Mao: a história desconhecida

Jung Chang e Jon Halliday · Capítulo 5 de 69

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Mao: a história desconhecida

3. Crente sem entusiasmo

 

(1920-25; 26-31 anos)

 

Na mesma época em que se envolveu com o Partido Comunista, Mao manteve uma relação com a filha de seu ex-professor Yang Chang-chi. Oito anos mais moça que ele, Yang Kai-hui se tornaria sua segunda esposa.

Ela nasceu em 1901 num lugar idílico, nas cercanias de Changsha. Criança delicada e sensível, foi criada pela mãe, que vinha de uma família de intelectuais, enquanto o pai passava onze anos no exterior, no Japão, na Inglaterra e na Alemanha, estudando ética, lógica e filosofia. Quando ele voltou a Changsha, na primavera de 1913, trazia consigo modos europeus e estimulou a filha a participar de refeições com ele e seus pupilos, o que era inaudito naquela época. Bela, elegante, pensativa e articulada, ela desconcertava todos os rapazes.

Seu pai ficou impressionado com a inteligência de Mao e o recomendou bastante a pessoas influentes. “Digo-lhe seriamente”, escreveu a uma delas, “essas duas pessoas [Mao e outro estudante chamado Cai He-sen] são talentos raros na China e terão um grande futuro [...] você deve dar atenção séria a eles.” Quando se tornou professor de ética na Universidade de Pequim, em 1918, ficou contente de receber Mao em casa na sua primeira — e infrutífera — aventura na capital. Kai-hui tinha então dezessete anos e Mao se interessou muito por ela, mas ela não correspondeu. Anos depois, ela escreveu:

Quando eu tinha dezessete ou dezoito anos, comecei a ter minhas próprias opiniões sobre casamento. Era

contra qualquer casamento que envolvesse rituais. Também achava que buscar o amor deliberadamente

significaria fácil e inevitavelmente perder o verdadeiro, o sagrado, o incrível, o mais alto, o mais lindo e

insuperável amor! [...] Há uma frase que expressava melhor meus pensamentos: “Não ter se não for perfeito”.

 

Em janeiro de 1920, o pai dela morreu. Mao estava em Pequim, em sua segunda viagem, e passou muito tempo com a família. Foi então que ela se apaixonou por ele. E escreveu:

Papai morreu! Meu amado pai morreu! É claro que fiquei muito triste. Mas senti que a morte foi também um

alívio para ele e, assim, não fiquei triste demais.

Mas eu não esperava ter tanta sorte. Eu tinha um homem a quem amava. Eu realmente o amava muito. Eu me

apaixonara por ele depois de ter ouvido muito a seu respeito e ter lido muitos de seus artigos e diários [...]

Embora o amasse, não demonstrava isso. Estava convencida de que o amor estava nas mãos da natureza e não

deveria presunçosamente exigi-lo ou persegui-lo.

 

Assim, ela ainda se conteve. Então eles se separaram quando Kai-hui acompanhou o caixão de seu pai a Changsha, onde ela entrou para uma escola de missionários. A distância só reforçou seus sentimentos. Mais tarde, ela relembrou:

Ele me escreveu muitas cartas, expressando seu amor. Eu ainda não ousava acreditar em tanta sorte. Se não

fosse por um amigo que conhecia seus sentimentos [de Mao] e me falou deles — dizendo que ele estava muito

infeliz por minha causa —, creio que teria permanecido solteira toda a minha vida. Desde aquele dia, quando

fiquei sabendo tudo sobre seus verdadeiros sentimentos em relação a mim, tive uma nova sensação. Eu sentia

que, além de viver para minha mãe, eu também estava vivendo para ele [...] Eu imaginava que, se um dia ele

morresse e minha mãe também não estivesse mais comigo, eu definitivamente o seguiria e morreria com ele!

 

No final daquele ano, quando Mao voltou para Changsha, eles se tornaram amantes. Mao morava na escola onde era diretor e Kai-hui o visitava. Mas não passava a noite. Eles não eram casados e o ano era 1920, quando morar junto sem casamento era impensável para uma dama. E Mao também não queria se comprometer. Em uma carta a um amigo, de 26 de novembro, ele invectivava: “Penso que todos os homens e mulheres no sistema de matrimônio estão em nada mais do que uma ‘liga do estupro’ [...] Recuso-me a entrar para essa liga”. Ele mencionava a ideia de criar uma “Aliança de Resistência ao Casamento”, dizendo: “Mesmo que ninguém mais concorde comigo, eu sou minha própria ‘aliança de um homem só’”.

Uma noite, depois que ela partiu, ele não conseguiu dormir e escreveu um poema que começava com estes versos:

Mágoa, empilhada sobre meu travesseiro, qual é tua forma?

Como ondas em rios e mares, te revolves sem parar.

Quão longa a noite, quão negro o céu, quando a luz se fará?

Inquieto, sento-me, camisola jogada sobre os ombros, no frio.

Quando a manhã chegou afinal, restavam apenas cinzas de meus mil pensamentos...

 

Ajudado por esse poema, Mao conseguiu persuadir Kai-hui a passar a noite com ele. As paredes eram de tábuas finas e alguns dos residentes reclamaram quando o casal fez amor apaixonadamente. Um vizinho citou uma regra segundo a qual as esposas dos professores estavam proibidas de dormir na escola, mas Mao era o diretor: ele mudou a regra e deu início ao precedente de que as esposas podiam ficar.

Para Kai-hui, passar a noite com ele significava entregar-se totalmente. “Minha força de vontade cedera havia muito tempo”, ela escreveria, “e eu me permiti viver em romance. Eu chegara à conclusão: ‘Que os céus caiam e a terra afunde! Que este seja o fim!’. Que significado teria minha vida se eu não vivesse para minha mãe e para ele? Então vivi em uma vida de amor.”

Os sentimentos de Mao não estavam à altura dos de Kai-hui e ele continuou a ver outras namoradas, em particular uma professora viúva chamada Si-yung, três anos mais moça que ele. Ela o ajudava muito a levantar fundos para a livraria, pois algumas de suas alunas vinham de famílias ricas. Ela e Mao viajavam como se fossem um casal.

Quando Kai-hui descobriu, ficou arrasada: “Um dia, de repente, a bomba caiu em minha cabeça. Minha débil vida foi devastadoramente atingida e quase foi destruída por esse golpe!”. Mas ela perdoou Mao. “Porém, isso foi o que senti somente quando fiquei sabendo pela primeira vez. Afinal, ele não era um homem comum. Ela [Si-yung] o amava de modo tão apaixonado que daria tudo por ele. Ele também a amava, mas não me trairia, e não me traiu no fim.” Mao aparentemente explicou seu caso dizendo que se sentia inseguro do amor de Kai-hui. Ela preferiu acreditar nele:

Então as tampas do seu coração e do meu abriram-se ambas. Eu vi o coração dele e ele viu o meu

completamente. (Nós dois temos temperamentos orgulhosos, eu bem mais naquela época. Eu fazia de tudo

para evitar que ele visse meu coração — meu coração de amor por ele —, de tal modo que ele passou a

duvidar de mim e achou que eu não o amava. E, devido ao seu orgulho, ele não deixava que seus sentimentos

aparecessem. Somente agora compreendemos verdadeiramente um ao outro.) Em consequência, ficamos mais

próximos do que nunca.

 

Kai-hui foi morar com Mao e eles se casaram no final de 1920. Na época, os radicais evitavam os velhos rituais familiares que cimentavam o casamento e ainda não havia um novo sistema de registro; assim, não houve uma certidão formal.

Por causa do casamento, Kai-hui foi expulsa da escola missionária. Os casos amorosos de Mao continuaram e, com efeito, ele começou duas novas relações logo depois do casamento. Um amigo íntimo dele naquela época nos contou isso, escrevendo na mesa com o dedo os caracteres bu-zhen, “infiel”. Uma dessas ligações foi com uma prima de Kai-hui. Quando ela soube, ficou tão perturbada que bateu na prima, mas raramente fazia cenas e permaneceu fiel a Mao. Mais tarde, escreveria com resignação:

Aprendi muito mais coisas e, aos poucos, vim a compreendê-lo. Não apenas ele, mas a natureza humana em

todas as pessoas. Aqueles que não têm defeitos físicos devem ter dois atributos. Um é o impulso sexual e o

outro é a necessidade emocional de amor. Minha atitude foi deixá-lo em paz, e esquecer.

 

Kai-hui não era de modo algum uma esposa chinesa convencional, obrigada pela tradição a suportar a má conduta do marido. Na verdade, era uma feminista e mais tarde escreveu um ensaio sobre os direitos das mulheres: “As mulheres são seres humanos, tal como os homens [...] Irmãs! Devemos lutar pela igualdade de homens e mulheres e não devemos de forma alguma permitir que nos tratem como um acessório”.

 

Na época do segundo casamento de Mao, Moscou intensificava seus esforços para fomentar a subversão na China. Começou a treinar secretamente um exército chinês na Sibéria e explorou a intervenção armada na China, tal como acabara de tentar, sem sucesso, na Polônia. Ao mesmo tempo, montava uma de suas maiores redes de espionagem e informação, com uma base da KGB já instalada em Xangai e numerosos agentes, tanto civis como militares ( GRU) em outras cidades importantes, entre elas Cantão e, é claro, Pequim.

Em 3 de junho de 1921, chegaram novos representantes de alto escalão de Moscou, ambos com pseudônimos: um homem da inteligência militar russa chamado Nikolski e um holandês chamado Maring, que fora um agitador nas Índias Orientais Holandesas. Esses dois agentes determinaram aos membros do PCC em Xangai que convocassem um congresso a fim de formalizar o partido. Foram enviadas cartas para sete regiões com as quais haviam estabelecido contato, pedindo a cada uma que mandasse dois delegados; com as cartas, seguiam duzentos yuans para cobrir as despesas da viagem a Xangai. Um lote de convites e dinheiro chegou a Mao, em Changsha. Duzentos yuans eram o equivalente a quase dois anos do seu salário de professor e muito mais do que seria necessário para a viagem. Foi seu primeiro pagamento em dinheiro de Moscou de que se tem notícia.

Para acompanhá-lo ele escolheu um amigo de 45 anos chamado Ho Shu-heng. Partiram em segredo na noite de 29 de junho, em um pequeno barco a vapor, sob céu borrascoso, dispensando os amigos que queriam se despedir. Embora não houvesse leis contra as atividades comunistas, tinham razão para agir às escondidas, pois estavam engajados no que era considerado uma conspiração — conluio para estabelecer uma organização montada com fundos estrangeiros, com o objetivo de tomar o poder por meios ilegais.

O I Congresso do PCC foi aberto em Xangai em 23 de julho de 1921, com o comparecimento de treze pessoas — jornalistas, estudantes ou professores —, que representavam um total de 57 comunistas, a maioria de ocupações semelhantes. Nenhum deles era operário. Os dois membros mais prestigiosos do partido, os professores Li Tao-chao e Chen Tu-hsiu, não estavam presentes, embora este último tenha sido designado chefe do partido. Os dois emissários de Moscou dirigiram o espetáculo.

Maring, alto e de bigode, fez o discurso de abertura em inglês, traduzido por um dos delegados. Mais tarde, os participantes pareciam lembrar mais de sua duração — várias horas — do que de seu conteúdo. Os discursos longos eram raros na China daquela época. Nikolski foi lembrado como aquele que fez o discurso mais curto.

A presença dos estrangeiros e o controle que exerciam logo se tornaram um problema. A presidência foi atribuída a um certo Chang Kuo-tao (depois o grande desafiante de Mao), porque estivera na Rússia e tinha ligações com os estrangeiros. Um delegado lembrou que, a certa altura, Kuo-tao propôs o cancelamento da resolução da noite anterior. “Eu o interpelei: como é que uma resolução aprovada pela reunião podia ser cancelada assim? Ele disse que era a opinião dos representantes russos. Fiquei extremamente bravo [...] ‘Então não precisamos de reuniões, basta recebermos ordens deles.’.” O protesto foi em vão. Outro delegado sugeriu que, antes de prosseguirem com os planos russos, deveriam investigar se o bolchevismo realmente funcionava, e propôs enviar uma missão à Rússia e uma à Alemanha — uma proposta que alarmou os homens de Moscou e foi devidamente rejeitada.

Mao falou pouco e causou pouco impacto. Em comparação com os delegados das cidades maiores, era um provinciano, vestido com a tradicional bata de algodão e sapatos de algodão preto, em vez do terno europeu, traje de muitos jovens progressistas. Ele não procurou impressionar e se contentou principalmente em escutar.

A reunião começara numa casa do enclave francês e a polícia desses locais, conhecidos como “Concessões”, mantinha vigilância sobre as atividades comunistas. Na noite de 30 de julho, um estranho entrou sem pedir licença e Maring, farejando um espião da polícia, ordenou que os delegados partissem. Os participantes chineses deslocaram-se para uma pequena cidade nas proximidades de Xangai chamada Jiaxing, junto a um lago cheio de castanhas-d’água. Os homens de Moscou ficaram longe dessa última sessão, por medo de atrair atenção.

A esposa de um delegado de Xangai provinha da cidade junto ao lago e alugou um barco de passeio, onde o grupo sentou-se a uma mesa em que havia comida, bebida e pedras de mah-jong (espécie de dominó). Um espesso biombo esculpido de madeira separava esse compartimento da frente aberta, mas coberta, do barco, onde a esposa do delegado sentou-se, de costas para o biombo. A mulher nos contou que, quando passavam por outros barcos, ela batia com o leque no biombo e lá dentro as peças de mah-jong faziam barulho, como se estivessem sendo misturadas. Logo começou a chover forte e o barco foi envolvido pela água. Nesse cenário dramático, foi proclamado o Partido Comunista Chinês — de modo um tanto inconclusivo, pois sem a presença dos homens de Moscou nenhum programa pôde ser finalizado. O congresso não lançou nem mesmo um manifesto ou uma carta.

Os delegados ganharam mais cinquenta yuans para pagar a viagem de volta. Isso permitiu que Mao saísse para fazer um pouco de turismo confortavelmente em

Hangzhou e Nanquim, onde viu sua namorada Si-yung de novo.a

 

A dependência da Rússia e do dinheiro de Moscou continuou a ser uma questão difícil para muitos membros do PCC. O professor Chen, que chegou em Xangai no final de agosto para assumir o posto de secretário do partido, informou seus camaradas: “Se aceitarmos o dinheiro deles, teremos de aceitar as ordens”. Ele propôs, em vão, que nenhum deles deveria ser revolucionário em tempo integral, mas ter empregos independentes e usá-los para disseminar as ideias da revolução.

Chen discutiu muito com Maring sobre a insistência do holandês em que o PCC fosse automaticamente um ramo do Comintern e, em particular, sobre a ideia de que Nikolski tinha de supervisionar todas as reuniões. “Precisamos ser controlados assim?”, teria gritado. “Simplesmente não vale a pena!” Com frequência, ele se recusava durante semanas a encontrar com Maring. Gritava, batia com a mão na mesa e até jogava xícaras para todo lado. Maring o apelidou de “vulcão”. Nas frequentes ocasiões em que Chen explodia, Maring saía da sala para fumar enquanto o outro se acalmava.

Mas sem os fundos de Moscou o PCC não poderia realizar quaisquer atividades, tais como publicar literatura comunista e organizar um movimento operário. Durante um período de nove meses (outubro de 1921-junho de 1922), de seus gastos de 17 655 yuans, menos de 6% foram levantados dentro da China, enquanto 94% tinham vindo dos russos, como o próprio Chen relatou a Moscou. Com efeito, naquela época havia muitos outros grupos comunistas na China — pelo menos sete entre 1920 e 1922, e um deles afirmava ter 11 mil membros. Mas sem os fundos russos todos eles entraram em colapso.

Ao contrário de Chen, Mao não demonstrou escrúpulos em pegar o dinheiro de Moscou. Era um realista. O financiamento russo também transformou sua vida. Depois do congresso, passou a receber entre sessenta e setenta yuans por mês do partido para a célula de Hunan, logo aumentados para cem e depois para 160-170. Essa renda substancial e regular fez uma tremenda diferença. Mao sempre vivera com pouco dinheiro. Tinha dois empregos, como diretor de escola e jornalista sem importância, e temia ter de depender dessas duas ocupações para ganhar a vida. Em duas cartas escritas a um amigo no final de novembro de 1920, queixou-se amargamente, dizendo que “uma vida usando a boca e o cérebro é miséria ao extremo [...] Com frequência fico sem descanso por três ou quatro horas [sic], trabalhando mesmo noite adentro [...] Minha vida é realmente muito dura”. E dissera a alguns amigos: “No futuro, terei provavelmente de viver com os salários desses dois empregos. Sinto que empregos que usam apenas o cérebro são muito duros, então estou pensando em aprender alguma coisa que envolva trabalho manual, como cerzir meias ou assar pão”. Como Mao não tinha nenhuma inclinação para o trabalho manual, mencionar tal ideia mostrava que ele chegara a um beco sem saída.

Mas agora tinha uma situação confortável de revolucionário profissional subsidiado. Largou o jornalismo e até renunciou ao emprego de diretor de escola, podendo enfim gozar o tipo de vida que até então só povoara seus sonhos. Ao que tudo indica, foi nessa época que adquiriu o hábito de dormir até tarde e ler à noite, que manteve pelo resto de sua vida. Em carta ao velho amigo Siao-yu, escrita dois meses depois do I Congresso, ele se mostra quase extasiado:

Agora passo a maior parte de meu tempo cuidando da saúde e estou muito mais em forma. Agora me sinto

extremamente feliz porque, além de ficar mais saudável, não tenho nenhum fardo de trabalho ou

responsabilidade. Estou ocupado tendo boa comida todos os dias, saciando meu estômago e melhorando

minha saúde. Também posso ler os livros que quiser. É realmente “Uau, que divertido”.

 

Poder comer o bastante e ler até se fartar era a ideia que ele tinha de uma vida boa.

Em outubro de 1921, Mao conseguiu montar uma casa com Kai-hui, em um lugar chamado Lagoa da Água Clara, e teve dinheiro suficiente para pagar criadas. Era um lugar adorável, onde a água corria para uma grande lagoa e mudava de lamacenta para clara, dando o nome ao lugar. A casa era uma construção tradicional, com vigas de madeira escura e paredes de tijolos variados, com frente para campos de verduras e fundos para colinas baixas.

Em teoria, a casa era a sede da seção de Hunan do partido. Como líder provincial, uma das principais missões de Mao era recrutar membros, mas ele não se dedicou com muito zelo a essa tarefa. Quando lhe pediram pela primeira vez para recrutar gente para a Liga da Juventude, em novembro de 1920, ele havia delegado o trabalho para outra pessoa e saíra de férias com sua garota Si-yung, dizendo que partia “para pesquisar educação”.

Diferentemente da maioria dos ditadores fundadores — Lênin, Mussolini, Hitler —, Mao não inspirava seguidores apaixonados através de sua oratória ou apelo ideológico. Ele simplesmente buscava recrutas disponíveis em seu círculo imediato, gente que aceitaria suas ordens. Seu primeiro recruta, o amigo e gerente de livraria Yi Li-rong, descreveu como, logo depois que voltou do I Congresso, Mao o convidou a deixar a livraria. Encostado numa cerca de bambu do quintal, disse a Yi que ele deveria entrar para o partido. Yi balbuciou que ouvira dizer que milhões haviam morrido na Revolução Russa, mas, como ele mesmo disse, Mao “me pediu para entrar e então entrei”. Foi assim que Mao montou o partido em Changsha, que consistia em apenas três homens: ele, Yi e o amigo que levara ao I Congresso.

Os membros recrutados a seguir eram da família de Mao — a mulher e os irmãos, a quem mandara buscar na aldeia. Tse-min, que dirigia o negócio da família e era esperto com dinheiro, se encarregou das finanças. Mao chamou mais parentes da aldeia para Changsha e distribuiu várias funções. Alguns entraram para o partido. Fora do círculo de amigos e familiares, seu recrutamento foi esparso. Ele pescou principalmente perto de casa.

Na verdade, naquela época, muitos jovens de Hunan foram atraídos pelo comunismo, inclusive aquele que se tornaria o segundo homem de Mao e presidente da China, Liu Shao-chi, e vários outros futuros líderes do partido. Eles não foram apresentados ao partido por Mao, mas por um marxista de cinquenta e tantos anos chamado Ho Min-fan, que havia sido chefe do condado de Changsha. Min-fan foi o responsável pela entrada de Liu e outros na Liga da Juventude Socialista, no final de 1920, e fez as apresentações para a ida deles à Rússia. Ele não participara do I Congresso porque o convite fora enviado a Mao, que tinha muito ciúme de Min-fan, sobretudo de seu sucesso no recrutamento. Quando Liu Shao-chi retornou de Moscou em 1922, Mao o interrogou sobre como Min-fan conseguira aquilo.

Depois que se tornou o chefe oficial do PCC em Hunan, Mao planejou expulsar seu rival involuntário. Min-fan dirigia um centro de convenções público que ocupava uma bela propriedade, um grande templo de clã chamado Montanha do Barco. Alegando que precisava do local para uso do partido, Mao mudou-se para lá com seu grupo e tornou a vida tão impossível para Min-fan que ele acabou deixando tanto o lugar como o meio partidário. Um ano depois, Mao contou a Liu Shao-chi que Min-fan, o mentor de Liu, fora “desobediente. Então o expulsamos da Montanha do Barco”. Ao usar a palavra “desobediente”, em especial a respeito de alguém muito mais velho, Mao revelava seu lado bandido. Ele ainda não havia se comportado dessa forma. Quando encontrara pela primeira vez seu amigo, o liberal Siao-yu, Mao havia se inclinado para mostrar respeito. Ele fora cortês tanto com seus pares como com seus superiores. O gosto do poder

alterara esse comportamento.b A partir de então, as amizades de Mao se restringiram apenas às pessoas que não o desafiavam, as quais eram, em larga medida, apolíticas. Ele não era amigo de nenhum de seus companheiros de política e raramente tinha reuniões sociais com eles.

A remoção de Min-fan foi a primeira luta de Mao pelo poder. E ele ganhou. Sob seu comando, não havia comitê partidário. As reuniões eram raras. Havia apenas Mao dando ordens, embora ele tomasse o cuidado de mandar relatórios periodicamente para Xangai, tal como exigido.

 

Mao não estava fazendo nada em relação a outra tarefa importante: organizar sindicatos. Não nutria mais simpatia pelos operários do que pelos camponeses. Em novembro de 1920, ao escrever uma carta para um amigo em que se queixava de seus males de intelectual, observou: “Acho que os trabalhadores da China não sofrem realmente de más condições físicas. Somente os intelectuais sofrem”.

Em dezembro de 1921, trabalhadores de Anyuan, um importante centro de mineração na fronteira entre Hunan e Jiangxi, escreveram pedindo ajuda aos comunistas e Mao foi até a mina — o primeiro registro de um contato com operários. Ficou alguns dias e foi embora, delegando o trabalho prático a outra pessoa. Depois desse breve mergulho no mundo encardido dos mineiros de carvão, relatou a Xangai que estava “completamente desnorteado” sobre como “organizar trabalhadores”.

Mas ao redor havia organizadores eficazes, em especial dois não comunistas que fundaram o Sindicato dos Trabalhadores de Hunan e recrutaram mais de 3 mil dos aproximadamente 7 mil operários de Changsha. Os dois foram presos em janeiro de 1922 quando lideravam uma grande greve. Nas primeiras horas da madrugada, foram executados — retalhados até a morte, à maneira tradicional —, evento que provocou uma onda de protestos em todo o país. Quando perguntaram ao governador que os matou por que não visara a Mao, ele respondeu que não considerava Mao uma ameaça.

 

Por sua ineficácia na organização de operários e no recrutamento, Mao não foi convidado para o II Congresso do PCC, em julho de 1922 — ocasião muito importante, pois aprovaram um estatuto e endossaram a entrada no Comintern, aceitando assim o controle direto de Moscou. Mais tarde, ele tentou explicar sua ausência dizendo que “pretendia comparecer”, mas “esqueceu o nome do lugar onde seria realizado, não conseguiu encontrar nenhum camarada e perdeu o congresso”. Na verdade, Mao conhecia muita gente do partido em Xangai, inclusive alguns dos delegados, e não teria faltado inadvertidamente ao que era um compromisso muito formal. A ausência no congresso significava que poderia perder sua posição de chefe do partido em Hunan. Os fundos russos não chegariam mais por seu intermédio e ele teria de receber ordens de outra pessoa. Essa perspectiva fez com que tomasse providências. Primeiro visitou, em abril de 1922, uma mina de chumbo e zinco e, em maio, voltou a Anyuan, o centro de mineração de carvão. Também liderou várias manifestações e greves. Em 24 de outubro, quando Kai-hui deu à luz o primeiro filho deles, Mao estava longe, negociando em nome do sindicato dos operários de construção. Ele deu ao filho o nome de An-ying: An era o nome de uma geração; ying significava “uma pessoa notável”.

No final de maio, Mao montou finalmente um comitê do partido de Hunan, um ano depois de ter se tornado chefe. Tinha trinta membros, a maioria recrutada por ele

mesmo.c O futuro presidente Liu Shao-chi descreveu em seu leito de morte como o comitê funcionava sob o comando de Mao: “Tive muitas reuniões na casa do presidente Mao e, afora fazer perguntas, não tive nenhuma chance de falar. No final, sempre valia o que o presidente Mao dizia [...] o partido em Hunan já tinha seu próprio líder e seu próprio estilo característico — diferente do partido em Xangai”. Liu deixava registrado do modo mais explícito possível que Mao já começara a se comportar ditatorialmente nos primeiros dias do partido.

Enquanto trabalhava para remendar sua relação com o centro do poder, Mao teve um lance de sorte. Em janeiro de 1923, a maioria dos quadros do PCC de Xangai viu-se em desacordo com uma ordem de Moscou para fazer algo aparentemente bizarro e arbitrário: entrar para outro partido político, o dos nacionalistas (também conhecido como o Kuomintang, ou KMT). Moscou precisava de comunistas das províncias que apoiassem sua posição — e encontrou Mao.

 

O Partido Nacionalista fora fundado em 1912 com a fusão de vários grupos republicanos. Seu líder era Sun Yat-sen, que havia sido por pouco tempo o primeiro presidente provisório da República, antes de perder o poder para o chefe do Exército Yuan Shih-kai. Desde então, Sun vinha tentando formar seu próprio exército e derrubar o governo de Pequim.

Esse objetivo levou Sun a se aliar a Moscou, que compartilhava seu objetivo de subverter o governo de Pequim, o qual se recusava a aceitar a ocupação russa da Mongólia Exterior, então território chinês. O PCC era pequeno demais para derrubar o governo, de modo que os enviados de Moscou voltaram o olhar para os vários potentados provinciais e descobriram que o único disposto a aceitar a presença soviética era Sun.

Sun tinha sua base em Cantão, a capital de Guangdong, província costeira meridional. Ele pediu aos russos ajuda para montar uma tropa suficientemente forte para conquistar a China. Em setembro de 1922, disse ao enviado russo que queria criar “um exército com armas e material militar da Rússia”. Em troca, além de endossar a ocupação soviética da Mongólia Exterior, Sun propôs que a Rússia ocupasse a imensa Xinjiang, província no noroeste rica em minérios. O principal enviado russo, Adolf Joffe, relatou em novembro que Sun “pede que uma de nossas divisões incorpore Xinjiang [...] onde há apenas 4 mil soldados chineses e não há possibilidade de haver resistência”. Ele sugeriu que os russos invadissem, em seu nome, de Xinjiang até Chengdu, o coração da China, em Sichuan.

Sun não tinha apenas grandes ambições e poucos escrúpulos, mas um partido significativo, com milhares de membros registrados e uma base territorial com um grande porto marítimo, em Cantão. Assim, no início de janeiro de 1923, o Politburo soviético decidiu: “Dar total apoio aos nacionalistas”, com “dinheiro [dos] fundos de reserva do Comintern”. A decisão foi assinada pelo promissor Stálin, que começara a se interessar muito pela China. Sun tornara-se assim, como Joffe contou a Lênin, “nosso homem” (grifo do original). Seu preço era “2 milhões de dólares mexicanos no máximo”, cerca de 2 milhões de rublos ouro. “Tudo isso não vale 2 milhões de rublos?”, perguntava Joffe.

Moscou sabia que Sun tinha sua própria agenda e estava tentando usar a Rússia, assim como a Rússia estava tentando usá-lo. Ela queria que seu cliente local, o PCC, estivesse presente para assegurar que Sun seguiria a linha de Moscou e serviria a seus interesses. Desse modo, ordenou que os comunistas chineses entrassem para o Partido Nacionalista. Numa reunião secreta, Stálin deixou claro: “Não podemos dar diretivas daqui de Moscou abertamente. Fazemos isso por intermédio do Partido Comunista Chinês e de outros camaradas, em segredo, confidencialmente”.

Moscou queria usar o PCC como um cavalo de Troia, a fim de manipular o muito maior Partido Nacionalista; mas todos os líderes do PCC, a começar pelo professor Chen, se opuseram à ideia de entrar para o partido de Sun, porque ele rejeitava o comunismo e porque Sun era apenas mais um político “mentiroso” e “inescrupuloso” fora do poder. Eles disseram a Moscou que patrocinar Sun era “desperdiçar o sangue e o suor da Rússia, e talvez o sangue e o suor do proletariado mundial”.

Maring, o enviado do Comintern, encarou uma revolta. É quase certo que esse foi o motivo por que Mao foi trazido para o quartel-general do PCC. O pragmático Mao aceitou a estratégia de Moscou e logo se filiou ao Partido Nacionalista. Cai He-sen, um comunista mais fervoroso e velho amigo de Mao, contou ao Comintern que, quando Maring apresentou o slogan “Todo trabalho para os nacionalistas”, “o [único] que apoiou foi Mao”.

Mao não acreditava nas perspectivas de seu minúsculo partido, ou que os comunistas exercessem qualquer atração mais ampla. Ele deixou isso bem claro no III Congresso do PCC , em junho de 1923. A única esperança de criar uma China comunista, disse, era por meio de uma invasão russa. Mao “era tão pessimista”, relatou Maring (que presidiu o congresso), “que via na intervenção da Rússia a única salvação da China”, e disse ao congresso “que a revolução tinha de ser trazida para a China do norte, pelo Exército russo”. Foi o que aconteceu duas décadas depois.

O entusiasmo pela linha de Moscou catapultou Mao para o centro do partido, sob o patrocínio de Maring. Ali ele se esforçou como nunca, agora que podia ver esperança no que fazia. Vilde, o principal distribuidor do dinheiro de Moscou na China, que fazia dublê de vice-cônsul em Xangai, em relatório a Moscou apontou Mao e outra pessoa como “definitivamente bons quadros”. Mao foi designado assistente do chefe do partido, o professor Chen, com responsabilidade sobre a correspondência, documentos e confecção das atas das reuniões. Todas as cartas do partido tinham de ser assinadas por ele e Chen. Numa imitação de Chen, Mao assinava com um nome inglês: T. T. Mao. Uma das primeiras coisas que Chen e ele fizeram foi escrever a Moscou pedindo mais dinheiro — “agora que nossa frente de trabalho está se expandindo”.

 

Depois de conduzir seu rebanho de comunistas locais para o Partido Nacionalista, Moscou enviou um operador de alto nível para controlar o PCC e os nacionalistas e coordenar as ações deles. Mikhail Borodin, um agitador carismático, foi nomeado assessor político de Sun Yat-sen por recomendação de Stálin, em agosto de 1923. Veterano de atividades revolucionárias nos Estados Unidos, no México e na Inglaterra, era um bom orador, com uma voz poderosa, um organizador dinâmico e astuto estrategista (foi a primeira pessoa a recomendar que os comunistas chineses fossem para o noroeste da China, a fim de ficar perto da fronteira russa, o que fizeram uma década depois). Ele inspirou descrições como “majestático” e irradiava energia mesmo quando doente.

Borodin reorganizou os nacionalistas conforme o modelo russo, batizando suas instituições com nomes comunistas, tais como Departamento de Propaganda. No I Congresso do Partido Nacionalista, realizado em Cantão, em janeiro de 1924, Mao e muitos outros comunistas chineses participaram e o minúsculo PCC garantiu um número desproporcional de postos. Moscou começou a financiar para valer os nacionalistas. E, o que era mais importante, financiou e treinou um exército e criou uma academia militar. Estabelecida numa ilha pitoresca do rio Pérola, a cerca de dez quilômetros de Cantão, a Academia Militar de Whampoa tomou por modelo instituições soviéticas, com agentes russos e muitos professores e estudantes comunistas. Aviões e peças de artilharia foram trazidos da Rússia e foi graças às tropas treinadas pelos russos, apoiadas em campo por coortes de consultores soviéticos, que os nacionalistas conseguiram expandir substancialmente sua base.

Mao foi muito ativo no Partido Nacionalista e se tornou um dos dezesseis membros suplentes de seu mais alto órgão, o Comitê Executivo Central. Pelo resto do ano, fez a maior parte de seu trabalho no escritório nacionalista de Xangai. Foi ele que ajudou a fundar a seção nacionalista de Hunan, que se tornou uma das maiores.

Mao chegou ao ponto de comparecer raramente às reuniões de seu próprio partido. Seu entusiasmo em relação ao trabalho com os nacionalistas atraiu críticas dos companheiros comunistas. Seu velho amigo Cai, mais aferrado à ideologia, queixou-se depois ao Comintern de que em Hunan “nossa organização perdeu quase toda a significação política. Todas as questões políticas eram decididas no comitê provincial nacionalista, não no comitê provincial do Partido Comunista”. Outro organizador operário dedicado concordava: “Mao, naquela época, era contra um movimento sindicalista independente para os trabalhadores”.

Além disso, Mao viu-se tratado com frieza por alguns dos enviados de Moscou, depois que seu padrinho Maring foi embora da China, em outubro do ano anterior. Embora se desse bem com Borodin, teve de lutar para se defender dos puristas ideológicos. Moscou ordenara que os comunistas chineses mantivessem sua identidade separada e sua independência, ao mesmo tempo que se infiltravam no Partido Nacionalista, mas Mao, ideologicamente confuso, não conseguia separar os dois partidos. Em 30 de março de 1924, um desses enviados ideólogos, Serguei Dalin, escreveu a Voitinski:

O que você escutaria do secretário Mao do CC [Comitê Central] (sem dúvida, uma indicação de Maring)

deixaria seus cabelos em pé — por exemplo, que o [Partido Nacionalista] era e é um partido proletário e deve

ser reconhecido pela Internacional Comunista como uma de suas seções [...] Esse indivíduo representou o

partido na Liga da Juventude Socialista [...] Escrevi ao CC do partido e pedi que designassem outro

representante.

 

Mao foi devidamente retirado de seu posto. Criticado como “oportunista” e “direitista”, viu-se expulso do Comitê Central e nem foi convidado a comparecer ao

congresso seguinte do d PCC , marcado para janeiro de 1925. Sua saúde sofreu então um declínio e ele ficou magro e doente. Um companheiro seu que na época compartilhava uma casa com ele nos contou que Mao tinha “problemas na cabeça [...] estava preocupado com seus negócios”. Sua condição nervosa refletia-se nos intestinos, que às vezes funcionavam apenas uma vez por semana. Ele sofreria de constipação — e ficaria obcecado pela defecação — durante toda a vida.

Mao teve de sair de Xangai no final de 1924. Retornou a Hunan mas não para algum cargo do partido, e o único lugar que tinha para ir era sua aldeia natal de Shaoshan, onde chegou em 6 de fevereiro de 1925, com mais de cinquenta quilos de livros, dizendo que estava “convalescendo”. Estivera com o Partido Comunista por mais de quatro anos — anos cheios de altos e baixos. Aos 31 anos, sua falta de clareza ideológica e fervor o havia levado de volta para a propriedade da família. Seus reveses desses anos iniciais do PCC ainda são mantidos bem encobertos. Mao não queria que soubessem que fora ineficaz no trabalho partidário, ou que ficara extremamente entusiasmado com o Partido Nacionalista (que se tornaria o principal inimigo dos comunistas no futuro) — ou que ele era ideologicamente vago.

 

a Si-yung faleceria de morte natural em 1931.

b Siao-yu separou-se de Mao por essa época e depois se tornou um alto funcionário do governo nacionalista. Morreu no Uruguai em 1976.

c No final de junho de 1922, o número total de membros do PCC era 195.

d Àquela altura, o PCC tinha 994 membros.