O Tom Ausente de Azul
Capítulo 19
Carrie McLeod surgira como aluna do primeiro ano na turma de filosofia moral de Sanderson,
que a havia notado de imediato, disse ele, em parte porque o pescoço jovem era tão longo,
suave e gracioso quanto o de um cisne, em parte porque ela era rápida para responder
perguntas, embora também houvesse nela algo de devaneio, como se ela não estivesse
completamente presente na sala. Carrie se sentava à janela da lateral da sala, com a mão sobre
um dos cotovelos e a outra apoiando o queixo. Sanderson achava que o rosto dela tinha algo
característico de uma santa da Idade Média — olhos bem separados e os traços suaves,
embora poderosos, contendo a promessa da cura e da proteção. Ao contrário de outros alunos,
ela não parecia fazer parte de um grupo. Sanderson concluíra que ou ela era muito incomum
para pertencer a um grupo, ou gerava inveja e fora, portanto, excluída. Embora tenha ido bem
em suas provas durante o semestre, deixou o curso antes de completar a graduação.
Naqueles dias, Sanderson namorava uma advogada, Elsa King, uma carreirista que mal
havia passado dos quarenta — a mesma idade de Sanderson na época. Elsa era consultora da
universidade em questões jurídicas e tinha um cargo no tribunal universitário. Ela e Sanderson
namoravam havia três anos, sem viver juntos, mas encontrando-se com regularidade enquanto
não exigiam nada um do outro. Ela já havia sido casada e era claro que não seguiria por esse
caminho novamente — o que era perfeito para Sanderson. Ele não estava buscando
compromisso e gostava do fato de não ser responsável pela felicidade dela e vice-versa.
Agradava-lhe que eles não causassem problemas um ao outro nem compartilhassem nada
muito além de seus corpos. O plano de pensão de Sanderson, na universidade, era descrito
como “de baixo investimento, alto retorno, prazo variável, manutenção zero” e era assim que
ele passara a pensar em seu relacionamento com Elsa. Também o incentivava o fato de que ela
conseguia separar sexo de amor, algo que ele pensava, até então, que somente os homens eram capazes de fazer. Em sua experiência, as mulheres geralmente queriam algo mais, e, nesse
sentido, Elsa era diferente de um modo animador. Não exatamente perfeita, porém. Ele às
vezes tinha a impressão de que Elsa encarava o sexo com uma prancheta e um lápis na mão,
assinalando itens numa lista, dando notas de 0 a 10: tempo, posições, preliminares,
imaginação e assim por diante. Isso podia ser uma provação para um homem, disse ele,
convidando-me a concordar e me fazendo corar. Além disso, durante o sexo, ela fazia “um
grande escarcéu”, levando-o a presumir que ela havia atingido cumes de prazer nunca
sonhados. Mas, imediatamente após o clímax, ela falava com um tom normal de voz sobre algo
completamente banal. Você viu meu cortador de unhas? Ou Preciso levar o gato ao
veterinário. O que quebrava o encanto para Sanderson e o levava a sentir que fracassara em
manter a atenção dela.
Um dia, ele havia ido a Signet Library, na Parliament Square, onde sabia que Elsa estava
posando para um retrato. A União de Advogados da Escócia havia contratado os três melhores
graduados da Escola de Artes de Edimburgo para fazer retratos de vários advogados notáveis
— qualificação que se aplicava a Elsa. Sanderson havia chegado à Signet Library, no coração
da Cidade Velha de Edimburgo, um lugar de esplendor georgiano, disse ele, uma vez descrito
pelo rei George IV como “a melhor sala de visitas da Europa”. Foi lá, enquanto estava na
porta do andar inferior da biblioteca, que a vida de Sanderson mudou de rumo. A princípio,
ele não reconhecera a artista. Ela estava voltada para o lado oposto, e foram suas costas que
ele estudou enquanto elas se flexionavam e contorciam, aparentemente em perfeita harmonia
com seu pincel. Era uma bela visão — forte, vital e absolutamente fascinante, disse ele.
Comparada à artista, que desempenhava sua atividade com energia e suavidade — tudo isso
era evidente da visão das costas —, a figura do retrato, Elsa, parecia rígida e sem vida, sem
sangue ou vigor. Sanderson contemplou a cena por um tempo, escondido das duas, e
analisando tudo o que ela implicava.
A princípio ele não havia notado o garotinho, tão pequeno, e mesmo assim lá estava ele,
sentado numa das cadeiras decoradas na parede do fundo. Mas, quando o garoto tirou os olhos
do livro e olhou para cima, Sanderson captou o movimento e ficou surpreso. Nesse ponto,
entrou na sala enorme, pensando que era melhor se revelar. A artista se virou, e ele ficou
surpreso ao perceber que era Carrie McLeod, a aluna brilhante e rápida que estivera presente
apenas em corpo em sua sala de aula anos antes. Agora, ela parecia completamente presente
no mundo, confiante, conectada a outras pessoas. O efeito disso em Sanderson foi, ao mesmo
tempo, doce e penetrante. Assim que ela o cumprimentou, nos tons hipnóticos cadenciados das
Hébridas de que ele se lembrava da época em que falou pela primeira vez em sua aula de filosofia, ele sentiu a fisgada do desejo, a leve fascinação da possibilidade de sexo. Desse
momento em diante, seu relacionamento com Elsa se esvaziaria lentamente como um pneu com
um pequeno furo.
O segundo choque foi descobrir que o garoto — que tinha cerca de dois anos na época —
era filho de Carrie. Uma criança deve ter um pai, pensou ele, e a existência de um pai com
certeza interferiria com a ideia que já estava começando a se formar em sua imaginação. Mas
ele apurou rapidamente — não muito ansiosamente, ele esperava — que Carrie era mãe
solteira. O pai, quem quer que fosse, estava completamente ausente da vida dos dois.
O terceiro choque aconteceu mais tarde, quando ele percebeu que não sentia quase nenhum
remorso em se desfazer de Elsa. E pensar que eles se davam tão bem. “Como eu disse, era um
acordo perfeito.” Claro que era um erro comum igualar o sexo ao amor. Mesmo assim, ele
ficou surpreso ao descobrir que satisfazer o primeiro com Elsa não trouxera à tona o segundo.