O Tom Ausente de Azul

Jennie Erdal · Capítulo 56 de 59

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O Tom Ausente de Azul

Capítulo 55

 

O problema do Natal se aproximava. Carrie dizia que se sentia oprimida pela data. Ela

tentava ignorá-la o quanto podia, evitando a iluminação da época e a música de Papai Noel,

toda aquela alegria festiva forçada. Era apenas um tempo pelo qual se devia passar, comentou.

Passamos parte do dia de Natal juntos, mas não foi nada de mais. Na manhã, ela visitara

Alfie na unidade psiquiátrica, onde fora surpreendida por uma missa de Natal especial. A

desolação ocasionada pelo que ela chamava de toda essa bobagem de Jesus a acompanhou o

dia inteiro. Era algo que ela normalmente teria mudado os hábitos para evitar, mas se tratava

de um hospital no Natal, e as opções eram, como é compreensível, limitadas. Havia poucos

presentes na missa, só alguns membros das famílias e uns poucos funcionários e pacientes,

incluindo Alfie, que ganhara “permissão para sair” no dia de Natal. Embora preferível a uma

cela trancada, Carrie disse, com amargura, que era muito questionável. Ainda assim, a falta de

congregação deu ao capelão a oportunidade de dizer: “Onde dois ou mais estiverem reunidos

em Meu nome, Eu estarei entre vós.” Carrie riu enquanto me contava isso, mas era uma risada

vazia. Servi-lhe uma taça de vinho, esperando animá-la. O capelão tinha todos os defeitos

comuns à sua profissão, disse, mas era um homem decente o bastante, e ela lhe deu nota

máxima por tentar e levantou sua taça de modo teatral: “A mensagem do Natal é de

esperança”, proclamou, sua voz estudada, com modulações esquisitas, para imitar o clérigo.

Acho que ele estava apenas fazendo seu trabalho, comentei, esperando colocar de lado o

assunto. Mas Carrie ainda não havia terminado. Durante o sermão, o capelão havia

interpretado tudo — cada coisa boa, cada coisa ruim, cada coisa — como um sinal do plano

de Deus. “Ele estava vendo sinais por toda a parte”, disse ela, “do mesmo modo que os

internos do hospital psiquiátrico”. E, mesmo assim, estava livre para sair do prédio depois,

enquanto os internos tinham que retornar aos seus quartos para receber tratamento. O que também a perturbava era o fato de que a religião florescia em meio ao medo, e uma unidade

psiquiátrica era um ambiente onde o medo era endêmico. Não só o medo louco dos pacientes

— todos os invasores do espaço e as mensagens messiânicas —, mas o medo desalentador de

suas famílias, disse ela. Pensei, então, no medo de minha mãe e em seus próprios esforços

tresloucados para agradar a Deus. As pessoas se voltam para a religião em momentos de

aflição, disse Carrie. Elas se agarravam a qualquer coisa no desespero por respostas. “E o

que acontece? Elas recebem papinha.” O que era papinha?, perguntei. “Ah, você sabe, comida

de bebê. Mingauzinho, coisas fáceis de engolir.” Uma das coisas que mais a atraía em Harry,

disse subitamente, como se trocasse de marcha, era sua descrença. “Nada, não importa quanta

angústia ou aflição, nada nunca abalara isso.”

Sem dúvida, Sanderson estava por toda parte, como se tivesse retornado dos mortos.

Todas as conversas voltavam a ele. Às vezes, eu conseguia ver seu corpo inchado flutuando

diante dos meus olhos, o que me fazia pensar na história terrível de Ionesco sobre um cadáver

inchado que cresce continuamente no quarto ao lado até que preenche todo o espaço.