Mao: a história desconhecida

Jung Chang e Jon Halliday · Capítulo 37 de 69

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Mao: a história desconhecida

35. Mao explora a Guerra da Coreia

 

(1950-53; 56-59 anos)

 

Em outubro de 1950, quando as tropas chinesas entraram na Coreia, os norte-coreanos estavam em fuga. Dois meses depois, o Exército de Mao havia empurrado a ONU para fora da Coreia do Norte e restaurado a ditadura de Kim Il Sung. Mas Kim estava militarmente impotente, e seu exército exaurido de 75 mil homens empalidecia diante dos 450 mil soldados que Mao tinha na Coreia. Em 7 de dezembro, um dia depois que os chineses recuperaram Pyongyang, Kim cedeu-lhes o comando. Peng De-huai informou a Mao que Kim havia “concordado [...] em não intervir no futuro em questões de comando militar”. Peng tornou-se chefe de um QG conjunto chinês-coreano. Mao assumira a guerra de Kim.

Peng queria parar ao norte do paralelo 38, a fronteira original entre as duas Coreias, mas Mao não concordou. Peng explicou que suas linhas de suprimento eram longas demais, o que as deixava seriamente expostas aos bombardeios americanos: “Nossas tropas não conseguem receber suprimentos de alimentos, munição, sapatos, óleo ou sal [...] O principal problema é a ausência de cobertura aérea e nenhuma garantia de transporte ferroviário; assim que consertamos os trilhos, eles são bombardeados de novo”. Mao insistiu. Ele estava decidido a não parar a luta até ter arrancado o máximo de Stálin. “Precisa cruzar o paralelo 38”, ordenou a Peng em 13 de dezembro. No início de janeiro de 1951, os chineses tomaram Seul, a capital da Coreia do Sul, e acabaram avançando cerca de cem quilômetros ao sul do paralelo.

Os sucessos militares chineses realçaram muito a posição de Mao perante Stálin, que mandou congratulações extraordinariamente entusiásticas, o que não fizera quando Mao conquistara a China. O Chefe observou, em particular, que as vitórias haviam sido “contra tropas americanas”.

Mao acertara um enorme golpe psicológico nos Estados Unidos. Em 15 de dezembro de 1950, Truman foi ao rádio para declarar estado de emergência nacional, algo que não acontecera na Segunda Guerra Mundial nem aconteceria na Guerra do Vietnã. Com linguagem quase apocalíptica, ele disse ao povo americano: “Nossos lares, nossa nação [...] estão em grande perigo”. Àquela altura, os chineses já haviam obrigado os americanos a recuar cerca de duzentos quilômetros numa questão de semanas, em condições estarrecedoras, sob temperaturas abaixo de zero, pioradas por ventos gelados. O secretário de Estado Dean Acheson descreveu o revés como sendo a “pior derrota” das forças americanas em um século.

Os chineses conquistaram suas vitórias a um custo horrendo para as próprias forças. Peng contou a Mao, em 19 de dezembro:

A temperatura caiu para menos trinta graus centígrados. Os soldados estão muito esgotados, seus pés estão

incapacitados pelo congelamento e eles têm de dormir ao relento [...] A maioria das tropas não recebeu

sobretudos e sapatos forrados. Suas jaquetas forradas e cobertores foram queimados por napalm. Muitos

soldados ainda usam sapatos finos de algodão e alguns estão até descalços.

 

“Perdas inimagináveis podem acontecer”, advertiu Peng. Em 2 de janeiro de 1951, o chefe de logística de Mao disse aos russos que unidades inteiras haviam morrido de frio. Muitos “voluntários” ficaram com cegueira noturna por falta de nutrição. A resposta do QG foi: catem folhas de pinheiro para fazer sopa. Comam girinos para ingerir algumas vitaminas e proteínas.

Os chineses lutavam com a “tática das ondas humanas” (ren hai zhan-shu), usando a única vantagem que tinham: superioridade numérica. O ator inglês Michael Caine, convocado para a guerra, contou-nos que foi para o campo de batalha sentindo simpatia pelo comunismo, pois vinha de uma família pobre. Mas a experiência o deixou com aversão permanente aos comunistas. Os soldados chineses atacavam em ondas, para esgotar as balas ocidentais. Ele não pôde deixar de pensar: se eles não se importam com a vida do próprio povo, como posso esperar que se preocupem comigo?

O avanço chinês logo foi detido. Em 25 de janeiro de 1951, a ONU lançou uma contraofensiva e a maré começou a mudar. As baixas chinesas foram extremamente pesadas. Peng voltou a Pequim em 21 de fevereiro para falar na cara de Mao sobre as “graves dificuldades” e as “baixas desnecessárias em massa”. Do aeroporto, correu para Zhongnanhai, mas descobriu que o líder estava em seu bunker da Fonte de Jade. Ao chegar lá, disseram-lhe que Mao estava tirando uma sesta, mas ele abriu caminho entre os guarda-costas e irrompeu no seu quarto (num crime praticamente de lesa-majestade). Mao deixou-o falar, mas repeliu suas preocupações e lhe disse para esperar que a guerra fosse longa: “Não tente obter uma vitória rápida”.

Mao delineou sua “estratégia total” para Stálin em um telegrama de 1 o de março, que começava com esta frase: “O inimigo não sairá da Coreia sem ser eliminado em grandes massas”. Depois contava a Stálin que seu plano era usar suas infindáveis reservas de mão de obra para exaurir os americanos. O Exército chinês, relatou ele (o que era verdade), já havia tido “mais de 100 mil baixas [...] e espera outras 300 mil neste ano e no próximo”. Mas ele estava substituindo as perdas com mais 120 mil soldados e mandaria mais 300 mil para preencher as perdas futuras. “Em resumo”, concluía, estava “pronto para persistir numa guerra de longo prazo, para passar vários anos consumindo várias centenas de milhares de vidas americanas, de tal modo que eles recuem”. Mao lembrava

Stálin de que poderia enfraquecer seriamente os Estados Unidos, a mas o líder russo precisava ajudá-lo a montar um exército e uma indústria bélica de primeira classe.

Mao batalhou por esse objetivo fundamental a partir do momento em que a China entrou na guerra, em outubro de 1950. Nesse mesmo mês, o comandante da Marinha chinesa foi enviado à Rússia a fim de pedir ajuda para a montagem de uma força naval. Em dezembro, foi a vez de uma missão de alto nível da força aérea, que teve considerável sucesso. Em 19 de fevereiro de 1951, Moscou endossou um projeto de acordo para começar a construir fábricas na China para consertar e prestar serviços a aviões, pois um grande número deles estava sofrendo danos e exigia instalações avançadas de reparo no teatro das operações. O plano chinês era converter essas instalações de conserto em fábricas de aviões. No final da guerra, a China, país muito pobre, já tinha a terceira maior Força Aérea do mundo, com mais de 3 mil aviões, inclusive MiGs avançados. E estavam em construção fábricas para produzir 3600 caças por ano que, conforme o projetado (com excesso de otimismo, ficou claro mais tarde), estariam em pleno funcionamento de três a cinco anos depois. E já haviam começado as discussões para fabricar bombardeiros.

Imediatamente após o acordo sobre aeronaves do início de 1951 — e depois que Stálin endossou o plano do líder chinês de “passar vários anos consumindo várias centenas de milhares de vidas americanas” —, Mao aumentou a parada, pedindo os projetos de todas as armas que os chineses estavam usando na Coreia e que os russos ajudassem a construir fábricas para produzi-las, bem como armas para equipar não menos de sessenta divisões. Em maio, enviou seu chefe do estado-maior à Rússia para negociar esses pedidos.

Embora quisesse que a China lutasse por ele e estivesse feliz de vender a Mao as armas para as sessenta divisões, Stálin não tinha intenção de dotá-lo com uma indústria bélica desenvolvida, e a delegação chinesa ficou detida na Rússia durante meses. Mao disse ao seu chefe do estado-maior que continuasse a pressionar e, em outubro, os russos concordaram, com relutância, em transferir a tecnologia para a produção de sete tipos de armas pequenas, entre elas metralhadoras, mas se recusaram a fornecer mais do que isso.

A guerra já durava um ano, durante o qual a Coreia do Norte havia sido pulverizada pelos bombardeios americanos. Kim percebeu que poderia acabar senhor de um deserto, e, ainda por cima, menor. Ele queria um fim para a guerra. Em 3 de junho de 1951, foi secretamente à China para discutir a abertura de negociações com os Estados Unidos. Como Mao estava longe de atingir seus objetivos, a última coisa em que estava interessado era terminar a guerra. Com efeito, acabara de ordenar que as tropas chinesas atraíssem as forças da ONU para bem dentro da Coreia do Norte: “Quanto mais ao norte, melhor”, disse ele, desde que não fosse perto demais da fronteira chinesa. Mao havia sequestrado a guerra e estava usando a Coreia sem levar em conta os interesses de Kim.

Mas, como suas tropas vinham sofrendo derrotas pesadas, um espaço para respirar lhe seria taticamente útil, então mandou seu chefe da Manchúria com Kim para consultar Stálin — e para pressionar por mais fábricas bélicas. Posteriormente, Stálin telegrafou a Mao, tratando Kim como sátrapa do líder chinês, para aplacá-lo, pois lhe estava negando as fábricas de armas. Depois de falar “com seus representantes da Manchúria e da Coreia” (sic), concluía Stálin, “uma trégua é vantajosa agora”. Isso não significava que quisesse parar a guerra. Ele queria que os soldados de Mao infligissem mais danos aos americanos, mas percebia que entrar em conversações poderia ser conveniente e mostrar um aparente interesse pela paz ajudaria a imagem dos comunistas. Em 10 de julho, abriram-se conversações provisórias sobre um cessar-fogo na Coreia entre delegações militares da ONU e sino-coreanas.

A maioria dos quesitos foi resolvida com bastante rapidez, mas Mao e Stálin bateram pé em uma questão: a repatriação de prisioneiros de guerra. Os americanos queriam que ela fosse voluntária, “não compulsória”; Mao insistiu que fosse em bloco. A ONU detinha mais de 20 mil chineses, principalmente antigos soldados nacionalistas, a maior parte dos quais não queria voltar para a China comunista. Lembrando-se de que muitos prisioneiros devolvidos a Stálin no final da Segunda Guerra haviam encontrado a morte, os Estados Unidos rejeitavam a repatriação não voluntária, por motivos humanitários e políticos. Mas a linha definida por Mao para seus negociadores era: “Ninguém deve escapar!”. O terrível mantra de Mao prolongou a guerra por mais um ano e meio, período em que centenas de milhares de chineses e muito mais coreanos morreram. Kim estava muito disposto a conceder e argumentou que “não havia sentido em brigar” para recuperar ex-nacionalistas “politicamente instáveis”. Mas isso não surtiu efeito com Mao, pois não era esse o seu problema. Pouco lhe importavam os prisioneiros de guerra. Ele precisava de uma questão para prolongar a guerra e, assim, conseguir extrair mais de Stálin.

 

No início de 1952, Kim estava absolutamente desesperado para acabar com a guerra. Em 14 de julho de 1952, telegrafou a Mao para implorar que aceitasse um acordo. Os bombardeios americanos estavam reduzindo seu país a ruínas. “Não sobrava mais nada para bombardear”, observou o subsecretário de Estado americano Dean Rusk. A população declinava para níveis quase críticos de sobrevivência, com talvez um terço dos homens adultos mortos.

Mao não atendeu ao pedido de Kim e lhe respondeu com o argumento cruel de que “rejeitar a proposta do inimigo terá apenas uma consequência danosa — mais perdas para o povo coreano e para os voluntários do povo chinês. Porém [...]”. Mao listava então as “vantagens” dessas perdas humanas, tais como os sofredores sendo “temperados e adquirindo experiência na luta contra o imperialismo americano”. Seu telegrama terminava ameaçador, dizendo que faria um relatório para Stálin e, “depois de receber uma resposta”, voltaria a entrar em contato com Kim.

Sem esperar que Mao lhe dissesse o que Stálin pensava, Kim respondeu de imediato para dizer que Mao estava, é claro, “correto” e que ele se achava determinado a continuar a luta. Ao mesmo tempo, telegrafou a Stálin, tentando pateticamente explicar sua indecisão.

Stálin enviou seu veredicto para Mao no dia 17: “Consideramos sua posição nas negociações sobre um armistício completamente correta. Hoje recebemos um relatório de Pyongyang em que o camarada Kim Il Sung também concorda com sua posição”.

Kim estava alucinado, mas sem poder para deter a guerra no próprio país. Ademais, seu próprio destino estava em perigo. Uma conversa ameaçadora entre Stálin e Chou um mês depois mostra que ele tinha razão em se sentir inseguro. Após Chou dizer que a China estava se preparando para “a possibilidade de mais dois ou três anos de guerra”, Stálin perguntou sobre a atitude dos líderes coreanos. O registro da reunião é o seguinte (com nossos comentários entre colchetes):

Stálin diz que os americano[s] não assustaram a China. Poder-se-ia dizer que eles também não conseguiram

assustar a Coreia?

Chou En-lai afirma que se pode dizer essencialmente isso. Stálin: [obviamente cético] Se isso é verdade, então não é tão ruim. Chou En-lai [aproveitando o ceticismo de Stálin] acrescenta que a Coreia está vacilando um pouco [...]

Entre certos elementos da liderança coreana pode-se detectar um estado de pânico até.

Stálin lembra que já foi informado desses sentimentos pelo telegrama de Kim Il Sung a Mao Tse-tung. Chou En-lai confirma isso.

 

O pânico de Kim em relação aos Estados Unidos empalidecia ao lado de seu medo de Mao e Stálin. As bombas americanas podiam matar uma grande parte de sua população, mas Stálin e Mao poderiam depô-lo (algo que Mao de fato tramou fazer mais tarde) — ou pior.

E, assim, a guerra continuou.

 

Em agosto de 1952, Mao decidiu pressionar ainda mais Stálin e obter uma decisão definitiva sobre suas duas exigências centrais: território e indústrias bélicas. Mandou Chou a Moscou com esses pedidos. O enviado deixou claro inicialmente que Mao prestara um serviço valioso a Stálin. Na primeira reunião, em 20 de agosto, disse ao líder russo que Mao “acredita que a continuação da guerra é vantajosa para nós”. “Mao Tse-tung tem razão”, respondeu Stálin. “Esta guerra está pegando nos nervos dos americanos.” Ecoando os comentários que faziam pouco das baixas do lado comunista, Stálin fez uma observação de causar calafrios: “Os norte-coreanos não perderam nada, exceto as baixas humanas”. “A guerra na Coreia mostrou a fraqueza dos Estados Unidos”, comentou com Chou, e depois disse “em tom de brincadeira”: “As principais armas dos americanos são meias femininas, cigarros e outras mercadorias. Eles querem subjugar o mundo, mas não são capazes de dominar a pequena Coreia. Não, os americanos não sabem lutar”. “Os americanos não são capazes de travar uma guerra em larga escala, especialmente depois da guerra na Coreia.”

Foi Mao que possibilitou a Stálin tirar essa conclusão. Os Estados Unidos estavam perdendo mais aviões do que podiam se dar ao luxo militarmente, e mais homens do que a opinião pública aceitaria. No total, os americanos perderam bem mais de 3 mil aeronaves na Coreia e não podiam substituir essas perdas com velocidade suficiente para se sentirem seguros de que poderiam travar uma guerra em duas frentes, ao mesmo tempo na Ásia e na Europa. Igualmente importante, os Estados Unidos acumularam 37 mil mortos.

Embora o número de mortos americanos fosse apenas uma pequena porcentagem das perdas chinesas, a América democrática não podia competir com a China totalitária nesse quesito. Enquanto os Estados Unidos caminhavam para uma eleição presidencial em 1952, o apoio no país à continuação da guerra era de somente 33%, e um dos slogans de campanha do candidato republicano, o ex-general Dwight D. Eisenhower, era “Eu irei à Coreia”, que para a ampla maioria significava que ele acabaria com a guerra.

O papel da China no enfrentamento dos Estados Unidos deu a Chou as cartas para jogar alto e ele pediu ao Chefe nada menos que 147 grandes empresas militares, entre elas fábricas para produzir aviões e navios, mil tanques leves por ano, e uma indústria de tanques médios que estaria em funcionamento dentro de cinco anos.

Stálin tergiversou, respondendo com lugares-comuns (“A China deve ser bem armada, especialmente com forças aéreas e navais”; “A China deve se tornar a nau capitânia da Ásia”). Mas jamais assinou a lista de Chou.

E havia também a questão dos territórios de influência. Stálin vinha repartindo partes da Ásia a Mao desde que começara a pensar sobre a guerra na Coreia. Mao lançara tentáculos para meia dúzia de países asiáticos que iam do Japão (os comunistas japoneses haviam estado em Pequim na primavera de 1950 para preparar ações armadas em coordenação com a guerra na Coreia) às Filipinas (onde os Estados Unidos tinham bases estratégicas) e à Malásia, onde uma insurreição considerável e, em larga medida, promovida por gente de origem chinesa lutava contra o domínio britânico. No Sudeste Asiático, as forças comunistas rebeldes na Birmânia avançavam na direção da fronteira da China para estabelecer uma conexão e receber suprimentos e treinamento, exatamente como o Exército de Ho Chi Minh havia feito no Vietnã. Um arauto do mal que logo chegaria à China para treinamento seria Pol Pot, o futuro líder do Khmer Vermelho cambojano.

Em setembro de 1952, Chou conversou com Stálin sobre o Sudeste Asiático como se seu destino fosse inteiramente decidido por Pequim e o Exército chinês pudesse entrar onde quisesse caso Pequim assim desejasse. As minutas da reunião de 3 de setembro registram que Chou “diz que, nas relações com os países do Sudeste Asiático, eles estão mantendo uma estratégia de exercer influência pacífica sem mandar forças armadas. Ele oferece o exemplo da Birmânia [...] O mesmo no Tibete. Pergunta se é uma boa estratégia”. Chou tratava a Birmânia do mesmo modo que o Tibete. Stálin respondeu obliquamente: “O Tibete faz parte da China. É preciso ter tropas chinesas estacionadas no Tibete. Quanto à Birmânia, vocês devem agir com cautela”. Mas acrescentou de imediato, confirmando que a Birmânia era de Mao: “Seria bom se houvesse um governo pró-China na Birmânia”. (Stálin monitorava de perto a Birmânia por meio de seu embaixador Vladímirov, o antigo contato em Yenan.)

Mao planejava agora formar seu conglomerado regional usando um “Congresso da Paz” da região da Ásia e do Pacífico, marcado para Pequim. Essa reunião estava na agenda das conversas com Stálin. O líder russo foi obrigado a reconhecer que a China deveria desempenhar “o papel principal”. Que ele não estava de forma alguma contente pode ser deduzido da continuação da conversa. Chou perguntou “que medidas específicas” a delegação russa tomaria, o que era um convite sutil para Stálin confirmar que os russos não agarrariam a liderança. Stálin respondeu com sarcasmo e apenas uma palavra: “Paz”.

Sem se deter, Chou foi adiante e disse que, durante o iminente congresso do partido soviético, Liu Shao-chi gostaria de se encontrar com os líderes comunistas asiáticos. Era uma maneira de tentar garantir a bênção de Stálin para que Mao tomasse conta dos partidos da Ásia, mas arrancar endossos do Chefe era como tirar água da pedra. Os primeiros mencionados foram os indonésios. As minutas registram:

Chou En-lai [...] pergunta se seria oportuno discutir questões partidárias em Moscou com eles.

Stálin diz que é difícil dizer ainda [...]

Chou En-lai conta que os japoneses deverão vir e é provável que também queiram discutir questões

partidárias.

Stálin responde que irmãos mais velhos não podem recusar seus irmãos mais jovens nessa questão. Ele diz

que isso deveria ser discutido com Liu Shao-chi [...]

Chou En-lai afirma que Liu Shao-chi pretende trazer com ele material apropriado, a fim de discutir várias

questões.

Stálin observa que, se os camaradas chineses querem discutir essas questões, então evidentemente ele não

fará objeção, mas, se eles não quiserem, então não teremos de discutir nada.

Chou En-lai responde que os camaradas chineses irão definitivamente querer conversar.

 

Quão vigoroso era Chou En-lai, perseguindo incansavelmente o Chefe, enquanto ele tentava se esquivar! Dois anos e meio e uma guerra devastadora antes, quando Mao estava na gélida Moscou, Stálin o impedira de ter qualquer reunião. Agora, era forçado a conceder: “Nesse caso, encontraremos tempo”. Então, outro pequeno sarcasmo quando o adulador Chou, “terminando a conversação, diz que eles gostariam de receber instruções relativas a todas essas questões”.

Stálin pergunta: instruções ou sugestões?

Chou En-lai responde que, do ponto de vista do camarada Stálin, seriam conselhos, mas na percepção deles

seriam instruções.

 

O tato de Chou mascarava um novo grau de surpreendente assertividade da parte de Mao. Na verdade, ele já havia até iniciado operações conspiratórias na própria União Soviética.

 

A missão de Chou em agosto e setembro de 1952, destinada claramente a possibilitar que Mao se tornasse uma autoridade maior e um rival para Stálin, aumentou muito o sentimento de ameaça que este tinha em relação ao líder chinês. Stálin então decidiu enfraquecer Mao exibindo uma intimidade especial com outros líderes chineses. Primeiro, aproximou-se do chefe do Exército, Peng De-huai, que foi a Moscou no início de setembro, com Kim, para a única reunião tripartite de cúpula da guerra. No final de uma das reuniões, num gesto pouco comum, Stálin chamou Peng para um tête-à-tête, sem a presença de Chou, o qual relatou o fato a um Mao furioso. Peng explicou a Mao que Stálin só falara sobre o modo como os norte-coreanos haviam maltratado os prisioneiros de guerra (o que vinha causando problemas diplomáticos para os comunistas). Mao continuou suspeitoso, mas parece ter concluído que se tratava apenas de uma manobra de Stálin para perturbá-lo.

Então veio outra tentativa de Stálin de enfiar uma cunha — dessa vez entre Mao e Liu Shao-chi, que foi a Moscou em outubro, para o congresso do partido. Stálin dedicou uma atenção extraordinária a Liu, demonstrando um grau de intimidade que espantou o séquito do chinês. “Stálin chegou até a mencionar seus assuntos e humores pessoais”, observou Shi Zhe, o intérprete de Liu. Shi também fora o intérprete de Mao e percebeu o forte contraste entre os dois tratamentos. Chou En-lai comentaria para um pequeno círculo que Stálin fora muito mais caloroso com Liu do que com Mao.

Stálin então atingiu Mao com um golpe sem precedentes nos anais do comunismo mundial. Em 9 de outubro, o Pravda publicou as congratulações de Pequim ao congresso, que Liu apresentara no dia anterior. Em letras grandes, este era chamado de “secretário-geral” do PCC (o posto mais alto em outros partidos comunistas). Mas Moscou sabia muito bem que o PCC não tinha secretário-geral. É inconcebível que isso tenha sido um acidente. “Naquela época, o Pravda não cometia erros”, comentou conosco um embaixador russo na Inglaterra. Stálin estava dizendo a Mao: eu poderia fazer de seu segundo em comando o chefe do partido!

Liu teve de consertar a situação e tratou de escrever de imediato uma nota a Gueorgi Malenkov, o segundo em comando de Stálin, para dizer que não era secretário-geral e que o PCC estava “todo sob a liderança do camarada Mao Tse-tung [que] é o presidente”. Ao mesmo tempo, concluindo que a coisa mais sábia a fazer era não entrar em pânico, não mandou desculpas frenéticas a Mao. Depois do congresso, ficou em Moscou conforme o planejado para conversar com outros líderes comunistas asiáticos, inclusive Ho Chi Minh, e juntos eles discutiram não apenas o Vietnã, mas também Japão e Indonésia com Stálin. O líder russo então deteve Liu durante meses, até janeiro de 1953, para que se encontrasse com pessoas que estavam no topo da lista de Mao: os indonésios. Na noite de 6 para 7 de janeiro de 1953, Liu reuniu-se enfim com Stálin e o principal agente russo na Indonésia para um encontro insolitamente longo com os líderes comunistas indonésios Aidit e Njoto, para discutir a “assunção do controle” do partido indonésio por Pequim. Após a reunião, Aidit comemorou saindo na noite gelada para jogar bolas de neve, sem saber que pouco mais de uma década depois, em 1965, a tutelagem de Mao o condenaria, junto com Njoto e centenas de milhares de seus seguidores, à morte prematura e medonha.

Assim que terminou a reunião com os indonésios, Liu partiu para a China no mesmo dia. No total, havia ficado três meses na Rússia. Mao não podia fazer nada a respeito das maquinações de Stálin para alfinetá-lo e levantar suspeitas, nem podia descontar em Liu, que cairia nas mãos do líder russo. Mas lançou um sinal de alerta para Liu no momento em que ele retornou a Pequim que equivalia a um “Não ponha ideias na

cabeça!”. b

Enquanto isso, Mao continuava bombardeando Stálin com pedidos relacionados à indústria bélica. Em um enorme telegrama de oito páginas de 17 de dezembro de 1952, reclamava claramente de Stálin: “Por favor, será que o governo soviético pode atender nossa encomenda de armas para a guerra na Coreia em 1953, e nossos pedidos de indústrias de armas?”. O pedido era prefaciado pela visão de Mao da guerra: “Na próxima fase (suponha um ano), ela se tornará mais intensa”. Como um estímulo extra para Stálin ceder, Mao se oferecia para sustentar o Estado falido de Kim, informando que Pequim subsidiaria Pyongyang durante três anos, ao ritmo de 60 milhões de dólares por ano, que era exatamente a quantia que Stálin havia “emprestado” a Mao em fevereiro de 1950; porém, em termos per capita, equivalia a cinquenta vezes a soma que Stálin estivera disposto a adiantar — e de um país muito mais pobre. Além disso, ao contrário do empréstimo russo, o de Mao para Kim não incluía juros. Algumas semanas depois, em janeiro de 1953, Mao fez outro grande pedido para sua Marinha. Stálin disse que mandaria os armamentos requisitados e aprovou que a frota de Mao participasse de operações navais em alto-mar pela primeira vez, mas recusou com firmeza o pedido de indústrias bélicas.

 

Àquela altura, as conversações sobre armistício estavam em recesso havia tempo, enquanto a guerra pesada continuava. Em 2 de fevereiro de 1953, Eisenhower, que fora eleito presidente, sugeriu em seu discurso sobre o Estado da União que poderia usar a bomba atômica na China. Essa ameaça foi, na verdade, música para os ouvidos de Mao, pois agora tinha uma desculpa para pedir a Stálin o que mais desejava: armas nucleares.

Desde o lançamento da primeira bomba sobre Hiroxima, em 1945, Mao sonhara em possuir uma. Bo Yi-bo, um de seus administradores econômicos, relembrou que, nos primeiros anos da década de 1950, “em todas as reuniões e em todas as ocasiões, o presidente Mao mencionava o fato de não ter bombas atômicas. Ele falava e falava. O presidente Mao estava realmente ansioso!”. Mao conseguiu esconder essa aspiração do público, passando, ao contrário, uma imagem de desprezo indiferente por armas atômicas e fingindo que preferia confiar no “povo”, posição que ficou famosa com sua observação de 1946 de que a bomba atômica era “um tigre de papel”.

Assim que Eisenhower fez suas observações sobre a possibilidade de usar a bomba, Mao despachou Qian San-qiang, seu principal cientista nuclear, para Moscou. Em resumo, a mensagem de Mao era a seguinte: dê-me a bomba e assim você não será levado a uma guerra nuclear com os Estados Unidos. Isso colocou um dilema sério para Stálin, pois a Rússia tinha um pacto de defesa mútua com a China.

O líder russo não queria dar a bomba a Mao, mas estava preocupado com Eisenhower. Foi sob essa pressão constante — tanto de Mao como do Ocidente — que Stálin, ao que parece, decidiu acabar com a Guerra da Coreia. De acordo com Dimitri Volkogónov, o general russo que teve acesso aos arquivos soviéticos mais secretos, Stálin tomou a decisão de terminar a guerra em 28 de fevereiro e disse a seus colegas de poder que planejava agir no dia seguinte. Naquela noite, ele sofreu um derrame, que viria a matá-lo em 5 de março. Mao pode ter sido um dos fatores que causaram o derrame. Em seu último jantar, Stálin havia falado sobre a guerra, e fez uma ligação entre o fracasso em manter a Iugoslávia de Tito no campo comunista e a perda da chance de vencer na Coreia. Também falou do Comintern no Extremo Oriente e como ele fracassara no Japão. Depois do jantar, leu alguns documentos e o último era sobre o fracasso de sua tentativa de assassinar Tito. No passado, Stálin havia suspeitado de que Mao era um espião japonês e via nele um Tito em potencial. Sua mente obsessiva talvez estivesse ruminando pensamentos em torno de Mao, refletindo que se livrar dele seria uma tarefa

tão assustadora quanto tentar eliminar Tito. c Mao pode ter ajudado a provocar o derrame de Stálin.

Mao foi à embaixada soviética para assinalar a morte de Stálin. Um funcionário da embaixada sustenta que ele tinha lágrimas nos olhos e dificuldade para ficar em pé, e que Chou chorava. Na verdade, a morte de Stálin foi o momento de libertação de Mao.

Em 9 de março, realizou-se um ato gigantesco em memória do líder russo na praça Tiananmen, com uma multidão organizada de centenas de milhares. Foram dadas ordens rígidas ao populacho, inclusive a exigência de “não rir!”. Um enorme retrato de Stálin foi pendurado acima do arco central e a cerimônia se iniciou com Mao inclinando-se diante do retrato e depositando uma coroa. Muitos discursaram, exceto Mao. Ele também não foi ao funeral na Rússia, mas madame Mao, que estava então em Moscou, visitou o esquife de Stálin. Chou foi ao funeral na praça Vermelha e foi o único estrangeiro a marchar com as altas autoridades soviéticas, caminhando ao lado do chefe da segurança Béria, sob frio intenso (entre os dons de Chou estava a imunidade à

temperatura). d

A morte de Stálin provocou mudanças instantâneas. Em 21 de março, durante uma reunião de noite inteira, os novos líderes russos, chefiados por Malenkov, disseram a Chou que haviam decidido acabar com a guerra na Coreia. Os sucessores de Stálin estavam dispostos a diminuir a tensão com o Ocidente e deixaram claro que, se cooperasse com o término da guerra, Mao seria recompensado com um grande número de empresas bélicas — 91 — que Stálin vinha protelando. Ao contrário do Chefe, que via em Mao um rival pessoal, os novos líderes soviéticos julgavam que uma China militarmente poderosa era bom para o campo comunista.

Mas Mao insistiu em manter a guerra. Ele queria uma coisa a mais: a bomba atômica. Com efeito, esse era o principal objetivo da viagem de Chou, ao lado das indústrias bélicas. Chou tentou com veemência colocar o grupo do físico nuclear Qian San-qiang dentro dos institutos de pesquisa nuclear da Rússia, mas seus repetidos pedidos de transferência de tecnologia nuclear foram negados. Qian continuou pressionado durante três meses, período que coincidiu exatamente com as delongas de Mao para acabar com a guerra. Então, em maio, Moscou bateu pé.

Durante algum tempo, o campo comunista vinha desenvolvendo uma enorme campanha em que acusava os Estados Unidos de usar guerra bacteriológica na Coreia e na China e havia vagamente anunciado um grande número de mortes causadas por ataques de germes. Aviadores americanos capturados foram forçados a confessar o lançamento de bombas bacteriológicas, às vezes diante de câmeras.

Mao usou essa questão para insuflar o ódio aos Estados Unidos dentro da China. Mas

as acusações eram fabricadas. e Quando Stálin morreu, o Kremlin decidiu imediatamente retirar as acusações, que, conforme Béria escreveu a Malenkov em 21 de abril de 1953, haviam feito a Rússia “sofrer reais danos políticos na arena internacional”.

A denúncia de fabricar as acusações foi então usada para pressionar Mao a acabar com a guerra. O ministro do Exterior soviético Mólotov escreveu a seus colegas de poder que os chineses haviam dado aos norte-coreanos “uma declaração intencionalmente falsa [...] sobre o uso de armas bacteriológicas pelos americanos”. Os coreanos, disse ele, foram “presenteados com um fait accompli”. Os russos preparavam o terreno para pôr toda a culpa em Mao.

Em 2 de maio, o Kremlin mandou seu novo embaixador em Pequim, V. V. Kuznietsov, entregar a Mao uma mensagem de uma aspereza sem precedentes que dizia:

O governo soviético e o Comitê Central do PCUS foram induzidos em erro. A disseminação na imprensa de

informação sobre o uso pelos americanos de armas bacteriológicas na Coreia foi baseada em informações

falsas. As acusações contra os americanos eram fictícias.

 

A mensagem “recomendava” que Pequim retirasse as acusações e informava Mao ameaçadoramente que os russos “responsáveis pela participação na fabricação [...] receberão punição severa”. Com efeito, o embaixador soviético em Pyongyang, V. N. Razuváiev, já fora chamado de volta, como Mao certamente sabia, e torturado pelos homens de Béria.

Kuznietsov encontrou-se com Mao e Chou à meia-noite de 11 para 12 de maio. Depois, relatou para Moscou que Mao recuara. De acordo com o embaixador, o líder chinês disse “que a campanha foi iniciada com base em informações do comando [chinês] [...] É difícil estabelecer agora a autenticidade dessas informações [...] Se for descoberta falsificação, então esses relatórios de baixo não devem receber crédito”. Kuznietsov tinha obviamente ordens de relatar em detalhes as reações de Mao. No que talvez fosse um excesso de projeção, contou que: “algum nervosismo foi notado da parte de Mao Tse-tung; ele [...] esmagou cigarros [...] Perto do final da conversa, riu e fez piadas e se acalmou. Chou en-lai comportou-se com seriedade estudada e alguma apreensão”.

Mao tinha todos os motivos para sentir-se apreensivo. A linguagem de Moscou era excepcionalmente severa. Ela mostrava quão decidido o Kremlin estava a acabar a guerra e indicava uma disposição de aplicar pressão extrema e desautorizar algo que Stálin deveria ter aprovado. Vindo logo depois que o Kremlin negou a veracidade da última conspiração falsa de Stálin, o “Complô dos Médicos” (a primeira vez que qualquer ato de Stálin era publicamente repudiado, o que caiu como uma bomba no mundo comunista), o novo Kremlin indicava a Mao que estava decidido a impor sua linha. Mao ficou claramente surpreso e deu ordens para acabar com a guerra naquela

mesma noite.f

Mao podia perceber que obter a bomba da Rússia estava fora de questão por enquanto, pois o novo Kremlin estava inclinado a diminuir a tensão com os Estados Unidos. Então chamou de volta sua delegação nuclear e contentou-se com os projetos bélicos que os novos líderes soviéticos haviam oferecido. Ordenou que seus negociadores na Coreia aceitassem a repatriação voluntária de prisioneiros de guerra, que estava na mesa de negociação havia mais de dezoito meses.

Dois terços dos 21 374 prisioneiros de guerra chineses recusaram-se a voltar para a

China comunista e a maioria deles foi para Taiwan. g Os componentes da terça parte que voltou para a China continental viram-se rotulados de traidores por terem se rendido e sofreram terrivelmente pelo resto do reinado de Mao. Outra contribuição medonha e pouco conhecida que Mao deu ao sofrimento da nação coreana foi ajudar a condenar mais de 60 mil prisioneiros sul-coreanos, ilegalmente retidos pelo norte na época do armistício, a um destino terrível. Mao disse a Kim para não devolvê-los. Esses infelizes foram espalhados pelos cantos mais remotos da Coreia do Norte para escondê-los de olhos perscrutadores e minimizar suas chances de fugir, e é lá que os ainda sobreviventes são provavelmente mantidos até hoje.

 

O armistício foi finalmente assinado em 27 de julho de 1953. A Guerra da Coreia, que durara três anos e provocara milhões de mortos e numerosos feridos, estava terminada.

Mais de 3 milhões de chineses foram enviados à Coreia, dos quais pelo menos 400 mil

morreram. h Um documento oficial russo afirma que 1 milhão de chineses foram mortos.

Entre os que lá pereceram estava o filho mais velho de Mao, An-ying, morto em um ataque aéreo americano ao QG de Peng De-huai, onde trabalhava como tradutor de russo. Isso aconteceu em 25 de novembro de 1950, pouco mais de um mês depois que ele havia entrado na Coreia. Estava com 28 anos.

Havia se casado um ano antes, em 15 de outubro de 1949. Sua esposa Si-qi era uma espécie de filha adotiva de Mao e ela e An-ying se conheciam havia vários anos. No final de 1948, quando ele disse ao pai que queria se casar com ela, este teve um ataque de fúria e gritou com tanta ferocidade que An-ying desmaiou e suas mãos ficaram tão geladas que não reagiram nem com água fervente, o que provocou duas bolhas. A reação furiosa de Mao sugere ciúme sexual (a bela e elegante Si-qi andara ao redor dele durante boa parte de sua adolescência). Mao negou o consentimento por vários meses e depois disse ao casal para adiar o casamento até que seu regime fosse formalmente proclamado, em 1 o de outubro de 1949. Quando chegou o momento de comemorar seu primeiro aniversário de casamento, An-ying já havia partido. Como era de praxe, ele não contou à esposa para onde ia, nem ela perguntou.

Quando Mao recebeu a notícia da morte do filho, ficou em silêncio por um tempo e depois murmurou: “Numa guerra, como pode não haver mortes?”. Seu secretário observou: “Ele realmente não mostrou nenhuma expressão de grande dor”. Até madame Mao derramou algumas lágrimas, embora não se desse muito bem com o enteado.

Por mais de dois anos e meio, ninguém informou o fato à jovem viúva de An-ying. Enquanto a guerra estava em andamento, ela aceitou o silêncio do esposo, pois estava acostumada com o sigilo do partido. Mas, no verão de 1953, depois da assinatura do armistício, achou estranho o silêncio e perguntou a Mao, que lhe disse que An-ying morrera. Durante aqueles anos, ela se encontrara com Mao constantemente, passara com ele fins de semana e férias, e ele não demonstrara nenhuma tristeza, nem mesmo uma vacilação que sugerisse que algo estava errado. Chegara mesmo a fazer piadas sobre An-ying, como se ele estivesse vivo.

 

a No total, a China enviou pelo menos 3 milhões de soldados para a Coreia. Os Estados Unidos empenharam em torno de 1 milhão de homens.

b Mao fez isso denunciando o líder sindicalista Li Li-san, por defender uma independência maior para os sindicatos. Quem estava bem informado sabia que se tratava de uma linha fortemente defendida por Liu.

c A Guerra da Coreia também se voltou, de forma espetacular, contra seu terceiro instigador, Kim Il Sung. Em 1994, 44 anos depois que a deflagrara, Kim foi encontrado morto sentado, segurando cópias do dossiê que o governo pós-comunista da Rússia estava prestes a divulgar, revelando a história secreta da guerra e o papel dele nela.

d Mais atrás estava o chefe do partido tcheco Klement Gottwald, que caiu morto dias depois — supostamente em consequência de um resfriado, mas, na verdade, de alcoolismo. Chou foi a Praga para o enterro de Gottwald, onde levou uma “facada” do líder comunista britânico Pollitt, que lhe pediu uma contribuição de 5500 dólares para renovar o túmulo de Marx em Londres.

e Pequim ainda mantém a acusação, embora sua alegação oficial agora seja de 81 mortes de 804 ataques bacteriológicos americanos — 41 coreanos, de cólera e peste, e 36 chineses de peste, meningite e “outras doenças”. Dois generais russos que estavam na Coreia — Valentin Sózinov, principal assessor do chefe do estado-maior da Coreia do Norte, Nam Il, e o principal assessor médico do Exército norte-coreano, Igor Selivánov — nos disseram que nunca viram provas de guerra bacteriológica; Selivánov destacou que, em sua posição, teria ficado sabendo, caso tivesse acontecido. Outros oficiais e diplomatas russos envolvidos na guerra concordam com isso.

f O regime de Kim estava ansioso para dar um pontapé em Mao. S. P. Suzdalev, encarregado soviético em Pyongyang, relatou a Moscou em 1o de junho que, ao saber das novas “recomendações” do Kremlin, a autoridade coreana a quem ele transmitiu a mensagem, Pak Chang-ok, aproveitou a chance para repudiar os chineses, chegando a sugerir “a possibilidade de que as bombas e recipientes foram jogados de aviões chineses”.

g Optaram por ir para a China 21 americanos e um escocês, mas logo a maioria deles se desiludiu e partiu, muitas vezes com grandes dificuldades. A deserção deles alimentou temores no Ocidente de “lavagem cerebral”, como havia acontecido com as “confissões” dos aviadores capturados sobre lançamento de bombas bacteriológicas. Enquanto as altas patentes se preocupavam com que alguns daqueles que “confessaram” pudessem vazar conhecimentos de alta tecnologia para o inimigo, o diretor do FBI J. Edgar Hoover montava uma vasta campanha de vigilância sobre os prisioneiros de guerra que haviam retornado, com medo de espiões, contou-nos o então secretário de Justiça, general Herbert Brownell.

h A alegação oficial é de 152 mil mortes, mas em privado Deng Xiao-ping disse aos líderes comunistas japoneses que o número de chineses mortos foi de 400 mil. O mesmo número foi fornecido por Kang Sheng ao líder albanês Enver Hoxha. Tais sacrifícios não valeram à China muita gratidão por parte da Coreia do Norte. Quando tentamos obter acesso ao memorial de guerra chinês em Pyongyang, oficiais coreanos negaram a permissão. À pergunta “Quantos chineses morreram na Guerra da Coreia?”, a resposta veio, com grande relutância, após duas recusas em respondê-la: “Talvez 10 mil”.