Mao: a história desconhecida

Jung Chang e Jon Halliday · Capítulo 45 de 69

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Mao: a história desconhecida

43. O maoísmo torna-se global

 

(1959-64; 65-70 anos)

 

Em fevereiro de 1959, a Rússia assinou um acordo para fornecer à China meios de produzir submarinos nucleares. Isso marcou o ponto alto da cooperação do Kremlin em transferência de tecnologia. Mas, no momento mesmo em que o acordo estava sendo assinado, Khruchióv reconsiderava o fato de dotar Mao com tamanho poder militar.

Um incidente em particular levara o líder soviético a repensar a questão. Em setembro de 1958, um míssil americano Sidewinder havia caído de um avião de Taiwan na China sem explodir. Os pedidos urgentes de Khruchióv para deixar os russos examinarem esse artefato de última geração não receberam resposta. Os chineses alegaram depois que não conseguiam encontrá-lo. Serguei, o filho de Khruchióv especialista em mísseis, relembrou:

Pela primeira vez, papai percebeu as fissuras profundas que haviam surgido em nossa “amizade fraternal”.

Pela primeira vez, ele se perguntou se fazia sentido transferir a tecnologia militar mais nova e ensinar os

chineses a construir mísseis e ogivas nucleares.

[...] em fevereiro [1959], ele decidiu exercer pressão pela primeira vez [...] segurou a transferência de

instruções para o [míssil] R-12. Funcionou. O míssil [Sidewinder] foi imediatamente encontrado.

 

Os chineses haviam desmontado o míssil e o sistema essencial de orientação estava ausente. “Isso foi uma ofensa e um insulto a nós”, escreveu Khruchióv em suas memórias. “Qualquer um em nosso lugar teria sentido dor. Não tínhamos segredos com a China. Demos a eles tudo [...] No entanto, quando conquistaram um troféu, recusaram-se a compartilhá-lo conosco.” O líder soviético chegou à conclusão de que Mao estava apenas usando a Rússia para seus propósitos e não se importava com os interesses do campo comunista como um todo. Mao, achou ele, “explodia com um desejo impaciente de mandar no mundo”. Khruchióv deu ordens para andar devagar na transferência de know-how nuclear e, em 20 de junho de 1959, suspendeu a ajuda relacionada com a bomba atômica.

Não foi um golpe fatal, pois então a China já possuía o know-how básico e o equipamento essencial para a bomba. Mas Mao pôde perceber que a partir de então seria difícil obter mais dos russos.

Em setembro, Khruchióv foi aos Estados Unidos, na primeira visita de um líder soviético àquele país. Ele acreditava que havia uma possibilidade real de coexistência pacífica com o Ocidente. Depois, foi a Pequim, para o décimo aniversário do regime comunista, e instou Mao a ser conciliador em relação ao Ocidente, “para evitar qualquer coisa que possa ser explorada [...] para levar o mundo de volta à ‘rotina’ da Guerra Fria”, nas palavras do principal ideólogo soviético.

Mao viu na reaproximação de Khruchióv do Ocidente uma oportunidade histórica de se apresentar como o defensor de todos aqueles que consideravam a coexistência pacífica um favorecimento — e possível congelamento — do status quo. O momento parecia particularmente bom, com o processo de descolonização em plena força. Havia numerosos movimentos anticolonialistas na África inclinados à guerra de guerrilhas, da qual Mao era visto como o defensor e o especialista que Khruchióv não era. Os partidos comunistas também pareciam um alvo fácil, pois tinham poucas esperanças de chegar ao poder, exceto pela violência. Mao imaginou uma situação em que “os partidos comunistas de todo o mundo não acreditarão [na Rússia], mas acreditarão em nós”. Ele viu uma chance de criar seu próprio “centro para a revolução mundial”.

Ter o próprio campo e não ter de desempenhar um papel de coadjuvante ao lado de Khruchióv era um sonho antigo de Mao. Quando a fonte de equipamento militar russa começou a secar, ele sentiu-se menos preocupado em perturbar Khruchióv. Mas também não queria um rompimento, pois a Rússia ainda fornecia uma riqueza de tecnologia militar, com não menos de 1010 planos transferidos apenas em 1960 — mais ainda do que em 1958. Então, Mao formulou uma política de “não denunciar” os russos “por enquanto”, e tratou de arrancar deles tudo o que podia, o mais rápido possível. “A China se tornará poderosa em oito anos”, disse ao alto escalão, e “Khruchióv estará completamente falido.”

No início de 1960, comunicou ao seu círculo íntimo que, naquele momento, o objetivo era “propagar o Pensamento de Mao Tse-tung” em todo o mundo. De início, o esforço não deveria ser demasiado agressivo, para não ser visto como uma tentativa de — em suas palavras — “exportar nossos aromáticos intestinos” (aos quais Mao comparava seu “pensamento”). A campanha de propaganda resultante levou ao mundo o “maoísmo”.

 

A ideia de promover a experiência da China como modelo quando milhões de chineses morriam de fome poderia parecer absurda, mas Mao não se perturbou, pois tinha filtros rigorosos sobre o que os estrangeiros podiam ver e escutar. Em fevereiro de 1959, a “avaliação preliminar” da CIA sobre a produção chinesa de alimentos era que havia “aumentos notáveis na produção”. Mao poderia facilmente enganar a maioria dos visitantes. Quando a escritora francesa Simone de Beauvoir visitou o país, em 1955, até a chinesa que falava francês designada para acompanhá-la tinha de obter permissão especial para falar com ela sem passar pelo intérprete. Após sua curta visita, De Beauvoir pontificou que “o poder que ele [Mao] exerce não é mais ditatorial do que o de, por exemplo, Roosevelt. A nova Constituição da China torna impossível a concentração da autoridade nas mãos de um único homem”. Ela escreveu um alentado livro sobre a viagem, intitulado A Longa Marcha; no índice dessa obra encontra-se a palavra “violência” com a seguinte indicação: “[Mao] sobre violência, evitação da”.

Mao impedia que os chineses saíssem do país, exceto uma elite muito bem escrutinada. Entre os poucos privilegiados estavam os diplomatas, que ficaram famosos por seus desempenhos morosos. Eles trabalhavam sob regras rígidas que determinavam exatamente o que podiam dizer, ordens rigorosas de relatar todas as conversas e vigilância permanente de uns sobre os outros. Os primeiros embaixadores da China comunista eram, em sua maioria, generais do Exército. Antes de enviá-los ao exterior, Mao lhes dizia, em tom de brincadeira séria: “Vocês não conhecem nenhuma língua estrangeira e não são diplomatas [profissionais]; mas quero que sejam meus diplomatas — porque, na minha opinião, não serão capazes de fugir”. E mais da metade desses homens ia para outros países comunistas.

As únicas pessoas que saíam do país e abriam a boca eram os poucos cidadãos comuns que arriscavam a vida e nadavam para Hong Kong. Eles rompiam o muro de silêncio sobre a fome no regime de Mao e as terríveis realidades da China comunista em geral. Mas suas vozes obtinham pouca credibilidade no Ocidente.

Ao contrário, quando Mao contou mentiras deslavadas ao líder socialista francês (e futuro presidente) François Mitterrand, durante a fome de 1961 (“Repito, a fim de ser ouvido: não há fome na China”), recebeu amplo crédito. O futuro primeiro-ministro canadense Pierre Trudeau visitou o país em 1960 e coescreveu um livro deslumbrado, Dois inocentes na China vermelha, que rejeitava informações sobre a fome. Até o ex-diretor-geral da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação, lorde Boyd-Orr, foi enganado. Em maio de 1959, após uma viagem à China, ele opinou que a produção de alimentos aumentara de 50% a 100% no período 1955-58 e que a China “parece capaz de alimentar bem [sua população]”. O marechal de campo britânico Montgomery, uma figura muito mais crédula, afirmou após suas visitas em 1960 e 1961 que não houvera “fome em larga escala, apenas escassez em certas áreas”, e ele certamente não considerava Mao culpado pela “escassez”, pois instou-o a permanecer no poder: “A China [...] precisa do presidente. Você não deve abandonar este navio”.

Mao não tinha problemas para esconder a fome e confiava que poderia se promover como um líder internacional digno de crédito. Para essa tarefa, convocou três escritores-jornalistas confiáveis: Edgar Snow, o meio chinês Han Suyin e Felix Greene, que fez uma entrevista com Chou na TV da BBC, durante a qual este simplesmente leu suas respostas.

 

* * *

 

A autopromoção de Mao no exterior foi estimulada pela vasta distribuição de seu trio usual: armas, dinheiro e alimentos. Em 21 de janeiro de 1960, criou-se um novo órgão, chamado Escritório de Ligação Econômica Externa, no mesmo nível do Ministério do Comércio Exterior e do Ministério do Exterior, para cuidar do aumento da ajuda externa. Os números da ajuda explodiram imediatamente. Essa orgia de presentes de Mao coincidiu com os piores anos da maior epidemia de fome da história universal. Somente em 1960, mais de 22 milhões de pessoas morreram de inanição.

A China não era apenas o país mais pobre do mundo a fornecer ajuda externa, mas essa ajuda era a maior jamais dada, enquanto porcentagem da renda per capita do país doador — e, ademais, ia com frequência para países com padrão de vida muito mais alto, como a Hungria. E essas doações não custavam apenas o padrão de vida, mas vidas chinesas. Além disso, eram literalmente doações, pois Pequim dizia sempre que os empréstimos deviam ser tratados como presentes, ou que seu pagamento deveria ser postergado sem prazo definido. Quanto às armas, o regime gostava de dizer que “não somos mercadores de armas”; mas isso não significava que não as exportassem, apenas que não era preciso pagar por elas.

Mao percebeu que tinha sua melhor chance quando havia guerra, de modo que o maior beneficiário das doações foi a Indochina, com a qual ele esbanjou mais de 20 bilhões de dólares durante seu reinado. Na África, tentou agarrar-se ao movimento de descolonização: fez chover dinheiro, mercadorias e armas sobre os argelinos, que

travavam a maior guerra anticolonial do continente contra os franceses. a

Na América Latina, Pequim foi direto a Cuba depois que Fidel Castro tomou o poder, em janeiro de 1959. Quando Che Guevara esteve na China, em novembro de 1960, Mao concedeu um “empréstimo” de 60 milhões de dólares que, segundo Chou disse ao visitante, não precisaria ser pago.

No próprio bloco comunista, Mao tentou conquistar influência em todos os países, mas só conseguiu tirar um cliente da esfera de influência da Rússia: a minúscula e miserável Albânia. Já no início de 1958, seu ditador Enver Hoxha havia filado 50 milhões de rublos de Mao — uma quantia considerável para um país com menos de 3 milhões de habitantes. Depois, em janeiro de 1961, quando o racha Pequim-Moscou se aguçou e Hoxha mostrou que poderia servir para cuspir veneno sobre Khruchióv, Pequim decuplicou essa quantia e emprestou 500 milhões de rublos a Tirana, além de enviar 60 mil toneladas de trigo que a China havia comprado à vista do Canadá. Graças à comida doada pela China, os albaneses não souberam nem o que era racionamento, enquanto os chineses morriam como moscas. Pupo Shyti, principal negociador da Albânia com Pequim, contou-nos que, na China, “se podia ver a fome”. Mas “os chineses nos deram tudo”. “Quando precisávamos de alguma coisa, simplesmente pedíamos aos chineses [...] Eu me sentia envergonhado.” Quando os colegas de poder de Mao vacilaram, ele os repreendeu.

Mao gastava dinheiro tentando dividir os partidos comunistas e montar partidos maoístas em todo o mundo — tarefa que confiou ao seu velho chefe da inteligência, Kang Sheng. Ao perceber os critérios grosseiros de fidelidade de Pequim, os parasitas aproveitaram para tirar uma casquinha. Os arquivos albaneses revelam um mal-humorado Kang em Tirana reclamando de esquerdistas venezuelanos que obtiveram 300 mil dólares da China através da Albânia. O serviço secreto holandês montou um partido maoísta falso, que foi financiado e festejado pelos chineses. James Lilley, o principal especialista em China da CIA, contou-nos que eles ficaram deliciados ao descobrir como era fácil infiltrar-se no país: bastava que algumas pessoas cantassem louvores a Mao e criassem um partido maoísta para que Pequim enviasse fundos e fizesse convites para visitas à China. (Esses espiões, porém, foram inúteis, pois todos os

estrangeiros eram rigidamente segregados dos chineses.) b

 

Para promover o “maoísmo” no mundo, Mao escolheu o aniversário de noventa anos do nascimento de Lênin, em abril de 1960, e lançou um manifesto intitulado “Viva o leninismo!”, em que sustentava que defender uma via pacífica para o socialismo era inaceitável — “revisionismo”, no jargão de Pequim — e que, se os comunistas quisessem tomar o poder, teriam de recorrer à violência. Não mencionava o nome de Khruchióv, mas o atacava indiretamente, usando Tito como bode expiatório. O cálculo de Mao era que, desse modo, o líder russo teria menos desculpas para puni-lo com a recusa de ceder know-how militar.

Ao mesmo tempo, Mao tentou ocupar o centro do palco ao convidar mais de setecentos simpatizantes do Terceiro Mundo para a comemoração do Dia Internacional do Trabalho. A intenção era transformar a cerimônia no momento fundador do campo maoísta. Recebeu vários grupos pessoalmente e foi noticiado que os estrangeiros “o adularam” e cantaram o hino maoísta “O Oriente é vermelho”. Ele ordenou que dessem a máxima publicidade a essas audiências e revisou o texto do noticiário pessoalmente, frase por frase.

Esses encontros foram planejados para acontecer logo antes de um importante evento mundial do qual Mao estava excluído — uma reunião de cúpula dos Quatro Grandes (Estados Unidos, Grã-Bretanha, França e União Soviética), que estava marcada para o dia 16 de maio em Paris, na qual Khruchióv esperava consagrar a coexistência pacífica. Mao pretendia montar um show rival para que o mundo o visse como o defensor dos desvalidos. Mas sua iniciativa passou quase despercebida, em parte porque seus seguidores no exterior eram figuras marginais. Mao também não inspirava fé apaixonada e conquistou poucos discípulos fervorosos. Era percebido como um protetor com ares condescendentes. Um grupo de africanos escutou-o dizer que, para os ocidentais, “nossa raça não parece melhor que vocês, africanos”.

Sua esperança de que Khruchióv fosse considerado um apaziguador e ele, a antítese disso, também recebeu um golpe de um lado inesperado. Duas semanas antes da cúpula de Paris, um avião americano U-2 de espionagem foi derrubado quando sobrevoava a União Soviética. Quando o presidente Eisenhower se recusou a pedir desculpas, Khruchióv abandonou a reunião, que fracassou. Pequim teve de elogiar o líder soviético por assumir uma posição firme.

A belicosidade do líder soviético em relação aos Estados Unidos poderia prejudicar o projeto de Mao, mas ele continuou em frente, e havia uma ocasião conveniente à mão: uma reunião da Federação Mundial de Sindicatos, que foi aberta em Pequim, em 5 de junho de 1960. Era o encontro internacional mais importante a ser realizado na China desde que Mao tomara o poder, reunindo representantes de cerca de sessenta países, com delegados de partidos comunistas no poder e sindicalistas militantes dos cinco continentes, alguns não subservientes a Moscou. Mao mobilizou todos os altos dirigentes chineses para fazer um lobby pesado contra a União Soviética, com o argumento de que a coexistência pacífica era um engano e que “enquanto o capitalismo existir, não se pode evitar a guerra”. Os franceses e italianos, que tinham posições próximas da de Khruchióv, foram acusados de lacaios do imperialismo. O delegado italiano Vittorio Foa contou-nos que a hostilidade dos chineses era tão exasperante que eles temeram pela própria segurança física e procuraram não ficar desacompanhados. A agressividade dos chineses chocou até mesmo o delegado da Albânia Gogo Nushi, que os

descreveu, em segredo, como “bandidos”.c

Os chineses estavam “cuspindo na nossa cara”, observou Khruchióv. Moscou viu nesse evento o começo da cisão sino-soviética. O mesmo fez a CIA. Duas semanas depois, seu diretor interino Charles Cabell disse ao Conselho de Segurança Nacional que o comportamento dos chineses na reunião fora “um desafio de tal magnitude à liderança da União Soviética que Khruchióv fora obrigado a enfrentá-lo cara a cara”. Até então, as diferenças entre Moscou e Pequim haviam sido totalmente escondidas e muitos duvidavam de que existisse realmente um conflito.

Em 21 de junho, Khruchióv discursou para líderes comunistas de 51 países reunidos em Bucareste. Ele refutou a alegação de Mao de que a guerra era necessária para chegar ao socialismo. “Não é preciso uma guerra mundial para o triunfo das ideias socialistas em todo o mundo”, declarou. “Somente loucos e maníacos podem agora conclamar para uma nova guerra mundial”, na qual, disse ele, usando linguagem apocalíptica, “milhões de pessoas podem ser queimadas na conflagração”. Em contraste, “pessoas de mente sadia” eram “maioria, mesmo entre os inimigos mais mortais do comunismo”. Isso equivalia a dizer que Mao era louco e sugeria que a coexistência com o Ocidente era melhor do que continuar uma aliança com ele. “Vocês querem dominar todo mundo, vocês querem dominar o mundo”, disse ele em particular ao delegado chinês Peng Zhen. Khruchióv também disse aos chineses: “Já que vocês adoram tanto Stálin, por que não levam o cadáver dele para Pequim?”. E aos seus colegas de poder: “Quando olho para Mao vejo Stálin, uma cópia perfeita”.

Quando Peng Zhen persistiu na linha de Mao, viu-se sozinho. “Estávamos isolados em Bucareste”, observou Mao. “Não houve um único partido que tenha apoiado a China. Nem mesmo [...] a Albânia.” Esse isolamento e a intensidade do ataque de Khruchióv pegaram Mao de surpresa. Nessas circunstâncias, uma cisão era contraproducente, pois ele ainda precisava da tecnologia militar soviética. Quando Khruchióv recusou-se a aceitar qualquer palavra das opiniões de Mao no comunicado final da reunião, ele recuou e mandou Peng Zhen assiná-lo.

Mas a essa altura Khruchióv já estava de olhos bem abertos. Ao retornar de Bucareste, ordenou imediatamente a retirada de todos os mais de mil assessores soviéticos da China e suspendeu a assistência aos 155 projetos industriais que estavam mais distantes do final.

Mao havia errado nos cálculos. A retaliação russa aconteceu num momento altamente desvantajoso. Embora seus cientistas já tivessem a tecnologia para fazer a bomba atômica, os russos ainda não haviam transmitido todo o conhecimento sobre a construção do sistema de lançamento: os mísseis. Os chineses bracejaram, dizendo a seus cientistas para aproveitar cada minuto a fim de arrancar coisas dos russos antes que fossem embora, por bem ou por mal. Dançarinas e cantoras foram convocadas para embriagar os seguranças soviéticos e detê-los no salão de danças, enquanto as anotações dos cientistas russos eram fotografadas. Mesmo assim, o programa de mísseis e, na verdade, todo o Programa de Superpotência caíram em desordem. A impaciência de Mao para se promover como líder mundial e rivalizar com Khruchióv o levara a dar um tiro no próprio pé.

Mao teve de recuar. Quando 81 partidos comunistas se reuniram em Moscou, em novembro, os chineses pareceram conciliadores. Ele próprio foi à embaixada soviética em Pequim para a comemoração do aniversário da Revolução Russa e mandou saudações pessoais a Khruchióv no ano-novo de 1961. Houve uma espécie de reconciliação. No fim, os russos continuaram a oferecer assistência na construção de 66 dos 155 projetos industriais inacabados. Mas Mao não obteve o que mais cobiçava: renovação da colaboração em transferências de tecnologia militar de ponta.

Muitos projetos de grande escala foram cancelados. Mais tarde, Mao pôs na epidemia de fome que ele mesmo criara a culpa do cancelamento, que, alegou, havia prejudicado a economia chinesa — e acredita-se nisso até hoje. Na verdade, os cancelamentos deveriam ter aliviado a fome: a China podia então exportar menos alimentos.

Mas, em vez de permitir que a população chinesa se beneficiasse com isso, Mao encontrou uma nova maneira de gastar os alimentos. Ele insistiu em continuar a exportação para pagar adiantado os empréstimos russos — no período de cinco anos, em vez dos dezesseis que os acordos permitiam. Fez isso porque sabia que a Rússia precisava de alimentos e os produtos chineses equivaliam a dois terços das importações de alimentos da União Soviética. Ao continuar a fornecer as mesmas quantidades enormes de antes, ele estimulava a dependência russa dos alimentos chineses, na esperança de que Khruchióv lhe venderia mais das coisas que desejava. Mais tarde, Mao fabricou o mito de que Khruchióv havia pressionado a China a pagar suas dívidas durante a epidemia de fome, e que isso era a principal razão da inanição dos chineses. Na verdade, como declarou categoricamente um informe aos líderes chineses pós-Mao, a Rússia “não pediu o pagamento da dívida” naquela época, muito menos “forçou” a China a fazê-lo. Foi Mao que insistiu em pagar muito adiantado.

Tchervonenko, embaixador russo em Pequim na época, contou-nos que recebeu instruções de Moscou para tentar recusar as exportações de alimentos chineses e que seu país havia, às vezes, se recusado a aceitar cargas de grãos. Os russos estavam bem a par da epidemia de fome. “Não era preciso fazer nenhuma investigação”, disse Tchervonenko. “Bastava ir do aeroporto para a cidade. Era possível ver que não havia folhas nas árvores.” Em certa ocasião, quando os chineses disseram que iam aumentar as remessas de carne, os russos perguntaram como. A resposta foi: “Vocês não têm nada a ver com isso!”.

Longe de exigir pagamento acelerado, Khruchióv foi extraordinariamente condescendente, chegando mesmo a revalorizar a taxa de câmbio yuan-rublo a favor da China. De acordo com uma fonte russa, isso reduziu a dívida chinesa para com a Rússia em 77,5%. Em fevereiro de 1961, o líder soviético ofereceu a Mao 1 milhão de toneladas de grãos e meio milhão de toneladas de açúcar cubano. Mao comprou o açúcar, mas rejeitou os cereais. Essa atitude não foi motivada por orgulho. Ele acabara de se agarrar a uma oferta de Khruchióv de tecnologia e especialistas para fabricar aviões de combate MiG-21.

Nos dois anos seguintes, a tática de Mao foi manter um pé na porta do Kremlin, na esperança de conservar o acesso à tecnologia militar, ao mesmo tempo que batia forte em Khruchióv em todas as ocasiões possíveis — até mesmo em relação ao Muro de Berlim, o símbolo máximo da Guerra Fria. Um diplomata da Alemanha Oriental que estava então em Pequim contou-nos que, quando o muro foi erguido, em 13 de agosto de 1961, Chou En-lai deixou claro aos alemães orientais que Mao via naquilo um sinal da “capitulação” de Khruchióv “aos imperialistas americanos”.

 

Como Mao era um cliente muito complicado, Khruchióv teve de cobrir sua retaguarda quando tomou uma iniciativa importante. Em outubro de 1962, ele estava instalando mísseis nucleares em Cuba, o ato mais ousado de sua década no poder e o auge de seu “anti-imperialismo”. Tendo em vista o perigo de um confronto com os Estados Unidos, ele queria ter certeza de que Mao não o apunhalaria pelas costas. Decidiu então jogar-lhe um osso bem grande: a bênção do Kremlin para a China atacar a Índia, mesmo que isso significasse uma traição russa aos interesses daquele país, um importante Estado amigo que Khruchióv havia muito cortejava.

Mao vinha planejando uma guerra contra os indianos havia algum tempo. A China recusara-se a reconhecer a fronteira que fora delineada pelos ingleses nos tempos coloniais e insistia em que ela fosse renegociada, ou pelo menos formalizada pelos dois Estados agora soberanos. A Índia considerava que a fronteira estava estabelecida e não era negociável, e os dois lados estavam num impasse. Enquanto os choques fronteiriços pioravam, Pequim preparava-se em silêncio para uma guerra em maio-junho de 1962. Depois, Chou disse aos americanos que “Nehru estava ficando muito petulante [...] e nós tentamos diminuir sua petulância”. Mas Mao relutava em começar uma guerra, pois se preocupava com a segurança do local de testes nucleares em Lop Nor, no noroeste da China, que estava fora do alcance dos aviões de espionagem U-2 dos americanos com base em Taiwan, mas ao alcance da Índia. Uma das consequências da guerra foi que a Índia permitiu que os U-2 partissem de uma base em Charbatia, de onde puderam fotografar o primeiro teste atômico da China, em 1964.

Mao também estava preocupado com a possibilidade de ter de lutar em duas frentes. Chiang Kai-shek fazia seus preparativos mais intensos desde 1949 para invadir a China continental, inflamado pela esperança de que a população se sublevaria e o apoiaria, devido à epidemia de fome. Mao levou a sério a perspectiva de uma invasão nacionalista e deslocou grandes forças militares para a costa sudeste, diante de Taiwan, enquanto ele mesmo se enfurnava em seu abrigo secreto nas Colinas Ocidentais, nos arredores de Pequim.

Os chineses vinham realizando conversações regulares entre embaixadores com os americanos em Varsóvia desde 1955. Mao utilizou então esse canal para sondar se Washington apoiaria uma invasão de Chiang. E obteve uma resposta muito direta e tranquilizadora: os americanos disseram que não apoiariam Chiang se ele deflagrasse uma guerra contra a China continental e que o líder nacionalista prometera não atacar sem o consentimento de Washington.

Mas, mesmo assim, Mao hesitava. O fator decisivo era a Rússia, de cujo petróleo a China dependia muito. Nos conflitos de fronteira anteriores com a Índia, Khruchióv havia claramente se recusado a apoiar Pequim. Ele concordara então em vender aviões à Índia que podiam voar em altas altitudes e, no verão de 1962, assinou um acordo não somente para vender MiGs aos indianos, mas para que a Índia fabricasse os aviões MiG-21.

No início de outubro, aproximava-se o inverno no Himalaia e estreitavam-se as oportunidades de ataque. Mao sondou o embaixador soviético sobre qual seria a reação de Moscou se a China atacasse a Índia. Khruchióv aproveitou a chance para uma démarche surpreendente. No dia 14, ofereceu um banquete de despedida ao embaixador chinês, no qual prometeu que Moscou ficaria ao lado de Pequim se a China entrasse numa guerra de fronteira com a Índia, e postergaria a venda dos MiG-21 à Índia. Ele revelou que estava instalando secretamente mísseis em Cuba e disse que esperava que os chineses o apoiassem.

Foi um troca-troca pesado e muito bem escondido do resto do mundo. d Na manhã de 20 de outubro, no momento em que a crise cubana estava prestes a explodir, Mao deu o sinal verde para que tropas de elite atacassem posições indianas em dois setores bem separados da fronteira. Cinco dias depois, no auge da crise cubana, Khruchióv manifestou seu apoio a Mao com uma declaração no Pravda que deixou Nehru mortificado.

As forças chinesas penetraram rapidamente mais de 150 quilômetros no nordeste indiano. Então, tendo demonstrado sua superioridade militar, Mao retirou suas forças, deixando cada país de posse de algum território em disputa, situação que prevalece até hoje. Mao alcançara seu objetivo: estabilidade de longo prazo nessa fronteira, deixando-o livre para se concentrar em suas ambições mais amplas. A guerra também desferiu um golpe letal em Nehru, rival de Mao na disputa pela liderança do mundo em desenvolvimento. O líder indiano morreu dezoito meses depois, de um derrame.

Enquanto isso, a crise dos mísseis em Cuba se resolvia basicamente em 28 de outubro, após Khruchióv concordar em retirá-los em troca da promessa do presidente John F. Kennedy de não invadir Cuba (e uma promessa não divulgada de retirar os mísseis americanos da Turquia). Mao livrou-se de imediato do acordo de não criar problemas para Khruchióv durante a crise e tentou aproveitar o ressentimento de Havana contra Khruchióv por não ter sido consultada sobre o acordo com os Estados Unidos. Encenaram-se gigantescas manifestações “pró-Cuba” na China, acompanhadas por declarações belicosas que continham acusações mal disfarçadas contra Moscou por “traição”. Mao bombardeou os cubanos com mensagens em que dizia que Moscou era um “aliado indigno de confiança” e os instava a não ceder ao acordo de Khruchióv para remover os mísseis e aviões russos. Mao tentou capitalizar as diferenças entre Castro e Guevara, que era contra o acordo: “Somente um homem entendeu o que está acontecendo: Che Guevara”.

Mao intrometeu-se e atazanou, mas não conseguiu que Havana adotasse sua posição antissoviética. Porém, beneficiou-se dos sentimentos amargos de Cuba em relação aos russos. Quando um foguete americano avançado — um Thor-Able-Star — caiu por acidente em Cuba, em vez de entregá-lo à União Soviética, como faria normalmente, Fidel Castro jogou os russos contra os chineses, fazendo um leilão do foguete. Como resultado, Pequim obteve alguns componentes cruciais, que desempenharam um grande papel na modernização de seus mísseis.

Por seu turno, Khruchióv recuou de seu apoio anterior à China, ainda quando a luta se desenrolava dentro da Índia. Em 5 de novembro, um editorial do Pravda não continha uma palavra de endosso à posição de Pequim. Para ele, assim como para Mao, a colaboração fora completamente oportunista, embora ainda quisesse manter o campo comunista unido.

O mesmo queria Mao, na esperança de que ainda pudesse arrancar mais alguns segredos nucleares de Khruchióv. Essas esperanças foram enterradas definitivamente em julho de 1963, quando o líder soviético assinou um Tratado de Proibição de Testes Nucleares com os Estados Unidos e a Grã-Bretanha, que impedia os signatários de

ajudar outros países a obter a bomba. e Isso significava que Khruchióv era agora praticamente inútil para Mao.

Foi nesse ponto que, mais de três anos depois que começara a promover o maoísmo no cenário mundial, Mao deu a ordem para denunciar Khruchióv como “revisionista”. Houve uma escalada rápida na troca pública de insultos. Para Mao, a polêmica funcionou como uma espécie de campanha de propaganda internacional a favor do maoísmo, cuja essência estava resumida em uma das principais acusações contra Khruchióv: “Aos olhos dos revisionistas modernos, sobreviver é tudo. A filosofia da sobrevivência substituiu o marxismo-leninismo”. Hoje, é difícil nos colocarmos numa época em que alguém podia pensar que essa ideia seria atraente. Mas negar o desejo — e o direito — das pessoas de viver era um aspecto central do maoísmo.

a A Argélia mostrou como Mao dependia da existência de um conflito armado. Depois que o país obteve sua independência, em 1962, a influência dele evaporou.

b Pelo menos um chinês notou a facilidade com que enormes quantias de dinheiro iam para projetos que tinham a ver com a promoção no exterior e tentou tirar vantagem disso. Em março de 1960, um funcionário do Ministério de Comércio Exterior roubou a quantia astronômica de 200 mil yuans, na maior fraude conhecida até hoje, que ele realizou forjando apenas uma carta e falsificando uma única assinatura: a de Chou En-lai. A carta, de uma página, dizia que um telefonema do staff de Mao para o gabinete de Chou havia pedido dinheiro para consertar um templo no Tibete, a fim de que alguns jornalistas estrangeiros pudessem fotografá-lo. O funcionário tinha quatro filhos famintos e queria comprar-lhes um pouco de comida extra, que lojas estatais especiais vendiam fora da rede de racionamento a preços exorbitantes para aqueles que tinham dinheiro, sobretudo pessoas com parentes no exterior. Não é preciso dizer que o burocrata empreendedor foi facilmente descoberto.

c Liri Belishova, membro do Politburo albanês, estava na China nessa época e contou aos russos o que estava acontecendo, motivo pelo qual sofreu trinta anos no gulag de Hoxha. Ela não foi “estrangulada” ou “eliminada”, como Khruchióv escreveu em suas memórias, e ressurgiu com notável vitalidade, como testemunhamos em 1996.

d Em 22 de outubro, quando um dos participantes (Thomas Kuchel) das discussões no Salão Oval perguntou se havia alguma indicação de que a jogada da Rússia em Cuba estivesse “associada à operação da China contra a Índia”, o chefe da CIA John McCone respondeu: “Não, não temos nenhuma informação quanto a isso”.

e Na verdade, Kennedy vinha tentando usar esse tratado para ampliar o conflito entre Moscou e Pequim.