O Tom Ausente de Azul

Jennie Erdal · Capítulo 46 de 59

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O Tom Ausente de Azul

Capítulo 45

 

Na última sexta-feira de novembro, Alice promoveu uma exposição fechada das obras mais

recentes de Carrie em sua galeria. Eu já tinha, é claro, comparecido a exposições antes, mas

havia algo novo e emocionante em ser convidado para uma exposição fechada. Também me

senti um pouco nervoso. A arte era misteriosa, e eu não tinha certeza sobre como falar com

inteligência sobre ela. Passei um tempo maior do que o habitual me aprontando, considerando

cuidadosamente o que vestir, decidindo-me, ao final, a favor de uma camisa de seda cinza sem

gravata.

A atmosfera era de celebração, como numa festa, repleta de saudações calorosas e risadas

altas. Tudo dava a impressão de ser um pouco exagerado, e, no entanto, real. Alice, radiante

num vestido transparente vermelho, saudou-me como a um velho amigo. Caminhei para ela

com obediência, e, em seguida, ela me apresentou ao marido Charles, um homem bonito de

mãos macias agradáveis, unhas brilhantes e jeito sofisticado. De imediato, vivi uma espécie

de pânico provocado por estar ciente dos detalhes do caso de Sanderson com a esposa desse

homem. Especialmente já que Charles e Alice me pareciam anfitriões perfeitos, o casal

perfeito na verdade — bonitos, charmosos e enaltecendo perfeitamente um ao outro, não

apenas pela aparência física, como pelo modo de agir e o modo como se tratavam. Charles era

gentilmente solícito com Alice, curvando-se para ouvir o que ela estava dizendo, tocando-a

repetidamente e sendo refinado de um jeito antigo. Eles davam a impressão de combinar com

tamanha intensidade que eu achava impossível crer que não eram, de fato, amantes. As

aparências enganam, concluí, e não há explicação para a preferência sexual. Surpreendeu-me

também o quanto Charles parecia realçar os encantos de Alice. Quando nos conhecemos no

apartamento de Sanderson, e mais tarde quando fui à galeria, ela havia me parecido teatral e

afetada; contudo, com o marido, ela parecia uma pessoa de verdade, que se tornara completa e dotada de certo propósito. Ainda tinha presença de palco — nessa ocasião, o grande espaço

da mostra era seu teatro —, mas sua atuação parecia mais natural, como se tivesse deixado de

ser atriz e, em vez disso, entrado de vez na personagem.

Pinturas — essas pinturas, pelo menos — pareciam ser, ao mesmo tempo, menos ambíguas

e mais ambíguas do que a palavra escrita. Eu me movia devagar de uma para a outra,

pensando em toda a energia e na emoção que haviam sido usadas para criá-las. A exposição

levava o título Deslocamento, e estava claro, mesmo para o olho não treinado, que as doze

peças eram todas ligadas por um tema. Cada uma das grandes telas mostrava uma figura,

sempre nas margens, nunca no centro. A figura tinha uma presença forte, mas era — como

Alice indicara — o tipo de presença que implica uma ausência: invariavelmente, a visão por

trás, levemente contornada, o rosto virado, olhando para fora da borda da pintura, como que

pronto para deixar o mundo. O imenso espaço em volta da figura era estranhamente poderoso.

Era também — essa era apenas a minha impressão — um pouco ameaçador. As cores no

centro eram claras, ficando mais escuras nas bordas. Para mim, não havia dúvida de que a

tristeza da artista vazara na tela, espalhando-se em toda a sua extensão, usando o quadro como

instrumento. Em duas ou três das pinturas, havia outra figura, uma imagem menor,

tremeluzente, ondulante, que eu presumi ser uma versão da própria Carrie — um anjo da

guarda pairando em segundo plano. Não, disse Carrie algum tempo depois, quando comentei

sobre essa segunda figura. Era provavelmente algum tipo de espírito benigno, explicou, mas

tão supérfluo e inútil quanto uma sombra. Então, por que estava ali?, perguntei. Quem sabe?,

respondeu ela. As coisas borbulham sob a superfície e às vezes fervem e vêm à tona,

esparramando-se sobre a tela. Pintar era apenas uma forma de se conectar com o mundo, estar

viva nele, e de certo modo manter o mundo a distância. Algo fez o caminho de dentro para

fora, e essa coisa podia vir devagar de uma região remota ou da região mais acessível da

mente, disse ela. Parecia se originar da mesma semente, mas, a cada vez, a germinação era

ligeiramente distinta. Ela achava que devia ser algum tipo de interação entre a pintura e a

vida, mas era malcompreendida, não havia certeza ali.

— É como a sua tradução: na melhor das hipóteses, provisória.

— É, mas por que você é tão pessimista quanto a isso, tão dura consigo mesma?

— Não sou, não — respondeu ela de imediato, como se tivesse havido um engano terrível.

Fixou o olhar em mim. — Isso é como você vê, não como eu vejo. E você está projetando em

mim o que vê.

 

*

Olhei em volta da galeria, para a aglomeração de pessoas. Um pouco antes do Natal era uma

boa época para fazer uma exposição, dissera Alice. As pessoas estavam otimistas e com

vontade de fazer compras. E, com toda certeza, várias das pinturas já estavam sinalizadas

como vendidas. Mais tarde, quando perguntei a Carrie se tinha sentimentos contraditórios

quanto a se desfazer delas, ela pensou por um instante antes de responder. Depois, disse:

“Acho que é um pouco como deixar um filho sair para o mundo. Uma mistura de alegria e

angústia.”

Embora o mundo da arte, como o acadêmico, tivesse a reputação de ser atormentado pela

inveja, não consegui ver indícios naqueles reunidos na galeria. Deviam ser umas cem pessoas,

todas elas aparentemente envolvidas em conversa animada. O ambiente parecia vivo com

alegria e cordialidade genuínas. Imaginei essas pessoas voltando para suas casas, um quarto

ou um apartamento em algum lugar, fechando a porta atrás de si e tratando de suas outras

vidas, inventando e reinventando a si mesmas com facilidade. Observando e ouvindo, senti a

inclinação oposta e dolorosamente familiar que me separava da multidão. Essa velha sensação

fixou residência na minha boca, onde se tornou um gosto amargo, inalterado pelo vinho e pelos

canapés que circulavam em pequenas bandejas de prata. Era algo que tinha acontecido antes,

principalmente quando ficou gravado em mim que eu sempre estava fora dos limites da

história de outra pessoa e que ninguém estava dentro da minha. Desse pensamento, foi apenas

um pulo para me imaginar num dos imensos quadros de Carrie, outra figura triste e solitária

matando o tempo na borda da tela.

De repente, Sanderson estava ao meu lado, piscando os olhos na luz forte. Suas roupas

estavam amarrotadas e sujas — o uniforme de uma vida sem esperanças. Ele poderia se juntar

facilmente ao mendigo na caixa de papelão do lado de fora de seu próprio prédio. Com a

aparência desleixada, feridas abertas, barba cheia de falhas e unhas sujas, Sanderson fazia o

marido de Alice parecer um deus grego. As luzes da galeria lhe davam um aspecto doentio, o

que acentuava o resto de sua aparência mórbida — olhos vermelhos, lesões na pele, dentes

sujos, roupas escurecidas pelo suor nas axilas. Ele fungou e disse: “Bem-vindo ao mundo da

arte, Eddie”, e eu senti um pouco de seu mau hálito. Horrendo. Será que sua putrefação interna

estava agora vazando pelos poros e pela cavidade oral? Carrie mencionara o cheiro da

depressão, mas com certeza ela não podia ser responsabilizada por esse estágio avançado de

ranço. Emanações gasosas de um embrulho que apodrecia. Como ele havia chegado a esse

ponto? Tinha de ser algo recente; caso contrário, como alguém teria sobrevivido a se

relacionar com ele?

Fora a sensação familiar de deslocamento, eu estava relutante em deixar a galeria e sua atmosfera de festa. Isso se devia a eu ter detectado outra sensação — um leve indício de

escape do meu eu de todos os dias, de todas as coisas que me cercavam e me fixavam no

mesmíssimo lugar. Do lado de fora, Sanderson estava na entrada, tentando acender o

cachimbo. “Quer fazer uma boquinha, Eddie”, balbuciou entre baforadas. “Devemos esperar a

ilustre artista?” Quando Carrie saiu, com o rosto corado com a agitação da noite, sorriu para

nós e, de braços dados, nos segurou com firmeza enquanto meio andava, meio dançava ao

longo da calçada. Seus cabelos estavam enfiados numa boina vermelha, e uma echarpe de seda

lhe envolvia o pescoço. Por um momento, pensei nela como Jeanne Moreau em Uma mulher

para dois, cativando os dois homens com seu vigor e sua impulsividade. E, então, lembrei que

no filme de Truffaut isso não durou nem terminou bem.