Mao: a história desconhecida

Jung Chang e Jon Halliday · Capítulo 10 de 69

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Mao: a história desconhecida

8. Expurgo sangrento abre caminho para o “presidente Mao”

 

para o “presidente Mao”

 

(1929-31; 35-37 anos)

 

No ano e meio decorrido desde que deixou o território dos bandidos, no início de 1929, Mao assumiu o controle total sobre dois grandes exércitos vermelhos, o Zhu-Mao e o de Peng De-huai, bem como de uma significativa base comunista, em Fujian. Durante todo esse tempo, não perdeu de vista outro exército vermelho de bom tamanho, o de Jiangxi, a província situada entre Fujian e Hunan.

Sob o comando de um líder carismático e relativamente moderado chamado Lee Wen-lin, os comunistas de Jiangxi haviam conquistado alguns bolsões bastante seguros. Haviam recebido calorosamente Mao quando viera pela primeira vez do território dos bandidos, em fevereiro de 1929. Aquela estada fora breve, com as tropas nacionalistas nos calcanhares de Mao, mas mesmo assim ele se declarara prontamente chefe deles e, quando partiu, deixou seu irmão mais moço, Tse-tan, como chefe do distrito de Donggu, o centro dos comunistas de Jiangxi. Nenhuma dessas medidas foi autorizada por Xangai e os militantes locais não ficaram contentes. Mas não resistiram a Mao, pois ele estava indo embora.

Mao esperava que seu irmão assumisse o controle por ele, mas Tse-tan não tinha sua agressividade e sede de poder. Um inspetor do partido disse que ele “trabalhava como alguém que sofre de malária, subitamente quente e subitamente frio [...] um tanto infantil e temeroso de tomar decisões”. Então, três meses depois, Mao enviou o companheiro de Hunan Lieu Shi-qi, com autoridade sobre seu irmão.

Lieu tirou de Tse-tan não apenas sua posição, mas também a namorada, com quem se casou. A mulher em questão, Ho Yi, era irmã da esposa de Mao, Gui-yuan, e assim Lieu tornou-se cunhado dele. Tal como Mao, era “mal-humorado e de boca suja”, de acordo com seus camaradas, com tantos cotovelos e poucos escrúpulos quanto ele. Quando Mao retornou ao Jiangxi Vermelho para tentar consolidar seu domínio, em fevereiro de 1930, Lieu já contava com vários postos de liderança.

Mao voltou porque agora tinha força militar suficiente para tentar tomar o poder em Jiangxi, mas uma vez mais o fez lançando mão de tramoias. Uma pretensiosamente denominada “conferência conjunta”, que, supõe-se, compreenderia representantes de todos os comunistas de Jiangxi, foi convocada para um lugar chamado Pitou. Então, no último minuto, Mao alterou o cronograma. Depois de anunciar que a conferência se abriria no dia 10 de fevereiro, ele a antecipou de repente para o dia 6. Assim, quando delegados importantes chegaram, inclusive muitos que vinham resistindo a Lieu, a conferência já havia acabado.

Na verdade, a “conferência conjunta” de Pitou foi pouco mais que um assunto de família entre os dois cunhados e deu o devido endosso para que Mao se tornasse o suserano do Jiangxi Vermelho, com Lieu no papel de seu representante no local. Lee Wen-lin, o líder dos comunistas de Jiangxi, foi rebaixado para uma função burocrática.

A maioria dos comunistas de Jiangxi se opôs a essas decisões e Mao teve de apelar ao terror para silenciá-los. Em Pitou, ordenou a execução pública de quatro populares comunistas locais, que foram acusados de “contrarrevolucionários”. Foram os primeiros comunistas assassinados por ele cujos nomes são conhecidos.

Mao e o cunhado Lieu utilizaram as execuções para calar possíveis dissidentes. Um inspetor do partido relatou na época que Lieu constantemente “explodia em agressões selvagens [...] dizendo coisas do tipo ‘vou mandar executá-lo!’”. Uma acusação em particular, usada para mandar matar, era a mesma empregada na Rússia stalinista: que a pessoa era um “camponês rico”, ou “kulak”. Mao afirmava que, em Jiangxi, “as organizações do partido em todos os níveis estão cheias de proprietários e kulaks”, baseado apenas no fato de que a maioria dos líderes do Jiangxi Vermelho vinha de famílias afluentes. Na verdade, ele próprio pertencia a uma família de kulaks. Os comunistas chineses já haviam matado uns aos outros, mas, até então, a maioria dos

assassinatos se devia a conflitos entre pessoas ou clãs, travestidos de rótulos ideológicos.a As matanças de Mao eram motivadas por ambições mais grandiosas.

 

Enquanto urdia suas tramoias em Jiangxi, Mao fazia o máximo para não alertar Xangai, que não lhe concedera nenhum mandato para tomar o Jiangxi Vermelho. Ao contrário, haviam dado ao Exército Vermelho de Jiangxi o estatuto de exército separado, no mesmo nível do Exército Zhu-Mao, e designaram um homem chamado Cai Shen-xi para comandá-lo.

Quando Cai chegou a Jiangxi, Mao negou-se a deixá-lo assumir o posto e simplesmente designou seu cunhado Lieu para comandar o Exército. Conseguiu esconder isso de Xangai porque na época não havia telefone, rádio ou telégrafo. As conexões eram feitas por mensageiros, que levavam várias semanas para ir de Xangai às bases e vice-versa. Temos razões para acreditar que ele e seu cunhado mataram um inspetor não cooperativo do partido chamado Jiang Han-bo e depois falsificaram um relatório para Xangai em nome de Jiang, repetindo a linha de Mao.

O plano de Mao era criar um fait accompli. Até então, vinha escrevendo cartas servis a Xangai. Deixou então de escrevê-las e ignorou várias convocações para ir até lá. Para se livrar da pressão, parece ter chegado ao ponto de espalhar o rumor de que morrera de uma doença. Por ser um “chefe de bandidos” famoso, a notícia recebeu ampla cobertura da imprensa nacionalista, o que era uma maneira conveniente de espalhar uma história de cuja responsabilidade ele poderia se eximir de forma plausível.

A manobra foi um sucesso, no curto prazo. Em 20 de março, apareceu um obituário em Moscou, na revista do Comintern Correspondência da Imprensa Internacional: “Da China chegou a notícia de que o camarada Mau Tze Dung [...] o fundador do Exército Vermelho, morreu no front em Fukien, em consequência de uma longa doença dos pulmões”.

Mas, dentro de quinze dias, Moscou e Xangai descobriram que Mao estava vivo e ativo e que, além disso, assumira o controle do Exército. Em 3 de abril, Xangai emitiu uma circular a todos os exércitos vermelhos, especificando que deveriam obedecer somente a suas ordens. A circular fazia questão de criticar Mao (sem nomeá-lo) por ter tomado o Exército Vermelho de Jiangxi sem autorização.

Quando o documento de Xangai chegou a Jiangxi, em maio, os comunistas locais levantaram-se contra Mao. Em algumas áreas, os quadros estimularam revoltas dos camponeses contra o regime de Mao-Lieu. Antes da chegada de Mao, os comunistas haviam dado atenção a questões como bem-estar e produção, construindo uma fábrica para fazer implementos agrícolas e utensílios para o lar. Mao e Lieu acusaram esses programas de “construcionismo”. Lieu escreveu que “para as necessidades da luta, reduzir a produção é inevitável”. Privados da chance de aumentar a produção e espremidos pelos impostos (que, segundo Lieu sustentava, eles “pulavam de alegria para pagar”), os camponeses se rebelaram em distrito após distrito, levantando slogans como “Deem-nos uma vida tranquila e trabalho tranquilo!”. Lieu esmagou as revoltas impiedosamente: “Assim que alguém for visto hesitando ou se comportando mal, deve ser preso”, ordenou. “Não deve haver sentimentos por parentes ou amigos. Quem quer que venha a sua casa ou a qualquer lugar e não se comporte corretamente [...] vocês devem denunciar [...] às autoridades para que possam ser detidos e punidos.”

Lieu sustentava que as revoltas eram lideradas por “elementos AB [que] se tornaram secretários de seções do partido”. “AB”, que significava “antibolchevique”, era o nome de um grupo nacionalista extinto, que Lieu falsamente ressuscitou para condenar os dissidentes locais. No prazo de um mês, milhares de camponeses e comunistas foram mortos.

Naquele momento, abriu-se uma oportunidade para os comunistas de Jiangxi. No começo de agosto de 1930, Mao e seu exército estavam a centenas de quilômetros de distância, perto de Changsha, tentando tomar o exército de Peng De-huai. Liderados por seu antigo chefe Lee Wen-lin, eles aproveitaram a chance, convocaram uma reunião e demitiram Lieu. Uma plateia turbulenta o vaiou e criticou — e, através dele, Mao — por “pensar somente em poder”, como Lieu admitiu mais tarde a Xangai, “tornando-se senhores da guerra” e “pondo o partido em grande perigo”. Lieu foi denunciado por executar “demasiados” de seus camaradas e por criar “um imenso terror vermelho”.

Os comunistas locais apelaram a Xangai para expulsá-lo do partido. Mas, carentes de instinto assassino, deixaram-no ir para Xangai, que lhe deu um posto em outra base comunista. Lá ele encontrou alguém a sua altura. O chefe dessa base era Chang Kuo-tao, indivíduo tão maligno quanto Mao, que perpetrou sua própria matança, durante a qual Lieu foi morto. Depois da partida de Lieu, sua esposa voltou para Tse-tan, tornando-se duplamente cunhada de Mao.

Com a saída de Lieu, Mao perdeu seu homem em Jiangxi. Depois que terminou o cerco a Changsha, voltou para retomar o controle — e se vingar. A caminho, em 14 de outubro, denunciou os comunistas de Jiangxi a Xangai: “O partido inteiro [de lá] está sob a liderança de kulaks [...] cheio de ABs [...] Sem um expurgo completo dos líderes kulaks e dos ABs [...] não há como o partido possa ser salvo”.

Foi justamente nesse momento que Mao soube que Moscou lhe dera a promoção máxima, fazendo dele o chefe do Estado futuro. Sua perseguição agressiva do poder lhe granjeara apreciação. Agora que tinha a bênção de Moscou, decidiu começar um expurgo de larga escala, livrar-se de todos os que haviam se oposto a ele e, no processo, gerar um tal terror que ninguém mais ousaria desobedecê-lo a partir de então. Xangai não estava em condições de controlá-lo, pois em meados de novembro irrompeu uma luta feroz entre sua liderança, provocada por um membro relativamente desconhecido chamado Wang Ming, que em anos vindouros se tornaria um importante desafiador de Mao.

 

No final de novembro, Mao começou o massacre. Ordenou que todas as tropas se reunissem no centro do território vermelho, de onde seria difícil escapar. Ali, afirmou que fora descoberta uma aliança AB na seção sob o comando de Peng De-huai — que, de fato, continha indivíduos que haviam resistido ao controle de Mao. Começaram as prisões e execuções. Um interrogador descreveu, em suas memórias não publicadas, como um oficial que havia liderado uma tentativa de sair do redil de Mao foi torturado: “As feridas em suas costas pareciam escamas de peixe”.

Mao também tinha contas a ajustar com o Exército Zhu-Mao, pois o haviam demitido do comando no ano anterior. Muitos oficiais comunistas tinham reservas em relação a ele, manifestadas na carta que um deles, chamado Liou Di, escreveu para Xangai em 11 de janeiro de 1931: “Nunca confiei em Mao”. Após uma batalha, “me encontrei com muitos oficiais de diferentes unidades do Exército [...] Eles estavam todos apreensivos e pareciam desanimados. Disseram que não sabiam que para trabalhar no Partido Comunista era preciso ser delator e que desse modo não valia a pena. Achei a mesma coisa e considerei que o espírito bolchevique do partido estava sendo solapado dia após dia”. Mao foi acusado do “crime de incriminar falsamente e perseguir camaradas” e de “ser um intrigante perverso”, como ele admitiu a Xangai em 20 de dezembro de 1930.

Para comandar o expurgo, Mao usou um aliado chamado Lie Shau-joe, considerado “maldoso e sujo” por seus companheiros. Um inspetor do partido escrevera que “a maioria da tropa não gosta de Lie porque ele é todo bravatas antes da batalha, mas covarde na luta”. As pessoas que trabalhavam sob seu comando vinham implorando ao partido para “demiti-lo e puni-lo”.

Lie começou com a prisão de poucos indivíduos e utilizou a tortura para fazê-los dar o nome de outros; vieram então mais prisões, mais tortura e mais adversários de Mao denunciados. De acordo com um oficial graduado, Lie e seus homens “simplesmente anunciavam: ‘Há ABs entre vocês’, e nomeavam pessoas [...] nenhuma outra prova era apresentada; essas pessoas [...] eram torturadas e forçadas a admitir [que eram ABs] e também a dar os nomes de dezenas de outras pessoas. Assim, essas pessoas eram presas e torturadas e davam muitos outros nomes”.

Em 20 de dezembro, Mao escreveu pessoalmente a Xangai para dizer que no espaço de um mês “mais de 4400 ABs tinham sido descobertos pelo Exército Vermelho”. A maioria foi morta — e todos foram torturados, Mao reconheceu. Argumentou que, se as vítimas não conseguiam suportar a tortura e faziam confissões falsas, isso provava que eram culpadas. “Como é possível que revolucionários leais façam confissões falsas para incriminar outros camaradas?”, perguntava ele.

Depois de apertar o controle sobre o Exército, voltou sua atenção para os comunistas de Jiangxi. Em 3 de dezembro, enviou Lie com uma lista de seus adversários à cidade de Futian, onde moravam os líderes da província. Mao denunciou a reunião de agosto, que havia expulsado seu aliado Lieu, como uma “reunião de ABs” que se “opunha a Mao Tse-tung”. “Derrube todos eles”, ordenou, e depois “massacre em massa em todos os condados e todos os distritos.” “Qualquer lugar que não prenda e massacre, os membros do partido e do governo daquela área devem ser ABs, e você pode simplesmente prender e dar um trato neles [xun-ban, implicando tortura e/ou extermínio].”

Lie chegou a Futian em 7 de dezembro, prendeu os homens que estavam na lista de Mao e os torturou durante a noite. Um método chamava-se “acertar minas terrestres”, pelo qual o polegar era quebrado lentamente, com dor excruciante. Outra técnica, também lenta, para maximizar a dor era queimar as vítimas com pavios acesos. Lie foi particularmente perverso com as esposas dos líderes de Jiangxi. Elas foram despidas e, de acordo com um protesto escrito logo depois do acontecido, “seus corpos, em particular suas vaginas, foram queimados com pavios acesos e seus seios cortados com pequenas facas”.

Essas atrocidades provocaram uma revolta, a primeira a desafiar Mao abertamente. Seu líder foi o já mencionado oficial Liou Di, que era de Hunan e o conhecia havia alguns anos. Devido à sua origem, Mao quisera anteriormente alistá-lo ao seu lado para ajudar a controlar parte do Exército de Jiangxi. Em 9 de dezembro, Lie convocou Liou Di, primeiro dizendo que ele fora identificado como AB e depois prometendo deixá-lo livre se ele colaborasse.

Em uma carta enviada a Xangai depois da revolta, Liou Di descreveu o que aconteceu. Ele viu os torturadores empanturrando-se num banquete de “bebidas, carnes e presuntos”, enquanto suas vítimas jaziam a seus pés, e escutou Lie vangloriar-se sobre torturar “alegremente, de bom humor”, sob elogios dos outros. Empolgado, Lie deixou escapar que a coisa toda não era “uma questão de ABs, mas tudo política”. “Cheguei à firme conclusão de que tudo aquilo não tinha nada a ver com o AB”, escreveu Liou. “Deve ser Mao Tse-tung fazendo jogadas e mandando seu assecla Lie Shau-joe aqui para massacrar os camaradas de Jiangxi.”

Liou Di decidiu tentar deter Mao, mas teve de empregar um subterfúgio: “Se eu agisse como um comunista e tratasse com eles com honestidade, só a morte me aguardaria. Então deixei de lado minha integridade [...] e, adotando um sotaque de Changsha [para mostrar que não era de Jiangxi], disse a Lie: ‘Sou um subordinado antigo de Vossa Senhoria [...] Darei o melhor de mim para obedecer a suas instruções políticas’”. Ele também prometeu fidelidade a Mao. “Depois que eu disse isso, a atitude deles mudou de imediato [...] Eles me disseram para esperar numa pequena sala ao lado.” Naquela noite, deitado ali numa cama, escutando através da parede os gritos de um camarada torturado, Liou Di planejou o que iria fazer.

Na manhã seguinte, bajulou Lie ainda mais e conseguiu obter a liberdade. Lie mandou-o voltar e “eliminar logo todos os ABs de seu regimento”. Ao retornar, Liou Di contou aos seus companheiros oficiais o que vira e escutara e obteve o apoio deles. Na manhã do dia 12, reuniu suas tropas, atacou a prisão de Futian e soltou as vítimas. Por não ser um assassino, não perseguiu os asseclas de Mao que escaparam. Não obstante, Lie foi morto depois por um vingador.

Naquela noite, surgiram cartazes em Futian que diziam “Abaixo Mao Tse-tung!” e, na manhã seguinte, realizou-se um comício anti-Mao. À tarde, os homens de Jiangxi deixaram a cidade e atravessaram o rio Gan para ficar longe do alcance de Mao. Expediram uma circular com esta descrição de Mao:

Ele é extremamente trapaceiro e dissimulado, egoísta e cheio de megalomania. Com seus camaradas, é

mandão, aterroriza-os com acusações de crimes e os sacrifica. Raramente realiza discussões sobre assuntos do

partido [...] Sempre que expressa uma opinião, todos devem concordar, senão usa a organização do partido

para dar um aperto em você, ou inventa algumas teorias fabricadas para tornar-lhe a vida absolutamente

terrível. [...] Mao sempre usa acusações políticas para atingir camaradas. Seu método costumeiro em relação

aos quadros é [...] usá-los como instrumentos pessoais. Em resumo, [...] ele nem é um líder revolucionário,

nem é [...] bolchevique.

 

O objetivo de Mao, diziam eles, era se “tornar imperador do partido”.

Porém, um enviado de Xangai estava presente e disse-lhes que parassem de denunciar Mao em público, porque ele tinha “uma reputação internacional”. Eles obedeceram de imediato e confiaram seu destino a Xangai: “Devemos relatar os objetivos malévolos de Mao Tse-tung e seu massacre do partido de Jiangxi ao centro, para que o centro resolva”, disseram aos seus soldados.

Os delegados que enviaram a Xangai eram pessoas que haviam sido torturadas pelos homens de Mao. Lá, elas apresentaram à liderança do partido provas difíceis de impugnar: suas cicatrizes da tortura. Além disso, disseram que Mao “não obedeceu às instruções [da liderança]. Ele [...] ignorou camaradas enviados pelo centro e criou deliberadamente problemas para eles [...] O centro escreveu várias vezes para tentar transferir Mao Tse-tung, mas ele simplesmente ignorou as cartas”.

Mas os enviados de Moscou e a liderança de Xangai, encabeçada por Chou En-lai, apoiaram Mao, ainda que soubessem que as acusações contra ele eram verdadeiras e houvessem visto as marcas de tortura com os próprios olhos. Chou disse ao agente de Moscou, o polonês Rylsky, que “as prisões e torturas de membros de nosso partido [...] realmente ocorreram”. Mas, no mundo stalinista, um expurgador era sempre o

vitorioso,b pois Moscou estava em busca dos indivíduos mais duros. Os comunistas de Jiangxi, embora leais ao partido, foram rotulados de “contrarrevolucionários” e receberam ordens de se submeter a Mao ou enfrentar uma “luta armada implacável”, ou seja, a aniquilação. Mao estava “fundamentalmente correto”, disse Moscou, acrescentando que “essa linha de luta implacável contra os inimigos da revolução deve [continuar]”. Esse foi outro marco na carreira de Mao: ele obteve o apoio de Moscou para matar seus camaradas, que não haviam feito absolutamente nada de errado em relação ao partido. Não haviam matado ou ferido um único membro do partido, enquanto Mao havia pisoteado todas as regras partidárias.

Xangai chegou mesmo a mandar a denúncia contra Mao para o próprio — uma sinalização de que ele estava livre para puni-los da forma que desejasse. Sobre esses relatórios de partir o coração, alguém anotou com linhas finas e compridas: “Depois de traduzir [para o russo], devolver para Mao”. Ou simplesmente: “Para Mao”. Essas palavras foram escritas pelo chefe do Departamento de Organização, Kang Sheng. Homem esbelto, de bigodes e óculos de aros de ouro, conhecedor da arte erótica chinesa, com um olho igualmente perspicaz para o grau de dor produzido pela tortura e o tormento, Kang ficaria tristemente famoso mais tarde como perseguidor nomeado de Mao. Naquela ocasião, com essas palavras indiferentes, e contudo sinistras, ele entregou as vítimas a Mao — e à morte certa.

Com o encorajamento de Xangai, Mao mandou “processar” e executar Liou Di e seus companheiros de revolta. Antes da execução, eles foram exibidos pela área dos comunistas como advertência. Representantes de todas as regiões da base foram trazidos para assistir às execuções.

O Jiangxi Vermelho foi devastado, como revelou um relatório secreto posterior: “Todo trabalho foi interrompido a fim de massacrar ABs”. “Todos viviam com medo [...] No pior dos casos, duas pessoas conversando eram suspeitas de ser ABs [...] Todos os que não eram diabólicos para atacar ABs eram tratados como ABs.” A tortura horrorosa era lugar-comum: “Há tantos tipos [...] com nomes estranhos como [...] ‘sentar numa cadeira do prazer’, ‘beber sapos’, ‘macacos segurando uma corda’. Em alguns, enfiaram o cano incandescente da arma no ânus [...] Só no condado da Vitória, houve 120 tipos de tortura”. Em uma delas, chamada com inventividade doentia de “anjo tangendo cítara”, um arame enfiado no pênis e preso à orelha da vítima era dedilhado pelo torturador. Havia também formas horríveis de matar. “Em todos os condados”, dizia o relatório, “houve casos em que abriram a barriga e arrancaram o coração.”

No total, dezenas de milhares morreram em Jiangxi. Somente no Exército, foram em torno de 10 mil mortes — cerca de um quarto de todo o Exército Vermelho sob o comando de Mao na época —, como revelou o relatório secreto feito imediatamente depois. Foi o primeiro expurgo em larga escala no partido, e ocorreu antes do Grande Expurgo de Stálin. Esse episódio crítico — de certa forma, o momento formador do maoísmo — é encoberto ainda hoje. A responsabilidade e os motivos pessoais de Mao, assim como sua extrema brutalidade, continuam a ser tabu.

Em Fujian, os comunistas locais também se rebelaram contra Mao, expulsando pelo voto seus seguidores em julho de 1930, enquanto ele e seu exército estavam ausentes. Muitos milhares foram então executados; o número, levando em conta apenas aqueles cujos nomes são conhecidos e que foram depois oficialmente inocentados, é de 6352. Em um condado, as vítimas a caminho da execução foram puxadas pelas ruas com arames enferrujados atravessados nos testículos. Apavorado e totalmente desiludido, o líder do Fujian Vermelho fugiu na primeira oportunidade, quando foi enviado a Hong Kong para comprar remédios. Foi apenas um dos muitos comunistas veteranos que desertaram. Outro foi o filho adotivo de facto de Peng De-huai.

 

Logo após o motim contra Mao, os comunistas de Jiangxi haviam apelado para o apoio de Zhu De e Peng: “Camaradas, nosso partido será para sempre tão perverso e sombrio?”. Esses dois não gostavam de Mao. Uma noite, depois de muito vinho de arroz, Zhu disse a um velho amigo: “Muitos camaradas antigos [...] foram mortos no expurgo. Você sabe quem é o homem responsável pela morte deles”. O amigo sabia que ele se referia a Mao e disse isso em suas memórias. Segundo ele, Zhou teria dito: “O incidente de Futian foi inteiramente causado pelo massacre de ABs pelo velho Mao. Tantos camaradas foram mortos...”. Zhu “parecia imensamente triste”. Porém, ele e Peng se mantiveram ao lado de Mao. Xangai e Moscou estavam por trás dele, e ficar com os comunistas de Jiangxi significaria afastar-se do partido. Mao assentara as bases para enquadrar Zhu e Peng. Havia expurgado o staff de Zhu De e executado dois ajudantes de ordens de Peng. Também não seria difícil para ele coagir alguma vítima de tortura a fazer acusações contra Zhu e Peng. Uma mensagem que chegou ao chefe da espionagem russa na China sugeria que “Peng pode estar envolvido” com o AB.

Mao não apenas chantageava os comandantes militares, como tratava de fazer com que sujassem as mãos com o sangue de camaradas. Ordenou que Zhu participasse do júri que sentenciou Liou Di à morte.

Zhu e Peng não enfrentaram Mao por um outro motivo. Naquele momento, em dezembro de 1930, Chiang Kai-shek acabava de vencer a guerra contra seus rivais nacionalistas e estava lançando uma “expedição de aniquilação” contra os comunistas. Zhu e Peng preocupavam-se com o Exército Vermelho e temiam que uma divisão pudesse selar seu destino. A atitude deles era diferente da de Mao. Durante esse ataque de Chiang e os subsequentes, em 1931, ele jamais sustou o expurgo e, quando o Generalíssimo fez uma pausa, redobrou sua matança interna — ainda que as pessoas que estava matando tivessem acabado de retornar da luta contra Chiang.

A impiedade de Mao produziu uma política eficaz contra Chiang. Tratava-se de “atrair o inimigo bem para dentro da zona vermelha e atacar quando ele estivesse exausto”. Mao argumentava que, como os nacionalistas não estavam familiarizados com o terreno, as condições deveriam favorecer os comunistas. Uma vez que havia pouquíssimas estradas, as tropas nacionalistas teriam de confiar em suprimentos locais, e, como os comunistas controlavam a população, estes poderiam privar o inimigo de comida e água. O plano de Mao era forçar toda a população a enterrar seus alimentos e artigos domésticos, bloquear todos os poços com pedras enormes e retirar-se para as montanhas, de tal modo que o exército de Chiang não pudesse encontrar água ou comida, nem trabalhadores e guias. A estratégia transformava a base vermelha em um campo de batalha, impondo privações colossais a toda a população, a quem Mao jogou na insegurança.

Poucos líderes comunistas concordavam com Mao, mas sua estratégia funcionou. Um comandante nacionalista lamentou depois que, em todos os lugares, “não vimos gente, as casas estavam esvaziadas como por uma enchente, não havia comida, potes, panelas [...] Não conseguíamos nenhuma informação militar”. Chiang refletiu em seu diário: “A dificuldade de aniquilar os bandidos [comunistas] é maior do que uma grande guerra, porque eles lutam em seu território e podem obrigar a população a fazer o que eles querem”.

Contudo, não foi a estratégia brutal de Mao que decidiu a vitória dos vermelhos. O que realmente fez pender a balança foi a ajuda russa — embora isso continue virtualmente desconhecido. Moscou montou um grupo de assessoria militar de alto nível na União Soviética para planejar estratégias e um comitê militar em Xangai, com assessores russos e de outras nacionalidades (especialmente alemães). A ajuda fundamental veio do serviço secreto militar soviético, o GRU, que tinha uma rede de mais de cem agentes na China, em geral chineses dentro de repartições nacionalistas próximas do Exército Vermelho, cuja principal função era fornecer informações para os comunistas chineses. No início de 1930, Moscou havia enviado para dirigir sua operação

em Xangai um oficial brilhante, o meio alemão, meio russo Richard Sorge. c O principal golpe de Sorge foi se infiltrar no grupo de assessores militares alemães do QG de Chiang, graças ao descontentamento da esposa de um deles, Stölzner, que roubou os códigos nacionalistas, inclusive aqueles usados para comunicações entre o comando geral e as unidades em campo. Essa informação dos espiões russos deu a Mao uma vantagem incalculável. O PCC também tinha seus próprios agentes trabalhando no coração do setor de informações nacionalista. Um deles, Qian Zhuang-fei, se tornou secretário confidencial do chefe da espionagem nacionalista U. T. Hsu e desempenhou um grande papel no sucesso de Mao.

Essas redes de inteligência forneceram a Mao informações precisas sobre os movimentos do exército de Chiang. Em 30 de dezembro de 1930, duas semanas depois do início da expedição, Mao usou 40 mil soldados e civis para montar uma emboscada contra 9 mil soldados nacionalistas. No dia anterior, ele soubera exatamente quais unidades estavam vindo e quando. Mao esperou a partir do amanhecer em um pico distante, enquanto a neblina envolvia as montanhas, e depois observou a ação em meio a folhas de bordo, algumas ainda vermelhas nas árvores e outras caídas no chão coberto de geada. Ao sol da tarde, gritos entusiasmados vindos de baixo anunciaram-lhe a vitória. A maior parte das tropas nacionalistas havia simplesmente erguido as mãos em rendição e o comandante nacionalista fora capturado. O general foi exibido numa assembleia de massa, na qual Mao falou e, sob sua orientação, a multidão gritou: “Cortem a cabeça dele! Comam sua carne!”. A cabeça do general foi então cortada e despachada rio abaixo presa numa porta, com uma pequena bandeira branca dizendo que era “um presente” para seus superiores.

Essa emboscada acabou com a primeira expedição de Chiang, que rendeu ao Exército Vermelho armas e prisioneiros, além de rádios e operadores de rádio. O prestígio de Mao aumentou. Poucos tinham ideia do papel essencial desempenhado pela inteligência russa, bem como pelo dinheiro, os remédios e as armas enviados pela Rússia. Mao solicitara até gás venenoso.

Em abril de 1931, tropas nacionalistas voltaram para uma segunda “expedição de aniquilação”. De novo, foram frustradas pela tática de “atrair o inimigo para bem dentro da área vermelha”, e de novo Moscou forneceu ajuda e informações fundamentais, dessa vez incluindo um poderoso rádio transmissor-receptor obtido em Hong Kong e técnicos russos em rádio. Para essa campanha, Mao conseguiu interceptar as comunicações do inimigo.

No começo de julho, porém, Chiang Kai-shek em pessoa comandou uma enorme terceira expedição de 300 mil soldados e modificou sua tática, de tal forma que foi muito mais difícil para Mao usar sua vantagem nas informações para montar emboscadas. Além disso, dessa vez as forças do Generalíssimo eram dez vezes maiores do que as de Mao e conseguiram ficar e ocupar as áreas para as quais foram “atraídas”. O Exército Vermelho viu-se impossibilitado de retornar. Dentro de dois meses, a base vermelha foi reduzida para poucas dezenas de quilômetros quadrados e os homens de Mao estavam à beira do colapso.

Mas Chiang não continuou a pressionar. Mao foi salvo pelo ator mais improvável: o Japão fascista.

 

Em 1931, o Japão aumentou seu enclave na Manchúria, no nordeste da China. Diante de ameaças nos dois extremos de seu vasto país, Chiang se decidiu por uma política de “Estabilidade Interna Primeiro” — resolver o problema dos comunistas antes de enfrentar o Japão. Mas Tóquio torpedeou seu cronograma. Em 18 de setembro, Chiang embarcou em um navio em Nanquim rumo a Jiangxi, para dar um empurrão em seu ataque à base encolhida de Mao. Naquela mesma noite, às dez horas, o Japão invadiu a Manchúria, iniciando de fato a guerra do Pacífico — e a Segunda Guerra Mundial. Chang Hsueh-liang, comandante nacionalista na Manchúria, conhecido como Jovem Marechal, não ofereceu resistência. Mais de sessenta anos depois, ele nos contou o porquê: a resistência teria sido inútil. “Não havia como vencer. Só poderíamos travar uma guerra de guerrilhas, ou fazer uma tentativa caótica [...] A qualidade do Exército chinês não se comparava com a do japonês [...] O Exército japonês era realmente brilhante [...] ‘Não resistência’ [...] era a única política factível.”

Quando Chiang Kai-shek chegou a Jiangxi, no dia seguinte, o Japão já havia ocupado a capital Shenyang (também conhecida como Mukden) e outras cidades importantes da Manchúria, e ele teve de voltar correndo para Nanquim no dia 20 para enfrentar a crise. Não declarou guerra ao Japão porque, tal como o Jovem Marechal, considerava que a resistência armada seria inútil, tendo em vista a avassaladora superioridade militar japonesa. A tática de Chiang foi usar a imensidão de território e efetivos e o terreno difícil da China para ganhar tempo, sabendo que era praticamente impossível para o Japão ocupar e guarnecer todo o país. Nesse ínterim, buscou a intervenção da Liga das Nações. Seu plano de longo prazo era modernizar o Exército, fortalecer a economia e lutar contra os japoneses quando houvesse alguma chance de vitória.

“Essa infelicidade talvez até venha a ser uma bênção disfarçada”, escreveu Chiang em seu diário, “se conseguir unir o país.” Nanquim decidiu imediatamente “suspender o plano de [...] aniquilar os comunistas”, e propôs uma frente unida contra o Japão. O PCC rejeitou a ideia, dizendo que qualquer sugestão de que estivesse disposto a entrar numa frente unida era “ridícula ao extremo”. Conforme a posição dos comunistas, o principal inimigo eram os nacionalistas, e não os japoneses, e seus slogans deixavam isso muito claro: enquanto bradavam “Abaixo os nacionalistas”, diziam apenas “Contra os imperialistas japoneses”. A “tarefa central” do partido era descrita como “defender a União Soviética com armas” (seguindo a linha de Moscou de que a invasão japonesa da Manchúria era um prelúdio para o ataque à União Soviética).

Desde então, a História foi completamente reescrita e o mundo passou a acreditar que o PCC era mais patriótico e disposto a lutar contra o Japão do que os nacionalistas — e que foram os comunistas que propuseram a frente unida. Tudo isso é falso.

Quando apresentou sua ideia de uma frente unida contra o Japão, Chiang retirou suas tropas da zona de guerra de Jiangxi. Os vermelhos aproveitaram a oportunidade para recuperar o território perdido, expandir-se e criar seu próprio Estado.

Em 7 de novembro de 1931, no 14 o aniversário da Revolução Russa, esse Estado foi proclamado. Embora não tenha sido reconhecido por nenhum outro país, nem mesmo por seu patrocinador, a União Soviética, era o único regime comunista do mundo fora do bloco comunista, que se constituía então de Rússia e Mongólia.

Esse Estado era composto por várias regiões comunistas pontilhadas em torno do centro do país, nas províncias de Jiangxi, Fujian, Hunan, Hubei, Henan, Anhui e Zhejiang. No máximo, seu território total cobria cerca de 150 a 160 mil quilômetros

quadrados, com uma população de mais de 10 milhões de habitantes. d Na época de sua fundação, o maior enclave era a “Área da Base Central”, a região em que Mao atuava, que consistia no Jiangxi Vermelho e no Fujian Vermelho, abrangendo cerca de 50 mil quilômetros quadrados, com uma população de 3,5 milhões. Moscou a escolhera para sede do governo comunista mais de um ano antes, tendo por capital a cidade de Ruijin.

Moscou também designou Mao chefe de Estado, com o título muito pouco chinês de presidente do Comitê Executivo Central. Ele era também “primeiro-ministro”, sendo presidente do órgão chamado Comitê Popular. Na noite em que os postos foram anunciados, um companheiro foi visitar Mao. Esse homem havia torturado pessoalmente Lee Wen-lin, o líder do Jiangxi Vermelho que Mao mais odiava, e depois lhe relatara os detalhes. Vinha agora se congratular com ele. “Mao zhu-xi — Presidente Mao!”, exclamou. “Você aprende realmente depressa”, respondeu Mao. “Você é o primeiro.” Esse torturador foi a primeira pessoa a usar o título que se tornaria parte do vocabulário mundial: “presidente Mao”.

 

a No território dos bandidos, o primeiro chefe do condado comunista de Ninggang foi morto, em setembro de 1928, por seus companheiros comunistas, sete meses depois de ter sido escolhido num comício em que seu antecessor nacionalista fora morto com golpes de lança. O homem que Mao deixou encarregado da área também foi morto numa vingança sangrenta, nove meses depois de sua partida. Ele mandara torturar e executar a bela e jovem esposa de um funcionário do partido, sob a acusação de ser uma agente do inimigo. Foi depois morto sob a mesma acusação.

b Mesmo quando o expurgo tinha efeitos contraproducentes. Um relatório de 1932 da Federação do Trabalho (comunista) dizia que os trabalhadores estavam “simplesmente apavorados” de entrar para sindicatos comunistas: “Eles viram que a maioria [sic] dos trabalhadores [que eram] membros do sindicato foi executada [isto é, por seus próprios camaradas], sob a acusação de pertencer ao AB”.

c Depois famoso como o espião que, em 1941, deu a Stálin a informação vital de que o Japão não iria atacar o extremo leste soviético quando Hitler invadiu a Rússia europeia. Uma das auxiliares de Sorge era Zhang Wen-qiu, cujas duas filhas depois se casaram com os dois filhos sobreviventes de Mao. Ela chamara a atenção de Sorge graças a Agnes Smedley, uma agente americana do Comintern.

d Graças ao controle dos territórios vermelhos, o número de membros do partido subiu para 120 mil em 1931, dos 18 mil que tinha no final de 1926.