O Tom Ausente de Azul
Capítulo 45
Na última sexta-feira de novembro, Alice promoveu uma exposição fechada das obras mais
recentes de Carrie em sua galeria. Eu já tinha, é claro, comparecido a exposições antes, mas
havia algo novo e emocionante em ser convidado para uma exposição fechada. Também me
senti um pouco nervoso. A arte era misteriosa, e eu não tinha certeza sobre como falar com
inteligência sobre ela. Passei um tempo maior do que o habitual me aprontando, considerando
cuidadosamente o que vestir, decidindo-me, ao final, a favor de uma camisa de seda cinza sem
gravata.
A atmosfera era de celebração, como numa festa, repleta de saudações calorosas e risadas
altas. Tudo dava a impressão de ser um pouco exagerado, e, no entanto, real. Alice, radiante
num vestido transparente vermelho, saudou-me como a um velho amigo. Caminhei para ela
com obediência, e, em seguida, ela me apresentou ao marido Charles, um homem bonito de
mãos macias agradáveis, unhas brilhantes e jeito sofisticado. De imediato, vivi uma espécie
de pânico provocado por estar ciente dos detalhes do caso de Sanderson com a esposa desse
homem. Especialmente já que Charles e Alice me pareciam anfitriões perfeitos, o casal
perfeito na verdade — bonitos, charmosos e enaltecendo perfeitamente um ao outro, não
apenas pela aparência física, como pelo modo de agir e o modo como se tratavam. Charles era
gentilmente solícito com Alice, curvando-se para ouvir o que ela estava dizendo, tocando-a
repetidamente e sendo refinado de um jeito antigo. Eles davam a impressão de combinar com
tamanha intensidade que eu achava impossível crer que não eram, de fato, amantes. As
aparências enganam, concluí, e não há explicação para a preferência sexual. Surpreendeu-me
também o quanto Charles parecia realçar os encantos de Alice. Quando nos conhecemos no
apartamento de Sanderson, e mais tarde quando fui à galeria, ela havia me parecido teatral e
afetada; contudo, com o marido, ela parecia uma pessoa de verdade, que se tornara completa e dotada de certo propósito. Ainda tinha presença de palco — nessa ocasião, o grande espaço
da mostra era seu teatro —, mas sua atuação parecia mais natural, como se tivesse deixado de
ser atriz e, em vez disso, entrado de vez na personagem.
Pinturas — essas pinturas, pelo menos — pareciam ser, ao mesmo tempo, menos ambíguas
e mais ambíguas do que a palavra escrita. Eu me movia devagar de uma para a outra,
pensando em toda a energia e na emoção que haviam sido usadas para criá-las. A exposição
levava o título Deslocamento, e estava claro, mesmo para o olho não treinado, que as doze
peças eram todas ligadas por um tema. Cada uma das grandes telas mostrava uma figura,
sempre nas margens, nunca no centro. A figura tinha uma presença forte, mas era — como
Alice indicara — o tipo de presença que implica uma ausência: invariavelmente, a visão por
trás, levemente contornada, o rosto virado, olhando para fora da borda da pintura, como que
pronto para deixar o mundo. O imenso espaço em volta da figura era estranhamente poderoso.
Era também — essa era apenas a minha impressão — um pouco ameaçador. As cores no
centro eram claras, ficando mais escuras nas bordas. Para mim, não havia dúvida de que a
tristeza da artista vazara na tela, espalhando-se em toda a sua extensão, usando o quadro como
instrumento. Em duas ou três das pinturas, havia outra figura, uma imagem menor,
tremeluzente, ondulante, que eu presumi ser uma versão da própria Carrie — um anjo da
guarda pairando em segundo plano. Não, disse Carrie algum tempo depois, quando comentei
sobre essa segunda figura. Era provavelmente algum tipo de espírito benigno, explicou, mas
tão supérfluo e inútil quanto uma sombra. Então, por que estava ali?, perguntei. Quem sabe?,
respondeu ela. As coisas borbulham sob a superfície e às vezes fervem e vêm à tona,
esparramando-se sobre a tela. Pintar era apenas uma forma de se conectar com o mundo, estar
viva nele, e de certo modo manter o mundo a distância. Algo fez o caminho de dentro para
fora, e essa coisa podia vir devagar de uma região remota ou da região mais acessível da
mente, disse ela. Parecia se originar da mesma semente, mas, a cada vez, a germinação era
ligeiramente distinta. Ela achava que devia ser algum tipo de interação entre a pintura e a
vida, mas era malcompreendida, não havia certeza ali.
— É como a sua tradução: na melhor das hipóteses, provisória.
— É, mas por que você é tão pessimista quanto a isso, tão dura consigo mesma?
— Não sou, não — respondeu ela de imediato, como se tivesse havido um engano terrível.
Fixou o olhar em mim. — Isso é como você vê, não como eu vejo. E você está projetando em
mim o que vê.
*
Olhei em volta da galeria, para a aglomeração de pessoas. Um pouco antes do Natal era uma
boa época para fazer uma exposição, dissera Alice. As pessoas estavam otimistas e com
vontade de fazer compras. E, com toda certeza, várias das pinturas já estavam sinalizadas
como vendidas. Mais tarde, quando perguntei a Carrie se tinha sentimentos contraditórios
quanto a se desfazer delas, ela pensou por um instante antes de responder. Depois, disse:
“Acho que é um pouco como deixar um filho sair para o mundo. Uma mistura de alegria e
angústia.”
Embora o mundo da arte, como o acadêmico, tivesse a reputação de ser atormentado pela
inveja, não consegui ver indícios naqueles reunidos na galeria. Deviam ser umas cem pessoas,
todas elas aparentemente envolvidas em conversa animada. O ambiente parecia vivo com
alegria e cordialidade genuínas. Imaginei essas pessoas voltando para suas casas, um quarto
ou um apartamento em algum lugar, fechando a porta atrás de si e tratando de suas outras
vidas, inventando e reinventando a si mesmas com facilidade. Observando e ouvindo, senti a
inclinação oposta e dolorosamente familiar que me separava da multidão. Essa velha sensação
fixou residência na minha boca, onde se tornou um gosto amargo, inalterado pelo vinho e pelos
canapés que circulavam em pequenas bandejas de prata. Era algo que tinha acontecido antes,
principalmente quando ficou gravado em mim que eu sempre estava fora dos limites da
história de outra pessoa e que ninguém estava dentro da minha. Desse pensamento, foi apenas
um pulo para me imaginar num dos imensos quadros de Carrie, outra figura triste e solitária
matando o tempo na borda da tela.
De repente, Sanderson estava ao meu lado, piscando os olhos na luz forte. Suas roupas
estavam amarrotadas e sujas — o uniforme de uma vida sem esperanças. Ele poderia se juntar
facilmente ao mendigo na caixa de papelão do lado de fora de seu próprio prédio. Com a
aparência desleixada, feridas abertas, barba cheia de falhas e unhas sujas, Sanderson fazia o
marido de Alice parecer um deus grego. As luzes da galeria lhe davam um aspecto doentio, o
que acentuava o resto de sua aparência mórbida — olhos vermelhos, lesões na pele, dentes
sujos, roupas escurecidas pelo suor nas axilas. Ele fungou e disse: “Bem-vindo ao mundo da
arte, Eddie”, e eu senti um pouco de seu mau hálito. Horrendo. Será que sua putrefação interna
estava agora vazando pelos poros e pela cavidade oral? Carrie mencionara o cheiro da
depressão, mas com certeza ela não podia ser responsabilizada por esse estágio avançado de
ranço. Emanações gasosas de um embrulho que apodrecia. Como ele havia chegado a esse
ponto? Tinha de ser algo recente; caso contrário, como alguém teria sobrevivido a se
relacionar com ele?
Fora a sensação familiar de deslocamento, eu estava relutante em deixar a galeria e sua atmosfera de festa. Isso se devia a eu ter detectado outra sensação — um leve indício de
escape do meu eu de todos os dias, de todas as coisas que me cercavam e me fixavam no
mesmíssimo lugar. Do lado de fora, Sanderson estava na entrada, tentando acender o
cachimbo. “Quer fazer uma boquinha, Eddie”, balbuciou entre baforadas. “Devemos esperar a
ilustre artista?” Quando Carrie saiu, com o rosto corado com a agitação da noite, sorriu para
nós e, de braços dados, nos segurou com firmeza enquanto meio andava, meio dançava ao
longo da calçada. Seus cabelos estavam enfiados numa boina vermelha, e uma echarpe de seda
lhe envolvia o pescoço. Por um momento, pensei nela como Jeanne Moreau em Uma mulher
para dois, cativando os dois homens com seu vigor e sua impulsividade. E, então, lembrei que
no filme de Truffaut isso não durou nem terminou bem.