O Tom Ausente de Azul

Jennie Erdal · Capítulo 22 de 59

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O Tom Ausente de Azul

Capítulo 21

 

No caminho de volta do lago, viajávamos por uma faixa estreita de estrada. Sanderson estava

silencioso de um modo incomum. À nossa frente, havia um imenso caminhão com muitas

sinalizações na traseira, incluindo um número de telefone convidando as pessoas a ligar e

comentar sobre a qualidade da direção do motorista. Eu revirava isso na minha cabeça,

imaginando que tipo de pessoa responderia a um convite desses.

Quando finalmente Sanderson falou, foi sobre a galeria de arte de Alice. Às vezes, ele

entrava como um caranguejo, de lado, numa conversa.

— Você devia ir lá uma hora dessas. Vale a pena a visita.

Depois, num tom completamente neutro, disse, de repente, que Alice tinha desistido dele.

— Desistido de você? Como assim?

— Quero dizer o que disse. Desistido de ser minha amante. Desistido de ter um caso.

Desistido de foder comigo. Desistido de mim.

Uma única informação, mas ainda assim difícil de processar.

— Por quê? — Pergunta errada, mas não consegui pensar em nenhuma outra.

— Como assim por quê?

— Por que ela desistiu de você?

— Que tipo de pergunta é essa? Como vou saber por que ela desistiu de mim?

— Desculpe. Não sabia o que dizer.

— Não se desculpe. Desculpar-se nunca leva a lugar algum.

Instantes depois, ele admitiu que havia se perguntado a mesma coisa: por que ela havia

desistido dele. Funcionara perfeitamente por mais de dez anos, disse ele, e não representava

uma ameaça para nenhum dos dois casamentos. Alice e o marido se davam muito bem, muito

melhor que a maioria dos casais, na verdade.

— Se o casamento deles fosse uma pintura, seria de pinceladas suaves a óleo, muitos

movimentos repetitivos e nada muito violento ou incongruente.

Charles, o marido de Alice, trabalhava como astrônomo no observatório, disse Sanderson,

enquanto ela administrava a galeria. Eles eram anfitriões esplêndidos para seus muitos

amigos. Mas Charles era completamente gay, e, embora os dois dividissem a cama à noite,

nunca havia sexo. Eles compartilhavam outras coisas: as responsabilidades do casamento, os

compromissos sociais, amizades, os ritmos tranquilos da vida na mesma casa.

— Como eu falei, era um acordo maravilhoso — disse Sanderson.

— Você a ama? — perguntei. Ele me lançou um olhar como se faltasse à minha pergunta

um mínimo de delicadeza. Mudando o rumo da conversa, perguntei como eles haviam se

conhecido. Sempre era interessante descobrir como as pessoas acabam ficando uma com a

outra.

— Através da minha esposa — disse ele, com um bufo enigmático. — Quando ela

começou a expor na galeria de Alice.

Perguntei-lhe se Carrie sabia. Com certeza não, disse Sanderson. Então, ele citou

Tchekhov, “que acreditava que toda pessoa vive sua vida verdadeira e mais interessante sob a

proteção de segredos. Eu tendo a acreditar. E você?” Além disso, o que os olhos não veem o

coração não sente. “A ignorância protege, reduz o sofrimento.”

— E quanto à honestidade?

— Honestidade? — Ele repetiu a palavra como se fosse nova no seu léxico e ele tivesse

que testá-la para se certificar de que era adequada. — Veja bem, Eddie, aceite o conselho de

um homem mais velho. Honestidade é uma dessas virtudes superestimadas. Quando se trata de

algo assim, temos uma escolha simples: contar ou não contar. As duas alternativas são como

campos magnéticos opostos, e, se a gente não toma cuidado, acaba ficando preso entre as

duas. Melhor manter o silêncio. Se a gente conta, sempre há o risco de destruir vidas.

— E, quando a gente não conta, não destrói vidas?

Ele parou por um momento, tirou os olhos da estrada para me lançar um olhar de piedade,

antes de me reprovar por ter lido romances demais. Ele falava como se tivesse uma fonte

particular de conhecimento, como se não tivesse que se virar com o que estava disponível

para os meros mortais.

— As pessoas que assumem posições honrosas muitas vezes só estão servindo a própria

autoimagem.

Fiquei mordido, mas nada disse. Era um desses comentários mordazes que não há como

responder sem correr o risco de representar aquilo de que se está sendo acusado. Meus pensamentos se voltaram para a pobre Carrie e a dor que isso certamente lhe causaria. Talvez

Sanderson tivesse razão: era melhor que ela não soubesse. E, agora que o caso estava

terminado, não havia necessidade alguma de que ela jamais ficasse sabendo.

 

Alice havia lhe contado sua decisão poucos dias antes, no dia anterior ao início do semestre.

O que talvez explicasse sua explosão na frente dos alunos e sua agitação prolongada depois.

Ela não deu um motivo, a não ser dizer que pensava que era “hora de mudar”. Sanderson

zombou. Com certeza, você pode fazer melhor que isso, disse-lhe. Mudar? Era tão ruim quanto

a linguagem da gestão da universidade. Mas ela apenas sorriu de um jeito que indicava que

não adiantava dizer mais nada sobre o assunto.

— Ficamos juntos por doze anos.

— É muito tempo — comentei, desejando ter dado uma resposta menos banal.

— E, durante esses doze anos, nós fizemos sexo mais de quatrocentas vezes. Quatrocentas

e trinta e uma, para ser exato.

— Você contava?

— Mantinha um registro. Na minha mesa, junto com meu diário de pesca.

— Por quê? — Novamente a pergunta soava frouxa. Contudo, o que eu me perguntava

mesmo era se, nas mesmas circunstâncias, eu também manteria um registro. Havia um lado

meticuloso em Sanderson que me intrigava e se conectava comigo.

— É difícil dizer. Acho que era algum tipo de registro de que existo. Sabe, no mundo.

Vivo. Esse era provavelmente o motivo da maioria dos casos, disse ele. Junto com a sensação

de que tudo se renova.

— Entendo.

— Sabe, Eddie, uma das maravilhas do comportamento sexual é que uma mulher

sofisticada, tranquila, senhora de si, com um bocado de sangue-frio e o decoro americano

pode, de repente, se metamorfosear numa tigresa gostosa com desejos insaciáveis que implora

para ser fodida vezes seguidas, cada vez com mais força.

Tentei visualizar a cena: Alice e Sanderson — o som de sucção e o estalo de peças que se

interligam. Não era possível.

— E sabe o que mais? Quatrocentas vezes não é lá muita coisa. Não em doze anos pelo

menos. É isso que é surpreendente. Parece muito. Mas é menos de uma vez por semana.

Sanderson disse que, nos primeiros anos, eles tinham se encontrado com mais frequência,

mas as coisas vinham diminuindo fazia um ou dois anos. E quase zeraram desde as erupções

na pele. Ele, sem dúvida, provocava repulsa nela. Afinal, ele provocava repulsa em si mesmo.

— Como começou? Seu caso, digo.

— Não consigo me lembrar exatamente. Foi só uma dessas coisas que acontecem. — Ele

fez um estalo com a língua. — Às vezes atos impulsivos se tornam arranjos permanentes. O

motivo para começar fica há muito tempo esquecido, talvez nunca tenha existido um motivo, e

a coisa em si simplesmente continua. Um pouco como o casamento, pensando bem.

Ele levantou a cabeça, como se para aspirar o ar ou exibir uma espécie de estoicismo de

queixo erguido — não tive certeza de qual dos dois.

— Acho que quis algo rápido e conveniente, sem a complicação do compromisso... sabe, a

“sempretude” do casamento. Isso choca você, Eddie?

— Acho que muitas coisas me chocam.

— É claro que isso não significa que elas sejam chocantes de um modo inerente.

— Não, é claro que não.

— De qualquer forma, achei que todos soubessem tudo sobre esse tipo de coisa na França.

— Acho que depende do que você quer dizer com “esse tipo de coisa”. Balzac, por

exemplo, achava que não poderia haver infidelidade onde não havia amor.

Sanderson batia com os dedos no volante, como se estivesse decidindo se iria discutir com

Balzac.

— Bem — disse ele finalmente —, uma das definições para um adúltero, uma que eu

mesmo passei a apreciar, é a de um homem que está preso à chatice de duas rotinas, em vez da

de uma.

Eu ri.

— Isso soa um pouco como uma alegação de prerrogativas especiais.

— Bem, outra forma de pensar é que os pecados já não são mais os mesmos. São apenas

prazeres, transitórios como o resto da vida.