O Tom Ausente de Azul
Capítulo 8
No dia seguinte ao funeral, durante uma aula de lógica sobre o princípio do silogismo, com a
cabeça pulsando com exemplos desconcertantes de dedução e indução, ambiguidades e
falácias, todos eles variações aparentes da condição humana e da mortalidade de Sócrates —
tous les hommes sont mortels Socrate est un homme, donc Socrate est
mortel
—, ouvi, de repente, um grito terrível. O qual descobri ser minha própria voz. Tenho apenas a
vaga lembrança de ser detido por funcionários da universidade, que me imobilizaram no chão
e chamaram a polícia. Mesmo essa recordação pode ter vindo das memórias de outras
pessoas, alimentando minhas lembranças. Não havia jeito de dizer ao certo. Ao que parece, eu
havia corrido até o professor, ainda ocupado escrevendo suas premissas no quadro branco, e o
agarrara pela garganta, gritando o tempo todo: “Não existe verdade! Não existe verdade!”
Pelo menos, foi assim que meu amigo Antoine me relatou o caso muitas semanas depois do
ocorrido.
*
A memória é uma coisa fugidia. A gente nunca sabe quando pode confiar nela. O psicólogo
suíço Jean Piaget, que morreu apenas alguns meses depois de Sartre, preservou uma
lembrança cristalina da infância: a ocasião em que sua dedicada babá o salvou de uma
tentativa de sequestro. Piaget era capaz de descrever quem o atacou em detalhes, lembrava-se
da babá sendo arranhada no rosto enquanto lutava para defender do sequestro a criança sob seus cuidados e chegava a ter uma imagem clara do policial que, ao final, foi ajudá-los com
seu cassetete. Anos mais tarde, porém, a babá confessou que nada disso havia de fato
acontecido. Ela inventara a história do sequestro inteira (os arranhões haviam sido
autoinfligidos) para atrair simpatia e atenção. Mas, apesar disso, essa “memória” esteve o
tempo inteiro, com toda a sua vívida precisão, enraizada na mente de Piaget.
Sempre que recorro às minhas lembranças, tento manter a experiência de Piaget em
primeiro plano. Talvez não tenha acontecido dessa maneira, digo a mim mesmo, ou talvez nem
sequer tenha acontecido. E ainda que tenha, a ligação entre os eventos passados e a memória
que temos deles não é mimética. A memória não pode nos dar acesso direto a algo como foi ou
como aconteceu de fato. Tudo é, de alguma forma, revisado, reformulado ou reconstruído
pelo processo de recordar. Como poderia ser diferente? Mesmo duas testemunhas do mesmo
evento — por exemplo, um acidente de trânsito — que tentem ser sinceras e imparciais ao
relatar os fatos invariavelmente apresentarão histórias diferentes. E rapidamente, e sem
nenhuma intenção malévola, a verdade se torna uma espécie de ficção.
*
No hospital, fui sedado. Quando a névoa começou a se dissipar, a primeira coisa que registrei
foi que o quarto estava pintado com uma tonalidade horrenda de turquesa. Somente mais tarde
percebi meu pai, que estava sentado imóvel ao lado da cama. Seu rosto estava pálido, cor de
cera, e, no meu estado de confusão, ele parecia uma presença fantasmagórica. Também parecia
grande demais para o espaço, como se o teto baixo e as paredes estreitas não fossem capazes
de contê-lo. Olhamos um para o outro em silêncio por algum tempo, e então o fantasma falou,
perguntando numa voz tão gentil que ficou gravada em minha memória: “Você quer conversar
sobre isso, Eddie?” É claro que era cedo demais para saber o que “isso” era, poderia ser ou
teria sido.
Sem responder, virei para contemplar meu estranho ambiente. Uma cúpula rasgada pendia
da luminária do teto, e o gabinete ao lado da cama tinha manchas marrons de queimaduras de
cigarro. No batente da janela, havia um vaso com uma planta de plástico que não lembrava
nada do mundo natural. Mesmo agora ainda posso lembrar aquele quarto em seus terríveis
detalhes, um lugar tão destituído de beleza que é impossível crer que poderia ter sido
projetado tendo em mente o bem-estar de alguém.
Quando a médica chegou, ela se referiu ao que havia acontecido no dia anterior,
chamando-o cet épisode, como se ele fosse um capítulo de novela. Ela me pediu repetidas vezes para lhe dizer o que me levou àquilo. “Desde o princípio, por favor, em suas próprias
palavras.” Pareceu estranho quando ela disse “em suas próprias palavras”, como se pudesse
ter havido outras palavras, que pertencessem a outra pessoa e que eu tivesse escutado. E,
ainda assim, quando, por fim, falei, as palavras não pareciam de fato ser minhas. Soavam
como se estivessem saindo do quarto ao lado, e diminuindo de velocidade devagar como um
velho gramofone. A médica parecia estar em fim de plantão, rugas nas bochechas e um leve
inchaço em torno dos olhos que sugeria noites passadas em claro. Ela dava a impressão de
querer estar em outro lugar, qualquer lugar exceto lá comigo naquele quarto terrível. O que eu
podia lhe contar sobre o que aconteceu? Que houve uma aula sobre silogismo? Que todos os
homens eram mortais, que Sócrates era um homem e que, portanto, Sócrates era mortal? Eu
queria facilitar o trabalho dela, para compensá-la por sua falta de sono, mas as respostas
certas me escapavam.
— Mais uma vez, seja o mais fiel que você puder — disse ela.
Eu não tinha desejo algum de faltar com a verdade, mas sem dúvida eu era uma testemunha
nada confiável, sem nenhum meio de julgar se o que dizia era verdade ou não. Meu pai sempre
sustentou que era fácil se embaralhar com a verdade e difícil saber o que alguém deseja ao
dizê-la. Algo pode ter a aparência da verdade, ele dizia, até o som da verdade, sem ser de fato
verdade.
Era um esforço pensar no que dizer para a médica. E, a qualquer momento, ela me
perguntaria sobre sexo. Eu lera o bastante de Freud e psicanálise para saber que todos os
estados mentais podem ser reconstituídos até o sexo. Mas, na verdade, ela não mencionou o
assunto, pelo que agradeci, até porque, apesar do meu estado de insensibilidade, eu notara o
formato de seus seios por baixo do jaleco branco.
Uma ou duas semanas depois, meu amigo Antoine foi me visitar e perguntou se eu estava
tendo problemas com mulheres. Des problèmes de nanas, disse ele.
— Problema com mulheres? Como assim?
— Bem, você sabe... mulheres podem levar a um bocado de problemas. — disse ele. Ele
estava usando uma jaqueta cara, que ainda tinha cheiro de couro novo. — Elas dão sinais
contraditórios, difíceis de interpretar. Isso pode fazer sua cabeça pirar. — Ça te prend la tête,
foi como ele disse. — Talvez tenha sido isso que aconteceu com você. — Antoine era filho de
pais abastados que haviam comprado um apartamento para ele na região à margem esquerda
do rio Sena. Era um período difícil na vida de um homem, disse ele, estar na universidade.
Todo aquele estímulo — intelectual, moral, sexual — podia ser opressivo. Ele insistiu no
assunto por um tempo, e, na luz desagradável do quarto, seu rosto tomou um tom amarelado, como se tivesse sido alimentado com milho.
“Se pensarmos a respeito, há muito mais no desejo sexual que a necessidade sexual”, disse
ele, examinando a tinta turquesa que descascava na parede atrás dele e arrancando pedaços
dela com suas unhas brancas brilhantes. “Essa é uma percepção posterior ao fato, é claro. Na
ocasião, quando você é arrebatado pelo momento, a necessidade sexual é tudo o que importa.”
Ele já se levantara de sua cadeira e estava andando pelo quarto, com as mãos nos bolsos, a
cabeça fazendo que sim, concordando consigo mesmo — uma galinha que ciscava em torno de
seus próprios detritos.
— Quer dizer, a gente compartilha os ideais com uma moça e, quando se dá conta, está
compartilhando corpos. Uma pessoa acontece num espaço moral diferente da outra. Depois, o
que se sente é a perda da inocência e a impossibilidade de readquiri-la.
Ao terminar de dizer isso, ele se despediu subitamente, prometendo retornar na semana
seguinte e expressando seus votos pela minha pronta recuperação.