O Tom Ausente de Azul
Capítulo 46
Na manhã seguinte, a última de novembro, voltei ao rio com Sanderson. A temporada das
trutas estava, para todos os efeitos práticos, terminada, mas ainda havia outros salmonídeos a
serem pescados. Durante os meses de inverno era mais fácil pegá-los com uma ninfa, disse
ele, afundando-a bem na água, onde eles mais se alimentavam. Mesmo assim, ele continuaria
com sua mosca seca. “Usar ninfas é para os fracotes”, bufou, unindo uma ninfa pesada à minha
linha líder. Fingi não saber o significado de fracote, e, quando ele me explicou, eu lhe disse
que não havia um equivalente em francês. “Deve ser uma coisa britânica”, disse e sorriu,
infantilmente satisfeito consigo.
Era um dia claro, muito frio e promissor, mas o humor de Sanderson era sombrio. Ele
explicou que, no caminho para pegar o carro, havia esbarrado na rua com a secretária do
departamento. Ela era uma mulher bem-intencionada, disse, com uma empatia natural,
provavelmente por ter sofrido muito. “O marido dela é um bebum horrível que bebe a maior
parte do dinheiro que devia ir para as crianças, e, ainda assim, de algum modo, ela consegue
que isso não a abata.” Ela lhe perguntara como ele estava e tinha dito como lamentava que as
coisas fossem difíceis para ele. “Até aí tudo bem”, disse Sanderson, “mas, então, ela me
aconselhou que poderia ser útil entrar em contato com meus sentimentos”. Só o fato de que ela
era uma boa pessoa, disse ele, havia impedido que lhe arrebentasse os miolos. Mesmo agora,
enquanto recontava a conversa, imaginava-se pressionando-a contra uma parede, olhando-a
diretamente nos olhos e dizendo: “Entrar em contato com os meus sentimentos? E o que faz
você pensar que consigo evitar estar em contato com eles? Pelamordedeus, você sabe o que eu
daria para conseguir NÃO ESTAR EM CONTATO com os meus sentimentos?” A última da
mulher bem-intencionada tinha sido que ele não devia se culpar. (Ah, é mesmo? Não diga! E
por que não?) Ele forçara um sorriso e acenara um até logo.
Enquanto caminhávamos na trilha até o rio, eu disse o que planejara dizer.
— Carrie me contou sobre Alfie. Na noite passada, na galeria. Deve ser difícil de
suportar. — As palavras ficaram suspensas sem força no ar úmido.
— Hum, uma furada — disse Sanderson —, uma furada. — Mas, em vez de discorrer
sobre a furada, ele iniciou um ataque geral contra a tolice de se ter filhos. Todo aquele medo,
ele disse, toda aquela preocupação. Um filho ficava no centro da vida da mãe de um jeito
exagerado. E os pais, em geral, se envolviam demais com os filhos. — Era melhor na era
eduardiana, quando os pais, os homens com certeza, eram distanciados de seus filhos e, ainda
assim, respeitados.
Eu não sabia o que pensar disso. Era medo? Era antipatia genuína? Soava como um
coração gelado. O que me fazia pensar em Rousseau — um tartufo que ousou pontificar sobre
a sensibilidade e a bondade natural do homem, mesmo tendo entregado os cinco filhos que
teve com a amante ao Enfants-Trouvés, um hospital para crianças enjeitadas em Paris. Da
mesma forma que sempre me perturbou pensar em Hume, um homem genuinamente bom, tendo
uma ligação com Rousseau, eu não queria crer que Sanderson pudesse compartilhar a
insensibilidade de Rousseau. Em vez disso, agarrei-me a algo que Carrie me contara durante
nossa longa conversa: “O cinismo de Harry é uma farsa. Ele o impede de enlouquecer. É como
ele lida com as coisas. Uma forma de aliviar a insatisfação consigo mesmo.”
— No caso do garoto — continuou Sanderson, evitando o nome de Alfie —, o problema
começou imediatamente. Sempre me ressenti que falassem comigo por intermédio dele, que
era o que minha esposa fazia no começo. — Ele não conseguia suportar todo aquele ritual de
fala de bebê. E a fala de bebê nunca desaparece por completo, disse ele. Ela só toma uma
forma diferente. — Os filhos causam o caos na vida dos adultos, e os adultos aguentam isso. É
um dos grandes mistérios do mundo.
— Mas é assim que a vida continua — comentei, sem entusiasmo. — Todos nós fomos
crianças um dia.
— E esse é um dos piores argumentos em favor das crianças, a ideia de criar versões em
miniatura de si. Não estou falando dos perigos de reproduzir uma infância ruim, não ruim no
nível de um orfanato romeno, mas na ideia de ver todas as mágoas normais da sua própria
infância aumentadas e intensificadas por meio da prole... bem, é uma ideia grotesca. — O que
era de fato grotesco, pensei, era a disposição de ânimo de Sanderson, sua atitude. A cada dia
parecia haver mais declínio, menos autodomínio. — No calendário chinês, até onde sei, sou
um coelho — disse ele, no que aparentava, mas acabou não sendo, uma súbita mudança de
assunto. — Que é, evidentemente, o signo mais feliz do Zodíaco, mas, desde que descobri isso quando jovem, fiquei aterrorizado de produzir outros coelhinhos e todas as suas pilhas de
merda.
Enquanto preparávamos nossas varas de pesca, mudei a conversa para o que esperava ser
um terreno mais seguro: o livro de Sanderson e seu novo status de celebridade. Era uma
verdadeira conquista, afirmei. Certamente, ele devia estar muito satisfeito com a forma como
tudo aconteceu. “Com certeza, eu estou satisfeito por você.” Ele zombou e fez os gestos de
modéstia de sempre, mas, de repente, a objeção parecia ter ficado presa em sua garganta, e
por alguns breves momentos pensei ter detectado prazer e até mesmo orgulho, raras frestas de
cor na espantosa negatividade. Sua carranca sumiu, e, enquanto dava baforadas no cachimbo,
Sanderson parecia ser um homem bastante tranquilo consigo e com seu destino. Entretanto, do
mesmo modo súbito, ele mudou de humor e não queria nada daquilo. Os filósofos em geral
eram uns impostores. “Sei bem disso, tenho sido um a vida inteira.” Ao seu comentário se
seguiu a risada que era sua marca registrada: um disparo de arma de fogo. E os filósofos
certamente não eram isentos de preconceito, continuou, como às vezes se pensava. Na
verdade, eram infestados por ele. Eram, geralmente, um bando de molengas chorões, sentados
em escritórios com aquecimento, enclausurados fora do mundo externo, refinando suas
pequenas rivalidades e ilusões de grandeza, respirando ar limpo, sem nenhuma doença que
tenha recebido seu nome.
— Há o mal dos eruditos, não se esqueça — lembrei-lhe, quando chegou ao fim de seu
discurso. Mas Sanderson não estava disposto a que implicassem com ele. — É exatamente
isso, Eddie — disse, tranquilo agora. — Não somos mais eruditos. Não mais.
Quanto a aparecer na televisão, continuou, era uma dupla maldição: inspirava o ódio nos
outros, ao mesmo tempo que aprofundava o ódio que sentia por si mesmo. “As pessoas ficam
intimidadas por um filósofo. Elas presumem que seu cérebro é energizado com circuitos
rápidos e que você lida com a verdade.” Mas isso estava tão distante da realidade que era
risível. A verdade costumava ser transmitida por oráculos e sibilas, era envolta em mistério e
imbuída de autoridade. Antes disso, no mundo primitivo, a verdade era equivalente aos
sentimentos mais fortes das pessoas. E, agora, algo similar estava acontecendo outra vez. A
verdade tinha sido despedaçada em fragmentos de teorias que competiam entre si, cada uma
alegando validade igual, geralmente por nenhuma razão, a não ser que eram aceitas com
convicção. Ela não tinha, de fato, nenhum valor independente, apartada daqueles que
acreditavam nela. “A verdade tem uma cor cinza opaca, obscura demais para iluminar algo.”
— Você está dizendo que nunca podemos dizer que algo é verdadeiro?
— Podemos. E fazemos isso. Mas a verdade é um conceito relativo, Eddie, que depende invariavelmente da língua em que é expressa. As palavras não têm significado isoladas. E não
há garantia de que a língua na qual formulemos a verdade corresponda ao mundo em que
vivemos. A verdade não corresponde a algo que exista no mundo exterior. — Ele apontou sua
vara de pesca para o céu, flexionando-a levemente, como que para indicar o local do mundo
exterior.
— Às vezes penso que os romances contêm a verdade, não algo que se pudesse, talvez,
comprovar com a filosofia. — Interessava a ele o que eu dizia? Como a secretária do
departamento, eu tinha boas intenções, mas Sanderson parecia ter dificuldade em suportar
isso.
— A verdade dos romances, como a verdade da vida, é, na melhor das hipóteses,
provisória — rebateu ele. — Dizer que uma coisa é verdade num romance pode não ser mais
que dizer que a emoção que ela evoca produz uma reação no leitor. Não se relaciona a algo no
mundo fora da narrativa. — Seu tom era absolutamente neutro, sem trair nenhum sentimento.
Ele tinha largado a vara e agora mexia nos bolsos procurando o cachimbo e o tabaco. — Sabe,
os russos têm uma palavra, vera, que é uma certa crença de que uma coisa é verdadeira, de
que podemos dirigir nossa conduta de acordo com ela e pô-la em prática. Nós não temos isso.
Próximo ao fim da tarde, arrumamos nossas coisas e voltamos para o carro. Eu ainda não
sabia, mas não pescaríamos mais juntos. Quando voltamos a Edimburgo, o sol fraco do
inverno se ocultava por trás dos prédios de apartamentos residenciais, irradiando pálidos
dedos de luz na estrada. As pessoas entravam e saíam das lojas, andavam de mãos dadas nas
ruas, empurravam carrinhos de bebês. Outras vidas continuavam iguais.
— Vamos beber alguma coisa rápido, para marcar o fim da temporada de pesca — disse
ele. Como ele ocupava seus fins de semana, perguntei, enquanto tomamos nossos assentos no
bar, quando não havia pesca?
— Sempre há moscas a serem atadas — respondeu cansado, olhando para as mãos
embaixo como se elas não fossem suas, mas de alguma criatura alienígena estranha. — Não há
limite para as moscas que se pode atar. — Com o indicador, Sanderson seguiu a curva da
borda do copo. Houve algum contato da universidade?, perguntei. Não, não houve, rosnou ele,
e os trinta dias estavam quase no fim. — Não se esqueça — disse ele, com os olhos ganhando
brilho — de que vai levar mais de trinta dias para percorrer o comprimento e a largura dos
egos deles. — Ele ainda não desistiu, pensei, ainda há certa centelha, ainda existe diversão,
ainda que seja do tipo um-último-cigarro-antes-da-guilhotina. Havia uma boa novidade,
acrescentou. Ele tinha ouvido um rumor de que sua acusadora, a srta. Suzello, não faria uma queixa criminal separada, que ela ficaria satisfeita com um inquérito interno. — O que é uma
melhora, acho. Mas apenas no tanto que a caça às bruxas de Salém foram uma melhora em
relação à Inquisição Espanhola. — Ele sorria enquanto falava, mas era um tipo de sorriso
como o de Norman Bates em Psicose, o sorriso de um maníaco. — Mas, para ser honesto,
acho que não me importo mais. Em ser suspenso, digo. A princípio eu pensei que fosse...
bem... o meu fim, o fim de tudo. Eu estava olhando da beira, para o abismo. — Agora ele
parecia mais o velho cego Gloucester, convencido de que fora levado à beira do precipício e
estava prestes a morrer, e então descobriu que se tratava apenas de um pequeno degrau. —
Eles me fizeram foi um favor. Eu havia me tornado um participante externo nos meus próprios
assuntos, apenas em parte eu mesmo; no grosso, era um estranho. Eu devia sair enquanto
posso, enquanto me resta a alma. O que quer que seja isso. — Ficamos sentados em silêncio
por um instante. Sanderson brincava com um descanso de copo, girando-o sem parar, como se
procurasse a chave de um mistério. Ele não parecia de todo presente em sua própria vida. —
Sabe, Eddie, às vezes me pergunto como a vida poderia ter sido diferente. — Ele soava
bastante prático agora. — Você faz isso de vez em quando? Às vezes, eu me pego pensando: e
se tivesse crescido numa casa cheia de livros?
— Bem, eu cresci com livros. Passei toda a minha infância numa livraria. E meu pai
sempre defendeu que trabalhar com livros era como viver na luz. Mas isso não resolve tudo.
— Não, mas suspeito que a literatura possa resolver mais coisas que a filosofia. A
filosofia é boa em fazer perguntas, mas a literatura nos aproxima das respostas. Ela pode até
salvar vidas, de uma forma que a filosofia nunca pôde.
— Como assim, salvar vidas?
— Ah, é só maneira de dizer. Estava pensando sobre coisas que ajudam e coisas que
prejudicam, e a conexão entre elas, o que Henry James chama de a alegria e a agonia. Não se
consegue isso com a filosofia, só nos romances. Talvez ainda mais na poesia. Há um lugar
profundo dentro de nós com o qual a poesia pode se conectar.
Ele fechou os olhos por um momento. Sobre suas pálpebras estava depositado algo
translúcido, de cor roxa-leitosa. O problema era, continuou Sanderson, com os olhos abertos
agora, que, quando se chega à idade dele, é impossível deixar de olhar para trás. E, no caso
dele, era um passado cheio de oportunidades perdidas, caminhos não trilhados.
Mas isso podia se aplicar a quase todo mundo, comentei.
— Com certeza se aplica a mim.
Sem dúvida, a forma de lidar com isso era tentar moldar o passado removendo seus
espinhos. E contei a ele sobre meu amigo Antoine, que tinha moldado sua história de tal maneira que ela poderia ser uma escultura belamente lapidada.
— Parece ajudá-lo a viver com a trilha de destroços que deixou para trás — afirmei.
— É tarde demais para isso, no meu caso. Você olha para trás por um momento, e tudo está
terminado. E o que soma sua vida? Coisíssima nenhuma.
— Você é muito severo consigo mesmo — disse eu, sabendo que o que dissesse não faria
diferença.
— Você se engana, Eddie. Nós só podemos nos amar se, aos olhos dos outros, somos
dignos de amor.
— E quanto a Carrie? Qualquer um percebe que ela ama você. — Eu havia percorrido um
longo caminho. Esse tipo de comentário, na minha existência anterior, teria sido pessoal
demais, perto demais de dizer o indizível. Eu poderia ter dito ainda mais, se Sanderson não
tivesse recomeçado a falar, dessa vez titubeante, procurando as palavras, depois as
atropelando. Justamente quando uma frase parecia estar se formando, ela embrulhava suas
coisas e levantava acampamento, deixando para trás traços mínimos de que havia estado lá.
Por fim, ele disse, de modo tranquilo e sem firmeza:
— Amor e pena não são a mesma coisa. — Eu conseguia entender isso, não é? — Carrie
tem pena de mim. E a pena é um golpe fatal. — Ele assentiu com a cabeça, concordando
consigo. Mantive-o em meu olhar, assimilando o caos de sua aparência e tentando conciliá-lo
com as filas de gavetas etiquetadas com tanta organização no quarto de despejo e com suas
moscas confeccionadas com esmero. Depois, como se lesse minha mente: — Quer dizer, olha
só para mim! — Wittgenstein acreditava que o corpo humano era o melhor retrato da alma de
um homem, disse ele. — Que retrato! Que alma! E a isso se seguiu outra torrente de frases
desesperadas e ofensas autoinfligidas. Ele tinha esquecido a arte de viver, a arte de pensar:
era uma lesma percorrendo o caminho no nível do solo, depositando muco. Disse, em seguida,
que eu não devia levá-lo muito a sério (“eu me empolgo”), antes de desviar bruscamente o
assunto para o problema do livre-arbítrio, parecendo retomar o ponto onde havia parado na
primeira vez em que fomos pescar.
— Durante nossas vidas achamos que temos livre-arbítrio. — Ele estendeu essa palavra a
um comprimento de cortar o coração. — Mas isso é posto em dúvida pela forma como os
padrões se repetem interminavelmente. Não estou sugerindo que tudo é predeterminado, mas,
na verdade, muito pouco tem a natureza do inesperado. A ideia de que o está acontecendo a
nós é único... bem, isso é só uma cilada. E uma cilada na qual todos caímos.
Eu estava bastante confuso, porém pensei quase pela primeira vez que nos
compreendíamos. Isso apesar do abismo colossal entre a minha vidinha organizada e a turbulência caótica dele.
— Isso é uma coisa tão ruim? — perguntei. — Afinal, Hume compreendeu trezentos anos
atrás que não havia livre-arbítrio. Essa liberdade era uma ilusão. Que o livre-arbítrio exigiria
uma mente. Não apenas uma coleção de impressões, percepções mentais.
— Ah, o mantra do cético — disse ele, conseguindo exibir um sorriso que implicava seu
oposto. — O livre-arbítrio não é mais que a nossa ignorância de causa e efeito, e causa e
efeito são uma ilusão; portanto, o livre-arbítrio é uma ilusão. Aí está. É simples, na verdade.
Às vezes ele era a imagem de um mago brincalhão, mas perturbador. Em outras ocasiões,
como agora, ele ficava pensativo e cheio de tristeza. Ele usava a tristeza como uma droga,
surpreendendo-se com seu próprio vício.
Talvez o problema tivesse a ver com rever o passado, sugeri. Eu sabia muito bem que era
impossível não rever o passado, é claro, comentei, embora não houvesse sentido nisso.
Apenas encontrávamos uma série interminável de antecedentes para eventos atuais, e, em
pouco tempo, eles também entrariam na fila e se tornariam antecedentes eles mesmos.
— Bem, qualquer que seja a forma que olhemos para isso, não temos a liberdade que
pensamos — suspirou ele. — O que dizemos que faremos para nós mesmos já foi em grande
parte decidido. Só se transforma em forma narrativa para manter a ilusão de que estamos no
comando.
Para dizer a verdade, continuou Sanderson, ele estava farto. Farto da universidade, farto
de lecionar, farto de tudo. Ele estava sofrendo do que os russos chamam de toska — nada a
ver com a ópera de Puccini, disse. Era T-O-S-K-A, com a segunda sílaba tônica — toscá.
— Não existe uma única palavra em inglês que expresse todos os diferentes aspectos de
toska — disse ele. — Acho que o francês chega mais perto com malaise e ennui. Mas toska é
mais do que isso. É uma espécie de angústia arrebatadora, uma nostalgia de algo apenas
ligeiramente compreendido, sem nenhuma causa específica, pelo menos nenhuma que se possa
identificar. Um desejo por algo que não se tem, bem como por aquilo que se teve e que
acabou. E o tempo inteiro, a sensação de que a história que se desenrola é, na verdade, sobre
outra coisa, como uma parábola, só que não se tem ideia do que possa ser.
Pela maior parte da vida ele tivera a sensação de querer encontrar a solução para algo sem
saber exatamente o quê. Algumas vezes, pensou estar chegando perto, mas, no momento que a
coisa, o que quer que fosse, parecia ao seu alcance, desaparecia, virava a esquina. Era uma
sensação que perpassava seus sonhos e também sua vida quando acordado. Aleatoriedade era
em grande parte o que determinava o futuro. Junto com o acaso e o absurdo: “Eles são primos
próximos.” Justo quando você pensava que tinha as coisas sob controle, eles apareciam à espreita nos arbustos.
— É muito difícil ir além da própria história. A gente apenas continua fazendo a mesma
coisa, dia após dia. Por que fazemos isso? Porque é a coisa a fazer. — Ele olhava para mim,
como se esperasse contestação. A gente chega a um ponto na vida, continuou, e percebe que é
impossível mudar. — Preciso fazer alguma coisa enquanto ainda há tempo.
E então, de repente, ele precisava ir embora, minha nossa veja que horas são!, ele ia se
atrasar. Não pensei em perguntar para o quê.