O Tom Ausente de Azul
Capítulo 22
Eu estava ansioso para chegar em casa. Tinha sido conversa suficiente para um dia.
Sanderson, no entanto, tinha outras ideias.
— Vamos beber alguma coisa para fechar com chave de ouro. — Ele estacionou num pub
na Cidade Velha.
— Esse é um dos poucos pubs que não foram tomados pelos gays — disse, enquanto
tomávamos nossos assentos no The Blue Thistle, um bar tradicional com painéis de carvalho
no teto, janelas de vitrais e espelhos jateados. Em seguida, perguntou numa rápida reflexão
tardia: — Você não é gay, é?
— Não.
— De alguma forma, achei que não fosse.
Bebendo, Sanderson se lançou em outro vale de lágrimas. Eu tinha de me lembrar de que
aquele não era na verdade um drama que acabara de se revelar: tudo já havia acontecido. Ele
estava simplesmente recontando eventos passados, embora passado bem recente, no caso da
decisão de Alice de terminar tudo. Ocorreu, porém, que, naquela mesma manhã, outro baque
no espírito havia ocorrido. Quase tudo o que sua esposa falava hoje em dia deixava apenas
uma vaga impressão, disse ele, a maior parte perdida para sempre e sem chance de
recuperação. Ele havia assistido, uma vez, a uma palestra inaugural chamada Memória – A
escolha é sua, na qual o palestrante, um homenzinho confiante, explicou sobre memória de
curto e de longo prazo, e sugeriu os motivos pelos quais certas coisas conseguem chegar ao
hipocampo. É claro que ele já se esquecera da maior parte do conteúdo da palestra, mas se
lembrava de ter pensado, então, que o palestrante não havia conseguido de jeito algum
desmistificar o assunto da memória. A visão de Sanderson era que excluímos a maior parte do
que acontece para evitar o caos, mas que havia algumas coisas tão dolorosas que não podiam ser esquecidas. O máximo que se podia fazer era tentar distorcê-las para tornar a vida mais
tolerável. Um caso em questão ocorrera naquela mesma manhã, quando Sanderson perguntara
a Carrie em que ela pensava quando eles faziam amor.
— Ela parou, e eu sabia que ela estava pesando as vantagens de contar a verdade e de
mentir. Quando finalmente falou, foi uma resposta esmagadora. Ele soube imediatamente que
não conseguiria apagá-la.
— O que foi que ela disse?
— Ela disse que pensava nas ofertas.
— Nas ofertas? — Imaginei as ofertas da natureza: cores vibrantes, grama fragrante, flores
do campo.
— É, nas ofertas do Somerfields, no final da nossa rua. Em matéria de supermercado, nem
é dos mais sofisticados.
Sua boca havia ficado, de repente, mole e frouxa, como a de um sabujo.
— Como chegamos a esse ponto? — perguntou ele. (Ele quer dizer nós, eu e ele?,
perguntei-me) — Quer dizer... como, saindo de algo completamente oposto, chegamos aqui?
(Não, ele não quer dizer eu e ele.) — É isso que eu queria saber. Nós tínhamos o que as
pessoas chamam de vida sexual sadia. Agora, minha esposa busca refúgio do leito conjugal
num supermercado imaginário, descendo um corredor, indo pelo outro, contornando as frutas e
os legumes, passando pelos laticínios, as refeições prontas, a comida de cachorro e as
pedrinhas dos peixinhos. Tudo isso para escapar da realidade de ser comida pelo marido. —
Durante o discurso, Sanderson empurrava um carrinho invisível, guiando-o sem cuidado na
região do baço.
Quando falou novamente, foi para dizer que o casamento nunca seria o que ele esperava, o
que ambos esperaram um dia. Naquele dia em que a encontrara na Signet Library, ele viveu
uma imensa onda de pura alegria. Não sabia que ela nunca mais voltaria na mesma intensidade
ou urgência.
— Mas, para terminar um casamento, a gente precisa querer sair dele mais do que se quer
ficar onde está.
Ele não sabia se havia atingido esse ponto. Sentia a cabeça aturdida demais para lidar com
a questão.
— Para ser franco, o que eu quero é que a minha esposa me queira, me aceite como sou.
— Isso parece Montaigne. Ele achava muito pior ser aceito por caridade do que ser
rejeitado abertamente.
Sanderson torceu o nariz.
— Você está tentando fazer com que eu me sinta melhor, Eddie? Se sim, não está
conseguindo. — Mas ele sorriu enquanto dizia isso, e isso aliviou a melancolia. Terminamos
nossas bebidas e nos levantamos para sair.
— Acho que o casamento é uma questão de crença continuada — disse ele. Estávamos na
rua movimentada agora, a vida acontecendo por toda a volta. — Uma condição necessária,
porém insuficiente para sua continuidade.
Esse era o filósofo falando.
A caminho de casa naquela noite, eu contemplava o mistério do casamento. Era claro para
mim que, sim, ele formava algum tipo de base para a vida. Mas era igualmente claro que
envolvia dor e infelicidade para um ou outro parceiro. Ou para os dois, porque, com certeza,
se um está triste, o outro se sente da mesma forma. Como poderia ser de outra maneira? Falam
em amor incondicional entre um homem e uma mulher, mas esse amor estava bem longe da
minha própria experiência. E sustentar um relacionamento em que se mora com alguém era
coisa que eu só tinha me imaginado capaz num instante de loucura, quanto mais um casamento.
Tornara-me incapaz, havia muito tempo, para qualquer coisa diferente da vida solitária. A
confusão do que eu entendia ser a vida normal me impedia de me tornar muito íntimo de
alguém. Só de pensar em compartilhar um banheiro — todos aqueles cremes e loções, a
dentadura no armário — me fazia suar frio. A ideia em si continha um tipo de terror. E foi por
isso, acho, que os livros se tornaram minha compensação. Os livros me permitiram pensar que
estava me conectando a outras pessoas — uma ilusão importante quando se mora sozinho.
Ao mesmo tempo, eu não estava completamente iludido: os livros não eram o mesmo que a
experiência real. Às vezes, eu testava minha coragem e tentava me imaginar mais velho e
caindo no pior tipo de existência solitária: falta de higiene, refeições prontas, ninguém com
quem conversar, tristezas não compartilhadas, o inferno dos reality shows, visão deficiente,
dentes apodrecendo, meias malcheirosas, cueca coberta de sêmen ressecado. Quando tudo
isso se tornava descomunal, eu fazia uma incursão na direção da experiência real: calor
humano, intimidade, carne macia.
Desde muito jovem, eu adorava o cinema; não apenas os filmes, mas tudo na experiência:
as luzes se apagando, as cortinas se abrindo, a magia da tela grande. A cada duas semanas,
mais ou menos, eu visitava o cinema local, que se especializava em exibir filmes estrangeiros
assim como filmes cult, clássicos antigos e cinema experimental. Vez por outra havia uma
palestra depois do filme, geralmente proferida pelo diretor. Anos atrás, num evento desses,
Bernard Tavernier falara sobre La Vie et Rien d’Autre, seu filme que retratava um homem cuja tarefa era encontrar as identidades de soldados desconhecidos mortos depois da Primeira
Guerra Mundial, e que acaba estabelecendo um relacionamento com uma mulher à procura do
marido desaparecido. Durante a sessão de perguntas, alguém sentado duas ou três filas atrás
de mim fez uma sobre a dificuldade de equilibrar temas épicos grandiosos com histórias que
são menores e mais íntimas. Virei-me para olhar a mulher que fizera a pergunta e fiquei
surpreso ao reconhecê-la: uma das revisoras na editora que encomendava a maioria das
minhas traduções. Depois, apresentei-me e descobri que ela ainda trabalhava para a editora,
mas como autônoma. Seu nome era Amandine Pommelet. O nome da minha mãe era Amandine,
e assim eu aprendera muito cedo que ele significava aquela que deve ser amada. Sempre que
minha mãe se comportava mal, eu me lembrava disso. Disse em voz baixa: Amandine.
Naquela noite, bebemos e jantamos num pequeno restaurante próximo ao cinema. Na sessão de
cinema seguinte, nós nos encontramos novamente, e dessa vez perguntei onde ela morava e se
eu podia acompanhá-la até em casa. Era fim de novembro, e as ruas estavam lisas como
granito. Poderia ter nevado naquela noite, se não estivesse frio demais para nevar.
— Não há uma forma fácil de dizer isso — disse ela, mordendo o lábio. — Je ne vis pas
seule.
— Você tem namorado? — Eu já estava processando a resposta esperada, preparando
minha reação.
— Não, não é isso. Minha irmã mora comigo. Eu tomo conta dela.
Vim a saber que ela cuidava da irmã gêmea, que teve lesão cerebral num acidente de carro
dois anos antes. Desde então, a vida de Amandine havia se apequenado: o marido fora
embora, a maioria dos amigos a abandonou, e seu trabalho se reduzira a meio expediente. Uma
vez por mês, uma organização fornecia cuidados por um intervalo de 24 horas. Ela vivia por
esses dias, planejando-os meticulosamente e usando-os com critério. Às vezes, ela ia a
galerias de arte ou se dava ao luxo de comprar roupas novas; em outras ocasiões, ela se
sentava num parque, comia um sanduíche e via o mundo passar, só aproveitando o fato de que
podia. Seus prazeres haviam se tornado descomplicados, mas a felicidade que eles continham
não era menor. Na verdade, a felicidade talvez fosse mais aguda e doce agora. Em sua única
noite livre de cada mês, ela sempre fazia questão de sair, geralmente para ver filmes de arte.
O restante do tempo, ela ficava de plantão.
Considerando os relacionamentos, passei a pensar que aquele era mais tolerável que a
maioria. A irmã com lesão cerebral impunha limites, o que me contentava. Ela era uma
lembrança inapelável de que cada novo prazer continha a promessa do sofrimento.
De vez em quando, eu visitava o apartamento de Amandine e levava uma garrafa de vinho.
Ela assistia a uma quantidade imensa de programas televisivos. Ficava sempre ligada, mesmo
se ninguém assistisse, sempre no canal de notícias. C’est en marche pour ma soeur, dizia ela.
Era para a irmã. Mas minha teoria era de que as notícias permitiam que ela se sentisse parte
dos dramas que se desenrolavam no mundo, uma defesa contra a mesmice de sua vida.
Às vezes, eu preparava uma refeição simples para nós dois, enquanto ela arrumava a irmã
para dormir. Eu desligava a televisão e, durante o jantar, Amandine me divertia com as
histórias dos romances em que estava trabalhando, sempre com o cuidado de incluir sua
irônica crítica editorial: muitos substantivos abstratos, não havia verbos suficientes, a
importância do ponto e vírgula, a enorme estrutura conceitual necessária para sustentar um
romance. De tudo isso eu gostava.
Sua sala de estar era toda mobiliada e cheia de tapetes e almofadas, tudo muito cheio e
estufado, nenhuma linha rígida ou ângulo em lugar algum. Embora não fosse o meu estilo
preferido, fiquei atraído por ele: era algo que uma mulher podia fazer por um homem, algo que
ele mesmo não faria. Dava a sensação de sofisticação, conforto e atração. Ao longo do tempo,
porém, passou a parecer uma cela acolchoada: você tinha certeza de que não se machucaria,
mas era uma espécie de prisão do mesmo jeito.
De vez em quando, afundados nesse cenário feminino, nós nos envolvíamos no que passei
a pensar alegremente como uma travessura sans-culottes, seguida de leve gratificação. (Essa
foi uma expressão roubada de um romance inglês que parecia se especializar na linguagem
evasiva, o que se costuma chamar de fazer rodeios, encher linguiça.) Embora seja doloroso
admitir, minha experiência sexual era lamentavelmente limitada. Como acontece ao crítico de
arte amador, eu não sabia muito sobre o assunto, mas sabia bem do que gostava. E houve
algumas descobertas pelo caminho; que o sexo era uma rota precária para o autoconhecimento;
que ele era capaz de aliviar os sintomas de se sentir sem rumo sem tratar a causa subjacente; e
que era, provavelmente, melhor manter as coisas periféricas, complementares. Apenas vez por
outra eu dormia lá, embora fosse melhor que não o fizesse. O protocolo da manhã seguinte
sempre servia para afugentar o estado de espírito da noite anterior. Meu relacionamento com
Amandine não carecia de calor ou ternura humanos; no entanto, sempre pensei nele no tempo
presente. Acredito que ela também. Ela parecia esperar muito pouco de nós dois, talvez
apenas algum conforto mútuo. “Um pouco de amor é homeopático”, disse ela certa vez. “Da
mesma forma que um pouco de arsênico.” Seus olhos ficaram melancólicos. “Le semblable est
soigné par le semblable.” Os semelhantes se curam.
Quando caminhei para casa depois de me despedir de Sanderson no pub, o dia havia ficado vários tons mais escuro. Em toda parte, as luzes dos apartamentos estavam sendo ligadas. A
maioria dos centros urbanos se tornou pouco povoada (todo mundo sabe disso), mas isso não
aconteceu em Edimburgo. Pelas janelas iluminadas, eu vislumbrava cenas da vida doméstica,
coisas comuns, apenas além do alcance — criancinhas de pijamas, famílias reunidas em torno
da mesa da cozinha, uma velha senhora tocando piano —, e sentia o desamparo de algo que
não conseguia nomear.