegas.
Mao conseguiu ver Stálin no dia em que chegou, e reiterou que a China estava comprometida exclusivamente com a Rússia. “Vários países”, contou a Stálin, “especialmente a Grã-Bretanha, estão fazendo uma campanha ativa para reconhecer a República Popular da China. Porém, acreditamos que não devemos ter pressa para sermos reconhecidos.” Ele apresentou seus pedidos fundamentais: ajuda para construir um sistema industrial-militar abrangente, com ênfase na indústria aeronáutica, e forças militares modernas, em especial, a Marinha.
Em troca, Mao estava pronto a fazer concessões significativas. Viera a Moscou para conseguir que um novo tratado sino-soviético substituísse o velho tratado da União Soviética com Chiang Kai-shek, mas depois de saber que Stálin havia “decidido não modificar nenhum dos pontos desse tratado por enquanto”, alegando que descartar o tratado antigo teria complicações que envolviam o acordo de Ialta, Mao cedeu logo. “Devemos agir de uma maneira que seja melhor para a causa comum [...] o tratado não deve ser modificado no momento.” O tratado com Chiang dera à Rússia concessões territoriais. Mao ofereceu com entusiasmo que ficassem em mãos russas. O statu quo, disse ele, “corresponde bem aos interesses chineses”.
A presteza em fazer concessões importantes para alcançar seu objetivo — favorecer suas aspirações globais — era transparente. O que Stálin tinha de avaliar era até que ponto essas aspirações afetariam sua posição. Uma China militarmente poderosa seria uma espada de dois gumes: um tremendo recurso para o campo comunista — e para ele —, mas também uma ameaça em potencial. Stálin precisava de tempo para meditar. Deveria oferecer alguma coisa a Mao? Se oferecesse, o que seria e quanto?
Mao foi mandado para uma das datchas de Stálin, devidamente grampeada, a 27 quilômetros de Moscou. Durante dias, não houve reunião de continuação. Mao foi deixado a ver pela janela o jardim coberto de neve e descarregou sua raiva no staff. Stálin mandou vários subalternos para visitá-lo, mas eles não tinham poder para discutir negócios. Na verdade, sua função era, como disse Stálin a Mólotov, “descobrir que espécie de sujeito” era Mao, e controlá-lo. Quando Kovaliov relatou que o líder chinês estava “contrariado e ansioso”, Stálin respondeu: “Temos muitos visitantes estrangeiros aqui neste momento. O camarada Mao não deve ser objeto” de um tratamento excepcional.
Mas, na verdade, Mao foi objeto de um tratamento especial — um mau tratamento — exatamente em relação a esses “visitantes”. Ele estava ansioso para se encontrar com líderes comunistas de outros países, e eles estavam igualmente interessados em conhecê-lo — o homem que acabara de triunfar naquilo que poderia ser chamado de uma segunda Revolução de Outubro. Mas Stálin o impediu de se encontrar com qualquer um deles, exceto com o apagado húngaro Mátyás Rákosi. Mao pediu para ver o comunista italiano Palmiro Togliatti, “mas”, contou ele a uma delegação de comunistas italianos (depois da morte de Stálin), “Stálin conseguiu, com mil estratagemas, negar-
me isso”. c
Para a cerimônia de comemoração do aniversário, em 21 de dezembro, Mao vestiu a máscara obrigatória e cinejornais registraram-no aplaudindo Stálin com expansividade. Este, por sua vez, pareceu solícito com o visitante, a quem sentou à sua direita na plataforma, e o Pravda noticiou que Mao foi o único orador estrangeiro para quem a plateia ficou de pé no final do discurso. No espetáculo que se seguiu, Mao foi saudado com uma ovação “como o Bolchoi indiscutivelmente nunca havia visto”, observou Rákosi, com a plateia gritando “Stálin, Mao Tse-tung!”. Mao respondeu no mesmo tom: “Viva Stálin! A glória pertence a Stálin!”.
Terminada a cerimônia, no dia seguinte Mao exigiu uma reunião com o líder russo. “Não estou aqui apenas para o aniversário”, explodiu com Kovaliov. “Estou aqui para tratar de negócios!” E usou uma linguagem expressiva: “Estou aqui só para comer, cagar e dormir?”.
Desse trio de funções corporais, nenhuma delas estava livre de problemas. No front da comida, Mao manifestou seu descontentamento com o fato de que seus anfitriões estavam oferecendo peixe congelado, que ele detestava. “Só comerei peixe fresco”, disse ao seu staff. “Joguem isso de volta para eles!” Defecar era um grande problema, pois Mao, além de sofrer de constipação, não conseguia se adaptar ao vaso sanitário com pedestal, preferindo se agachar. E também não gostou do colchão macio russo, nem dos travesseiros: “Como se pode dormir nisso?”, reclamou, socando os travesseiros de penas. “A cabeça desaparece!” Mandou trocá-los por seus próprios travesseiros, preenchidos com cascas de trigo-sarraceno, e fez com que substituíssem o colchão por pranchas de madeira.
Mao encontrou-se com Stálin dois dias depois, em 24 de dezembro, mas o Chefe não quis discutir seus pedidos relativos ao poder militar da China e só falou sobre a questão em que não haviam tocado na primeira reunião: o papel de Mao em relação a outros partidos comunistas, como os do Vietnã, do Japão e da Índia. Depois de testar o apetite de Mao por território, Stálin silenciou novamente por dias, período em que aconteceu o aniversário de 56 anos do próprio Mao, em 26 de dezembro, que passou em brancas nuvens. Este ficou todo o tempo confinado na datcha, tratando de assuntos internos por telegrama. Disse depois que fez “uma tentativa de telefonar-lhe em seu apartamento, mas me disseram que Stálin não estava em casa e recomendaram que eu me encontrasse com Mikoian. Tudo isso me ofendeu”. Stálin ligou para Mao algumas vezes, mas os telefonemas foram curtos e irrelevantes. Mao recusou convites para visitar pontos turísticos, dizendo que não estava interessado e que viera a Moscou para trabalhar. Se não havia trabalho a fazer, então preferia ficar na datcha e dormir. Estava frustrado e furioso; em certos momentos, para seus assistentes mais próximos, tinha a aparência de “desolado”.
Parece que ele decidiu então jogar “a carta Ocidente” para incitar Stálin a agir. Deixou vazar, inclusive falando alto em sua residência grampeada, que estava “preparado para negociar com [...] Inglaterra, Japão e Estados Unidos”. E, ao contrário do que dissera a Stálin ao chegar em Moscou (que não ia “correr para ser reconhecido” pela Grã-Bretanha), entabularam-se conversações com os britânicos, que levaram Londres a reconhecer o regime de Mao em 6 de janeiro de 1950. Entrementes, a imprensa britânica noticiou que Stálin colocara o líder chinês em prisão domiciliar; esse “vazamento” pode ter sido plantado pelos homens de Mao. É “possível”, disse ele mais tarde, que essa mudança de posição na política em relação ao Ocidente tenha ajudado “na mudança de posição de Stálin”, observando que as verdadeiras negociações “começaram logo depois disso”.
No ano-novo de 1950, Stálin já havia tomado sua decisão. Em 2 de janeiro, o Pravda publicou uma “entrevista” com Mao, que, disse ele sarcasticamente anos depois, Stálin havia “redigido para mim, como se fosse meu secretário”. O texto preparado pelo Chefe deixava clara sua disposição para assinar um novo tratado; para Mao, isso significava que ele estava pronto para tratar da questão central de transformar a China numa grande potência militar. Mao chamou então Chou En-lai de Pequim, junto com seus principais dirigentes da indústria e do comércio, para cuidar dos detalhes das negociações, especificando que Chou não deveria viajar de avião, mas de trem, por razões de segurança. Chou teria de usar um avião russo e Mao indicava que estava tomando precauções.
Mas ele não estava disposto a engolir o tratamento que lhe fora dispensado sem dar um troco a Stálin. A oportunidade logo se apresentou quando, em 12 de janeiro, o secretário de Estado americano Dean Acheson fez um discurso no National Press Club, em Washington, acusando a Rússia de “separar as províncias setentrionais da China [...] e [...] anexá-las à União Soviética”, com o processo “completo” na Mongólia Exterior, “quase completo” na Manchúria e em andamento na Mongólia Interior e em Xinjiang. Stálin mandou seu homem de confiança Mólotov dizer a Mao que ele deveria refutar o discurso em nome do Ministério do Exterior chinês e que a Mongólia e a União Soviética fariam o mesmo. Mao concordou, mas, em vez de uma refutação do Ministério do Exterior, escreveu um texto em nome de seu chefe de imprensa, uma figura relativamente menor. O artigo se referia ao satélite soviético da Mongólia Exterior, que era formalmente independente, junto com regiões chinesas, o que parecia estar dizendo que a China não aceitava a anexação de facto do território pela Rússia.
Na noite de 21 de janeiro, dia em que esse artigo apareceu no Diário do Povo, principal jornal chinês, Stálin arrastou Mao até o Kremlin para passar-lhe uma descompostura, que incluía a acusação de que estava surgindo “o Tito” da China. A reprimenda foi feita principalmente por seu fiel lacaio Mólotov, na presença de Béria. Stálin fez questão de que a cena se passasse diante de Chou En-lai, que chegara no dia anterior. Mao ficou lívido, embora, para ele, Chou fosse uma espécie de eunuco e, entre seus colegas, aquele que ele menos se importava que testemunhasse a repreensão.
Depois de castigá-lo, Stálin convidou Mao e Chou para jantar em sua datcha. O líder russo sabia que seu colega chinês não estava em condição de reclamar a Mongólia Exterior, pois Pequim a reconhecera diplomaticamente em outubro de 1949. O comportamento insubordinado de Mao era antes uma expressão de ressentimento do que uma declaração política (embora Stálin tenha exigido ainda uma troca oficial de notas quanto à situação da Mongólia). A caminho do jantar, Stálin e Shi Zhe, o intérprete de Mao, sentaram-se nos bancos dobráveis do carro, deixando o assento principal para Mao e Chou. Shi Zhe relembrou que ficaram todos em silêncio e que o ar estava pesado como chumbo:
Para aliviar a tensão, conversei um pouco com Stálin e depois lhe perguntei: “Você não prometeu visitar nossa
delegação?”.
Ele respondeu de imediato: “Prometi, e não abandonei a ideia”. Antes que ele terminasse de falar, o presidente Mao me perguntou: “O que você está conversando com ele?
Não o convide a nos visitar”.
Admiti logo que estava justamente falando disso com ele. O presidente Mao disse: “Recue. Nada de convites”.
[...] Silêncio de novo. O ar estava pesado, como se tivessem posto mais chumbo nele. Ficamos assim por
trinta minutos.
[...] A atmosfera no jantar também foi fria e tediosa [...] O presidente ficou em silêncio, sem dizer uma
palavra [...]
Para quebrar o gelo, Stálin levantou-se para ligar o gramofone [...] Embora três ou quatro homens tenham
se revezado para tentar fazer o presidente Mao dançar, eles não conseguiram [...] A coisa toda acabou com
mau cheiro [...]
Os dois lados assinaram finalmente um novo tratado em 14 de fevereiro de 1950. O texto publicado era uma formalidade. A essência do tratado estava em anexos secretos. O empréstimo de 300 milhões de dólares que a China pedira foi confirmado, embora fosse distribuído ao longo de cinco anos, e, da parcela do primeiro ano, a China recebeu de fato apenas um terço (20 milhões), sob a alegação de que o resto era devido por “compras” passadas. O empréstimo inteiro foi alocado para compras militares da Rússia (no círculo íntimo de Mao era chamado de “empréstimo militar”). Metade do total emprestado estava reservada para a Marinha. Stálin deu sinal verde para cinquenta projetos industriais de larga escala, muito menos do que Mao queria.
Em troca, Mao concordou que a Manchúria e Xinjiang fossem designadas como esferas de influência soviética e a Rússia tivesse acesso exclusivo a suas “atividades industriais, financeiras e comerciais”. Como essas duas regiões imensas eram as principais áreas com conhecidos recursos minerais ricos e exploráveis, Mao estava efetivamente entregando a maior parte dos recursos comerciáveis do país. Para seu círculo íntimo, ele mesmo chamava as duas províncias de “colônias”. Para os americanos, décadas depois, disse que os russos “se apoderaram de metade de Xinjiang. Chamava-se esfera de influência. E Manchukuo [sic] também foi chamado de esfera de influência deles”. Mao deu à Rússia o monopólio de todo o “excedente” de tungstênio, estanho e antimônio por catorze anos, privando assim seu país da chance de vender cerca de 90% de suas matérias-primas comercializáveis no mercado mundial, até meados da década de 1960.
Em 1989, o líder pós-Mao Deng Xiao-ping disse ao líder soviético Mikhail Gorbatchov: “De todas as potências estrangeiras que invadiram, oprimiram e escravizaram a China desde a Guerra do Ópio (em 1842), o Japão causou o maior dano; mas, no fim das contas, o país que mais benefícios tirou da China foi a Rússia czarista, inclusive [sic] a União Soviética durante um certo período”. Deng referia-se certamente a esse tratado.
Mao esforçou-se muito para esconder o quanto o tratado era entreguista. Quando revisou o texto do seu anúncio, apagou cuidadosamente frases como “acordos suplementares” e “apêndice”, que poderiam fazer o povo suspeitar da existência desses documentos secretos, marcando os trechos apagados com um “extremamente crucial,
extremamente crucial!”. d
Por insistência de Stálin, a China não somente pagou salários enormes aos técnicos soviéticos em atividade no país, além de amplos benefícios para eles e suas famílias, como teve de pagar compensações a empresas russas pela perda dos serviços dos técnicos que foram para lá. Mas a concessão que Mao estava mais ansioso para esconder era a que eximia os russos da jurisdição chinesa. Essa era a questão que o PCC sempre apresentara como a encarnação da “humilhação imperialista”. Agora, o próprio Mao a introduzia secretamente.
Mao queria concluir bem sua viagem, então convidou Stálin, que não comparecia a festas fora do Kremlin, para uma celebração que ele estava oferecendo no Metropol Hotel, na noite da assinatura do tratado: “Esperamos que possa comparecer por um minuto. Você pode sair a qualquer momento”. Stálin decidiu conceder a Mao esse momento de glória. Quando ele apareceu, às nove da noite, trazendo a própria garrafa, os estupefatos convidados ficaram frenéticos.
Mas Stálin não compareceu apenas para demonstrar boa vontade. Ele tinha uma mensagem a transmitir. Em seu brinde, mencionou o líder iugoslavo Tito, que havia recentemente sido expulso do campo comunista. Qualquer país comunista que seguisse seu caminho próprio, observou ele, acabaria mal e só retornaria ao aprisco com um líder diferente. A advertência era clara — e teria sido ainda mais ameaçadora se fossem conhecidos os planos de Stálin para matar Tito.
Nada disso amorteceu as ambições de Mao. Um pouco antes, naquele mesmo dia, na cerimônia de assinatura do tratado, quando estavam tirando fotografias, Stálin, que era baixo, dera um passo à frente. Para seu staff, o líder chinês comentou depois, com um sorriso: “Assim ele vai parecer tão alto quanto eu!” (Mao tinha um metro e oitenta de altura).
Mao estava resolvido a perseguir seu sonho de fazer da China, sua base, uma superpotência. Stálin estava igualmente determinado a frustrar essa ambição, como Mao pôde deduzir diante do relativamente pouco que conseguiu do líder russo em troca das imensas concessões que havia feito. O que Stálin deixou que ele levasse estava muito aquém do esqueleto de uma máquina militar de classe mundial. Mao teria de encontrar outras maneiras de arrancar mais de Stálin.
a Chou usou a expressão “cortina de ferro” para descrever o que o PCC queria: “Trabalhar para ter a Manchúria coberta pela cortina de ferro contra as potências estrangeiras”, “exceto a União Soviética e as democracias populares”.
b Foi também uma fonte da ideia equivocada e duradoura de que Liu Shao-chi era mais linha-dura do que Chou.
c Nas anotações do líder comunista britânico John Gollan do que Mao lhe disse em 1957 (sobre 1949), lê-se: “Nem mesmo liberdade de encontrar líderes. 70o aniversário — Não ousei, embora lá”.
d Em março de 1950, quando uma notícia mencionou companhias conjuntas, Liu Shao-chi observou que ela “provocou ondas tremendas entre os estudantes de Pequim, que suspeitaram que [...] poderiam ser danosas para a soberania chinesa. Muitos membros da Liga da Juventude exigiram uma [...] explicação; alguns até acusaram em voz alta [...] que o governo popular havia vendido o país”. E isso sem saber a metade da coisa.