O Tom Ausente de Azul

Jennie Erdal · Capítulo 43 de 59

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O Tom Ausente de Azul

Capítulo 42

 

Havia pelo menos três versões dos eventos. Duas delas eu ouvi em primeira mão. A versão de

Sanderson me deu a impressão de ser incontinente e, por fim, patética. Era cheia de

espaçadores supérfluos como “de algum modo” ou “meio”, todos num isolamento prontamente

compreensível, mas que, acumulados, eram condenadores. E, apesar de prolixa, ela transmitia

uma impressão de preâmbulo, algo para se retirar do caminho antes que a coisa propriamente

dita pudesse ser encarada. Quando ouvi o relato, mal tinha me recuperado da questão com o

pote de larvas e a suposta prova irrefutável que ele continha. Isso teve o efeito de me pôr entre

diferentes campos magnéticos: piedade e raiva. Raiva por ter sido falsamente —

ridiculamente — acusado por um homem que eu considerava meu amigo. Piedade porque

Sanderson parecia inclinado à autodestruição. A piedade é pior que a raiva porque faz a gente

perder o chão. Em circunstâncias diferentes, eu poderia ter achado impossível me apiedar de

um homem assim, mas percebi que seu comportamento no fundo guardava algo de cortar o

coração. Como um ator numa peça trágica, ele havia parado de se ver; não podia mais se

salvar nem ser salvo.

O relato de Sanderson era mais ou menos assim:

 

Ele avalia a aluna à sua frente. Avalia, ele gosta dessa palavra, talvez por causa de sua

inclinação interna para a palavra valia. Ela diz que está tendo problemas com o trabalho.

Platão? Ele não precisa perguntar. Ele sabe muito bem que é Platão. É, Platão, diz ela. O

julgamento de Sócrates. Ah, Sócrates, diz ele. Ele quer ser do jeito que era quando começou

a lecionar. Meio seguro e ligeiramente distante. Ela é americana, como tantos alunos da

universidade são hoje em dia. Sua voz é o mais puro sotaque do meio-oeste, vogais simples

estendidas como limusines brancas. Ele pensa que ela pode ser uma herdeira, filha de um magnata do petróleo. Ela tem as mãos macias e delicadas de uma mulher que nunca lavou

louça na vida. Ele as olha agora, dedos finos dobrados uns nos outros. Seus próprios dedos

parecem estacas de críquete maltratadas. Ele se sente exausto, precisa beber, sente a pele

arrepiar. Atingiu a idade em que sabe que não é mais jovem, e os outros também sabem disso.

O que posso fazer por você, srta. Suzello? Os professores usam principalmente o primeiro

nome agora, mas o nome dela é Chelsea, ele de algum modo acha que não consegue lidar com

Chelsea. De qualquer forma, prefere o estilo antigo. O estilo antigo já era — ele sabe disso.

Agora, o objetivo é a camaradagem, todo mundo em pé de igualdade, sem diferença — exceto

na questão insignificante do aprendizado. Qual é o problema? Ele pergunta. Podia ser um

médico perguntando sobre sintomas. Seus próprios sintomas — a dor das pústulas supurantes,

sua necessidade de beber e de um cigarro, talvez até uma boa foda nostálgica — atravancam o

caminho. Mas quando foi a última, sem contar sua imaginação? Ele não consegue se lembrar.

Às vezes, ele pensa em Alice, com suas curvas suaves e sua pele reluzente. Ridículo, é claro.

Como tantas outras coisas, Alice pertence ao passado. Seus pensamentos têm muito pouco a

ver com as memórias reais dela. Eles foram apenas meio que um devaneio agradável, um

pequeno prazer que ele dirige e controla. As imagens são sempre um pouco abstratas no

início, mas, muito antes que ele as escolha, elas se tornam mais precisas. Ele não faz nada

para mantê-las a distância. Para começar, é suficiente pensar nela sentada tranquilamente na

beirada da cama, sorrindo para ele, não num flerte, mas com uma pose que ele sabe que

contém o indício da possibilidade de sexo. Ele adora essa imagem e a invoca repetidas vezes.

Depois de um tempo, quando a conhece intimamente, ele começa a lhe dar vida para que Alice

se mova, de um jeito agitado como nos quadros separados de um filme. Pode fazê-la cruzar e

descruzar as pernas de modo que a saia suba e desça na parte de cima de suas coxas. Pode

fazê-la tirar a roupa, numa sequência particular, que apenas ele controla. A parte de tirar a

roupa é lenta e recatada à sua maneira, nada impetuoso ou sórdido. Ele consegue sentir o calor

do corpo dela, levemente úmido, e ouvir os pequenos arquejos curtos que afirmam seu desejo.

Tudo isso se baseia na certeza, embora ele saiba que ela é ilusória, de que Alice o acolhe,

deseja, está pronta para ele, precisa dele. Como já desejou uma vez. Às vezes, as imagens se

tornam mais imperiosas, mais urgentes, como uma história à espera de ser contada. Ele se

entrega livremente à sua elaboração. Não sente culpa; em vez disso, teme que, se tentar

interromper as imagens, não as consiga invocar novamente. Nada disso, ele lembra a si

mesmo, tem a ver com a srta. Suzello. Que está olhando para ele agora. Com expectativa. À

espera de sabedoria. Ele acaba de dar uma aula sobre o imperativo categórico. A maior parte

da filosofia, do tipo que ele ensina, é abstrata. Mas não o imperativo categórico — um conceito que oferece princípios racionais de ação e à luz do qual nossas esperanças e nossos

desejos egoístas podem ser examinados e avaliados. O imperativo categórico fornece razões

predominantes para que nos comportemos de forma moral. De fato. E a certeza daquilo que se

deve fazer é a essência da moralidade. Ele sabe tudo isso. Li o que Platão escreveu sobre

Sócrates, diz a srta. Suzello, mas mesmo assim não faço ideia por que Sócrates optou, tipo

assim, por não se salvar. Ela ergue as pálpebras pesadas para revelar olhos negros como

carvão e incomensuravelmente profundos. Por que alguém ia, tipo, fazer uma coisa dessas?

Optar por morrer quando podia, tipo, viver? As frases dela têm a inflexão ascendente de

qualquer jovem. O que, normalmente, o irrita mais do que tudo, mas na srta. Suzello ele acha

charmoso. Ele pensa que podia lhe dizer que um verdadeiro filósofo se alegra diante da morte,

e nenhum mais do que Sócrates, que sabia que a essência da filosofia era aprender como

morrer. Mas a srta. Suzello é tão absurdamente jovem e vital que falar de morte soaria

ridículo. Seu caderno está aberto, esperando que a iluminação instantânea inunde suas folhas.

Sua blusa branca de algodão também está aberta, no pescoço. Há cinco botões, ele observa, o

último escondido abaixo de sua linha de cintura. Seu corpo parece delgado e firme como o de

um rapaz, exceto pela leve ascensão e queda em seu peito. Seus lábios são bem definidos, sem

batom, só um leve brilho. Sua juventude, sua agilidade, seu otimismo — tudo isso dilacera o

coração dele. Ela ainda o está encarando, ansiosa por respostas. Ele sabe que é um jogo, meio

como uma dança palaciana, na qual cada um deve fazer os passos certos. Por um momento, ele

considera lhe perguntar sobre a vida dela, se ela é feliz. Você é feliz?, pergunta ele,

surpreendendo a si mesmo. Na sua vida, quer dizer. Meu trabalho, diz ela, com outra inflexão

ascendente. Ele sente um abismo se abrir entre ele e o mundo. Você está bem, dr. Sanderson?,

pergunta ela. Depois do que parece ser uma passagem de tempo interminável — durante a

qual, ele percebe, ao que parece pela primeira vez, que cada momento da vida passa, vai

embora e nunca mais volta —, ele se ouve dizer não, não, não, a esta altura ele chegou a um

ponto crítico em que já é tarde demais para fazer alguma coisa, e o ponto em questão era o

colo da srta. Suzello, no qual ele conseguiu de algum modo enterrar o rosto e começar a

chorar. Mesmo agora, ele tem a ilusão de que mergulhou o rosto em suas próprias mãos. Só

depois ele percebe, por trás de uma névoa de lágrimas, onde se enfiou. Ele não é um homem

dado a chorar, e, se alguém tivesse perguntado antes, ele teria dito talvez que esquecera como

se chorava, se é que de fato um dia soube. Mas as lágrimas, quando elas vêm, fluem

abundantemente. Sua lembrança era a de que a jovem americana não o empurrou — isso se

tornou importante depois —, mas, se foi porque estava congelada de horror ou paralisada de

nojo (duas possibilidades que ele mais tarde reconheceu), nunca ficou claro. Enquanto limpa as lágrimas salgadas na saia dela, percebe um pequeno furo no material, espalhando-se em

todas as direções como os pontos cardeais de uma bússola. Essa foi a última vez naquele dia

em que a normalidade sobreveio. O resto é caótico e lembra um sonho.

 

“Você não poderia ter se contido?”, perguntei quando finalmente ele terminara de falar. Não

havia a intenção de censurar. Estava pensando na vez, há muito tempo, em que fiquei fora de

mim naquela aula de filosofia. Estava curioso por saber se as ações dele eram ou não

determinadas por sua vontade. Ou se elas lhe pareceram fora de seu domínio — um sinal de

sua ligação frágil com o mundo. Mas ele não respondeu. Montaigne pensava que o fato

fundamental sobre a condição humana era que as pessoas são falíveis. Rousseau o acusou de

ser dissimulado, com base no fato de que, embora Montaigne se retratasse com defeitos, ele se

atribuía apenas defeitos adoráveis. Ninguém poderia ter acusado Sanderson de ter apenas

defeitos adoráveis. No entanto, ele estava longe de ser o que os franceses chamam de une

véritable ordure.

 

A versão da aluna americana, que rapidamente rodou a universidade, foi mais sucinta. Sua

lembrança era que o dr. Sanderson, comportando-se de forma estranha e com forte cheiro de

álcool, havia de repente caído sobre ela, chorando e gemendo. Quando ela lhe perguntou o que

havia acontecido, ele disse (ela alegava lembrar perfeitamente e escreveu as palavras exatas

numa declaração): “Minha esposa não quer mais fazer sexo comigo. Ela não suporta que eu a

toque. Ela pensa em empurrar o carrinho de compras enquanto estamos transando. Enquanto

isso, eu corrijo trabalhos para ganhar a vida. Os trabalhos são um saco e a vida, uma boceta.”

Na declaração que forneceu à diretoria da universidade, ela também alegou que o dr.

Sanderson tocava os genitais com frequência na presença dela. (Mais tarde, quando

solicitaram a Sanderson que comentasse sobre esse ponto específico, ele foi provocador: “Os

genitais, como você os chama, foram feitos para balançar livremente na temperatura ambiente.

Achei que pessoas inteligentes como você soubessem disso. Eles não foram feitos para ficar

aprisionados em calças de poliéster. Precisam de ajuste constante.”)

 

Foi a versão estranha de Carrie dos eventos, porém, que ouvi primeiro. Depois de me contar

sobre a suspensão, ela disse que tudo havia sido um terrível mal-entendido. O comportamento

impróprio, assim alegado, era uma ficção. Uma aluna estava tendo dificuldades com seu

trabalho e fora pedir ajuda a Harry, que não estava em boas condições de saúde naquele dia:

estava deprimido, sua pele estava pior do que nunca, e o semestre não havia começado bem.

— Além disso, Alice tinha acabado de lhe dar o fora — disse ela. — Não que ele tenha

citado isso quando me contou, mas eu calculei pelas datas. — Ela pausava entre as frases,

como se estivesse reunindo forças. — A aluna estava vendo que ele não estava bem. Ela

estava preocupada com ele, perguntou como ele estava se sentindo... — Quando ela pausou de

novo, senti meu couro cabelo se contrair (o incômodo dela era contagioso). — Nesse

momento, a gentileza dela desmontou o Harry.

— O que isso significa? Ser desmontado?

— Não sei realmente o que significa. Mas não consigo pensar em outra coisa para

descrever.

Ela disse que Harry se acostumara a esperar o pior das pessoas, inclusive dela — era uma

espécie de proteção — mas, quando essa jovem americana se aproximou dele e demonstrou

compaixão, ele perdeu o controle e chorou em seus braços.

O relato de Carrie tinha uma curiosa atração, mas não convencia. Sanderson a enfeitiçara.

Embora a racionalização dos eventos fosse leal de um jeito admirável, havia algo

desesperado nela, como o que um advogado de defesa alega em juízo, pedindo que o bom

caráter fosse levado em consideração como redução da pena.

— Essa garota, ela o desvirilizou, entende? Foi como ele descreveu. — E agora, por

algum motivo, a moça havia decidido apresentar uma queixa. E as autoridades da universidade

decidiram levá-la a sério. — Eles não têm escolha, é claro. Têm medo de ser processados,

entende? Os americanos sempre envolvem advogados. — Mas isso não significava que havia

substância nas acusações, disse ela. — Foi um ato de desatino e autoindulgência, talvez, mas

foi inteiramente inocente. — Pessoas inteligentes às vezes faziam coisas estúpidas, com

certeza, eu conseguia entender isso. Harry não era exceção. — Ele é só... — ela hesitou —

ternamente desesperançado.

 

Parecia provável que essa fosse a maneira que as pessoas falavam quando o casamento ia mal.

Era o que eu achava. Nos momentos turbulentos, os laços se estreitavam, ameaçando toda a

capacidade de julgamento e a compostura. Por que outro motivo uma mulher inteligente

abandonaria sua tranquilidade de espírito e protestaria a inocência do marido dessa maneira?

Esses pensamentos pareceram traiçoeiros. Eu estava me tornando uma testemunha suspeita.