O Tom Ausente de Azul

Jennie Erdal · Capítulo 25 de 59

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O Tom Ausente de Azul

Capítulo 24

 

Somente muito mais tarde — no meu aniversário de treze anos, para ser preciso — fui falar

em inglês com meu pai pela primeira vez. Até aquele momento, o inglês havia sido uma cidade

proibida, lacrada pela minha mãe, que queria desesperadamente que fôssemos uma “família

normal francesa”. Ser normal era uma noção fluida na nossa casa, mas, quando se tratava de

falar nosso idioma, a regra era rígida. De acordo com minha mãe, se o misturássemos com o

inglês, desgastaríamos nossa identidade até que ela deixaria de existir; nesse momento, ela

segurava no ar um martelo e um cinzel imaginários e prosseguia emitindo sons agudos,

staccato, com suas ferramentas assassinas. Meus parentes discutiam sobre mim bem acima da

minha cabeça, como se as palavras ditas lá em cima estivessem fora do alcance da audição de

uma criança.

— A cabeça do menino é como uma esponja (comme une éponge) — dizia meu pai. —

Absorve que é uma beleza.

— Mas ele vai ficar confuso sobre suas raízes (ses racines) — insistia minha mãe. Pelo

tom do meu pai e pela inclusão da palavra “beleza”, concluí que ter uma cabeça que era como

uma esponja não era necessariamente ruim, por mais perturbadora que fosse a imagem. Mas a

ideia de ter raízes, que eu associava com matinhos e coisas que estavam fixas no chão, muito

me perturbou. O perigo na voz da minha mãe, bem como a autoridade moral nela implícita, era

absolutamente convincente — prova adicional de sua capacidade de prever o futuro. Naquela

época, havia muitos indícios de que minha mãe tinha poderes extraordinários. Seu alerta

periódico sobre a necessidade de falar francês, e apenas francês, era apenas mais uma

manifestação.

É claro que eu não fazia a menor ideia do que era identidade ou o que isso poderia

significar, mas isso de forma alguma reduziu sua força como conceito. Por causa do vívido número teatral do martelo e do cinzel, eu imaginava uma pedra grande o suficiente para se

fazer uma estátua, como a de Balzac na esquina do boulevard Montparnasse, mas que acaba,

por negligência ou indisciplina, do tamanho das pedrinhas comuns do nosso jardim.

Os poderes especiais da minha mãe se revelaram pela primeira vez a mim um dia quando

eu brincava com soldadinhos no corredor do lado de fora do quarto de meus pais. A porta

estava entreaberta, e, enquanto me deitava com o rosto no chão preparando meus soldados

para a batalha, consegui ver minha mãe à penteadeira em formato de rim com tampo de vidro,

e ela usava seu lindo vestido azul-marinho com flores brancas. Talvez, pensei, ela coloque as

meias-calças, que eu conseguia ver penduradas nas costas da cadeira. Eu adorava observá-la

fazer isso: o jeito inteligente com que ela pegava primeiro uma meia, depois a outra, fechava-

as no formato de uma sanfona antes de enfiar seus pés delicados, esticando cada perna

enquanto fazia isso. Mas o que vi daquela vez foi completamente novo. Para minha surpresa,

de repente ela removeu o cabelo e o deixou numa pilha na mesa em frente. Que truque

brilhante! Melhor ainda que meu pai, que conseguia tirar uma parte do dedão e colocá-la de

volta sem derramar uma gotinha de sangue. Levantei-me, abri a porta e gritei para ela

extasiado: “Me mostra como você faz isso! Me mostra como você faz isso!” Ela se virou para

me olhar, e naquele momento percebi que ela era bonita. Tinha algo a ver com os contornos

suaves e pálidos do rosto, que eu queria tocar, acariciar e pressionar contra minhas

bochechas. Mas ela levantou a mão para me deter, e, com a outra, suspendeu o cabelo e o

colocou de volta na cabeça. Depois, encostou um dedo nos lábios para me mostrar que era um

segredo. Até hoje, sempre que ela aparece em meus sonhos, tem a mesma cabeça pelada,

suave e pálida.

Quanto à língua inglesa, ela se tornou, como todas as cidades proibidas, um lugar de

enorme atração. Para mim, ela era cheia de tesouros, riquezas e segredos à espera de serem

descobertos. Sozinho em meu quarto, eu praticava, dizendo em voz alta minhas poucas

palavras em inglês, revirando-as na boca como pequenas porções de pratos exóticos. Pare já

com isso, minha mãe dizia sempre que me pegava. “Uma coisa terrível vai acontecer com o

formato da sua boca”, dizia ela. Mas, para mim, era como se mover no ritmo da música,

dançando no piso flutuante — do jeito que às vezes fazíamos na escola.

Quando se tem sete ou oito anos de idade é difícil imaginar-se com treze anos. “Por que

treze anos?”, eu perguntava, mas a resposta era sempre a mesma: “Quando você tiver treze

anos, vai entender por quê.” Crianças odeiam esse tipo de resposta. A explicação surgiu

apenas muito mais tarde. Aos treze anos, eu poderia me crismar na igreja da minha mãe —

algo que meu pai encarava com aversão. Mas, no fim, eles fizeram um trato: um ritual sem significado em troca do direito de ele falar sua língua materna com o filho.

Há mitos terríveis que rondam a infância, e um deles é que as crianças consideram tudo o

que lhes aconteça algo normal. Como alguém que já foi criança, tenho uma visão diferente. As

crianças podem aceitar o que acontece mais prontamente que um adulto maduro, mas isso não

as impede de questionar ou se perguntar sobre as coisas. Apenas mais tarde elas conseguem

conectar as coisas e formar padrões com o passado, e nesse momento é impossível separar o

que elas pensavam na época do que pensaram depois — e distinguir entre os dois. Assim, o

passado é fluido e estável ao mesmo tempo.

Digo tudo isso porque não há sentido em crer (como eu fazia) que estamos imunes aos

efeitos da infância; simplesmente porque, de certa forma, continuamos sendo crianças pelo

resto da vida.

Sem que nada fosse dito abertamente, ficou claro que meu pai não era a favor do embargo

do inglês. Ele não contradizia minha mãe, mas havia algo em seu jeito que me dizia que ele

tampouco a apoiava. Nessas ocasiões de ambivalência, ele pegava a cigarreira do bolso

interno do paletó, revirava-a nas mãos, como se buscasse algo em sua superfície lisa. Depois,

abria a cigarreira e tirava um cigarro, segurando-o entre os dedos como um batom, antes de

batê-lo com uma extremidade depois com a outra na superfície prateada, que nesse ponto ele

já havia fechado com a outra mão.

Durante anos, a data foi aguardada com ansiedade e as preparações para o dia foram

entusiasmadas. Eu até lhe dera um nome: Le Jour Anglais. Essas foram as palavras que

escrevi quando garoto em um caderninho com encadernação de couro no qual eu copiava

expressões em inglês e passagens de livros. Para começar, não era importante saber o que as

palavras significavam. Era suficiente colecioná-las e admirá-las. O caderno ficou cheio

rapidamente, e logo precisei de outro, e mais outro. Nesses últimos cadernos a inscrição na

capa era The English Day — não havia sentido ter um nome francês para designar algo

fundamentalmente inglês. Cada letra era desenhada meticulosamente no que eu imaginava ser

uma caligrafia anglo-saxã.

Enquanto isso, eu procurava na biblioteca de meu pai qualquer coisa que estivesse em

inglês. A loja era uma extensão da nossa moradia e uma espécie de área de lazer interna para

mim. Meus pais não faziam objeção, e os clientes, principalmente os regulares, estavam

acostumados a me ver ali. Eu montava campos de batalha em cantos diferentes e punha aviões

de plástico no topo de escadas. E, quando eu lançava meus aviões para as estantes superiores,

inspecionava a lombada de todos os livros em busca de títulos em inglês. Comecei com livros

ilustrados, tentando corresponder as palavras das legendas com as imagens. Quando cheguei à idade em que o inglês era ensinado na escola, eu estava muito à frente dos demais alunos.

Ao longo dos anos, eu examinava meu pai cuidadosamente, tentando descobrir pistas de

seu anglicismo. Talvez fosse um exercício inútil, possivelmente até insultante, uma vez que ele

havia nascido e crescido nas Terras Altas na Escócia. Na época em questão, no entanto, eu

sabia muito pouco sobre sua história. Como sua língua materna, raramente alguém se referia a

ela, exceto para banir todas as conversas, e, como ocorre à maioria dos segredos de família,

ela era deficiente quanto a fatos. Meu pai estava no centro da minha vida, mas metade dela, a

metade que minha mãe banira, estava fechada para mim.

 

*

 

Um dia, depois da escola, subi correndo a escada para encontrar minha mãe. Estava morrendo

de vontade de contar-lhe as novidades: Jean-Claude, meu amigo da escola, havia anunciado

que um bebê tinha nascido durante a noite e — espere só, Maman, para ouvir — Jean-Claude

me convidou para ir à casa dele conhecer seu novo irmão. O bebê tinha menos de um dia —

imagine só isso! Ele não tinha nem aberto os olhos direito. Por favor, por favor, posso ir?

Talvez com toda essa animação, eu tenha dito que desejava também ter um irmãozinho em casa

— não me lembro. Do que me lembro bem, com clareza aguda, é do lenço de algodão azul

com borda de renda que minha mãe puxou de sua gola e pôs nos olhos, que derramavam

lágrimas. Até aquele momento, eu não sabia que os adultos também choravam.

O que aconteceu em seguida não está claro, a memória foi ofuscada pela estranheza e

confusão de tudo. Da gaveta da cômoda, minha mãe tirou três pequenos potes redondos,

parecidos com os das vitrines da farmácia local, feitos de vidro grosso e com uma rolha de

cortiça em cima. Cada potinho tinha uma etiqueta com um nome, embora não fosse o nome de

um remédio ou unguento, mas o de uma pessoa. Ce sont tes frères et ta soeur, disse ela, e seu

tom de voz me dizia que não era piada nem truque, como remover o cabelo, mas algo

revelador e de grande importância. Pelo que pareceu uma eternidade, mas talvez tenham sido

apenas alguns instantes, olhei fixamente, sem compreender, os potes. Meus irmãos e minha

irmã. Elas não continham nada que eu achasse que podiam um dia ter sido criaturas vivas,

quanto mais irmãos e irmã, nem poderiam de forma alguma vir a ser. Continham apenas

minúsculas coisas sem vida que pareciam um pouco com cogumelos silvestres, escuros e

murchos, que há muito passaram do tempo, do tipo que os adultos advertiam que não devíamos

mexer.

“Mes pauvres enfants chéris”, disse ela — meus pobres filhos queridos.

Depois senti-me diferente sobre ir conhecer o bebê de Jean-Claude. A animação

desaparecera, e emoções estranhas que não tinham nome batiam contra as paredes do meu

peito. Eu não tinha ideia do que fazer com elas ou como fazê-las parar.

Proust dizia que podemos encontrar tudo em nossa memória, mas não é verdade. Os

detalhes que cercam alguns eventos, como esse, estão quase apagados, apenas pilhas de

fragmentos, que, em seus anos de vida adulta, e se a necessidade surgir, você pode colocar em

alguma espécie de mosaico e criar uma história com significado. Mesmo que eu quisesse fugir

dessa história, pô-la de lado e ignorá-la, não conseguiria. Porque de alguma forma básica, ela

me define. É parte do que estabelece meu lugar no mundo.

Antes, porém, perdido na névoa da infância, eu passava muito tempo me perguntando sobre

meus irmãos e por que eles eram mantidos em potes. Será que eles estavam esperando para

nascer? Teria eu também sido guardado num pote em algum estágio? Era assim que os bebês

começavam? Mas, se era assim, por que minha mãe estava triste? Não tenho certeza se de fato

lhe perguntei ou se apenas pensei a respeito. Quando mencionei isso para meu pai, o rosto

dele tomou uma expressão estranha, mas tudo o que ele me disse foi: On ne reviendra pas là-

dessus. Não devíamos falar novamente no assunto. On n’en parlera plus. Depois disso, nós

conspirávamos em nossa negação do fato.

Passei a acreditar que essa reviravolta pode ter gerado a sensação de eu não estar sozinho;

junto com a ideia de que outros vieram antes de mim; de que eles estavam aparentemente

guardados naqueles potes, suspensos num estado de não existência; e de que eu devia tentar

evitar o mesmo destino. Será que isso também marcou o começo da minha preservação

compulsiva de pedaços de unha, pele e coisas assim? Não dá para ter certeza. A esta distância

não é possível ter certeza de nada. A gente só escava o passado, as coisas por baixo da

camada superior do solo, e lhes impõe um sentido.

 

Finalmente chegou meu aniversário de treze anos. Ainda me lembro da sensação de euforia à

medida que o dia se aproximava. Durante meses, eu me perguntava que palavras solenes meu

pai e eu trocaríamos pela primeira vez em inglês. Às vezes, eu pensava que elas ficariam

impressas no meu cérebro e explodiriam como fogos de artifício. Em outras ocasiões, eu as

imaginava como um rufar de tambores, pesadas e dramáticas como um pronunciamento do

presidente de Gaulle. Seria um conselho paternal para o filho? Será que ele me faria sentar e

revelaria tudo que até o momento estivera escondido? Será que falaria da guerra e de missões

secretas? Essas experiências definidoras, sobre as quais ele falara tão pouco, nos separavam.

Eu ansiava por saber tudo, mas só recebia pedacinhos. E eu sabia que pedacinhos não eram suficientes para que eu entendesse.

Na ocasião, foi tudo muito prático. “Happy Birthday, Eddie”, disse ele, colocando as

mãos em meus ombros e apertando-os, enquanto me desejava feliz aniversário. “You’re

practically grown up now”. Eu era praticamente um adulto agora. Palavras simples e comuns

em inglês, mas, para mim, elas soaram perfeitas e cheias de promessa.