O Tom Ausente de Azul

Jennie Erdal · Capítulo 57 de 59

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O Tom Ausente de Azul

Capítulo 56

 

Perto do fim de janeiro, quando Edimburgo estava sob o rigor do inverno, Carrie me disse que

precisava fugir. O inverno na cidade era uma época cinzenta demais. O que ela desejava

ardentemente era cor. Eu iria com ela? Ela ainda não se sentia capaz de ir só. Ela me

mostraria sua ilha, saindo da costa oeste, o lugar que chamava de lar. Fevereiro era um mês

mais ameno, repleto da promessa da primavera, os dias estariam começando a se estender, e

eu poderia sentir o manto do inverno se levantando, comentou. Mas e quanto ao trabalho?,

perguntei, desprezando meu autocontrole — havia apenas algumas semanas restantes para

mim, expliquei. Às vezes, quando queremos dizer sim, dizemos não. Que mal faria lhe contar a

verdade: que eu estava entusiasmado por ter sido convidado? Se eu perdesse a oportunidade,

seria por minha única e exclusiva culpa.

Mas não perdi a oportunidade. Podiam ser férias de trabalho, disse ela, que levaria suas

pinturas, eu levaria meus livros.

Alguns dias mais tarde, ela me fez outra visita, dessa vez corada e de bom humor. Os

médicos haviam dito que Alfie estava melhorando sem sombra de dúvida, que ele estava bem

o bastante para passar algum tempo fora da unidade, desde que sob supervisão. Ela adoraria

levá-lo para a ilha, afirmou. Era um lugar tão seguro, nada ameaçador para ele como a cidade.

Tudo bem? Eu ia me incomodar? Dessa vez, não hesitei.

 

Levava quase um dia para chegar à ilha de Carrie — várias horas de estrada; uma longa

travessia de balsa; em seguida, uma curta travessia de balsa; depois, cerca de mais uma hora

por estradas estreitas, com o mar cintilante visível e cercando-nos por todos os lados.

Cobrimos a última parte da viagem numa trilha difícil. A última vez que eu viajara nesse

carro, tinha sido com Sanderson a caminho do rio. Ele ainda cheirava a tabaco de cachimbo. Ninguém disse nada, mas eu tinha certeza de que cada um de nós carregava a lembrança dele.

Alfie se sentou no banco de trás e não disse muito, olhando pela janela, de vez em quando

traçando desenhos no vidro com os dedos. Eu ficara nervoso com a ideia de conhecê-lo, mas

me afeiçoei a ele imediatamente. Tinha imaginado que fosse reprimido e quieto, embotado

pela medicação de que precisava para se manter sob controle. Mas ele estava alerta, aberto

para o mundo, intensamente vivo e interessado em tudo. Ele movia o rosto sem parar e, ainda

assim, era inescrutável, um delicioso mistério esperando para ser desvendado. Parecia não

haver aspereza alguma em Alfie, e ele tinha uma aparência de elfo — diminuto, uma cabeleira

ruiva, olhos verde-claros e uma espécie de charme mágico. “Ele mudou com a doença”,

contou-me Carrie, antes de começarmos a viagem, “mas muitas coisas nele não mudaram. Ele

ainda é sensível e afetuoso. E não perdeu nada de sua humanidade”.

Quando chegamos à casa de campo, a escuridão já se instalara. Nessa parte do mundo, a

noite era tão negra quanto pode ser, mais negra do que qualquer coisa que eu já tivesse

conhecido. Abrimos a porta da frente, e o sino no batente soou, um som delicado como o sino

de uma vaca.

 

Acordei na manhã seguinte com o cheiro de café. O que significava outro ser humano. É claro.

A sensação de não estar sozinho se espalhou por mim como uma droga. Antes do café da

manhã, saí. A luz começava a surgir no leste, mas já se fazia presente nos reflexos da água do

mar — mais vivo que no dia anterior, suas ondas agora com bordas brancas. A água estava a

apenas alguns metros do chalé. Eu podia ouvi-la surgindo e se aproximando da areia.

Conforme a luz se intensificava, era possível identificar duas ou três ilhas a pouca distância e,

além delas, distante, o contorno marcado por entalhes do continente, onde embarcáramos na

primeira balsa. Enquanto eu respirava o ar mais puro que já tinha respirado, Carrie apareceu

ao meu lado com uma caneca de café.

— O que você acha? — perguntou, segurando meu braço. — Não é maravilhoso?

— É de tirar o fôlego.

— De tirar e de dar fôlego, os dois ao mesmo tempo. — Sua aparência era radiante. A luz

em seu rosto era sublime, transmitida de outro planeta.

O chalé pertencia ao avô dela. Era uma velha blackhouse — a morada típica das Ilhas

Ocidentais até o início do século XX, explicou. As famílias viviam em blackhouses com os

animais que criavam — animais de um lado, pessoas do outro, com o piso num declive, de

modo que todos os excrementos, líquidos e sólidos, permaneciam na extremidade mais baixa.

— Você está dormindo na extremidade mais baixa — disse ela, rindo e jogando a cabeça para trás, como fizera em seu estúdio na primeira vez que conversamos.

Ela me contou que, no tempo de seu avô, não havia janelas nem chaminé no chalé. Mesmo

assim, um fogo de turfa queimara constantemente no meio do cômodo, com a fogueira subindo

naturalmente pela palha.

— Deve ter sido uma vida difícil — disse eu, mal conseguindo imaginar como o que ela

descrevia era desagradável. Talvez sim, disse ela, mas tenho a impressão de que também era

uma vida boa, porque as blackhouses se baseavam na prudência da vida holística. A turfa e a

urina animal agiam como um antídoto natural para males pulmonares e outras doenças.

— Quando as chaminés foram instaladas e os animais, removidos, tudo em nome da

civilização, houve surtos de tuberculose e coisas assim — disse ela.

O povo local também havia começado a perder suas habilidades e seu conhecimento, “do

mesmo jeito que os bosquímanos do Kalahari quando todos os ‘benfeitores modernizadores’

apareceram”.

Mesmo com janelas e sem animais, o chalé era bastante apertado. Havia apenas dois

ambientes: o “ambiente dos animais” — o pequeno espaço onde eu trabalhava e dormia — e o

“ambiente de tudo”, para cozinhar, comer e sentar ao lado do fogo. No ambiente de tudo, havia

também um nicho localizado no alto da parede grossa externa — era a cama de Carrie, e,

embora ele parecesse estreito demais, era lá que seus dois avós dormiam. Adjacente à casa,

havia uma casinha de madeira, fixada no chão por quatro grandes estacas e com janelas nos

dois lados dando para o norte e o leste. Meu estúdio na ilha, disse Carrie. Era ali que ela

trabalhava na primeira parte do dia. As noites eram dedicadas a Alfie — “dessa forma ele

pode ficar sozinho se quiser, sem sentir que precisa se juntar a mim o tempo inteiro”,

comentou. O estúdio também tinha uma cama nas vigas. Fora a cama de Alfie quando criança,

e ele parecia genuinamente satisfeito por reencontrá-la.

Durante os primeiros dias, fiquei assombrado pela simples variação das condições

atmosféricas. Eu nunca havia experimentado tanta mudança, certamente não numa sucessão tão

rápida, nem de uma forma que me fazia sentir parte do imenso movimento impulsivo dos

elementos. Em Paris, era possível viver sem notar o clima, fora o calor sufocante do metrô

durante o verão. Aqui, nada durava muito, exceto talvez o vento. Aprendi a olhar o vasto céu

do oeste para ver o que estava se aproximando. Às vezes, a chuva batia nas janelas como

mãos cheias de arroz, mas as nuvens de repente se encolhiam outra vez e revelavam um sol

imenso. Mesmo sem sol, havia uma característica radiante na luz, como havia com a cor do

mar — às vezes azul, outras de um verde luminoso. As ilhas a distância pareciam

misteriosamente ir e vir, surgindo tímidas pela névoa ou emergindo dramaticamente do mar, num minuto enquadradas na forte luz clara, no seguinte desaparecendo por trás de um véu de

chuva fina.

A maior parte do tempo ficávamos calados, sentados em silêncio, que só era quebrado

pelo grito das aves marinhas mergulhando. “Vivendo aqui, a gente consegue se ouvir”, disse

Carrie, e eu sabia o que ela queria dizer. Alfie passava os dias coletando coisas da praia, às

vezes as organizando na areia em colagens impressionantes. Quando vinha a maré, ele ficava

parado observando sua criação ser levada de volta para o mar. Você não se importa?,

perguntei a ele. Não, respondeu, ele achava empolgante. Quanto a mim, eu passava muito

tempo olhando as pedras e as ondas, tentando fixar na memória, como uma pintura, o espírito

desse lugar especial.

Certo dia, enquanto saíamos para uma caminhada, nós três fomos apanhados por uma

tempestade. O céu escureceu de repente, e o vento sugava a areia bruscamente para cima. Não

se preocupe, disse Carrie, é só uma rajada de vento. Rajada? A forma que pronunciei essa

palavra fez Alfie rir, e eles começaram a correr na frente, mãe e filho de braços dados,

seguidos por mim, fingindo estar ofendido. Corremos por todo o caminho até o chalé, tentando

vencer a chuva, que nos apanhou na reta final, ventando horizontalmente, correndo nos nossos

rostos, penetrando as mangas das nossas roupas. Quando chegamos, estávamos fazendo

algazarra e gritando com os elementos enquanto passávamos amontoados pela porta,

ensopados de chuva e de risos.

Pela manhã, Carrie pintava na casinha como se estivesse possuída. Não por demônios, mas

por bons espíritos das Hébridas. Enquanto isso, na sala dos animais, eu me sentava em frente

ao computador ao lado da janela, observando-a. Ela estava de costas para mim, flexionando-

se e se contorcendo na mesma posição que, imagino, havia cativado Sanderson tantos anos

antes na Signet Library. Observar Carrie pintar parecia me ajudar no trabalho. Minha rotina

fora quase abandonada, e havia muitas distrações; mesmo assim, os ensaios iam de vento em

popa. Eu chegava a ter a sensação de que nunca tinha trabalhado tão bem. Cada vez que a via

trabalhar em seu cavalete, isso me trazia bons pensamentos, e eu sentia uma satisfação

profunda — joie, até. Ocorreu-me, então, que, como tradutor, ou como artista, era possível

levar uma vida tranquila e honrosa. Não havia trapaça envolvida, nenhuma desonestidade.

Ninguém era prejudicado no processo. Sua integridade estava resumida nas palavras ou nas

pinceladas.

Era estranho estar no refúgio de Carrie, nas Hébridas com Alfie e sem Sanderson — era

tudo tão diferente e novo; e, no entanto, parecia certo. Era ainda mais estranho fazer parte de

uma casa, ajudar com tarefas domésticas, acender o fogo, descartar o lixo, cozinhar o jantar — em resumo, estar com outras pessoas da forma mais integral do que já estivera antes. Sentia-

me surpreso por me descobrir estar à altura das dificuldades — mesmo uma trilha de pasta de

dente presa na pia não me incomodou. Carrie e eu tínhamos nos tornado um casal, de certa

forma. Um casal de mentirinha, pelo menos, nem que fosse apenas por causa de uma ausência.

Tudo isso eu sabia e compreendia. Refletia se ela, que estava habituada a ausências, também

sentia um pouco disso. Teria Sanderson se tornado apenas outra pessoa ausente em sua vida?

Outra figura atenuada em suas pinturas?

Às tardes, andávamos na praia, pegando destroços de madeira, examinando conchas,

olhando piscinas naturais feitas de pedra, todos os meus sentidos sendo atacados de um modo

maravilhoso. Com o vento e o movimento das ondas, às vezes eu me sentia caindo tonto para

trás, deleitando-me com a sensação. Certo dia, enchi a mão de conchas pequeninas, brilhantes

e delicadas como porcelana, todas fechadas em si e, ainda assim, translúcidas. Feche os olhos

e segure-as nas mãos, pedi, colocando o tesouro cuidadosamente nas mãos estendidas de

Carrie, querendo lhe dar algo, querendo lhe dar tudo. “Búzios!”, disse ela. “Sorte e

prosperidade!” Até aquele momento, eu não havia percebido que era possível ficar tão

animado com tudo isso. Eu era um estrangeiro na ilha, mas a ilha me abraçava, me puxava, de

um modo atávico, como se estivesse armazenada em algum lugar nos meus genes. Acima de

tudo, senti uma ligação comum com outro ser humano, outra forma de vida. Ou melhor, uma

religação com coisas que eu havia esquecido ou nunca havia conhecido. Ou, talvez com

coisas que já existiam em mim, passadas por meu pai, que fizera parte desse lugar. Como pude

pensar que apenas as cidades ofereciam possibilidade de vida? “O resto do mundo não dá

muita importância a essa ilha”, disse Carrie, numa de nossas caminhadas. Mas isso não

importava: era o lar para ela. Nenhum outro lugar lhe transmitia um sentimento tão intenso.

“Quando estou aqui, é como se fôssemos um só.” O lugar foi incorporado nela como um filho,

disse, e estaria para sempre com ela. Quando se está a beira-mar, completou, tudo, inclusive a

própria vida, era lavado e se renovava duas vezes por dia. “Até o sol e o vento se tornam

parte da gente.”

A loja mais próxima, que tinha apenas provisões básicas, ficava a mais de um quilômetro e

meio de distância, e nos revezávamos para apanhar mantimentos. A princípio, fui pelo

caminho principal, o caminho que tomara de carro. Mas Carrie me mostrou um atalho, não

exatamente uma trilha, só um leve corte na machair, a grama macia da duna, destruída pela

umidade e pelo vento.

— Isso se chama linha do desejo — disse ela.

— Ah, outro empréstimo de la belle France — impliquei, acrescentando com falsa arrogância que, quando o assunto era desejo, os franceses eram os especialistas.

— E chemin du désir soa muito melhor, não acha?

Foi na loja que ouvi, pela primeira vez, o gaélico falado — tão adorável e musical que me

senti transportado por ele. De volta à casa nas antigas cocheiras, encontrei o Pai-nosso em

gaélico enquadrado na parede. Pai nosso, que estás no céu; santificado seja vosso nome — Ar

n-athair a tha air nèamh: gu naomhaic-hear d’ainm. As palavras pareciam duras para um

idioma tão suave.

À noite, Alfie dispunha os achados do dia de sua dedicada busca por tesouros na praia. Ao

observá-lo organizando conchas e pedrinhas e pedaços de madeira à deriva em grupos

elaborados, reconheci parte de mim mesmo mais jovem nele. Quando crescemos, por um

tempo esquecemos quem fomos um dia, mas o que quer que tenha força na infância nunca

desaparece por completo. Pode ficar no subterrâneo por um tempo, mas está sempre lá, à

espera. Enquanto isso, Carrie e eu conversávamos até altas horas da noite, especialmente

sobre o trabalho dela e o meu. Parecíamos gostar de encontrar semelhanças entre nós. Era

melhor, de certa forma, “surpreender” uma tradução, afirmei, como se eu nunca a tivesse visto,

como se ela estivesse sendo escrita pela primeira vez. E ela disse que isso era algo que ela

também tentava fazer com a pintura, principalmente lá na ilha. “Tento captar a energia do

lugar, sem fixá-la. Isso vem mais tarde. A própria tinta reage de formas diferentes, vazando e

se descolorindo na tela, e fazemos uso disso até que chega um ponto em que sabemos que está

tudo se encaixando.” Enquanto dizia isso, Carrie mantinha o rosto voltado para a luz, e pensei,

naquele momento, que, por conhecê-la, eu talvez pudesse me tornar uma pessoa melhor, e que,

se isso acontecesse, seria por causa dela.

Em outras ocasiões, eu lhe contava sobre meus autores favoritos, surpreendendo-a certa

vez ao dizer que um bom romance era como um pequeno milagre. Ela me lançou um olhar

confuso, como se para verificar se eu falava sério. Milagre?, perguntou. Apenas no sentido

figurado, respondi, na forma que a ficção nos permite viver vidas diferentes das nossas.

— Desde que seja bem-escrito, a gente é levado, aguardando que tudo se revele, mesmo

sabendo de antemão o que vai acontecer. — E, vez por outra, completei, surge de um romance

algo que poderia ser chamado de verdade; não havia outro nome para isso. — E isso é um

tanto paradoxal, já que a ficção é criada, cheia de mentiras. — A melhor escrita tinha ritmos

particulares, uma música particular, disse eu, e isso era, muitas vezes, a coisa mais difícil de

transmitir na tradução. — Frequentemente, é possível sentir a tristeza nos ritmos, mas, de

algum modo, não é deprimente. Na verdade, é animador de um jeito curioso.

Por um instante, Carrie não disse nada, e eu me perguntava se ela sentia, como eu, que algo igual se aplicava a nós três, ali e agora, uma corrente de tristeza, sim, mas uma ideia de que

todo mundo se recupera novamente. Como se lesse meus pensamentos, ela se dirigiu para a

casinha onde Alfie estava ocupado organizando a coleta da praia.

— Tenho uma fantasia recorrente de que este lugar pode fazê-lo ficar bem. Não curá-lo, é

claro, isso sim seria um milagre. Ele jamais ficará completamente curado. Mas este é um

ambiente de cura.

Durante aquelas semanas mágicas, essa ideia se enraizou em nós e cresceu até virar uma

convicção sólida. Por coincidência, um dos ensaios que eu estava traduzindo na época era

“Dos milagres”, no qual Hume argumenta poderosamente que o nível de indício necessário

para acreditar em milagres é muito alto apenas porque eles são contra as leis da natureza. Um

homem sábio harmoniza suas crenças de acordo com os indícios. Apesar disso, meu indício

estava disposto diante de mim. Da minha janela, eu observava às vezes mãe e filho andando na

praia, o sol dançando em seus rostos, o vento em seus cabelos. De vez em quando, Carrie

jogava a cabeça para trás de prazer, ou cutucava e empurrava Alfie como se implicasse com

ele sobre algo que apenas os dois podiam saber. Eu saboreava esses momentos, desejando que

pudesse fazê-los diminuir de ritmo e durar por horas. Tinha a sensação de que amar uma

criança certamente devia ser uma das melhores expressões do amor. Lembrei-me de que

Sanderson me contara da ponta de ciúme que sentiu, mas, para mim, não houve nenhum traço

disso — só uma ternura que eu não sabia ser possível até então. Também tinha uma espécie de

queimação no peito, um desejo de fazer parte de tudo aquilo. Não conseguia evitar de me

perguntar se podia fazer parte da vida deles, se Carrie e eu juntos poderíamos dar a Alfie o

que ele precisava para progredir. E, se, por sua vez, isso poderia me tornar completo. Meu

coração se sentiu pleno com o pensamento, mas eu não disse as palavras em voz alta, porque

elas ainda não podiam ser ditas. O futuro foi deixado de lado. Tudo era o momento.

Embora o chalé fosse pequeno, respeitávamos o espaço de cada um. O que provavelmente

tinha a ver com nossas existências em lugares semelhantes a celas — Carrie em seu estúdio,

eu na minha mesa, Alfie no quarto do hospital. Nós ficamos bem sozinhos, e, para mim, a

distância entre nós, como todo o resto, se tornou refinada.

Havia uma objetividade radiante em Alfie.

— Você acha que eu sou maluco? — perguntou-me um dia. Ele estava sentado na areia,

atirando pedrinhas numa piscina formada pelas rochas. Às vezes, ele parecia contundente e

fragmentado, como cacos de vidro envoltos cuidadosamente em jornal.

— Importa o que eu penso, Alfie?

— Importa para mim.

— Bem — parei, tateando pelo caminho até a sinceridade, mas com medo de onde ela me

levaria —, eu já fui maluco. Tinha a sua idade, mais ou menos, na verdade. Passei um tempo

numa unidade psiquiátrica, parecida com a sua, acho.

— Você ouvia vozes?

— Eu achava que ouvia. Mas era só a minha voz. Isso também foi assustador.

 

Certa noite, enquanto sentávamos, à luz de velas, próximos ao fogo, Carrie me contou que não

sabia o que esperar de sua pintura durante esse tempo na ilha. Ela havia pensado que a

mudança de cenário — a clareza da terra e do mar, sem mencionar a luz —, tudo isso a levaria

numa nova direção. Mas, na essência, havia muito pouco de diferente. Isso a surpreendeu.

Tudo tinha mudado, mas nada tinha mudado, afirmou. Sua voz cadenciada me inundava. De

uma forma ou de outra, afirmou, sua pintura ainda era toda sobre a perda.

— Os quatro homens que amei na vida se foram.

Eu fiquei brevemente assustado por ela ter chegado a amar quatro homens — e, por um

momento louco, pensei que devia ser um deles e tive de me segurar para não dizer “Não se

preocupe, estou aqui! Eu não fui embora!”. Mas, então, ela começou a listá-los:

— Meu pai. O pai do meu filho. Meu filho. E agora meu ma-rido.

Ela pausava entre cada um dos amores, dando-lhes peso igual.

— Dois deles mortos — suspirou —, e os dois que estão vivos não estão realmente

presentes no mundo.

Na lareira, sobre o fogo, uma vela estalou e se apagou.

— Eu discordo — falei. — Alfie está excepcionalmente presente no mundo.