O Tom Ausente de Azul

Jennie Erdal · Capítulo 19 de 59

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O Tom Ausente de Azul

Capítulo 18

 

No dia da pesca, Sanderson foi me buscar na estrada Calton Hill, e seguimos de carro na A7

até Selkirk. Ele tinha dois rios favoritos — um ao norte e outro ao sul de Edimburgo —, mas

para minha primeira experiência de pesca, iríamos a um pequeno lago, disse ele. Seria mais

fácil eu aprender os princípios do arremesso sem que a linha ficasse enganchada nas árvores

— um risco comum na ribanceira.

Depois de cerca de uma hora, deixamos a estrada principal, continuamos por uma trilha e

andamos por um caminho pedregoso por algumas centenas de metros. O terreno parecia se

estender em todas as direções, uma variedade de plantas se atropelando. E, a distância, uma

miscelânea de barreiras de pedra e cercas que marcavam a terra como um lugar de valor e

propriedade definida.

Em seu equipamento de pesca — waders, botas altas impermeáveis, capas impermeáveis e

boina —, Sanderson aparentava estar mais saudável que a figura da noite anterior. As roupas

encobriam tanto quanto cobriam. Somente suas mãos mostravam os sinais indicadores da

doença. Algumas feridas estavam abertas e sangravam.

O lago era longo e estreito, aninhado entre colinas de leve ondulação. Sanderson disse que

era possível ver ondas no lago, como se ele fosse o oceano Atlântico. Mas, naquele dia, o

vento era fraco, a superfície da água mal ondulava. Por alguns momentos, ficamos na margem,

olhando calados a vista do lago, como se tivéssemos feito um acordo. Depois disso,

Sanderson começou a aprontar tudo, primeiro removendo sua vara de bambu de um saco de

pano e dispondo suas três partes, belas e delicadas, no chão, depois enrolando o saco e

deixando-o sob uma pedra antes de arrumar a carretilha e a caixa de moscas ao lado da vara.

O procedimento inteiro foi realizado com a solenidade de um sacramento. Em seguida,

Sanderson me mostrou como a vara era encaixada. Na extremidade de cada parte, havia um anel de latão conhecido como virola, preso com uma linha escarlate chamada whipping.

Sanderson encaixou as virolas, o macho com a fêmea. “Veja como eles se encaixam

perfeitamente”, disse, e, para demonstrar essa perfeição, puxou com força para separá-los

novamente. Ao se separarem, eles emitiram um estalo audível — o som mais doce que se pode

ouvir, disse ele, sorrindo de orelha a orelha. “Ganha fácil de uma rolha de champanhe.”

Devagar, com reverência, ele uniu as partes, prendeu a carretilha e passou a linha pelos olhos

do anel metálico que eram presos em intervalos regulares no comprimento da vara. “A mosca

é ligada na linha por um líder”, explicou ele. “E, lembre-se, a mosca não pesa quase nada. É

só seda fina e pena num pequeno anzol. Isso significa que, para lançar a linha, você precisa

puxar a linha da carretilha e jogá-la para trás e para a frente.”

Para aprender a arremessar, ele disse que era melhor eu observar primeiro e ouvir depois.

Ele escolheu uma mosca na caixa, prendeu-a com perícia e, para minha surpresa, removeu de

sua sacola de pesca um quadrado de material do tamanho aproximado de um lenço de bolso,

colocou-o no chão e, em cada canto, pôs algumas pedrinhas como peso. Depois, andou por

cerca de vinte metros. “O segredo é tentar posicionar sua mosca, acertá-la no centro”, disse

ele e, com isso, fez um chicoteio para trás, de modo que a linha se estendeu por trás dele, e

depois a moveu para a frente — apenas um movimento suave do punho, como se estivesse

batendo com baquetas num glockenspiel. A linha serpenteou no ar numa parábola perfeita

antes de se retesar e cair sem fazer som no centro exato da mosca. Essa precisão aguçada foi

repetida seguidas vezes, e eu me senti completamente cativado — tanto pela habilidade pura

do procedimento como pelo porte tranquilo e cheio de dignidade do homem. “A vara de

bambu mantém a energia”, disse ele, “e essa energia se converte no movimento rápido para a

frente, numa espécie de elegância sinuosa”. Aquilo tinha ritmo de poesia, e ele era o poeta.

Ao terminar, ele entrou na água, dando o tempo para encontrar pontos de apoio firmes. A

cerca de dez metros da margem, Sanderson começou a arremessar a linha, para trás e para a

frente, para trás e para a frente, girando seu braço direito de um lado para o outro, cortando o

ar com o laço de sua linha. Ele fazia com que parecesse simples e natural. Eu poderia assisti-

lo feliz o dia inteiro. Era como uma apresentação de mágica, um número de circo que fazia a

gente prender a respiração admirado. Ele era um domador de leões com um chicote

extralongo, mestre supremo do picadeiro.

Quando foi a minha vez, ele me deu sua segunda vara e ficou de pé atrás de mim, com o

braço sob o meu, a mão segurando o meu punho. Devagar, ele moveu meu braço para cima e

para trás. A princípio duro e estranho, desconfortável de ser segurado por ele. Relaxe, disse

Sanderson, curve o braço, encontre um ritmo, solte o pulso. O segredo do bom arremesso era começar com a linha esticada. A mosca se moveria com a linha, comentou ele, e a linha

seguiria a ponta da vara. Em certo ponto, durante o impulso para a frente, a vara seria parada,

e nesse ponto a linha se projetaria na direção que a vara estava tomando antes de parar. Pense

nisso como uma pincelada de tinta da extremidade de um pincel, pediu Sanderson. Quanto

mais abrupta a pincelada, mais a tinta sai e mais longe ela vai. Não que a distância seja tudo,

disse ele, principalmente não no começo. Em vez disso, eu devia me concentrar em conseguir

um movimento contínuo de arremesso pelo meu braço, começando devagar e ganhando ímpeto,

depois parando e observando a linha ir. Era muita coisa para lembrar, e, não sendo um talento

natural, engoli um gemido quando minha primeira tentativa curvou-se para trás da minha

cabeça em câmera lenta, terminando enrolada na grama crescida que circundava o lago. “Não

se preocupe”, disse ele. “O primeiro arremesso é como a primeira panqueca. Não conta.”

Sanderson era um professor paciente, gentil e encorajador. Suas palavras eram leves e

despreocupadas, não carregadas com o abatimento da noite anterior. Na verdade, toda a

disposição dele parecia ter sido reorganizada em algo inteiramente agradável e natural. Como

se estivesse lendo meus pensamentos, ele me deu um tapinha nas costas e declarou que todos

os meus esforços um dia iam valer a pena — o maior prazer da vida era pegar uma truta com

sua própria mosca seca. “É a coisa mais próxima da transcendência”, disse ele, “desde que

você faça do jeito certo, o jeito difícil, e siga as regras”.

 

Quando paramos para comer, uma ou duas horas depois, porém, seu outro lado emergiu

novamente. Carrie havia embrulhado um almoço para nós dois. Mais comida de coelho,

resmungou Sanderson, desembalando a sacola. Mas ele estava enganado. Havia pão francês

crocante e, também, dois tipos de queijo, azeitonas e ameixas. Sentamo-nos numa margem

gramada, o sol lançando uma longa sombra no meio do lago, e, enquanto comíamos, fiquei

sabendo mais do que gostaria sobre o que Sanderson chamava de ruína de seu casamento.

Como nos sentamos lado a lado, olhando para a água escura, suas palavras pareciam não se

dirigir a mim, mas a alguma testemunha invisível e distante, que poderia ou não estar ouvindo;

e, talvez porque comíamos a comida preparada por Carrie, eu tive a sensação de que

estávamos, de certa forma, devorando seu caráter, afundando os dentes em seu eu, engolindo

seu espírito. Tudo isso pareceu traiçoeiro. A narrativa de Sanderson era sinuosa, a ponto de

exasperar, e eu queria que ele se detivesse a datas, épocas, motivos, circunstâncias. Mas, em

vez disso, eu permitia que ele contasse de seu jeito, sem interrupção. Foi então que “o garoto”

foi mencionado pela primeira vez, no contexto do comportamento de Carrie e sua busca de

modas passageiras como meditação e técnicas de respiração. A narrativa seguia em várias direções: algumas delas não levavam a lugar nenhum, mas, quando terminamos de comer,

nossos dedos congelados de frio, uma imagem da vida doméstica dos Sanderson havia

começado a se formar.