O Tom Ausente de Azul
Capítulo 37
Na penumbra de uma noite do início de novembro, sentamos juntos na minha casa, a
expectativa no ar: se eu aguardasse tempo suficiente, ela começaria. Ela me contaria seu
segredo — por que ela vinha entrando na minha casa sem permissão — e diria como sentia
muito e como fora tonta e dissimulada. E eu diria não, não, não tem importância alguma, não
causou nenhum dano e, de qualquer forma, todos nós fazemos coisas estranhas, das quais nos
arrependemos. Tudo teria uma simplicidade perfeita e seria consumado com a delicadeza de
uma cerimônia de chá japonesa.
O bilhete dela tinha sido breve e direto. Encontrara-o no dia anterior sobre a mesinha do
hall:
Sinto muito. Devo-lhe uma explicação. Vou dar uma passadinha amanhã depois do
trabalho. C.
Nas curvas e nos laços de sua caligrafia, eu via os contornos de seu rosto. Os olhos bem
separados com seu olhar misterioso flutuavam à minha frente, bailando no foco suave do meu
devaneio no arco de cada palavra. Até sua caligrafia era perturbadora.
*
E agora estamos sentados de frente um para o outro na sala de estar pouco mobiliada,
representada de forma ainda mais ascética na minha mente ao pensar na garagem decorada
com refinamento no outro lado da parede. Seguramos uma taça de vinho branco gelado. A sala
parece austera e fresca, uma luz fria brilhante a clareia como numa sala de operações. De
repente, a sobriedade da minha habitação parece desconfortável. Contrariando toda a lógica,
anseio uma almofada cheia no chão ou uma tapeçaria na parede para suavizá-la.
Ela veste uma camiseta verde-escura. A cor realça sua tez pálida, que, no moderado frio
do quarto, está arrepiada em minúsculas intumescências, como a superfície de uma laranja.
Noto os finos fios brancos em seu braço. Está bem aquecida?, pergunto, levantando de um
salto, como que para me aquecer um pouco. Ela faz que sim com a cabeça, tremendo
levemente e arqueando as costas enquanto isso, até que consigo ver os ossos finos que
convergem numa ranhura que percorre toda a sua coluna. Por um momento, ela se senta muito
quieta, mal perturbando o ar, uma estátua esculpida em mármore. A atmosfera está
intensamente carregada. Basta esperar, porém, e tudo será explicado. Finalmente, ela fala.
— Não é o que você está pensando — diz.
Na verdade, eu não sei o que estou pensando.
— Imagino que lhe pareça um casamento horrível.
— Por que diz isso?
— Não precisa ficar sem graça. É o que qualquer pessoa de fora concluiria. — Ela parece
estar na defensiva.
— Não cheguei a concluir nada.
Até aí é verdade.
— Quando Harry me dava aulas de filosofia, há muitos anos, ele podia ser bem
intimidador. Esperto, confiante, um pouco pretensioso, talvez, sem dúvida interessado em
exibir seus dotes. Quando nos encontramos de novo, alguns anos depois, já o vi por outro
ângulo. Ele não tinha tanta confiança. Na verdade, ele era desajeitado. — Ela pausa, como que
dando tempo para se lembrar da falta de jeito dele. — E eu gostava daquilo. Isso o tornava
vulnerável. Eu também era vulnerável. — Os homens importantes, diz ela, haviam
desaparecido de sua vida não fazia muito tempo: o pai de seu filho e também o seu próprio
pai. Harry a assediou, e ela correspondeu. Antes de perceber, apaixonou-se por ele. — Uma
pequena paixão pelo menos. Uma paixonite, pode-se dizer assim. — Ela sorri. — De
qualquer forma, foi como uma pontada. Nada que se pudesse chamar de amor. Meu pai havia
acabado de morrer e Harry preencheu uma lacuna. Nunca tivemos de fato um relacionamento
de corpo e alma.
— Um casamento de conveniência, então? — surpreendo-me com isso.
— Bem, essa é apenas uma boa expressão, não significa nada de fato. — Carrie dá uma
risada seca. — As pessoas vêm se casando há séculos por todos os tipos de motivos, e com
certeza sem compreender uma à outra.
— Mas, sem dúvida, há algo que a atrai no começo. Mesmo que seja apenas a
possibilidade de alguma coisa.
— Acho que você tem razão. Embora seja difícil agora pensar no que foi. — Novamente,
ela ri, com indulgência dessa vez. — Ele estava um desastre quando nos conhecemos, um
homem grande usando roupas folgadas. Não que eu me importasse. Ele vestia calças de velho,
do tipo que a gente chamava de calças de flanela, sabe como é? Com reforços, curtos uns
cinco centímetros, muito altos na cintura, apertados na coxa antes de ficarem abalonados, e
camisas de manga curta. Os braços pareciam fracos e indefesos. Mas tudo isso me convidava
a ter pena e um desejo de tomar conta dele. Nossa diferença de idade também parecia uma
coisa boa. Um homem mais jovem pode seguir qualquer tipo de caminho, mas pensei que
Harry provavelmente já tinha parado de crescer. O que me faz pensar que eu sabia no que
estava me metendo.
— E você estava certa em pensar assim?
— Sim, de certa forma. Meus pais sempre procuraram ver o lado bom das coisas, por uma
obscura gratidão a Deus. Tudo o que acontecia era ditado pela vontade do Todo-poderoso. Era
nisso que acreditavam. Eles suportavam o que lhes fosse ofertado, sempre agradecendo a
Deus por todas as coisas.
Crescer assim foi muitas vezes sufocante, diz ela. Harry, por outro lado, geralmente
procurava ver o lado ruim das coisas. Ele conseguia ficar aliviado em piorar cada situação,
ou pelo menos em fazer com que ela parecesse pior do que era.
— E, de algum modo estranho, isso era libertador.
— E o amor não entrou na história?
Minhas suposições estão sob ataque.
— É bem possível que pôr o amor no centro do casamento seja jogar com o destino. Você
não concorda? E de qualquer forma, eu fiz isso, com o pai do meu filho. E veja aonde isso me
levou. Talvez seja necessário tempo para que o amor adquira algum tipo de significado. Você
não pensa assim?
Não consigo pensar. Estive olhando, enquanto ela falava, os movimentos de sua boca. Eu
poderia ter dito que não tenho experiência alguma naquilo que ela está falando, que em muitos
aspectos a minha vida é apenas o prolongamento da minha infância, que ainda estou sofrendo a
morte dos meus pais, que sempre tive medo da loucura — tanto do tipo que se herda quando
do tipo que se pode chamar de sua —, que tenho um vício neurótico na rotina, que medos
irracionais me assolam e que eu nunca tive coragem de mudar praticamente nada. Se não
tivesse me tornado aquilo que mais temo, talvez tivesse dito tudo isso.
— Não tenho certeza — respondo.
— Os casamentos são desfeitos quando as pessoas não lhes dão tempo. É o que eu acho, pelo menos. As pessoas imaginam que outros casais estão vivendo vidas felizes, que na casa
do vizinho tudo é perfeito. Talvez seja, é claro. Mas parece improvável. — Ela fecha os olhos
por um momento, e noto que seus longos cílios são claros.
— O problema é que — continua ela, girando a aliança no dedo —, a partir do momento
que a gente tenta explicar coisas assim, grandes como casamento, que envolvem duas pessoas
com todas as suas peculiaridades e manias, a gente começa a mentir. Seja para si ou para os
outros. E, antes que a gente perceba, já construiu uma história inteira que não tem conexão com
os fatos.
Finalmente sei o que ela quer dizer. Venho fazendo isso a vida inteira.
— As pessoas que conheço e que deixaram seus cônjuges... bem, elas fazem isso num
impulso — continua ela. — E, depois, fazem a história se encaixar nos fatos.
Carrie está examinando suas mãos como se elas guardassem a chave para tudo o que está
dizendo.
— Imagino que, na maioria dos casamentos, não é nem uma coisa nem outra. O
entendimento com seu parceiro se dá em caminhos paralelos: entendendo-se com ele ou não.
Ela olha para ver minha reação. Seus olhos são piscinas azuis profundas.
— Mas vale a pena dizer, vale a pena repetir, que o homem com quem me casei parece
diferente do homem que vejo agora. Agora ele se presta à caricatura, porque suas falhas são
muito evidentes e suscetíveis ao ridículo. No entanto, havia tantas outras coisas nele, muito
além da figura farsesca que se pode forjar com as falhas. Algo aconteceu enquanto eu não
estava olhando.
— O que você acha que foi?
— Quem sabe? — responde ela, virando-se para a janela como se a resposta pudesse estar
do lado de fora. Faz apenas um ou dois anos que ela começou a notar. Ela vinha muito
envolvida em outras coisas. — Estou começando a pensar que ele pode estar deprimido. Não
apenas chateado com a vida, sabe?, mas realmente doente. Com um tipo de depressão clínica
moderada.
— O que faz você pensar isso?
Todos os tipos de motivos, diz ela, mas um em particular, o tipo de coisa que só se sabe
quando se vive com alguém. O cheiro dele é diferente, diz ela, parecendo, de repente,
perplexa. Ela leu que pessoas deprimidas exalam um tipo característico de cheiro, um cheiro
que não dá para eliminar. E ele é muito centrado, diz ela, não em si mesmo exatamente, mas
dentro de si. É um caso lamentável, não há dúvida. Quando se conheceram, ele faria qualquer
coisa para evitar uma cena. Por causa de sua criação. Não que seus pais fossem pessoas entojadas, de nariz empinado. Eles não eram assim. Eram pessoas discretas e cumpridoras das
leis, com pavor de chamar a atenção para si mesmas.
— E esse tipo de coisa, bem, acho que fica marcado antes que a gente perceba.
Ela fala de um modo nervoso agora, voltando atrás, qualificando sua última afirmação,
questionando a seguinte ainda antes de proferi-la.
— Além disso, ele começou a se comparar com os outros: queda de cabelo, perda de
dentes, esse tipo de coisa. Está prevendo a própria ruína. Principalmente agora, que Alice
terminou com ele.
— Você sabia disso?
Ao revelar, sem querer, que eu também sabia, sinto-me como um traidor.
— Não se preocupe, não é nada do outro mundo. Eu não me incomodava. — Ela soa bem
tranquila agora. — Na verdade, foi melhor para mim enquanto durou. É muito pior agora.
— Como assim?
Ela hesita. Corre os olhos por mim, sem encontrar os meus. — Eu não devia estar falando
com você assim. Mal o conheço — diz ela. Ela se apruma e vira para mim, lançando-me um
olhar longo e considerado, como se eu fosse uma coisa num prato de restaurante, para ser
comida ou mandada de volta à cozinha. — Mas é exatamente porque mal o conheço que
consigo. É mais fácil falar com alguém de fora.
Alguém de fora, é o que sou. Un étranger, como meu pai antes de mim.
— Como posso dizer? — pergunta ela.
O modo que diz é que esse aspecto das coisas com Harry nunca foi, de fato, “satisfatório”
para ela. Nunca manteve sua atenção de verdade. Faz anos que tem sido apenas um rápido pit
stop, diz ela.
— A coisa prática, sabe? Uma espécie de arrumação, o equivalente carnal de aparar o
cabelo, se é que você me entende. — Era um calor no corpo, sim, mas, de modo geral, se
tornou uma coisa sem graça, como comida para gente doente: nutritiva o bastante, mas de um
jeito meio insosso. Sem cor. Ela se sentia bastante aliviada por ele estar se divertindo em
outro lugar. Tirou dela a pressão.
Ela fala em ondas agora, com cada vez mais espuma. Sua voz é uma melodia na minha
cabeça.
— O inacreditável é que Alice tenha suportado ele pelo tempo que suportou. Quanto mais
desesperado ele ficava, com a pele pipocando e tudo o mais, mais ele achava que tinha que se
provar. Agora, qualquer coisa física parece com uma colisão frontal. Ele é como um pilar de
rúgbi no ataque, fugindo, empurrando e formando um enlace vigoroso com o adversário enquanto avança pelo campo.
Estou sentindo um leve pânico. E uma forte ânsia de consultar meus dicionários. Certas
expressões podem deixar você confuso. Você conhece as palavras individualmente, mas,
juntas, elas não significam nada. Não é a primeira vez que penso que os limites da língua são
em algum sentido os limites da experiência. Enquanto eu contemplo pit stops e pilares, Carrie
muda de assunto.
— Também acho que ele se pergunta se algum dia se surpreenderá novamente com os
alunos. Ou com a vida — diz ela.
— Você quer dizer que ele está no emprego há muito tempo? — pergunto, de volta a um
terreno mais seguro.
— Algo assim, acho. Tornou-se um fardo para ele. Acho que acontece muito em
universidades. E ele é duro consigo mesmo. Houve um tempo em que gostava do que fazia,
quando acreditava, quando achava que podia fazer diferença, quando admirava seus colegas e
gostava dos alunos. Era um processo pelo qual todos passavam juntos, e todos aprendiam com
ele. Em algum momento, ele pareceu desenvolver desdém por seus colegas. E por sua matéria.
A filosofia, de repente, perdeu a atração. Agora, é tudo meio mecânico. Cumprir o programa
sem deixar nenhuma marca. É isso que ele diz, pelo menos, embora, às vezes, eu pense que ele
goste de parecer desesperançado. — Ela dá uma risada indulgente.
— Pelo menos, ele fala sobre isso com você. Melhor do que guardar para si.
— Às vezes, não tenho certeza. — Ela baixa os olhos de novo e estica bem os lábios. —
Ele se desapontou consigo e isso se traduz numa decepção com o mundo e comigo. Cada vez
mais ele fala comigo num tom de voz de quem está falando com uma imbecil. O que acho que
me tornei, em parte.
Sinto ânsia de defendê-la, mas me controlo, perguntando, em vez disso, se ela leu o livro
de Sanderson sobre felicidade.
— Li as provas, sim. — Nenhuma surpresa, diz ela. Basicamente, era um livro acadêmico
que listava os argumentos, as diversas abordagens sobre a felicidade. Mas o epílogo era mais
revelador, oferecendo algum insight quanto ao homem, semelhante àquilo de que eles vinham
falando, na verdade. Quase dava para sentir a decepção na página. — Bem, eu sinto, pelo
menos. Mas também consigo ver o aspecto humano ali.
Sua voz é hipnótica, tão cadenciada e cheia de melodia que fica fácil perder o que diz, tão
cativante é sua música.
— Sem dúvida quanto a isso — continua ela, segurando seu copo para enchê-lo
novamente. — A filosofia pode estragar de verdade a sua saúde.
— David Hume certamente pensava isso — comento, de pé, acima dela agora, servindo o
vinho e pensando como ela parece pequena e vulnerável no sofá. — Ele era um estudioso
brilhante, mas filosofia demais o levou a um colapso completo. Seu médico chamou de mal
dos eruditos.
— E qual foi o tratamento?
— Fazer tudo mais moderadamente, andar todos os dias, parar de trabalhar antes de se
sentir exausto, foi o termo que ele usou.
— E deu certo?
— Deu. Ele percebeu que uma vida feliz é feita de momentos bem comuns: na companhia
dos amigos, jantando juntos, bebendo juntos, sendo ativo, sem pensar demais.
Parece simples, diz Carrie, mas ela sempre acreditou que as coisas que ansiamos, “como
felicidade e amor”, são bastante fugidias.
Por que a felicidade é fugidia?, pergunto, ignorando o amor, mas sentindo algo próximo à
empolgação agora, sem mais estar aprisionado pela reserva. Ela me lança um olhar de soslaio,
não exatamente de reprovação, talvez apenas consciente da tendência de perguntas-e-respostas
da noite.
— Porque não é algo para se pensar a respeito, é algo que simplesmente acontece —
responde ela. — Quer dizer, se você fosse me perguntar o que me faz feliz nesse momento, eu
ficaria com estar viva no mundo com preocupações nada mais que cotidianas. Mas, se isso
acontecesse, então a felicidade provavelmente seria outra coisa completamente diferente. —
Ela puxa para baixo os cantos da boca com as duas mãos, fazendo um rosto de palhaço triste.
— As pessoas dizem: “Eu seria feliz com uma bela casa de campo” ou “Só quero uma vida
tranquila com um marido e dois filhos.” Mas, assim que conseguem, isso não as impede de
desejar ardentemente a próxima coisa.
— É, mas você não acha que damos importância demais à felicidade? Tornou-se uma
espécie de culto, uma droga. Não concorda? Nos deixa com medo da tristeza. Nós a
empurramos para longe.
— Como assim?
— Bem, é quase como se existisse um requisito para que as pessoas sejam felizes; é um
dever, e temos de prestar atenção a ele todo o tempo, empurrando para longe qualquer coisa
negativa, qualquer coisa triste. Por exemplo, as pessoas não ficam mais de luto, certamente
não na França. Saiu de moda. Éramos bons nisso. Agora, é desencorajado.
— Talvez não tenhamos a mesma necessidade do luto — diz ela.
— Eu certamente tenho — digo, de modo surpreendente para nós dois. — Sinto muito a perda dos meus pais. Quase tudo o que faço é uma forma de luto por eles.
Ela está me olhando de forma prolongada e penetrante.
— É claro — digo — que esse não é o tipo de coisa que a gente sai por aí admitindo.
Admitir para si é o suficiente.
Começamos, então, a discutir como coisas desse tipo são diferentes nos nossos dois
países. Na França, a palavra para felicidade é “bonheur”, digo — a antiga palavra para
ventura. E é assim com muitas outras línguas — inglês também. O radical “happ” era acaso,
como em happenstance. Mas a palavra moderna perdeu todas as suas associações com o
acaso. “Acho isso uma pena”. “Joie” por outro lado, joy, em inglês, era uma palavra muito
mais útil que felicidade. Joie de vivre, diz ela, numa inflexão celta engraçada. “Exatamente”,
digo, “mas joie é a aceitação da vida em suas partes boas e ruins.”
A luz da lâmpada parece agora muito brilhante e fria para essa conversa. Peço licença por
um momento e pego algumas velas na garagem. Ela me observa voltar e fazer alguns ajustes.
“Assim é melhor”, diz ela, logo que a lâmpada é desligada e as velas são acesas. Quando
estamos acomodados na nova luz suave, peço que ela descreva o Sanderson que conheceu
quinze anos antes.
Ela começa a rir. Tantas perguntas, diz ela, sem parecer se importar nem um pouco. Ele
sempre foi mais sr. Rochester que sr. Darcy, diz ela. Saturnino, melancólico, uma
contracorrente sombria de perigo, mas também dinâmico e audacioso.
— No começo, ele conseguia ser chocante e hilário ao mesmo tempo. Contava histórias
sobre como nos conhecemos em jantares. Ele sempre disse que foi pelo meu traseiro que se
apaixonou, realçado pelo esplendor dourado da Signet Library, até que todo mundo resmungou
porque havia ouvido isso muitas vezes. Mas ali havia senso de humor. Na verdade, ele era
capaz de fazer um número de comédia sozinho, o cara engraçado e o sujeito normal em um só.
Seu tempo de comédia era perfeito.
Nos primeiros anos, ele fora sentimental em matéria de amor. Com isso foi mais difícil de
lidar. Às vezes, ele escrevia bilhetinhos para ela — epístolas de amor dobradas em pequenos
quadradinhos — e os empurrava por baixo da porta do estúdio. Em outras ocasiões, deixava
cartões no apartamento para ela descobrir. “Minha dileta esposa”, era como eles
invariavelmente começavam, o que sempre soou para Carrie como se ele tivesse várias.
— Eles geralmente continuavam com uma mensagem de autopunição, que parecia, ao
mesmo tempo, autoindulgente e falsa, como “Sei que devo ser uma decepção para você” ou
“Desculpe-me por me descuidar com você”, terminando com algum carinho sem jeito que saía
capengando da página.
Harry deixava esses bilhetes, sorria de maneira cúmplice para ela, parecendo confirmar
que eles eram mais para benefício dele do que dela, como ela suspeitara o tempo todo. Além
disso, ela ficava confusa com o contentamento dele. Nunca lhe ocorrera se sentir
negligenciada ou pensar que ele ficava fora tempo demais. Na verdade, ela se incomodava, se
é que se incomodava com alguma coisa, exatamente com o contrário: o fato de que ele parecia
estar sempre lá, no apartamento, aparecendo e reaparecendo em momentos não planejados,
atrapalhando o ritmo natural do seu dia de trabalho.
— Você nunca foi casado, foi? — A pergunta não soa acusadora nem piedosa.
— Não — respondo, sentindo que não passei num teste. — Mas o assunto me interessa. —
Dou uma risada constrangida. — Tenho muita curiosidade sobre outras formas de ser.
Quero desempenhar meu papel nessa conversa, compartilhar informações e experiências
de modo igual. Certamente, é assim que deve ser: você ouve a história de outra pessoa e
depois conta a sua, uma interação mútua, alimentar e ser alimentado, fornecer apoio e obtê-lo
em troca. Por que sou tão inábil nisso? Eu tento me envolver, mas tudo parece errado. Mesmo
minhas respostas curtas — um aceno empático de cabeça, um movimento suave da mão —
parecem encenadas e ensaiadas demais, tornando-as duplamente sem jeito num papel
secundário como o meu.
— Ele ainda escreve esses bilhetes? — É tudo que consigo dizer.
— Não, não do mesmo jeito — responde ela, acrescentando que, no entanto, ele sentia
necessidade de solenizar todos os momentos significativos de sua vida com cartas.
Geralmente, cartas longas, às vezes chegando a mais de dez páginas, sempre meticulosamente
pontuadas e repletas de parênteses e alusões.
— Assim como algumas pessoas precisam tirar fotos para marcar os grandes eventos,
como se, sem a câmera, nada fosse crível o bastante, Harry tende a validar os pontos altos e
os pontos baixos, especialmente os pontos baixos, dando-lhes vazão por escrito.
Por alguns minutos, ela fica em silêncio, e, na luz trêmula, dá a impressão de estar aflita.
Mas, em seus comentários irônicos sobre os hábitos epistolares de Sanderson, ela não soa
aflita, e começo a pensar que, por trás do exterior tranquilo, há uma variante vivaz e animada.
— Às vezes acho que escrever cartas lhe dá mais satisfação que quase todo o resto. Fora
atar moscas, talvez. Minha teoria é que, para ele, as cartas captam um momento no tempo que,
de outra forma, desapareceria sem deixar rastros. Ele gosta de imaginá-las sendo recebidas,
lidas e relidas, e que o destinatário dormirá sobre as cartas e sonhará com elas. Tudo isso lhe
dá muito prazer, um prazer puro e imaculado, porque ele o controla sozinho.
Ela se senta de perfil agora. Não consigo ver seus olhos, mas posso sentir seu deleite.
— Algumas coisas a gente só compreende quando faz parte — diz ela, séria novamente. —
Há coisas com as quais a gente se acostuma, coisas que outra pessoa acharia difícil de
acreditar e impossível de compreender. Quando eu era jovem, pensava que casamentos ruins
deviam simplesmente acabar, como telefonemas incômodos. Mas não é assim. As pessoas
podem se comportar muitíssimo mal num casamento e, ainda assim, serem amadas e
valorizadas. Mesmo no meu relacionamento anterior, o qual eu pensava que levaria ao
casamento e ao felizes para sempre, ele deu no pé e nunca olhou para trás. Assustado, acho.
Uma longa pausa. Ela baixa os olhos.
— Você se acostuma com o outro, a presença na mesa do café da manhã, o volume na
cama. Com o tempo, isso significa cada vez mais. Familiaridade gera ainda mais
familiaridade. É assim que as nossas vidas se formam. Assim e com as coisas terríveis que
fazemos um ao outro.
— E familiaridade é o bastante?
A pergunta paira no ar, esperando uma resposta.
— Na maior parte do tempo, é o que basta.
Ela se cala de um jeito que sugere que essas podem ser suas últimas palavras sobre o
assunto.
— Acho que não tenho direito de me surpreender — diz ela. — Digo, estar casada nunca
foi uma coisa tranquila. O jeito como Harry conseguia encontrar defeito na mais simples das
afirmações sempre me exasperou. Nesse ponto, eu sabia onde estava me metendo. Mas, até
alguns anos atrás, ele era como muitas outras pessoas, um pouco enrugado e fora de forma,
decepcionado com o mundo, aproveitando cada oportunidade para expressar sua insatisfação
consigo... — Sua frase fica sem terminar, mas ela deixa sua marca na noite. Os olhos dela
viajam pelo cômodo antes de encontrar os meus. — Não, acho que o que mudou para mim foi
a minha habilidade de lidar com ele. Isso e o que a vida me aprontou.