Mao: a história desconhecida
11. Como Mao entrou na Longa Marcha
(1933-34; 39-40 anos)
Em setembro de 1933, Chiang Kai-shek mobilizou meio milhão de soldados para mais uma “expedição de aniquilação” — a quinta — contra a base de Ruijin. Em maio, ele fizera uma trégua com os japoneses, cedendo-lhes partes do norte da China, além da Manchúria, e isso o deixou livre para concentrar suas forças contra os comunistas.
Ao longo dos meses anteriores, Chiang construíra estradas sólidas que permitiram a reunião de suas tropas na região e a vinda de suprimentos. Com essa preparação logística, estava em condições de atacar os comunistas. Seus exércitos avançaram então dentro da área da base vermelha lentamente, fazendo frequentes pausas para construir pequenos fortes, tão próximos uns dos outros que podiam virtualmente ser conectados pelo fogo de metralhadoras. Os comunistas foram cercados por esses fortins. Como descreveu Peng De-huai, Chiang estava forçando a área vermelha a “encolher gradualmente: a tática de secar o lago e depois pegar os peixes”.
O Exército Vermelho tinha apenas um décimo da força de Chiang e estava muito menos bem armado. Além disso, os soldados nacionalistas estavam agora muito mais bem treinados, graças ao trabalho de um grande grupo de assessores militares alemães. Em especial, o Generalíssimo obtivera os serviços do homem que desempenhara o papel fundamental na reconstituição secreta do Exército alemão depois da Primeira Guerra Mundial, o general Hans von Seeckt. Então Moscou montou uma rede “alemã” própria para ajudar os comunistas chineses a contrabalançar os assessores de Chiang, enviando o especialista militar Manfred Stern (que ficou famoso mais tarde como o general Kléber da Guerra Civil Espanhola) para ser o principal consultor militar, com base em Xangai. E o alemão Otto Braun foi mandado para Ruijin em setembro, como comandante do Exército de facto em campo.
Em Ruijin, Braun instalou-se na área barricada reservada para os dirigentes do partido, numa casa de sapé no meio de campos de arroz. Conforme relatou, pediram-lhe para “ficar dentro de minha casa o máximo possível para minha segurança como ‘demônio estrangeiro’ e tendo em vista o clamor constante [dos nacionalistas] sobre a presença de ‘agentes russos’”. Deram-lhe um nome chinês, Li De — “Li, o Alemão” — e providenciaram-lhe uma “esposa” cuja qualificação essencial era que “devia ser grande” e “de físico muito forte”, pois supunham que os estrangeiros precisavam de mulheres fortes para dar conta de suas demandas sexuais.
De acordo com a sra. Zhu De (sucessora da esposa que foi executada pelos nacionalistas), cuja informação reflete a fofoca da época, “nenhuma camarada queria se casar com um estrangeiro incapaz de falar chinês. Então, durante algum tempo, eles [o partido] não conseguiram encontrar uma parceira apropriada”. Por fim, toparam com uma jovem e bonita camponesa que fugira do casamento arranjado quando ainda era criança para se incorporar à revolução. Porém, apesar da pressão oficial, ela não aceitou. “Alguns dias depois, recebeu uma ordem: ‘Li De é um camarada importante, enviado para ajudar a revolução chinesa. Ser esposa dele é a necessidade da revolução. A organização decidiu que você vai casar com ele’. Ela obedeceu, com grande relutância [...] eles não se deram bem.”
Nesse seu segundo casamento arranjado, a mulher teve um filho de Braun. O menino tinha pele escura, mais próxima da cor de um chinês do que de uma pessoa branca, o que levou Mao a fazer uma piada: “Então, isso acaba com a teoria da superioridade da raça germânica”.
O homem mais próximo de Braun era Po Ku, o primeiro em importância do partido, que trabalhara com ele em Xangai e podia conversar com o alemão em russo. Eles jogavam cartas com os intérpretes e cavalgavam juntos. Chou En-lai, o segundo em comando e militar mais graduado, também convivia muito com Braun. Mas o alemão tinha pouco a ver com Mao, com quem só se encontrava em funções oficiais. Nessas ocasiões, escreveu Braun, Mao “mantinha uma reserva solene”. Mao não falava russo e mantinha a guarda levantada contra Braun, considerando-o uma ameaça.
Quando chegou a primavera de 1934, a expedição nacionalista já pressionava a base comunista havia cerca de seis meses. Os agentes de Moscou e os líderes do PCC não tinham uma solução para se contrapor à guerra de fortins de Chiang e sua avassaladora superioridade militar. Os líderes comunistas de Ruijin sabiam que os dias da base estavam contados e começaram a planejar a retirada. Em 25 de março, Moscou mandou um telegrama a Ruijin, que foi interceptado pelo setor de informações britânico, dizendo que as perspectivas para a base eram muito ruins — muito piores do que o próprio PCC imaginava. Assim que recebeu essa mensagem, Po Ku começou a tentar tirar Mao de seu caminho. Em 27 de março, Xangai telegrafou a Moscou para dizer que Ruijin “comunica que Mao está doente há muito tempo e pede para ser enviado a Moscou”. Mas ele certamente não estava doente. Po Ku e seus colegas não o queriam por perto, para evitar novos problemas.
O pedido de Ruijin para que buscassem Mao foi rejeitado. Em 9 de abril, Moscou respondeu ser “contra a visita de Mao” porque a jornada, que envolveria a travessia de áreas nacionalistas, seria arriscada demais. “Ele deve ser tratado na região do soviete [ou seja, na área comunista da China], mesmo que isso necessite de grandes custos. Somente em caso de total impossibilidade de tratá-lo no local e de perigo de resultado fatal da doença é que podemos concordar com sua vinda a Moscou.”
Mao não tinha vontade nenhuma de ser mandado embora. “Minha saúde está boa. Não vou a nenhum lugar”, retorquiu a Po Ku, que controlava as comunicações com Moscou. Mas Po logo arranjou outra solução: deixar Mao na retaguarda para defender o forte. Manter o chefe de Estado in situ seria uma maneira perfeita de proclamar que o Estado vermelho estava vivo.
Ninguém queria ficar para trás. Muitos dos que ficaram perderam a vida, em batalha ou capturados e executados. Tse-tan, o irmão mais moço de Mao, foi um deles. Outro foi Ho Shu-heng, o amigo que Mao levara ao I Congresso do PCC. Outro ainda foi Chu Chiu-pai, ex-líder do partido. O segundo da hierarquia que ficou para trás, Chen Yi, sofreu um grave ferimento de granada no quadril. Fez-se conduzir numa maca até Zhu De e implorou, em vão, para ser levado embora. Duas décadas depois, ele relembrou com raiva como a decisão lhe foi comunicada (dando ao mesmo tempo um raro vislumbre de como os líderes do PCC viam os sofismas de seus colegas): “Me passaram a conversa: ‘Você é um funcionário graduado, então devemos levá-lo numa maca. Mas, como vem trabalhando em Jiangxi há mais de dez anos [sic], você tem influência e prestígio [...] Agora que o centro vai embora, não podemos encarar as massas se não o deixarmos para trás’.”. O homem que aplicou essa conversa fiada foi Chou En-lai.
Mao sabia que, se ficasse para trás, estaria muito longe do centro do partido e do Exército, mesmo se conseguisse sobreviver. Não pretendia que se livrassem dele com tanta facilidade. Àquela altura, privado do comando militar, não estava com nenhum exército. Mas, como presidente do governo, era dono de seu nariz e podia escolher o que queria fazer e onde queria estar. Ao longo dos seis meses seguintes, devotou-se a garantir que Po Ku e companhia não o abandonassem ao partir.
Assim, instalou-se numa posição na rota de fuga. O primeiro lugar em que acampou foi na fronteira meridional, que na época era o ponto de saída previsto. Ali, os comunistas estavam diante de um senhor da guerra cantonês que vinha mantendo um lucrativo comércio de tungstênio com eles e que odiava Chiang. Ao contrário de outras frentes, onde os nacionalistas estavam avançando cada vez mais, ali não havia muita luta. No final de abril, o senhor da guerra cantonês começou a conversar com os comunistas sobre estabelecer um corredor pelo qual eles pudessem sair e prosseguir adiante. Assim que Mao soube disso, desceu para o QG da frente meridional, em Huichang, na principal estrada de saída da área vermelha.
Estava claro para os líderes locais que Mao não tinha explicação oficial para sua presença e, além disso, que tinha tempo de sobra. Escalava morros por diversão e visitava os comandantes, sentando-se confortavelmente em suas camas e tagarelando sem parar. Fez até coisas como corrigir os programas de treinamento para as unidades locais, levando, às vezes, horas para refazer um documento.
Em julho, foi embora de forma tão abrupta como havia chegado. Ficara sabendo que o ponto de fuga mudara para o oeste. Naquele mês, uma unidade de 8 mil soldados foi despachada para reconhecer a rota. Mao retornou para Ruijin. Um mês depois, assim que o novo ponto de fuga foi confirmado — Yudu, uma cidade a sessenta quilômetros a oeste de Ruijin —, ele apareceu no QG local do partido com um séquito de umas 25 pessoas, entre elas um secretário, um médico, um cozinheiro, um cavalariço e um esquadrão de guardas. O QG ficava próximo de uma travessia de rio, aonde se chegava atravessando o portão em arco da dinastia Sung que se abria nos muros da cidade, e aquela seria a rota de fuga. Mao se instalou ali para se assegurar de que o levariam com a força principal, quando a liderança partisse.
Antes de deixar Ruijin, decidiu entregar ao partido seu tesouro — o ouro, a prata e as joias que mantivera escondidos numa caverna durante os dois últimos anos. Disse a seu irmão Tse-min, diretor do banco, que desse o tesouro a Po Ku. Ao esconder esses despojos até a hora H, demonstrara uma grande falta de compromisso com o partido e com Moscou, e esse nível de deslealdade poderia ser usado contra ele pelo Kremlin. Mao infringira muitas regras, inclusive os três princípios cardeais que ele mesmo havia codificado: sempre obedecer às ordens, não tirar uma agulha ou fio das massas (isto é, não fazer pilhagens não autorizadas) e, em particular, entregar todos os bens capturados. Mas “privatizar” o saque era totalmente inaceitável, pois mostrava que ele pensara na hipótese de romper com Moscou.
Como os nacionalistas se aproximavam, não fazia sentido deixar os despojos enterrados numa caverna. Era o momento de trocá-los por uma passagem na evacuação. O partido estava desesperado por fundos para financiar a jornada e vinha implorando
por mais dinheiro a Moscou. a Mao entregou seu tesouro e também prometeu a Po Ku que se comportaria. Po concordou em levá-lo consigo. Talvez não tivesse muita escolha, pois Mao se colocara fisicamente no meio do ponto de partida.
No último minuto, Xiang Ying, o relativamente moderado “vice-presidente” do Estado comunista, foi designado para comandar os que ficariam para trás. Xiang era a única pessoa da liderança de passado operário e aceitou a missão sem hesitar, demonstrando um espírito de sacrifício raro entre seus pares. Porém, manifestou séria preocupação com o fato de Mao seguir com a liderança. Ele tivera ampla experiência com o caráter do presidente na base vermelha, aonde chegara em 1931, no auge do massacre dos comunistas de Jiangxi ordenado por Mao, e estava convencido de que ele não se deteria diante de nada na busca de poder pessoal. Xiang tentara, sem sucesso, proteger os comunistas de Jiangxi. Mao o detestava e forçara vítimas da tortura a denunciá-lo. Chou En-lai contou ao Comintern que “pessoas presas testemunharam que [Xiang Ying] [...] pertencia ao AB”. Aleksandr Pániushkin, mais tarde embaixador russo na China, disse sem rodeios que Mao tentara se livrar de Xiang Ying ao rotulá-lo de “AB”: “Somente a intervenção do Politburo impediu Mao de liquidar Xiang Ying”. Em Ningdu, em 1932, Xiang fora um dos que mais insistiram em tirar Mao do comando do Exército. O intenso ódio de Mao levaria à morte de Xiang dez anos depois.
Xiang argumentou fortemente contra levar Mao. Otto Braun relembrou que ele “fez claras alusões à linha terrorista de Mao Tse-tung e sua perseguição de quadros fiéis do partido por volta de 1930. Sua [de Mao] contenção temporária devia-se somente a considerações táticas. Ele [...] aproveitaria a primeira oportunidade para tomar o controle exclusivo do Exército e do partido”. Mas Po Ku, segundo Braun, parecia otimista: “Ele disse [...] que conversara sobre isso com Mao e estava certo de que ele não pensaria em provocar uma crise de liderança”.
Com efeito, Mao começara a se comportar bem. Até julho, quando estava acampado na frente meridional, fizera críticas às instruções da liderança, dizendo a oficiais que desobedecessem às ordens e dando contraordens. Quando um de seus acólitos lhe contou que fora designado ministro da terra de um certo lugar, Mao mandou que fosse para outro lugar e ocupasse outro cargo: “Você não vai ser ministro da terra. Vá para o condado de Huichang para ser presidente do governo de lá”.
Em setembro, porém, tudo mudou. Quando Lin Biao, que estava acostumado a ver Mao falar mal da liderança, lhe fez uma visita, o acompanhante de Lin observou que, “longe de estar envolvido em atividades faccionárias às escondidas”, Mao estava “muito disciplinado”.
Em Yudu, quando recebeu a notícia de que iria com certeza ser levado na retirada, Mao mandou buscar a esposa. Nenhuma criança poderia ir junto, então o filho deles, Pequeno Mao, de dois anos de idade, teve de ser deixado para trás. Mao nunca mais o viu.
Pequeno Mao tinha nascido em novembro de 1932 e era o segundo filho dele com Gui-yuan. O primeiro, uma menina, fora perdido. Nascera em junho de 1929 na cidade de Longyan, em Fujian, numa casa especialmente adorável. Quando lhe mostraram o bebê, Mao fizera uma de suas piadas características: “Olhem só, esta menina sabe como arranjar um bom partido: só saiu depois que achou um belo lugar!”. Menos de um mês depois, Gui-yuan teve de deixar a cidade com Mao e a criança foi deixada aos cuidados de uma ama de leite local. O caminho de Mao afastou-os da cidade por quase três anos. Quando Gui-yuan finalmente voltou, disseram-lhe que a menina havia morrido, mas ela não conseguiu acreditar e, depois que os comunistas tomaram o poder, duas décadas mais tarde, começou a procurar por ela. A busca continuou obsessivamente durante décadas, até perto do fim de sua vida, em 1984.
Como não poderia levar Pequeno Mao consigo na evacuação, Gui-yuan confiou o menino à irmã, que era casada com Tse-tan. O casal, bem como o irmão e os pais dela, foram deixados para trás. Gui-yuan chorou amargamente a separação do filho. (Um terceiro filho morrera alguns meses antes, pouco depois de nascer.) Pequeno Mao ficou com sua ama de leite por um certo tempo. Depois que os nacionalistas tomaram o território comunista, Tse-tan mudou-o de lugar secretamente. Mas foi morto em batalha em abril de 1935, antes de contar a sua esposa onde estava o menino.
Quando Mao subiu ao poder, Gui-yuan, que já deixara de ser esposa dele havia tempo, tentou desesperadamente encontrar Pequeno Mao, com resultados trágicos. Sua irmã, que se sentia culpada pelo desaparecimento do menino, morreu em um acidente de carro, em novembro de 1949, quando saíra uma noite para ir atrás de uma pista, poucos dias depois que os comunistas tomaram a área. Em 1952, foi encontrado um adolescente que poderia ser Pequeno Mao. O irmão de Gui-yuan lembra que ela “correu para identificá-lo. Ela verificou principalmente duas coisas, se o menino tinha orelhas oleosas e se exalava odor das axilas [incomum entre os chineses]. Estava convencida de que seu filho herdara essas características de Mao Tse-tung. Depois de examiná-lo, convenceu-se de que era seu Pequeno Mao”.
Mas muitas outras mulheres comunistas que haviam sido obrigadas a deixar os filhos também estavam empreendendo o mesmo tipo de busca e uma viúva de soldado do Exército Vermelho já identificara o menino como seu filho. O partido decidiu que o menino pertencia a essa outra mulher. O irmão de Gui-yuan foi ver Mao, que até então não se envolvera, e lhe mostrou uma fotografia do adolescente, dando a entender que Gui-yuan gostaria que Mao interviesse. Mas o presidente se negou, dizendo: “É embaraçoso para mim intervir”. E lhe disse para fazer o que o partido decretava. Gui-yuan não desistiu e travou uma batalha dolorosa e trágica durante anos. Ela e o irmão mantiveram-se em contato com o rapaz até a morte dele, de câncer no fígado, na década
de 1970, tendo cuidado até dos preparativos de seu casamento.b
* * *
Mao não demonstrou nenhuma tristeza em particular por abandonar Pequeno Mao, nem disse adeus ao filho. Sua dor estava reservada para si mesmo. Gong Chu, o comandante do Exército Vermelho em Yudu, deixou um relato revelador das últimas semanas antes da partida de Mao, quando ele estava escorado em seu QG. No início de setembro, Gong estava estudando um mapa quando
de repente, meu guarda-costas entrou e anunciou: “O presidente Mao está aqui!”. Corri até o portão da
frente e vi Mao Tse-tung desmontando com dois guarda-costas [...] Ele tinha aparência melancólica e
esgotada. Perguntei-lhe: “O presidente não está bem?”. Ele respondeu: “Tem razão. Estive recentemente
sofrendo de má saúde, mas, mais do que dor, me sinto extremamente abatido”.
Depois que lavou o rosto, acendeu um cigarro e disse: “Ficarei aqui por um bom tempo”.
Mao disse a Gong que, como eram velhos amigos do território dos bandidos, “‘espero que você possa vir e bater um papo sempre que tiver tempo à noite’. [...] Mao Tse-tung gostava de conversar”. Gong aceitou o convite e, depois que Gui-yuan chegou, ela “preparava jantares deliciosos. E nós três conversávamos, bebíamos e fumávamos, com frequência [...] até a meia-noite [...] Pelo que pude observar, ele não recebia outras visitas, exceto eu [...] Parecia realmente que ele estava isolado e infeliz”.
Um dia Gong comprou uma galinha e alguns pés de porco para o jantar. Mao estava “alegre e bebeu muito”. Queixou-se da liderança, mas mais como um comentário franco entre velhos amigos do que como sabotagem. Quando Gong mencionou que ele fora repreendido por algo, Mao “disse que não concordara com a repreensão. Era tudo porque Chou En-lai era duro demais [...] Disse também que [seus adversários no partido] queriam todo o poder nas mãos deles [...] Parecia profundamente indignado com eles”.
Com a bebida, Mao ficou melancólico e relembrou as várias punições que havia sofrido. A certa altura, ao lamentar que não era mais o chefão, “lágrimas escorreram por sua face. Ele tossia de quando em quando e seu rosto estava pálido, ressecado e descorado. Sob a luz bruxuleante de uma pequena lamparina, era o retrato do abatimento”.
Nem o colapso do Estado comunista nem a separação de seu filho podiam ferir Mao tanto como a perda de poder pessoal.
Então, quando tudo parecia resolvido, seus planos quase foram por água abaixo. Dias antes da planejada partida, sua temperatura subiu para 41 graus e ele entrou em delírio malárico. Era a estação da malária e os mosquitos em Yudu eram tantos que entravam pelas narinas das pessoas. Nem o quinino funcionava. Era vital para ele que se recuperasse — e depressa, para que pudesse partir com os outros. O melhor médico da área comunista, Nelson Fu, que cuidara de Mao no hospital missionário no inverno de 1932-33, veio correndo de Ruijin e o colocou em forma para viajar. Paciente e médico sabiam que Fu havia salvado a vida de Mao — e sua sorte política.
O dr. Fu tornou-se o supervisor dos médicos de Mao, cargo que exerceu por décadas. Em 1966, no Grande Expurgo, escreveu a Mao e lembrou-lhe esse episódio em Yudu: “Salvei sua vida, espero que possa salvar a minha agora”. Aos 72 anos, ele fora espancado selvagemente, tivera costelas quebradas e uma fratura no crânio. Mao de fato levantou um dedo, mas não com muita força, escrevendo na carta de Fu: “Este homem [...] não cometeu grandes crimes, talvez deva ser poupado”. Mas depois ouviu falar que Fu havia supostamente falado com outros líderes do partido sobre sua (de Mao) saúde, o que era um grande tabu para Mao. Deixou então que Fu fosse jogado na prisão. O médico septuagenário não durou duas semanas e morreu no chão de sua cela.
O Exército Vermelho mantinha-se lutando enquanto recuava, pressionado pelo avanço do exército de Chiang, e preparava-se em segredo para a evacuação. O movimento era forçado, mas permitia que os comunistas levassem avante uma mudança estratégica na direção do noroeste, com o objetivo último de chegar a fronteiras controladas pelos russos, a fim de receber armas — operação depois conhecida como “fazer a conexão com a União Soviética”. Havia anos que fora planejada. Já em 1929, Berzin, o chefe do GRU, havia dito a Sorge que sua missão era tentar levar o Exército Vermelho chinês até a fronteira soviética.
Em julho, uma unidade de 6 mil homens foi enviada na direção oposta como engodo. Ela levava 1,6 milhão de panfletos, que enchiam trezentas mochilas, e adotou o nome grandioso de “Vanguarda do Exército Vermelho na Direção Norte para Lutar Contra
os Japoneses”. c Seus movimentos ganharam máxima divulgação e a unidade veio a perceber que era uma isca, algo de que nem seus líderes haviam sido comunicados. Os homens ficaram amargurados, e duplamente, pois a missão designada não fazia sentido: uma unidade pequena como a deles não seria capaz de enganar o inimigo ou atraí-lo para longe de Ruijin. Em vez disso, viram-se sob perseguição implacável de outras forças nacionalistas. Em poucos meses, quase toda a força foi destroçada.
Uma parte da preparação para a evacuação consistia em selecionar os que seriam removidos, processo dirigido por Chou En-lai. Aqueles classificados como não confiáveis foram executados. Totalizaram milhares. Entre os mortos estava a maioria dos professores das escolas do Exército, que não raro eram ex-oficiais nacionalistas capturados. As execuções foram realizadas em um vale fechado das montanhas, onde se escavou um grande fosso. As vítimas foram mortas a facadas, e seus corpos, chutados para dentro da cova. Quando o buraco ficou cheio, as vítimas restantes foram obrigadas a cavar seus próprios buracos, e depois esfaqueadas até a morte, ou enterradas vivas.
O massacre foi levado a cabo pelo sistema de segurança do Estado, embora muitos de seus homens tivessem perdido a fé no regime e também estivessem sendo mortos. Um deles foi o chefe da equipe que guardava o Conselho Militar. Na confusão da partida, ele escapuliu e se escondeu nas montanhas. Mas as autoridades encontraram seu esconderijo depois de prender sua namorada, uma camponesa local. Após um tiroteio, esse atirador de elite se matou.
Em outubro de 1934, o domínio desse regime brutal chegou ao fim. Em Yudu, montaram pontes flutuantes sobre o rio. Na proa e na popa de cada barca colocaram uma lanterna, e mais lanternas e tochas brilhavam e refletiam nas águas em ambas as margens. As famílias dos soldados e os camponeses organizados lotaram as margens para dizer adeus. Os mais feridos haviam sido entregues a famílias locais. Enquanto as tropas marchavam sobre a trilha de pedras arredondadas que passava pelo portão da cidade e descia até o ponto da travessia, em uma casa de esquina, perto do muro, um menino de doze anos estava com os olhos grudados numa fenda da porta, segurando a respiração. Seu pai, um pequeno lojista, fora morto quatro anos antes, no auge do massacre de ABs de Mao, quando as pessoas eram executadas até por serem “atendentes de loja ativos”. Tal como muitos outros, ele estava contente de ver os comunistas pelas costas, o que deixou bastante claro quando o encontramos, sessenta anos depois.
Por volta das seis da tarde de 18 de outubro, com aparência macilenta mas composto, com os longos cabelos penteados para trás, Mao deixou o QG local do partido cercado de guarda-costas, atravessou a rua, passou pelo arco da dinastia Sung e subiu na ponte flutuante.
Essa frágil ponte não levou Mao apenas para o outro lado do rio, ela o transportou para a lenda. Seu passado assassino e o do regime do PCC estavam prestes a ser deixados para trás. E o próprio Mao estava em vias de criar o mito mais duradouro da história moderna da China e um dos maiores mitos do século XX: a “Longa Marcha”.
a O subsídio mensal de Moscou ao PCC em 1934 de 7418 “dólares ouro”. Os russos tentaram mandar armas diretamente, mas o Exército Vermelho chinês não conseguiu cumprir a recomendação de Moscou de estabelecer uma cabeça de ponte num porto, onde “munições e medicamentos contrabandeados pudessem ser transportados”.
b Esse tipo de tragédia não foi de forma alguma excepcional. A revolução causou muita dor no coração de seus adeptos. Antes da tomada do poder, esperava-se que os comunistas não apenas fizessem sacrifícios em relação a seus filhos como os sacrificassem, e a venda deles para levantar fundos para o partido não era incomum. A célula do PCC da amiga de Gui-yuan, Zeng Zhi, em Amoy, vendeu o bebê dela por cem yuans; o comprador pagou adiantado e o partido gastou o dinheiro antes de apresentar a ela um fato consumado. Mais de meio século depois, ela contou: “Claro que foi extremamente doloroso. Antes que meu filho fosse entregue na casa [do comprador], meu marido e eu o levamos ao parque Sun Yat-sen para brincar. Era uma graça de bebê, com mais de quarenta dias, sorria todo o tempo. Demos-lhe o nome de Tie-niu (Boi de Ferro). Ele jamais chorava sem um bom motivo e raramente evacuava ou urinava nele mesmo. Então o levamos para brincar. Ele estava realmente feliz. Então, foi-se. E foi simplesmente insuportável. Eu consegui superar a dor. Mas meu bebê morreu 26 dias depois [...] Nosso secretário do partido não ousou me contar, embora eu tivesse ouvido falar. Ele ficou em silêncio e eu não disse nada. Às vezes, à noite, doía tanto que eu chorava, mas em silêncio, porque era embaraçoso que os outros soubessem [que ela chorava por seu filho]. Então, um dia, ele percebeu que eu estivera chorando e adivinhou que eu sabia, e me pediu desculpas”.
c Os líderes comunistas reconheceram depois que o nome era apenas para propaganda. “Ninguém sonhava com uma marcha para o norte para combater os japoneses”, observou Braun.