Mao: a história desconhecida

Jung Chang e Jon Halliday · Capítulo 53 de 69

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Mao: a história desconhecida

51. Medo da guerra

 

(1969-71; 75-77 anos)

 

Mao havia apresentado a Revolução Cultural como uma medida para livrar a China dos “revisionistas” de estilo soviético. Então, quando se preparava para declarar vitória e inaugurar seu regime pós-expurgo no IX Congresso, em abril de 1969, ele procurou um símbolo de triunfo sobre a União Soviética. Pensou então num confronto armado pequeno e controlado com a Rússia, um choque de fronteira.

Muitos conflitos haviam acontecido ao longo dos 7 mil quilômetros de fronteira sino-soviética. Para o local de sua batalha, Mao escolheu uma pequena e desabitada ilha chamada Zhenbao (Damanski, em russo), no rio Ussuri, na fronteira nordeste. Era uma escolha esperta, pois o direito da Rússia à ilha estava longe de estabelecido.

Em 2 de março, usando uma unidade de elite especialmente treinada e equipada, os chineses montaram uma emboscada que deixou 32 russos mortos e entre cinquenta e cem chineses feridos ou mortos. Os soviéticos levaram para o local artilharia pesada e tanques e, na noite de 14 para 15 de março, ocorreu um confronto muito maior, em que eles dispararam mísseis que penetraram vinte quilômetros no território chinês. Cerca de sessenta russos e pelo menos oitocentos chineses foram mortos. Um especialista em fotografia da CIA disse que o lado chinês do Ussuri foi “tão bombardeado pela artilharia soviética que parecia uma ‘paisagem lunar’”. Os russos estavam obviamente levando a sério o choque.

A ferocidade da retaliação surpreendeu Mao e ele, preocupado, disse ao seu círculo íntimo que havia uma possibilidade de invasão russa. Ordenou então que seu exército parasse imediatamente com a luta e não fizesse nada, mesmo que os russos continuassem a bombardear.

Uma semana depois, a velha linha telefônica direta entre Moscou e Pequim tocou inesperadamente. Era o premiê soviético Alexei Kosíguin, que pedia para falar com Mao ou Chou En-lai. Na ocasião, China e Rússia quase não tinham contatos diplomáticos havia três anos. O operador recusou-se a completar a ligação, dizendo na quarta tentativa que não podia aceitar uma chamada para o presidente Mao “daquele canalha revisionista Kosíguin”. No dia seguinte, os chineses detectaram movimentos de tropas russas perto da ilha em disputa. Mao mandou o Ministério do Exterior informar Moscou que estava “pronto para realizar negociações diplomáticas” — ou seja, que não queria uma guerra. Ele estava especialmente assustado com a possibilidade de um ataque aéreo de surpresa ao IX Congresso, que deveria se iniciar em Pequim dentro de dez dias e ao qual não tinha alternativa senão comparecer.

Assim, o congresso se reuniu em condições de sigilo extraordinárias, mesmo para os padrões ultrassecretos do regime. O evento só foi anunciado depois que havia terminado e os 2 mil delegados e auxiliares ficaram presos nos hotéis com as cortinas fechadas e proibidos de abrir as janelas que davam para as ruas. Em vez de serem levados direto do hotel para o Grande Salão do Povo, os delegados tiveram de dar voltas de ônibus pela cidade, antes de serem entregues ao local do congresso sub-repticiamente, aos poucos. No dia da abertura, 1 o de abril, quando Mao deveria comparecer, tomaram providências para que o salão tivesse a aparência de que nada estava acontecendo. Cortinas espessas escondiam o fato de que as luzes estavam acesas (a sessão só começou às cinco da tarde) e que o prédio estava cheio de gente.

Mao tinha motivos para estar alarmado. Alguns meses antes, em 13 de agosto de 1969, os russos haviam atacado milhares de quilômetros a oeste, na fronteira entre o Casaquistão e Xinjiang, onde tinham vantagens logísticas avassaladoras. Dezenas de tanques e veículos blindados russos entraram na China, cercando e destruindo tropas chinesas.

Mao não tinha defesas eficazes contra os tanques russos, caso decidissem atacar Pequim. Sempre confiara no tamanho da China e de sua população como garantia contra quem quisesse invadir. Mas desde que Malinovski sondara seus companheiros sobre livrar-se dele, no final de 1964, a ideia de uma investida rápida dos russos contra sua capital, em coordenação com seus oponentes internos, não saíra da sua cabeça. Ele havia emitido uma ordem: “Elevem montanhas, caso elas não existam”, e havia gastado uma fortuna em dinheiro e trabalho construindo “montanhas” para bloquear os tanques russos. Cada uma delas deveria ter entre vinte e quarenta metros de altura, entre 250 e quatrocentos metros de comprimento e entre 120 e 220 metros de largura. Terra e pedra vieram de longe e elaboradas obras de defesa foram feitas no seu interior, antes que o projeto fosse abandonado, alguns anos depois. Todos os que viram essas “montanhas” (entre eles, o ex-secretário de Defesa americano e ex-diretor da CIA James Schlesinger) concluíram que eram totalmente inúteis.

Mao preocupava-se também com um ataque nuclear contra suas instalações atômicas. Na verdade, Moscou pensou nessa operação e chegou até a sondar Washington. Mao ficou tão nervoso que rompeu sua regra de evitar todo contato com o Kremlin e concordou que Kosíguin fizesse uma escala em Pequim, em setembro de 1969, na sua viagem de volta do funeral de Ho Chi Minh, em Hanói. O primeiro-ministro soviético ficou confinado ao aeroporto, onde Chou En-lai o encontrou no saguão. A primeira questão que Chou levantou foi sobre um ataque russo, mas não conseguiu extrair um compromisso de Kosíguin de que a União Soviética não atacaria a China. Uma semana depois, quando Chou escreveu para pedir a Kosíguin que confirmasse que os dois países haviam concordado em não lançar um ataque nuclear um sobre o outro, Moscou recusou-se a confirmar o “entendimento” de Chou.

Entrementes, um jornal de Londres publicou um artigo de um jornalista russo ligado à KGB chamado Victor Louis (que fora recentemente o primeiro emissário de Moscou a Taiwan). Louis dizia que o Kremlin estava discutindo o bombardeio do sítio de testes nucleares da China, e planejando estabelecer uma “liderança alternativa” para o PCC.

Mao estava realmente amedrontado. Ele concordara que uma delegação russa fosse a Pequim para negociações sobre a disputa de fronteira. Isso tornou-se também uma fonte de ansiedade. A delegação deveria chegar em 18 de outubro. Mao e seus asseclas temiam que o avião russo pudesse carregar bombas atômicas, em vez de negociadores. Então, ele e Lin Biao saíram da capital para o sul: Mao para Wuhan, no dia 15, e Lin para Suzhou, no dia 17. No dia seguinte, o marechal deixou de fazer sua sagrada sesta para acompanhar o trajeto do avião russo e só foi descansar depois que os russos pousaram.

Pouco antes da chegada deles, Chou En-lai saiu de súbito de sua residência em Zhongnanhai e foi para os abrigos nucleares nas Colinas Ocidentais, onde ficou até fevereiro de 1970. Madame Mao também se escondeu lá, muito provavelmente para ficar de olho em Chou.

Esse medo da guerra durou quase quatro meses. Todo o Exército foi posto em alerta vermelho, o que envolvia 4100 aviões, seiscentos navios e 940 mil soldados. Retomou-se o treinamento militar sério, que estava, em larga medida, suspenso desde o início da Revolução Cultural.

Zhongnanhai foi escavada para fazer um abrigo gigantesco, ligado por túneis largos o suficiente para a passagem de quatro carros lado a lado, que conectavam Tiananmen, o Grande Salão do Povo, o Hospital 305 (construído especialmente para Mao e os líderes mais graduados, com todos os requisitos de segurança, embora ele jamais tenha posto os pés ali), a residência de Lin Biao e o QG militar subterrâneo secreto, nas Colinas Ocidentais. Dezenas de milhões de civis foram convocados para construir abrigos subterrâneos e túneis em todas as cidades, a um custo devastador. Todo esse pavor, deflagrado por um erro de cálculo de Mao, custou caríssimo à China.

No final, o temor não passou de temor, o que restaurou a confiança de Mao em sua velha crença de que nenhum país, inclusive a Rússia, desejaria realmente invadir a China. Para reforçar essa certeza, decidiu apaziguar os russos. Na comemoração do Dia do Trabalho de 1970, fez questão de cumprimentar o principal delegado soviético às conversações sobre fronteira, que estava presente na praça Tiananmen, e lhe disse que queria ser um “vizinho amistoso” da União Soviética, e que não queria guerra. As relações foram restauradas em nível de embaixada e um novo embaixador soviético chegou a Pequim em outubro, o que tornava um ataque russo ainda menos provável.

 

* * *

 

Embora confiante em que não haveria guerra, Mao continuou com a propaganda do medo na China, pois achava que a atmosfera de guerra era vantajosa para o Programa de Superpotência.

Tornar-se uma superpotência continuava a ser o sonho mais caro de Mao. Em parte, foi por isso que realizou o expurgo: para instalar novos executores de ordens que estivessem mais afinados com suas exigências. Depois que o processo se completou, ele começou a acelerar o programa. Para tanto, em agosto de 1970, abriu uma plenária em Lushan, a montanha das nuvens voláteis, onde o Comitê Central se reunira duas vezes antes, em 1959 e 1961, ambas as ocasiões com o mesmo objetivo de fazer avançar o programa, resultando em quase 38 milhões de mortes de fome e excesso de trabalho.

Nas duas ocasiões, Mao encontrara considerável resistência. Dessa vez, seus novos dirigentes mostraram poucos escrúpulos para obedecer a ele, embora seus últimos planos implicassem em investir no programa nuclear para o quinquênio 1971-75 tanto quanto fora gasto nos quinze anos anteriores. Estávamos numa época em que a renda per capita da China era menor do que a da miserável Somália, e a ingestão de calorias, menor do que no regime nacionalista, em 1930. Mas Mao não encontrou oposição. Na verdade, Lin Biao e seus acólitos defenderam que a questão de se o país podia ou não suportar aquele nível de gasto não tinha importância. O novo chefão de Jiangxi, general Cheng Shi-qing, ofereceu-se para entregar anualmente sete vezes mais alimentos do que a província vinha contribuindo, quando o povo de Jiangxi já estava na margem da sobrevivência. Os novos feitores estavam dispostos a coagir a população de uma forma ainda mais violenta.

Mao estava satisfeito. Ao subir a montanha depois de atravessar a planície quente, ansiava por uma nadada. Assim que chegou, tirou a roupa e mergulhou na represa, ignorando a advertência dos guarda-costas de que a água estava muito fria e que ele suara muito. Rindo e fazendo graça, ele nadou por quase uma hora numa água que fez os jovens ao redor dele tiritar. Aos 76 anos, estava em excelente forma. Seu apetite impressionou seu chef e sua governanta. Ainda tinha energia ilimitada.

Mas, naquele momento, os eventos tomaram um rumo inesperado. Mao e Lin divergiram. A estrutura pós-expurgo começou a se desfazer.