Mao: a história desconhecida
7. Tomada de poder leva à morte da segunda mulher
7. Tomada de poder leva à morte
da segunda mulher
(1927-30; 33-36 anos)
Depois que estabeleceu um governo nacionalista com sede em Nanquim, em 1928, com autoridade nominal sobre toda a China, Chiang Kai-shek iniciou uma campanha para fundir os diferentes exércitos controlados por potentados provinciais em um exército nacional unificado sob seu controle. Essa tentativa encontrou uma resistência feroz de uma aliança de senhores provinciais e, no início de 1930, os dois lados tinham em campo centenas de milhares de soldados. Essa luta mutuamente destrutiva deu ao PCC uma chance de expandir seu Exército e suas bases.
Moscou começou a pensar em criar um Estado comunista na China. Chou En-lai foi para a União Soviética em março de 1930, levando consigo um relatório detalhado sobre o Exército Vermelho chinês, segundo o qual este contava com 62 700 homens e era composto por treze grupos armados (chamados “exércitos”), espalhados por oito províncias. O Exército Zhu-Mao era o mais conhecido deles e respondia por quase um quarto do total, tendo se expandido para 15 mil homens, graças ao seu controle de uma grande base. As bases eram a chave para expandir o Exército, pois sua posse possibilitava a obtenção de recrutas.
Enquanto Chou En-lai estava fora, o homem encarregado do poder em Xangai era Li Li-san. Filho de Hunan e ex-subordinado de Mao, ele fizera fama como organizador dos trabalhadores e era um ativista impulsivo e defensor apaixonado de uma maior expansão do PCC. Sob seu comando, criou-se um plano muitíssimo ambicioso para tomar um grande pedaço do interior, inclusive grandes cidades como Nanchang e Changsha, e criar um governo comunista no coração da China, em Wuhan, às margens do Yangtze. Mao recebeu a incumbência de tomar Nanchang, a capital de Jiangxi.
Mao era um realista. Ele sabia que, mesmo com a luta interna dos nacionalistas, o Exército Vermelho não teria chance de tomar e manter grandes cidades. De início, manifestou relutância em levar o plano adiante, mas pouco depois de expressar dúvidas explodiu de entusiasmo. Continuava sem fé no projeto, mas percebeu que poderia explorar a fantasia de Xangai para seu próprio objetivo: tomar o segundo maior ramo do Exército Vermelho, comandado por Peng De-huai.
* * *
Peng, cinco anos mais moço do que Mao, nasceu numa aldeia do mesmo distrito deste, em Hunan. Ele chegaria a ser o primeiro ministro da Defesa da China comunista, e também o mais feroz e corajoso crítico de Mao de dentro do regime — o que lhe custaria a expulsão do governo e a morte no ostracismo.
Peng tinha boca e olhos muito expressivos, que pareciam mostrar uma tristeza permanente. Preocupava-se com os pobres e oprimidos. Ao contrário da maioria dos líderes comunistas, tivera uma infância miserável, que o marcou profundamente. Na época da morte de sua mãe, o irmão mais moço, então com seis meses de vida, tinha morrido de fome. Décadas depois, Peng escreveu sobre sua infância:
No rigor do inverno, enquanto as outras pessoas usavam roupas e sapatos forrados, meus irmãos e eu
andávamos de pés nus em sandálias de palha e usávamos roupas feitas de folhas de palmeira, como homens
primitivos. [...] Quando eu estava com dez anos, não tínhamos do que sobreviver. Na noite de ano-novo,
quando as pessoas ricas soltavam fogos, minha família não tinha um grão de arroz. Então levei meu segundo
irmão para mendigar, pela primeira vez.
Peng descreveu como desmaiou de fome depois que eles chegaram em casa. Por orgulho, recusou-se a mendigar no dia seguinte, de modo que sua avó, que tinha mais de setenta anos, saiu mancando com os pés amarrados, levando consigo seus irmãos mais moços, um dos quais tinha apenas três anos. Peng disse depois que, ao observá-los desaparecer na neve, sentiu facas afiadas cortando seu coração; foi então até as montanhas e cortou um pouco de lenha, que vendeu por um pequeno punhado de sal. Naquela noite, não comeu o arroz que a avó mendigara e toda a família chorou.
Quando estava com quinze anos, sua aldeia foi atingida por uma seca que causou a morte de muita gente por inanição. Peng envolveu-se numa tentativa de forçar um rico senhor de terras a doar um pouco de arroz: subiu ao teto do celeiro dele, tirou algumas telhas e exibiu os grãos que o homem negava que tivesse armazenado. Peng foi posto numa lista de pessoas procuradas e teve de fugir. Em 1916, entrou para o Exército de Hunan e se tornou oficial. Às vezes, era convidado por dignitários locais a banquetes em que meninas nos primórdios da adolescência estavam à disposição para o prazer deles. Uma garota de treze anos disse a Peng que fora espancada por um cafetão porque não queria dormir com oficiais. Peng comprou a liberdade dela e a partir de então recusou todos os convites para banquetes. Em suas palavras, sentiu-se atraído pelo comunismo “para descobrir uma saída para os pobres”.
Peng entrou secretamente para o PCC logo depois do ano-novo de 1928. No mês de julho anterior, amotinara-se contra os nacionalistas e levara oitocentos homens consigo. O partido disse-lhe para fazer contato com Mao, que estava na terra sem lei das proximidades. Peng chegou em dezembro, no momento em que Mao se preparava para abandonar a base e precisava de alguém para ficar e manter o forte, pois a posse de uma base era seu principal trunfo.
Então Mao agarrou Peng e lhe disse para ficar e defender o território — uma tarefa condenada ao fracasso. Depois da partida de Mao, as tropas do governo vieram com toda a força. Os homens de Peng tiveram de fugir pela neve espessa, escalando precipícios e andando por trilhas minúsculas, usadas somente por animais selvagens.
A partir de então, Mao tratou Peng como seu subordinado, e este não fez nenhuma objeção. Mas Xangai não endossava formalmente esse arranjo e o mandato de Mao não se estendia, oficialmente, para além do Exército Zhu-Mao. No início de 1930, quando Moscou e Xangai reorganizaram todas as forças do Exército Vermelho, preparando-se para criar um Estado comunista, o exército de Peng, que crescera a um ritmo extraordinário para 15 mil homens — o mesmo número das tropas de Mao —, foi declarado independente de Mao. Seus homens eram excelentes soldados, com um forte espírito de corporação. Um inspetor do partido disse a Xangai que o exército de Peng tinha “o mais alto moral. As tropas obedecem às ordens, têm forte disciplina e grande espírito de camaradagem, e são bravos soldados [...] Eles são muito leais a Peng De-huai pessoalmente. Os feridos nos hospitais da retaguarda, depois de recuperados, insistem categoricamente em retornar ao Exército [de Peng] [...] Há muito poucos desertores”.
Mao estava decidido a controlar Peng e sua excelente força. Foi por isso que manifestou uma súbita ânsia de atacar Nanchang. Se estivesse lá, em vez de na fronteira Jiangxi-Fujian, isso o levaria para centenas de quilômetros mais perto de Peng. O plano secreto de Mao era unir fisicamente suas forças com as de seu conterrâneo, pois era a única maneira de poder exercer controle sobre ele e seu exército.
Mao partiu para o norte, dizendo que ia para Nanchang, como ordenara o partido. Mas quando chegou nos arredores da cidade, no final de julho, disparou apenas alguns tiros e depois conduziu seu exército na direção de Changsha, que Peng acabara de capturar, em 25 de julho.
Changsha foi a única capital de província que os comunistas tomaram e Peng a manteve durante onze dias, proclamando um governo comunista, com seu quartel-general instalado no Instituto Bíblico Americano. Seu sucesso disparou o alarme nas capitais ocidentais, especialmente em Washington, que pela primeira vez considerou os comunistas uma força séria. Um dos motivos foi a morte em combate do marinheiro de primeira classe Samuel Elkin, o primeiro soldado dos Estados Unidos a morrer lutando contra os comunistas chineses, atingido no barco americano Guam, no rio Xiang, por bombas das forças de Peng a caminho de Changsha — no dia 4 de julho. Canhoneiras de quatro potências estrangeiras, em particular a americana Palos, desempenharam um papel fundamental na expulsão de Peng da cidade, em 6 de agosto.
Em meados de agosto, Peng recebeu uma mensagem inesperada dizendo que Mao vinha em sua “ajuda”. Ao mesmo tempo, este escreveu a Xangai, em 19 de agosto, para informar que havia abandonado sua missão de atacar Nanchang para ir em auxílio de Peng, afirmando que o conterrâneo estava em grande dificuldade — “sofrendo mortes e perdas consideráveis”. Peng disse categoricamente a ele que não estava em dificuldade e não precisava de ajuda, mas isso não foi suficiente para abalar Mao, que espertamente contra-argumentou pedindo a Peng que viesse ajudá-lo, pois estava prestes a atacar uma cidade chamada Yonghe, localizada entre eles, cerca de cem quilômetros a leste de Changsha.
Quando Peng o encontrou, em 23 de agosto, Mao anunciou que as forças do conterrâneo se fundiriam com as suas, sob seu comando, deixando-o apenas com o posto de subcomandante militar, sob as ordens de Zhu De. Mao tentou despistar Xangai (e Moscou) ao afirmar que o objetivo da fusão era atacar Changsha pela segunda vez — ideia que teve a oposição de Peng e Zhu De, que não viam perspectiva de sucesso, uma vez que não havia mais o elemento-surpresa, que fora essencial para a captura da cidade por Peng.
Mas ele insistiu, garantindo a Xangai que os dois corpos de exército poderiam facilmente “ocupar Changsha [...] depois atacar Wuhan [...] para desencadear um levante geral em toda a China”. Mao alimentou as ilusões de Xangai ao sugerir que a ocupação de Wuhan era iminente e, com ela, o estabelecimento de um governo comunista: “O centro poderia, por favor, instruir sobre a tomada de Wuhan”, escreveu ele em seu estilo mais bajulador, “e começar os preparativos para organizar um governo”. Na verdade, Mao não tinha nenhuma intenção de chegar perto de Wuhan.
Tampouco achava que poderia realmente tomar Changsha. Mesmo assim, para cimentar a absorção de Peng, ordenou o ataque à cidade. O resultado foram “enormes perdas humanas”, conforme relatório enviado a Moscou. Perdas muito maiores para as unidades de Peng do que para as de Mao, pois ele evitou um verdadeiro ataque a Changsha, enquanto Peng seguiu fielmente as ordens e atacou a cidade diretamente. Gailis, o chefe do GRU na China, contou a Moscou que “Mao só ficou observando”.
Ao final de três semanas, Mao suspendeu o cerco, insistindo em que o exército de Peng deveria seguir com ele. Os oficiais de Peng resistiram à ordem e alguns tentaram até fugir (naquela época, o Exército Vermelho chinês, tal como todas as forças chinesas em geral, não era como um exército moderno, em que as ordens são obedecidas incondicionalmente, sem questionamento). Mao logo iniciou um expurgo sangrento deles.
Mao também usou o cerco de Changsha, que fez manchetes, para se promover e aumentar sua fama. Quando começou o cerco, em 23 de agosto, proclamou um Comitê Revolucionário de Toda a China, colocou-o no comando de todos os exércitos vermelhos, governos e seções do partido, com ele mesmo na presidência, e mandou uma notícia sobre isso para a imprensa.
Dois meses antes, em 25 de junho, ele já havia enviado duas notícias à imprensa assumindo esse título. Ao que tudo indica nenhum jornal as publicou, mas Mao as afixou como tendo sido publicadas. A reação de Xangai fora anunciar, em 1 o de agosto, que o posto de presidente pertencia ao secretário-geral (nominal) do partido, Hsiang Chung-fa. Agora, Mao reiterava sua autodesignação por cima de Hsiang, em desafio a Xangai.
Mas não recebeu nenhuma punição. O novo Estado vermelho que Moscou decidira instalar na China precisava de líderes sedentos de poder e Mao era o mais sedento de todos. Em 20 de setembro, seu status de membro de segundo nível do Politburo foi restaurado, abrindo caminho para altos cargos no futuro Estado comunista. Moscou havia rejeitado a localização em Wuhan e determinara que ele deveria ser criado na
“região mais segura do Exército Vermelho” — que era Jiangxi Vermelho. a
A derrota e as perdas pesadas causadas pelo cerco de Changsha foram imputadas ao impulsivo Li Li-san. Ele dissera aos russos que era “dever internacionalista” deles mandar tropas para ajudar os comunistas chineses em sua luta. Durante a invasão russa da Manchúria, no ano anterior, conclamara os comunistas chineses a “defender a União Soviética com armas”. Agora propunha que Moscou deveria retribuir, e isso exasperou Stálin, que suspeitava que Li-san quisesse arrastá-lo para uma guerra contra o Japão. Li-san também incorrera na ira do líder soviético ao dizer que a Mongólia, que a Rússia anexara, deveria se tornar parte da China vermelha. Em 25 de agosto, o Comintern condenou Li-san por ser “hostil ao bolchevismo e ao Comintern” e, em outubro, chegou uma carta ordenando que fosse a Moscou. Lá, Stálin o transformou numa espécie de bode expiatório total e ele foi chamado várias vezes a se levantar e denunciar a
si mesmo. b Li-san entrou nos livros de história como o homem responsável por todas as perdas comunistas nos primeiros anos da década de 1930. No topo da lista de perdas estavam aqueles que sofreram durante o cerco de Changsha, que eram, na verdade, de inteira responsabilidade de Mao, na sua busca pelo poder pessoal.
A sede de poder de Mao também provocou uma tragédia em sua família. Em 1930, sua ex-mulher Kai-hui e seus três filhos pequenos — o menor tinha três anos — ainda viviam na casa da família dela, nos arredores de Changsha, quando Mao assediou a cidade.
Ele a abandonara havia exatos três anos, ao partir aparentemente para participar do “Levante da Colheita de Outono”, mas, na verdade, para se apropriar de sua primeira força armada. Mal se haviam passado quatro meses de sua partida, ele se casara com outra.
Embora Changsha fosse governada por um general ferozmente anticomunista chamado Ho Chien, Kai-hui não fora importunada, pois não estava engajada em atividades comunistas. Mesmo depois que Peng De-huai tomou a cidade e quase o matou, não houve represálias de Ho Chien contra ela. Mas, depois que Mao apareceu e submeteu a cidade a um segundo ataque demorado, o general nacionalista decidiu se vingar. Kai-hui foi presa junto com o filho mais velho, An-ying, no dia em que o menino completava oito anos, 24 de outubro. Ofereceram-lhe um acordo: ganharia a liberdade se denunciasse Mao em público e se divorciasse dele. Ela não aceitou e foi executada na manhã cinzenta de 14 de novembro de 1930. No dia seguinte, o Diário Republicano de Hunan noticiou sua morte com a manchete “Esposa de Mao Tse-tung executada ontem — todos batem palmas e gritam de satisfação”. Sem dúvida, a notícia refletia mais ódio por Mao do que por Kai-hui.
Quando foi levada para o “tribunal” no QG do Exército, usando uma longa bata azul-escuro, ela não mostrou sinal de medo. Ali, sobre uma mesa, havia um pincel, tinta vermelha e uma etiqueta com seu nome. Depois de fazer algumas perguntas, o juiz marcou a etiqueta com tinta vermelha e jogou-a no chão. Era o equivalente tradicional da assinatura de uma sentença de morte. Diante disso, dois executores arrancaram-lhe a bata, considerada um despojo. Um terceiro encontrou um bônus: 2,5 yuans enrolados num lenço que estava em um dos bolsos.
E assim ela caminhou para a morte, num dia de inverno, vestida com uma blusa fina, aos 29 anos. Quando foi levada pelas ruas, amarrada com cordas — tratamento normal para quem estava para ser executado —, um oficial chamou um jinriquixá para ela, enquanto soldados corriam de ambos os lados. O local de execução ficava logo depois de um dos portões da cidade, entre túmulos de pessoas executadas que não tinham ninguém para levar seus corpos para casa. Depois que a fuzilaram, alguém do pelotão de fuzilamento tirou-lhe os sapatos e os jogou bem longe: dizia a lenda que, se não fizessem isso, o fantasma do morto os seguiria e os assombraria.
Mais tarde, durante o almoço na caserna, os executores ficaram sabendo que Kai-hui não estava morta, de modo que sete deles voltaram e acabaram com ela. Na agonia, ela enterrara os dedos na terra.
Seu corpo foi levado de volta para sua aldeia por parentes e enterrado no terreno da família. O filho foi solto e, no início de 1931, Tse-min fez com que os três meninos fossem para Xangai, onde entraram para um jardim de infância secreto do PCC.
Quando soube da morte de Kai-hui, Mao escreveu, com dor que parece genuína: “A morte de Kai-hui não pode ser redimida por cem mortes minhas!”. Ele falava dela com frequência, especialmente na velhice, como sendo o amor de sua vida. O que ele nunca soube é que, embora Kai-hui o amasse, ela também rejeitava sua ideologia e suas matanças.
Nos anos decorridos entre o abandono de Mao e sua morte, Kai-hui escreveu reflexões sobre o comunismo e sobre seu amor pelo marido — oito textos intensos, magnânimos e ocasionalmente recriminadores, que escondeu em sua casa. Sete foram descobertos em rachaduras das paredes, em 1982, durante reformas. O oitavo veio à luz sob uma viga, ao lado de seu quarto, durante consertos feitos em 1990. Ela os enrolara em papel encerado para protegê-los da umidade. Mao jamais os viu e a maioria ainda é mantida em segredo — tão em segredo que até os membros sobreviventes da família de Mao não puderam ver os trechos mais devastadores.
Os escritos mostram a dor que Kai-hui sofreu ao ser abandonada por Mao, seu desapontamento e amargura diante da insensibilidade dele para com ela e seus filhos — e, o que talvez seja mais danoso, sua perda de fé no comunismo.
O escrito mais antigo é o poema “Pensamentos”, datado de outubro de 1928. Mao estava longe havia um ano e lhe escrevera apenas uma vez. Ele mencionara problemas com os pés. Em junho, quando um inspetor do PCC que ela chama de “Primeiro Primo” foi para a área de Mao, Kai-hui mandou-lhe um pote de pimentões com feijões fermentados, o prato predileto do marido. Mas não recebeu resposta. Em um dia frio, ela sentiu saudades de Mao:
Dia deprimente, um vento norte começa,
Uma friagem espessa atravessa carne e ossos.
Penso neste Homem Distante,
De repente, ondas crescem da calmaria.
O pé estará curado?
A roupa de inverno está pronta?
Quem cuida de você quando dorme sozinho?
Está solitário e triste como eu?
Cartas não chegam,
Pergunto, mas ninguém responde.
Como eu quisera ter asas,
Voar para ver este homem.
Sem poder vê-lo,
O sofrimento não tem fim...
O texto seguinte, escrito para o Primeiro Primo em março de 1929 e marcado “não enviado”, fala de sua solidão e seu desejo de apoio:
Encolho-me num canto do mundo. Estou com medo e sozinha. Nessa situação, busco a cada minuto algo em
que me apoiar. Então, você ocupa um lugar em meu coração, assim como Ren-xiu, que está aqui — vocês
dois estão lado a lado em meu coração! Rezo com frequência: “Por favor, não deixe essas poucas pessoas se
dispersarem!”. Parece que vi o Deus da Morte — ah, é um rosto severo e cruel! Falando de morte, não a temo
realmente e posso dizer que a acolho. Mas minha mãe, e meus filhos! Sinto pena deles! Esse sentimento me
assombra tanto — anteontem deixou-me acordada a noite inteira.
Preocupada com os filhos e percebendo claramente que não podia contar com Mao, Kai-hui escreveu para o Primeiro Primo:
Decidi confiá-los — meus filhos — a você. Financeiramente, enquanto o tio deles [provavelmente Tse-min]
viver, ele não os abandonará; e o tio deles os ama realmente muito. Mas, se eles perderem a mãe e o pai, então
o amor de um tio não será suficiente. Eles precisam do amor de você e de muitos outros para crescerem
naturalmente, como numa primavera quente, e não serem destruídos por tempestades violentas. Esta carta é
como um testamento agora, e você deve pensar que estou louca. Mas não sei por que, não consigo me livrar
da sensação de ter uma corda sobre minha cabeça, como uma serpente venenosa, que parece ter vindo da
Morte e que me aperta. Então, só resta me preparar!
Kai-hui teve essa premonição porque no dia 7 daquele mês o Diário Republicano de Hunan noticiara que a esposa de Zhu De fora morta, e sua cabeça, exposta numa rua de Changsha. O jornal trazia dois artigos em que os autores contavam como se haviam deleitado ao ver a cabeça cortada. Em abril, Kai-hui escreveu um artigo que quis mandar a um jornal, mas não o fez, intitulado “Sentimentos de tristeza após ler sobre o deleite de uma cabeça humana”:
Penso que a esposa de Zhu De era provavelmente comunista. [palavras que faltam no original] Ou mesmo
uma figura importante. Se assim era, sua execução talvez não deva ser criticada. [palavras riscadas] Mas seu
assassínio não se deveu ao seu próprio crime. Aqueles que se deleitaram com sua cabeça e acharam que era
uma visão agradável também não o fizeram por causa de seu próprio crime. Então lembro as histórias de
matar parentes até o nono clã pelo crime de um homem no começo do período manchu. Minha ideia de que
assassinos são forçados a matar não faz sentido aqui. Há tanta gente que se deleita e exulta com isso que
podemos ver artigos jubilosos que os representam em jornais e revistas. Então minha ideia de que somente
um pequeno número de pessoas cruéis mata se revela falsa aqui. Então, encontrei o espírito de nossa época
[...]
Contudo, sou fraca, tenho medo de ser morta, e medo de matar. Não estou em sintonia com a época. Não
posso olhar para aquela cabeça e meu peito está cheio de aflição. [...] Eu achava que a humanidade de hoje, e
parte da humanidade, os chineses, eram suficientemente civilizados para ter quase abolido a pena de morte!
Não esperava ver com meus próprios olhos a matança de parentes até o nono clã pelo crime de um homem
[...] (Matar a esposa de Zhu De, embora não seja exatamente o nono clã, é basicamente a mesma coisa.) [...] e a
cabeça humana está se tornando uma obra de arte necessária para muitos!
A abolição da pena de morte e da tortura fora uma bandeira muito popular no início do século e a carta do Partido Comunista Chinês de 1923 a incluíra entre seus objetivos.
Kai-hui naturalmente havia lido sobre as matanças de Mao nos jornais. Ele e suas tropas eram sempre chamados de “bandidos”, que “incendiavam e matavam e
sequestravamc e saqueavam”. Os jornais também haviam noticiado que Mao fora expulso da terra dos bandidos e que, “cercado por três lados, Zhu-Mao não terá nenhuma chance de sobreviver”.
Kai-hui ainda amava Mao e, sobretudo, queria que ele largasse o que estava fazendo e voltasse. Em 16 de maio de 1929, em um poema marcado “Para Primeiro Primo — não enviado”, ela escreveu oito versos angustiados em que implorava a volta de Mao:
Você é agora o amado querido!
Por favor, diga a ele: volta, volta.
Posso ver que o coração dos velhos [provável referência à mãe] está sendo queimado
[pelo fogo,
Por favor, volta! Volta!
Triste separação, sua cristalização, aflição gelada e solidão pairam ainda maiores,
Como desejo que você traga para casa notícias!
Este coração, [confuso no original], como se compara com queimar pelo fogo?
Por favor, volta! Volta!
Pouco depois disso, chegou uma carta do Primeiro Primo dizendo que Mao ia a Xangai (em 7 de fevereiro de 1929, o partido o convocara). Isso significava que ela poderia vê-lo e Kai-hui ficou extasiada. Ela começou sua carta seguinte “ao Primeiro Primo” com: “Recebi sua carta. Como estou feliz e aliviada!”. Ela sonhava:
Se a situação financeira permitir, devo sair daqui para alguns anos de estudo [...] Quero sair e achar um
emprego [...] Estou realmente com pressa de fazer alguns estudos [...] Senão, posso sentir somente as dores
do vazio, e sinto que não tenho nada em que me apoiar.
Aquela carta parecida com um testamento, não enviei. Se você puder vir para casa de uma vez, isso é tudo
que eu ousaria esperar.
Os pensamentos dela voltaram-se então para Mao, para a possibilidade de que ele não fosse a Xangai, e sua segurança, caso fosse: “Provavelmente, ele não conseguirá ir a Xangai? Eu preferiria que não fosse. Estou preocupada por ele de novo. Oh, céus! Vou parar por aqui”.
Ela começou a escrever para Mao, mas mudou de ideia. Havia um cabeçalho — “Ao meu amado — não enviada” —, e o resto estava rasgado. Em vez disso, escreveu a história de sua vida, terminando em 20 de junho de 1929. Está claro que essa foi a maneira de falar a Mao sobre si mesma, seus pensamentos e sentimentos. As memórias contavam duas coisas: como ela o amava apaixonadamente e como era totalmente incapaz de tolerar a violência e a crueldade. Este último tema parece ter assumido um lugar ainda maior em sua mente, pois ela começava e terminava sua narrativa com ele.
Ela lembrava que, aos seis anos de idade, começara a ver o mundo como um lugar triste:
Nasci extremamente fraca e desmaiava quando começava a chorar [...] Na época, simpatizava com animais [...]
Todas as noites, ao ir para a cama, sombras horríveis, como a matança de galinhas, de porcos, gente
morrendo, agitavam minha cabeça. Era tão doloroso! Ainda posso lembrar aquele gosto vividamente. Meu
irmão, não somente meu irmão, mas muitas outras crianças, eu simplesmente não conseguia entendê-los.
Como é que conseguiam pegar camundongos, ou libélulas, e brincar com eles, tratando-os como criaturas
totalmente estranhas à dor?
Se não fosse para poupar minha mãe da dor — a dor de me ver morrer —, se não fosse por essa poderosa
influência, eu simplesmente não teria continuado a viver.
Eu realmente queria ter uma fé! [...]
Eu simpatizava com as pessoas das condições mais baixas de vida. Odiava aqueles que usavam roupas
luxuosas, com o único pensamento de seu próprio prazer. No verão, eu parecia com as pessoas de classes
mais baixas, usando uma roupa larga de algodão cru. Isso era eu aos dezessete ou dezoito anos [...]
Ela escreveu sobre como se apaixonou por Mao, como o amava totalmente, como soube de suas infidelidades e como o perdoou (essas páginas estão no capítulo 3 deste livro). Mas, no final, mostrava que estava pensando em romper com ele e com a ideologia à qual ele lhe apresentara:
Agora, minha inclinação mudou para uma nova fase. Quero obter um pouco de nutrição buscando
conhecimento, regar e dar sustento à minha vida seca [...] Talvez um dia eu venha a gritar: minhas ideias do
passado estavam erradas!
Ela acabava suas memórias com:
Ah! Matar! Matar! Matar! Tudo o que ouço é este som em meus ouvidos! Por que os seres humanos são tão
maus? Por que tão cruéis? Por quê? Não consigo continuar a pensar! [palavras apagadas por ela] Preciso ter
uma fé! Preciso ter uma fé! Deixem-me ter uma fé!
Kai-hui fora atraída para o comunismo porque sentia simpatia pelos miseráveis. Seu clamor por “uma fé” deixa claro que ela estava perdendo a crença no comunismo. Ela não condenava Mao, a quem ainda amava profundamente. Mas deixava-o saber seus sentimentos em relação às matanças, algo que odiava desde a infância.
Ela escreveu esse texto primeiramente para Mao, pensando que talvez o visse em Xangai. Mas, com o passar do tempo, ficou claro que isso não aconteceria e, na verdade, ele estava conscientemente evitando a cidade. Kai-hui escondeu as doze páginas que escrevera até então entre os tijolos de uma parede.
Foi num clima de desespero que escreveu o último fragmento, em 28 de janeiro de 1930, dois dias antes do ano-novo chinês, época tradicional de reunião familiar. Em quatro páginas, descreveu o que passara nos últimos dois anos e meio, desde que Mao
partira. Começava relembrando seus sentimentos nos dias anteriores à partida dele: d
Durante dias, não consegui dormir.
Simplesmente não consigo dormir. Estou ficando louca. Tantos dias agora que ele não escreveu. Espero dia após dia. Lágrimas [...]
Não devo me afligir tanto. As crianças estão aflitas comigo e Mamãe está aflita comigo. Acho que posso estar grávida de novo.
Realmente tão infeliz, tão sozinha, tanta angústia.
Quero fugir. Mas tenho estes filhos, como posso?
Na manhã do quinquagésimo dia, recebi a inestimável carta. Mesmo que ele morra, minhas lágrimas vão amortalhar seu corpo. Um mês, outro mês, meio ano, um ano, e três anos. Ele me abandonou. O passado invade minha mente,
cena por cena. O futuro que imagino também invade minha mente, cena por cena. Ele deve ter me
abandonado.
Ele tem muita sorte de ter meu amor. Eu realmente o amo tanto! Ele não pode ter me abandonado, ele deve ter seus motivos para não me escrever [...] O amor paterno é realmente um enigma. Será que ele não sente saudade dos filhos? Não consigo entendê-
lo.
Isso é uma coisa triste, mas também uma coisa boa, porque agora posso ser uma pessoa independente. Quero beijá-lo cem vezes, seus olhos, sua boca, suas bochechas, seu pescoço, sua cabeça. Ele é meu
homem. Ele me pertence.
Só se pode confiar no Amor Materno. Estou pensando em minha mãe [...] Ontem, mencionei-o para meu irmão. Tentei parecer normal, mas as lágrimas rolaram, não sei como. Se ao menos eu pudesse esquecê-lo. Mas sua linda imagem, sua linda imagem. Indistintamente o vejo diante de mim, olhando para mim com melancolia. Escrevi para Primeiro Primo, dizendo isto: “Quem levar minha carta para ele e trouxer sua carta para mim é
meu Salvador”.
Céus, não consigo deixar de me preocupar com ele.
Enquanto ele estiver bem, se pertence ou não a mim é secundário. Que os céus o protejam. Hoje é o aniversário dele. Não consigo esquecê-lo. Então mandei comprar comida e fiz tigelas de macarrão
[prato especial de aniversário, pois os longos fios de massa simbolizam vida longa]. Mamãe lembra desta data
também. À noite, na cama, tenho pensamentos tristes.
Ouvi dizer que ele esteve doente, por excesso de trabalho [...] Sem mim ao seu lado, ele não tomará
cuidado. Simplesmente vai se cansar até morrer.
Com a saúde que tem, ele não pode trabalhar. Ele gasta demais seus miolos. Que os céus me protejam.
Preciso trabalhar duro, duro, duro. Se conseguir ganhar sessenta yuans por semana, posso chamá-lo de volta
e pedir para que não trabalhe mais. Nesse caso, com sua capacidade, sua inteligência, ele pode até alcançar
sucesso imortal.
Outra noite insone.
Não posso suportar isso agora. Vou me encontrar com ele. Meus filhos, meus pobres filhos me seguram.
Uma pesada carga pesa em meu coração, um lado é dele, outro é de meus filhos. Não posso deixar nenhum
deles.
Quero chorar. Eu realmente quero chorar.
Por mais que eu tente, não consigo deixar de amá-lo. Simplesmente não consigo... Os sentimentos de uma pessoa são realmente estranhos. San Chun-ho me ama tanto e, no entanto, eu nem 8. Expurgo sangrento abre caminho
olho para ele.
Como eu o amo [Mao]! Céus, deem-me uma resposta perfeita!
Pouco depois dessas palavras de partir o coração, o Primeiro Primo foi preso e executado. Foi enterrado atrás da casa dela.
Meses depois, ela também morreu. Durante seu ataque a Changsha, Mao não fez nenhum esforço para livrar Kai-hui e seus filhos, ou mesmo adverti-los. E ele poderia facilmente tê-la salvado: a casa dela ficava na sua rota para a cidade e ele esteve lá durante três semanas. Não obstante, não levantou um dedo para isso.
a O que chamamos de Jiangxi Vermelho não inclui a base no nordeste de Jiangxi, sob o comando de Fang Zhi-min.
b Um dia, um chinês assistiu a uma palestra em Moscou em que um homem denunciava Li Li-san ferozmente. Depois da fala, ele perguntou ao palestrante quem ele era e ficou espantado ao ouvir a resposta: “Eu sou Li Li-san”. Em fevereiro de 1938, Li-san foi preso e passou quase dois anos na prisão.
c Uma das pessoas sequestradas pela força de Mao foi o padre católico americano Edward Young. Young escapou, mas seus companheiros chineses de cativeiro foram mortos.
d As palavras seguintes foram, em grande parte, lembradas de memória, depois da leitura deste documento em um arquivo, e algumas podem, portanto, não ser exatas. As elipses representam partes que não puderam ser lembradas; a pontuação foi acrescentada por motivos de clareza.