Mao: a história desconhecida
37. Guerra aos camponeses
(1953-56; 59-62 anos)
A partir do outono de 1953, foi imposto o confisco em todo o país, a fim de extrair mais alimentos para pagar pelo Programa de Superpotência. Seguiu-se o sistema de um campo de trabalhos forçados: deixar para a população apenas o suficiente para mantê-la viva e tomar todo o resto. O regime decidiu que a subsistência consistia de uma quantidade de comida equivalente a duzentos quilos de grãos processados por ano, e isso foi chamado de “alimentação básica”.
Mas essa quantidade raramente foi atingida durante o governo de Mao. Em 1976, quando ele morreu, após 27 anos no poder, a média nacional era de apenas 190 quilos. Enquanto os habitantes urbanos ganhavam mais, o consumo médio dos camponeses era consideravelmente menor que 190 quilos.
Mao queria que os camponeses tivessem muito menos do que isso. Eles “precisam somente de 140 quilos de grãos, e alguns precisam de apenas 110”, declarou. Essa última quantidade era a metade do necessário para a mera subsistência. Embora o mínimo escolhido por Mao não tenha sido aplicado nesse estágio, os resultados desse método de “espremer tudo” foram dolorosamente descritos por alguns camponeses a um funcionário solidário, após um ano da aplicação do confisco. “Nenhuma família tem o suficiente para comer.” “Trabalhei durante um ano e, no fim, tenho de passar fome por alguns meses [...] Meus vizinhos estão na mesma situação.” “A colheita não é ruim, mas de que serve? Por mais que a gente colha, de qualquer jeito não sobra o suficiente para comer [...].” Quanto à “alimentação básica”, “ninguém teve isso”. Em teoria, quem estivesse com fome deveria poder comprar de volta algum alimento, mas as quantidades nunca eram adequadas e Mao costumava repreender os funcionários — “Estão vendendo de volta grãos demais!” — e os incitar a cortar as quantidades “drasticamente”.
A resposta de Mao à situação difícil dos camponeses foi impiedosa. Eles deveriam comer folhas de batata-doce, que eram usadas tradicionalmente apenas para alimentar os porcos. “Eduquem os camponeses para comer menos e usar mingau mais ralo”, instruiu. “O Estado deveria tentar ao máximo [...] evitar que os camponeses comam demais.”
Bo Yi-bo, um dos administradores econômicos de Mao, reconheceu depois que, dentro da política de confisco, “a maior parte dos alimentos que os camponeses produziam foi levada embora”. E o uso da “força”, disse ele, era comum; as pessoas eram “conduzidas à morte”. Essa violência foi endossada especificamente por Mao, que discutiu as consequências do confisco com seu arquiteto Chen Yun, em 1 o de outubro de 1953. No dia seguinte, ele disse ao Politburo que eles estavam “em guerra” com toda a população: “Essa é uma guerra aos produtores de alimentos — bem como aos consumidores de alimentos”, referindo-se à população urbana, que foi então sujeita a um racionamento sem precedentes. Para justificar o tratamento dos camponeses como inimigos, a justificativa tola de Mao era de que “Marx e Engels nunca disseram que todos os camponeses eram bons”. Dias depois, quando transmitiu as instruções de Mao aos líderes provinciais encarregados de confiscar os alimentos, Chen Yun disse que eles deveriam estar preparados para mortes e tumultos em 100 mil aldeias — um décimo de todas as aldeias da China. Mas assegurou-lhes que isso não poria em risco o regime comunista, fazendo uma comparação com Manchukuo, onde os japoneses haviam confiscado grandes quantidades de grãos: “Manchukuo não teria caído se o Exército Vermelho soviético não tivesse vindo”. Em outras palavras, a força bruta ao estilo japonês garantiria que os camponeses não pusessem em perigo o regime, por mais que este os espremesse.
No início de 1955, o confisco já causava desgraça total. Mao recebeu numerosos relatórios sobre camponeses que eram obrigados a comer cascas de árvores e que abandonavam seus bebês porque não tinham comida. Mao havia instalado muitos canais para recolher informações na base, pois precisava manter os ouvidos abertos para permanecer no controle. Um canal era constituído por seus guardas. Naquele ano, quando foram para casa visitar suas famílias, ele lhes pediu que contassem o que se passava em suas aldeias. O retrato que pintaram era triste. Um deles escreveu que metade das famílias de sua aldeia estava sem comida e tivera de comer folhas das árvores naquela primavera. Outro relatou que as pessoas dependiam de ervas daninhas para se alimentar e estavam morrendo de inanição.
De outros canais, Mao ficou sabendo que as pessoas estavam dizendo coisas como “o que é que tem de bom o socialismo? Mesmo agora, quando acabamos de começar, não temos direito a óleo de cozinha”, e “o Partido Comunista está levando as pessoas à morte!”. Um funcionário então desconhecido da província de Guangdong chamado Zhao Zi-yang (que se tornou premiê na era pós-Mao) relatou que os quadros revistavam as casas, amarravam camponeses e os espancavam para forçá-los a entregar alimentos, e trancavam as casas daqueles que diziam não terem mais nada. Ele citava o caso de uma velha que se enforcou depois de ser aprisionada dentro de casa. Em um condado não atípico, Gaoyao, 110 pessoas foram levadas ao suicídio. Se esse número for extrapolado para os mais de 2 mil condados do país, a quantidade de suicídios nas áreas rurais nesse curto período chegaria perto de um quarto de milhão.
Alguns indivíduos corajosos enviaram petições a Mao. Um proeminente simpatizante escreveu-lhe para contar que recebera muitas cartas dizendo que os camponeses não tinham energia suficiente para trabalhar porque lhes sobrava muito pouca comida. Mao resumiu: “Dez mil relatórios [10 mil significa grande número] sobre mortes de seres humanos, mortes de animais, sobre gente atacando celeiros: 10 mil relatórios de escuridão”. Mas permaneceu totalmente insensível. Iria punir o simpatizante com o que chamou com desdém de “uma boa dose de perseguição”. Mao era dado a dizer airosamente que as pessoas “não estavam sem comida o ano todo — apenas seis [...] ou quatro meses” (sic). Funcionários superiores que invocavam o conceito tradicional de consciência (liang-xin) para implorar-lhe moderação viram-se repelidos com comentários do tipo: “É melhor você ter menos consciência. Alguns de nossos camaradas têm misericórdia demais e não suficiente brutalidade, o que significa que não são tão marxistas”. “Em relação a essa questão, nós, de fato, não temos consciência! O marxismo é brutal assim.”
Mao tornou-se ainda mais exigente a partir de meados de 1955, ao forçar a coletivização de todo o campo chinês, com o objetivo de facilitar o confisco. Antes, os camponeses podiam ter colheitas próprias e levá-las para casa antes de entregar a “parte” do Estado. Para Mao, isso abria uma brecha: os camponeses podiam registrar uma colheita menor e esconder uma parte dela, e fiscalizar quase 100 milhões de residências não era fácil. Com a coletivização, no entanto, toda colheita ia diretamente dos campos para as mãos do Estado, dando ao regime controle completo sobre sua alocação. Como disse um camponês: “Depois que você entra para o coletivo, só ganha a comida que o governo distribui para você”.
Para Mao, a outra imensa vantagem da coletivização era que tornava muito mais fácil manter os camponeses sob vigilância quando estavam no trabalho. Com ela, veio a escravização. A partir de então, o Estado ditou a que horas os camponeses deveriam trabalhar, e quanto. Um editorial do Diário do Povo do ano-novo de 1956 deixava claro que o objetivo era fazer os camponeses dobrarem suas horas de trabalho. Um alvo especial de Mao eram as mulheres: aquelas que não costumavam trabalhar no campo teriam de fazê-lo agora.
Para reprimir a resistência ao confisco e à coletivização, Mao atacou com sua velha panaceia: terror. Em maio de 1955, ele falou sobre outro “Plano Quinquenal”, dessa vez de repressão: “Precisamos prender 1,5 milhão de contrarrevolucionários em cinco anos [...] Sou totalmente a favor de mais prisões [...] Nossa ênfase é: prender muito, muitíssimo”. Usando a linguagem escatológica que adorava, acrescentou: “Meus peidos [isto é, ordens] são peidos socialistas, eles têm de ser perfumados”, isto é, obedecidos. Aqueles que resistissem ao confisco de alimentos ou à coletivização, bem como os funcionários que lhes fossem simpáticos, eram chamados de criminosos e notícias que anunciavam suas sentenças eram coladas nos muros de todo o país.
A coletivização da agricultura marcou um grande passo no sentido de tornar a China ainda mais totalitária. Ao mesmo tempo, Mao ordenou a estatização da indústria e do comércio em áreas urbanas, para canalizar todos os recursos para o Programa de Superpotência. Porém, os homens de negócios não foram perseguidos como os proprietários rurais, por motivos pragmáticos. Nas palavras de Mao, “Os burgueses são muito mais úteis do que os terratenentes. Eles têm know-how técnico e capacidade gerencial”. Não obstante, tratou então de desperdiçar esses talentos administrativos e técnicos de forma espetacular. Além disso, o glorioso artesanato chinês definhou nos anos seguintes. O número de lojas de conserto e manutenção diminuiria, aumentando muito a miséria da vida cotidiana. “Nós começamos o socialismo e tudo desaparece”, observou Liu Shao-chi com veemência.
Para pôr os servidores do Estado na linha, Mao lançou uma campanha em que não menos de 14,3 milhões de homens e mulheres passaram por um escrutínio aterrorizador que envolvia “confissões e informações”, frequentes reuniões de denúncia pública e abuso físico. Escritórios e prédios residenciais foram transformados em centros de detenção, assim como estádios esportivos e dormitórios universitários. Mao decretou que “os contrarrevolucionários [...] compõem [...] cerca de 5%” dos investigados, o que significaria que 715 mil pessoas seriam condenadas e receberiam punições variadas, inclusive execução. Na verdade, Mao indicou que mais gente do que isso poderia ser incluída, como diz uma de suas instruções: “Sempre que esse número for superado [5%], é preciso obter uma autorização”.
Essa campanha foi acompanhada por um aperto na literatura e nas artes. Com sua característica meticulosidade, Mao começou a estrangular a cultura a partir do momento em que tomou o poder. A indústria cinematográfica foi praticamente fechada. Em 1950, foram produzidos 39 filmes de ficção; em 1952, apenas cinco. Em 1954, ele começara um movimento para erradicar a influência dos grandes escritores, historiadores e eruditos não comunistas, alguns dos quais haviam fugido para o exterior, ou para Taiwan. Agora, voltava-se contra aqueles que tinham ficado e que mostravam alguma independência. Mao escolheu um escritor bem conhecido chamado Hu Feng, que havia pedido um ambiente artístico mais liberal e tinha seguidores. Em maio de 1955, Hu foi denunciado publicamente e jogado na prisão, da qual só saiu, com a mente destruída, após a morte de Mao, mais de duas décadas depois.
O caso de Hu Feng ganhou manchetes na imprensa. E serviu a outro propósito: assustar as pessoas para que não escrevessem umas às outras sobre suas opiniões. A correspondência entre Hu e seus seguidores foi publicada, revelando ideias críticas ao regime, e foi apresentada como prova contra eles. Em consequência, as pessoas passaram a ter medo de colocar ideias no papel. A impossibilidade de escrever seus pensamentos, além de não poder expressá-los de viva voz, ou tê-los de censurar todo o tempo, acabou por minar a capacidade das pessoas de formar juízos independentes.
O terror funcionou. No início de 1956, Mao contou ao alto escalão:
A primeira metade de 1955 foi simplesmente abominável [...] com nuvens negras em todo o céu [...] Havia
maldições contra nós em toda parte. As pessoas diziam que não éramos bons. Tudo porque [tomamos] um
pouco de grãos. Na segunda metade do ano, as maldições desapareceram. A boa colheita e a coletivização
foram dois grandes eventos felizes, e depois houve o expurgo dos contrarrevolucionários, outro evento feliz.
Outro evento “feliz” sobre o qual Mao ficou calado foi, sob vários aspectos, o mais significativo de todos. Ele obtivera aquilo que mais desejava: a tecnologia inicial para fazer a bomba atômica.
Em 1953, não conseguira a bomba de Moscou por meio do expediente de tentar prolongar a guerra na Coreia. Mas logo encontrou uma nova maneira, começando outra guerra, dessa vez relacionada com Taiwan. Em julho de 1954, Pequim deu sinais de estar preparando seriamente uma guerra contra a ilha nacionalista. Chou En-lai foi a Moscou e passou a mensagem de Mao ao Kremlin: precisava de uma guerra para “libertar Taiwan”.
Na verdade, os chefes militares chineses lhe tinham dito que havia poucas chances de sucesso na travessia do mar, e ele decidira não atacar Taiwan enquanto não estivesse pronto. O objetivo desse alarido sobre atacar Taiwan era na realidade empurrar a situação para a beira de um conflito nuclear com os Estados Unidos, o que confrontaria a Rússia com a possibilidade de ter de retaliar em nome da China, exceto se Mao tivesse a bomba.
Em 3 de setembro, a artilharia da China continental abriu fogo sobre a ilha nacionalista de Quemoy, que fica a poucos quilômetros da costa e era considerada um trampolim para qualquer ação contra Taiwan. Isso detonou o que se tornou conhecido como a “primeira crise do estreito de Taiwan”. As autoridades americanas consideraram que a crise era entre Washington e Pequim, mas, na verdade, era um estratagema para Mao exercer pressão sobre Moscou.
Pouco depois, Nikita Khruchióv, que acabara de assumir o comando no Kremlin, chegou a Pequim para a comemoração do quinto aniversário do regime comunista chinês, em 1 o de outubro de 1954, acompanhado por várias altas autoridades soviéticas, algo inimaginável na época de Stálin. Khruchióv chegou decidido a estabelecer as melhores relações possíveis. Procurou apagar boa parte dos erros de Stálin, oferecendo-se para eliminar os anexos secretos do tratado de 1950 que prejudicavam os interesses da China. Concordou também em fornecer mais equipamentos para as 141 fábricas bélicas já em funcionamento e vender a Mao outras quinze empresas, além de oferecer um novo empréstimo de 520 milhões de rublos.
Mao aproveitou imediatamente a iniciativa e solicitou ajuda para construir a própria bomba atômica a fim de dissuadir os americanos. Khruchióv perguntou o que poderia provocar um ataque dos Estados Unidos e ele citou a crise de Taiwan. Khruchióv tentou dissuadi-lo de construir sua bomba prometendo abrigo sob o guarda-chuva nuclear da União Soviética e garantindo que retaliaria caso a China fosse atacada. O líder russo também mencionou o argumento econômico de que fazer a bomba seria caro demais para a China. Mao comportou-se como se seu orgulho nacional tivesse sido ofendido. Embora isso tenha irritado Khruchióv, o líder soviético prometeu com relutância pensar em ajudar a China a construir um reator nuclear.
Pouco depois que Khruchióv partiu, Mao aumentou a crise ao bombardear e metralhar outras ilhas nacionalistas. O presidente Eisenhower reagiu concordando em assinar um tratado de defesa mútua com Taiwan. Mao foi em frente, aparentemente decidido a tomar as ilhas de Quemoy e Matsu — e mais. Sua intenção era cutucar os americanos para que ameaçassem usar armas nucleares. Em março de 1955, os Estados Unidos disseram que usariam armas nucleares em certas circunstâncias. No dia 16, Eisenhower disse deliberadamente numa entrevista coletiva que não via motivo para que não fossem usadas “exatamente como se usa uma bala ou outra coisa”. Mao conseguira o que pretendia — uma situação em que a China parecia correr um perigo real de ataque nuclear americano.
Como não queria entrar num confronto nuclear com os Estados Unidos, Khruchióv tomou a momentosa decisão de dar à China a assistência técnica para fazer a bomba.
Naquela ocasião, a existência de depósitos substanciais de urânio na província de Guangxi havia sido confirmada. Mao ficou extremamente excitado e pediu de imediato uma demonstração, em 14 de janeiro. O chefe da geologia Liu Jie relembrou:
Pus o minério de urânio sobre a mesa e [...] passei o contador Geiger por cima. O contador Geiger começou a
fazer “ga-ga-ga [...]” O presidente Mao ficou muito intrigado. Ele riu como uma criança e pegou o contador
Geiger, passou-o por cima do minério, escutando o som “ga-ga” de novo [...] quando me despedi [...] Mao
segurou minha mão e disse: “Liu Jie, ah! Quero que você saiba que está fazendo a coisa que decide nosso
destino!”.
Depois, houve um banquete. O brinde de Mao foi direto ao ponto: “Bebamos [...] por ter nossas bombas atômicas o mais rápido possível!”.
Em abril, os russos concordaram em construir na China os dois requisitos essenciais para fazer a bomba: um ciclotron e um reator nuclear. Mao estava a caminho de se tornar uma potência nuclear. Grandes grupos de cientistas chineses partiram para receber treinamento na Rússia. Em dezembro, chegou a notícia de que os russos haviam prometido ajudar a construir uma indústria nuclear abrangente na China. Mao estava extasiado. Com a assessoria de cientistas russos, foi traçado um plano nuclear de doze anos. No final de 1956, Mao disse a seus auxiliares que estava mais animado do que quando conquistara a China, seis anos antes. Sentia-se no topo do mundo e anunciou em tom grandioso para seu círculo íntimo: “Precisamos controlar a Terra!”.
* * *
Para corresponder ao plano nuclear de doze anos, em janeiro de 1956 Mao e um grupo de seus camaradas traçaram um plano de doze anos para a agricultura. Tratava-se, na verdade, de um esquema para extrair muito mais alimentos a fim de financiar seu Programa de Superpotência atualizado e expandido. Os camponeses teriam de produzir o equivalente a 500 bilhões de quilos de grãos por ano ao final de doze anos, mais do que o triplo da maior produção anual até então registrada no país (em 1936). E o plano teria de ser cumprido praticamente sem investimentos, nem mesmo em fertilizantes.
A essa altura, Mao encontrou novas resistências — dessa vez de quase todo o Politburo, liderado pelo usualmente sempre fiel Chou En-lai, que estava encarregado do planejamento, com o apoio de Liu. Todos sabiam que a produção astronômica de Mao era inatingível. Ele estabelecera a quantidade por um processo de “cálculo retroativo”, em que não partira da realidade, mas da quantidade de alimentos que precisaria para financiar suas compras. A conclusão óbvia era que seu plano implicaria extrair dos camponeses uma porcentagem muito maior da colheita do que antes. Como o campesinato já estava vivendo no fio da navalha, milhões de pessoas, no mínimo, cairiam na fome e na morte.
Ao perceber as implicações, em fevereiro de 1956 Chou cortou em um quarto os gastos com projetos industriais. Ele queria tanto quanto Mao que a China fosse uma superpotência, mas estava disposto a encarar o fato de que o país não tinha recursos suficientes para pagar por tudo que Mao queria, muito menos simultaneamente. Então optou por se concentrar no programa nuclear e projetos essenciais e cortar outros projetos, o que de todo modo era necessário, devido à escassez de materiais básicos como aço, cimento e madeira.
Porém, Mao queria todos os projetos, e todos ao mesmo tempo. Além de sua atitude irresponsável em relação ao bem-estar de seus súditos, não tinha noção alguma de economia. Segundo Bo Yi-bo, naquela época ele pedia para ler e ouvir os relatórios dos ministérios, mas “achava extremamente cansativo” e se queixava que os relatórios continham “apenas listas e números chatos, e nenhuma história”. Certa vez, enquanto ouvia um ministro, franziu as sobrancelhas e disse que aquilo era “pior do que estar na prisão” (onde jamais estivera). Chou En-lai viu-se admoestado por “inundar o presidente Mao com materiais e números entediantes”. Mao tinha dificuldades até com números básicos. Uma vez, numa conversa sobre comércio com o Japão, suas anotações preparadas continham uma quantia de 280 milhões de dólares, mas uma linha depois ele escreveu 380 milhões, errando o cálculo em 100 milhões. “Estatísticas e números não eram de forma alguma sagrados para ele”, observou Edvard Kardelj, o segundo em comando da Iugoslávia, após encontrar Mao, em 1957. “Ele disse, por exemplo, ‘em duzentos anos, ou talvez quarenta’.” Ivan Arkhípov, principal assessor econômico soviético na China, contou-nos, com um suspiro de exasperação, que Mao “não tinha nenhuma compreensão, absolutamente nenhuma compreensão” de economia.
Em abril de 1956, ele disse a seus colegas que os cortes deveriam ser restaurados, mas por uma vez eles bateram o pé. Mao dispensou a reunião, furioso. Depois, Chou foi vê-lo e implorou que aceitasse os cortes, dizendo, numa atitude extraordinária, que sua “consciência não permitiria” que obedecesse às ordens dele. Isso deixou Mao louco de raiva, mas não conseguiu impedir os cortes.
Os colegas de Mao bateram pé porque, embora fossem durões, as consequências — milhões de mortes por inanição — seriam medonhas. Além disso, se sentiram encorajados por um evento que acabara de acontecer em Moscou. Em 24 de fevereiro de 1956, no XX Congresso do Partido Comunista, Khruchióv havia denunciado Stálin por suas matanças e comportamento tirânico — e pelos custos de sua industrialização em ritmo de marcha forçada, um processo que, na verdade, era muito menos extremo do que o de Mao viria a ser. Os colegas de Mao começaram a criticar Stálin em relação a essas mesmas questões (sempre dentro do círculo interno do poder). Liu disse que a política camponesa de Stálin era um de seus “maiores erros”. Lo Fu observou que Stálin “punha demasiada ênfase na [...] indústria pesada” e disse: “Quando eu era embaixador na Rússia, ia às lojas e não achava quase nada para comprar. Eles também estão sempre com escassez de alimentos [...] Deveríamos tirar uma grande lição disso”. “Cometeremos grandes erros se ignorarmos a agricultura”, disse Chou ao Conselho de Estado em 20 de abril. “Todas as lições na União Soviética e nos países do Leste Europeu provam isso.” Não era preciso mencionar os paralelos com as práticas do líder chinês.
Mao não se importava com as denúncias contra Stálin, mas não pelos mesmos motivos, que estavam no cerne de seu regime. Ele tentou manter a linha com a tosca formulação de que Stálin estava 70% certo e somente 30% errado. Os 30% não tinham a ver com assassinato, tortura e má gestão econômica, mas principalmente com o modo como Stálin havia tratado Mao Tse-tung.
Mas Mao não podia se posicionar abertamente contra Khruchióv, que tinha consigo a autoridade da União Soviética, a cabeça do campo comunista — e estava lhe dando tantas fábricas de armas, além da bomba. Mais do que isso, a súbita e drástica denúncia de Stálin havia surpreendido Mao, que teve de prestar atenção ao novo líder. Como ele mesmo observou, a atitude de Khruchióv havia desestabilizado todo o campo comunista e “sacudido o mundo inteiro”. Ela provocou-lhe estupefação e fez com que sentisse que estava tratando com alguém extraordinariamente corajoso, imprevisível e com quem era melhor não brincar. Ele comentou várias vezes, em tom pensativo: “Khruchióv tem mesmo peito, ele ousa tocar em Stálin”. “Para isso, é preciso realmente coragem.”
Mao percebeu que tinha de tomar cuidado. Nessa situação, não podia refutar seus colegas quando eles citavam Khruchióv para se oporem a suas políticas. Frustrado e irado, saiu de Pequim para pensar numa solução nas províncias. Os chefes provinciais (conhecidos como primeiros-secretários) constituíam um grupo especial selecionado por sua devoção cega. Tinham de ser totalmente servis, pois a eles cabia impor a vontade de Mao a todos os cantos do vasto país.
Partidas súbitas e imprevistas eram rotina para Mao, mas dessa vez ele deixou Pequim de uma maneira sem precedentes. No meio de uma noite do final de abril, telefonou pessoalmente para Liu Ya-lou, chefe da Força Aérea e seu fiel seguidor, e lhe disse para ter aviões preparados para partir. Mao jamais andara de avião, exceto em 1945, na ida para Chongqing, por pressão de Stálin. Agora, não podia esperar para estar entre seus comparsas.
Era o primeiro voo de Mao em sua própria frota aérea e foram tomadas medidas extraordinárias para seu conforto e sua segurança. Uma grande cama de madeira foi instalada no avião e a tripulação só ficou sabendo quem era o passageiro no último minuto. A eles, Mao pareceu um tanto distraído; sentado em silêncio, deixou o cigarro queimar numa longa coluna de cinza, até que, de repente, pareceu acordar e ordenou a decolagem do avião. Desceu primeiro em Wuhan, onde foi recebido pelo chefe local, um arquidevoto, que havia instalado uma grande estátua de seu líder na sala de espera do aeroporto — talvez uma das primeiras da China. Mao demonstrou aborrecimento, pois isso estava acontecendo logo após Khruchióv ter denunciado o culto à personalidade, e disse ao devoto para se livrar da estátua; mas o homem não conseguiu saber se Mao estava falando realmente a sério, e a estátua ficou.
Mao foi então à capital da província meridional de Cantão, para se encontrar com outro acólito, além de madame Mao. Sua vasta herdade nessa região, a “Ilhota”, ficava no rio Pérola, e o tráfego fluvial foi interrompido para isolar aquele trecho do rio. O séquito de Mao foi proibido de receber visitas ou cartas e de dar telefonemas, e sobretudo de sair. O tempo estava quente e mesmo cinco barris gigantescos de gelo no quarto de Mao não faziam grande diferença. A propriedade, cheia de arbustos tropicais, estava infestada de pernilongos e maruins. Trouxeram DDT de Hong Kong para matá-los, sem sucesso total. Mao perdeu a paciência com os criados, a quem acusou de matar poucos insetos com tapas.
O que estava realmente irritando Mao eram os eventos em Pequim, onde seus colegas, em especial Liu e Chou, continuavam a desafiar seus desejos e até pressionavam mais para cortar projetos industriais-militares. Com fúria frustrada, Mao decidiu mandar-lhes um sinal de advertência peculiar. No fim de maio, trocou Cantão por Wuhan para nadar no Yangtze, o maior rio da China. Queria demonstrar sua resolução de enfrentar seus oponentes e sua resistência para levar a cabo a batalha.
Em Wuhan, o Yangtze alarga-se muito e várias pessoas de sua comitiva tentaram dissuadi-lo da façanha. Mas Mao sentia-se seguro. Como observou um de seus guardas, ele “não faria nada [...] que fosse arriscado”. Mais tarde, Mao quis nadar nas gargantas do Yangtze, mas desistiu da ideia no minuto em que ficou sabendo que a água era muito traiçoeira. Em Wuhan, uma grande quantidade de funcionários, do chefe da província para baixo, juntou-se aos homens da segurança para testar os redemoinhos e contracorrentes. Quando Mao finalmente entrou na água, dezenas de guardas especialmente treinados formaram um cordão ao seu redor, seguidos por três barcos.
Mao atravessou o rio a nado em três ocasiões. Havia ventos fortes e grandes ondas, mas ele não se perturbou, ostentando sua força. Antes da primeira vez, posou para fotografias na proa do barco, olhando para sua comitiva “como uma montanha inabalável”. No último dia em que nadou, sob garoa, dezenas de milhares de pessoas foram organizadas para observá-lo à distância, gritando “Viva o presidente Mao!”. Essa rara aparição pública foi a maneira de ele mandar sua mensagem aos colegas. Ele mostrou ainda mais sua determinação em um poema sobre as travessias a nado. Em um trecho, dizia:
Não me importo — se os ventos me açoitam ou as ondas me batem,
Enfrento todos, com mais pachorra do que passeando no jardim do pátio.
Em Pequim, seus companheiros não arredaram pé. Em 4 de junho, o Politburo endossou mais cortes de despesas e cancelou mais projetos industriais. Mao retornou à capital naquela tarde, mas sua presença não fez nenhuma diferença.
No dia 12, Liu mandou-lhe um rascunho de um editorial que havia encomendado ao Diário do Povo. Seu alvo, como declarava o título, era “a mentalidade da impaciência”. O texto criticava as pessoas que “planejam ações acima de seus meios, e tentam forçar coisas que não podem ser alcançadas”, “querem fazer tudo em uma manhã” e “assim criam desperdício”. E continuava: “Essa mentalidade da impaciência existe em primeiro lugar e sobretudo entre os quadros da liderança”, que estavam “forçando” o país a adotá-la. Como Mao diria depois, essas críticas dirigiam-se obviamente a ele. Em fúria, rabiscou três caracteres no papel: “Não vou ler”. Mas o editorial foi publicado mesmo assim.
O problema de Mao era que ele estava vivendo um momento de grande incerteza — de certo modo, mais incerto do que na época de Stálin, que tinha um compromisso fundamental com ele, porque Mao era um stalinista. Mas Khruchióv rejeitara o stalinismo e não havia como saber se aquele bulldozer não ia se voltar contra os líderes stalinistas — talvez até contra o próprio Mao. Com efeito, ele acabara de derrubar o líder húngaro Rákosi, o único comunista europeu em que Stálin confiara para deixar falar com Mao durante a visita à Rússia. Além disso, em agosto, encorajada pela denúncia de Stálin feita por Khruchióv, houvera, na Coreia do Norte, uma tentativa de tirar o aparentemente bem entrincheirado ditador Kim Il Sung do poder pelo voto em uma plenária do partido.
Mao também estava diante de um conclave: o primeiro congresso do PCC desde a tomada do poder, que estava marcado para setembro. Ele não podia postergá-lo, pois o evento fora amplamente divulgado e o novo clima, após as denúncias de Khruchióv, era o de obedecer às regras. A preocupação de Mao era que, caso se sentissem encurralados, seus colegas de poder poderiam tentar alguma coisa no congresso, tal como chutá-lo escada abaixo, ou até votar sua exclusão, denunciando todas as implicações do Programa de Superpotência. Havia poucas semanas, Anastas Mikoian, o delegado de Khruchióv ao congresso de Mao, supervisionara o destronamento de Rákosi na Hungria.
Mao tomou uma série de medidas para evitar que o congresso representasse uma ameaça. Primeiro, disparou tiros de advertência aos seus colegas. Alguns dias antes do evento, em 10 de setembro, lembrou-os de toda a oposição que havia enfrentado no passado e de como sempre triunfara. Numa atitude incomum, confessou que cometera “erros” no passado, mencionando o expurgo do início dos anos 1930 e os dois maiores desastres da Longa Marcha, Tucheng e Maotai, que ele chamou de “os verdadeiros erros”. Ao contrário do que se poderia pensar, não se tratava de um pedido de desculpas, mas de uma forma de mandar a seguinte mensagem: nada pode me derrubar; nenhum desses erros, por mais desastrosos, fez a menor diferença. Então, nem tentem.
Mas a principal tática de Mao foi parecer conciliador e disposto a um acordo. Permitiu que seu culto fosse menosprezado, autorizando que a expressão “Pensamento de Mao Tse-tung” fosse retirada do estatuto do partido — embora tenha compensado isso com outras formas de autopromoção, como ser retratado como o líder sábio que sempre rejeitara o culto. No fim, conseguiu virar a onda contra o culto da personalidade a seu favor, fazendo com que os retratos de seus colegas fossem retirados e livrando-se de slogans como “Viva o comandante em chefe Zhu De!” e se tornando o único foco de devoção.
Mao deu a impressão de que estava fazendo outras concessões importantes, como deixar seus colegas falar sobre o império da lei. Liu Shao-chi prometeu acabar com as mortes em massa e a violência e montar um sistema legal: “Precisamos [...] convencer cada um [...] de que, enquanto não violar a lei, seus direitos de cidadão estão garantidos e ele não será violado”. Outro relatório criticava as “campanhas”, que eram a essência do regime de Mao. No entanto, ele riu por último. Deixou que redigissem um código criminal, mas assegurou-se de que nunca fosse votado enquanto esteve vivo.
Sua concessão mais importante foi relaxar o cronograma do Programa de Superpotência. No principal relatório apresentado ao congresso, ele apagou seu slogan de estimação “Mais e mais rápido”, permitindo que o prazo de quinze anos fosse substituído por “em um tempo um pouco longo”. O relatório repetia as críticas de Liu à industrialização muito apressada que “sobrecarrega demais o povo [...] e causa desperdício”. Mao endossou níveis mais baixos de confisco de alimentos. O resultado foi que, em 1956, a ração média de alimentos foi equivalente a 205 quilos de grãos, a maior de todo o regime de Mao. Ele aceitou mais um corte de 21% no investimento em indústrias bélicas para 1957. Em consequência, 1957, assim como 1956, foi um ano relativamente melhor para as pessoas comuns.
Para Mao, no entanto, essas concessões eram intoleráveis; elas atrasavam seu programa. Dentro de um ano, ele encontraria maneiras de acabar com elas e reafirmar seu velho plano mestre.