Mao: a história desconhecida

Jung Chang e Jon Halliday · Capítulo 14 de 69

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Mao: a história desconhecida

12. A Longa Marcha I: Chiang deixa os comunistas escaparem

12. A Longa Marcha I: Chiang

 

deixa os comunistas escaparem

 

(1934; 40 anos)

 

Cerca de 80 mil pessoas partiram na Longa Marcha, em outubro de 1934. A procissão saiu durante um período de dez dias em três colunas, com as duas unidades mais antigas e centrais, sob o comando de Lin Biao e Peng De-huai respectivamente, de cada lado das forças do quartel-general. O QG consistia em 5 mil pessoas, que incluíam um punhado de líderes e suas equipes, criados e guardas. Mao estava com o QG.

Eles avançaram lentamente na direção oeste, embaraçados com cargas pesadas. Máquinas do arsenal, impressoras e o tesouro de Mao foram levados sobre os ombros por milhares de carregadores, a maioria deles recrutados à força pouco antes, vigiados por homens da segurança. O chefe dos administradores revelou que as cargas mais pesadas eram levadas por pessoas “que tinham acabado de ser libertadas das equipes de trabalho forçado e estavam muito fracas fisicamente [...] algumas simplesmente tombavam e morriam enquanto estavam caminhando”. Numerosos participantes da marcha ficaram doentes. Um deles relembrou:

A chuva de outono não parava, transformando nossas trilhas em pura lama [...] e não havia para onde fugir da

chuva, e nenhuma chance de um bom sono [...] alguns doentes e fracos caíam no sono e nunca mais

acordavam. Muitos sofriam de pés infectados, que tinham de ser enrolados em panos podres e causavam dor

intolerável quando se pisava no chão [...] À medida que deixávamos a área da base cada vez mais para trás,

alguns trabalhadores desertavam. Os mais obedientes imploravam em lágrimas para que os deixassem partir

[...]

 

Os mais ousados simplesmente largavam suas cargas e fugiam quando os vigilantes estavam distraídos. Os soldados também desertaram em bandos, quando a vigilância de seus chefes cada vez mais exaustos titubeava.

Os marchadores tinham diante deles a perspectiva desanimadora de quatro linhas de fortins — os mesmos que haviam condenado sua base vermelha. No entanto, eles acabaram não sendo obstáculos, de uma forma aparentemente inexplicável.

A primeira linha era guarnecida por tropas cantonesas, cujo chefe vinha fazendo negócios lucrativos com os comunistas e prometera deixá-los passar. O que fez de fato. Mas essa fuga sem combate não se deveu apenas aos cantoneses contrários a Chiang. O Generalíssimo sabia muito bem que os comunistas pretendiam se retirar através da frente cantonesa e, mais ainda, sabia que teriam permissão para passar. Em 3 de outubro, pouco antes do início da marcha, dissera ao seu primeiro-ministro que os cantoneses iriam “abrir um lado da rede” para os comunistas. Porém, Chiang rejeitou explicitamente a ideia de mandar forças fiéis a ele para o setor do rompimento da linha. Um auxiliar próximo argumentou que, para fazer Cantão “cumprir nossas ordens, precisamos ter nossos homens na região”. Chiang lhe disse que não se preocupasse.

Os marchadores atingiram a segunda linha de fortins no início de novembro. Embora as colunas fossem um alvo fácil, estendendo-se por dezenas de quilômetros, não foram atacadas. Os cantoneses deixaram novamente de causar problemas. E o mesmo fez a outra força que defendia parte dessa segunda linha, que estava sob o comando do general Ho Chien, o feroz anticomunista que executara Kai-hui, a ex-mulher de Mao.

O mesmo aconteceu na terceira linha fortificada. Chiang, no entanto, não somente não repreendeu Ho Chien por sua óbvia negligência como o promoveu, em 12 de novembro, a comandante em chefe das operações contra a marcha. Assim, foi esse feroz anticomunista que guarneceu a quarta linha de fortificações, situada num lugar ideal para destruir os comunistas, na margem ocidental do Xiang, o maior rio de Hunan (que inspirara a poesia de Mao em sua juventude). Não havia pontes e os vermelhos, que não tinham armamento antiaéreo, tiveram de vadear o largo rio, constituindo alvo fácil a partir da terra e do ar. Mas de novo não foram absolutamente molestados enquanto levavam quatro dias para fazer a difícil travessia, espalhada ao longo de trinta quilômetros. Os pontos que comandavam o rio não estavam guarnecidos e as tropas de Ho Chien simplesmente ficaram observando. Os aviões de Chiang faziam voos em círculos sobre a coluna, mas apenas de reconhecimento, e não houve bombardeio aéreo ou mesmo metralha. Mao e o QG atravessaram o rio sem serem perturbados no dia 30 de novembro e, no dia seguinte, chegou a principal força comunista, de 40 mil homens.

Só então Chiang, que vinha monitorando a travessia “com concentração total”, como observaram seus auxiliares, fechou o rio e ordenou bombardeio pesado. Parte da retaguarda vermelha ficou presa na margem oriental. Apenas metade dos marchadores

conseguiu atravessar o rio, a mas entre eles estavam as principais tropas de combate e o QG. Chiang sabia disso. O comandante Ho Chien escreveu no dia seguinte: “Toda a principal força dos bandidos [atravessou o rio] e está fugindo para oeste”.

Não há dúvidas de que Chiang deixou a liderança do PCC e a principal força do Exército Vermelho escaparem.

 

Por que Chiang teria feito isso? Uma parte das razões logo ficou clara quando, depois da travessia do Xiang, o Exército nacionalista empurrou os marchadores mais para oeste, na direção da província de Guizhou e, em seguida, Sichuan. O plano de Chiang era utilizar a força comunista para seus próprios objetivos. Aquelas duas províncias, junto com a vizinha Yunnan, formavam uma vasta região sudoeste que cobria mais de 1 milhão de quilômetros quadrados, com uma população de cerca de 100 milhões de habitantes; elas eram virtualmente independentes do governo central, pois mantinham seus próprios exércitos e pagavam poucos impostos a Nanquim. Sichuan era particularmente importante, por ser a maior, mais rica e mais populosa, com cerca de 50 milhões de habitantes. Estava protegida em todos os lados por montanhas quase inatingíveis, o que tornava o acesso “mais difícil do que subir ao céu azul”, nas palavras do poeta Li Po. Chiang a considerava “a base para o renascimento nacional”, isto é, uma retaguarda segura numa eventual guerra contra o Japão.

Chiang poderia exercer o controle apenas se tivesse seu próprio exército presente nas províncias, mas elas haviam rejeitado seus soldados e, se ele quisesse forçar a entrada, haveria guerra. Chiang não queria declarar guerra aberta aos senhores da guerra. Seu projeto de construção da nação era mais maquiavélico — e mais profícuo. Ele queria empurrar o Exército Vermelho para essas províncias, de modo que os senhores da guerra ficassem tão assustados com o estabelecimento dos comunistas em seus territórios que permitiriam que o Exército nacionalista entrasse para expulsar os vermelhos. Assim, Chiang imaginava, seu exército poderia entrar e ele poderia impor o controle do governo central. Queria preservar o corpo principal do Exército Vermelho para que este ainda significasse uma ameaça aos senhores da guerra.

Chiang explicou o plano para seu secretário mais próximo: “Quando o exército comunista entrar em Guizhou, poderemos segui-lo. É melhor do que começar uma guerra para conquistar Guizhou. Sichuan e Yunnan terão que nos receber bem, para se salvarem [...] A partir de agora, se jogarmos nossas cartas direito [...] poderemos criar um país unificado”. Em 27 de novembro, no mesmo dia em que os comunistas começaram a atravessar o rio Xiang e marcharam para Guizhou, Chiang lançou seu projeto de construção da nação, uma “declaração sobre a divisão dos poderes entre o governo central e as províncias”.

Esse projeto permaneceu secreto durante toda a vida de Chiang e ainda é escondido pela história oficial, tanto dos nacionalistas como dos comunistas. Ambas atribuem a fuga dos comunistas aos senhores da guerra regionais, com Chiang pondo a culpa neles e os comunistas os elogiando. Ambos compartilham a mesma preocupação: não revelar que foi o próprio Generalíssimo que deixou os comunistas escaparem. Para os nacionalistas, os métodos de Chiang para estabelecer seu domínio sobre as províncias recalcitrantes eram tortuosos demais, e seu erro de cálculo sobre o uso dos comunistas — que acabou levando ao triunfo deles —, demasiado humilhante. Para os comunistas, é embaraçoso reconhecer que a famosa Longa Marcha foi, em larga medida, dirigida por Chiang Kai-shek.

Deixar que os comunistas fossem embora foi também um gesto de boa vontade de Chiang para com a Rússia. Ele precisava de uma relação harmoniosa com o Kremlin porque estava sob ameaça do Japão. E o PCC era cria de Moscou.

Mas havia um outro motivo mais secreto e totalmente privado. Ching-kuo, filho de Chiang, era refém de Moscou havia nove anos. Ele era o único descendente natural de Chiang Kai-shek; não era filho da famosa madame Chiang, mas de sua primeira esposa. Depois que Ching-kuo nasceu, Chiang aparentemente ficou estéril por ter contraído doenças venéreas várias vezes e adotou outro filho, Weigo. Mas Ching-kuo, por ser o único herdeiro de sangue, estava mais perto de seu coração. Chiang foi criado na tradição chinesa em que a preocupação central é ter um herdeiro. Não conseguir dar seguimento à linhagem familiar era considerada a desgraça, a maior dor que alguém poderia infligir aos pais e ancestrais, cujas almas mortas, então, jamais poderiam descansar em paz. Uma das piores maldições na China era: “Que você não tenha herdeiro!”. E o respeito pelos pais e ancestrais, a piedade filial, era a principal injunção moral ditada pela tradição.

Em 1925, Chiang mandara Ching-kuo, então com quinze anos, para uma escola em Pequim. Era uma época em que a estrela dele estava em ascensão num Partido Nacionalista patrocinado por Moscou. Não demorou para que os russos convidassem Ching-kuo para estudar na Rússia. O rapazinho ficou muito interessado. Alguns meses depois de chegar em Pequim, Ching-kuo foi levado para Moscou por uma figura pouco conhecida, mas fundamental, chamada Shao Li-tzu, um espião comunista importante dentro do Partido Nacionalista.

Infiltrar espiões foi um dos presentes valiosos que Moscou deu ao PCC. A maioria deles uniu-se aos nacionalistas na primeira metade da década de 1920, quando Sun Yat-sen, que estava cortejando os russos, abriu seu partido aos comunistas. A infiltração funcionava em vários níveis. Assim como havia comunistas conhecidos trabalhando dentro do movimento nacionalista, como Mao, havia também comunistas secretos e um terceiro grupo, os que haviam encenado uma falsa deserção do PCC. Em 1927, quando Chiang rompeu com os comunistas, muitos desses agentes secretos permaneceram como “dormentes”, a serem ativados no momento oportuno. Nos vinte e tantos anos seguintes, eles não somente deram aos comunistas informações cruciais, como estiveram muitas vezes em posição de exercer influência substancial nas diretrizes, pois muitos haviam subido na hierarquia do sistema nacionalista. Em última análise, os agentes infiltrados desempenharam um papel gigantesco na conquista da China por Mao — talvez um papel maior na alta política do que em qualquer outro país do mundo. Muitos continuam secretos até hoje.

Shao Li-tzu era um deles. Na verdade, tratava-se de um membro fundador do PCC, mas, por ordens de Moscou, ficou longe das atividades partidárias e sua identidade foi mantida em segredo até para a maioria dos líderes do partido. Quando Chiang voltou-se contra os comunistas em Xangai, em abril de 1927, Shao escreveu um telegrama aos russos que foi imediatamente enviado a Stálin, pedindo instruções: “Xangai me perturba muito. Não posso ser a arma da contrarrevolução. Peço conselhos sobre como lutar”.

Nos 22 anos seguintes, Shao permaneceu com os nacionalistas, ocupando muitos postos importantes, até a vitória comunista em 1949, quando passou para o lado de Mao. Morreu em Pequim, em 1967. Mesmo sob o regime comunista, sua verdadeira face nunca foi revelada e ele ainda hoje é apresentado como um honesto simpatizante, não um dormente de longo tempo.

Foi, sem dúvida, por instruções de Moscou que Shao levou o filho de Chiang para a Rússia em novembro de 1925. Dois anos depois, ao completar seus estudos, ele não teve permissão para ir embora e foi forçado a denunciar o pai publicamente. Stálin o mantinha como refém, enquanto dizia ao mundo que ele ficara por vontade própria. Stálin gostava de manter reféns. Peggy Dennis, esposa do líder comunista americano Eugene Dennis, descreveu uma visita da eminência parda do Comintern Dmitri Manuilski, quando ela e o marido estavam para partir da Rússia e retornar à América, em 1935. “A bomba foi jogada tranquilamente [...] Quase por acaso, Manuilski nos informou que não poderíamos levar Tim [seu filho] de volta [...] ‘Mandaremos Tim em outro momento, em outras circunstâncias.’.” Os russos nunca o fizeram.

O fato de Ching-kuo ser um refém foi revelado a seu pai no final de 1931, por ninguém menos que sua cunhada, madame Sun Yat-sen (née Soong Ching-ling), que

também era agente soviética. b Falando por Moscou, ela propôs a troca de Ching-kuo por dois altos agentes russos que haviam sido presos recentemente em Xangai. Chiang recusou a proposta. A prisão dos dois agentes era assunto público e eles haviam sido julgados e encarcerados abertamente. Mas a oferta de Moscou desencadeou uma torrente de angústia em Chiang, que pensou que o filho poderia agora ser “cruelmente morto pelos russos soviéticos”. Em 3 de dezembro de 1931, o Generalíssimo escreveu em seu diário: “Nos últimos dias, andei suspirando por meu filho ainda mais. Como poderei encarar meus pais quando morrer [se Ching-kuo for morto]?”. No dia 14: “Cometi um grande crime ao não ser um bom filho [arriscando a morte de seu herdeiro]”.

Chiang continuou a se consumir na ansiedade quanto ao que poderia acontecer com o filho, e sua angústia e amargura explicam, quase com certeza, um evento que aconteceu a milhares de quilômetros de distância. Nesse exato momento, dezembro de 1931, o filho de Shao Li-tzu foi encontrado morto a tiros em Roma. Esse filho fora levado por Shao para a Rússia em 1925 como companheiro de viagem de Ching-kuo. Shao júnior teve depois permissão para voltar à China. A imprensa italiana cobriu sua morte como uma tragédia de amantes; um jornal publicou a matéria com a manchete: “A morte trágica de um chinês que havia ferido sua amante” — uma mulher que seria tcheca. Mas Shao e família estavam convencidos de que o assassinato de seu filho, que foi encoberto tanto por nacionalistas como por comunistas, era obra de agentes nacionalistas e que isso só poderia ter sido feito com autorização de Chiang. Uma vingança pessoal: um filho por um filho.

Quando a Longa Marcha começou, Chiang havia planejado uma troca cuidadosamente arquitetada: a sobrevivência do PCC por Ching-kuo. Não era uma oferta que pudesse ser feita às claras. Ele executou seu plano de forma sutil. Seu projeto era manter os comunistas temporariamente confinados e depois usar os japoneses para abrandá-los. Chiang considerava inevitável a guerra contra o Japão e estava bem consciente de que a Rússia queria essa guerra. O cenário mais temido por Stálin era que o Japão conquistasse a China e depois, com os recursos chineses e uma fronteira porosa de 7 mil quilômetros, atacasse a União Soviética. Chiang supunha que, uma vez iniciada a guerra sino-japonesa, Moscou se veria obrigada a mandar seus clientes chineses lutar contra o Japão. Até esse dia, ele permitiria que os comunistas sobrevivessem, o que, esperava, seria uma compensação grande o suficiente para ter seu filho de volta.

Chiang não queria que os comunistas se instalassem no interior rico da China. Seu objetivo era conduzi-los para um canto mais árido e pouco habitado, onde poderia confiná-los. A prisão que tinha em mente era o platô da Terra Amarela, no noroeste do país, principalmente a parte setentrional da província de Shaanxi. Para ter absoluta certeza de que eles se encaminhariam para sua armadilha, Chiang permitiu que uma base comunista florescesse na região, enquanto esmagava as outras no resto do país.

A principal pessoa que Chiang usou para implementar esse plano foi ninguém menos que Shao Li-tzu, o homem que havia levado seu filho para a Rússia. Shao foi nomeado governador de Shaanxi em abril de 1933. Embora Chiang certamente soubesse de que lado estava Shao, jamais o denunciou e continuou a usá-lo como se fosse um fiel nacionalista. A relação do Generalíssimo com Shao, tal como com muitos outros infiltrados importantes, era uma teia quase incrivelmente complexa de intriga, engano, blefe e duplo blefe que acabaria saindo de seu controle e contribuiria para sua queda.

O cálculo de Chiang era que só um espião poderia fomentar um bolsão vermelho, pois qualquer nacionalista autêntico o destruiria. E, com efeito, foi só depois da nomeação de Shao para a região que aquilo que até então fora uma minúscula guerrilha comunista

começou a crescer em Shaanxi (e na fronteira de Gansu, imediatamente para oeste). c No exato momento em que a Longa Marcha começava, em meados de outubro de 1934, Chiang fez uma visita à província de Shaanxi. Ao mesmo tempo que clamou publicamente para que os “bandidos” vermelhos fossem “esmagados”, permitiu que a base comunista se expandisse de forma sem precedentes; dentro de poucos meses, ela cresceu e cobriu 30 mil quilômetros quadrados, com uma população de 900 mil habitantes.

O que Chiang havia criado era um curral para onde conduziria todos os diferentes destacamentos do Exército Vermelho, tal como os expulsou dos diversos bolsões no coração da China. Seu plano era enfraquecê-los bastante ao longo do caminho, mas não eliminá-los inteiramente. Chiang contou mais tarde a um emissário americano: “Eu conduzi os comunistas de Jiangxi para [...] o norte de Shaanxi, onde seu número foi reduzido a poucos milhares e eles não foram perseguidos”.

Chiang os conduziu mediante a comunicação de seus deslocamentos por rádio, que, ele sabia, seria interceptada. Os comunistas julgaram que “os telegramas do inimigo eram constantemente interceptados e decodificados por nós e nosso exército conhecia as intenções e os movimentos do inimigo como a palma da nossa mão”. Mas Chiang não quis mudar seus códigos. E os comunistas se deslocaram para onde não havia tropas inimigas, ou muito poucas.

Para assegurar-se de que os vermelhos seguiriam a rota que ele escolhera e evitar qualquer mudança em suas instruções, Chiang decidiu que a véspera da partida deles era o momento para revelar um grande golpe da inteligência. Em junho, os nacionalistas haviam atacado em segredo a estação de rádio do PCC em Xangai, que era a ligação entre Ruijin e Moscou. Durante vários meses, mantiveram a rádio em operação sob seu controle e então, em outubro, fecharam-na totalmente. O PCC tentou restabelecer a conexão mandando um alto operador de rádio para Xangai, mas ele desertou assim que chegou. Assassinos foram mandados em seu encalço. Erraram da primeira vez, mas conseguiram matá-lo em um leito do hospital alemão na segunda tentativa. A partir de então, Xangai tornou-se, em larga medida, irrelevante para o PCC, embora permanecesse uma base importante para o serviço secreto de Moscou.

 

A Longa Marcha foi usada por Chiang para iniciar a troca de comunistas por seu filho. Imediatamente antes da saída da base de Ruijin, mandou uma mensagem através de canais diplomáticos, pedindo a volta do filho. Em 2 de setembro de 1934, registrou em seu diário que “uma representação formal foi feita sobre trazer Ching-kuo para casa”. Durante o período crucial da fuga, em outubro e novembro, Chiang encontrou uma forma de dizer enfaticamente aos russos que estava fechando os olhos e deixando os comunistas partirem, não apenas com sua ausência da linha de frente, mas indo mil quilômetros na direção oposta, para uma longa excursão pública pelo norte da China.

Moscou entendeu a mensagem. Durante o exato período entre o pedido de liberdade para seu filho feito por Chiang e o dia em que Mao e companhia atravessaram o rio Xiang e se livraram dos fortins nacionalistas, os russos aumentaram tremendamente a vigilância sobre seu refém. Ching-kuo, que trabalhara antes numa aldeia e numa mina de ouro da Sibéria, estava agora numa fábrica de máquinas dos Urais. Então, como ele relembrou depois, “de agosto a novembro de 1934, fui subitamente [...] posto sob rigorosa vigilância do NKVD [KGB]. Todos os dias, eu era seguido por dois homens”.

No início de dezembro, logo depois que os comunistas chineses passaram pelos últimos fortins, Chiang pediu por seu filho de novo (como a KGB informou a Ching-kuo). Mas os russos disseram a Chiang que seu filho não queria voltar. “Não acaba nunca a revoltante tapeação dos russos”, escreveu Chiang em seu diário, embora dissesse que poderia “enfrentar isso com calma”. “Acho que fiz realmente progressos, pois posso até deixar de me preocupar com essa calamidade familiar.” Chiang sabia que seu filho estaria em segurança — se fizesse mais pelos comunistas.

 

a Da outra metade (cerca de 40 mil) que não atravessou o rio, pouco “mais de 3 mil” foram mortos no Xiang. O restante ou se espalhou pelo Xiang, ou pereceu nas seis semanas anteriores da caminhada de doença ou exaustão, ou eram baixas causadas por pequenas escaramuças, ou desertara.

b Ela era irmã de madame Chiang Kai-shek. O fato de ser uma agente russa permaneceu em segredo durante toda a sua longa vida e ainda é pouco conhecido. Mas uma carta secreta que ela escreveu em 26 de janeiro de 1937 para Wang Ming, o chefe da delegação do PCC em Moscou e superintendente dela, mostra seu papel sem sombra de dúvida. A carta começa assim: “Ao camarada Wang Ming. Prezado camarada: É necessário para mim informá-lo dos seguintes fatos, uma vez que eles podem pôr em perigo minhas atividades [...] na China no futuro próximo. Levo-os à sua consideração na esperança de que possa me aconselhar sobre qual rumo tomar”. Uma das questões abordadas na carta eram queixas quanto à agente americana do Comintern Agnes Smedley, que, dizia madame Sun, levara “simpatizantes estrangeiros para casa, com o resultado de que essa casa especial, que foi usada para propósitos importantes, agora foi arruinada [...] Encaminhei suas instruções para isolá-la” ao PCC.

c O comandante do Exército nacionalista em Shaanxi era o companheiro de viagem general Yang Hu-cheng, que havia sido anteriormente convidado a entrar no Partido Comunista e cuja relação com os vermelhos era conhecida de Chiang. Ele colaborou bastante com Shao.