Mao: a história desconhecida

Jung Chang e Jon Halliday · Capítulo 61 de 69

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Mao: a história desconhecida

Epílogo

 

Hoje, o retrato de Mao e seu cadáver ainda dominam a praça Tiananmen, no coração da capital chinesa. O atual regime declara-se herdeiro de Mao e perpetua ferozmente o seu mito.

O quarto em que Mao nasceu, em 26 de dezembro de 1893, na aldeia de Shaoshan, província de Hunan.

Mao Tse-tung (à direita), aos 25 anos, na única fotografia com a mãe, tirada em Changsha, em 1919, pouco antes da morte dela. Ele usa trajes de pessoa instruída, enquanto os dois irmãos mais jovens, Tse-tan (extrema esquerda) e Tse-min, ainda

usam roupas camponesas.

Mao Tse-tung (com tarja preta no braço) pouco depois da morte da mãe, o pai (segundo a partir da esquerda), um tio

(segundo a partir da direita) e o irmão Tse-tan. Changsha, 13 de novembro de 1919.

Yang Kai-hui, segunda esposa de Mao, e seus dois filhos mais velhos, An-ying, com dois anos, e An-ching, com um ano, em

Xangai, 1924. Kai-hui logo seria abandonada por Mao e executada pelos nacionalistas por causa dele. Ela deixou

manuscritos comoventes que descrevem sua desilusão com o comunismo e com Mao.

Os principais agentes de Moscou na China. Grigori Voitinski (acima, à esquerda) fundou o Partido Comunista Chinês em 1920. Maring (acima, à direita), o agitador holandês, copresidiu o primeiro congresso do PCC, em Xangai, em 1921. Mais

tarde, ele rompeu com Moscou e foi executado pelos nazistas. Mikhail Borodin (abaixo, extrema direita) manejou

comunistas e nacionalistas em 1923-27. Ele estava em Cantão, em 1925, com Chiang Kai-shek (ao seu lado), que em

breve se tornaria o líder nacionalista, e Wang Ching-wei (em primeiro plano), patrocinador de Mao no Partido

Nacionalista e depois chefe do governo títere japonês.

Ruijin, 7 de novembro de 1931, dia em que foi fundado o primeiro Estado (soviete) comunista, quando Mao (segundo a

partir da direita) tornou-se o “presidente”. À esquerda dele está Wang Jia-xiang; à direita, Xiang Ying, Deng Fa, o

comandante militar Zhu De, Ren Bi-shi e Gu Zuo-lin.

A liderança do Estado comunista realizou sua primeira reunião formal em 1 o de dezembro de 1931. Mao está de pé, de

costas. Zhu De está à direita de Mao. O Estado comunista ruiu em outubro de 1934, quando começou a Longa Marcha.

A ponte sobre o rio Dadu, em Luding, local do mito central da Longa Marcha. A feroz luta que teria sido travada aqui em

1935 foi uma invenção dos comunistas.

Mao (de pé, terceiro a partir da esquerda, com ar de Oscar Wilde) em seu QG pós-Longa Marcha, Yenan, em

setembro de 1937, com alguns dos participantes do “Levante da Colheita de Outono” de 1927, momento fundador do mito de

Mao como líder camponês. Gui-yuan, sua terceira esposa, está de pé na extrema direita.

Mao (sentado, segundo a partir da esquerda) com oficiais do Exército Vermelho, entre eles Zhu De (sentado, terceiro

a partir da esquerda) e Lin Biao (sentado, quarto a partir da esquerda), o comparsa mais próximo de Mao; Yenan,

1937.

Os quatro mandachuvas que, acreditamos, eram comunistas infiltrados que ajudaram a liquidar com os nacionalistas. Shao

Li-tzu (acima, à direita) entregou a Moscou, em 1925, o filho de Chiang Kai-shek, o qual se tornou refém de Stálin por

uma década. Para trazer o filho de volta, Chiang permitiu que os comunistas sobrevivessem durante a Longa Marcha. O

general Zhang Zhi-zhong (acima, à esquerda) desencadeou a guerra total com o Japão em 1937, desviando os japoneses

para o centro da China e para longe da Rússia. O general Hu Tsung-nan (abaixo, à esquerda) levou à ruína forças nacionalistas em massa, em 1947-48. O general das “Cem Vitórias” Wei Li-huang (abaixo, à direita, no centro),

fotografado para a revista Life, entregou a Mao meio milhão dos melhores soldados de Chiang na Manchúria, em 1948.

O Generalíssimo Chiang Kai-shek (à direita) com Chang Hsueh-liang (o “Jovem Marechal”), antigo senhor da guerra da

Manchúria, que sequestrou Chiang em Xian, em dezembro de 1936. O sequestro, coordenado com Mao, colocou os

comunistas marginalizados de volta no jogo. Atrás deles está H. H. Kung, cunhado e confidente de Chiang.

Os principais rivais de Mao no PCC. Chang Kuo-tao (acima, à esquerda) com Mao em Yenan, 1937. Mao sabotou o

exército dele, muito maior, na Longa Marcha; depois mandou metade dos remanescentes para a morte no deserto do noroeste

e, por fim, enterrou vivos os sobreviventes. Chang abandonou os comunistas em 1938. Wang Ming (acima, à direita) com

Mao pouco depois de chegar em Yenan vindo de Moscou, no final de 1937, trazendo ordens de Stálin para o PCC lutar

contra o Japão. Mao, que via na invasão japonesa um meio de destruir Chiang Kai-shek, sentiu-se ameaçado por Wang

Ming e mandou envenená-lo. Mao estava em minoria no Politburo quanto a sua política de não lutar contra o Japão, mas

inverteu sua sorte política ao tramar no outono de 1938, quando o Politburo se reuniu em Yenan, aqui visto diante da

catedral franciscana espanhola. A partir da esquerda: Mao, Peng De-huai, Wang Jia-xiang, Lo Fu, Zhu De, Po Ku (que

tentou deixar Mao para trás na Longa Marcha), Wang Ming, Kang Sheng, Xiang Ying, Liu Shao-chi, Chen Yun e

Chou En-lai.

Janeiro de 1937: tropas do Exército Vermelho entram em Yenan, que se tornou o lar de Mao por uma década.

Yenan: o edifício construído especialmente para o congresso do partido que entronou Mao em 1945. No fundo, veem-se as

cavernas que serviam de moradia, cavadas no loess macio dos morros.

A catedral franciscana espanhola de Nossa Senhora de Begoña, em Yenan. Terminada em 1935, foi tomada pelo líder

comunista local, Liu Chih-tan, pouco depois eliminado por Mao. Local de muitas reuniões importantes do PCC, inclusive a

que inverteu a sorte de Mao.

Diante da residência oficial de Mao, Jung Chang entrevista um agricultor local cuja mãe costumava lavar as roupas do líder

chinês.

Jon Halliday nas ruínas de um edifício semelhante a uma igreja, construído num vale remoto da região de Yenan

especialmente para as reuniões do partido; jamais foi usado, pois Mao tinha uma residência secreta ao lado e queria manter o

lugar somente para si. Este recinto secreto (abaixo) é desconhecido até hoje. Mao vivia na “caverna” à direita, com túneis

que atravessavam o morro. A entrada era encoberta e tinha até um toldo para proteger do sol. Os únicos vizinhos eram

vários milhares de prisioneiros bem guardados.

Mao com Gui-yuan, sua terceira esposa, em Yenan, 1937. Pouco depois, ela o abandonou e foi para a Rússia; teve crises

nervosas pelo resto da vida.

Os dois filhos de Mao que sobreviveram, na escola especial para filhos de líderes comunistas estrangeiros em Ivanovo, nas

cercanias de Moscou. An-ying, o mais velho, é o menino alto no centro da fileira do meio. A faixa acima do retrato de Mao

diz: “Viva a Internacional Comunista — a Organizadora da Luta pela Vitória dos Trabalhadores!”.

Mao posa diante de uma de suas residências, em 1939, lendo Stálin para um documentário dirigido por Roman Karmen, o

cineasta preferido do dirigente soviético, que documentou devidamente a “devoção” do líder chinês.

Recibo assinado por Mao de 300 mil dólares (equivalentes a cerca de 5 milhões de dólares em 2012), recebidos de um russo

chamado Mikhailov, datado de 28 de abril de 1938.

Em agosto de 1945, quando o Japão se rendeu, Stálin mandou Mao ir a Chongqing para fazer o jogo das negociações com Chiang Kai-shek. Acima, Mao na chegada a Chongqing, com o embaixador americano Patrick Hurley (centro). Chou En-

lai está à direita de Hurley. Quando a guerra civil se acirrou e Mao estava à beira da derrota, ele foi salvo

inadvertidamente pelo mediador americano, o general George C. Marshall.

Em sua partida de Yenan, em 5 de março de 1946, Marshall foi acompanhado por Jiang Qing, a quarta esposa de Mao (que

viria a ser a famigerada “madame Mao”), em sua primeira missão de futura “primeira-dama”.

Abatido, Chiang Kai-shek visita seu templo ancestral pela última vez antes de deixar a China continental em 1949, com seu

filho e herdeiro Ching-kuo (à esquerda, de chapéu).

Tropas comunistas entram em Nanquim e têm uma recepção claramente fria. Mais tarde, os comunistas filmaram

reencenações da tomada de cidades e as mostraram como se fossem acontecimentos verídicos.

Acima: Mao proclama a fundação da República Popular da China do alto do portão de Tiananmen, em 1o de outubro de

1949. Sua primeira campanha política centrou-se nas execuções em massa, diante de multidões organizadas (abaixo).

“Somente quando isso for feito de forma adequada nosso poder estará seguro”, pronunciou Mao. As pessoas exibidas

carregam placas dizendo que são “proprietários de terras” e “espiões”.

Mao, aparentando contrariedade, ao lado de seu patrono e rival, na cerimônia de aniversário de setenta anos de Stálin, em

Moscou, dezembro de 1949. À direita de Stálin está Walter Ulbricht, o líder da Alemanha Oriental a quem Mao sugeriu a construção de um muro; Tsedenbal, da Mongólia, está na extrema direita; o marechal Bulganin está atrás, no centro. Atrás

do ombro direito de Mao está seu intérprete Shi Zhe, que nos deu informações valiosas sobre a relação do líder chinês com

Stálin.

Desanimado, Mao conhece as glórias da pecuária soviética num curral gelado em Krasnogorsk, em janeiro de 1950. O

intérprete Shi Zhe está à esquerda.

O portão de Tiananmen adornado com um retrato do falecido Stálin, em 9 de março de 1953 (é possível ver os líderes

chineses abaixo do retrato). Uma das ordens recebidas pelas centenas de milhares de pessoas levadas à cerimônia gigantesca

era “não riam”.

Mao coloca uma coroa no retrato de Stálin. A morte do líder soviético foi seu momento de libertação.

Nikita Khruchióv, o supremo comandante soviético após a morte de Stálin, estava disposto a ajudar a transformar a China

numa superpotência militar, sonho acalentado havia muito tempo por Mao. Os dois líderes se abraçam no aeroporto de

Pequim, em agosto de 1958. O intérprete Li Yue-ran está ao fundo.

Mao com a atenção voltada ao caça a jato (o comandante da segurança pessoal Luo Rui-qing está à direita).

“O poder vem do cano de uma arma de fogo”: Mao em um exercício militar, com (a partir da esquerda) Luo Rui-qing e o

presidente Liu Shao-chi.

Manequim loiro chama a atenção de Mao numa exposição japonesa em Pequim, em 1956. Mao não estava ali para se

informar sobre moda para as mulheres chinesas, quase todas obrigadas a usar os “trajes maoístas”, mas para cortejar os

japoneses, a fim de obter materiais estratégicos para seu Programa de Superpotência.

Mao gostava de governar da cama e muitas vezes tirava seus colaboradores das próprias camas para reuniões no meio da

noite. As cadeiras para os membros do Politburo eram colocadas aos pés de sua enorme cama cheia de livros, na qual ele

também se divertia com suas numerosas namoradas.

No Grande Salto Para a Frente (1958-61), Mao brincou com a ideia de abolir nomes e identificar as pessoas por números.

Aqui vemos camponeses na província modelo de Henan, trabalhando com números nas camisas.

Falsas colheitas gigantescas foram inventadas para extrair o máximo de quantidade de alimentos para exportação.

Menina puxa um carrinho: as pessoas trabalhavam duro.

O presidente Liu Shao-chi em visita à sua aldeia natal em Hunan, na primavera de 1961. Consternado, ouve o relato de

um camponês idoso (acima) e observa um utensílio de cozinha vazio, com sua esposa Wang Guang-mei (abaixo). Essa

viagem levou-o a armar uma cilada para Mao e deter o Salto — e a epidemia de fome.

Decidido a contra-atacar, Mao usou seu hobby favorito, a natação, como gesto político para demonstrar vigor e força de

vontade.

Mao contempla um mapa do mundo durante a epidemia de fome, em 1961. Ao círculo íntimo, disse: “Precisamos controlar a

Terra!”.

Quem se manifestava era perseguido. O Panchen Lama do Tibete é denunciado diante de um retrato de Mao.

O ex-ministro da Defesa Peng Dehuai (foto menor) é exibido durante a Revolução Cultural; ele sofreu uma morte lenta.

Durante a Revolução Cultural, Mao vingou-se de Liu Shao-chi, visto aqui sendo espancado por funcionários que brandem o

Pequeno Livro Vermelho dentro de Zhongnanhai, o recinto da liderança. Em seguida, ele foi derrubado e pisoteado (abaixo);

e teve uma morte dolorosa no cativeiro.

Wang Guang-mei, sua corajosa esposa, foi maltratada e teve de usar um colar de bolas de pingue-pongue e um letreiro que a

chamava de “ladra política”.

Cenas cotidianas da Revolução Cultural. A posição de “jato” (à esquerda) e cortes brutais de cabelos, sempre sob um retrato

de Mao.

Uma imagem rara mostra a aparência real da população durante aqueles anos.

Nos arredores de Harbin, dissidentes desafiadores são fuzilados aos olhos de uma multidão, durante a Revolução Cultural.

A Revolução Cultural foi possível graças a uma troca entre Mao e o marechal Lin Biao. Acima, Lin e Mao, com a

 

braçadeira da Guarda Vermelha, no portão de Tiananmen, em 1966. (É possível notar os dentes pretos de Mao, que ele

raramente escovava. Ele não tomou banho durante os 27 anos de seu reinado.) No final, os dois se desentenderam.

No Dia do Trabalho de 1971, Lin, amuado (de boné, à direita), desafiou o protocolo e apareceu na praça apenas por um

minuto, recusando-se a falar com Mao e com o príncipe Sihanouk (ao lado de Mao) e a princesa Monique (ao lado de

Lin), do Camboja.

Ao que se sabe, “Tigre”, o filho de Lin Biao (à direita), é a única pessoa que planejou assassinar Mao. Em setembro de

1971, Lin, sua esposa (no centro) e “Tigre” fugiram da China e morreram na queda do avião na Mongólia, depois que

Dodo (à esquerda), a filha de Lin, que sofrera lavagem cerebral, os denunciou.

Cortejando Che Guevara, em 1960; Guevara foi deixado de lado quando passou a ser visto como um competidor.

Flertando com a primeira-dama das Filipinas Imelda Marcos, em 1974

Parabenizando o Khmer Vermelho em 1975, por criar uma sociedade escrava com um único golpe cruel: Pol Pot (no

centro) e o ministro do Exterior Ieng Sary (à direita).

O premiê Chou En-lai era a face charmosa da tirania de Mao. Mao usou os serviços do premiê ao mesmo tempo que o

chantageava, por quase meio século. Em fevereiro de 1972, Chou ganhou uma poltrona confortável (no alto) para a visita

do presidente americano Nixon. A partir da esquerda: Chou, Nancy Tang, Mao, Nixon, Kissinger e Winston Lord. Mas,

em dezembro de 1973, Mao já banira Chou para uma cadeira dura e humilhante, durante o encontro com o rei do Nepal.

Naquela época, Mao não lhe deu permissão para se tratar de um câncer, assegurando-se assim de que o premiê morresse

antes dele.

Em 1974, Deng Xiao-ping, recém-reabilitado (o mais baixo, no centro), fez uma aliança com o marechal Yeh Jian-ying

(segundo a partir da esquerda) e Chou En-lai (extrema direita) contra a Gangue dos Quatro, da qual três membros estão na mesma foto: madame Mao (de lenço na cabeça), Wang Hong-wen (atrás de Deng) e Yao Wen-yuan (extrema

esquerda).

Madame Mao é controlada durante seu julgamento, após a morte de Mao. Aos promotores, ela disse: “Eu era o cão do

presidente Mao. Quem quer que ele me pedisse para morder, eu mordia”. Ela se suicidou em 1991.

Em seus últimos anos, Mao identificou-se cada vez mais com líderes decadentes, em especial o ex-presidente Nixon, que ele

levou à China para uma despedida particular, em fevereiro de 1976.

A última fotografia de Mao, com o premiê do Paquistão Zulfikar Ali Bhutto, em 27 de maio de 1976. Mao morreu em 9 de

setembro daquele ano. Seus 27 anos de governo causaram a morte de mais de 70 milhões de chineses.