Mao: a história desconhecida
34. Por que Mao e Stálin começaram a Guerra da Coreia
34. Por que Mao e Stálin
começaram a Guerra da Coreia
(1949-50; 55-56 anos)
Stálin reconheceu que Mao tinha o vigor e os recursos, especialmente os recursos humanos, para expandir as fronteiras do comunismo na Ásia de forma significativa. A fim de não diminuir seu poder, decidiu não criar um Cominform asiático, que daria ao líder chinês uma estrutura formal abrangendo todo o continente, mas aquinhoar-lhe países em separado, de tal modo que ele continuasse a ser o chefe supremo. Na segunda reunião que tiveram em Moscou, Stálin atribuiu-lhe a supervisão do Vietnã.
Até então, o líder russo mostrara pouco interesse por essa região. Em 1945, quando o líder comunista vietnamita Ho Chi Minh comandou um levante contra o domínio colonial francês e declarou um governo provisório independente, Moscou nem se preocupou em responder aos seus telegramas. Mas, embora não confiasse de todo em Ho, Stálin mudou de atitude radicalmente depois que Mao tomou o poder e tropas chinesas chegaram à fronteira do Vietnã, no final de 1949. Em 30 de janeiro do ano seguinte, enquanto Mao estava em Moscou, Stálin reconheceu o regime de Ho, alguns dias depois de Mao tomar essa medida. A falta de uma fronteira comum com o Vietnã tornava difícil para Stálin exercer o comando de longe, ao passo que a China poderia fornecer armas, mercadorias e treinamento através de sua fronteira com o Vietnã (e o Laos). Ao dar a Mao a custódia do Vietnã, Stálin deu a si mesmo uma maneira de atingir aquele país e gratificou Mao, ao mesmo tempo que transferia para a China a enorme despesa de sustentar as insurgências na Indochina.
Mao já havia tentado colocar os vietnamitas sob sua tutela. Ho vivera na China por mais de uma década, passara um tempo em Yenan e falava chinês com fluência. Mao vinha treinando, financiando e armando os vietnamitas, mas, quando criou um plano para enviar tropas chinesas, após ter controlado a fronteira com o Vietnã, no final de 1949, Stálin o deteve. O líder russo queria primeiro ter todos os fios em suas mãos.
Ho Chi Minh foi levado a Moscou, via Pequim, e chegou a tempo de fazer uma aparição teatral no jantar de despedida que Stálin ofereceu a Mao no Kremlin, em 16 de fevereiro de 1950. Stálin disse a Ho que a ajuda ao Vietnã era de responsabilidade da China, assim como seu custo. Ho foi o único líder comunista estrangeiro com quem Mao teve permissão para conversar adequadamente nessa viagem e os dois voltaram para a China no mesmo trem, no meio de um comboio que levava aviadores soviéticos que iam proteger Xangai e as cidades costeiras da China e aviões MiG-15s.
Mao passou então a encarregar-se pessoalmente da ação no Vietnã, cuidando tanto da grande estratégia como das minúcias das operações militares. O primeiro objetivo era conectar a base dos comunistas vietnamitas com a China, tal como o PCC fizera com a Rússia em 1945-46. Na China, a construção rápida de uma estrada até a fronteira terminou em agosto de 1950. Em dois meses, ela permitiu que os vietnamitas vencessem uma série crucial de batalhas conhecida como a Campanha da Fronteira, em consequência da qual o Exército francês perdeu o controle da fronteira com a China. A partir de então, choveu ajuda chinesa. Em 19 de agosto, Mao contou a Pável Iúdin, emissário de Stálin, que planejava treinar entre 60 mil e 70 mil soldados vietnamitas. Foi por ter a China como uma retaguarda segura e depósito de suprimentos que os vietnamitas puderam lutar durante 25 anos e derrotar os franceses e, depois, os americanos.
Na maior parte desse tempo, o enorme fardo logístico da luta na Indochina recaiu quase inteiramente sobre as costas da China. Para Mao, o custo era irrelevante. Quando o primeiro emissário enviado pelo partido francês a Ho mencionou as formas como os comunistas franceses poderiam ajudar os vietnamitas, ouviu de Liu Shao-chi: “Não perca tempo com isso. Não se intrometa em coisas como ajuda médica. Nós podemos fazer isso. Afinal, existem 600 milhões de chineses...”.
Não demorou para que Mao começasse a tentar “maoizar” seu cliente, impondo uma muito odiada reforma agrária ao Vietnã nos anos 1950, na qual assessores chineses chegaram a presidir tribunais ilegais que sentenciaram vietnamitas à morte em seu próprio país. To Huu, “poeta laureado” do Vietnã, saudou o papel de Mao em uma versalhada surpreendentemente franca:
Matem, matem mais [...]
Para a fazenda, bom arroz, rápida coleta de impostos [...]
Adorem o presidente Mao, adorem Stálin [...]
Embora alguns líderes vietnamitas tenham levantado objeções enérgicas à reforma agrária de estilo maoísta, Ho Chi Minh apresentou apenas uma resistência fraca e atrasada à tentativa de Mao de transformar a revolução vietnamita num clone da revolução chinesa.
De setembro a outubro de 1950, Mao diminuiu as operações no Vietnã a fim de se concentrar em uma guerra muito maior em outro território que Stálin decidira lhe atribuir. Tratava-se da Coreia.
No final da Segunda Guerra Mundial, esse país, que tinha sido anexado pelo Japão no início do século XX, foi dividido pela metade, ao longo do paralelo 38, entre a Rússia, que ficou com o norte, e os americanos, que ficaram com o sul. Após a independência formal, em 1948, o governo do norte ficou com o ditador comunista Kim Il Sung. Em março de 1949, enquanto os exércitos de Mao se aproximavam da vitória, Kim foi a Moscou para tentar persuadir Stálin a ajudá-lo a tomar a Coreia do Sul. O líder russo disse “não”, pois isso poderia acarretar um confronto com os Estados Unidos. Kim voltou-se então para Mao e um mês depois mandou seu vice-ministro da Defesa à China. Mao fez uma promessa firme a Kim, dizendo que ficaria feliz de ajudá-lo a atacar o sul, mas pedia que ele esperasse até que tivesse tomado toda a China. “Seria muito melhor se o governo norte-coreano lançasse um ataque total contra o sul na primeira metade de 1950”, disse Mao, acrescentando enfaticamente: “Se necessário, podemos pôr em segredo soldados chineses a seu serviço”. Coreanos e chineses, disse ele, tinham cabelos pretos e os americanos não conseguiriam diferenciá-los: “Eles não vão notar”.
Mao estimulara Pyongyang a invadir o sul e enfrentar os americanos — e oferecera mão de obra chinesa — já em maio de 1949. Naquele momento, falava em enviar soldados chineses clandestinamente, fingindo-se de coreanos, e não numa colisão aberta entre China e Estados Unidos. Mas, durante sua visita a Moscou, ele mudou. Decidiu enfrentar abertamente os americanos, porque somente uma tal guerra lhe possibilitaria arrancar de Stálin o que precisava para montar sua máquina de guerra de classe mundial. O que Mao tinha em mente resumia-se a um trato: soldados chineses lutariam contra os americanos para Stálin em troca de tecnologia e equipamentos soviéticos.
Stálin recebeu relatórios tanto de seu embaixador na Coreia como de seu contato com Mao sobre a ânsia do líder chinês por travar uma guerra na Coreia. Em consequência desse novo fator, Stálin começou a reconsiderar sua recusa anterior de deixar Kim invadir a Coreia do Sul.
Stálin ganhou um empurrão de Kim. Em 19 de janeiro de 1950, Terentii Chtíkov, embaixador soviético em Pyongyang, relatou que Kim lhe dissera “excitado” que “agora que a China está completando sua liberação”, a Coreia do Sul seria “a próxima da fila”. Kim “acha que precisa visitar o camarada Stálin de novo, a fim de receber instruções e autorização para lançar uma ofensiva”. Kim acrescentou que “se não for possível se encontrar com o camarada Stálin agora, ele tentará se encontrar com Mao”. E enfatizou que este havia “prometido lhe dar assistência depois da conclusão da guerra na China”. Jogando com a “carta Mao”, Kim disse a Chtíkov que “ele também tem outras questões para Mao Tse-tung, em particular a questão da possibilidade de montar um birô oriental do Cominform” (sem menção de falar com Stálin sobre isso). Mao, disse ele, “teria instruções sobre todas as questões”. Kim mandava desse modo o recado a Stálin de que Mao estava disposto a lhe dar apoio militar e que, se o líder russo ainda assim não endossasse uma invasão, ele iria diretamente a Mao e se colocaria sob seu comando.
Onze dias depois, em 30 de janeiro, Stálin telegrafou a Chtíkov para que dissesse a Kim que estava “preparado para ajudá-lo nisso”. Trata-se da primeira prova documentada de que Stálin concordou em começar uma guerra na Coreia e que ele mudou de posição por causa de Mao, que possuía o recurso essencial — um suprimento inexaurível de homens. Quando Kim foi a Moscou, dois meses depois, Stálin disse que o ambiente internacional havia “mudado o suficiente para permitir uma postura mais ativa em relação à unificação da Coreia”. E deixou explícito que o motivo disso era que “os chineses estavam agora em condição de devotar mais atenção à questão coreana”. Havia “uma condição vital — o apoio de Pequim” à guerra. Kim “deve confiar em Mao,
que compreende perfeitamente os assuntos asiáticos”. a
Uma guerra na Coreia travada por coreanos e chineses daria à União Soviética vantagens incalculáveis: podia testar em campo tanto seu novo equipamento, em especial os jatos MiG, como a tecnologia americana, bem como obter um pouco dessa tecnologia, junto com informações valiosas sobre os Estados Unidos. China e Coreia estariam na dependência completa das armas russas, de tal modo que Stálin poderia controlar o grau de envolvimento da União Soviética. Além disso, poderia testar até onde os Estados Unidos iriam numa guerra com o campo comunista.
Mas, para Stálin, a maior atração da guerra na Coreia era que os chineses, com sua massa de soldados que Mao estava ansioso para usar, poderiam eliminar, ou pelo menos reter, tantas tropas americanas que o equilíbrio do poder mundial poderia pender para o seu lado e lhe permitir transformar seus projetos em realidade. Esses projetos incluíam a tomada de vários países europeus, entre eles Alemanha, Espanha e Itália. Uma possibilidade que Stálin discutiu durante a Guerra da Coreia foi um ataque aéreo à frota americana em alto-mar, entre o Japão e a Coreia (a caminho de Inchon, em setembro de 1950). Com efeito, Stálin disse a Mao em 5 de outubro de 1950 que o período proporcionava uma chance única — e efêmera —, porque dois dos maiores países capitalistas, Alemanha e Japão, estavam fora de ação militarmente. Ao discutir a possibilidade do que equivalia a uma Terceira Guerra Mundial, Stálin disse: “Deveríamos temer isso? Em minha opinião, não deveríamos [...] Se uma guerra é inevitável, então
que seja travada agora, e não daqui a alguns anos”.b
Mao falou várias vezes desse potencial para Stálin, como forma de enfatizar sua utilidade. Em 1 o de julho de 1950, menos de uma semana depois que a Coreia do Norte invadira o sul, e muito antes de que tropas chinesas entrassem na luta, ele fez Chou dizer ao embaixador russo: “Agora precisamos montar com energia nossa aviação e nossa frota”, acrescentando propositadamente para os ouvidos de Stálin: “de tal modo que possamos nocautear [...] as Forças Armadas dos Estados Unidos”. Em 19 de agosto, o próprio Mao disse a Iúdin, o emissário de Stálin, que os Estados Unidos poderiam mandar trinta a quarenta divisões, mas que as tropas chinesas poderiam “triturá-las”. Ele reiterou essa mensagem a Iúdin uma semana depois. A seguir, em 1 o de março de 1951, resumiu para Stálin seu plano geral para a guerra na Coreia em termos de causar calafrios: “passar vários anos consumindo várias centenas de milhares de vidas americanas”.
Com as tropas sacrificáveis de Mao em oferta, Stálin estava determinado a travar uma guerra com o Ocidente na Coreia. Quando Kim invadiu o sul, em 25 de junho de 1950, o Conselho de Segurança da ONU logo aprovou uma resolução para enviar tropas de apoio à Coreia do Sul. Iákov Malik, embaixador soviético na ONU, vinha boicotando as reuniões desde janeiro, aparentemente porque Taiwan continuava a ocupar o assento da China. Todos esperavam que Malik, que continuava em Nova York, retornasse ao Conselho e vetasse a resolução, mas ele não apareceu. Na verdade, ele pedira permissão para retornar ao Conselho de Segurança, mas Stálin lhe disse para ficar de fora. O fato de os soviéticos não exercerem seu poder de veto deixou os observadores perplexos desde então, pois eles pareciam estar jogando fora uma oportunidade de ouro de bloquear o envolvimento do Ocidente na Coreia. Mas, se Stálin decidiu não usar o veto, só pode ter sido por uma razão: ele não queria deixar as forças ocidentais de fora. Queria que elas fossem para onde o puro peso dos números de Mao pudesse esmagá-las.
Era então do interesse de Stálin fazer de Mao um subchefe acima de Kim, mas tratava-se de um caso diferente em relação ao do Vietnã. Devido às enormes ramificações envolvidas no enfrentamento dos Estados Unidos, Stálin decidiu manter um grau extra de controle. Ele precisava ter absoluta certeza de que Kim compreendia que ele, Stálin, era o chefe supremo, antes de colocá-lo nas mãos de Mao. Assim, embora este estivesse em Moscou no dia 30 de janeiro, quando Stálin deu a Kim seu consentimento para ir à guerra, ele não deixou passar uma palavra a Mao e instruiu o norte-coreano a não informar o líder chinês. Stálin levou Kim a Moscou somente no final de março, depois que Mao havia partido, e repassou com ele os planos de batalha em detalhes. Em sua última reunião, em abril de 1950, deixou claro para Kim sua linha: “Se chutarem seus dentes, eu não levantarei um dedo. Você tem de pedir toda a ajuda a Mao”. Com esse remate camarada, Kim foi enviado aos cuidados de Mao.
Em 13 de maio, um avião russo levou Kim a Pequim. Ele foi direto a Mao para anunciar que Stálin dera a luz verde. Às onze e meia daquela noite, Chou foi despachado para pedir ao embaixador soviético Róshchin a confirmação de Moscou. A mensagem afetada de Stálin chegou na manhã seguinte: “A Coreia do Norte pode mover-se no sentido da ação; porém, essa questão deveria ser discutida [...] pessoalmente com o camarada Mao”. No dia seguinte (15 de maio), Mao prometeu a Kim seu comprometimento total e sobre a questão mais vital: “se os americanos tomarem parte [...] [a China] ajudará a Coreia com suas tropas”. E foi mais longe ao excluir a participação das tropas russas, dizendo que: “uma vez que a União Soviética está presa a um acordo de demarcação no paralelo 38 com os Estados Unidos, seria ‘inconveniente’ para ela tomar parte em ações militares, [mas como] a China não está comprometida com tais obrigações, ela pode, portanto, dar plena assistência aos norte-coreanos”. E ofereceu-se para posicionar de imediato tropas na fronteira com a Coreia.
Mao endossou o plano de Kim e Stálin e o líder russo telegrafou seu consentimento no dia 16. Em 25 de junho, o Exército norte-coreano atravessou o paralelo 38. Parece que Mao não ficou sabendo o dia exato da invasão. Kim queria que as tropas chinesas ficassem de fora até que fossem absolutamente necessárias. Stálin também queria que elas entrassem em ação somente depois que os Estados Unidos tivessem enviado um grande número de soldados para que os chineses os “consumissem”.
Truman reagiu com rapidez à invasão. Em dois dias, anunciou que estava mandando tropas para a Coreia, bem como aumentando a ajuda aos franceses na Indochina. Além disso, alterou totalmente a política de “não intervenção” em relação a Taiwan. Graças a isso, nem Mao nem seus sucessores conseguiram tomar a ilha nacionalista.
No começo de agosto, os norte-coreanos já haviam ocupado 90% da Coreia do Sul, mas os Estados Unidos despejaram reforços bem armados no país e, em 15 de setembro, desembarcaram tropas em Inchon, logo abaixo do paralelo 38, isolando boa parte do Exército norte-coreano no sul e se posicionando para invadir o norte. No dia 29, Kim mandou um SOS a Stálin, em que pedia “unidades voluntárias” da China.
Em 1 o de outubro, Stálin assinalou para Mao que chegara o momento de ele agir, dissociando-se vergonhosamente de qualquer responsabilidade em caso de derrota: “Estou longe de Moscou, em férias, e um tanto desligado dos eventos na Coreia”. Depois dessa mentira deslavada, vinha o que realmente importava: “Penso que se [...] você considerar possível mandar tropas para ajudar os coreanos, então deveria mobilizar pelo menos de cinco a seis divisões na direção do paralelo 38 [...] [Essas tropas] poderiam ser chamadas de voluntárias”.
Mao entrou imediatamente em ação. Às duas da manhã de 2 de outubro, emitiu uma ordem às tropas que já posicionara na fronteira coreana: “Fiquem alertas à ordem de entrar [na Coreia] a qualquer momento”.
A pobre e exausta China estava prestes a ser jogada numa guerra contra os Estados Unidos. Aparentemente foi só então, no início de outubro, que Mao reuniu o órgão maior do regime, o Politburo, para discutir essa questão momentosa. O Politburo não era uma equipe para tomar decisões importantes, mas para servir de caixa de ressonância para Mao. Nessa ocasião, ele convidou especificamente visões diferentes, devido às colossais implicações de uma guerra contra os americanos. Quase todos os seus colegas eram fortemente contrários a entrar na Coreia, inclusive Liu Shao-chi e o chefe nominal do Exército, Zhu De. Lin Biao foi o adversário mais insistente. Chou En-lai assumiu uma posição cautelosa e equívoca. Mao disse depois que a entrada na Coreia havia sido “decidida por um homem e meio”, sendo ele o “inteiro” e Chou o “meio”. Entre os enormes problemas levantados estavam: que os Estados Unidos tinham supremacia aérea total e superioridade de artilharia de cerca de quarenta para um; que, se a China se envolvesse, os americanos poderiam bombardear as grandes cidades chinesas e destruir sua base industrial; e que poderiam jogar bombas atômicas na China.
O próprio Mao vinha perdendo o sono diante dessas questões. Ele precisava de uma China em funcionamento como base para suas ambições mais amplas. Mas apostava que os Estados Unidos não expandiriam a guerra para a China. As cidades chinesas e as bases industriais poderiam ser protegidas dos bombardeios americanos pela Força Aérea russa. E, quanto às bombas atômicas, sentia no fundo que os Estados Unidos seriam detidos pela opinião pública internacional, especialmente depois que Truman já havia lançado duas — ambas num país asiático. Não obstante, Mao tomou precauções pessoais. Durante boa parte da Guerra da Coreia, enfiou-se numa propriedade militar altamente secreta nos arredores de Pequim, nas colinas da Fonte de Jade, bem equipada com abrigos antiaéreos.
Mao estava convencido de que os americanos não poderiam derrotá-lo, graças ao seu recurso fundamental: milhões de soldados sacrificáveis, inclusive um bom número de soldados de que ele estava bastante interessado em se ver livre. Com efeito, a guerra propiciava uma oportunidade perfeita para enviar ex-soldados nacionalistas para a morte. Eram homens que se haviam rendido em massa nos últimos estágios da guerra civil e foi uma decisão deliberada de Mao enviá-los para a Coreia, onde formaram o grosso das forças chinesas. Caso as tropas da ONU não levassem a cabo a tarefa, havia esquadrões especiais de execução na retaguarda para cuidar de quem recuasse.
Mao sabia que os Estados Unidos não seriam capazes de competir no sacrifício de homens. Estava pronto para apostar tudo porque fazer as tropas chinesas lutar contra os americanos era sua única chance de arrancar de Stálin o que ele precisava para fazer da China uma potência militar de classe mundial.
Em 2 de outubro, Mao rabiscou um telegrama a Stálin comprometendo-se a “mandar Exército chinês à Coreia”. Então, parece que pensou melhor. Em sua avidez para entrar na guerra, não informara Stálin sobre nenhum de seus problemas. Jogar com eles poderia elevar seu preço. Então segurou o telegrama e enviou outro bem diferente, dizendo que a entrada dos chineses “pode acarretar consequências extremamente graves [...] Muitos camaradas [...] julgam que é necessário mostrar cautela [...] Portanto, é melhor [...] abster-se de avançar tropas”. Porém, deixou em aberto a opção de entrar na guerra: “Uma decisão final não foi tomada”, terminava; “desejamos consultá-lo”.
Ao mesmo tempo, Mao preparava o terreno para entrar na Coreia fingindo dar aos Estados Unidos uma “clara advertência”. Com esse objetivo, Chou En-lai encenou uma complicada charada, acordando o embaixador indiano na madrugada de 3 de outubro para lhe dizer que “vamos intervir” se tropas americanas cruzassem o paralelo 38. A escolha desse canal, usando um embaixador cujo crédito no Ocidente era mínimo, quando teria sido perfeitamente simples fazer uma declaração oficial, indica que Mao queria que sua “advertência” fosse ignorada: assim, ele poderia entrar na Coreia alegando que estava agindo em legítima defesa.
No dia 5 de outubro, com as forças da ONU já entrando no norte, Stálin demonstrou impaciência. Naquele dia, respondeu ao telegrama de Mao do dia 2 que havia sugerido que ele poderia recuar. Stálin relembrou a Mao que ele assumira um compromisso:
Considerei possível voltar-me para você com a questão das cinco-seis divisões chinesas voluntárias porque
estava bem consciente de várias declarações feitas por importantes camaradas chineses [isto é, você] a respeito
de sua disposição de mobilizar vários exércitos para apoiar os camaradas coreanos [...]
Stálin referia-se ameaçadoramente ao que chamou de “política do esperar para ver”, que, disse ele, custaria Taiwan a Mao. O líder chinês vinha usando Taiwan como um argumento para persuadir Stálin a ajudá-lo a montar uma Força Aérea e uma Marinha. Stálin dizia agora a Mao que ele não ganharia nenhuma delas se não levasse adiante sua missão na Coreia.
Mas Mao não estava realmente tentando cair fora: estava aumentando seu preço. Quando recebeu a resposta de Stálin, já havia designado um comandante em chefe para as forças chinesas destinadas à Coreia: Peng De-huai. Mao avançou em ritmo próprio. Em 8 de outubro, depois de ordenar que suas tropas passassem a se chamar “Voluntários do Povo Chinês”, telegrafou a Kim para dizer que “decidimos despachar os voluntários para a Coreia a fim de ajudá-lo”. Também mandou Chou En-lai e Lin Biao a Moscou para obter armas. A caminho, Lin enviou-lhe um longo telegrama instando-o a abandonar a ideia de entrar na guerra. Mao mandou Lin Biao falar com Stálin justamente porque ele era um forte adversário da intervenção e impressionaria Stálin com as dificuldades militares que os chineses enfrentariam, extraindo assim o máximo do Chefe.
Chou e Lin chegaram à datcha de Stálin junto ao mar Negro no dia 10 e conversaram até as cinco da manhã. O líder russo prometeu-lhes “aviões, artilharia, tanques e outros equipamentos”. Chou nem mesmo negociou um preço. Mas, inesperadamente, Stálin descumpriu uma promessa e recusou o pedido fundamental: cobertura aérea para as tropas chinesas. Ele havia prometido isso (“uma divisão de jatos de combate — 124 aviões para cobrir as tropas [chinesas]”) em 13 de julho. Agora, alegava que os aviões não estariam prontos antes de dois meses. Sem cobertura aérea, as tropas chinesas seriam alvo fácil. Chou e Lin Biao argumentaram que a cobertura aérea russa era essencial. Chegaram a um impasse. Stálin telegrafou então a Mao para dizer-lhe que a China não tinha de entrar na guerra.
Stálin estava duvidando de Mao ao dizer, como este comentou mais tarde, “esqueça tudo!”. O líder chinês reagiu de imediato: “Com ou sem cobertura aérea da União Soviética, vamos entrar na guerra”. Mao precisava dela. Telegrafou a Chou em 13 de outubro: “Devemos entrar na guerra. Precisamos entrar na guerra”. Ao receber o telegrama, Chou enfiou o rosto entre as mãos. No mesmo dia, Mao disse ao embaixador russo que a China ia entrar, e só manifestava “esperança” de que a cobertura aérea russa chegasse “assim que possível, mas não depois de dois meses”, que era, de fato, o prazo estabelecido por Stálin.
Foi assim que, graças às ambições globais dos dois tiranos comunistas, bem como à ambição mais local de Kim, a China foi jogada no inferno da Guerra da Coreia em 19 de outubro de 1950.
a Kim Il contou depois ao líder do Partido Comunista Espanhol Santiago Carrillo (que nos contou) que ele havia começado a guerra — e que Mao fora muito mais favorável a iniciá-la do que Stálin.
b No final de 1950, um alto conselheiro do governo francês na Indochina (Jean Sainteny) resumiu o pensamento do general francês em comando naquela região, Jean de Lattre de Tassigny, com estas palavras: “que os russos estão atrás de 1 bilhão de seres humanos, seres humanos da Ásia, uma espécie de rebanho humano, para fazê-los lutar no Ocidente”. O mesmo pensamento ocorrera antes ao senador americano Henry Cabot Lodge. Ao questionar o chefe do Grupo de Aconselhamento Militar aos nacionalistas chineses, general de divisão Barr, em março de 1949, Lodge perguntou: “Você acha que os russos podem arregimentar aqueles chineses [...] e torná-los um recurso militar fora das fronteiras da China, e usá-los na Europa, ou [...] em algum outro lugar?”. Depois de uma exclamação do senador Alexander Wiley (“Gêngis Khan era chinês, não era?”), Barr respondeu: “os russos poderiam organizar uma divisão chinesa e levá-la para a Alemanha, ou para aquela área [...] Temo que essa ideia atrairia alguns dos comunistas chineses”.