Mao: a história desconhecida

Jung Chang e Jon Halliday · Capítulo 34 de 69

Páginas do PDF

Mao: a história desconhecida

Parte V

 

No encalço do sonho de superpotência

32. A rivalidade com Stálin

 

(1947-49; 53-55 anos)

 

Antes mesmo de conquistar a China, Mao já estava de olho no mundo mais amplo. E começou a tomar providências assim que a vitória surgiu no horizonte da guerra civil.

Ele esperava repetir o enorme sucesso de relações públicas que tivera com Edgar Snow e Estrela vermelha sobre a China, que havia sido um êxito excepcional para o mundo comunista. Mas, nesse meio-tempo, Snow fora banido por Moscou e Mao teve de se contentar com uma jornalista americana de segunda classe chamada Anna Louise Strong, que não tinha nada da influência global de Snow e era conhecida como lacaia.

Em 1947, Mao enviou Strong em excursão mundial para promovê-lo. Deu-lhe documentos com o pedido de que ela os repassasse “para os partidos comunistas do mundo”. Em particular, queria que “os mostrasse aos líderes partidários nos Estados Unidos e na Europa ocidental”, mas esclarecia que não “achava necessário que ela os

levasse a Moscou”. a

Strong cumpriu a proposta e produziu um artigo intitulado “O pensamento de Mao Tse-tung” e um livro chamado Dawn out of China [A aurora nasce na China]. Eles continham encômios como a alegação de que a grande obra de Mao “foi mudar o marxismo de uma forma europeia para asiática [...] em relação a todos os tipos de problemas [...] de um modo que nem Marx nem Lênin poderiam sonhar”; que “toda a Ásia aprenderá com [a China] mais do que aprenderá com a União Soviética”; e que as obras de Mao “influenciaram provavelmente muito as últimas formas de governo em partes da Europa do pós-guerra”. Essas afirmações pisavam firme nos calos de Stálin. Não surpreende que a publicação do livro tenha sido obstruída na Rússia e que o PC americano tenha exigido que metade dele fosse expurgada. A versão integral foi publicada na Índia e, o que é mais significativo, em vários países da Europa oriental, inclusive a Iugoslávia.

Promover Mao em nível internacional sem o endosso de Stálin, sugerir que ele aperfeiçoara Stálin e podia oferecer mais do que o líder soviético era fazer pouco do Kremlin. Mas para Mao já estava claro que ia precisar dar umas cotoveladas para consolidar sua influência. E ele agora era bastante influente.

Havia também sinais de que Stálin estava preparado para ceder algum território. Em setembro de 1947, ele montou uma nova organização chamada Birô de Informação Comunista (Cominform), que incluía somente partidos europeus. Isso deixou aberta a possibilidade de um agrupamento asiático separado. Em novembro, semanas depois da criação do Cominform, e enquanto ainda vagueava perto de Yenan, Mao mudou o nome de seu séquito para “Unidade Ásia”.

 

Stálin continuava totalmente comprometido com o apoio a Mao, mas tomou medidas para contê-lo e lembrá-lo de quem era o chefe.

Em 30 de novembro de 1947, quando passou a confiar que venceria a guerra civil em breve, Mao propôs a Stálin uma visita sua à Rússia. Este concluiu que a visita seria o veículo ideal para fazê-lo suar. Seu gabinete respondeu com um telegrama positivo em 16 de dezembro. O dr. Orlov, que recebeu o telegrama, tinha obviamente ordens de Stálin para relatar em detalhes as reações de Mao. No dia seguinte, informou que ele estava “extremamente satisfeito”, “bastante animado” na verdade, e “disse de pronto: ‘Muito bom, posso ir [em] três meses’”.

Três meses se passaram, sem sinal de um convite de Stálin. Mao levantou a questão de novo em 22 de abril de 1948, um dia depois que o PCC retomou Yenan; ele comunicou a Orlov que pretendia partir entre 4 e 5 de maio. Dessa vez, Stálin disse “sim”. Mao pediu para levar consigo os dois médicos russos, supostamente por motivos de saúde, mas, na verdade, para evitar que alguns de seus colegas se comunicassem com os russos durante sua ausência. Stálin concordou. Mao também queria visitar a Europa oriental, uma proposta que Stálin claramente não apoiou.

Em 10 de maio, dias depois da data que Mao sugerira, Stálin adiou subitamente a visita. E, enquanto a primavera se transformava em verão, não chegavam sinais de renovação do convite. Mao estava ansioso para partir. Na época, estava com seus colegas no QG do partido, em Xibaipo, e todos sabiam que ia a Moscou para ver Stálin. A impressão era que partiria a qualquer minuto. Um sinal disso era que nada fora feito com os sapos que perturbavam seu sono. Via de regra, qualquer animal barulhento, como galinhas e cães, era posto “sob controle” sempre que Mao permanecia em um lugar. Seus guarda-costas propuseram usar dinamite para silenciar os sapos, que coaxavam alegremente em um lago cheio de juncos. O plano não foi executado porque se supunha que Mao ficaria pouco tempo em Xibaipo. Ele sentiu necessidade de afastar qualquer impacto negativo do atraso e tomou providências para que sua bête noire Wang Ming sofresse outro “acidente” médico. Em 25 de junho, aplicaram em Wang Ming uma lavagem com o desinfetante lisol, o que arruinou seus intestinos.

Em 4 de julho, Mao telegrafou a Stálin: “Decidi visitá-lo num futuro próximo”. Marcou a data da partida para dez dias depois — “Partiremos de qualquer modo por volta do dia 15 deste mês” — e disse a Stálin que era “necessário mandar dois aviões de transporte (de passageiros)”.

No dia 14, véspera da data marcada por Mao, em vez de um avião, Stálin mandou um telegrama ao dr. Orlov, adiando a visita para o inverno:

Diga a Mao Tse-tung o seguinte: tendo em vista o começo da colheita de grãos, altas autoridades do partido

estão partindo para as províncias em agosto e lá permanecerão até novembro. Portanto, o Comitê Central

solicita ao camarada Mao Tse-tung que adie sua visita a Moscou para o final de novembro, a fim de ter a

oportunidade de se encontrar com todos os camaradas da direção do partido.

 

Esse pretexto era claramente ridículo. Orlov informou que Mao “escutou com um leve sorriso”, dizendo “ótimo, ótimo”. Mas perguntou: “‘É possível [...] que na União Soviética atribuam tanta importância à colheita de grãos que os principais líderes do partido [...] partam para acompanhá-la?’. Conheço Mao há mais de seis anos e, se o entendi bem, seu sorriso e as palavras hao, hao (ótimo, ótimo) [...] de forma alguma indicam que ficou contente [...] Miélnikov [o outro médico russo] me contou que em 15 de julho Mao Tse-tung lhe fez pergunta semelhante sobre a colheita. [...] Ele [Mao] estava confiante de que partiria exatamente agora. [...] Evidentemente, a visita tornou-se necessária para ele [...] [Suas] malas já estão prontas, além dos sapatos de couro que foram comprados [...] e um sobretudo de lã que foi feito”.

Ficou claro para Mao que Stálin estava aborrecido com ele e o estava enrolando em relação à viagem. Ele tratou de corrigir a situação, começando pelo culto da própria personalidade. Em 15 de agosto, vetou o novo programa da Universidade do Norte da China “para estudar principalmente o Mao Tse-tung-ismo”, dizendo: “Não há benefício, só dano”. Também mudou a expressão “Pensamento de Mao Tse-tung” para “marxismo-leninismo” em documentos. A promoção de suas formulações a “pensamento” não caíra bem com Stálin: a imprensa soviética jamais mencionou o “pensamento” de Mao e riscou a expressão quando publicou documentos do PCC que a continham.

Por fim, com o outono chegando, em 28 de setembro Mao mandou um telegrama de tom surpreendente, no qual se dirigia a Stálin chamando-o de “Chefe” e implorava: “É essencial apresentar-se pessoalmente ao [...] Chefe [...] Espero sinceramente que eles [o partido soviético e Stálin] deem instruções a nós”.

Stálin havia mostrado quem era o chefe. Mao se humilhara. Tendo demonstrado o que queria, o líder russo respondeu em 17 de outubro, num tom distante mas tranquilizador, confirmando a viagem para “o final de novembro”. Mao estava agora suficientemente confiante para responder pedindo um breve adiamento. A primeira rodada da punição de Mao por Stálin, por acalentar ambições fora da China, estava terminada.

 

Mao havia piscado primeiro. Mas ele também mantinha-se firme diante de Stálin quando seus interesses fundamentais estavam envolvidos. No último estágio da guerra civil, antes de Chiang Kai-shek fugir para Taiwan, Nanquim pediu um cessar-fogo e paz em 9 de janeiro de 1949. Stálin instruiu Mao a responder e dizer que o PCC “apoia negociações”. Mao ficou furioso (“falou de maneira mais ríspida”, relatou Orlov a Stálin). O líder russo, numa atitude pouco característica, mandou outro telegrama no dia seguinte, em que tentava se reposicionar e alegava que sua proposta fora puramente tática, para dar a impressão de que os nacionalistas eram os responsáveis pela continuação da guerra: “Nosso plano para sua resposta [...] está projetado para solapar as negociações de paz”.

Na opinião de Mao, os nacionalistas não deveriam ter um dia de paz, mesmo em nome das aparências. Ele comunicou a Stálin que queria “a rendição incondicional do governo de Nanquim [...] não precisamos mais tomar qualquer desvio político”. Pela primeira vez, Mao indicou a Stálin o que ele deveria dizer: “Pensamos que você deveria dar a seguinte resposta” aos nacionalistas, que haviam pedido a mediação dos russos. Mao havia ganhado uma vantagem definitiva em relação ao russo, que foi notada no Kremlin: um dos principais assessores de Stálin para a China nos confirmou que a equipe dele achara que o chefe fora “duramente censurado” por Mao em termos inequívocos.

Stálin contra-atacou no dia seguinte, 14 de janeiro, com uma longa peroração, dizendo a Mao que recusar conversações era ruim do ponto de vista de relações públicas e acenando com o espectro da intervenção estrangeira. Mao não acreditava que isso fosse provável, mas encontrou uma maneira de manter sua posição e ao mesmo tempo satisfazer Stálin: divulgou uma lista de condições para conversações de paz que equivaliam a uma rendição incondicional. Depois, com astúcia, citou Stálin de volta: “Quanto à linha básica (solapar as conversações de paz com os nacionalistas, para continuar a guerra revolucionária até o fim), estamos em perfeito acordo”. Stálin dobrou-se no dia seguinte: “Chegamos a um acordo completo [...] Portanto, a questão está encerrada”.

Stálin parece ter ficado impressionado. Foi logo depois disso que comentou com líderes iugoslavos e búlgaros que Mao era insubordinado, mas bem-sucedido. O líder chinês havia defendido sua posição com firmeza — e eficácia. Assim, em 14 de janeiro, quando Stálin “insistiu” para que Mao adiasse sua viagem a Moscou uma vez mais, aparentemente estava sendo sincero ao dizer “porque sua presença na China é essencial”. Em lugar da viagem, ele se ofereceu para mandar um membro “com autoridade” do Politburo para vê-lo “imediatamente”.

A primeira reação de Mao a mais esse adiamento foi de irritação. Seu secretário lembrou de tê-lo visto jogar o telegrama na mesa dizendo: “Que assim seja!”. Mas, pensando bem, percebeu que Stálin estava, na verdade, conferindo-lhe uma honra, pois nunca enviara um membro de seu Politburo a uma zona de guerra para visitar um partido comunista envolvido numa guerra civil, que, ademais, era contra um governo com o qual Moscou mantinha relações diplomáticas. Em 17 de janeiro, Mao respondeu “dando muito boas-vindas” à visita de um enviado de Stálin.

O enviado era Anastas Mikoian, velho confidente de Stálin. Ele chegou ao QG de Xibaipo em 30 de janeiro, trazendo dois especialistas em neutralizar bombas de efeito retardado e equipamentos de escuta clandestina. Mao “ficou extremamente satisfeito”, relatou Mikoian, “e agradeceu ao camarada Stálin por seus bons cuidados”. Com Mikoian chegou o ex-ministro das ferrovias Ivan Kovaliov, que consertara as vias férreas da Manchúria e que seria agora o contato pessoal de Stálin com o líder chinês.

Mao demonstrou sua autoconfiança de imediato. No dia seguinte à chegada de Mikoian, o governo nacionalista se mudou de Nanquim para Cantão. O único embaixador que acompanhou os nacionalistas foi o soviético, Róshchin. Em 1 o e 2 de fevereiro, Mao ausentou-se da reunião com Mikoian, numa exibição de ressentimento, e Chou En-lai foi orientado a pedir uma explicação. Mikoian descreveu a atitude do embaixador como “bastante natural” e disse que ela “não causaria de forma alguma

prejuízo à nossa causa comum, mas, ao contrário, a facilitaria”.b Mao não foi aplacado e Stálin sabia disso. Pouco depois, este tentou explicar a Liu Shao-chi, o segundo em comando de Mao, que a medida fora tomada para reunir informações. Mas Mao continuou insatisfeito e descarregou seu descontentamento sobre Róshchin quando Stálin o enviou de volta à China para ser o primeiro embaixador soviético junto ao governo comunista. Quando o russo ofereceu seu primeiro jantar ao Politburo chinês, Mao ficou sem dar uma palavra durante toda a noite, exibindo o que um diplomata russo descreveu como “uma atitude de zombaria e indiferença”.

Durante a visita de Mikoian, Mao controlou seu aborrecimento. Para espanto do enviado russo, ele não se queixou do tratado de 1945 da Rússia com Chiang Kai-shek, pelo qual o Kremlin voltou a ter concessões extraterritoriais; chegou mesmo a chamá-lo de “patriótico”. Mao queria muito de Stálin. Sua lista de compras começava com o pedido de um empréstimo de 300 milhões de dólares — exclusivamente para propósitos militares — e continuava com uma ampla variedade de armas, inclusive tanques pesados e artilharia antiaérea, mais consultores para a reorganização do Exército. Ainda mais importante era a ajuda de longo prazo para montar fábricas que produzissem seus próprios aviões, tanques e outras armas pesadas. Mao queria que Stálin ajudasse a transformar a China em uma grande potência militar.

Stálin acabara de expulsar o líder iugoslavo Tito do campo comunista. Tito demonstrara independência demais e uma inclinação a montar uma esfera de influência própria. Em mensagem anterior a Stálin, Mao se referira à experiência do iugoslavo, colocando-a aparentemente ao lado da Rússia como um modelo possível, e recebera uma reprimenda em troca. Agora, Mao dizia a coisa certa sobre Tito e até louvava uma velha crítica que Stálin fizera do nacionalismo iugoslavo, em 1925. Era seu esforço para tranquilizar Stálin de que ele não seria outro Tito.

Mao também fez questão de deixar claro para Mikoian o quanto se considerava um subordinado de Stálin. Ao brindar à saúde do líder russo, “enfatizou que [...] Stálin era [...] o mestre do povo chinês e dos povos de todo o mundo”, relatou Mikoian ao seu chefe. Mao “enfatizou várias vezes que era um discípulo do camarada Stálin” e “estava esperando instruções [...] e deliberadamente rebaixou seu papel [...] como líder e teórico [...] [dizendo] que ele [...] não dera contribuição nova ao marxismo etc.”. Mas o astuto Mikoian não se deixou lograr e disse a Stálin: “Isso não corresponde ao que Mao Tse-tung é na realidade, nem ao que ele pensa de si mesmo”.

Com efeito, quando Mikoian levantou a questão da “coordenação” entre os partidos comunistas da Ásia, Mao já tinha um plano pronto, que era criar um Cominform asiático, que ele se propunha a organizar assim que terminasse a conquista da China. Queria que o grupo fosse composto de “vários” outros partidos asiáticos, listando os coreanos, indochineses e filipinos, para começar.

Mikoian apresentou então a oferta de Stálin, que restringia Mao ao quintal imediato da China, dizendo que ele deveria “chefiar” um birô de partidos do Leste asiático, que teria a princípio apenas três membros: China, Japão e Coreia. “Mais tarde”, disse ele, outros “poderiam também ser envolvidos gradualmente.”

Stálin estava concedendo algum terreno. Ao mesmo tempo, dava um sinal para que Mao não avançasse demais. No dia seguinte à conversa sobre território, Stálin enviou a Mikoian um telegrama muito enfático, em que o instruía a mandar Mao prender um americano que trabalhava com o PCC chamado Sidney Rittenberg — “como espião”. Stálin ligou Rittenberg a Anna Louise Strong, a americana que Mao mandara ao exterior para promovê-lo; de acordo com Stálin, Strong também era uma espiã americana. (Mikoian disse que Stálin lhe dera ordens especiais para checar “espiões” americanos e ingleses nos círculos próximos à liderança do PCC.) Rittenberg foi devidamente preso.

Strong estava naquele momento detida em Moscou, sem obter um visto para a China. Em 13 de fevereiro, um dia depois que Mikoian voltou a Moscou e se encontrou com Stálin, ela foi jogada na prisão de Lubianka. Fato incomum, sua prisão, sob a acusação de “espionagem”, foi noticiada no Pravda do dia seguinte, o que tornava a advertência mais enfática para Mao e para os regimes comunistas satélites. Pouco tempo depois, após ter sido deportada, Strong escreveu a um intermediário do PCC: “Por favor, diga ao presidente Mao [...] que, tanto quanto eu consegui saber, foi minha pesquisa demasiado persistente no caminho da China [sic] que os russos finalmente atacaram como sendo ‘espionagem’”.

Um dos contatos de Strong em Moscou era Mikhail Borodin, principal agente de Stálin na China na década de 1920, que vinha tentando ajudá-la a publicar na Rússia o livro que promovia Mao. Duas semanas depois da detenção de Strong, Borodin também foi preso e torturado para dar informações sobre o líder chinês.

Embora essas prisões fossem tiros de advertência para Mao, ele ficou tranquilo. Stálin estava dizendo: não se meta com a América, ou a Europa. Mas Mikoian já lhe prometera o Leste asiático. Mao estava agora demarcando território com Stálin. Assim, foi com bom humor que pensou em voz alta sobre esse tema numa plenária pré-vitória do Comitê Central, em 13 de março de 1949.

Nessa reunião, seu antigo contestador Wang Ming, que então já aceitara a derrota, tratou de bajulá-lo dizendo que o pensamento de Mao era “o [...] desenvolvimento do marxismo-leninismo em países coloniais e semicoloniais”. Não na Ásia oriental, ou simplesmente na Ásia, mas em todos os “países coloniais e semicoloniais”.

Wang Ming expressava o que Mao tinha em mente e ele ficou tão satisfeito que se deixou levar pelo entusiasmo: “A frase do camarada Wang Ming desprende um cheiro de dividir um ‘mercado’. Os países coloniais e semicoloniais ocupam uma parte muito grande do mundo. Depois que eles caírem sob nosso controle, isso não significa que Stálin se encarregaria apenas das regiões industriais desenvolvidas, e [o resto do mundo] fica sob nossa responsabilidade [...]?”. Persistindo no plural majestático, continuou: “dizemos que os países coloniais e semicoloniais nos pertencem. Mas e se um deles não comprar nossa mercadoria e for direto a Moscou? [...] Evidentemente, não tenhamos pressa em pensar tão grande; cuidemos da China primeiro”.

Mao começava a sonhar em dividir o mundo com Stálin.

 

Stálin evidentemente concluiu que, se permitisse a Mao o controle sobre até mesmo uma limitada fatia de seu território, seu poder ficaria ameaçado. Assim, quando Liu Shao-chi visitou a Rússia naquele verão e delicadamente mencionou o tema, perguntando-lhe se a China poderia entrar para o Cominform, obteve uma amostra da sua melhor dissimulação. “Penso que isso não é realmente necessário”, retrucou Stálin. Em vez disso, a China deveria “organizar uma união dos partidos comunistas do Leste asiático”. Mas essa aparente confirmação de sua oferta anterior foi seguida por um adendo: “Uma vez que a União Soviética é um país situado tanto na Europa como na Ásia, ela participará dessa união”. O Chefe de forma alguma estava recuando.

Como antes, Stálin fez advertências agudas a Mao, prendendo toda uma série de agentes que haviam trabalhado na China. Enquanto Liu se encontrava em Moscou, muitos dos principais agentes russos que haviam estado com Mao tiveram o mesmo destino de Borodin nas celas de tortura: o dr. Orlov foi chamado de volta e selvagemente torturado pelo chefe da KGB Victor Abakúmov em pessoa. Orlov foi acusado de conexões com “o espião americano e japonês Mao”. A prisão de Orlov foi informada a Mao, pois os russos fizeram contato com Shi Zhe, intérprete de Liu e assistente do líder chinês, e lhe pediram para dar a notícia sobre Orlov. Eram sinais de que Stálin estava preparando o terreno para denunciar Mao como espião ou titoísta, se

viesse a ser oportuno fazê-lo. c

Stálin mostrava as garras. Mas Mao não estava com medo e mostrou seus músculos numa questão de grande importância para ele: a primeira reunião internacional comunista marcada para se realizar em Pequim, sua nova capital. Tratava-se de uma imensa conferência sindical que seria o trampolim para pôr Mao no mapa mundial, pois, além de cobrir toda a Ásia, abrangia a Oceania, um continente capitalista avançado. Era também uma reunião altamente política, mais parecida com uma conferência internacional de partidos comunistas do que com uma convenção de sindicatos. Stálin namorou a ideia de bloqueá-la, ou de mudá-la de lugar, mas Mao fez Liu insistir que ela “deveria se realizar na China na época prevista”. Liu prometeu que “não se efetuaria nenhum trabalho de organização”, ou seja, que Mao não tentaria explorar a reunião para montar sua própria rede internacional.

Em 16 de novembro de 1949, quando se iniciou a conferência, Mao acabara de fundar seu regime, em 1 o de outubro. No discurso de abertura, Liu proclamou “o caminho de Mao Tse-tung” e não mencionou Stálin nem o modelo russo uma única vez. O tema da conferência era a tomada do poder via “o caminho de Mao Tse-tung” em toda a Ásia — e além: “O caminho que o povo chinês trilhou é o caminho que os povos de muitas regiões coloniais e semicoloniais deveriam atravessar”. Liu foi categórico: “É impossível para os revolucionários [...] dessas regiões evitar tomar [essa] estrada [...] [e] estarão errados se assim o fizerem”. “As lutas armadas”, disse ele, “devem ser a principal forma de luta.”

Isso era coisa séria e o que se seguiu mostrou o quanto Mao havia avançado. Quando o delegado russo reclamou que o discurso de Liu era de “ultraesquerda”, Stálin denunciou seu próprio representante como “vira-casaca”. O infeliz delegado, Leonid Soloviov, foi obrigado a admitir o erro numa reunião presidida por Mao. Era a primeira vez que isso acontecia: um russo importante pedia-lhe desculpas diante de seus colegas. Mao então pediu, com magnanimidade, que Stálin “perdoasse” Soloviov.

Com mais ousadia ainda, Mao descumpriu o compromisso de que não haveria atividade de organização na conferência. Em 23 de novembro, Liu Shao-chi anunciou que seria criado um birô de contato, em Pequim, por meio do qual os países participantes “podem estabelecer seus laços”. Mao preparava-se para dar ordens a comunistas estrangeiros. Stálin deixou passar.

Mao sabia que o Chefe não ia engolir tudo isso quieto. Alguma punição certamente haveria. Mas ele agora possuía a China e, com ela, um quarto da população mundial. Havia aumentado significativamente o alcance e o peso do campo comunista como um todo. Stálin não podia se dar ao luxo de repudiá-lo. Mao pretendia forçar Stálin a ajudá-lo a levar adiante suas ambições globais.

 

a Nos Estados Unidos, o PCC tinha sua própria gente operando dentro do Partido Comunista americano e uma poderosa rede de espionagem com acesso a informações que não estavam disponíveis para os russos. Quando Moscou denunciou Earl Browder, líder do PC americano e velho auxiliar da China, cujo “Birô da China” secreto tinha ligações próximas com Mao, este continuou a chamá-lo de “camarada”.

b Mao aprendeu com a duplicidade de Stálin a manter uma relação aberta e até aparentemente amistosa com um governo, enquanto tentava secretamente derrubá-lo. Ao assumir o poder, ele copiaria o líder russo em suas relações com outros países.

c Muitos dos agentes de Stálin junto a Mao logo sofreriam mortes incomuns. Orlov morreu pouco depois na queda de um avião. O dr. Miélnikov desapareceu sem deixar rastro depois de acompanhar Mao em sua visita a Moscou, no inverno de 1949-50. Borodin morreu em consequência de torturas em 1951. Vladímirov morreu aos 47 anos, em 1953, assassinado por Lavrenti Béria com um veneno de efeito lento, de acordo com seu filho, o candidato presidencial pós-comunista (e campeão olímpico de levantamento de peso) Iúri Vlássov.