O Tom Ausente de Azul

Jennie Erdal · Capítulo 2 de 59

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O Tom Ausente de Azul

Capítulo 1

 

No início, não havia nada que indicasse que eu me envolveria em suas vidas como fiz, de

modo tão profundo e irreversível. Até então, faltava-me aptidão para a amizade. Mais tarde,

pensava às vezes no que havia nos Sanderson que teria feito a diferença, o que me puxou e ali

me prendeu, mesmo nos momentos difíceis.

A amizade em si não foi algo que eu tenha buscado. O motivo para ter ido a Edimburgo foi

o trabalho. E o motivo por trás disso — por trás de tudo, de certa forma — foi meu pai. Eu

sabia que, enquanto meu pai vivesse, eu me sentiria intimamente ligado a ele.

De um jeito ou de outro, a maior parte da minha vida se passou em meio a livros, lendo as

histórias de outras pessoas, vivendo de forma indireta por intermédio de personagens que não

existem. A ficção transmite uma sensação de segurança — a gente sabe onde está com ela.

Num filme em preto e branco, por exemplo, é possível confiar nos contornos das coisas: há o

toque estridente de um telefone, ou uma batida à porta, e a gente pode relaxar satisfeito no

assento, sabendo que a história começou. É assim com os filmes. Com os livros também. Cada

começo, um artifício. Mas isso que chamamos de vida real é, na verdade, um continuum,

complicado e sem edições. E, com a própria história, é difícil saber por onde começar ou

mesmo o que contar.

 

Quando Sanderson mencionou pela primeira vez o caso da esposa, seguíamos de carro pela

região de Scottish Borders a caminho de mais um dia de pesca. Era manhã de sábado, o

primeiro de outubro, e a viagem até o rio já era bastante familiar. As samambaias nas colinas

tinham ficado marrons, e me lembro de pensar, enquanto passávamos em alta velocidade, que

as frutinhas vermelhas nas cercas vivas pareciam respingos de sangue. Eu estava em

Edimburgo havia pouco mais de um mês, mas tinha a impressão de que Sanderson já era um velho amigo. Sempre que pensava nisso, parecia um pequeno milagre. Sanderson tinha os

olhos fixos na estrada à frente. Ele pouco falava quando estava pescando, mas boa parte do

que pensava sobre o mundo ou decidia revelar sobre si, despejava ao volante de seu velho

Renault.

Para começar, entendi errado o que ele quis dizer com “caso”. Não porque sou francês ou

porque a expressão que usou fosse nova para mim, mas porque achei que o contexto fosse

médico, e não extraconjugal. Sanderson dera a entender uma ou duas vezes que o estado

mental de sua esposa não era completamente são. E, ainda no dia anterior, eu também havia

levantado minhas próprias suspeitas. Então, quando ele disse ter descoberto o “caso”, me fez

pensar que sua esposa havia procurado ajuda profissional para seus problemas. Com

Sanderson, era incomum entender errado alguma coisa. Em geral, ele era bastante preciso e

raramente deixava dúvidas quanto ao sentido do que dizia, em parte porque usava o corpo

inteiro para se comunicar. No entanto, quando disse: “Descobri o caso da minha mulher,

Eddie”, ele estava rígido no banco, e suas pobres mãos desfiguradas agarravam firmemente o

volante. Além disso, não havia indicação alguma — como poderia ter havido, se ele tivesse

começado com um “suspeito” ou mesmo um “creio” — da importância da frase ou, a bem da

verdade, da dor e da perda de identidade que viriam em seguida.

— O caso da sua mulher? — repeti. — Você quer dizer caso clínico?

— Não, Eddie, não — disse Sanderson, fazendo um som estranho, algo entre um riso

contido e um engasgo. — Outro homem, é isso.

Em seguida, fez-se silêncio por cerca de um minuto, o qual não tentei preencher, sentindo

que ele diria mais quando estivesse pronto.

Quando revejo o passado, isso parece marcar o começo, embora com o tempo eu tenha

compreendido que provavelmente houve outros começos antes desse.