Mao: a história desconhecida

Jung Chang e Jon Halliday · Capítulo 43 de 69

Páginas do PDF

Mao: a história desconhecida

41. A batalha solitária do ministro da Defesa Peng

41. A batalha solitária do

 

ministro da Defesa Peng

 

(1958-59; 64-65 anos)

 

Nos primeiros dois anos do Grande Salto Para a Frente, a maioria dos companheiros de poder de Mao o apoiou. Somente um membro do Politburo, o marechal Peng De-huai, ministro da Defesa, teve coragem para discordar.

Peng havia permanecido próximo de suas raízes camponesas pobres. Em um relato de sua vida escrito mais tarde, quando estava preso por ordem de Mao, ele recordou que costumava lembrar-se de sua infância esfaimada para não se “tornar corrupto ou insensível em relação à vida dos pobres”. Nos anos 1950, comentou com o alto escalão o estilo de vida corrupto do líder chinês: as mansões em todo o país e a busca de garotas bonitas, que Peng descreveu como “seleção de concubinas imperiais”.

Peng havia cruzado armas com Mao ao longo dos anos. Na década de 1930, criticara-lhe o tratamento perverso de outros comandantes militares. Na Longa Marcha, desafiara a liderança militar de Mao quando este, para alcançar seus objetivos pessoais, quase levou o Exército Vermelho à ruína. Na década seguinte, quando começou o culto da personalidade do líder, durante o terror em Yenan, Peng levantou objeções a rituais como gritar “Viva o presidente Mao!” e cantar o hino de Mao, “O Oriente é vermelho”. Depois que Khruchióv denunciou Stálin em 1956, Peng manifestou-se com mais vigor contra o culto da personalidade e até defendeu a mudança do juramento dos soldados: em vez de jurar lealdade a Mao, propunha que prometessem fidelidade à nação, com o argumento de que “nosso Exército pertence à nação”.

Isso certamente irritava Mao. Além disso, ele odiava o fato de que Peng não somente expressara estima por Khruchióv graças à desestalinização, como exortara que os gastos com indústrias de defesa em tempos de paz “deveriam ser compatíveis com o padrão de vida do povo”.

Com frequência, Peng expressava opiniões independentes e heterodoxas. Admirava abertamente os conceitos de “liberdade, igualdade e fraternidade” que Mao considerava “antimarxistas”. Peng defendia também a observância dos códigos de ética tradicionais da China, como “um príncipe e o homem da rua são iguais perante a lei” e “não faça aos outros o que não quer que façam a você”. Meu “princípio”, disse Mao, “é exatamente o oposto: faço aos outros exatamente o que não quero que façam comigo”.

Havia três décadas que Peng era um espinho na vida de Mao, embora tivesse colaborado com ele em momentos decisivos, como entrar na Coreia em 1950. Graças a isso, em 1954 foi elevado a ministro da Defesa — com relutância, revelou Mao depois. Durante a gestão de Peng, Mao procurou enfraquecê-lo criando cadeias de comando paralelas. Ainda assim, Peng mantinha um destemor diante dele que era único entre os altos líderes.

 

Quando lançou o Salto, em maio de 1958, Mao mergulhou Peng e cerca de 1500 oficiais graduados do Exército em reuniões diárias de “crítica e autocrítica”, nas quais eram obrigados a se atacarem mutuamente durante semanas seguidas. Tais sessões, que haviam se tornado um costume maoísta desde o terror de Yenan, eram cheias de

destruição maldosa de reputações e constituíam um imenso desgaste emocional. a Peng sentia-se tão desmoralizado que se propôs a renunciar, oferta que Mao rejeitou porque queria expurgá-lo. Enquanto isso, ele promovia seu assecla, o marechal Lin Biao, a vice-presidente do partido, o que o colocava acima de Peng, tanto no partido como no Exército.

Essas convulsões consumiram tempo e energia de Peng até o final de julho, quando as reuniões de crítica acabaram. Somente então ele pôde começar a tomar pé no panorama terrível ao seu redor. Percebeu que Mao estava com a ideia fixa de montar uma força de ataque absolutamente gigantesca — não menos que duzentos a trezentos submarinos nucleares e todas as armas mais modernas que a Rússia possuía — e que ele faria qualquer coisa para atingir tal meta. Um passo nessa direção foi o bombardeio da ilha de Quemoy em agosto, com o objetivo de provocar ameaças nucleares dos Estados Unidos e assim pressionar Khruchióv (Peng foi deliberadamente excluído desse processo, embora fosse o chefe do Exército). Depois houve a inundação de dados falsos das colheitas, que só podiam significar uma coisa: que Mao pretendia arrancar uma quantidade muito maior de alimentos para pagar pela quantidade enorme de equipamentos militares que estava comprando da Rússia.

Na noite de 3 de setembro, pouco depois do início do bombardeio de Quemoy, Peng desapareceu quando estava no balneário de Beidaihe para uma rodada de reuniões. Por fim, depois de longa procura, a guarda pretoriana o encontrou caminhando ao luar, num trecho remoto da praia, sozinho. Com o rosto sombrio, ele retornou para casa e ficou acordado toda a noite.

Depois, partiu para uma excursão de inspeção do norte da China, durante a qual ficou sabendo que os números da colheita estavam, de fato, inflacionados e que os camponeses estavam morrendo de inanição. Viu pela primeira vez o impacto desastroso da obsessão de Mao, as fornalhas de quintal. Ao passar por Henan, viu as fornalhas se tornando mais densas, com muita gente, carretas, pás, escadas e cestos, e chamas que se estendiam como um mar em fogo até o horizonte. Depois de olhar pela janela do trem, virou-se para seu ajudante de ordens e sacudiu a cabeça: “Esses fogos vão queimar tudo o que temos”.

No início de dezembro, numa conferência em Wuhan, Peng ouviu Mao anunciar que a colheita para 1958 era mais do que o dobro da de 1957, que havia sido um ano muito bom. Peng disse que isso era impossível, mas os chefes da agricultura de Mao o calaram com um “nós sabemos mais do que você”.

Peng decidiu voltar à sua região natal em Hunan, que ficava no mesmo condado da aldeia em que nascera Mao, para descobrir o que estava realmente acontecendo. Ali, obteve a confirmação de que os números da colheita eram falsos. Os camponeses haviam derrubado suas casas para alimentar as fornalhas de quintal; o excesso de trabalho os punha à beira do colapso; e quadros da base partidária estavam usando violência para forçá-los a trabalhar. “Em algumas áreas, tornou-se prática comum espancar as pessoas”, escreveu Peng. “As pessoas são espancadas quando não conseguem cumprir suas cotas de trabalho, espancadas quando se atrasam para o trabalho, espancadas até mesmo por dizer coisas que alguns não gostam.” Peng registrou também a miséria especial que o trabalho forçado estava causando às mulheres: o excesso de trabalho fazia com que “muitas mulheres sofram prolapsos do útero, ou parada prematura da menstruação”.

Os amigos de infância de Peng tinham rostos famintos e pálidos. Mostraram-lhe a panela da cantina, que continha apenas folhas de legumes e alguns grãos de arroz, sem óleo. Suas camas eram frias esteiras de bambu com colchas finas, em pleno frio de dezembro. Como tinham mais de sessenta anos, seus coetâneos moravam nos alojamentos da comuna para os idosos, chamados de “Pátio da Felicidade”. “Que espécie de felicidade é essa?”, explodiu Peng. As camas do jardim de infância tinham apenas trapos ralos. Muitas crianças estavam doentes. Peng deu ao jardim de infância duzentos yuans de seu próprio bolso e deixou outros duzentos para comprar roupa de cama para os idosos. Um veterano do Exército Vermelho que ficara incapacitado nos anos 1930 enfiou um pedaço de papel em sua mão. Era uma súplica a Peng para “gritar por nós”.

Em 18 de dezembro, Peng encontrou-se com Bo Yi-bo, um dos principais administradores econômicos do regime, e lhe disse que os dados de Mao sobre a colheita de grãos eram irreais e que não se deveriam confiscar alimentos com base naquele exagero. Bo concordou com ele. Na verdade, todos os economistas de Mao, bem como membros do Politburo, sabiam a verdade. Mas, quando Peng sugeriu que ele e Bo mandassem um telegrama conjunto para Mao, Bo recuou. Então Peng telegrafou por sua própria conta para Mao, insistindo para que a coleta de alimentos fosse reduzida. Não houve resposta.

Peng sabia que seu relato não era novidade para Mao, que havia repetido sua opinião precipitada sobre a morte no início daquele mês, em Wuhan: “Algumas crianças morrem no jardim de infância, alguns velhos morrem no Pátio da Felicidade [...] Se não houver morte, os seres humanos não podem existir. De Confúcio até agora, seria desastroso se as pessoas não morressem”.

Como seria possível deter Mao? Embora fosse ministro da Defesa, Peng tinha pouco poder — nada como o poder que tais ministros tinham em outros países. O Exército era totalmente controlado por Mao e Peng não podia movimentar tropas sem a permissão explícita dele. Peng começou a pensar em procurar ajuda da única fonte possível: o exterior.

Sem acesso ao Ocidente, sua única esperança era a Europa oriental e Khruchióv. Tratava-se de uma tentativa com pouca probabilidade de sucesso. Ele decidiu, ao que parece, tentar e fazer uma sondagem sobre essa possibilidade remota.

 

Havia tempo que Peng recebia convites para visitar a Europa oriental. Chegar até lá significava passar por Moscou e Mao indicara que não gostaria que ele aceitasse os convites. Mas, em 28 de fevereiro de 1959, ele concordou, depois que Peng, numa atitude pouco característica, o pressionou para obter seu consentimento.

O esperto Mao adivinhou que Peng estava armando alguma coisa. Em 5 de abril, pouco antes da partida dele, Mao explodiu numa reunião da cúpula do partido: “O camarada Peng De-huai está aqui? [...] você tem realmente ódio mortal de mim”. E então demonstrou uma cólera que os mais próximos disseram nunca ter visto. “Sempre estivemos combatendo um ao outro [...] Meu princípio é: você não se mete comigo e eu não me meto com você, mas meta-se comigo e pode ter certeza de que me meterei com você!”

Naquela noite, Peng foi visto andando para lá e para cá em seu gabinete. Quando um secretário veio consultá-lo sobre os planos para o dia seguinte, Peng, que jamais mencionava assuntos pessoais, o espantou ao falar subitamente com melancolia sobre como sentia falta da ex-mulher. Sua esposa atual era uma pessoa do partido assustada e “correta”, da qual não podia esperar compreensão ou apoio para o rumo que estava prestes a tomar.

Em 20 de abril, logo antes de partir para a Europa, Peng compareceu a uma recepção oferecida pelos embaixadores dos países que iria visitar. Ali fez uma coisa sem precedentes. Levou o embaixador soviético Iúdin para uma sala separada e, na presença somente do intérprete da embaixada russa, o que era uma grande violação das regras, iniciou uma conversa sobre o Grande Salto Para a Frente. De acordo com o intérprete, a sondagem de Peng foi cautelosa: “Apenas pelo caráter de suas perguntas e pelo tom em que foram formuladas era possível entender sua atitude negativa em relação ao ‘Salto’”. O intérprete contou-nos: “Parecia que Peng queria ver o que o embaixador diria sobre o Grande Salto — obter a opinião dele”. Iúdin enrolou falando dos aspectos “positivos” do Salto. Relembrou o intérprete: “O que ficou gravado na minha memória foram os olhos melancólicos do marechal, que refletiam uma gama de sentimentos, de alarme pelo destino de seu país à determinação firme de lutar por seu futuro”.

Peng não encontrou mais simpatia quando chegou à Europa. Walter Ulbricht, líder da Alemanha Oriental, disse saber que a China estava tendo um crescimento fantástico na agricultura — e, quem sabe, poderia mandar mais carne para que pudessem igualar o consumo anual da Alemanha Ocidental de oitenta quilos per capita? Na China, mesmo nas cidades, a ração de carne para todo o ano era de uns poucos quilos.

Depois que Ulbricht falou, Peng ficou em silêncio por um longo tempo, antes de dizer ao seu anfitrião que havia, na verdade, uma tremenda escassez de alimentos. O chefe do partido alemão, um velho stalinista que também manipulara dados, não se comoveu. Para ele, se as afirmações de Mao eram verdadeiras ou falsas era indiferente. Na verdade, as importações de alimentos da China haviam permitido que a Alemanha Oriental, com um padrão de vida incomparavelmente mais elevado que o chinês, suspendesse o racionamento, em maio de 1958. (Mais tarde, em 11 de janeiro de 1961, quando dezenas de milhões de chineses já haviam morrido de inanição, Ulbricht pediu a Mao mais comida. Chou disse aos embaixadores do Leste Europeu que a China não poderia entregar todos os alimentos previstos nos contratos e a Polônia demonstrou compreensão, mas a Alemanha Oriental não quis saber nem de um adiamento e pressionou pela entrega sem atrasos. “A Grande Alemanha acima de tudo”, observou Chou, mas mesmo assim mandou 23 mil toneladas de soja.)

Depois da conversa com Ulbricht, Peng desabafou com seu staff: “Como nosso povo se sentiria se soubesse que nos pedem para ajudar outros a ter oitenta quilos de carne por ano?”. Sua próxima parada foi na Tchecoslováquia. Quando contou aos tchecos sobre o que estava realmente acontecendo na China e disse que qualquer um, exceto os chineses, estaria indo para as ruas, obteve pouca reação. Peng percebeu que os regimes do Leste Europeu eram uma causa perdida. Eles “todos dão grande atenção às armas”, observou. “Todos eles têm uma classe privilegiada treinada pela União Soviética.” A verdade é que esses regimes não se importavam com o quanto custava para o povo chinês fornecer-lhes alimentos, mesmo que isso significasse a morte; as importações de

alimentos da China pela Europa oriental atingiram seus níveis mais altos em 1958. b Durante toda a viagem, Peng ficou abatido.

Sua última parada na Europa era na Albânia. Quando chegou lá, em 28 de maio, descobriu que Khruchióv acabara de chegar, inesperadamente, para sua primeira visita ao país. Qualquer esperança que Peng tivesse de que o líder soviético talvez tivesse vindo para encontrá-lo foi varrida de imediato: ele não trazia um intérprete de chinês na comitiva.

Khruchióv estava na Albânia por uma razão muito diferente. Esse país propiciava à Rússia sua única base de submarinos no coração do Mediterrâneo, na ilha de Sazan. A missão de Peng, ditada por Mao, também estava voltada para essa base. Em seu primeiro dia na Albânia, Peng levantou-se às cinco e meia da manhã e foi direto para lá. O objetivo da visita de Khruchióv era tentar evitar que a Albânia fizesse um acordo com a China em relação à base. Peng percebeu que não poderia contar com a ajuda do líder

russo, ou de qualquer país comunista. c

Parece que Peng então, em desespero, pensou em algo semelhante a um golpe militar. Ao retornar a Pequim, em 13 de junho, a primeira coisa que fez foi tentar mobilizar algumas forças militares “para transportar grãos para as áreas atacadas pela epidemia de fome”, disse ao chefe do estado-maior do Exército, Huang Ke-cheng, que era seu amigo íntimo e tinha mentalidade semelhante. Huang entendeu obviamente o que Peng pretendia com as tropas, pois manifestou um grau de relutância que não teria mostrado se achasse que o objetivo da proposta era realmente transportar alimentos. Mao parece ter sabido dessa conversa e, mais tarde, submeteu Peng a intenso interrogatório sobre ela. Como todas as movimentações de tropas precisavam da autorização de Mao, Peng não conseguiu o que queria. Tudo o que pôde foi tentar exercer pressão sobre Mao, enviando-lhe relatórios exagerados sobre a fome, e persuadir outros a fazer o mesmo. Ao ver camponeses famélicos do trem, ele diria a seus companheiros: “Se os operários e camponeses da China não fossem tão bonzinhos, teríamos de convidar o Exército Vermelho soviético [para sustentar o regime comunista]!”.

Mao seguira todos os passos de Peng na Europa por meio de espiões na delegação e sabia que ele não conseguira nada. Pouco depois, observaria complacentemente que Peng fora ao exterior para “dar uma farejada”, mas não conseguira fazer mais do que isso. Mao decidiu atacar. Parte de seu cálculo era usar o expurgo de Peng para deflagrar uma campanha de terror mais ampla. Ele precisava como nunca manter o grande aperto, pois a China estava atrasando os pagamentos à Rússia. O problema era que os funcionários das bases, por piedade, estavam muitas vezes evitando tomar a comida que os camponeses necessitavam para sobreviver. Ele sabia que boa parte de sua máquina, bem como toda a nação, resistia a suas políticas. Em fevereiro e março de 1959, repetira algumas vezes: “Várias centenas de milhões de camponeses e líderes de equipes de produção estão unidos contra o partido”. Até mesmo a maioria de seus chefes provinciais mantinha agora um silêncio constrangido quando ele os pressionava para cuspir mais alimentos. Mao precisava de seu recurso habitual, o terror, para robustecer sua máquina.

 

Em 20 de junho de 1959, uma semana depois do retorno de Peng da Europa, Mao saiu de Pequim de trem. Estava insuportavelmente quente e o ventilador elétrico foi desligado para que ele não pegasse um resfriado. Uma grande tigela de gelo foi colocada no seu vagão, com pouco resultado. Todos os homens, inclusive Mao, ficaram só de roupa de baixo (logo depois, um trem com ar-condicionado foi encomendado para Mao da Alemanha Oriental). Para se refrescar, Mao foi nadar no Yangtze e no rio Xiang — o que fazia as vezes de banho para ele. Ele não havia tomado um banho ou chuveiro, ou lavado os cabelos, desde 1949, quase uma década antes, quando descobrira o prazer de ser esfregado com uma toalha quente por um criado e ter os cabelos penteados por seu barbeiro.

Entrementes, preparava-se para o confronto final. No dia 24, mandou seu secretário telefonar para Pequim e convocar uma conferência em Lushan, o balneário montanhoso acima do Yangtze. Mao ditou uma lista de participantes, mas não explicou que se tratava de um fórum para condenar Peng.

Tendo decidido pelo expurgo de mais alto nível desde que havia tomado o poder, parecia que precisava da confirmação pessoal de que ainda detinha status divino e era invencível. Na ocasião, estava hospedado em local próximo de sua aldeia natal, Shaoshan. Impulsivamente, decidiu ir até lá para farejar o ar.

Era sua primeira visita em 32 anos, embora tivesse passado pela região com frequência. As autoridades locais haviam construído uma casa de campo para ele, por sua vontade expressa. Colina dos Pinheiros n o 1, situada num bosque de pinheiros, estava pronta para recebê-lo havia anos. Eles também tinham expulsado as famílias “indesejáveis” anos antes, para evitar que chegassem perto de Mao — ou cruzassem com visitantes estrangeiros.

Mao ficou duas noites em Shaoshan. Tendo solicitado reclamações, obteve-as em abundância. Os moradores do local contaram-lhe que as colheitas haviam sido infladas. Aqueles que tinham feito objeções foram submetidos a reuniões de denúncia e espancados. Um homem idoso perguntou se era ideia de Mao que homens e mulheres deveriam levar vidas segregadas em condições de caserna (o que acontecera em muitas comunas do país). Sobretudo, estavam famintos, pois recebiam apenas entre um terço e um quarto do que era tradicionalmente considerado suficiente naquela região. Quando Mao deu uma refeição a várias dezenas de aldeões, eles devoraram tudo sem cerimônia.

Não houve uma palavra de apoio às políticas de Mao, mesmo em sua aldeia natal, que era extremamente privilegiada e recebia grandes subsídios estatais. Mas ele pôde ver também que, embora o descontentamento fosse maciço, ninguém ousava fazer mais do que resmungar e algumas queixas eram travestidas de adulação. “Presidente”, disse um deles, “se não tivesse vindo a Shaoshan, logo morreríamos de fome.” Quando um jovem reclamou com mais veemência do que os outros, Mao aparentou desapontamento e retrucou: “Afinal, está melhor que nos velhos tempos”. Embora isso fosse uma mentira patética (ele mesmo dissera nos “velhos tempos” que em Shaoshan “é fácil ficar rico”), ninguém o desmascarou. Nem contestaram sua instrução posterior, que era claramente irrelevante: “Comer mais em estações de muito trabalho e comer menos em estações sem atividade. E ser econômico com a comida”. Quando ele se virou para os líderes provinciais e disse descaradamente que as queixas eram “apelos contra vocês; é responsabilidade de vocês, anotem tudo”, os bodes expiatórios engoliram em seco.

O culto da personalidade de Mao garantia sua intocabilidade. Uma jovem criada da hospedaria passara três dias e três noites sem dormir limpando o lugar. Décadas depois, ela relembrou como o gerente a chamara. “‘Posso lhe confiar a melhor e mais gloriosa tarefa?’ Eu disse: ‘Com certeza’.” A missão era lavar a roupa de baixo suja de Mao.

Puxa, eram as roupas do presidente Mao. Isso é realmente, realmente fantástico [...] elas estavam ensopadas de

suor. Desta cor, amarelo. Uma camisa, um par de ceroulas longas [...] Pensei sobre o presidente Mao: ele era o

líder dos povos do mundo e, no entanto, levava uma vida tão dura. [!] A roupa de baixo era tão frágil que não

ousei esfregar com força, mas só de maneira suave. Que faria eu se as estragasse? [...] Tive medo que alguém

as visse [penduradas para secar] e pudesse fazer alguma coisa [...] então eu saía a todo instante e as pegava para

ver se já estavam secas [...] Não havia eletricidade, nem ferro elétrico.d Mas consegui deixar as roupas com boa

aparência. Assim, antes que ficassem totalmente secas, as dobrei e coloquei sob o tampo de vidro da mesa para

pressioná-las [...] Quando as entreguei para o diretor, ele disse: “Muito bom, muito bom”. Mas eu estava

pensando: não vai adiantar se o presidente Mao não gostar do meu trabalho [...]

Mao partiu de Shaoshan sem nutrir dúvidas de que acabaria vencendo Peng.

 

Elevando-se a quase 1500 metros acima da planície vaporosa do Yangtze, Lushan tinha a aparência de uma montanha mágica divorciada da vida lá embaixo. Estava sempre envolta por nuvens que se condensavam e evaporavam rapidamente. O grande poeta Su Shi deixou um poema imortal sobre seu mistério:

Incapaz de ver a verdadeira face de Lushan

Não surpreende, pois estás dentro dela.

 

Nuvens com as formas mais fabulosas, sopradas das gargantas do alto dos penhascos, flutuavam diante dos pedestres. Às vezes, enquanto as pessoas conversavam, as nuvens envolviam imperceptivelmente alguns interlocutores, para revelá-los um instante depois. Era até possível captar o momento surreal em que uma nuvem entrava por uma janela aberta e depois saía por outra.

No final do século XIX os europeus transformaram Lushan numa estação de veraneio. Bambus e pinheiros, cascatas e rochas musgosas ofereciam alívio para o calor abrasador da planície. Em seu centro, Kuling, havia mais de oitocentas casas de campo em diferentes estilos europeus. Foi a capital de verão de Chiang Kai-shek durante treze anos. Uma mansão construída originalmente para um inglês fora sua residência e, agora, pertencia a Mao. Durante a última estadia de Chiang, em agosto de 1948, ele a batizara de “Vila da Beleza” — “Mei-lu” (o caractere “beleza” fazia parte do prenome de madame Chiang, Mei-ling). Sabendo que seus dias no continente estavam contados, Chiang gravou o nome e mandou esculpi-lo numa rocha na entrada da mansão. Quando viu alguns pedreiros que tentavam apagá-lo, Mao os deteve.

Chiang e os antigos residentes subiam para Lushan em liteiras, se não quisessem fazer a caminhada íngreme de sete ou oito quilômetros montanha acima. Os comunistas construíram uma estrada. Quando os carros da comitiva de Mao estavam nessa estrada, nenhum outro carro podia passar por ela. Toda a montanha era isolada durante sua estada; até os residentes fora da área da vila eram despachados para outro lugar. A segurança de Mao era imensamente mais rigorosa que a de Chiang. Na verdade, depois dessa visita, Mao ficou insatisfeito com a vila, assim como acontecia com todas as residências antigas selecionadas para ele em toda a China. Em Lushan, ele também mandou construir um de seus enormes bunkers ao estilo armazém de cimento, aço e pedra, à prova de balas e bombas. Essa nova propriedade, Bosque de Juncos no 1, que ficou pronta dois anos depois, ficava ao lado de uma represa, para que Mao pudesse nadar quando quisesse. Essa, como muitas outras vilas de Mao, foi construída durante os piores anos da epidemia de fome.

Diante da inanição em massa que grassava, Mao fez questão de criar uma atmosfera de férias em Lushan. Os participantes foram instruídos a levar esposas e filhos (para muitas das crianças, seria a primeira experiência dentro de vilas europeias, cujos vasos sanitários com descarga e paredes de pedra as deixaram fascinadas). A comida era excelente; até a cantina dos funcionários servia mais de meia dúzia de pratos em cada refeição. À noite, havia óperas locais escolhidas por Mao e danças na antiga igreja católica, com dançarinas trazidas de ônibus. Pelo menos uma das dançarinas e uma das enfermeiras do balneário foram convocadas “para um papo” com Mao.

A libertinagem de Mao estava mais descarada do que nunca. Em Zhongnanhai, uma nova sala foi acrescentada ao salão de danças, com uma cama. Mao levava uma ou várias garotas para lá a fim de se entregar a jogos sexuais e orgias. A sala tinha isolamento acústico e as grossas cortinas de veludo que iam do teto ao chão ficavam fechadas. Era óbvio o que Mao fazia lá dentro, e ele não tratava de esconder.

 

Quando Peng chegou a Lushan para a conferência, foi detido na entrada da área da vila por guardas que portavam pequenas bandeiras: “Grupo Um” — codinome de Mao — estava descansando. Peng teve de sair e caminhar. Sua vila, a de número 176, ficava a cerca de cem metros da de Mao, de tal modo que os homens da segurança do presidente podiam controlá-lo.

A conferência de mais de cem altos funcionários começou em 2 de julho de 1959. A primeira tática de Mao foi dividir os participantes em seis grupos, cada um presidido e controlado por um chefe provincial de confiança, que respondia diretamente a ele. As discussões foram confinadas a esses grupos, de modo que qualquer opinião indesejável teria apenas uma plateia restrita. Os demais participantes só podiam saber o que Mao queria que eles lessem no boletim da conferência, impresso em seu gabinete.

Quando falou para o grupo do noroeste, Peng expressou suas opiniões sobre o Salto e levantou a questão das alegações de colheitas fantasmas, basicamente chamando Mao de mentiroso: “O crescimento alegado pelo [...] lugar de origem do presidente Mao no ano passado foi muito mais alto do que o número real. Estive lá e perguntei para as pessoas e fiquei sabendo que o aumento foi de apenas 16% [...] e mesmo isso foi porque o Estado concedeu grandes subsídios e empréstimos”. “O presidente também esteve nessa comuna. Perguntei ao presidente: ‘Qual foi sua informação mediante sua investigação?’. Ele disse que não falou sobre isso. Acho que ele falou.”

Peng explicou de novo a responsabilidade de Mao no dia seguinte: “Os 10,7 milhões [de toneladas de aço, meta de 1958] foram decididos pelo presidente Mao. Não se pode dizer que ele não teve responsabilidade”. Ao longo dos dias posteriores, Peng colocou em questão o papel de Mao na farra da construção de vilas e advertiu que ele “não deveria abusar de seu prestígio”. Peng atacou também a política maoísta de confiscar alimentos para exportar “às custas do consumo interno”.

Mas, como Mao tratara de se assegurar, as palavras de Peng não circularam fora de seu grupo. Frustrado, em 14 de julho ele escreveu uma carta a Mao em que criticava o Grande Salto Para a Frente em termos cuidadosamente escolhidos. Sua esperança era de que isso desencadeasse um verdadeiro debate sobre o Salto. Mao fez a carta circular entre os outros participantes, apenas para transformá-la num pretexto para expurgá-lo.

Mao vinha observando Peng como uma cobra, para ver se ele estava envolvido em alguma conspiração, única maneira em que estaria realmente ameaçado. Após três semanas, convenceu-se de que não havia conspiração.

Na verdade, Peng soltara alguns balões de ensaio. Ele sabia que Lo Fu, o ex-líder do partido, se opunha às políticas de Mao e lhe pedira para ler a carta. Mas o colega se recusou e, quando Peng tentou lê-la em voz alta para ele, Lo deu o fora. Mao instilara tal pavor em relação a “complôs” que as pessoas ficavam simplesmente paralisadas quando havia um leve cheiro disso no ar. No regime de Mao, tal como no de Stálin, somente uma pessoa tinha permissão para conspirar, conforme a observação de Mólotov: o chefe.

Depois de ficar satisfeito com o fato de não haver complô contra ele, Mao reuniu todos os participantes pela primeira vez, em 23 de julho. Ele abriu a reunião de um modo caracteristicamente mafioso e queixoso: “Vocês falaram tanto. Agora permitam-me falar por uma hora e pouco, certo? Tomei comprimidos para dormir três vezes e mesmo assim não consegui dormir”. Ele fazia parecer que alguém o havia impedido de falar e até de dormir. Para criar uma atmosfera em que o debate racional seria sufocado e ele poderia fugir das verdadeiras questões, Mao fingiu estar colérico e subestimou a catástrofe que sua política causara com observações do tipo: “Tudo que significa é um pouco menos de carne de porco, menos grampos e nada de sabão durante algum tempo”. Depois brandiu a intimidação máxima. Se houver oposição a mim, declarou ele, “partirei [...] para liderar os camponeses [!] para derrubar o governo [...] Se o Exército seguir vocês, irei para as montanhas e começarei uma guerra de guerrilhas [...] mas acho que o Exército me seguirá”. Um general relembrou: “Sentimos que a atmosfera no salão congelou”. Mao havia polarizado a questão em: Peng ou eu. E, se vocês apoiarem Peng, lutarei contra vocês até a morte.

Todos sabiam que Mao era imbatível. Ele provou que estava certo sobre o apoio do Exército arranjando para que o marechal Lin Biao, cujo prestígio nas Forças Armadas era tão alto quanto o de Peng, aparecesse na conferência no dia seguinte. Até então, Lin não estivera na própria Lushan, mas à espreita, no sopé da montanha.

Lin atacou Peng venenosamente e deu a seu chefe seu apoio total. Não havia nada que Peng ou qualquer outro pudesse fazer para desafiar Mao ou discutir racionalmente com ele. Mao também atraiu a concordância das pessoas fingindo fazer algumas concessões — nos níveis de confisco de alimentos, nas metas de produção de aço e nos gatos com fábricas bélicas — e expressando uma disposição de investir algum dinheiro na agricultura. Não tinha nenhuma intenção de honrar essas promessas e logo as renegaria.

Mao rotulou Peng e outros críticos, inclusive o chefe do estado-maior Huang Ke-cheng e Lo Fu, de “camarilha antipartido”. Então ampliou a conferência para uma plenária do Comitê Central, para que seus críticos pudessem ser condenados de modo mais formal. Mao leu a resolução pessoalmente e apenas anunciou que havia sido aprovada, sem nem pedir aos participantes que erguessem as mãos. Depois das reuniões obrigatórias de denúncia degradante, Peng foi posto em prisão domiciliar e os outros sofreram punições variadas. Suas famílias também se tornaram párias. A esposa de Huang enlouqueceu. O mais jovem e novato do grupo, o secretário ocasional de Mao Li Rui, passou por quase cem reuniões de denúncia e depois foi mandado para o trabalho forçado no Grande Deserto do Norte. Sua esposa divorciou-se dele e, sob influência dela, seus filhos o repudiaram, recusando seu pedido de uma fotografia deles. Ele passou praticamente duas décadas inteiras saindo e entrando em campos de trabalho forçado e confinamento solitário nas prisões, escapando por pouco da sentença de morte. Esse exemplo de coragem emergiu com sua sanidade, seu intelecto e sua coragem moral intactos e continuou a se manifestar contra a injustiça nos anos pós-Mao.

 

Depois de Lushan, Peng foi substituído no Ministério da Defesa por Lin Biao, que começou imediatamente a expurgar os simpatizantes de Peng no Exército. Tratou também de promover o culto a Mao em escala ainda mais grandiosa. A partir de janeiro de 1960, ordenou que as Forças Armadas memorizassem citações do presidente — medida que resultaria no compêndio conhecido como o “Pequeno Livro Vermelho”. Mao ficou enlevado. Mais tarde, disse ao maoísta australiano Edward Hill que Lin “inventou um novo método, isto é, compilar citações [...] Os Analectos de Confúcio são uma coletânea de citações. O budismo também tem coleções de citações”. Mao mencionou ainda a Bíblia. Essa era a classe à qual ele pensava que seus aforismos pertenciam.

Em todo o país, quem resistisse ao confisco e ao excesso de trabalho era caçado. Nos dois anos seguintes, de acordo com o líder posterior a Mao, Deng Xiao-ping, “estima-se que 10 milhões” de pessoas foram vítimas dessa campanha que, ademais, pôs em risco a vida de “várias dezenas de milhões” de suas relações. Muitos dos 10 milhões de vítimas eram quadros de base. Seus substitutos eram pessoas dispostas a exercer rigorosamente o papel de feitor.

Um outro grupo particularmente perseguido nesse ciclo de expurgos foi o dos médicos, porque haviam identificado com muita frequência a inanição como verdadeira causa da onda de doenças e mortes. Mao queria garantir que a tragédia gigantesca que havia criado se constituísse em um não evento. Até o nome das doenças que sugeriam inanição se tornaram tabu, como edema, que passou a ser chamado de “doença n o 2”. Anos depois, Mao ainda flagelava os médicos por fazerem seu trabalho de forma profissional: “Por que havia tantos casos de hepatite [naquela época]? Não era obra de vocês, médicos? Vocês procuravam por eles, não é?”.

No ano seguinte, 1960, 22 milhões de pessoas morreram de fome. Foi o maior número em um único ano em qualquer país do mundo na história da humanidade.

 

Lushan também selou o destino de Gui-yuan, a ex-mulher de Mao. Havia 22 anos que ela, incapaz de suportar as infidelidades e a insensibilidade dele, o deixara e fora para Moscou. Na Rússia, teve um colapso mental e passou dois anos em um hospital psiquiátrico provincial, onde foi submetida a um regime de pesadelo. Saiu de lá no outono de 1946, estável, embora com o raciocínio um pouco lento, e teve permissão para voltar à China. Ela foi banida de Pequim e, em 1959, na época da reunião estava vivendo nas proximidades de Lushan, em Nanchang. Recuperara-se bem, mas levava uma vida solitária e ganhava o próprio sustento. Havia 22 anos que não punha os olhos em Mao.

Em 7 de julho de 1959, enquanto observava Peng antes de atacar, Mao foi tomado pelo capricho de ver Gui-yuan. Mandou a mulher de um chefe local buscá-la, mas pediu especificamente que não lhe contasse quem ela iria encontrar, e dizer apenas que estava convidada a ir a Lushan de férias — porque, disse Mao à intermediária, Gui-yuan “podia ter um colapso mental se ficasse excitada demais”. Mao tinha plena consciência de que a ex-mulher estava num estado emocional frágil e que o choque poderia ser maior do que ela teria condições de suportar. A filha deles lhe dissera que a mãe tivera uma recaída ao escutar inesperadamente a voz de Mao numa transmissão de rádio em 1954 (uma das raras ocasiões em que sua voz foi transmitida — fato que causou uma reprimenda à rádio). Ele estava disposto a provocar um colapso apenas para satisfazer um capricho.

O egoísmo de Mao custou caro a Gui-yuan. Quando o viu de repente a sua frente, seus nervos não aguentaram. O dano foi piorado pelo fato de Mao, ao se despedir, prometer vê-la de novo “amanhã”. Na manhã seguinte, porém, ela foi levada de volta para Nanchang, por ordens dele. Dessa vez, seu colapso foi pior do que nunca. Ela nem reconhecia a própria filha e não se lavava nem trocava de roupas. De vez em quando, escapava até o portão do QG provincial do partido, descabelada, enrolando a língua, e exigia saber quem havia maquinado para evitar que ela visse Mao de novo. Gui-yuan nunca se recuperou plenamente.

 

a No final dessas sessões, Mao atacava generais importantes para deixar claro que o alto-comando deveria ficar distante dos russos. Sua mensagem era: a única coisa que vocês têm a aprender com eles é como usar armas modernas.

b A Europa oriental também permitiu que Peng previsse o horrível mausoléu de Mao: “Vimos os cadáveres dos líderes: Lênin, Stálin, Gottwald, Dimítrov. Cada país tem um. Os países asiáticos provavelmente também os terão no futuro”.

c Quando a Albânia rompeu com a União Soviética, o controle dos submarinos nessa base esteve no cerne do conflito. Em janeiro de 1961, Pequim deu ao líder albanês Enver Hoxha a quantia gigantesca de 500 milhões de rublos, e quando os líderes russos tentaram tirar seus submarinos, no início de junho daquele ano, Hoxha usou a força para segurar quatro deles e é quase certo que tenha dado a Mao acesso a eles.

d A eletricidade foi instalada para Mao na vez seguinte em que esteve nas redondezas, em 18 de maio de 1960. Foram necessários 470 operários, que tiveram de enfrentar um poderoso vendaval. Mesmo assim, Mao não apareceu de novo.