O Tom Ausente de Azul

Jennie Erdal · Capítulo 7 de 59

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O Tom Ausente de Azul

Capítulo 6

 

Cerca de uma semana depois, quando Sanderson me levou para pescar pela primeira vez, eu

tive motivo para me lembrar da conversa no jantar. Quando estávamos sentados comendo um

sanduíche à margem do lago, contou-me como a esposa passara a fazer meditação, havia mais

ou menos um ano — achava ele —, “completamente sem aviso, e sem... bem... sem parecer ser

o tipo de pessoa que faz isso”. A princípio, Sanderson achou que poderia ser uma fase, mas

durou mais que uma fase e não mostrava sinal algum de que acabaria. Quando ele tentou

expressar interesse, Carrie ficou na defensiva, interpretando erradamente sua curiosidade

como crítica. Um dia, porém, pediu que ele experimentasse com ela, e Sanderson

experimentou. Mas achou íntimo demais, artificial demais. Beirando o desvio, contou-me.

— Desvio?

— O não natural, sabe? Anormal.

Ele disse que se sentira constrangido não apenas por si como por ela. O tipo de

constrangimento que se sente quando pessoas com quem a gente se importa de repente

começam a agir de um jeito esquisito. Quando ele não conseguiu olhar fixamente a parede,

Carrie sugeriu que se concentrasse numa imagem — algo muito difícil, algo impossível. Como

o quê?, perguntou Sanderson. Ela havia lhe dito para pensar numa garrafa de vinho — gargalo

estreito, corpo maior. Imagine preenchê-la com água e colocar um peixinho dentro, completou

Carrie. Depois a garrafa era virada de lado e se tornava uma espécie de aquário de peixe-

dourado. E depois o que mais? Ele havia achado isso muito irritante. Você alimenta o peixe, e

ele cresce, respondeu ela, até que um dia é grande demais para nadar para fora da garrafa.

Essa é a minha esposa, pensara Sanderson. Com quem eu moro. Preciso tentar entendê-la.

“Você não percebe?”, disse Carrie, fazendo com que ele se sentisse um imbecil por não

compreender o mais simples dos conceitos. “É nisso que você precisa se concentrar! A impossibilidade de tirar o peixe de lá. Só que você não deve se apegar à ideia de que é

impossível. Precisa tentar pensar num jeito de fazer isso sem quebrar a garrafa. Entendeu?”

Mas Sanderson não entendia.

— Não, não entendo droga nenhuma — disse ele. — Não entendo como seria possível

fazer isso sem quebrar a garrafa. E não entendo por que seria uma tragédia quebrar a garrafa,

resgatar o peixe e colocá-lo num aquário ou num tanque ou no que fosse. E não entendo por

que alguém desperdiçaria tempo pensando nesse tipo de coisa. Para que serviria? O que de

bom poderia sair disso?

Ela lhe dissera que não adiantava continuar conversando com ele, e ficou tudo por isso

mesmo.

 

Sanderson confessou que, na verdade, não tinha nenhuma objeção real aos novos interesses de

Carrie. Havia inclusive esperado que eles, quem sabe, se revelassem bons para ela e para o

casamento. Mas não achava mais que isso era possível. Embora fosse verdade que seus

primeiros anos juntos foram de suave doçura, durante os quais houve uma sensação de

aprofundamento e maturação — como se ganhassem sabedoria, disse Sanderson —, a eles se

seguiu um período muito maior em que os dias e as decepções se acumulavam, e havia uma

sensação agourenta de que uma dificuldade terminara e outra estava prestes a começar. E

agora, desde que ela se tornara tão estranha para ele, o esquema de lentilhas e arroz integral

havia impregnado todas as pequenas fissuras de seu relacionamento. Não havia mais sangue e

estômago — tudo era sussurros, palpitações vulgares e flatulência.

Com o sexo, disse Sanderson, o problema se aprofundou. Eu não tinha certeza se queria

ouvir isso, mas também não sabia como evitar, já que ele estava claramente determinado a me

contar. De qualquer forma, parte de mim queria continuar para que eu pudesse ter uma ideia de

quem era esse homem e por que ele era atormentado. “Você perde confiança ao longo dos

anos, Eddie”, disse Sanderson, empurrando um limpador de cachimbo sobre o fornilho e

girando-o sem parar. “Ou isso ou algo externo, não relacionado ao sexo, se torna um

obstáculo.” O limpador de cachimbo emergiu, marrom de fuligem. Sua voz era delicada agora,

sem esforço para ganhar efeito. Sanderson dizia que quase conseguia se lembrar de um tempo

em que o mundo era purificado e se renovava por meio do sexo conjugal. Mas agora se sentia

como um cachorro que come grama para acabar vomitando. “Não dá para evitar, não dá para

não evitar.”

 

No momento em que Sanderson me contava isso, a imagem de um homem cuja psique tinha um equilíbrio precário — como os mecanismos internos de um antigo relógio de viagem francês

— começou a se formar. Deixado por conta própria, sem ser perturbado, eu imaginava que ele

teria conseguido manter as várias peças em certa harmonia. Mas as circunstâncias —

quaisquer que elas fossem — pareciam tê-lo pressionado e ameaçado seu equilíbrio.

Naquela primeira noite em sua casa, porém, não havia pista quanto ao que estaria por trás

da melancolia e da fúria de Sanderson; só que ambos os sentimentos, às vezes, eram difíceis

de diferenciar. Seu tom era alternadamente acuado e resignado, e o que dizia parecia ocultar

tanto quanto revelava. Às vezes, ele falava como o filósofo profissional que era, adicionando

palavras como empírico ou epistemológico na mistura, golpeando o ar com seu cachimbo

enquanto desafiava as premissas disso ou a validade daquilo, e tudo isso com uma expressão

facial que dava a impressão de dizer: “Isso vai doer mais em mim do que em você.” Em outras

ocasiões, seu tom era suave, quase terno. Nessas ocasiões, encaixava o cachimbo na mão

como se fosse um passarinho de asa quebrada.

Sanderson bebeu demais durante a noite, e talvez isso explicasse por que foi ele quem

mais falou. Era duvidoso que estivesse se divertindo, mas parecia incapaz de parar. Às vezes,

ele olhava de relance para Carrie como se a considerasse diretamente responsável por sua

falta de afeto. Eu me perguntava o que Alice pensava de Sanderson, mas era impossível dizer.

Seus olhos se encontraram apenas por um momento antes de ela baixar o olhar e concentrar-se

em sua taça de vinho, a qual aninhava no colo. Como uma atriz treinada, nunca deixou cair sua

máscara.

Carrie era ainda mais enigmática. Talvez porque falasse menos, ela revelasse menos.

Estava constrangida pelo marido ou apenas resignada em sua melancolia, se é que era isso

mesmo? Tirando a mancha denunciadora no pescoço, ela parecia serena, embora seus olhos

indicassem preocupações passadas e me fizessem meditar sobre a vida que vivia agora. A

maior parte do tempo, Carrie parecia examinar as mãos, como se aguardasse que elas lhe

contassem algo. Em certo momento, anunciou, com um suspiro teatral, como se divulgasse um

segredo de família: “Harry nunca deixa passar a oportunidade de revisitar seus preconceitos.

Ele gosta de mantê-los em bom estado.” E lhe dirigiu um olhar indulgente, que servia para

quebrar a tensão. Em outros momentos, depois que Sanderson havia despejado outro

bombardeio contra a universidade, ou o estado em que o país se encontrava, ou algo no meio

do caminho, ela se voltava para Alice e dizia: “Ele não está falando sério.” E depois, sorrindo

para mim: “Ele não consegue mesmo se controlar.” Mas esses apartes eram comentários para

preencher o silêncio, e não revelações reais. O que quer que estivesse mesmo acontecendo, as

conversas entre Carrie e Sanderson seguiam aos solavancos como um elevador de hotel, alçando-se às alturas e mergulhando, os comentários amargos dele levando a conversa para

baixo até as caldeiras de aquecimento e os ratos do porão, os valentes esforços dela

elevando-a de volta à galeria e ao toalete das senhoras.

A perspectiva em retrospecto coloca lentes distorcidas sobre os eventos passados, mas,

relembrando aquela primeira noite, havia a sensação de uma história que se desenrolava. Ela

não estava completamente concretizada, mas podia ser vislumbrada com o canto dos olhos e

era suficiente para oferecer uma vaga sugestão das catástrofes que estavam por vir.

 

Andei de volta até Calton Hill, e os ruídos variados da cidade à noite se tornavam mais

distantes. Quando saí da estrada principal, tudo o que conseguia ouvir era o som dos meus

próprios passos. Apesar da tranquilidade dentro da casa, ou talvez por causa dela, tive

dificuldade para dormir naquela noite. Minha leitura atenta de ficção havia me ensinado que

quase todos os casamentos ocupam um território estranho. Mas era suficientemente vívido e

alarmante ver com os próprios olhos, muito embora eles fossem os olhos de um turista —

experimentando tudo sem compreender quase nada. Trechos diferentes da conversa da noite,

entremeados com aquelas estranhas expressões francesas da recepção e com uma avalanche de

siglas — SUPA e SEPA, RAE e IRA —, todas combinadas para fazer uma confusão medonha

na minha cabeça. Tentei dormir, mas o rosto de Carrie — com sua leve expressão de dor —

continuava aparecendo na pele de minhas pálpebras. Pensei no meu pequeno apartamento no

centro do quinto arrondissement à margem esquerda do rio Sena e me perguntei se Martin

Blandford também estaria acordado.