Mao: a história desconhecida

Jung Chang e Jon Halliday · Capítulo 20 de 69

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Mao: a história desconhecida

18. Nova imagem, vida nova e esposa nova

 

(1937-38; 43-44 anos)

 

Em janeiro de 1937, assim que a poeira do sequestro assentou, Moscou informou a Mao como via exatamente o estágio seguinte. O PCC deveria abandonar sua política de tentar derrubar o governo pela violência e parar de confiscar terras e roubar os ricos; em vez disso, deveria reconhecer Nanquim como o governo legítimo e colocar o território comunista e o Exército Vermelho sob a direção de Chiang. Mao aceitou a mudança como uma medida puramente tática e o PCC assumiu um compromisso público com Nanquim que encarnava as mudanças desejadas por Moscou. Isso abriu uma nova fase para o partido.

Em troca, Chiang designaria um território para o Exército Vermelho e financiaria a administração e o Exército comunistas. É claro que Mao fez o possível para obter a maior fatia possível de território e a maior quantidade de fundos. No fim, os vermelhos ganharam 129 600 quilômetros quadrados de terreno, com uma população de cerca de 2 milhões de habitantes, tendo Yenan como capital. Esse acordo trouxe um substancial financiamento do governo. Chiang também armou e pagou mais de 46 mil soldados regulares do Exército Vermelho (o número que ele reconheceu oficialmente).

A fim de ajudar Mao a obter esses ganhos, Stálin reteve o filho de Chiang. Só depois de ficar satisfeito com as concessões de Chiang foi que libertou Ching-kuo. Em 3 de março, o Politburo soviético decretou, em seu linguajar enviesado peculiar, “não se opor ao retorno à China do filho de Chiang Kai-shek”. Ching-kuo voltou ao seu país em

19 de abril, reunindo-se com o pai depois de mais de onze anos como refém. a

Durante a viagem de trem de uma semana através da Sibéria, Ching-kuo esteve sob custódia do futuro chefe da inteligência do PCC, Kang Sheng. Havia poucas semanas que ele levara os filhos de Mao de Paris para Moscou. An-ying e An-ching, de catorze e doze anos respectivamente, haviam esperado o visto russo em Paris durante meses. Os soviéticos não queriam admitir o enviado do Jovem Marechal, que os acompanhava, mas também não desejavam dar uma negativa direta, de modo que seguraram os vistos de todo o grupo. Depois de terminado o sequestro de Xian, disseram ao enviado que ele não obteria o visto. Os filhos de Mao chegaram em Moscou no início de 1937 e foram internados numa escola especial para filhos de líderes comunistas estrangeiros. Eles escreviam ao pai, mandando fotos. Ele raramente respondia.

Enquanto a atitude de Mao para com os filhos era de indiferença, a de Chiang Kai-shek chegava à obsessão. Em fevereiro de 1937, quando Stálin ainda detinha Ching-kuo e ele esperava com impaciência seu retorno, o Generalíssimo fez outro favor ao PCC que teve amplas repercussões: designou o espião Shao Li-tzu (que levara seu filho para a Rússia em 1925) para a chefia do Departamento de Propaganda nacionalista, encarregado dos meios de comunicação. A missão de Shao era provocar uma mudança de atitude na imprensa e na opinião pública, ambas ferozmente anticomunistas. Foi um enorme gesto de boa vontade para com Moscou.

A partir de então, a Rússia soviética recebeu ampla e entusiástica cobertura. Começou a emergir uma imagem benigna e positiva dos comunistas chineses. No verão, Shao e Mao já haviam planejado publicar uma autobiografia deste, retratando-o como um homem bom e gentil, acompanhada de um apêndice com seus pronunciamentos sobre a guerra com o Japão que mostrava seu compromisso com a luta contra os japoneses. Mao escreveu uma dedicatória no tom de um ardente patriota: “Lutar firmemente contra os imperialistas japoneses até o fim”. O livro saiu em 1 o de novembro e foi um sucesso. Foi nesse período que nasceu o mito, vital para o êxito de Mao, de que o PCC era a mais dedicada força antijaponesa. Graças a esse mito, milhares de pessoas entraram para o partido, inclusive muitos daqueles que teriam postos importantes no regime de Mao.

A Autobiografia de Mao Tse-tung consistia, em larga medida, de entrevistas que ele dera ao jornalista americano Edgar Snow no verão de 1936 — o único relato extenso que Mao fez de sua vida. Snow também produziu o livro Estrela vermelha sobre a China, baseado quase totalmente em entrevistas com Mao e outros comunistas, e lançou os alicerces para a reabilitação dos comunistas, apagando seu passado embebido em sangue.

O encontro com Snow não aconteceu por acaso. Naquela primavera, Mao pedira a Xangai que encontrasse um jornalista estrangeiro que pudesse divulgar sua história, mais um médico. Depois de cuidadoso exame, Mao convidou Snow, que combinava todas as qualidades necessárias: era americano, escrevia para os influentes Saturday Evening Post e New York Herald-Tribune e era simpático aos comunistas. Snow chegou na área vermelha em julho, com um médico libanês-americano, George Hatem, que trouxe documentos altamente secretos do Comintern em sua maleta de médico. Snow ficou três meses, enquanto Hatem permaneceu pelo resto da vida, tornando-se um dos médicos de Mao ao mesmo tempo que trabalhava para o aparato de informação estrangeira do PCC.

Mao não deu chance ao acaso e ditou instruções detalhadas sobre a visita de Snow: “Segurança, segredo, cordialidade e tapete vermelho”. O Politburo coordenou cuidadosamente as respostas a um questionário que o jornalista mandara previamente. Mao ofereceu-lhe uma mistura de informações valiosas e falsificações, que Snow engoliu in toto, qualificando Mao e a liderança do PCC como “diretos, francos, simples e firmes”. Mao escondeu anos de torturas e assassinatos, como os expurgos AB, e inventou batalhas e heroísmos, como a travessia da ponte de Dadu na jornada através da China, astutamente chamada agora de “Longa Marcha”. Ele levou Snow a acreditar que, exceto quando estava doente, havia “caminhado a maior parte das 6 mil milhas da Longa Marcha, como os soldados rasos”. Mao também omitiu completamente suas ligações com Moscou e sustentou querer amizade com os Estados Unidos — afirmação que enganou muita gente.

Mao tomou a precaução extra de conferir tudo o que Snow escreveu depois, e emendou e reescreveu certas partes. Em 26 de julho de 1937 (antes da publicação de Estrela vermelha), Snow escreveu a sua esposa Helen, que se encontrava então em Yenan: “Não me mande mais notas sobre pessoas que renegam as histórias que me contaram [...] Como está, com tantas coisas cortadas, isso começa a parecer o Childe Harold”. Snow deixou de mencionar isso no livro e, ao contrário, alegou que Mao “jamais me impôs qualquer censura”. A edição chinesa chegou a “enfeitar” Snow, fazendo-o dizer que achava as palavras de Mao “honestas e verdadeiras”.

Estrela vermelha foi publicado em inglês no inverno de 1937-38 e desempenhou um grande papel em fazer a opinião ocidental pender a favor de Mao. O PCC organizou sua publicação em chinês, sob o título Histórias de uma jornada ao oeste, para dar-lhe uma aparência de imparcialidade. Além desse livro e da Autobiografia de Mao Tse-tung, um terceiro livro foi produzido a partir do material de Snow, com outro título neutro: Impressões de Mao Tse-tung.

Estrela vermelha e os dois livros de trechos editados influenciaram profundamente a juventude radical da China. Muitos, como um dos primeiros comunistas tibetanos, entraram para o partido depois de ler Snow. Foi o começo do renascimento do PCC. Mao diria mais tarde que sua publicação “teve um mérito não menor do que o Grande Yu de controlar enchentes”. O Grande Yu era o imperador mítico que controlara as enchentes, iniciando assim a civilização chinesa.

Na chefia das comunicações de Chiang Kai-shek, Shao desempenhou um papel indispensável no auxílio a Snow e na promoção de Mao e dos comunistas. Quando Chiang o tirou do posto, depois de quase um ano, Mao e os comunistas haviam saneado sua imagem.

 

Na década seguinte, Mao viveu em Yenan, capital dos territórios atribuídos por Chiang aos comunistas. Ele mudou-se para a cidade no dia de ano-novo de 1937, atravessando um imenso portão que se abriu majestosa e silenciosamente para as colunas de soldados do Exército Vermelho, que marchavam ao longo da estrada de terra larga que se estendia de ocre-amarelo até o infinito. Essa cidade antiga (cujo nome significa “prolongar a paz”) era cercada por muralhas altas e grossas que subiam pela cadeia de morros de loess bem acima dela, com ameias que exsudavam a imponência de guerreiros. Sob o céu azul e o ar seco, um pagode de nove andares construído mil anos antes dominava a paisagem. Abaixo do pagode havia um conjunto de templos e muitos pareciam se agarrar aos penhascos. Mais abaixo, o rio Yan, bastante assoreado, recebia as águas do rio Tu Fu, nome de um grande poeta do século VIII que, segundo consta, costumava visitar a região para admirar suas famosas peônias.

Yenan não era apenas um centro cultural, mas também um eixo de atividades comerciais. Descobrira-se petróleo na região. Os alojamentos construídos pela Standard Oil foram tomados pelos comunistas, que também se apropriaram de construções substanciais de propriedade dos franciscanos espanhóis, inclusive uma catedral recém-construída, onde se realizariam muitas reuniões importantes do partido. O problema de moradia foi facilitado pelo fato de que muitos moradores haviam fugido, em particular os relativamente ricos, deixando vazias centenas de casas, algumas grandes e belas. Mao ocupou uma dessas mansões, em um lugar chamado Aldeia Fênix. O pátio era grandioso pelos padrões locais, com uma parede decorada logo na entrada, de frente para o portão, para afastar os maus espíritos — e proteger a privacidade. Pela primeira vez em mais de dois anos, ele se estabeleceu com algum conforto.

Um luxo considerável para a época e o lugar era a calefação, que Mao mandou instalar. O modo usual de aquecer uma casa no norte da China era esquentar por baixo a cama de tijolos, a kang, mas Mao preferia sua cama de madeira e, para aquecê-la, escolheu a forma mais luxuosa. Outro capricho era possuir várias residências. Quando se mudou depois para uma área chamada Morro Yang, manteve a casa na Aldeia Fênix e conservou ambas quando se estabeleceu no recinto da KGB chinesa, a pitoresca área conhecida como Jardim das Tâmaras. Além dessas residências publicamente conhecidas, Mao tinha abrigos secretos construídos em vales afastados, um deles atrás do Morro Yang e outro atrás do Jardim das Tâmaras. Na época, poucos sabiam da existência deles, e ainda hoje a maioria os ignora.

A residência mais pública era a do Morro Yang, também a menos grandiosa e mais próxima dos camponeses locais. Dez famílias viviam diante de uma ravina, na encosta de um morro densamente arborizado na época por olmeiros, ciprestes e choupos vermelhos. As casas eram yao-dong, peculiares dessa região do país, que pareciam cavernas cavadas nas encostas de loess. Mao tinha uma fileira de yao-dong em um pátio com um portão pequeno coberto por telhas. Uma família vizinha de camponeses lavava suas roupas. O cozinheiro fora trazido por Mao, por motivos de segurança — e também culinários. Ele também recusou a oferta de compartilhar a moenda dos camponeses para moer seus grãos: “O presidente Mao considerava as coisas do ponto de vista da segurança”, disseram-nos os moradores do local. Ele estava cercado por uma segurança muito rigorosa, uma parte visível, outra não.

Para Mao, Yenan propiciou o primeiro período relativamente estável e não violento em quase uma década. Com paz e uma vida boa — e a súbita disponibilidade de mulheres jovens, instruídas e atraentes que começavam a aparecer em Yenan graças à nova imagem benigna dos comunistas —, ele começou a praticar o adultério mais ou menos abertamente. Ele confidenciou a um colega de paqueras que não podia passar sem sexo “mais do que quarenta dias, no máximo”.

Uma das primeiras mulheres a entrar em cena foi uma linda (e casada) atriz de 26 anos, Lily Wu, que chegou no início de 1937 e se tornou a estrela de Yenan. Suas roupas e maneiras elegantes viraram cabeças naquela região atrasada e seus cabelos compridos e esvoaçantes, em particular, eram o símbolo de sua desejabilidade. A maioria das mulheres comunistas usava uniformes grandalhões e havia raspado os cabelos para se livrar dos piolhos. Mao iniciou uma relação amorosa com ela.

Lily fez amizade com a escritora americana visitante Agnes Smedley, uma feminista radical sem papas na língua. Smedley trabalhara para o Comintern, mas era uma espécie de livre atiradora e Moscou dera ordens para “isolá-la”. Mesmo assim, e embora achasse que Mao tinha uma “qualidade sinistra”, ao mesmo tempo “feminina” e “fisicamente repulsiva”, ele cultivou sua amizade e lhe deu uma longa entrevista, porque ela era americana. Mao mandou uma cópia da entrevista para Snow, pedindo que lhe desse “ampla publicidade”.

Enquanto a aparência de Lily Lu provocava a luxúria de Mao, a muito menos bonita Smedley causava um vendaval ao organizar quadrilhas, acompanhadas por discos fonográficos. Os bailes foram um sucesso. De início, observou Smedley, “o orgulho impediu [Mao] de tentar dançar. Ele não tinha ritmo em seu ser”. Apenas “caminhava no salão”, observaram as mulheres que dançaram com ele. Mas Mao logo percebeu a vantagem das danças como forma de exercício — e como uma maneira de pegar mulheres. Organizaram-se bailes semanais, alguns ao ar livre, outros numa antiga igreja. Yenan ficou louca pelos bailes.

Ao lado de outras mulheres da Longa Marcha, Gui-yuan, a esposa de Mao, recusou-se de início a participar. De acordo com Snow, “o abraço apertado dos corpos envolvidos parecia decididamente indecente para a velha guarda”. O ciúme parece ter desempenhado um grande — ainda que inconfessado — papel. Também reprimido era o gosto secreto por esse prazer: mais tarde, Gui-yuan passou a adorar dançar e era boa nisso.

Ela não suportou as infidelidades de Mao. Uma noite de junho, Smedley escutou os gritos de Gui-yuan: “Porco, filho da puta, putanheiro! Como ousa entrar sorrateiramente aqui para dormir com a puta pequeno-burguesa?”. Smedley foi à casa vizinha e encontrou Gui-yuan batendo em Mao com uma lanterna, enquanto o guarda-costas dele observava. Os protestos de Mao, de que estava apenas conversando com Lily, de nada adiantaram. Gui-yuan atacou Lily, arranhou o rosto dela e puxou seus cabelos, enquanto Mao ficava de lado.

Depois Gui-yuan voltou-se contra Smedley. “Vaca imperialista!”, gritou. “Você é a causa disso tudo, cai fora!” Ela bateu em Smedley, que revidou. Gui-yuan caiu de joelhos e apelou a Mao: “Que tipo de homem é você, que tipo de marido e comunista? Você deixa uma puta imperialista me bater diante de seus olhos?”. Quando Mao mandou o guarda-costas erguê-la, Gui-yuan deu uma rasteira nele e o derrubou; foram necessários três guarda-costas para levá-la embora, seguida pelo marido em silêncio.

Smedley logo foi mandada embora. Lily não apenas foi banida de Yenan como das fontes comunistas chinesas, e desapareceu do mapa para sempre.

Mao teve outros flertes, inclusive com a escritora Ding Ling. Embora masculinizada e corpulenta e não exatamente um modelo de beleza, tinha talento e caráter. Mao mandou-lhe um poema muito elogioso que continha estes versos: “A que comparo sua pena elegante? Três mil Mausers e melhores homens”. Ela relembrou anos mais tarde como visitava Mao com frequência. Um dia, meio de brincadeira, ele comparou Yenan a uma pequena corte imperial e começou a escrever os nomes de seus colegas sob vários títulos imperiais, que ela gritava para ele. “Depois que terminamos, ele me disse de repente: ‘Ding Ling, já escolhemos os Cem Cortesãos Civis e Militares. Agora que somos uma corte real, por menor que seja, precisamos ter concubinas imperiais em Três Palácios e Seis Pátios! Vamos, dê-me alguns nomes e eu concederei títulos a elas’.”

Para Gui-yuan, as traições flagrantes de Mao foram a gota d’água. Ao longo de seu casamento de quase dez anos, ela tivera de suportar a insensibilidade do marido. Ressentia-se especialmente com a indiferença dele para com suas gravidezes e partos dolorosos, inclusive uma durante a Longa Marcha, e com sua piada de que ela dava à luz filhos com a mesma facilidade “com que uma galinha põe ovos”. E estava amargurada porque, embora ele fosse indiferente aos filhos e não se importasse com o fato de quatro deles terem morrido ou sido abandonados, continuava a engravidá-la. O quinto filho deles, uma menina chamada Chiao-chiao, nasceu em 1936 em Baoan, onde as condições eram horríveis, com escorpiões e ratos por toda parte. Um ano depois, Gui-yuan estava grávida de novo, o que a mergulhou na depressão. Partos repetidos em circunstâncias difíceis haviam abalado seriamente sua saúde, sem as compensações da vida em família. Agora, para completar, seu marido não escondia que andava dormindo com outras mulheres.

Depois que os comunistas se instalaram em Yenan, alguns mais antigos que haviam sido feridos conseguiram ir para a Rússia em busca de tratamento. Sob o pretexto de tirar os dolorosos estilhaços de granada que ainda estavam alojados em seu corpo, Gui-yuan foi para lá em outubro de 1937. Sua filha de um ano de idade ficou em Yenan.

Ela chegou a Moscou no auge do inverno e logo foi advertida por companheiros chineses de que não deveria entrar em contato com ninguém que houvesse conhecido antes. A União Soviética estava sendo varrida por um grande expurgo e muitos chineses estavam sendo presos. Foi nesse mundo congelado de isolamento e medo que ela deu à luz um menino, ao qual deu o nome russo de Lyova. Ele morreu de pneumonia seis meses depois e Gui-yuan mergulhou numa dor inconsolável. Durante dias, sentou-se em um banco do quintal, diante do pequeno monte onde ele estava enterrado, e murmurava seu nome, chorando.

Não houve nenhum consolo de seu marido. Quando o bebê nasceu, ela escreveu a Mao para dizer que o menino era parecido com ele. Mao não respondeu. Também não escreveu uma linha quando o filho morreu. Então, no verão de 1939, quase dois anos depois que se haviam separado, Gui-yuan ficou sabendo por acaso que ele casara novamente. Ela e um grupo de chineses que não falavam russo se encontravam regularmente para que artigos da imprensa russa fossem lidos em chinês para eles. Nessa ocasião, o tradutor estava lendo um artigo do famoso diretor de cinema russo Roman Karmen sobre um encontro com Mao. Karmen mencionava que, ao sair da caverna deles, Mao e “sua esposa” o haviam acompanhado até a rua, sob a luz do luar. A expressão “esposa de Mao”, mencionada de forma tão casual, revolveu-lhe o estômago. Nos dias seguintes, as pessoas que compartilhavam um quarto com Gui-yuan disseram que ela passava a noite inteira agitada. Já estava sofrendo de grave insônia e ficou à beira de um colapso nervoso. Sua situação piorou ainda mais quando recebeu uma carta curta e seca de Mao: espero que estude bastante e faça progressos politicamente. Em uma frase lapidar, ele anunciava a dissolução do casamento deles: a partir de agora, somos apenas camaradas.

Porque se casara de novo, Mao não queria Gui-yuan de volta à China. Em 1939, quando os amigos com quem viajara para a Rússia voltaram, um telegrama de Yenan ordenou especificamente que ela ficasse. Em consequência, a filha que ela deixara para trás passou seus primeiros anos praticamente como órfã. Chiao-chiao teve de ficar internada na creche da elite. Quando as outras crianças eram levadas para casa por seus pais no final do dia, ninguém vinha buscá-la. Mais tarde, ela relembraria que havia um menino que também ficava para trás e gritava: “Quero papai! Quero mamãe! Quero ir para casa!”. Chiao-chiao não tinha ideia do que essas palavras significavam. Já adulta, ela disse a uma amiga, com calma, mas não sem certa amargura: “Naquela época eu era uma ‘órfã’ que não era exatamente uma órfã!”.

Quando estava com quatro anos, Chiao-chiao foi levada para a Rússia a fim de se encontrar com a mãe. Gui-yuan abraçou apertado a filha quando se reuniram, numa cascata de lágrimas, o que deixou a menina extremamente feliz. Ela também ficou fascinada com os cabelos com permanente, as saias e os sapatos de couro com salto da mãe, tudo muito diferente das mulheres de Yenan, que usavam calças largas e sapatos de algodão, trajes que mesmo aquelas que vinham das cidades nacionalistas tinham de adotar. Mas Gui-yuan já estava esmagada pela saúde fraca, resultado das gravidezes frequentes, dos ferimentos da Longa Marcha e das lembranças dolorosas de seus filhos mortos e abandonados, bem como de anos de solidão opressiva. Talvez os horrores que sofrera na revolução também assombrassem sua mente. Ela teve um colapso e a filha teve de suportar as consequências; outras crianças ouviam com frequência Chiao-chiao gritar enquanto apanhava da mãe. Gui-yuan foi levada a uma instituição para doentes mentais, uivando ao ser arrastada de seu quarto para um carro. Sua aterrorizada filha de sete anos fugiu e se escondeu num bosque, e se tornou uma menina introvertida e silenciosa.

 

No verão de 1937, antes da partida de Gui-yuan para a Rússia, Mao foi atraído por uma jovem atriz chamada Jiang Qing, que viria a ser sua quarta esposa. Jiang Qing era uma figura com estilo mesmo em uniforme comunista, com um cinto apertado ao redor da cintura esbelta e um boné do Exército licenciosamente inclinado que expunha ondas de cabelos negros e sedosos. Ela transpirava feminilidade e sexualidade. Tinha uma postura suave e dócil e uma voz muito doce — e, para alguns, afetada.

Nascida em 1914, Jiang Qing era filha de uma concubina com um dono de estalagem alcoólatra. Sua mãe deixou-a crescer voluntariosa e até permitiu que ela desamarrasse os pés, depois que os ossos haviam sido quebrados, quando estava com seis anos. Jiang Qing era valente e, nas frequentes brigas entre seus pais, ela ajudava a mãe se agarrando nas pernas do pai e mordendo-lhe os braços. Em uma dessas brigas, perdeu parte de um dente da frente. Seus amigos de bancos escolares lembravam que era valentona e que fora expulsa da escola aos doze anos por ter cuspido numa professora. Ela fugiu de casa aos catorze anos com uma trupe nômade de ópera e acabou em Xangai, onde fez nome como atriz. Mas era uma carreira precária e, no verão de 1937, sem trabalho e incapaz de suportar o filho de sete anos de seu amante, foi para Yenan, que também atraía seu lado radical chique.

Ela sabia como se fazer notar, sentando-se na primeira fileira das palestras de Mao e fazendo perguntas ingênuas. Um dia, Mao foi a uma ópera de Pequim — gênero que adorava — da qual ela era estrela. Depois, foi ao camarim e pôs seu casaco sobre os ombros dela. No dia seguinte, ela foi à casa de Mao para devolver o casaco e passou a noite com ele.

O casal começou a aparecer junto em público. Isso provocou um escândalo, por causa do passado de Jiang Qing. Já fora casada ou vivera com quatro homens e deixara um rastro nas colunas de fofocas de Xangai. Sua relação turbulenta com um dos maridos fornecera assunto aos tabloides, especialmente depois que ele tentou se suicidar tomando uma garrafa de álcool cirúrgico com cabeças de fósforos esmagadas dentro do líquido.

Se a cosmopolita Xangai achava difícil engoli-la, a puritana Yenan certamente sentiu náuseas. Além disso, havia uma tremenda simpatia pela mulher cujo lugar ela estava tomando. Um dos ex-companheiros de Longa Marcha de Gui-yuan relembrou: “Os alunos de minha faculdade ficaram todos contrariados. Alguns escreveram a Mao abertamente, outros em segredo [...] Eu escrevi três cartas. Elas diziam mais ou menos o seguinte: Presidente Mao, esperamos que não se case com Jiang Qing. [Gui-yuan] está muito doente e vocês têm cinco ou seis filhos juntos [...] A reputação de Jiang Qing é bem ruim”.

Para o partido, havia uma preocupação mais séria. Jiang Qing fora detida certa vez pelos nacionalistas por suspeita de ser comunista e saíra da prisão assinando uma retratação — ato que o partido considerava uma “traição”. Além disso, havia alegações de que ela divertira seus carcereiros fazendo-lhes companhia à mesa — e na cama. Organizações clandestinas de Xangai e de outras regiões telegrafaram a Yenan com acusações formais de que ela era “imprópria para se casar com o presidente Mao”. O chefe nominal do partido Lo Fu escreveu a Mao para apresentar suas objeções pessoais e as de muitos outros membros do PCC. Quando recebeu a carta, Mao rasgou-a na mesma hora e anunciou ao mensageiro: “Vou me casar amanhã. Que todo mundo vá cuidar de sua própria vida!”. No dia seguinte, ofereceu um banquete de “casamento” a duas dúzias de membros da elite de Yenan, para o qual Lo Fu não foi convidado.

Mao conseguiu que o chefe da segurança Kang Sheng testemunhasse em favor de Jiang Qing. Enquanto trabalhava na Rússia, Kang escoltara os filhos de Mao até Moscou e o filho de Chiang Kai-shek em sua saída da União Soviética. Ele foi para Yenan em novembro de 1937 e ligou-se rapidamente a Mao, que o fez chefe de sua KGB. Naquele mundo ocre-amarelo, Kang se destacava porque com frequência se vestia todo de preto, da cabeça (boné preto) aos pés (botas pretas de cavalgar, incomuns na região). Seu cavalo era preto e ele era visto amiúde brincando com um cão preto, praticamente o único animal de estimação das redondezas. Embora Kang tivesse provas de que a conduta de Jiang Qing na prisão fora dúbia, deu a Mao um veredicto oficial que limpava a imagem dela ao dizer que “seu passado não é politicamente um problema”. Na verdade, Mao sabia que as acusações eram verdadeiras, como reconheceu perto de sua morte. Mas não se importou. Ele a queria.

A sra. Mao número quatro se tornaria a famigerada madame Mao.

 

a Antes de deixar a Rússia, Ching-kuo foi “trabalhado” por Stálin em pessoa, bem como submetido a uma bateria de agrados e ameaças por Dimítrov. Ching-kuo dançou conforme a música e no meio da viagem telegrafou a Dimítrov para dizer que “todas as suas instruções serão seguidas”. Ao chegar a Vladivostok, foi levado ao escritório da KGB, onde desempenhou seu último ato formal de obediência a Moscou, prometendo: “Seguirei estritamente a disciplina do partido”.