Mao: a história desconhecida

Jung Chang e Jon Halliday · Capítulo 6 de 69

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Mao: a história desconhecida

4. Ascensão e queda no Partido Nacionalista

 

(1925-27; 31-33 anos)

 

Durante oito meses Mao viveu na casa da família, em Shaoshan. Ele e os dois irmãos haviam herdado dos pais a casa e uma boa quantidade de terras, e a propriedade era mantida por parentes. Os irmãos estavam trabalhando para o partido em Changsha, depois de recrutados por Mao. Agora, ambos voltavam para casa com ele. Em Changsha, distante apenas cinquenta quilômetros, os comunistas de Hunan estavam organizando greves, manifestações e comícios, mas Mao não se envolveu. Permaneceu em casa, jogando cartas boa parte do tempo.

Mas estava de olho numa chance para voltar à política — em alto nível. Em março de 1925, o líder nacionalista Sun Yat-sen morreu. Seu sucessor foi Wang Ching-wei, um homem que Mao conhecia e que simpatizava com ele. Wang trabalhara com Mao em Xangai no ano anterior e os dois tinham se dado muito bem.

Nascido em 1883, Wang era dez anos mais velho que Mao. Carismático e orador eloquente, tinha também a aparência de um astro de cinema. Desempenhara um papel ativo nos movimentos republicanos contra os manchus e quando a revolução irrompeu, em outubro de 1911, estava preso, condenado à prisão perpétua pelas várias tentativas de assassinar altos funcionários da corte, inclusive o regente. Solto quando a dinastia caiu, tornou-se um dos líderes do Partido Nacionalista. Estava com Sun Yat-sen em seus últimos dias e fora testemunha de seu testamento, o que era uma forte credencial para sucedê-lo. E, o que era muito importante, tinha a bênção de Borodin, o principal agente russo. Com cerca de mil agentes na base nacionalista, Moscou controlava Cantão, que assumira ares de cidade soviética, adornada de bandeiras e slogans vermelhos. Viam-se rostos russos nos carros que passavam, com guarda-costas chineses nos estribos. Cargueiros soviéticos pontilhavam o rio Pérola. Atrás de portas fechadas, comissários sentavam-se em torno de mesas cobertas de pano vermelho, sob o olhar de Lênin, interrogavam “desordeiros” e realizavam julgamentos.

No momento em que Sun morreu, Mao despachou seu irmão Tse-min para Cantão a fim de fazer um reconhecimento de suas chances. Tse-tan, o outro irmão, seguiu depois. Em junho, já estava claro que Wang era o novo chefe nacionalista e Mao começou a arrumar suas credenciais, criando seções de base partidária em sua área. A maioria era para os nacionalistas, não para os comunistas. Tendo sido escorraçado da liderança do PCC, ele agora tentava sua sorte com o Partido Nacionalista.

No topo do programa dos nacionalistas estava o “anti-imperialismo”. O partido considerava sua principal tarefa a defesa dos interesses da China contra as potências estrangeiras e esse se tornou o tema da atividade de Mao, ainda que fosse muito distante da vida dos camponeses. Não surpreende que a reação tenha sido a indiferença. Um de seus colaboradores registrou em seu diário, em 29 de julho: “Somente um camarada apareceu, os outros não vieram. Assim, a reunião não aconteceu”. Alguns dias depois: “A reunião não ocorreu porque poucos camaradas vieram”. Uma noite, ele e Mao tiveram de ir de lugar em lugar para reunir as pessoas, de modo que a reunião começou muito tarde e só terminou à uma e quinze da manhã. Mao disse que ia para casa, “pois estava sofrendo de neurastenia e havia falado muito hoje. Disse que não conseguiria dormir aqui [...] Caminhamos por cerca de dois ou três li [1-1,5 quilômetro] e simplesmente não conseguimos caminhar mais. Estávamos absolutamente exaustos e então passamos a noite em Riacho Tang”.

Mao não organizou nenhuma ação camponesa no estilo de pobres contra ricos. Em parte, porque achava que não fazia sentido. Anteriormente, em 18 de janeiro de 1924, ele dissera a Borodin e outros comunistas:

Se levarmos nossas lutas contra os grandes senhores de terras, estamos condenados ao fracasso. [Em algumas

áreas, alguns comunistas] organizaram primeiro os camponeses analfabetos, depois os levaram a lutar contra

os relativamente ricos e grandes donos de terra. Qual foi o resultado? Nossas organizações foram

imediatamente quebradas, banidas, e esses camponeses não somente acham que nós não lutamos por seus

interesses como nos odeiam, dizendo que, se não os tivéssemos organizado, não teria havido desastres ou

infortúnio.

Portanto, até que tenhamos confiança de que nossas bases no campo são fortes [...] não podemos adotar a

política de tomar medidas drásticas contra donos de terra relativamente ricos.

 

Mao estava sendo pragmático. Um comunista de sua área chamado Wang Hsien-tsung organizara camponeses para melhorar a sorte deles na época em que estava em Shaoshan. Acusado de ser bandido, foi preso, torturado e decapitado pela polícia local.

Prudentemente, Mao decidiu ficar longe de tais atividades perigosas e inúteis, mas as autoridades de Hunan ainda o viam com suspeição, pois ele tinha a reputação de ser um grande radical. Naquele verão houve uma seca e, como acontecera várias vezes no passado, os camponeses pobres usaram a força para impedir que os ricos mandassem grãos para vender nas cidades. Mao foi suspeito de agitação. Na capital da província aconteceram também grandes manifestações “anti-imperialistas”, após o incidente de 30 de maio em Xangai, quando a polícia britânica matou dez manifestantes no enclave inglês. Embora não desempenhasse nenhum papel nas manifestações de Changsha e estivesse vivendo tranquilamente em sua casa, a quilômetros de distância, acreditou-se que Mao fosse um dos instigadores e essa ideia aparece nos registros do governo americano. O consulado dos Estados Unidos em Changsha enviou um relatório a Washington, escrito pelo presidente da Yale-na-China, sobre “distúrbios bolcheviques” em Changsha em 15 de junho, dizendo que o governador de Hunan havia “recebido uma lista de vinte líderes da agitação, entre eles Mao Tse-tung, conhecido por ser o principal propagandista comunista aqui”. Mao era um nome, mesmo para um americano (mais bem informado que de costume).

Um mandado de prisão foi expedido no final de agosto. Mao, que de qualquer modo estava de partida para Cantão, decidiu que era hora de levantar acampamento. Fez isso numa pequena liteira, indo primeiro para Changsha e recomendando aos seus carregadores que, se alguém perguntasse quem era o passageiro, dissessem que levavam um médico. Dias depois, alguns milicianos apareceram em Shaoshan à procura de Mao. Ao verem que ele não estava lá, levaram dinheiro e foram embora, sem causar outros problemas para a família de Mao.

Na véspera de sua partida para Changsha, Mao fez uma caminhada às margens do rio Xiang e escreveu um poema em que olhava para o futuro:

 

Águias se elevam na longa abóbada,

Peixes descem pelo leito raso do rio,

Sob um céu de gelo, dez mil criaturas competem para impor sua vontade.

Tocado por esta vastidão,

Pergunto à terra ilimitada:

Quem, afinal, será teu senhor?

 

O faro de Mao não o enganou. Nas duas semanas depois de chegar a Cantão, em setembro de 1925, ganhou um punhado de tarefas importantes do chefe nacionalista. Mao seria o dublê de Wang Ching-wei, como diretor do Departamento de Propaganda e editor do novo periódico do Partido Nacionalista, Política Semanal. E, para sublinhar sua importância, também participou do comitê de cinco membros que selecionaria os delegados do segundo congresso do partido, no mês de janeiro seguinte, no qual apresentou um de seus principais relatórios. O papel de Wang na ascensão de Mao é algo que foi diligentemente obscurecido por Pequim, ainda mais porque ele se tornou chefe do governo títere japonês na década de 1940.

A capacidade de Mao de trabalhar a pleno vapor em Cantão se deveu, em considerável medida, à sua descoberta dos comprimidos para dormir. Ele sofria de insônia aguda, o que o deixava num estado de exaustão permanente. Agora, estava livre. Mais tarde, colocaria o inventor do remédio ao lado de Marx.

Em novembro de 1925, enquanto trabalhava para os nacionalistas, Mao expressou pela primeira vez interesse pela questão do campesinato chinês. Em um formulário que preencheu, disse que estava “atualmente dando atenção especial” a essas muitas dezenas de milhões. Em 1 o de dezembro, publicou um longo artigo sobre camponeses em um periódico nacionalista e, um mês depois, escreveu outro para o primeiro número da revista nacionalista Camponeses Chineses. O novo interesse de Mao não derivava de nenhuma inspiração ou inclinação pessoal, mas vinha nos calcanhares de uma ordem urgente de Moscou, recebida em outubro, instruindo nacionalistas e comunistas a dar prioridade à questão. Os nacionalistas tomaram medidas imediatas.

Foram os russos que primeiro ordenaram ao PCC que desse atenção ao campesinato. Já em maio de 1923, Moscou se referira à “questão dos camponeses” como “centro de todas as nossas políticas”, e mandara os revolucionários chineses “levarem adiante a revolução agrária camponesa contra os remanescentes do feudalismo”. Isso significava dividir os camponeses chineses em classes diferentes conforme a riqueza e agitar os pobres contra os ricos. Na época, Mao recebera essa ordem com frieza e, quando suas reservas foram relatadas a Moscou, ele foi destituído de um de seus cargos. A posição de Mao, como Dalin escreveu a Voitinski em março de 1924, era: “Sobre a questão camponesa, a linha de classe deve ser abandonada, não há nada a fazer entre os camponeses pobres e é necessário estabelecer laços com os senhores de terras e shenshih [pequena nobreza rural]”.

Mas agora Mao mudava conforme o vento dominante, ainda que tivesse problemas com os russos em relação à fraseologia ideológica. Em seus artigos, ele tentara aplicar a “análise de classe” comunista ao campesinato, classificando aqueles que possuíam um pequeno lote de terra de “pequena burguesia” e os lavradores de “proletariado”. Uma crítica violenta foi publicada na revista dos agentes soviéticos Kanton, que atingia leitores de alto coturno na Rússia — o primeiro dos cerca de quarenta nomes da lista de distribuição era o de Stálin. O crítico Volin, especialista russo em campesinato, acusava Mao de argumentar como se os camponeses vivessem numa sociedade capitalista, quando a China estava ainda no estágio feudal: “Um erro muito importante salta aos olhos: [...] que a sociedade chinesa, de acordo com Mao, tem uma estrutura capitalista desenvolvida”. O artigo de Mao foi considerado “não científico”, “indiscriminado” e “excepcionalmente esquemático”. Até mesmo seus números básicos estavam errados, de acordo com Volin: ele mencionava uma população de 400 milhões, quando o censo de 1922 mostrava que, na verdade, era de 463 milhões.

Felizmente para Mao, o Partido Nacionalista não exigia padrões tão altos de correção teórica. Em fevereiro de 1926, seu protetor Wang Ching-wei o designou membro fundador do Comitê do Movimento Camponês dos nacionalistas, bem como chefe do Instituto de Treinamento do Movimento Camponês, criado dois anos antes com fundos russos.

Foi só então, quando estava com 32 anos, que Mao — que muitos até hoje julgam ter sido o grande defensor dos camponeses pobres — se interessou por eles. Sob sua direção, o Instituto Camponês produziu agitadores que iam para as aldeias, incitavam os pobres contra os ricos e os organizavam em “associações camponesas”. Em Hunan, foram particularmente bem-sucedidos depois de julho, quando o Exército nacionalista ocupou a província. Eles acabavam de começar uma marcha em direção ao norte a partir de Cantão (conhecida como “Expedição ao Norte”) para derrubar o governo de Pequim. Hunan foi o primeiro lugar na rota de 2 mil quilômetros.

O Exército nacionalista era acompanhado por agentes russos. A Rússia também acabara de abrir um consulado em Changsha e sua base da KGB tinha o segundo maior orçamento das catorze bases na China, depois de Xangai. Um missionário americano escreveu em carta enviada de Changsha no final daquele ano: “Temos um cônsul russo [agora]. Não há interesses russos aqui para representar [...] está clara [...] qual é sua finalidade [...] A China pode pagar caro por sua presença cordial”. Supervisionadas de perto pelos russos, as novas autoridades nacionalistas de Hunan deram às associações camponesas sua bênção — e fundos — e, no final do ano, elas já se haviam espalhado por boa parte do campo dessa província de 30 milhões de habitantes. A ordem social foi virada de cabeça para baixo.

Naquela época, senhores guerreiros vinham travando guerras esporádicas havia dez anos, e tinham ocorrido mais de quarenta mudanças no governo central desde que o país se tornara uma república, em 1912. Mas eles tratavam de preservar a estrutura social, e a vida continuava como sempre para os civis, desde que não fossem surpreendidos pelo fogo cruzado. Agora, pelo fato de os nacionalistas seguirem instruções russas destinadas a provocar uma revolução de estilo soviético, a ordem social se rompia pela primeira vez.

A violência irrompeu quando os camponeses pobres se apossaram da comida e do dinheiro dos relativamente ricos, e se vingaram. Bandidos e sádicos também se aproveitaram da situação. Em dezembro, o campo de Hunan estava tomado pela violência. Na qualidade de líder do movimento camponês, Mao foi convidado a voltar a sua província natal para dar orientação.

 

Quando Mao retornou, Changsha era uma cidade mudada. Pelas ruas, vítimas eram obrigadas a desfilar com “orelhas de burro” (uma invenção europeia), em sinal de humilhação, e crianças corriam cantando “abaixo as potências [imperialistas] e eliminem os senhores guerreiros”, hino da revolução nacionalista, cantado com a melodia de “Frère Jacques”.

Em 20 de dezembro de 1926, cerca de trezentas pessoas lotaram o teatro de lanterna mágica para escutar Mao, que dividiu o palco com um agitador russo chamado Boris Freyer. (Como quase todos os agentes russos na China daquela época, ele depois desapareceu durante os expurgos de Stálin.) Mao não era orador; seu discurso teve duas horas de duração e foi enfadonho. Mas foi moderado. “Ainda não é o momento de derrubar proprietários de terras”, disse. “Devemos fazer algumas concessões a eles.” No estágio atual, “devemos apenas reduzir aluguéis e taxas de juros, e aumentar os salários dos lavradores”. Citando Mao, que teria dito “não estamos preparados para tomar a terra imediatamente”, Freyer contou ao órgão controlador russo, o Birô do Extremo Oriente, que o discurso dele estava basicamente “correto”, mas inclinado a ser moderado demais.

Embora Mao não tenha tratado da questão da violência, sua abordagem geral não era militante. Pouco depois, ele partiu numa viagem de inspeção do campo de Hunan. No final da excursão, que durou 32 dias, havia sofrido uma mudança dramática. O próprio Mao diria que, antes dessa viagem, seguia uma linha moderada, mas que “depois que permaneci em Hunan por mais de trinta dias, mudei completamente minha atitude”. O que realmente aconteceu é que Mao descobriu dentro de si uma paixão pelo banditismo sanguinolento. Esse prazer visceral, que beirava o sadismo, misturou-se à — mas precedeu — sua afinidade com a violência leninista. Mao não chegou à violência pelo caminho da teoria. A propensão veio de seu caráter e teria um impacto profundo em seus futuros métodos de governo.

Como escreveu em seu relatório sobre a viagem, Mao viu que os chefes das associações camponesas de base eram, em sua maioria, “rufiões”, ativistas os mais pobres e os mais rudes, e que haviam sido os mais desprezados. Agora, tinham poder. Eles “se tornaram chefes e senhores, e suas mãos transformaram as associações camponesas em algo bastante aterrorizante”, escreveu ele. Eles escolhiam suas vítimas arbitrariamente. “Cunharam a frase: ‘Quem quer que tenha terra é um tirano, e toda a pequena nobreza é ruim’.” Eles

derrubam os proprietários de terra no chão e pisam neles [...] eles pisoteiam e espezinham as camas de marfim

das senhoritas e senhoras. Pegam as pessoas sempre que têm vontade, vestem-nas com umas orelhas de burro

compridas e desfilam com elas pelas ruas. Resumindo, eles se entregam a todos os caprichos [...] e realmente

criaram terror no campo.

 

Mao viu que os bandidos adoravam brincar com as vítimas e destruir sua dignidade, como descreveu, com aprovação:

Um chapéu alto de papel é posto [na vítima] e sobre o chapéu escrevem proprietário tirano fulano de tal ou

mau nobre fulano de tal. Depois a pessoa é puxada por uma corda [como se puxa um animal], seguida por

uma grande multidão [...] Essa punição faz [as vítimas] tremerem mais. Depois de tal tratamento, essas pessoas

estão para sempre destruídas.

 

A ameaça de incerteza, de angústia, o atraía em particular:

A associação camponesa é muito inteligente. Eles pegaram um mau senhor e declararam que iriam [fazer o

que foi escrito acima] com ele [...] mas decidiram que não fariam naquele dia [...] Aquele mau senhor não

sabia quando iria receber esse tratamento, então vivia angustiado todos os dias e jamais conhecia um

momento de paz.

 

Mao ficou muito impressionado com uma arma, a suo-biao, uma faca afiada de dois gumes, com um punho longo como de lança: “ela [...] faz todos os tiranos donos de terras e maus nobres tremerem ao vê-la. As autoridades revolucionárias de Hunan deveriam [...] assegurar que cada homem jovem e de meia-idade tenha uma dessas. Não se deve impor limites [ao seu uso]”.

Mao viu e ouviu muito sobre brutalidade, e gostou daquilo. No relatório que escreveu depois, em março de 1927, disse sentir “uma espécie de êxtase jamais experimentado antes”. Suas descrições da brutalidade exsudavam excitação e fluíam com um aumento súbito de adrenalina. “É maravilhoso! É maravilhoso!”, exultava.

Contaram a ele que pessoas haviam sido espancadas até a morte. Quando lhe perguntaram o que fazer — e pela primeira vez a vida e a morte de pessoas dependeram de uma palavra sua —, ele disse: “Um ou dois espancados até a morte, não tem importância”. Imediatamente após sua visita, realizou-se um comício na aldeia em que outro homem, acusado de se opor à associação camponesa, foi morto selvagemente.

Antes da chegada de Mao, os líderes do movimento camponês em Hunan haviam tentado diminuir a violência, detendo alguns dos que haviam perpetrado atrocidades. Então, ele mandou soltá-los. Uma revolução não era um jantar festivo, admoestou os chefes locais; ela precisava de violência. “É necessário provocar um [...] reino de terror em cada condado.” Os líderes camponeses de Hunan obedeceram.

Em nenhum momento Mao tratou da questão que mais preocupava os camponeses: a redistribuição da terra. Existia de fato uma necessidade urgente de liderança, pois algumas associações camponesas já haviam começado a fazer suas próprias redistribuições, mudando marcos de limites e queimando documentos de arrendamento de terras. As pessoas apresentaram várias propostas específicas. Mao não. Tudo o que disse sobre terra na reunião do comitê nacionalista que discutia essa questão, em 12 de abril, foi: “O confisco de terras se resume a não pagar aluguel. Não há necessidade de mais do que isso”.

O que fascinava Mao era a violência que destruía a ordem social. E foi essa propensão que chamou a atenção de Moscou, pois se adequava ao modelo soviético de revolução social. Mao foi então publicado pela primeira vez no periódico do Comintern, que divulgou seu relatório de Hunan (embora sem assinatura). Ele mostrara que, ainda que vacilasse ideologicamente, seus instintos eram os de um leninista. Alguns outros comunistas — em especial o líder professor Chen, que ficou furioso ao saber das atrocidades da turba e insistiu em que ela deveria ser controlada — não eram, em última análise, comunistas do tipo soviético. Então, mais de dois anos depois de expulsá-lo, o PCC readmitiu Mao no círculo do poder. Em abril de 1927, ele voltou ao Comitê Central, embora apenas na segunda fileira, sem direito a voto (chamado de membro suplente).

Nessa época, Mao tinha como base a cidade de Wuhan, junto ao Yangtze, cerca de trezentos quilômetros a noroeste de Changsha, para onde se mudara com o quartel-general nacionalista, enquanto seu exército avançava para o norte. Destacando-se cada vez mais entre os nacionalistas como supervisor do movimento camponês, ele acelerou o treinamento de agitadores rurais para que disseminassem sua linha violenta pelas novas áreas tomadas pelo Exército. Um texto que Mao selecionou para orientá-los descrevia militantes de uma associação camponesa discutindo maneiras de tratar as vítimas: se fossem “teimosos”, “cortaremos seus tendões de Aquiles e arrancaremos suas orelhas”. O autor do texto saudava punições como essa, particularmente horrível, com entusiasmo: “Eu estava ouvindo muito absorto, como num estupor alcoólico ou transe. De repente, fui despertado pelos gritos de ‘maravilhoso’ e eu também não pude deixar de berrar ‘maravilhoso!’”. Esse relato é extraordinariamente semelhante ao relatório do próprio Mao, tanto em estilo como em linguagem, e há grandes chances de que tenha sido escrito por ele.

Enquanto a violência aumentava sob a tutela de Mao, o Exército nacionalista voltava-se contra o modelo soviético que seu partido seguia. Uma grande parte desse contingente era de Hunan e os oficiais, que vinham de famílias relativamente prósperas, descobriram que seus pais e parentes estavam sendo presos e maltratados. Mas não eram apenas os ricos que sofriam: os soldados também foram atingidos. O professor Chen relatou ao Comintern em junho: “até o pouco dinheiro enviado para casa pelos soldados comuns foi confiscado”, e as tropas ficaram “desagradadas com os excessos”, percebendo que sua luta levava o desastre para suas próprias famílias.

Muitos militantes do Partido Nacionalista estavam descontentes com a adoção da linha de Moscou por seus líderes desde o início, quando Sun Yat-sen se aliou aos russos no começo dos anos 1920. A raiva deles chegou ao ponto máximo depois do segundo congresso nacionalista, em janeiro de 1926, quando o muito menor PCC (com bem menos de 10 mil filiados) como que sequestrou os nacionalistas, que tinham várias centenas de milhares de membros. Sob a liderança de Wang Ching-wei, um terço dos 256 delegados era comunista. Outro terço era “de esquerda”, entre os quais havia um grande contingente de comunistas enrustidos. Moscou não apenas havia plantado seu cavalo de Troia — o próprio PCC — dentro do Partido Nacionalista, como havia infiltrado um grande número de espiões. Mais de um ano depois, a violência tolerada pelo partido levou muitos nacionalistas proeminentes a pedir um rompimento com o controle de Moscou e com os comunistas chineses.

A crise chegou rapidamente ao auge. Em 6 de abril de 1927, mil quilômetros ao norte, as autoridades de Pequim invadiram instalações russas e apreenderam uma grande quantidade de documentos que revelavam o engajamento de Moscou na ampla subversão destinada a derrubar o governo chinês e substituí-lo por um regime títere. Os documentos mostravam também as conexões secretas dos soviéticos com os comunistas chineses. Um importante líder do PCC chamado Li Ta-chao e cerca de sessenta comunistas chineses foram presos no recinto russo, onde estavam morando. Li foi logo executado por estrangulamento.

Essa invasão recebeu ampla divulgação, assim como os documentos. A prova da subversão soviética em escala maciça deixou a opinião pública chinesa ultrajada e alarmou as potências ocidentais. Se não tomassem medidas decisivas para se dissociar dos russos e do PCC, os nacionalistas corriam o risco de ser considerados participantes da conspiração para transformar a China em um satélite soviético. Muitos nacionalistas deixariam o partido, o público em geral se afastaria e as potências ocidentais recuariam da decisão de dar apoio total ao regime de Pequim. Foi então que o comandante em chefe do Exército nacionalista, Chiang Kai-shek, entrou em ação. Em 12 de abril, ele deu ordens para “limpar” o Partido Nacionalista da influência comunista e divulgou uma lista de 197 comunistas procurados, encabeçada por Borodin e incluindo Mao Tse-tung.

Chiang Kai-shek, descendente de uma família de comerciantes de sal da província costeira de Zhejiang, nasceu em 1887, seis anos antes de Mao. Conhecido mais tarde no exterior como “Generalíssimo”, era militar profissional e tinha uma aparência impassível, distante e fechada. Fizera treinamento no Japão e, em 1923, como chefe do estado-maior nacionalista, chefiara uma missão que fora à União Soviética. Na época, os russos o viam como da “esquerda dos nacionalistas” e “muito próximo de nós”, mas sua visita de três meses o tornou profundamente antissoviético, em particular na questão da luta de classes: era profundamente avesso à insistência de Moscou em dividir a sociedade chinesa em classes e fazê-las lutar uma contra a outra.

Mas Chiang não disse uma palavra em público sobre sua verdadeira opinião quando voltou à China. Ao contrário, deu a Borodin a impressão de ser “extremamente amistoso conosco e cheio de entusiasmo”. Ele escondeu sua verdadeira posição por um motivo muito simples: os nacionalistas dependiam da assistência militar soviética para conquistar a China. Contudo, ao mesmo tempo que se tornava o segundo homem do Partido Nacionalista, Chiang silenciosamente preparava o terreno para um rompimento e já retirara alguns comunistas de posições-chave em março de 1926. Isso fez com que os russos passassem a conspirar para se verem livres dele. De acordo com um de seus agentes em Cantão, a ideia era “jogar durante algum tempo e preparar a liquidação desse general [Chiang]”. Um ano depois, no início de 1927, Borodin emitiu uma ordem secreta para prender Chiang, mas o plano não se concretizou.

No momento em que o governo de Pequim divulgou os documentos sobre a subversão russa, Chiang entrou em ação. Em 12 de abril, emitiu uma nota que dizia, em resumo: prendam os comunistas. Agiu primeiro em Xangai, que fora o quartel-general do PCC, e onde ele mesmo estava. Os comunistas tinham piquetes armados nessa cidade e Chiang tomou medidas para desarmá-los. Para tanto, recrutou gângsteres para provocar uma briga com os comunistas e assim criar um pretexto para confiscar suas armas. Os baluartes comunistas foram atacados, muitos líderes sindicais foram presos e alguns, fuzilados. As tropas de Chiang abriram fogo com metralhadoras contra uma marcha de protesto. No espaço de poucos dias, houve provavelmente mais de trezentos mortos do lado dos comunistas. Chiang conseguiu destruir a capacidade de atuação pública deles na cidade, mas a liderança do PCC permaneceu, em larga medida, intacta — e, o que é espantoso, Xangai continuou a ser o lugar em que o centro do partido residia e atuava clandestinamente, mesmo em meio ao expurgo. Nos cinco ou seis anos seguintes, Xangai tornou-se sinônimo de liderança do PCC (e usamos a palavra nesse sentido).

Depois que Chiang Kai-shek começou a matar comunistas em Xangai, o chefe nacionalista Wang Ching-wei, que estava em Wuhan, distante seiscentos quilômetros para o interior, rompeu com o PCC e se submeteu a ele. A partir de então, Chiang Kai-shek tornou-se o chefe do Partido Nacionalista e iniciou a montagem de um regime que durou 22 anos no continente, até que Mao o expulsou para Taiwan, em 1949.

No caminho do rompimento de Wang, Mao viu-se diante de um dilema. Ele era muito mais apreciado por Wang do que por seus compatriotas comunistas e pela maioria dos russos, e tivera uma ascensão muito maior entre os nacionalistas do que no PCC. Deveria então ficar com Wang? Mais tarde, ele diria dessa época: “Senti-me desolado e, durante algum tempo, não soube o que fazer”. Foi nesse estado mental dividido que um dia ele subiu no belo pavilhão da Cegonha Amarela, às margens do rio Yangtze, em Wuhan. Construído no ano de 223, esse pavilhão era um marco. Dizia a lenda que ali um homem havia outrora acenado para uma cegonha amarela que voava sobre o rio, viajara em suas asas até o Palácio Celestial e jamais retornara. A Cegonha Amarela passou a significar algo que fora embora para sempre. Agora parecia uma metáfora apropriada para tudo o que Mao havia construído para si mesmo no Partido Nacionalista. Foi um dia escurecido por chuva forte. Enquanto estava junto à balaustrada esculpida do pavilhão, olhando através da vastidão do Yangtze, “cercado”, como disse em um poema, entre o monte Serpente e o monte Tartaruga, mas estendido até o infinito pelo dilúvio do céu, Mao ponderou suas alternativas. Numa libação tradicional, derramou sua bebida na torrente que corria lá embaixo e terminou seu poema com o verso: “A maré de meu coração sobe com as ondas poderosas!”.

Mao tentou manter Wang do lado dos comunistas ao repudiar os bandidos das associações camponesas que anteriormente saudara como maravilhosos e fazer deles bodes expiatórios. Em 13 de junho, Wang Ching-wei disse a outros líderes de Wuhan: “Somente depois do relatório do camarada Mao Tse-tung foi que percebemos que as associações camponesas são controladas por gângsteres. Eles não sabem nada sobre os nacionalistas ou os comunistas, só conhecem o negócio de matar e incendiar”. A tentativa de Mao de passar a responsabilidade adiante foi inútil. Seu mentor nacionalista já planejava romper com os comunistas e culpá-los por todas as atrocidades no campo. Como defensor mais ativo dessa violência, Mao teve de dizer adeus a Wang e os nacionalistas. Ele já estava na lista dos mais procurados. Mas, além disso, ficar com Wang significaria ter de se transformar em moderado e respeitar a ordem social. Mao não estava preparado para fazer isso, não depois que descobrira seu gosto pela brutalidade na zona rural de Hunan. Quase uma década antes, aos 24 anos, ele expressara seu desejo de uma mudança social violenta e drástica: “o país precisa ser [...] destruído e depois reformado [...] Pessoas como eu anseiam por essa destruição”. O modelo soviético adequava-se ao seu impulso.

Pela primeira vez, Mao teve de arriscar o pescoço. Diante da ameaça de prisão de dois anos antes, tivera tempo de chamar uma cadeirinha e partir de forma elegante para Changsha. Mas agora a fuga não seria tão simples. Não havia refúgio seguro e a matança de comunistas já começara. O filho mais velho do professor Chen foi preso e decapitado em 4 de julho. Até o final do ano, depois que eles mesmos fizeram revoltas violentas e acabaram com muitas vidas, dezenas de milhares de comunistas e suspeitos foram massacrados. Qualquer um podia ser preso e morto simplesmente sob a acusação de ser comunista. Muitos morreram proclamando sua fé, alguns gritando slogans, outros cantando “A Internacional”. Os jornais saudavam as execuções com manchetes impiedosas.

Primeiro, Mao teve de garantir sua segurança pessoal. Depois, decidiu usar o PCC e os russos para seus próprios fins. Essa decisão, tomada no verão de 1927, quando estava com 33 anos, marcou sua maturidade política.