O Tom Ausente de Azul
Capítulo 33
No dia seguinte, um sábado, Sanderson me pegou, como de costume, na Calton Hill. A essa
altura, eu já havia adquirido waders, capa impermeável e sacola de pesca — tudo de segunda
mão numa loja beneficente. Parecia quase natural colocar meu equipamento na mala do carro
de Sanderson, como se eu tivesse nascido para aventuras no campo, em vez da vida numa
cidade francesa. Quase, mas não inteiramente. Eu sabia que era apenas um jogo, experimentar
algo. Aprendera há muito tempo que a maior parte da vida era assim: ver-se interpretar um
papel, vestindo novas roupas.
Salvo toda a espionagem e contraespionagem, Sanderson e eu não havíamos nos visto ou
nos falado desde a expedição de pesca no sábado anterior. Sanderson devia ter me visto
correndo de casa no dia anterior, mas ele não fez menção a isso, nem eu.
— Como foi a semana? — perguntei, entrando no carro. Melhor agir normalmente.
— Ah, nenhuma novidade. Nenhuma novidade. Só a interminável reciclagem da mesma
merda de sempre a caminho do esquecimento.
— Você deve estar bem ocupado no trabalho, agora que o se- mestre começou.
— Sim e não. — Ele expirou de forma barulhenta, a respiração apitando pelos seus dentes
manchados. — Acho que é um pouco como estar num barril de minhocas. É estranhamente
silencioso, mas muita coisa está acontecendo.
— Como vai a Carrie?
— Difícil saber. Ocupada com o budismo, sem dúvida.
— Você se incomoda com isso?
— Me incomodar? Não, por que deveria? Todo mundo precisa de algum tipo de hobby. Eu
tenho a pesca.
Era difícil interpretar seu humor. Eu estava em busca de algo que me fornecesse uma pista sobre o seu comportamento estranho ao longo dos últimos dias. Mas seus olhos estavam fixos
na estrada à frente, e ele sentava com as costas eretas ao volante, determinado, como um
homem que planeja uma campanha militar. De perfil, parecia cansado, mais velho. Havia
sangue em seu rosto, onde ele se cortara fazendo a barba, e restos de sabão grudados na
orelha. A pele estava em carne viva em alguns lugares — manchas vermelhas, inflamadas,
supurantes que se espalharam para o couro ca-beludo.
Depois de um tempo, ele disse: “Sabe, se você puser um sapo numa panela de água fria e
ligar o fogo, ele vai cozinhar e morrer devagar. Se mergulhá-lo na água fervente, ele pula de
uma só vez, escaldado, mas vivo. Eu costumava ser o segundo sapo, mas agora, quando penso
na minha vida, me identifico mais com o primeiro.” Foi então que ele falou no “caso” da
esposa, a frase que entendi errado, pensando que Carrie devia estar consultando um médico.
Não um médico, disse Sanderson. “Outro homem, é o que é”. Nada mais foi dito até que
chegamos ao rio. Em silêncio, removemos o equipamento de pesca do carro e andamos o
caminho já familiar por árvores e vegetações rasteiras até a margem.
*
“Agora, vamos ver o que podemos achar para abrir o apetite”, disse Sanderson, referindo-se
ao apetite dos peixes. Abrindo a caixa de moscas, ele revelou um magnífico caleidoscópio de
ninfas perfeitamente atadas e outras iscas artificiais, moscas secas e molhadas — todas
representando uma série de possibilidades de alimento para os peixes famintos, ou mesmo os
apenas curiosos. A cada sábado, ele revelava um pouco mais sobre as variedades de receitas
de mosca. Hoje, explicava que elas eram divididas em duas categorias principais: os atrativos
e os impostores. Os atrativos eram criados para estimular o instinto predador e convidar a um
ataque. Os impostores deviam se assemelhar a formas de alimentos naturais, às coisas das
quais os peixes dependem por toda a vida, por mais longas que sejam. “Na prática, os limites
são um tanto indistintos, mas não consigo deixar de pensar nos atrativos como machos e nos
impostores como fêmeas”, comentou Sanderson. “A mosca impostora ludibria os peixes para
que acreditem estar diante de seu alimento favorito. É exatamente o tipo de coisa que uma
mulher faria.” Sanderson gemeu enquanto puxava os waders. De sua posição no banco de
pedra, ele olhou para mim, como que para avaliar minha ação. “Imagino que você pense que é
um pouco injusto”, disse ele, não esperando uma resposta. “Mas, na verdade, a distinção
funciona antes contra o macho da espécie. Os atrativos são coisas fabricadas, artificiais, que
não trazem relação alguma com nada que ocorra no mundo natural.” É assim que ele se vê, pensei. Uma criatura fabricada feita de pedaços distintos, não retirados da natureza,
vulneráveis ao ataque.
“Os impostores por outro lado”, prosseguiu ele, “embora tragam todas as semelhanças
com a coisa real, não são de modo algum o que parecem.” Isso devia ser uma lição para ele,
continuou. Ele devia ter aprendido sobre a vida com a pesca. “Mas, como os pobres peixes,
sempre fui completamente inocente quanto ao artificial. Foi a minha ruína.”
Não era um erro extrapolar com tanta vontade dos peixes para os homens?, perguntei,
querendo deixar a atmosfera mais leve. Mas havia determinação em sua gravidade. “Não
precisa ser peixe”, disse ele. “Os veados, por exemplo. Os machos competem pela atenção
das fêmeas. Todo mundo sabe disso. Mas o que ninguém sabe é que, enquanto os machos com
os maiores chifres estão se desgastando na rotina, algumas das fêmeas se escondem
furtivamente para fazer sexo com os menos vaidosos.” Isso havia sido descoberto por um
homem chamado John Maynard Smith, disse ele. “É um evolucionista famoso, caso você nunca
tenha ouvido falar. Vale a pena procurar sobre ele. Maynard Smith chama essas fêmeas de as
fodedoras traiçoeiras. E com toda a razão.”
Eu aprendera a amar o rio. O lago onde eu praticara antes o arremesso era bonito, mas o rio
parecia mais vital. Às vezes, fluía de modo tão constante e uniforme que era difícil detectar
qualquer movimento, a não ser em relação a algo grande e inanimado, como as árvores da
margem oposta. Mas, naquele dia de outubro, embora quase não houvesse vento, a água estava
revolta e barulhenta depois da forte chuva durante a noite, e, naqueles lugares onde o rio se
estreitava e corria pelas rochas, ele borbulhava formando uma espuma agitada. Sanderson
entrou alguns metros para chegar à sua piscina de sempre. Ele sempre usou um bastão de
apoio, uma vara grande com peso de chumbo numa extremidade, para ajudá-lo a firmar o pé,
já que o fundo do rio era escorregadio e cheio de protuberâncias. Entrar no rio é um jogo
perigoso, disse ele mais de uma vez. A piscina tinha, como margem, de um lado, uma massa de
pedra que se alisou ao longo dos milênios. A pedra estava menos visível naquele dia por
causa da altura da água, que chegava à metade dos waders de peito de Sanderson. Com sua
longa vara de bambu mantida bem acima da cabeça e sua rede de mão pendurada nas costas do
cinto, ele podia ter sido um explorador excêntrico de tempos antigos, avançando centímetro a
centímetro até o desconhecido, prestes a apanhar alguma criatura selvagem e exótica.
Havia árvores nas duas margens do rio, algumas faias adultas e salgueiros aqui e ali, que
se curvavam com graça para beber da água, mas principalmente bétulas e tramazeiras, estas
carregadas de frutos vermelhos. Andei um pouco contra a corrente e me instalei numa rocha para ver Sanderson pescar. Ele havia falado sobre a bela harmonia dos materiais: a linha de
seda, a vara lustrosa e a mosca cuidadosamente confeccionada. E, agora, eu conseguia ver
essa harmonia com os próprios olhos nos movimentos delicados de um homem que andava
com sacrifício, mas conseguia lançar sua linha sinuosa cortando a água, desenrolando-se na
ponta de seu arco para deixar cair a mosca na superfície — um ato de prestidigitação, parecia,
que beirava o milagre. Durante esses momentos na pedra, concluí que, quaisquer que fossem
as complicações desse homem atormentado, havia, nesse aspecto dele, uma integridade
sofisticada: o ensino paciente, a habilidade para atar, o simples entusiasmo — tudo isso
benigno e atraente.
Após algum tempo, caminhei mais contra a corrente, até que encontrei uma clareira nas
árvores. Meu arremesso ainda não era bom o suficiente para evitar que ficasse enganchado em
ramos suspensos acima de mim, e, embora Sanderson tenha me mostrado um arremesso mais
simples — arremesso único Spey como ele chamava —, eu estava longe de dominá-lo. É um
arremesso em que a linha não é atirada para trás, cujo segredo é a suavidade da ação, com as
mãos dispostas em cada lado da carretilha, de maneira a obter uma boa pegada: do modo que
alguém seguraria um taco de beisebol, disse Sanderson. Mas era uma ação suave, que
envolvia uma espécie de “flutuação” da linha.
Também havia bastante a aprender sobre os lugares onde uma truta pode ficar à espera de
uma refeição. De acordo com Sanderson, peixes bons dependem de observação aguçada, mas
eu ainda não estava na posição de saber precisamente o que estava observando, e muito menos
o que isso podia implicar. No entanto, isso não diminuía meu amor pelo rio e por toda a sua
variedade: as mudanças de correntes, os turbilhões e redemoinhos, as curvas e cascatas, o
frescor cintilante num dia claro, sua escuridão discreta quando o tempo estava nublado.
Quando pus os olhos no rio me deleitei. E o deleite, em parte, tinha a ver com minha
compreensão incompleta, bem como com a sensação de possibilidade que ele oferecia.
Depois que a pesca propriamente dita começava, deixávamos um ao outro em paz. O que
parecia natural. A pesca era uma atividade solitária — isso estava claro para mim — e exigia
imensa concentração. Sanderson gostava de dizer que nada deixa a mente tão concentrada
quanto arremessar sua mosca numa truta que sobe à superfície. Ele me aconselhara a pescar
com uma ninfa — “vai ser adequado ao seu estilo” — criada para imitar a larva no leito do
rio. Como as larvas formavam uma grande parte da dieta das trutas, haveria, em tese, pelo
menos uma chance razoável de eu pegar algo. Sanderson era um purista da mosca seca, que
significava dizer que ela devia dançar na superfície da água, simulando a coisa real. “É a
diferença entre a poesia e a prosa”, disse ele. A mosca bem-confeccionada, disse ele, deve ter todas as qualidades necessárias para se comportar de forma natural e realista. Isso se
conseguia escolhendo materiais que flutuavam bem — penas do pescoço de um galo, por
exemplo, e um anzol superleve. Sempre que Sanderson chegava ao rio, sacudia os galhos das
árvores e observava os insetos que voavam. O resultado determinaria a escolha da mosca do
dia. Depois, era uma questão de julgamento e habilidade, juntos com o disfarce. Se a truta
subisse na mosca e o ataque desse errado, era preciso permitir que ela pairasse delicadamente
na superfície da água, com a truta se levantando e abaixando novamente cerca de um metro rio
acima. “E é surpreendente como, muitas vezes, a coitada faz outra tentativa na mosca.”
Na clareira, entrei na água e me preparei para arremessar do jeito que me havia sido ensinado.
De acordo com Sanderson, era melhor começar com uma linha curta e mirar num ponto onde a
mosca pudesse aterrissar sem problema. É preciso encontrar um comprimento de linha
confortável e continuar com ele; assim, é possível pescar fácil e confortavelmente durante
horas. Era errado tentar arremessar longe demais. Sanderson adicionara peso à minha ninfa
com o fio de chumbo na haste do anzol antes de construir o corpo. Dessa forma, a ninfa cairia
rápido no leito do rio, onde a maior parte da vida da ninfa natural se passava. Uma das
habilidades mais difíceis era colocar a mosca na posição desejada, antes de deixar a corrente
levá-la. Isso precisava ser praticado à exaustão. Um peixe não deve fazer ideia de que está
sendo pescado, disse Sanderson. O conselho dele me fez sorrir. Mesmo o mais tolo dos peixes
me consideraria imediatamente um novato sem sorte.
Durante a hora seguinte, com o pé direito ligeiramente para a frente para ganhar equilíbrio,
eu fiz arremesso após arremesso, de trás para a frente, de trás para a frente, conduzindo a linha
para fora com a ponta da vara, fazendo o movimento por uma linha imaginária que saía direto
do meu ombro direito. Os movimentos rítmicos repetitivos pareciam relaxar a mente e trazer
uma calma física incomum. Pouco a pouco, enquanto ganhava confiança, os arremessos se
tornaram mais fluentes, até que, gradualmente, a vara e a linha, até a mosca, começaram a
parecer uma extensão do meu corpo, parte de mim. Um dia, talvez eu pudesse me tornar um
pescador, afinal.
De tempos em tempos, meu olhar se voltava corrente abaixo, para onde estava Sanderson,
uma figura distante com água até a cintura. As cores eram as do início do outono, os verdes
tinham dado lugar aos tons vermelhos e marrons. Mais de uma vez, pensei que via uma
curvatura na vara de Sanderson — sinal de sucesso. A cena tinha a característica de uma
pintura: um idílio pastoral de um século passado, homem e natureza como um só numa era de
inocência.