O Tom Ausente de Azul
Capítulo 42
Havia pelo menos três versões dos eventos. Duas delas eu ouvi em primeira mão. A versão de
Sanderson me deu a impressão de ser incontinente e, por fim, patética. Era cheia de
espaçadores supérfluos como “de algum modo” ou “meio”, todos num isolamento prontamente
compreensível, mas que, acumulados, eram condenadores. E, apesar de prolixa, ela transmitia
uma impressão de preâmbulo, algo para se retirar do caminho antes que a coisa propriamente
dita pudesse ser encarada. Quando ouvi o relato, mal tinha me recuperado da questão com o
pote de larvas e a suposta prova irrefutável que ele continha. Isso teve o efeito de me pôr entre
diferentes campos magnéticos: piedade e raiva. Raiva por ter sido falsamente —
ridiculamente — acusado por um homem que eu considerava meu amigo. Piedade porque
Sanderson parecia inclinado à autodestruição. A piedade é pior que a raiva porque faz a gente
perder o chão. Em circunstâncias diferentes, eu poderia ter achado impossível me apiedar de
um homem assim, mas percebi que seu comportamento no fundo guardava algo de cortar o
coração. Como um ator numa peça trágica, ele havia parado de se ver; não podia mais se
salvar nem ser salvo.
O relato de Sanderson era mais ou menos assim:
Ele avalia a aluna à sua frente. Avalia, ele gosta dessa palavra, talvez por causa de sua
inclinação interna para a palavra valia. Ela diz que está tendo problemas com o trabalho.
Platão? Ele não precisa perguntar. Ele sabe muito bem que é Platão. É, Platão, diz ela. O
julgamento de Sócrates. Ah, Sócrates, diz ele. Ele quer ser do jeito que era quando começou
a lecionar. Meio seguro e ligeiramente distante. Ela é americana, como tantos alunos da
universidade são hoje em dia. Sua voz é o mais puro sotaque do meio-oeste, vogais simples
estendidas como limusines brancas. Ele pensa que ela pode ser uma herdeira, filha de um magnata do petróleo. Ela tem as mãos macias e delicadas de uma mulher que nunca lavou
louça na vida. Ele as olha agora, dedos finos dobrados uns nos outros. Seus próprios dedos
parecem estacas de críquete maltratadas. Ele se sente exausto, precisa beber, sente a pele
arrepiar. Atingiu a idade em que sabe que não é mais jovem, e os outros também sabem disso.
O que posso fazer por você, srta. Suzello? Os professores usam principalmente o primeiro
nome agora, mas o nome dela é Chelsea, ele de algum modo acha que não consegue lidar com
Chelsea. De qualquer forma, prefere o estilo antigo. O estilo antigo já era — ele sabe disso.
Agora, o objetivo é a camaradagem, todo mundo em pé de igualdade, sem diferença — exceto
na questão insignificante do aprendizado. Qual é o problema? Ele pergunta. Podia ser um
médico perguntando sobre sintomas. Seus próprios sintomas — a dor das pústulas supurantes,
sua necessidade de beber e de um cigarro, talvez até uma boa foda nostálgica — atravancam o
caminho. Mas quando foi a última, sem contar sua imaginação? Ele não consegue se lembrar.
Às vezes, ele pensa em Alice, com suas curvas suaves e sua pele reluzente. Ridículo, é claro.
Como tantas outras coisas, Alice pertence ao passado. Seus pensamentos têm muito pouco a
ver com as memórias reais dela. Eles foram apenas meio que um devaneio agradável, um
pequeno prazer que ele dirige e controla. As imagens são sempre um pouco abstratas no
início, mas, muito antes que ele as escolha, elas se tornam mais precisas. Ele não faz nada
para mantê-las a distância. Para começar, é suficiente pensar nela sentada tranquilamente na
beirada da cama, sorrindo para ele, não num flerte, mas com uma pose que ele sabe que
contém o indício da possibilidade de sexo. Ele adora essa imagem e a invoca repetidas vezes.
Depois de um tempo, quando a conhece intimamente, ele começa a lhe dar vida para que Alice
se mova, de um jeito agitado como nos quadros separados de um filme. Pode fazê-la cruzar e
descruzar as pernas de modo que a saia suba e desça na parte de cima de suas coxas. Pode
fazê-la tirar a roupa, numa sequência particular, que apenas ele controla. A parte de tirar a
roupa é lenta e recatada à sua maneira, nada impetuoso ou sórdido. Ele consegue sentir o calor
do corpo dela, levemente úmido, e ouvir os pequenos arquejos curtos que afirmam seu desejo.
Tudo isso se baseia na certeza, embora ele saiba que ela é ilusória, de que Alice o acolhe,
deseja, está pronta para ele, precisa dele. Como já desejou uma vez. Às vezes, as imagens se
tornam mais imperiosas, mais urgentes, como uma história à espera de ser contada. Ele se
entrega livremente à sua elaboração. Não sente culpa; em vez disso, teme que, se tentar
interromper as imagens, não as consiga invocar novamente. Nada disso, ele lembra a si
mesmo, tem a ver com a srta. Suzello. Que está olhando para ele agora. Com expectativa. À
espera de sabedoria. Ele acaba de dar uma aula sobre o imperativo categórico. A maior parte
da filosofia, do tipo que ele ensina, é abstrata. Mas não o imperativo categórico — um conceito que oferece princípios racionais de ação e à luz do qual nossas esperanças e nossos
desejos egoístas podem ser examinados e avaliados. O imperativo categórico fornece razões
predominantes para que nos comportemos de forma moral. De fato. E a certeza daquilo que se
deve fazer é a essência da moralidade. Ele sabe tudo isso. Li o que Platão escreveu sobre
Sócrates, diz a srta. Suzello, mas mesmo assim não faço ideia por que Sócrates optou, tipo
assim, por não se salvar. Ela ergue as pálpebras pesadas para revelar olhos negros como
carvão e incomensuravelmente profundos. Por que alguém ia, tipo, fazer uma coisa dessas?
Optar por morrer quando podia, tipo, viver? As frases dela têm a inflexão ascendente de
qualquer jovem. O que, normalmente, o irrita mais do que tudo, mas na srta. Suzello ele acha
charmoso. Ele pensa que podia lhe dizer que um verdadeiro filósofo se alegra diante da morte,
e nenhum mais do que Sócrates, que sabia que a essência da filosofia era aprender como
morrer. Mas a srta. Suzello é tão absurdamente jovem e vital que falar de morte soaria
ridículo. Seu caderno está aberto, esperando que a iluminação instantânea inunde suas folhas.
Sua blusa branca de algodão também está aberta, no pescoço. Há cinco botões, ele observa, o
último escondido abaixo de sua linha de cintura. Seu corpo parece delgado e firme como o de
um rapaz, exceto pela leve ascensão e queda em seu peito. Seus lábios são bem definidos, sem
batom, só um leve brilho. Sua juventude, sua agilidade, seu otimismo — tudo isso dilacera o
coração dele. Ela ainda o está encarando, ansiosa por respostas. Ele sabe que é um jogo, meio
como uma dança palaciana, na qual cada um deve fazer os passos certos. Por um momento, ele
considera lhe perguntar sobre a vida dela, se ela é feliz. Você é feliz?, pergunta ele,
surpreendendo a si mesmo. Na sua vida, quer dizer. Meu trabalho, diz ela, com outra inflexão
ascendente. Ele sente um abismo se abrir entre ele e o mundo. Você está bem, dr. Sanderson?,
pergunta ela. Depois do que parece ser uma passagem de tempo interminável — durante a
qual, ele percebe, ao que parece pela primeira vez, que cada momento da vida passa, vai
embora e nunca mais volta —, ele se ouve dizer não, não, não, a esta altura ele chegou a um
ponto crítico em que já é tarde demais para fazer alguma coisa, e o ponto em questão era o
colo da srta. Suzello, no qual ele conseguiu de algum modo enterrar o rosto e começar a
chorar. Mesmo agora, ele tem a ilusão de que mergulhou o rosto em suas próprias mãos. Só
depois ele percebe, por trás de uma névoa de lágrimas, onde se enfiou. Ele não é um homem
dado a chorar, e, se alguém tivesse perguntado antes, ele teria dito talvez que esquecera como
se chorava, se é que de fato um dia soube. Mas as lágrimas, quando elas vêm, fluem
abundantemente. Sua lembrança era a de que a jovem americana não o empurrou — isso se
tornou importante depois —, mas, se foi porque estava congelada de horror ou paralisada de
nojo (duas possibilidades que ele mais tarde reconheceu), nunca ficou claro. Enquanto limpa as lágrimas salgadas na saia dela, percebe um pequeno furo no material, espalhando-se em
todas as direções como os pontos cardeais de uma bússola. Essa foi a última vez naquele dia
em que a normalidade sobreveio. O resto é caótico e lembra um sonho.
“Você não poderia ter se contido?”, perguntei quando finalmente ele terminara de falar. Não
havia a intenção de censurar. Estava pensando na vez, há muito tempo, em que fiquei fora de
mim naquela aula de filosofia. Estava curioso por saber se as ações dele eram ou não
determinadas por sua vontade. Ou se elas lhe pareceram fora de seu domínio — um sinal de
sua ligação frágil com o mundo. Mas ele não respondeu. Montaigne pensava que o fato
fundamental sobre a condição humana era que as pessoas são falíveis. Rousseau o acusou de
ser dissimulado, com base no fato de que, embora Montaigne se retratasse com defeitos, ele se
atribuía apenas defeitos adoráveis. Ninguém poderia ter acusado Sanderson de ter apenas
defeitos adoráveis. No entanto, ele estava longe de ser o que os franceses chamam de une
véritable ordure.
A versão da aluna americana, que rapidamente rodou a universidade, foi mais sucinta. Sua
lembrança era que o dr. Sanderson, comportando-se de forma estranha e com forte cheiro de
álcool, havia de repente caído sobre ela, chorando e gemendo. Quando ela lhe perguntou o que
havia acontecido, ele disse (ela alegava lembrar perfeitamente e escreveu as palavras exatas
numa declaração): “Minha esposa não quer mais fazer sexo comigo. Ela não suporta que eu a
toque. Ela pensa em empurrar o carrinho de compras enquanto estamos transando. Enquanto
isso, eu corrijo trabalhos para ganhar a vida. Os trabalhos são um saco e a vida, uma boceta.”
Na declaração que forneceu à diretoria da universidade, ela também alegou que o dr.
Sanderson tocava os genitais com frequência na presença dela. (Mais tarde, quando
solicitaram a Sanderson que comentasse sobre esse ponto específico, ele foi provocador: “Os
genitais, como você os chama, foram feitos para balançar livremente na temperatura ambiente.
Achei que pessoas inteligentes como você soubessem disso. Eles não foram feitos para ficar
aprisionados em calças de poliéster. Precisam de ajuste constante.”)
Foi a versão estranha de Carrie dos eventos, porém, que ouvi primeiro. Depois de me contar
sobre a suspensão, ela disse que tudo havia sido um terrível mal-entendido. O comportamento
impróprio, assim alegado, era uma ficção. Uma aluna estava tendo dificuldades com seu
trabalho e fora pedir ajuda a Harry, que não estava em boas condições de saúde naquele dia:
estava deprimido, sua pele estava pior do que nunca, e o semestre não havia começado bem.
— Além disso, Alice tinha acabado de lhe dar o fora — disse ela. — Não que ele tenha
citado isso quando me contou, mas eu calculei pelas datas. — Ela pausava entre as frases,
como se estivesse reunindo forças. — A aluna estava vendo que ele não estava bem. Ela
estava preocupada com ele, perguntou como ele estava se sentindo... — Quando ela pausou de
novo, senti meu couro cabelo se contrair (o incômodo dela era contagioso). — Nesse
momento, a gentileza dela desmontou o Harry.
— O que isso significa? Ser desmontado?
— Não sei realmente o que significa. Mas não consigo pensar em outra coisa para
descrever.
Ela disse que Harry se acostumara a esperar o pior das pessoas, inclusive dela — era uma
espécie de proteção — mas, quando essa jovem americana se aproximou dele e demonstrou
compaixão, ele perdeu o controle e chorou em seus braços.
O relato de Carrie tinha uma curiosa atração, mas não convencia. Sanderson a enfeitiçara.
Embora a racionalização dos eventos fosse leal de um jeito admirável, havia algo
desesperado nela, como o que um advogado de defesa alega em juízo, pedindo que o bom
caráter fosse levado em consideração como redução da pena.
— Essa garota, ela o desvirilizou, entende? Foi como ele descreveu. — E agora, por
algum motivo, a moça havia decidido apresentar uma queixa. E as autoridades da universidade
decidiram levá-la a sério. — Eles não têm escolha, é claro. Têm medo de ser processados,
entende? Os americanos sempre envolvem advogados. — Mas isso não significava que havia
substância nas acusações, disse ela. — Foi um ato de desatino e autoindulgência, talvez, mas
foi inteiramente inocente. — Pessoas inteligentes às vezes faziam coisas estúpidas, com
certeza, eu conseguia entender isso. Harry não era exceção. — Ele é só... — ela hesitou —
ternamente desesperançado.
Parecia provável que essa fosse a maneira que as pessoas falavam quando o casamento ia mal.
Era o que eu achava. Nos momentos turbulentos, os laços se estreitavam, ameaçando toda a
capacidade de julgamento e a compostura. Por que outro motivo uma mulher inteligente
abandonaria sua tranquilidade de espírito e protestaria a inocência do marido dessa maneira?
Esses pensamentos pareceram traiçoeiros. Eu estava me tornando uma testemunha suspeita.