Mao: a história desconhecida

Jung Chang e Jon Halliday · Capítulo 58 de 69

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Mao: a história desconhecida

56. Madame Mao na Revolução Cultural

 

(1966-75; 72-81 anos)

 

Com frequência, considera-se que Jiang Qing, a última esposa de Mao, era a mulher maldosa que o manipulava. Maldosa ela era, mas nunca esteve na origem de medidas políticas e sempre foi uma serva obediente dele, desde o momento em que casaram, em 1938. A relação de ambos foi descrita adequadamente por ela depois da morte do marido: “Eu era o cão do presidente Mao. Quem quer que ele me pedisse para morder, eu mordia”. Nos primeiros anos do Grande Expurgo, ela encabeçou o Pequeno Grupo que cuidava dos expurgos e depois foi membro do Politburo. Nesses cargos, desempenhou um grande papel na destruição da vida de dezenas de milhões de pessoas. Ela também ajudou Mao a destruir a cultura chinesa e fazer do país um deserto cultural.

A única iniciativa individual que teve no expurgo foi usar sua posição para executar vinganças pessoais. Uma delas foi contra uma atriz chamada Wang Ying, que décadas antes ganhara um papel teatral que madame Mao havia ambicionado e que depois passou anos glamourosos nos Estado Unidos, chegando mesmo a se apresentar na Casa Branca para o presidente Roosevelt e família. Wang Ying morreu na prisão.

Madame Mao tinha um ponto vulnerável: seu passado em Xangai. Ela vivia constantemente temerosa de que seus escândalos e seu comportamento na prisão dos nacionalistas fossem revelados. Assim, ex-colegas, amigos, um amante, amigos dos amantes e até uma criada que lhe fora devotada foram jogados na prisão, e muitos deles não sobreviveram.

Outra obsessão sua era recuperar uma carta que escrevera certa vez após uma briga com Mao, em 1958. Num ataque de raiva, havia escrito para um velho amigo, um diretor de cinema, pedindo o endereço de um ex-marido, Tang Na, que vivia em Paris. As consequências potencialmente fatais desse gesto impensado a importunavam desde então. Oito anos depois, assim que teve o poder nas mãos, mandou prender o diretor e vários outros ex-amigos mútuos e revistar a casa deles. O diretor morreu em consequência das torturas, jurando em vão que havia destruído a carta.

Com tanto sangue nas mãos, madame Mao era assombrada pelo espectro de assassinos. No auge de seu poder, desenvolveu um intenso medo de que estranhos chegassem perto dela, assim como de sons inesperados, tal como Mao às vésperas de conquistar a China. Quando um novo secretário entrou para sua equipe, em 1967, seu predecessor o recebeu dizendo: “A camarada Jiang Qing não está muito bem [...] Ela tem particularmente medo de sons e de estranhos. Assim que escuta um barulho ou vê um estranho [...] começa a suar e fica irritada. Qualquer coisa que façamos neste prédio — conversar, caminhar, abrir e fechar janelas e portas —, precisamos tomar cuidado para fazer em silêncio. Por favor, seja muito, muito cauteloso. Não a veja por enquanto e tente da melhor maneira sair fora do caminho dela. Se o pior acontecer e você não conseguir se esconder, não tente correr”.

Sua enfermeira também advertiu o novo secretário de que ela tinha “particularmente medo de ver estranhos. Se ela puser os olhos em você agora, haverá grande confusão”. Durante mais de três meses, o secretário ocultou-se em seu escritório. Então seu antecessor partiu — na verdade, para a prisão. No dia seguinte, o novo auxiliar foi chamado: “Fui ao gabinete dela tremendo de medo. Encontrei-a reclinada no sofá, com os pés sobre um banquinho, lendo alguns documentos de maneira lânguida”. Após algumas palavras, “ela ergueu a cabeça, abriu os olhos e lançou-me um olhar mal-humorado, insatisfeito. Disse então: ‘Você não pode falar comigo de pé. Quando falar comigo, sua cabeça não pode estar mais alta do que a minha. Estou sentada, então você deve se agachar para falar comigo. Não lhe explicaram essa regra?’ [...] Então, me agachei”.

Depois que o secretário respondeu a uma ou duas perguntas, ela falou com rispidez: “‘Você fala alto demais, depressa demais, é como uma metralhadora. Isso me dá dor de cabeça e me faz transpirar. Se eu ficar doente por causa de seu descuido com o volume e o ritmo de sua fala, sua responsabilidade será gigantesca demais’. Ela apontou para a testa e disse em voz alta: ‘Veja, veja você, estou suando!’”.

“Eu baixei minha voz e disse: ‘Por favor, me perdoe. Tomarei cuidado com minha voz e a velocidade’.”

“Jiang Qing franziu as sobrancelhas [...] e gritou com voz aguda e impaciência: ‘O que você está dizendo? Não consigo escutá-lo. Agora sua voz está baixa demais. Se não puder escutá-lo com clareza, também ficarei tensa, e também suarei’.” O secretário foi mandado embora com um aceno.

A vida perto de madame Mao era um pesadelo, como todos que entrevistamos testemunharam. Ela mandava sem hesitação criadas para a prisão por crimes fantasmas. Quando Chou En-lai ia visitá-la, os acompanhantes preferiam ficar nos carros e congelar de frio a entrar na casa, pois poderiam cruzar com ela, com consequências funestas. Em 1968, Cheng Yuan-gong, chefe dos guarda-costas de Chou, estava encarregado da segurança de uma reunião à qual ela compareceria. O staff dela pediu-lhe que tivesse alguma comida pronta, então ele a convidou para comer antes. Eis o que aconteceu, nas palavras dele: “Ela irrompeu na sala do premiê e disse: ‘Cheng Yuan-gong quis me impedir de entrar. O que está acontecendo aqui? Que espécie de reunião é esta?’. Ela gritou e berrou com o premiê”. Chou teve de gastar horas para endireitar as coisas. Dois dias depois, ela disse a ele: “Cheng Yuan-gong é um patife. Ele tem um passado sombrio. E está sempre tentando evitar que eu veja o premiê”. O guarda-costas estava com Chou havia 23 anos, mas o premiê teve de se livrar dele, que foi mandado para a detenção e depois para um campo de trabalho.

Mao sabia que ela era uma chata monumental que tomava o tempo das pessoas, pois algumas delas se queixavam de vez em quando para ele. Sabia também que seu comportamento interferia no funcionamento de seu regime. Mas, para ele, valia a pena manter todos desequilibrados, conservar um clima de insegurança e paranoia. Evidentemente, com Mao, ela era mansa e silenciosa como um camundongo. Somente ele poderia lhe fazer mal.

 

Em 1969, quando o regime reconstruído de Mao foi montado, ele criou o Pequeno Grupo e fez de madame Mao seu cão de ataque. Ela não tinha uma função administrativa. Enquanto esperava por ele, passava muito tempo jogando cartas, divertindo-se com seus animais de estimação, inclusive um macaco (quando animais de estimação estavam proibidos para toda a população), e cavalgando no parque Beihai, no centro de Pequim, outrora um parque público, agora fechado. Assistia a filmes estrangeiros quase todas as noites — todos, naturalmente, proibidos para os chineses comuns.

Seu estilo de vida era o cúmulo da extravagância. Um de seus hobbies era a fotografia. Para isso, ela fazia vasos de guerra navegar para lá e para cá e a artilharia antiaérea disparar salvas de tiros. Suas piscinas eram mantidas sempre aquecidas e uma em particular, construída exclusivamente para ela em Cantão, recebia água mineral canalizada de dezenas de quilômetros de distância. Estradas foram construídas especialmente para que visitasse locais montanhosos com belas vistas, muitas vezes com meios extraordinários. Em um caso, como sua residência ficava perto, os engenheiros do Exército não puderam usar dinamite para que as explosões não a alarmassem e as rochas tiveram de ser quebradas à mão. Aviões eram mantidos de prontidão a fim de satisfazer seus caprichos, até para levar de Pequim para Cantão uma jaqueta que sentisse súbita vontade de usar, ou uma espreguiçadeira preferida. Seu trem especial, tal como o de Mao, tinha de parar onde ela bem quisesse, perturbando o sistema de transportes. Longe de sentir vergonha, dizia: “Para que eu tenha um bom descanso e passe horas agradáveis, vale a pena sacrificar os interesses de algumas outras pessoas”.

Um desses sacrifícios era de sangue. Sempre em busca de métodos para melhorar a saúde e a aparência, ela ficou sabendo de uma técnica incomum: transfusões de sangue de homens jovens e saudáveis. Desse modo, muitos guardas pretorianos foram submetidos a um rigoroso exame de saúde e, de uma pequena lista de quatro, tirou-se sangue de dois deles para ela. Depois, ela ofereceu um jantar a eles, dizendo-lhes que haviam realizado uma façanha “gloriosa” ao “doar-lhe” sangue. “Ao saber que o sangue de vocês está circulando em minhas veias, [...] devem se sentir muito orgulhosos”, acrescentou, antes de adverti-los para manter a boca fechada. As transfusões não se tornaram rotina, pois ela ficou tão excitada que contou para Mao e ele a aconselhou a não repeti-las, por motivos de saúde.

Apesar de suas queixas constantes, madame Mao gozava de boa saúde. Mas seus nervos viviam em frangalhos. Tinha de engolir três porções de comprimidos para dormir antes de cair no sono, o que acontecia geralmente por volta de quatro da manhã, e também tomava tranquilizantes duas vezes por dia. Quando estava dentro de casa durante o dia, impedia a entrada de luz natural, tal como Mao, com três camadas de cortinas e lia à luz de um abajur, com um pano preto em cima, produzindo uma atmosfera que seu secretário descreveu como fantasmagórica.

Os ruídos perturbavam-na num grau absurdo. Em sua residência principal de Pequim, a Vila de Pesca Imperial, o staff tinha ordens para espantar passarinhos e cigarras e, às vezes, de não usar sapatos e caminhar com os braços e pernas separados, para evitar que suas roupas farfalhassem. Embora sua vila ficasse num jardim de 420 mil metros quadrados, ela mandou fechar o parque de Yuyuantan, que ficava ao lado e era um dos únicos parques públicos que ainda restavam na capital. Coisa semelhante aconteceu em Cantão, onde sua vila ficava às margens do rio Pérola: o tráfego dessa importante via comercial era suspenso durante suas estadas e até um estaleiro distante teve de parar o trabalho.

Calor e correntes de ar também a obcecavam. Seus quartos tinham de ser mantidos exatamente a 21,5 graus centígrados no inverno e 26 graus no verão. Mas, mesmo quando o termostato indicava essa temperatura, ela acusava seus auxiliares: “Vocês falsificam a temperatura! Vocês conspiram para me fazer mal!”. Certa vez, jogou uma tesoura numa enfermeira e quase acertou porque ela não conseguia localizar a fonte de uma corrente de ar.

“Servir a mim é servir ao povo” era o constante refrão para seu staff.

 

Depois da morte de Lin Biao e da descoberta de uma conspiração para assassinar Mao — e ela —, madame Mao foi atormentada por pesadelos em que os fantasmas da família Lin a perseguiam. Ela confidenciou ao seu secretário: “Tenho me sentido como se fosse morrer a qualquer minuto [...] como se alguma catástrofe fosse acontecer amanhã. Sinto-me cheia de terror todo o tempo”.

Sua paranoia aumentara de grau graças a um incidente que ocorreu pouco antes da fuga da família Lin. Ela havia ido a Qingdao para fotografar navios de guerra (mandara que seis deles vagassem pelo mar para pegar o melhor ângulo) e o banheiro da residência local estava com defeito. Ela então usou uma escarradeira que, reclamou, era dura demais para seu traseiro. Então seus auxiliares improvisaram um assento, usando um anel de borracha da piscina. Ela precisava ser amparada por duas criadas enquanto urinava, mas estava acostumada a isso. Uma noite, porém, usou a escarradeira-toalete sem ajuda, depois de tomar três porções de comprimidos para dormir, caiu e quebrou a clavícula. Depois da fuga de Lin, passou a dizer que o acidente fazia parte do complô de assassinato e que seus comprimidos para dormir haviam sido envenenados. Isso causou uma enorme comoção: todos os seus remédios foram interditados e levados para teste, e toda a sua equipe médica foi detida e interrogada diante de Chou e do Politburo. Chou teve de conversar com ela durante uma noite inteira, das nove da noite às sete da manhã, para tentar acalmá-la.

A visita dos Nixon em fevereiro de 1972 foi um enorme fortificante. Com eles e com os visitantes estrangeiros subsequentes, ela podia se entregar ao seu desejo de bancar a primeira-dama. Havia também a chance de divulgá-la para o mundo por meio de uma biografia. Em agosto daquele ano, a professora americana Roxane Witke foi convidada a escrever sobre ela, na esperança de que a transformasse numa celebridade mundial, como Edgar Snow fizera com Mao.

Madame Mao conversou com Witke durante sessenta horas. Mas seu desempenho aborreceu Mao, que havia originalmente apoiado o projeto. Fiel ao seu feitio, ela desandou a falar. Para horror de seu séquito, confessou ter um profundo “amor” e saudade da Xangai pré-comunista e até cantarolou uma canção de amor popular nos anos 1930. “Minha vida era tão romântica [...] Eu tinha tantos namorados, pretendentes que andavam atrás de mim.” Isso já era suficientemente ruim, mas ela quase causou um ataque do coração nos chineses presentes ao descrever como certa vez um fuzileiro americano tentara pegá-la. “Talvez estivesse bêbado. Ele vinha se arrastando na minha direção na Bund, em Xangai, e parou na minha frente. Ele barrou meu caminho, bateu os calcanhares e me fez continência [...] Estendeu os braços [...] Eu ergui a mão e dei-lhe um tapa no rosto. Ele foi embora sorrindo e me fez outra continência, batendo os calcanhares. Até disse ‘desculpe’. Vocês americanos são tão polidos...”

Madame Mao confessou num arroubo que “adorava” Greta Garbo e ...E o vento levou, que disse ter visto umas dez vezes: “A cada vez, fiquei muito emocionada”. “Será que a China consegue produzir um filme como esse?”, perguntou, como se ela e seu marido não tivessem nada a ver com a supressão do cinema chinês. Seus elogios a ...E o vento levou parecem ter deixado apreensivo Yao Wen-yuan, o controlador da imprensa de Mao, pois ele começou a repetir clichês comunistas: “o filme tem defeitos. Ela [a escritora] simpatizava com os donos de escravos”. Madame Mao o calou com uma observação desconcertante: “Mas eu não vi no fime qualquer elogio à Ku Klux Klan”.

No fim, por ordem de Mao, somente algumas transcrições foram enviadas a Witke, que publicou uma biografia de corpo inteiro. Jiang Qing continuou a desempenhar o papel de primeira-dama com estrangeiros, embora suas chances de fazê-lo fossem muito menores do que gostaria. Em consequência, tentava constantemente se infiltrar. Quando o primeiro-ministro dinamarquês Poul Hartling e sua esposa visitaram a China em 1974, ela os acompanhou ao teatro, mas não foi incluída no banquete oficial; então, apareceu sem avisar e os deteve por meia hora, enquanto quatrocentas pessoas esperavam. Os dinamarqueses disseram que ela falava de um jeito “arrogante” e “exibido”, e era constrangedora. Na visita de uma equipe de natação americana, ela espiou pelo canto de uma parede de vidro para vê-los treinar. “Ah, eles eram tão lindos! [...] que movimentos lindos”, falou com entusiasmo depois. (Antes, havia se negado a entrar na água com Witke, alegando que “as massas ficariam excitadas demais” se vissem sua “primeira-dama” nadando.)

A sede de contato com estrangeiros de madame Mao só competia com sua paixão por roupas femininas. Na China de seu marido, as mulheres só podiam usar jaquetas e calças deselegantes. Ela só conseguia usar um vestido ou uma blusa em ocasiões bastante raras. Em 1972, ansiava por usar um vestido para acompanhar o presidente Nixon (que a descreveu como “desagradavelmente abrasiva e agressiva”) e sua esposa ao balé O destacamento vermelho de mulheres, um de seus oito “espetáculos-modelos”. Mas, depois de muito sofrimento, abandonou a ideia, pois pareceria muito incongruente diante do grande número de chineses da plateia que, embora convidados especiais, estariam todos em trajes maoístas. Quando Imelda Marcos, esposa do ditador das Filipinas, visitou a China, em setembro de 1974, usando seu glorioso traje nacional, madame Mao teve de aparecer com seu deselegante uniforme e boné, que a expunha de forma totalmente desfavorável ao lado da ex-miss. Tanto o fotógrafo chinês como a sra. Marcos notaram que ela olhava com inveja para a visitante com o canto do olho.

Madame Mao decidiu criar um “traje nacional” para as mulheres chinesas. Seu desenho era uma blusa sem colarinho e uma saia três-quartos franzida. O conjunto era tão desagradável que, quando foram publicadas fotografias de atletas chinesas usando essa roupa no exterior, as mulheres chinesas, embora famintas de moda, a receberam com zombaria universal. Ainda assim, embora seu desenho fosse um fracasso enquanto moda, o amor pelas roupas de madame Mao ajudou a levantar o tabu que havia sobre saias e vestidos, que voltaram a ser usados cautelosamente após quase uma década, em 1975.

Madame Mao queria que seu projeto de roupa se tornasse o “traje nacional” oficial. Para tanto, era necessária uma decisão do Politburo, que foi contra, por motivos orçamentários. Uma saia longa pregueada empregaria muito tecido e, se entrasse em produção como vestuário “nacional”, demandaria imensas quantidades. Ela tentou persuadir Mao a anular a decisão, fazendo com que as namoradas preferidas dele usassem a roupa. Mas, quando ele soube a origem do traje, rejeitou-o contrariado e até com desgosto.

 

Madame Mao ficou reduzida a adular as namoradas de Mao para obter acesso ao marido. Desde o início da Revolução Cultural, o casal vivia em casas separadas, mesmo quando ambos estavam em Pequim: ela na Vila de Pesca Imperial, ele em Zhongnanhai. Nos primeiros anos da Revolução Cultural, quando estava ativamente envolvida na direção das coisas, ela podia visitá-lo à vontade. Mas, à medida que diminuiu o papel político dela, Mao restringiu seu acesso e, com frequência, impedia sua entrada na casa dele. O fato era que Mao não suportava a mulher. Mas, quanto mais era rejeitada, mais ela tentava desesperadamente se aproximar. Não podia permitir ser descartada. Implorava às namoradas de Mao que falassem em seu favor, dando-lhes presentes como materiais bonitos para fazerem roupas, até mesmo um relógio suíço. Em certa ocasião, conseguiu entrar na casa dele dizendo aos guardas que estava lá para verificar a “higiene”. Mao mandou-a embora aos gritos e depois disse aos guardas, irado: “Prendam-na se tentar se infiltrar de novo!”.

No aniversário de 82 anos de Mao (o último), em 26 de dezembro de 1975, madame Mao foi admitida e levou dois dos pratos preferidos dele. Mao agiu como se ela não existisse: não lhe deu mais do que um olhar vago e não lhe dirigiu uma palavra sequer. Ela foi embora logo, em estado lastimável, enquanto cinco mulheres jovens, em sua maioria ex-namoradas, ficavam com Mao para o jantar de aniversário.

Essas namoradas não eram tratadas como concubinas reais e banhadas de presentes e favores. Mao as usava, tal como fazia com a esposa. Elas lhe forneciam sexo e o serviam como criadas e enfermeiras. No último ano de sua vida, ele estava com medo de ser assassinado e só duas pessoas podiam entrar em seu quarto sem permissão expressa; ambas eram namoradas que se haviam transformado em enfermeiras: Zhang Yu-feng, ex-camareira de bordo de seu trem, e Meng Jin-yun, ex-atriz da companhia de canto e dança da Força Aérea. Elas se revezavam para fazer todo o serviço em torno de Mao, ficavam de pé até 24 horas por dia, sempre de plantão, e em geral precisavam dormir vestidas. Tinham pouca vida familiar, nenhum feriado, nenhum fim de semana. Mao se recusava a aumentar a equipe, pois elas eram as únicas pessoas em quem ele confiava para estar constantemente ao seu lado.

Meng, a ex-atriz, ansiava por ir embora e pediu à colega que rogasse por ela, dizendo que estava perto dos trinta anos e queria passar algum tempo com o marido e ter um filho. “Espere até eu morrer e então poderá ter um filho”, foi a resposta de Mao. Por sua vez, Yu-feng tinha uma bebê que precisava de leite materno (não havia comida para bebê na China naquela época). Como não podia ir para casa todos os dias, extraía seu leite e o guardava numa garrafa no refrigerador de Mao, até poder dar um pulo em casa. Mas a bebê ficou doente por causa do leite, deixando-a ansiosa em relação à sobrevivência da filha. Às vezes, quando estava lendo para Mao, em um estado de completa exaustão, começava a murmurar o nome da menina. Nada disso comoveu Mao o suficiente para diminuir a carga de trabalho dela.

Poucas das muitas mulheres que chamaram a atenção dele o recusaram, mas uma delas parece ter feito isso: sua elegante professora de inglês e intérprete, Zhang Han-zhi. Um dia do final de 1972, depois que ela servira de intérprete para Mao, ele a levou para uma sala no fim do corredor e explodiu numa agitação tremenda: “Você não me tem em seu coração! Você simplesmente não me tem em seu coração!”. Surpresa, ela falou sem pensar: “Presidente, como posso não o ter em meu coração? Todos os chineses o têm em seu coração”. Ele deixou-a ir embora. Ela continuou a ser sua intérprete e Mao chegou mesmo a promover o homem que ela amava (e com quem veio a se casar) a ministro do Exterior. Mas infligiu-lhe punição, submetendo-o a rodadas de denúncias nas mãos do staff do Ministério do Exterior.

Uma pessoa que realmente amava Mao era sua filha mais moça Li Na, o único descendente que tivera com Jiang Qing. Nascida em 1940, ela cresceu ao seu lado e, quando criança, sua tagarelice ajudava-o a relaxar. Ela adorava o pai, como deixa claro uma carta que lhe escreveu quando tinha catorze anos, em 8 de fevereiro de 1955:

Querido papai,

Você está dormindo? Você deve estar tendo um sono delicioso, delicioso. Você deve estar surpreso de eu lhe escrever assim de repente. O que aconteceu foi: quando você estava de

aniversário, eu queria lhe dar um presente, mas antes de eu terminar de bordar um lenço, seu aniversário

acabou. Também meu bordado era tão ruim que eu não o dei para você. Porque eu sei que você não ficaria

bravo comigo, e você é meu bom papai, certo? Desta vez, está chegando o aniversário de mamãe, então eu

quis aproveitar a oportunidade para compensar. Você pode não gostar da coisa que estou lhe dando, mas fui

eu que fiz. É pequeno, mas mostra meus sentimentos: eu desejo que meu paizinho querido seja sempre

jovem, gentil e otimista [...]

 

E terminava: “Beijos de sua filha, que o ama apaixonadamente”.

Mao queria que sua filha, ao crescer, se tornasse politicamente útil e a orientou nessa direção. Já em 1947, quando os comunistas estavam saindo de Yenan, ele insistiu em que ela ficasse próxima dos tiros e das bombas, embora tivesse apenas seis anos. Madame Mao implorou às lágrimas que ela fosse evacuada, mas Mao gritou para a esposa: “Caia fora daqui! A menina não vai. Quero que ela ouça o tiroteio!”.

Mao começou a prepará-la para ser sua assistente quando começou a Revolução Cultural, em 1966. Aos 26 anos, ela acabara de se formar em história chinesa moderna na Universidade de Pequim, matéria de que, segundo ela, não gostava em particular, mas que aceitara porque o PCC queria que mais filhos da elite se tornassem historiadores do partido. Seu pai a designou para o principal jornal do Exército, onde começou a trabalhar como repórter especial, coletando informações para ele. O objetivo de Mao era que ela assumisse o controle do jornal, o que ela alcançou em agosto de 1967, enquanto os membros dos conselhos editorial e administrativo eram levados para a prisão. Promoveu-se então um culto em torno dela. Os escritórios do jornal — e até as casas dos seus funcionários — foram cobertos de cartazes que “saudavam” Li Na e slogans gritados em comícios proclamavam que quem se opunha a ela era contrarrevolucionário. Uma sala de exposição foi inaugurada no jornal para exibir seu “grande mérito”; lá estavam sua caneca de chá e sua bicicleta, para mostrar sua atitude santa de não usar porcelana fina ou limusine.

Seu comportamento mudou nessa época. Se no início parecera despretensiosa, agora ela exigia atenção aos gritos do pessoal mais antigo e ameaçava: “Eu realmente gostaria de ver você fuzilado!”. Declarou que ia impor a “lei dos bandidos”, usando uma expressão arcana decerto aprendida com o pai. Mais de 60% da equipe antiga do jornal sofreu uma perseguição estarrecedora por supostamente se opor a ela. Entre os muitos funcionários que foram torturados estava uma ex-amiga pessoal que discordara dela em uma questão sem importância.

No início de 1968, quando Mao estava fechando seus canais pessoais no Exército para agradar Lin Biao, Li Na foi tirada do jornal. Seu próximo cargo não foi menos importante: diretora do escritório privado do Pequeno Grupo. O posto ficou vago para ela graças a um simples expediente, típico do modus operandi de madame Mao. Ela acusou o diretor existente de ser um espião e o trancafiou na prisão. Li Na assumiu então o cargo, até a dissolução do Pequeno Grupo, em 1969.

Mao pretendia vê-la em uma função ainda mais elevada: superintendente de Pequim. Mas, em 1972, ela teve um colapso nervoso e entrou e saiu da insanidade durante anos, até depois da morte dele. Parece que, ao contrário dos pais, ela não gostava de perseguir, e que, depois do ardor inicial em fazer cumprir as ordens do pai, perdeu o juízo devido à constante perseguição que devia levar a cabo. Em certa ocasião, pegou uma pilha de documentos sobre o expurgo e suicídio de um homem que conhecia e os jogou pela janela, gritando: “Não me deem mais desse lixo! Estou farta disso para o resto da vida!”.

Ela ansiava por afeição. Sua mãe, que a amara quando era criança, agora, tal como seu pai, reduzia a relação exclusivamente à política, sem lhe dar afeto e conforto. Quando estava a caminho do colapso nervoso, tomando cada vez mais comprimidos para dormir, Li Na não tinha ninguém a quem recorrer. Jovem, desejava uma relação amorosa, mas tendo Mao por pai e, em especial, Jiang Qing por mãe, nenhum homem ousava cortejá-la e nenhum arranjador de casamentos estava disposto a se meter em encrenca. Foi somente quando já estava com 31 anos, em 1971, que ela mesma se aproximou de um jovem criado. Quando escreveu ao pai a fim de pedir permissão para o casamento, ele apenas fez ao mensageiro algumas perguntas básicas e depois escreveu na própria carta: “Concordo”. O presente de casamento de Mao foi uma coleção de livros pesados que ele mesmo jamais lera: as obras de Marx e Engels.

Seus pais não compareceram ao casamento simples, aceito com relutância por madame Mao, pois considerava o noivo abaixo de sua filha, uma vez que fora um criado. Durante algum tempo, Li Na aparentemente apresentou uma propensão a resfriados e febres, e madame Mao pôs a culpa disso nas relações sexuais da filha com o marido; de modo insultuoso, mandou que ele fizesse um checkup físico. Não demorou para que ela conseguisse banir o genro para outra cidade, alegando que ele “parece um espião”. O casamento ruiu e Li Na mergulhou numa depressão profunda.

Em maio de 1972, ela deu à luz um filho, que iluminou brevemente sua vida. Mas Jiang Qing não gostava do bebê porque desprezava seu pai e jamais o segurou nos braços. Mao não demonstrou nenhum interesse pelo filho de Li Na, assim como por nenhum de seus outros três netos.

Sem amor ou alegria em sua vida, Li Na deslizou para a insanidade. No que dizia respeito a Mao, ela se tornara inútil. Ele a viu cada vez menos e não manifestou

nenhuma preocupação com a condição física ou mental dela. a

 

Mao também perdera o interesse por sua outra filha, Chiao-chiao, que não tinha jeito para a política. Anos antes, quando ela voltou da União Soviética com doze anos de idade e aparência exótica, de saia de lã e sapatos de couro, com hábitos russos e falando russo, Mao a enchera de afeição e a exibira, chamando-a de “minha pequena estrangeira”. E ela se sentira delirantemente feliz. Mas, ao perder o valor de entretenimento que tivera quando pequena e se transformar numa mulher politicamente inútil, descobriu que tinha pouco acesso ao pai. Nos últimos anos da vida de Mao, ela conseguiu vê-lo raras vezes. Foi ao portão de Zhongnanhai em várias ocasiões, mas ele negou-lhe a entrada. Ela teve um colapso nervoso e entrou e saiu da depressão durante muitos anos.

O filho mais velho de Mao foi morto na Guerra da Coreia, em 1950. O único filho sobrevivente, An-ching, era doente mental. Mao proporcionava-lhe uma vida confortável, mas raramente o via e não o considerava um membro da família. Tinha o costume de dizer que sua família tinha cinco membros: ele e madame Mao, as duas filhas e seu único sobrinho, Yuan-xin.

O sobrinho passara boa parte de sua juventude na família de Mao. Durante a Revolução Cultural, quando tinha trinta e poucos anos, foi elevado ao posto de comissário político da Região Militar de Shenyang, e nessa condição ajudou Mao a controlar a Manchúria, a área crítica do nordeste do país que fazia fronteira com a União Soviética. Um de seus últimos atos conhecidos foi ordenar a execução de uma corajosa mulher filiada ao partido chamada Zhang Zhi-xin, que havia contestado abertamente madame Mao e o Grande Expurgo. Logo antes de ser fuzilada, ela foi imobilizada no chão da cela e cortaram-lhe a traqueia, para evitar que falasse no local do fuzilamento, embora a execução fosse secreta. Essa crueldade era gratuita, pois as vítimas de execução costumavam ter uma corda ao redor do pescoço que podia ser puxada para sufocá-las, caso tentassem falar.

Além de ser cruel, Yuan-xin pertencia à família. Mao fez dele seu contato com o Politburo no último ano de sua vida. Na verdade, Tse-min, o irmão de Mao e pai de Yuan-xin, havia morrido em parte porque Mao dera instruções para que não tentassem salvá-lo quando estava na prisão em Xinjiang no começo dos anos 1940, fato cuidadosamente escondido do filho, bem como de todo mundo.

Mao também fora a causa da morte de sua segunda esposa. Depois de ser abandonada por ele, Kai-hui foi executada em 1930, em consequência direta de seu ataque a Changsha, onde ela morava, por motivos que só tinham a ver com sua busca de poder pessoal. E ele era também, em larga medida, responsável pelos inúmeros e finalmente irreversíveis colapsos mentais de sua terceira esposa, Gui-yuan (que morreu aos 75 anos, em 1984).

Ao longo de décadas, Mao causou o infortúnio de quase todos os membros de sua família. Sua última traição foi contra a quarta e última esposa, Jiang Qing. Depois de induzi-la a fazer boa parte de seu trabalho sujo, e sabendo quanto ela era detestada, não tomou providências para protegê-la após sua morte. Ao contrário, ofereceu a cabeça dela à “oposição” que surgiu perto do fim de sua vida. Em troca da garantia de sua segurança enquanto estava vivo, eles poderiam fazer o que quisessem com madame Mao e seu grupo, que incluía o sobrinho Yuan-xin. Menos de um mês depois da sua morte, o grupo inteiro acabou na prisão. Em 1991 madame Mao suicidou-se.

 

a Hoje, Li Na está recuperada e leva uma vida normal. Parece ter se “esquecido” de seu papel na Revolução Cultural.