O Tom Ausente de Azul

Jennie Erdal · Capítulo 24 de 59

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O Tom Ausente de Azul

Capítulo 23

 

Algo não estava certo quando voltei para casa. Alguém estivera lá na minha ausência. Percebi

no momento em que coloquei a chave na fechadura e abri a porta. Deve ter sido a faxineira —

esse foi meu primeiro pensamento. Mas não era terça-feira, e a sra. Bannerman, como ela

mesma disse mais de uma vez, era uma mulher de rotina rígida. Só para ter certeza, verifiquei

a privada, que sempre tinha um produto azul-escuro quando ela vinha. Mas hoje não. De

qualquer forma, a casa não tinha a aparência nem o cheiro de uma casa que acabara de ser

limpa. Era muito mais vago que isso, apenas uma sensação de algo estar diferente. Ou de que

alguém estivera lá pouco antes e fora embora.

Ao mesmo tempo, eu não confiava por inteiro nos meus sentidos, principalmente porque,

depois de um curto período, pensei que reconhecia isso como um tipo de sussurro da infância.

Mesmo agora, eu dificilmente saberia que nome dar. Intuição? Sugestão? De qualquer maneira,

sempre que isso se instala em mim, o resultado é uma suspeita de que não estou sozinho. É

uma sensação que ia e vinha durante os meus primeiros anos, embora variasse em intensidade.

Não consigo identificar exatamente quando começou nem mesmo se foi antes ou depois de

minha mãe me contar sobre os fatos e o fim de meus irmãos. A sensação retornaria algumas

vezes durante a adolescência e nos meus tempos de estudante, um vestígio misterioso de

muitos anos atrás, não exatamente me assombrando, mas me lembrando de que tudo tinha

antecedentes, que havia uma sequência infinita de eventos interligados, e que nem tudo podia

ser compreendido de forma adequada.

 

O “sussurro”, se esse é o nome para isso, levou-me de volta às minhas primeiras lembranças.

Devo dizer logo de cara que tenho um pouco de suspeita da infância, a imensa carga que se

deve suportar, e também do significado que se atribui a ela. Mas não adianta fingir que se pode escapar de seus efeitos, da mesma forma que não há dúvida de que ela fornece a textura

do pergaminho que mais tarde chamam de sua vida. É por isso que se costuma vasculhar os

primeiros anos em busca de qualquer coisa que prenuncie os espécimes adultos que as

pessoas se tornaram. Nem sempre é uma boa ideia, mas não tem jeito.

Todo mundo tem suas teorias. Uma das minhas é que três pessoas conectadas por carne e

sangue podem viver na mesma casa e não conhecer de fato uma a outra. Esse foi sem dúvida o

caso com meus pais e eu. Ocupávamos os mesmos cem metros quadrados sobre a livraria, mas

nos dedicávamos aos nossos assuntos de forma independente e não estávamos completamente

presentes nas vidas uns dos outros. O domínio do meu pai era a livraria. Dava para notar que

ele se sentia mais à vontade lá, retornando ao apartamento apenas para comer e dormir. Na

verdade, depois que a livraria se estendeu a café, no qual os clientes podiam se sentar e ler

com uma xícara de café e um croissant, ele geralmente almoçava no trabalho e apenas jantava

em casa. Meus pais eram do tipo que agiam como se falar e comer fossem atividades

absolutamente separadas e fosse um erro misturá-las. A nossa casa era diferente das outras.

Sempre que eu ia para a casa do meu amigo Jean-Claude, a cozinha lá estava viva, com

conversas barulhentas e efusiva cordialidade, e mesmo discussões eventuais, mas nossas

refeições — embora sempre fossem precedidas por uma breve prece, feita por minha mãe —

seguiam em silêncio, o qual era quebrado somente por uma série complexa de acenos de

cabeça e murmúrios que nada significariam para alguém de fora da família.

Outra teoria minha é que as crianças são instintivamente conscientes das deficiências de

seus pais, mas elas os perdoam sem esforço e muitas vezes fazem de tudo para defendê-los. É

o amor que as leva a fazer isso? Ou uma consciência básica de que a tarefa das crianças é

agradar a seus pais? Seja o que for, quando se trata de descrever a própria infância, as

palavras não são adequadas o bastante. Boa parte da infância está ligada aos sentidos, junto

com as imagens fortes que voltam em quadros congelados durante a vida, mesmo que não

façamos ideia do que ocorreu antes ou do que se deu depois. Não é possível apagar essas

imagens por completo; mesmo que queiramos, elas sempre voltam, como transparências que

pulam de uma sequência de slides, às vezes fora de ordem, às vezes fora de foco, combinadas

para formar uma espécie de filme tremido. E a forma como o filme finalizado é dividido

parece bastante aleatória — uma vez que crianças pequenas têm pouca noção de tempo e ainda

menos de cronologia.

O tanto que consigo me lembrar é que eu queria me tornar meu pai. Tinha em parte a ver

com todo mundo gostar dele, e também talvez com o fato de que ele mantinha algo de si

escondido. Eu o observava cuidadosamente, estudando seus hábitos — suas costas retas quando se levantava, o andar determinado com que caminhava, o processo complicado quando

acendia um cigarro. Com o tempo, assim pensei, eu faria aquelas coisas também, da mesma

maneira. Havia um ar de mistério no meu pai, mas também de solidez, como as caixas pesadas

que estavam empilhadas no andar de baixo da loja. Seu conhecimento de livros antigos e do

que eles continham parecia quase milagroso; ele parecia saber a resposta para qualquer

pergunta que se fizesse. Entre a clientela, ele tinha uma ótima reputação. Eles o admiravam

como fariam com um padre ou um sábio, deleitando-se em testar seu conhecimento e sua

erudição. Às vezes, suas respostas tinham algo de teatral, com os movimentos exagerados

associados à pantomima — o coçar da cabeça, o súbito lampejo de genialidade, uma rápida

subida na escada da livraria seguida por um triunfante Voilá!, enquanto retirava um livro da

prateleira mais alta. Isso às vezes era acompanhado por aplauso ou suspiros de admiração,

momento em que eu sentia orgulho. Mas, algumas vezes, havia outra coisa misturada ao

orgulho, uma espécie de incômodo por meu pai dar um espetáculo, como um chimpanzé que

atua ou um urso que dança. Num livro sobre a Índia, eu havia visto uma foto triste de um urso

que aprendera a “dançar” ao ser forçado a andar sobre brasas enquanto seu dono tocava um

instrumento chamado ektar. Imaginava que havia algo do meu pai naquele urso.

À medida que envelheci, comecei a perceber que a livraria era também um lugar para onde

as pessoas levavam seus problemas e suas questões. Havia um consolo nos livros; fuga

também. Os franceses têm uma reputação de serem intelectuais demais para que isso lhes

valha de algo, cartesianos demais para se sentirem confortáveis, reunindo-se em cafés para

falar melancolicamente sobre niilismo e existencialismo. Com certeza, tudo isso é verdade,

mas, na livraria do meu pai, há tantos anos, embora não faltasse o que se podia chamar de

aflições da vida (distintas das aflições do pensamento), também não faltava humanidade. As

pessoas levavam dele muito mais do que os títulos que compravam. E ele oferecia de forma

voluntária e discreta. Ao parecer se concentrar apenas nos livros e no que continham, meu pai

tinha um jeito de aparar ervas daninhas e extirpar problemas que nunca haviam sido

claramente revelados.

Tive a primeira suspeita de que ele era diferente dos outros homens quando um amigo da

escola disse que era uma pena que meu pai fosse um étranger. Eu não fazia ideia do que ele

queria dizer com isso. “Étranger? Ça veut dire quoi?” Meu amigo repetiu a palavra e disse

que era assim que se chamava uma pessoa que não era francesa. Ele não tinha má intenção

nisso, mas senti a dor assim mesmo, como se minha pele tivesse sido perfurada. De um modo

estranho, isso imediatamente me levou a amar meu pai ainda mais.

Em casa, eu tentava descobrir mais, mas não era fácil. Na maior parte do tempo, eu respirava os segredos domésticos. O que eles queriam dizer não era claro, mas, assim mesmo,

minhas vias aéreas entupiam. Minha mãe relutava em responder qualquer pergunta sobre o

passado, e meu pai parecia tomá-la como exemplo. Talvez o segredo fosse pegá-lo sozinho.

Às vezes, ele me levava para as casas das pessoas para recolher caixas de livros para a loja,

e, sempre que o fazia, eu lhe perguntava um pouco mais — só uma ou duas perguntas, não

tantas a ponto de deixá-lo irritado. Gradualmente, descobri que ele havia nascido numa

cidadezinha próxima ao mar, em outro país chamado la Grande Bretagne, na parte mais ao

norte conhecida como l’Écosse, que ele havia crescido falando inglês, não francês, mas que

amava tanto a França que fora morar lá. Mais tarde, contou-me que havia conhecido minha

mãe durante a guerra, enquanto estava numa missão secreta na Normandia.

Isso foi tudo o que aprendi na época — minha imaginação tratou do resto. Durante anos, eu

pegava muitos dados dos filmes de guerra (a maior parte, filmes britânicos com legendas em

francês), os velhos clássicos em preto e branco cheios de heroísmo e sacrifício pessoal.

Imagens saltavam da tela — um soldado alvejado no peito, homens seguindo por túneis para

fora de um campo de prisioneiros, submarinos e tanques, armas e máscaras de gás. De alguma

forma, elas se tornaram parte de uma história completamente diferente, um construto tanto

quanto os próprios filmes. Descobri que podia transformar meu pai em qualquer coisa: um

piloto de guerra, o único sobrevivente de um ataque inimigo, o decifrador de códigos que

salvava mil vidas. De repente, ficou fácil impressionar meus amigos na escola. Meu pai, bem,

ele lutou com as forças da França Livre, sabe?... foi parte fundamental da Resistência

Francesa... um verdadeiro maquisard. Naqueles dias, não havia limites para meu orgulho ou

para as afirmações que eu fazia sobre meu pai.