O Tom Ausente de Azul

Jennie Erdal · Capítulo 58 de 59

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O Tom Ausente de Azul

Capítulo 57

 

O que se desenvolveu entre nós era tão natural e benigno que, a princípio, eu não sabia como

chamá-lo. Podia ser amor? Meu pai me dissera uma vez que o amor podia parecer muito com

outras coisas. Afora isso, talvez por causa do comportamento do meu amigo Antoine, eu tinha

esperado que o amor fosse anárquico, caótico. Mas aquilo era suave e terno — algo sereno e

novo, como uma planta delicada que desabrocha. Eu não queria pensar muito sobre o assunto,

por medo de estragar as coisas, afugentá-las. Enquanto isso, eu o encarava como uma

validação de algo que havia muito tempo queria acreditar: que podia existir, entre um homem

e uma mulher, algo bonito e terno, desacompanhado de necessidades e presunções, o tipo de

encontro que podia, entretanto, ir além da experiência comum. É muito difícil ir além de sua

própria história — essa foi uma das últimas coisas que Sanderson me dissera. Seja lá o que

for que ele tenha pretendido dizer com isso, eu tinha a sensação de que minha história estava

apenas começando.

Continuei traduzindo, escrevendo linha por linha, como belas equações. David Hume era

minha companhia constante, e, através de Hume, eu chegava mais perto do meu pai. Em

paralelo aos ensaios de Hume, havia um ensaio na minha cabeça — uma obra em progresso,

embora apenas começada, com inflexões artificiais e orações malformadas, um ensaio que,

não obstante, tomava forma e tinha a possibilidade de reconfigurar o mundo e consertar minha

relação com ele.

No espelho em que me barbeava, vi meu pai olhando de volta para mim. O que você acha

de mim agora?, perguntei. O espelho estava úmido e embaçado, então parecia mais uma

fotografia em sépia em processo de revelação. Meu pai havia assumido riscos na vida, mas

aonde isso o levara?

A coisa sem nome começou a crescer, preenchendo todo o espaço disponível. O que quer que

estivesse acontecendo era completa e incontrolavelmente autêntico. Houve momentos em que

pensei ser impossível conter aquilo, que eu estava em perigo de submergir e me sufocar.

Durante os dias seguintes, e por muito tempo depois, pensei que minha vida tinha começado

apenas com ela. Tentei me concentrar na impossibilidade do que estava acontecendo. Mas a

felicidade continuava se infiltrando. Não a felicidade no sentido que Sanderson descartara,

mas um tipo de alegria tranquila. E cada raiar do dia trazia consigo uma nova promessa.

 

Enquanto isso Sanderson estava vivo em sua ausência. Em todos os lugares, eu via seu cabelo

alisado para trás, sua pele enrugada. Mesmo as pernas dos caranguejos peludos, que vinham à

tona na praia, lembravam-me dos tufos de fios crespos que brotavam de suas orelhas. Os

mortos se movem inquietos, tanto quanto os vivos.

 

*

 

O último dia inteiro na ilha chegou. Foi tranquilo e límpido, a maresia dos dias anteriores

tinha ido embora, o sol se deitava na água como um ouro que fora abatido. A chuva lavara

toda a poeira do ar, deixando uma claridade de tirar o fôlego, com uma cobertura grossa de

gelo esmaltado por todo o caminho da orla. Mesmo as ilhas distantes pareciam recém-

impressas na luz vítrea do norte. Mais adiante, em torno da península, as ondas batiam na face

do rochedo. E, em toda parte, o céu alcançava as rochas, preenchendo as lacunas com dedos

longos e azuis. Lutei para subir o caminho íngreme até que cheguei ao cume. Queria levar tudo

dentro de mim — o enorme céu e sua presença dominante; o imenso mar, a razão de tudo aqui.

Eu nunca tivera dias tão mágicos. Como era estranho que esse lugar remoto tivesse me

permitido sentir parte do mundo. Tudo contribuíra para isso — mesmo o frio que eu podia

sentir em meus ossos.

Da minha posição elevada, o chalé abaixo na orla parecia uma casa de bonecas. Eu

conseguia ver Carrie se movendo do lado de fora, uma versão liliputiana de si mesma, num

filme mudo. Era amor o que eu sentia? Eu vinha esperando o amor a minha vida toda, então

acreditei que sim. Era o tom ausente de azul, uma ideia que se expandia além de seus limites.

Levaria apenas um momento para não me apaixonar, pensei, tomando o momento brevemente

em minha mão, antes que ele deslizasse pelos meus dedos frios e se afundasse na areia branca.