O Tom Ausente de Azul

Jennie Erdal · Capítulo 40 de 59

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O Tom Ausente de Azul

Capítulo 39

 

Sempre trabalhei com o princípio de que o tradutor é um convidado na casa de outra pessoa e,

como tal, deve se comportar bem. Como a casa de Hume era um lugar aconchegante, o bom

comportamento me veio facilmente. Contudo, a tradução também nos deixa conscientes de

nossas limitações, em parte porque ela só pode ser uma versão, nunca pode ser perfeita.

Mesmo quando o trabalho está feito, ele nunca pode ser considerado terminado. O trabalho do

tradutor, portanto, é de certa forma provisório, uma característica que, na minha vida, se

transferira por conta própria para outras áreas, com a instalação de pequenas câmaras

subsidiárias de incerteza. Acredito que essa cautela, essa prudência, é o pecado que aflige a

maioria dos tradutores, quando o verdadeiramente necessário é o que Danton prescreveu para

salvar a França durante a Revolução Francesa: de l’audace, encore de l’audace, toujours de

l’audace.

Eu começara a trabalhar no longo ensaio de Hume “Do cético”, no qual o autor tratou de

desaprovar veementemente “as decisões dos filósofos sobre todos os assuntos”, descrevendo

o raciocínio deles como uma “enfermidade” — que traduzi para o francês como “une

maladie” — especialmente quando se relacionava à “vida humana e aos métodos para se

obter felicidade”. Tudo isso me trouxe Sanderson à mente. De acordo com Hume, os filósofos

sofriam uma limitação na capacidade de compreensão; eram, em grande parte, indiferentes aos

desejos e interesses das outras pessoas, estando completamente envolvidos por suas próprias

inclinações. Hume não se eximia disso. Depois do ataque do mal dos eruditos, ele sentiu o

afastamento de seus semelhantes, o qual passou o resto da vida tentando diminuir. Hume nunca

se casou, e, embora gostasse da companhia de mulheres, continuou tímido e reservado durante

toda a vida. Um dos problemas que encontrou foi como praticar filosofia e ainda assim

permanecer são. Seu modo de lidar com a questão foi frequentar o máximo de jantares, fazer exercícios e jogar gamão sempre que podia. E, além disso, como diz a frase que meu pai

adorava: “Seja filósofo, mas, em meio a toda a sua filosofia, não deixe de ser um homem.” O

problema que Hume reconheceu foi que filósofos, pretensos sábios, não faziam a menor ideia

de como deviam se comportar. De fato, era do jeito que Sanderson dissera — “eram uns

bestas.” No fim do ensaio, Hume aludia às fragilidades humanas. Uma frase em particular

imprimiu-se em minha consciência: “Se um homem é suscetível a um vício ou imperfeição,

não raro pode ocorrer que uma boa qualidade que ele também possua torne-o mais infeliz do

que se ele fosse completamente corrupto.”

 

Essas palavras ainda estavam dando voltas na minha cabeça na vez seguinte em que fui pescar

com Sanderson. Parecia ao menos possível que a observação de Hume se aplicasse a ele.

Sanderson era uma mistura marcante de bem e mal, vencido e indomável, como uma moeda

cunhada com valores incompatíveis de cada lado. Tudo o que Carrie dissera naquele fim de

tarde, mesmo suas críticas, era carregado de compreensão e afeto. Na cabeça dela, ao que

parecia, ele era uma vítima do desespero que às vezes acompanha os homens inteligentes,

trancados num inferno solipsístico que eles mesmos criaram. Mas, ainda assim, um homem

bom e adorável.

Estávamos de volta ao rio, o lugar dramático da semana anterior. O rio estava, de modo

geral, mais brando, um tanto dócil comparado à ocasião anterior, mas o próprio Sanderson

parecia agitado. Dava a impressão de estar cansado, mais velho. Cheirava a álcool. Seus

olhos eram leitosos e turvos, como os de um peixe morto há muito tempo. Enquanto vestia

meus waders e começava a preparar a vara, ele permanecia sentado na margem do rio como

se o dia tivesse emperrado e não fosse possível pô-lo em movimento novamente.

Ele vinha mais quieto do que o normal no carro, agarrando com força o volante como se

fosse um cobertor de segurança. Mas, agora, iniciou um longo monólogo, que mantém com um

grau de detalhe e precisão que poderia rivalizar com o de qualquer policial reconstituindo

uma cena de crime. Falava calmamente, com rigidez em torno da boca e o tom insípido —

levemente impessoal e robótico — daqueles que lidam diariamente com o público em geral.

Seus olhos estavam fixos na grama à sua frente.

Acontecera havia algumas semanas, começou ele. No dia em questão, ele estava voltando

para casa depois do trabalho. Foi um dia claro, mas a escuridão estava começando a envolver

a cidade. Como de costume, ele parou na esquina da rua e olhou em duas direções — para a

frente, em direção ao seu apartamento, e para trás, de onde acabara de vir. Isso, explicou, era

uma espécie de ritual que o permitia deixar a vida que levava na universidade e começar a pensar na sua vida doméstica. Sanderson se perguntou brevemente como seria para um homem

estar ansioso para voltar para casa, os consolos da vida familiar, o antídoto para um dia duro

no escritório. Enquanto se aproximava do apartamento, distinguiu as formas de uma pessoa

sentada nos degraus em frente à entrada. Ele vira esse homem algumas vezes recentemente,

esparramado contra o muro baixo na calçada do lado de fora do bloco de prédios

residenciais, uma pilha desordenada e sem idade, segurando uma garrafa em suas luvas sem

dedos. Agora, o homem se movera mais para perto, e sua caixa de papelão sugeria que a porta

para o prédio de Sanderson poderia ter se tornado um lugar de moradia mais permanente.

Setembro na Escócia era a época em que os vagabundos, assim como os pássaros que migram,

precisam começar a pensar nos abrigos de inverno. Esse tinha sido seu pensamento enquanto

passava pelo homem para colocar a chave na fechadura, resmungando alguma saudação sem

jeito enquanto o fazia. Sanderson não tinha uma estratégia para lidar com os sem-teto,

comentou, ou com aqueles que pedem esmolas nas ruas; não uma estratégia com a qual

pudesse se sentir pelo menos satisfeito, ou uma que mostrasse um mínimo de delicadeza.

Então, ele me encarou. Havia olheiras sob seus olhos, e as bordas inferiores das pálpebras

estavam avermelhadas e esfoladas, como a carne de um animal recém-abatido. “É uma coisa

estranha, talvez você tenha notado. As pessoas que bebem demais ficam gordas e pançudas

como eu, mas os beberrões de verdade, os bebuns das ruas, esses são magros como um

palito.” Isso, como tudo o mais, foi dito sem expressão, numa voz de secretária eletrônica

gerada mecanicamente. Ele se virou para o outro lado novamente, o rosto era um cômodo

vazio.

A porta principal do prédio era de mola, disse Sanderson, e ele geralmente deixava ela se

fechar sozinha. Dessa vez, porém, ficou por lá durante alguns momentos até que ela estivesse

bem fechada, captando com as narinas, enquanto aguardava, o cheiro fétido do mais novo

morador da vizinhança. Enquanto subia os quatro lances da escada de pedra, Sanderson

continuou a pensar no homem sem-teto e na crueldade displicente com que o tratou. No

momento em que abriu a porta para o apartamento, ele inalou outra fragrância, uma mistura

adocicada de lavanda e pinho, que lhe informou que a esposa estava no banho. “Ela gosta de

sais de banho”, disse ele, fazendo uma careta para mim, como se isso fosse uma fraqueza

moral. “É uma das muitas diferenças entre nós.” Quando entrou no banheiro, ele a encontrou

submersa até o pescoço em espuma. Era uma visão que sempre alegrava seu coração, disse,

não apenas porque ela desempenhava um papel meio cômico — um rosto molhado e rosado no

fim de uma massa de bolhas onde deveria estar seu corpo —, mas também porque havia algo

de renascimento e inocência nela quando se deitava na banheira, o que tornava possível, apenas por alguns instantes, acreditar que tudo estava bem. Ele chegara a sentir o coração leve

com a emoção familiar de esperança renovada.

 

Nesse ponto de sua narrativa sinuosa, houve uma longa pausa. Sanderson inclinou o corpo

pesado num dos cotovelos e fixou o olhar no rio. Ele parecia inchado e desconfortável no

próprio corpo. Sua barriga se espalhava na frente, quase uma coisa independente. Com a mão

livre, cujos dedos estavam inchados e pingavam, Sanderson bateu no estômago, como se fosse

um cachorro que dormisse curvado dentro dele. Depois, mergulhou a mesma mão que havia

batido no cachorro em sua sacola de pesca, removeu um minúsculo pote e colocou-o

cuidadosamente no chão entre nós. Lentamente, ele afastou a mão. Poderia ser um pequeno

dispositivo explosivo, preparado para disparar a qualquer momento.

Considerei as possibilidades. Uma era que todos os momentos significativos de minha

vida estavam destinados a envolver algum tipo de pote. Olhei fixamente para ele, como se isso

fosse ajudar a explicá-lo. Tudo estava começando a levitar, e, na minha cabeça, havia o som

de vidro quebrando. Eu revirava tudo naquele pequeno espaço entre a ilusão e a realidade,

tentando compreender o que estava acontecendo.

— Prova A — disse Sanderson, afinal. — Eu a achei na banheira.

— Na banheira?

— É, estava flutuando na água, depois que a minha esposa saiu, depois que as bolhas

tinham ido embora.

— Flutuando na água?

— Eu recolhi numa caneca para dentadura.

— Caneca para dentadura?

— Depois, eu a pus num dos meus antigos potes de larvas.

— Potes de larvas?

Não havia sentido em repetir tudo. Eu sabia.

— Você sabe o que é isso?

— Não.

— Pense um pouco.

— Estou pensando.

Minha cabeça estava vazia. Era assim que os homens falavam uns com os outros? Senti

que estava próximo demais de Sanderson, literalmente, não havia espaço suficiente entre nós

para que eu me sentisse confortável. Tive a mesma sensação de confinamento de quando me

sentava na fila da frente do cinema. Era perto demais da ação, íntimo demais. Causava uma sensação de náusea. Eu desejava a segurança dos bancos de trás.

— É a porra de outro homem. É o que é.

— Porra?

— Porra, Eddie. Porra.

— Tem certeza?

Da minha parte, eu não tinha certeza de nada. Até onde eu sabia, porra era só um palavrão.

— Absoluta.

— Há quanto tempo você guarda isso? — Era essa a pergunta certa? Eu não fazia ideia.

A resposta foi lançada como um foguete.

— Desde que você entrou nas nossas vidas. Desde que foi para o jantar. Desde que levou

flores para a minha mulher. Desde que eu a segui até a sua casa. Desde que eu a vi entrar com

uma chave própria.

 

Depois disso, tudo e nada se encaixou. Era difícil me nortear. Eu estava do lado errado de

alguma coisa. A tarefa de fazer novos amigos não tinha parecido possível até que conheci

Sanderson, e eu ousara pensar que ele sentiu o mesmo, que tínhamos visto a possibilidade um

no outro. Será que eu entendera tudo errado? Será que nada era como eu imaginava? Ele era

um ciumento confesso, mas não me ocorrera que eu pudesse fazer parte de suas suspeitas

infundadas. Sentei-me à margem do rio, com o sangue martelando na cabeça.

Enquanto isso, Sanderson estava longe, fazendo o que mais amava — arremessando sua

mosca seca na água. Depois de seu desempenho teatral, ele simplesmente pegou o pote que o

afrontara, colocou-o de volta na bolsa de pesca, levantou-se devagar e caminhou até o rio

como se nada tivesse acontecido. Tentei me lembrar de como era antes de Sanderson, antes de

tudo isso. Cheguei a fazer um jogo comigo mesmo: imaginar que nunca o conhecera, que ele

era apenas um personagem de romance. Mas era inútil. Eu o observava agora, mergulhado até

o peito na água, movendo sua linha de seda verde-oliva para a frente e para trás, o laço

cortando o ar. Se ele tropeçar agora, pensei, não vou mover um dedo sequer para salvá-lo.