O Tom Ausente de Azul

Jennie Erdal · Capítulo 41 de 59

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O Tom Ausente de Azul

Capítulo 40

 

Foi o tipo de evento que muda o rumo de uma amizade, uma única ocorrência da qual, quando

olhamos para trás, tudo mais parece decorrer. Sanderson pediu desculpas mais tarde, mas sem

entusiasmo e falando para baixo, para o chão. Ele disse que estava ficando abatido por causa

de ciúme, a ideia de que Carrie estivesse pulando a cerca.

— Você pode criar algo do nada, acho.

Parecia vulnerável, um homem tratado com trágica injustiça, mas ao mesmo tempo hostil,

ainda capaz de desferir um soco. E sim: ele estava perfeitamente ciente da própria hipocrisia,

comentou, levantando os olhos do chão agora para me olhar no rosto — por isso não havia

necessidade de que eu mencionasse esse fato.

— Não ia mencionar — comentei, aborrecendo-me com a injustiça de ter de me defender.

— Embora me ocorra que você possa estar tendo algum tipo de crise. Talvez você devesse...

— Procurava a frase “consultar alguém”. Mas as muralhas estavam a postos novamente.

— Crise? Crise? Fico com meu velho amigo Tchekhov nessa, Eddie. Qualquer idiota pode

enfrentar uma crise. É a vida cotidiana que desgasta a gente.

Eu havia pensado em contar a Carrie sobre tudo isso, mas algo me fez hesitar: talvez a

possibilidade de que, em vez de ficar ofendida em meu benefício (como eu teria esperado),

ela pudesse encontrar algum modo estranho de desculpar o comportamento de Sanderson. O

risco não valia a pena. E, de qualquer forma, estávamos nos dando muito bem. As notícias

sobre Alfie continuavam sendo positivas, e de repente parecia existir mais luz que escuridão

na vida dela. Havia um novo brilho em seus olhos, e eu não queria que eles fossem turvados

por uma insignificância. Carrie criara o hábito de aparecer para um drinque e uma conversa à

tardinha depois de meditar. Eu havia ajustado minha iluminação fria para algo mais suave e

quente, e peguei algumas almofadas da garagem. Era muito melhor agora, que tudo estava às claras — não tudo exatamente, é claro — e suas visitas completavam o meu dia de forma

perfeita. Comecei a sentir uma separação entre o trabalho e tudo o mais que o dia tinha a

oferecer, e isso era bastante novo. As conversas com Carrie se tornaram fáceis, naturais e

enriquecedoras, tanto que comecei a pensar em nossos momentos como algo de certa forma

essencial e significativo, não apenas intervalos roubados entre outros modos de vida. Talvez

devêssemos ter contado a Sanderson sobre a garagem, mas o momento certo nunca parecia

chegar.

 

Carrie e eu estávamos conversando num final de tarde sobre nossas respectivas ocupações e

como elas nos moldaram como pessoas.

— Às vezes, penso que os tradutores estão afastados da vida — disse eu, servindo-nos de

outra taça de bom vinho francês. — Há algo de temporário neles. Eles sabem que não são os

originadores. Não são os principais empreendedores. E isso pode se infiltrar em suas vidas. O

que os torna indivíduos bastante reservados. É difícil generalizar, é claro.

— Quantos tradutores você conhece?

— Para ser honesto, pouquíssimos — respondi, rindo de mim mesmo.

— Era o que eu suspeitava — disse ela, juntando as mãos com um prazer evidente.

— Mas, na minha imaginação, a maioria são homens de meia-idade vestindo velhos

sobretudos e ainda morando com as mães. Se passasse por eles nas ruas, você nem notaria.

A conversa começara quando eu disse que era bastante difícil falar sobre tradução — em

geral, não se sabia como descrevê-la ou explicá-la. Carrie disse que sentia algo parecido com

a pintura. Ela não gostava de tentar descrever o que fazia e como fazia, preferindo que o

processo permanecesse misterioso, mesmo para si.

— Sempre acho que isso faz a arte parecer fraudulenta — disse ela — e o artista, um

charlatão. O importante é pintar.

Era importante para o pintor, é claro, mas, quanto às outras pessoas, perguntei. Não era

algo importante ajudar pessoas como eu a apreciar e compreender a arte?

— Não tenho certeza. Acho que é mais importante que se olhe. Que se olhe e sinta. Não

que lhe digam o que pensar. Uma obra de arte deve estar aberta às emoções. Há muita

bobagem pretensiosa sendo dita sobre a pintura, muitas vezes pelos próprios pintores. Eles

falam sobre significado, porque todo mundo sempre quer saber o que alguma coisa significa.

Mas, na realidade, o que se faz são marcas na tela, e não se sabe o que elas significam. De

certa forma, elas não significam nada, mas algo sai delas. É uma atividade insondável.

— A tradução é uma atividade misteriosa também — disse eu, saboreando a conversa, querendo diminuir-lhe o ritmo e fazê-la durar por horas. — Você dá por si procurando

metáforas, como se a tradução não pudesse ser apenas ela mesma e nada mais. O que talvez

seja estranho, pois ela não precisa servir nenhum propósito, a não ser o próprio.

— E isso é tão ruim assim? Nós todos não usamos metáforas para descrever o que

fazemos?

— É, acho que sim. Não é que as metáforas sejam ruins, não foi isso que quis dizer. Mas

elas sempre estão no lugar da própria coisa. E, assim, quase sempre se fala de tradução tendo

como referência outra coisa. As pessoas, as que traduzem, digo, estão sempre a comparando

com outras coisas. Por exemplo, elas podem dizer que é como tirar uma coisa viva da terra

natal e transportá-la para outra. Ou desmanchar uma casa, tijolo por tijolo, e reconstruí-la em

outro lugar; ela é reconhecível como a mesma casa, mas é estranha e nova em aspectos

importantes. Talvez com uma decoração diferente. Outros já compararam a tradução a uma

apresentação musical ou teatral, com o tradutor como regente ou diretor do palco, trabalhando

com a trilha ou o roteiro original, mas adaptando-o para um público diferente. Você entendeu.

A gente sempre se descobre oferecendo mais uma metáfora para acrescentar às que já existem.

Eu havia falado demais? Era tão incomum que eu fizesse um relato sobre mim, que me

aventurasse fora de minha cabeça.

— Continue — disse ela. — Estou interessada. Me conte: quando você está traduzindo, até

certo ponto precisa tentar se tornar o escritor?

— Não tanto me tornar o escritor, mas encontrar a voz dele. A gente representa o

romancista, vive indiretamente. Primeiro e acima de tudo, o tradutor é um leitor, o leitor mais

atento que o livro jamais terá. E a sua tradução é a sua leitura do autor, sua interpretação da

voz dele.

Tive impulso de andar pelo cômodo, para quebrar a intensidade. Levantei-me e andei até a

mesa onde estava a garrafa de vinho. — Quero dizer, eu mesmo nunca poderia ser escritor.

Para ser escritor, é preciso ter algo a dizer. O trabalho do tradutor é encontrar uma forma de

dizer o que o escritor já disse.

Isso soava muito diferente de pintar e desenhar, comentou Carrie, em que se começa

sempre com uma tela em branco. Ela inclinou a cabeça para um lado, e a luz do fim da tarde

ressaltou-lhe um canto da bochecha.

— Na verdade, em certo sentido, o tradutor também começa com uma tela em branco, ou

pelo menos uma folha de papel em branco. — Estendo a garrafa de vinho para a taça dela. —

É verdade que sempre se tem algo para continuar, algo já criado: o trabalho original. Mas esse

é apenas o ponto de partida. É preciso, então, criar outra coisa com isso.

Ela queria saber precisamente como eu procedia. Havia alguma regra, coisas que se devia

ou não fazer? Ela tirou os sapatos e enfiou os pés finos debaixo do vestido de algodão.

— Bem, primeiro lemos e depois escrevemos. Exatamente o contrário do que o autor faz.

Então, talvez não fosse tão diferente de pintar, no fim das contas, disse ela. No sentido de

que a pintura era uma forma intensa de ver: primeiro, você precisa olhar, e somente depois

pode interpretar o que viu.

— Mas, com certeza, a tradução deve ser mais fixa do que isso — continuou ela. —

Menos livre naquilo que se pode ou não dizer, certo?

— Sim e não.

A tradução não era, na verdade, uma coisa fixa, expliquei. Não havia equivalência direta

entre os idiomas. Não era só que eles tinham estruturas e gramáticas diferentes: eles também

tinham recortes diferentes, diferentes características. As pessoas às vezes descrevem o ato de

traduzir como um processo mimético, mas isso é enganoso. Sempre houve novas descobertas,

coisas que não se tinha no próprio idioma. E, com a tradução, o idioma era posto sob pressão.

Era uma questão de ver o que ele suportaria.

— Não é apenas copiar o que se vê na página. É mais como reproduzir e recriar. Claro

que é preciso dar uma ideia do original, e ela precisa ser a mais próxima possível, mas, para

ficar próximo ao sentido do texto à nossa frente, às vezes é preciso se distanciar bastante dele.

E é surpreendente aonde a busca da palavra ou frase certa pode levar.

— Você se preocupa de estar traindo o livro? Traindo o autor?

Eu nunca havia tido esse tipo de conversa com ninguém. Era raro que alguém se

interessasse. E, ainda assim, eu tinha certeza de que era assim que devia ser.

Era algo em que se pensava, respondi, algo que sempre estava numa região remota da

mente, mas que a gente tentava não permitir que atrapalhasse. Tradutores têm uma

responsabilidade — com o autor, sim, mas também com os leitores. A forma como as palavras

foram organizadas na página, as cadências, os ritmos: tudo isso estava em risco. Nas mãos do

tradutor, um livro podia se tornar algo completamente diferente, algo bem inferior ao original.

Mas, se isso acontecia, era preciso simplesmente aceitar. E também o fato de que erros seriam

cometidos — era a natureza do trabalho e era impossível não cometê-los, por mais que se

tentasse evitá-los.

— Talvez essa seja uma boa forma de encarar a vida: aceitar nossos erros — disse ela.

— Sabe, é estranho. A palavra francesa para erro é erreur, como error em inglês, mas,

quando é um erro contra o idioma, dizemos faute; como o inglês fault, falha. Em outras

palavras, errar no idioma carrega nuances de pecado e culpa em nosso país.

— Você sempre morou sozinho?

Tão súbita, essa mudança de assunto. Só por morar sozinho, era possível atrair pena.

— Me esqueci como é morar sozinha — continuou ela. — O mais perto que chego disso é

a meditação. É um estado abençoado.

Então, não era pena.

— Meu pai sempre sustentou que um homem devia primeiro aprender a viver sozinho —

disse eu. — Enquanto não o fizesse, ele estaria à deriva no mundo.

— O que ele queria dizer com isso?

— Boa pergunta — respondi e ri. — Não tenho a menor ideia. Às vezes, acho que deve ter

sido difícil para ele morar com a minha mãe. Mas imagino que ele tivesse a intenção de dizer

outra coisa, algo que tenha a ver com o eu profundo, le moi profond, como ele chamava. O

qual sempre se vive sozinho.

Quando Carrie se levantava e se preparava para ir embora, perguntei sobre Sanderson.

— Harry e eu nos afastamos um pouco mais a cada dia. É a impressão que dá. Ele está

muito retraído. Não é saudável. — A expressão dela estava em algum ponto entre o

arrependimento e a reprovação, ainda insegura de si. Ela deslizou os pés nos sapatos, ajustou

o vestido e prendeu uma echarpe em volta dos ombros. Seus movimentos eram como uma série

de pinceladas elegantes. — Estou muito preocupada com ele. Ele tem se comportado de forma

estranha. Como se não tivesse mais jeito. Tenho pensado em ir encontrar o diretor da

faculdade para conversar. Explicar que ele não vai bem.

— Não faça isso — disse eu. As palavras saíram mais ásperas e urgentes do que eu

pretendia. — Não faça isso — repeti de modo mais tranquilo. — Acho que pode ser melhor

deixar as coisas seguirem o próprio rumo.